07 abril 2025
12 março 2025
China restringe liberdade religiosa (14/06/1981)
Gerardo Mello Mourão,
de Pequim
No momento em que o mundo democrático começa a abrir um crédito de confiança às balbuciantes aberturas de Pequim no sentido de melhorar o teor de liberdade do regime, o governo chinês volta, inopinadamente, aos insuportáveis tipos de intolerância religiosa dos tempos da Revolução Cultural, que os povos civilizados e os próprios chineses julgavam sepultada e revogada. É tão grosseira, tão insólita e tão irrazoável a nota data a público sexta-feira pela agência oficial "Xinhua", atribuída a um bispo da chamada "Associação Patriótica Católica Chinesa", contra a Santa Sé, que a melhor coisa que se pode fazer para não deixar mal o governo chinês, é supor que não lhe cabe responsabilidade por essa inepta e estapafúrdia declaração, que recoloca o problema da liberdade religiosa e da própria coexistência da China com os países civilizados no mesmo nível do terrível e vergonhoso período de trevas dos tempos de Lin Piao e do "Bando dos Quatro".
Há algumas semanas noticiou-se, como um acontecimento auspicioso para a própria respeitabilidade política da China, que o governo de Pequim autorizara a viagem de um venerando bispo chinês, monsenhor Dominique Deng, a Hong Kong, para tratamento de saúde. O bispo é um velho príncipe da Igreja, aureolado pelo martírio na defesa da fé e da liberdade religiosa. Era titular ordinário da Arquidiocese católica de Cantão, quando foi preso, nos anos cinquenta, por acusações semelhantes às que pesam contra outro eminente prelado da Igreja, o santo bispo de Xangai, monsenhor Gon Pin Mei, um octogenário, que apodrece no cárcere há cerca de trinta anos, em regime de incomunicabilidade, que foi torturado, publicamente humilhado, exposto à multidão em trajes menores, e condenado. Tudo isso sob o pretexto de que aconselhava os jovens de sua diocese a não se alistarem como voluntários na Guerra da Coreia, "contra os imperialistas norte-americanos". Apesar de tudo isso haver ocorrido nos dias do antigo regime, nos tempos compreensivelmente atribulados dos primeiros anos da Revolução quando os ânimos eram mais exacerbados e as coisas não haviam amadurecido, o martírio do prelado continua. Hoje a República Popular é aliada dos "bem-amados amigos americanos", e o bispo de Xangai devia mesmo ser considerado um precursor desse novo tipo de convivência com os imperialistas de ontem. Mas isto é outra história.
NA PRISÃO
A libertação do bispo de Cantão, dom Dominique Deng, em junho do ano passado, depois de 22 anos de cárcere, trouxe alguma esperança com vistas à restauração da liberdade religiosa, pelo menos no mesmo ritmo lento e gradual com que começa a ser permitido o exercício de outros direitos humanos na China, em modestas rações de permissividade. Vinte e dois anos de prisão num cárcere chinês, para um jovem, deve ser um teste espantoso de resistência física e psicológica. Era – supõe-se – uma prisão modelo. Nas celas de dois metros por dois metros e meio estão alojadas doze pessoas, e a cama é um estrado comum, sobre o qual durante a noite se estendem umas estreitas faixas de algodão "matelassé", de quarenta, talvez de trinta centímetros. Sobre cada uma delas é que dorme um prisioneiro, supondo-se que todas as celas tenham o conforto das que me foram exibidas como padrão. Durante o dia, os presos fazem o trabalho forçado em diversas oficinas, sob regime de rigoroso silêncio. Quando indaguei do diretor porque os presos não conversam entre si, referindo-me à repulsa de todos os mestres da moderna ciência penitenciária a esse tipo de condenação ao silêncio, o atencioso camarada me respondeu que eles não falam porque não querem, e porque estão conscientizados de seus deveres, sabendo que a conversa pode atrapalhar a eficiência do trabalho. E assim, Deus nos ajude. Mas isto é outra história.
O caso é que o bispo de Cantão foi solto, talvez para não morrer na cadeia. Estava com a saúde extremamente abalada. Ele mesmo diria a meu amigo Billy Sixton, correspondente do "Newsday", quando este perguntava por seus 22 anos de cárcere: "22 anos, 4 meses e 22 dias. Faço questão até desses dias, porque cada hora ali foi terrivelmente dura".
VISITA A ROMA
Uma vez libertado, dom Dominique Deng foi acolhido pelos sacerdotes e pelos fieis de sua antiga diocese, e restaurado por eles, embora arregimentados na chamada Associação Patriótica Católica Chinesa, em seu antigo sólio cantonês. As autoridades chinesas não criaram dificuldades, imaginando que o bispo se dobrara à nova situação, e se integrara, docilmente, na Igreja cismática criada pelo Estado. Foi até concedida uma licença especial a dom Dominique Deng para ir tratar-se em Hong Kong, onde os recursos hospitalares são mais efetivos do que na China. De Hong Kong, o bispo de Cantão, atendendo aos seus deveres canônicos, e ao convite pessoal do santo Padre, viajou a Roma, para a visita "ad vincula", a que são obrigados todos os ordinários diocesanos. No Vaticano, João Paulo segundo o recebeu com a emoção fraterna que se devia a um mártir da fé, e todos os jornais do mundo estamparam a fotografia histórica e comovedora da cena em que o bispo de Roma desceu do sólio para beijar a face do bispo de Cantão, marcada pela dor. As lágrimas do Papa molharam o rosto de seu irmão chinês, e o episódio histórico deste reencontro na Santa Sé reacendeu as esperanças do mundo na volta da liberdade religiosa à República Popular da China, até como um reflexo da humanização e democratização do sistema político, sob a direção de um dos estadistas mais lúcidos de nosso tempo, o sr. Deng Xiaoping.
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O "CONCÍLIO DE ROMA" DE 382 E O DECRETO FANTASMA DE DÂMASO SOBRE O CÂNON BÍBLICO
Papa Dâmaso I
O que foi exatamente o "Concílio de Roma" de 382 d.C.? E como é que ninguém ouviu falar dele antes do século XVIII?
O único registo que temos deste "Concílio" vem de um códice do século VIII, conhecido como códice de Ragyndrudis, que contém um manuscrito habitualmente intitulado como "Decretum Gelasianum". O texto completo está aqui: link.
- Os capítulos I e II são interessantes, listam as atas do suposto Concílio de Roma de 382, junto com o cânon bíblico.
- Os capítulos III-V são menos pertinentes, listam alguns decretos do Papa Gelásio I (492-496). No entanto, também a credibilidade destes decretos é duvidosa, porque o texto menciona factos que ocorreram após 496 d.C., data da morte de Gelásio (ver abaixo).
Este documento é confiável?
Ao que tudo indica este documento é uma completa fraude, por quatro razões:
1) Não existe nenhuma consciência do "Decreto de Dâmaso" ao longo da história. Existem várias figuras históricas que não estão cientes deste Decreto sobre o cânon bíblico. Isso inclui Jerónimo, que naquela época estava a produzir a sua tradução da Bíblia em Latim, conhecida como Vulgata Latina. Jerónimo negou explicitamente a canonicidade dos livros apócrifos incluídos no suposto decreto de Dâmaso e introduziu juízos depreciativos sobre estes livros que ecoariam pelos séculos seguintes. Nenhum dos Padres Latinos (para não mencionar os Padres Gregos) demonstra qualquer conhecimento de um decreto sobre o Cânon das Escrituras; nunca o referenciam, ou mesmo sugerem estar cientes da sua existência. É também óbvio que os teólogos medievais até ao tempo do Cardeal Caetano no século XVI não têm ideia da sua existência, citando o cânon do AT como Martinho Lutero faria, e não como o "Papa Dâmaso do Concílio de Roma de 382" fez.
2) Não há nenhuma evidência do Concílio. Não há registo histórico na antiguidade de qualquer Concílio realizado em Roma no ano de 382! Tão simples quanto isso. Temos histórias eclesiásticas detalhadas da Antiguidade Tardia, com descrições de concílios, sínodos e procedimentos da igreja. Não há nenhum registo de um concílio realizado em Roma em todo o século IV, sob o Papa Dâmaso ou qualquer outro. No entanto, temos registos de concílios de cidades menos significativas, como Cartago, realizados nos séculos III, IV e V.
3) A era das falsificações. No período de 500-1000 d.C., sabe-se que o Papado se envolveu numa vasta gama de falsificações documentais, para provar que era a igreja suprema (na verdade a única) em todo o mundo, que o seu bispo era o Pastor Universal e que tinha direito de governar temporalmente e conquistar reinos mundanos como bem entendesse. A existência deste documento reforça o direito do Papado em todas estas reivindicações.
4) Evidência textual de falsificação. O próprio texto mostra sinais de falsificação. Uma das melhores análises críticas foi feita por F. C. Burkitt em 1913:
Burkitt observou que:
- O texto supostamente datado de 382, contém uma citação de um livro de Santo Agostinho escrito em 416.
- A parte atribuída ao Papa Gelásio I (492-496) contém factos que ocorreram após 496.
- A existência e a data deste "Concílio de Roma" foi alegada pela primeira vez em 1794. Em outras palavras, uma falsificação criada pela primeira vez na Idade Média foi reutilizada uma segunda vez como evidência forjada, por um polemista romano do século XVIII.
Burkitt escreve:
«Todos os cinco capítulos pertencem à mesma obra original, que não é um decreto ou carta genuína de Dâmaso ou Gelásio, mas uma produção literária pseudónima da primeira metade do século VI (entre 519 e 553)»
https://www.tertullian.org/articles/burkitt_gelasianum.htm
Entretanto, na realidade paralela da apologética católica podem se ler coisas deste tipo:
“O cânon das Escrituras, Antigo e Novo Testamento, foi fixado definitivamente no Concílio de Roma em 382, sob a autoridade do Papa Dâmaso I”
Como se o bispo de Roma tivesse poder para impor às outras igrejas alguma coisa por decreto...
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SERMÃO DA SEXAGÉSIMA - Padre Antonio Vieira

Jean Francois Millet "The sower"
LUCAS 8
Sermão da Sexagésima Padre António Vieira
I
Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.
Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!
Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem oNotum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.
Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.
Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.
Fonte: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação







