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20 dezembro 2024

Por que Cristo nasceu em 25 de Dezembro e Por que Isso Importa

INTRODUÇÃO

A Igreja Católica, desde pelo menos o século II, afirmou que Cristo nasceu em 25 de dezembro. No entanto, é comumente alegado que o nosso Senhor Jesus Cristo não nasceu neste dia e que esta data foi importada do Paganismo.
Neste presente texto iremos demonstrar como Cristo nasceu em 25 Dezembro e refutar as principais acusações. Por uma questão de simplicidade, vamos colocar apenas as objeções mais usuais para a data e responder cada uma delas.

COMO DESCOBRIR A DATA DO ANIVERSÁRIO DE CRISTO?

Agora vamos estabelecer o aniversário de Cristo a partir da Escritura Sagrada em duas etapas. O primeiro passo é usar a Escritura para determinar o aniversário de São João Batista. O segundo passo é usar o aniversário João Batista como a chave para encontrar o aniversário de Cristo.
Podemos descobrir que Cristo nasceu no final de Dezembro, observando primeiro a época do ano em que Lucas descreve Zacarias no templo. Isso nos fornece a data da concepção aproximada de João Batista. A partir daí podemos seguir a cronologia que São Lucas dá, e que nos leva ao final de Dezembro.
Lucas relata que Zacarias servia na “classe de Abdias" (Lc 1, 5), que os registros bíblicos mencionam como a oitava classe entre as vinte e quatro classes sacerdotais (Ne 12, 17). Cada classe de sacerdotes servia uma semana no templo duas vezes por ano. A classe de Abdias servia durante a oitava semana e a trigésima segunda semana no ciclo anual. No entanto, quando é que o ciclo de classes começa?
Josef Heinrich Friedlieb convincentemente estabeleceu que a primeira classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a destruição de Jerusalém no nono dia do mês judaico de Av.[1] Assim, a classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a segunda semana de Av. Consequentemente, a classe sacerdotal de Abdias (A classe de Zacarias) estava, sem dúvida, servindo durante a segunda semana do mês judaico de Tishrei – a própria semana do Dia da Expiação, no décimo dia de Tishri. Em nosso calendário, o Dia da Expiação cai em qualquer dia entre 22 de Setembro e 8 de outubro.
Zacarias e Isabel conceberam João Batista imediatamente após Zacarias servir na sua classe. Isto implica que São João Batista teria sido concebido por volta do final de setembro, colocando assim o nascimento de João no final de junho do ano posterior, o que confirma a celebração da Natividade de São João Batista em 24 de junho. Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria em Lucas 1, 36, disse que Isabel já estava no sexto mês de gravidez, logo se João Batista foi concebido em setembro, seis meses depois estariam em Março, logo Maria ficou grávida de Jesus em Março, em uma gravidez normal, Março é mês 3, mais 9 meses de gravidez, vamos cair irremediavelmente em Dezembro.
O protoevangelho de Tiago do segundo século também confirma a concepção de João Batista no final de setembro uma vez que a obra descreve Zacarias como Sumo Sacerdote e entrando no Santo dos Santos, não apenas no lugar santo do altar do incenso. Este é um erro fatual porque Zacarias não era o sumo sacerdote, mas um dos principais sacerdotes. Ainda assim, o protoevangelho refere se a Zacarias como um sumo sacerdote, e este o associa com o Dia da Expiação, que desembarca no décimo dia do mês hebreu de Tishrei (aproximadamente o final do nosso setembro). Imediatamente após esta entrada ao templo e a mensagem do Arcanjo Gabriel, Zacarias e Isabel conceberam João Batista. Tendo quarenta semanas (nove meses) de gestação, isso coloca o nascimento de João Batista no final de junho e, mais uma vez confirmando a data Católica para o Nascimento de João Batista em 24 de junho.
O resto da datação é bastante simples. Vamos recapitular: Lemos que, logo após a Imaculada Virgem Maria conceber Cristo, ela foi visitar sua prima Isabel que estava grávida de seis meses de João Batista. Isso significa que João Batista era seis meses mais velho que o nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 1, 24-27, 36). Se você adicionar seis meses a 24 de junho, quando João nasceu, você tem 24-25 Dezembro como o nascimento de Cristo. Então, se você subtrair nove meses a partir de 25 de Dezembro que você tem a Anunciação em 25 de Março. Todas as datas coincidem perfeitamente. Assim, pois, se João Batista foi concebido logo após o Dia judaico da Expiação, em seguida, as datas católicas tradicionais são essencialmente corretas. O nascimento de Cristo seria por volta ou em 25 de dezembro.
Além disso, os testemunhos dos antigos revelam que os Padres da Igreja alegavam 25 de Dezembro como o aniversário de Cristo antes da conversão de Constantino e do Império Romano. O registro mais antigo desta situação é que o Papa São Telesforo (reinou 126- 137 d.C) que instituiu a tradição da Missa do Galo na véspera de Natal. Embora o Liber Pontificalis não nos dá a data do Natal, ele assume que o Papa já estava comemorando o Natal e que uma missa à meia-noite era realizada. Durante este tempo, também lemos as seguintes palavras de Teófilo (115-181 d.C), bispo católico de Cesaréia na Palestina:
Devemos comemorar o aniversário de Nosso Senhor, a cada 25 de dezembro isso deve acontecer.” (Magdeburgenses, Cent. 2. c. 6. Hospinian, De origine Festorum Chirstianorum.)
Pouco tempo depois, no século II, Santo Hipólito (170-240 AD) escreveu em uma passagem, que o nascimento de Cristo ocorreu em 25 de dezembro:
O Primeiro Advento de nosso Senhor na carne ocorreu quando Ele nasceu em Belém, era 25 de dezembro, uma quarta-feira, enquanto Augustus estava em seu quadragésimo segundo ano, que é de cinco mil e quinhentos anos desde Adão. Ele morreu no trigésimo terceiro ano, 25 de março, sexta-feira, no décimo oitavo ano de Tibério César, enquanto Rufus e Roubellion eram cônsules.” (Comentário sobre Daniel 4, 23) [2]
Observe também, na citação acima, o significado especial de 25 de Março, que marca a morte de Cristo (25 de março correspondia ao mês hebraico de Nisan 14 - a data tradicional da crucificação)  Cristo, como o homem perfeito, acreditava-se ter sido concebido e morrido no mesmo dia de 25 de março  em seu Chronicon, Santo Hipólito afirma que a Terra foi criada em 25 de março de 5500 a.C. Assim, 25 de março foi identificado pelos Padres da Igreja, como a data de criação do universo, como a data da Anunciação e Encarnação de Cristo, e também como a data da morte de Cristo, nosso Salvador.
Na Igreja síria, 25 de março ou a Festa da Anunciação era vista como uma das festas mais importantes de todo o ano. É indicado o dia em que Deus assumiu a sua residência no seio da Virgem. Na verdade, se a Anunciação e Sexta-Feira Santa entram em conflito no calendário, a Anunciação superou isso, tão importante foi o dia na tradição síria. Desnecessário será dizer que a Igreja síria preservou algumas das mais antigas tradições cristãs e tinha uma devoção doce e profunda a Maria e a Encarnação de Cristo.
25 de março foi consagrado na tradição cristã primitiva, e a partir desta data, é fácil discernir a data do nascimento de Cristo. 25 de Março (Cristo concebido pelo Espírito Santo), mais nove meses nos leva a 25 de dezembro (o nascimento de Cristo em Belém).
Santo Agostinho confirma esta tradição de 25 março como a concepção messiânica e 25 de dezembro como o Seu nascimento:
É crido que ele foi concebido no dia 25 de março, dia em que também ele sofreu; de modo que o seio da Virgem, no qual ele foi concebido, onde ninguém dos mortais foi gerado, corresponde à nova sepultura na qual ele foi enterrado, na qual ninguém havia sido posto (Jo 19,41), nem antes nem depois dele. Mas ele nasceu, segundo a tradição, em 25 de dezembro.” (Sobre a Trindade Livro 4,  Capítulo 5)
Por volta do ano 400 d.C, Santo Agostinho também observou como os donatistas cismáticos comemoravam 25 de dezembro como o nascimento de Cristo, mas que os cismáticos se recusavam a celebrar a Epifania em 6 de janeiro, uma vez que eles consideravam Epifania como uma nova festa sem uma base na Tradição Apostólica. O cisma donatista originou-se em 311 d.C o que indica que a Igreja Latina celebrava o Natal em 25 de dezembro. Qualquer que seja o caso, a celebração litúrgica do nascimento de Cristo foi comemorada em Roma em 25 de dezembro muito antes de o cristianismo se tornar legalizado e muito antes de qualquer registro mais antigo de uma festa pagã para o aniversário do Sol Invicto. Por estas razões, é razoável e com razão, que Cristo nasceu em 25 de dezembro no ano 1 a.C e que ele morreu e ressuscitou em Março do ano 33 d.C.

REFUTANDO OBJEÇÕES

Objeção I:
25 de dezembro foi escolhido para substituir o festival pagão romano de Saturnália. Saturnália era uma festa popular do inverno e assim a Igreja Católica prudentemente substituiu o Natal em seu lugar.

Reposta a Objeção I:
Na Saturnalia comemorava-se o solstício de inverno. No entanto, o solstício de inverno cai em 22 de dezembro. É verdade que as celebrações da Saturnalia começavam mais cedo por volta de 17 de dezembro e era prorrogado até 23 de dezembro. Ainda assim, as datas não coincidem.

Objeção II:
25 de dezembro foi escolhido para substituir o feriado pagão romano Natalis Solis Invicti que significa “Aniversário do Sol Invícto.”

Resposta à Objeção II:
Vamos examinar primeiro o culto do Sol Invicto. O imperador Aureliano introduziu o culto do Sol Invictus ou Sol Invicto a Roma em 274 d.C. Aureliano encontrou tração política com esse culto, porque o seu próprio nome de Aureliano deriva da palavra latina aurora denotando “nascer do sol”. Moedas revelam que chamava a si mesmo imperador Aureliano o Pontifex Solis ou Pontífice do Sol. Assim, Aureliano simplesmente acomodou um culto solar genérico e identificou o seu nome com ele no final do terceiro século depois de Cristo.
Mais importante ainda, não há nenhum registro histórico para uma celebração do Natalis Sol Invictus em 25 de dezembro antes de 354 depois de Cristo. Dentro de um manuscrito iluminado do ano de 354 d.C, há uma entrada de 25 de dezembro de leitura "N INVICTI CM XXX." Aqui N significa “natividade”. Invicti significa “do Invicto”. CM significa “circenses missus” ou “jogos ordenados.” o XXX numeral romano é igual a trinta. Assim, a inscrição significa que trinta jogos foram encomendados para a natividade do Invicto para 25 de dezembro. Note-se que a palavra “sol” não está presente. Além disso, o mesmo codex também lista “Christus natus in Betleem Iudeae” no dia de 25 de dezembro. A frase é traduzida como nascimento de Cristo em Belém da Judéia.”[3]
A data de 25 de dezembro só se tornou o “Aniversário do Sol Invicto” sob o imperador Juliano o Apóstata. Juliano, o Apóstata que tinha sido um cristão, mas que havia apostatado e retornou ao paganismo romano. A história revela que ele foi um ex-imperador cristão odioso que erigiu um feriado pagão em 25 de dezembro. Pense nisso por um momento. O que ele estava tentando substituir? Estes fatos históricos revelam que o Sol Invicto não era provavelmente uma divindade popular no Império Romano. O povo romano não precisava ser tirado de um chamado “feriado antigo”. Além disso, a tradição de uma celebração em 25 de dezembro não encontra lugar no calendário romano até depois da cristianização de Roma. O feriado do “Aniversário do Sol Invicto” era pouco tradicional e dificilmente popular. Saturnalia (mencionado acima) foi muito mais popular, tradicional e divertido. Parece, antes, que Juliano, o Apóstata tinha tentado introduzir um feriado pagão, a fim de substituir o cristão! Ou seja, ao invés do cristianismo tentar copiar uma festa pagã, foram os pagãos que tentaram substituir uma festa Cristã.

Objeção 3:
Cristo não poderia ter nascido em dezembro já que Lucas descreve pastores com seus rebanhos nas áreas vizinhas de Belém. Pastores não arrebanham durante o inverno. Assim, Cristo não nasceu no inverno.

Resposta à objeção III:
Quem faz esta objeção acha que a palestina tem um inverno tal qual a Europa. Vale lembrar que a Palestina não é a Inglaterra, Rússia, ou Alasca. Belém está situada na latitude de 31.7. Dallas, no Texas tem latitude de 32,8, e ainda é bastante confortável do lado de fora em Dezembro. Como o grande Cornelio em uma Lapide observa durante sua vida, ainda se podia ver pastores e ovelhas nos campos da Itália durante o final de dezembro, e a Itália tem maior latitude que Belém.
Podemos ver no site do accuweather, um dos mais respeitados sites de metereologia do mundo, que a temperatura média de Jerusalém no mês de Dezembro varia entre 10 e 20 ºC em todo o mês de Dezembro. Claro que estamos falando de 2015 anos de diferença, porém por projeção e sabendo que não houve uma drástica mudança climática em Jerusalém neste tempo, podemos afirmar que esta era a temperatura média que Maria e José enfrentavam quando Jesus nasceu. Em outros locais com temperatura menor que esta, várias atividades são feitas normalmente, nada impediria pastores estarem com seus rebanhos no campo, mesmo levando em conta a temperatura mínima e mesmo que houvesse neve.


Ovelhas durante a neve no campo

A Bíblia confirma plenamente a capacidade de pastores estarem nos campos, vigiando seus rebanhos em dezembro. Refere-se especificamente que Jacó vigiava rebanhos de Labão pela geada do inverno à noite (Gn 31, 40). As fotos abaixo foram tiradas em Belém no Natal de 1890 e 2006. Como pode ser visto, o clima é perfeitamente adequado para estar do lado de fora. Por isso, não há simplesmente nenhuma base para essa objeção.

Natal em Belém em 1890 


Natal em Belém em 2006



NOTAS

[1] Josef Heinrich Friedlieb’s Leben J. Christi des Erlösers. Münster, 1887, p. 312.
[2] O  “25 de Dezembro” não se encontra na NFPF tradução do protestante Philip Schaff, sobre isso ler aqui: http://www.roger-pearse.com/weblog/2010/01/12/the-text-tradition-of-hippolytus-commentary-on-daniel/
[3] The Chronography of AD 354. Part 12: Commemorations of the Martyrs. MGH Chronica Minora I (1892), pp. 71-2.

PARA CITAR

Apologistas Católicos. Por que Cristo Nasceu em 25 de Dezembro e Por que isso importa. Disponível em <http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/natal/836-por-que-cristo-nasceu-em-25-de-dezembro-e-por-que-isso-importa>. Desde 01/12/2015. 

21 agosto 2024

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA - Padre Antonio Vieira



Jean Francois Millet "The sower" 



LUCAS 8

1 E aconteceu, depois disso, que andava em todas as cidades e vilas, pregando e anunciando as boas novas[1] do Reino de Deus; e os doze iam com ele,
2 e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios;
3 e Joana, mulher de Cuza, superintendente de Herodes, e Suzana, e muitas outras que ministravam-lhe com seus bens.
4 E, ajuntando-se uma grande multidão, e vindo ter com ele gente de todas as cidades, disse por parábolas[2]:
5 Um semeador[3] saiu a semear a sua semente[4],[5], e, quando semeava, caiu alguma junto do caminho e foi pisada, e as aves[6] do céu a comeram.
6 E outra caiu sobre a rocha e, nascida, secou-se, pois que não tinha umidade.
7 E outra caiu entre espinhos, e, crescendo com ela os espinhos, a sufocaram;
8 E outra caiu em boa terra e, nascida, produziu fruto, cento por um. Dizendo ele estas coisas, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.
9 E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Que parábola é esta?
10 E ele disse: A vós vos é dado conhecer os mistérios[7] do Reino de Deus, mas aos outros, por parábolas, para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.
11 Esta é, pois, a parábola: a semente é a palavra de Deus;
12 e os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois, vem o Caluniador e tira-lhes do coração a palavra, para que não suceda que, crendo, sejam salvos.
13 e os que estão sobre a rocha, estes são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria, mas, como não têm raiz, apenas crêem por algum tempo e, no tempo da tentação, afastam-se;
14 e a que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram, e, indo por diante, são sufocados com os cuidados, as riquezas[8] e os prazeres[9] da vida[10], e não dão fruto com perfeição;
15 e a que caiu em boa terra, esses são os que, ouvindo a palavra, a conservam num coração reto e bom e dão fruto com perseverança[11].





[1] Anunciando as boas novas. (Gr. εὐαγγελίζω). Daí, a origem da palavra “evangelizar”. Verbo formado por εὖ, advérbio que significa “bom”, “bem” + ἄγγελος, “mensagem”. Assim, a palavra significa literalmente “anunciar o bem”. Há 54 ocorrências no NT. Em Lucas, temos em Lc 1.19; 2.10; 3.18; 4.18,43; 7.22; 8.1; 9.6; 16.16; 20.1.
[2] Parábolas. (Gr. παραβολή). Há 50 ocorrências no NT. Em Lucas, temos em Lc 4.23; 5.36; 6.39; 8.4,9,10,11; 12.16,41; 13.6; 14.7; 15.3; 18.1,9; 19.11; 20.9,19; 21.29.
[3] Semeador. (Gr. σπείρω). Há 52 ocorrências no NT. Em Lc, temos em Lc 8.5(2x); 12.24; 19.21,22.
[4] Semente. (Gr. σπόρος). Há 6 ocorrências no NT: Mc 4.26,27; Lc 8.5,11; 2 Co 9.10(2x).
[5] Na Vulgata o versículo começa com “exiit qui semĭnat semināre semen suum”.
[6] Aves. (Gr. πετεινόν). Há 14 ocorrências no NT: Mt 6.26; 8.20; 13.4,32; Mc 4.4,32; Lc 8.5; 9.58; 12.24; 13.19; At 10.12; 11.6; Rm 1.23; Tg 3.7.
[7] Mistérios. (Gr. μυστήριον). Há 28 ocorrências no NT: Mt 13.11; Mc 4.11; Lc 8.10; Rm 11.25; 16.25; 1 Co 2.1,7; 4.1; 13.2; 14.2; 15.51; Ef 1.9; 3.3,4,9; 5.32; 6.19; Cl 1.26,27; 2.2; 4.3; 2 Ts 2.7; 1 Tm 3.9,16; Ap 10.7; 17.5,7.
[8] Riquezas. (Gr. πλοῦτος). Riqueza, fortuna, possessões, abundância de bens. Há 22 ocorrências no NT: Mt 13.22; Mc 4.19; Lc 8.14; Rm 2.4; 9.23; 11.12(2x),33; 2 Co 8.2; Ef 1.7,18; 2.7; 3.8,16; Fp 4.19; Cl 1.27; 2.2; 1 Tm 6.17; Hb 11.26; Tg 5.2; Ap 5.12; 18.17.
[9] Prazeres. (Gr. ἡδονή). Há 5 ocorrências no NT: Lc 8.14; Tt 3.3; Tg 4.1,3; 2Pe 2.13. Na LXX, duas ocorrências: Nm 11.8 (traduzindo ṭa‛am, sabor); Pv 17.1 (traduzindo shalvâh, tranqüilidade).
[10] Vida. (Gr. βίος). Vida, modo de viver, existência, patrimônio, bens. Há 10 ocorrências no NT: Mc 12.44 (bens); Lc 8.14(vida),43(bens); 15.12(bens),30(bens); 21.4(bens); 1 Tm 2.2(“vida”, num sinônimo com ζωή); 2 Tm 2.4 (idem a 1 Tm 2.2); 1 Jo 2.16(vida); 3.17(bens). Em Lc 15.12, pode-se traduzir βίος por “bens”. Veja ζωή – Lc 10.25, nota.
[11] Perseverança. (Gr. ὑπομονή). “pertinácia, constância, perseverança, firmeza, obstinação, persistência, teimosia, tenacidade”. Há 32 ocorrências no NT: Lc 8.15; 21.19; Rm 2.7; 5.3,4; 8.25; 15.4,5; 2 Co 1.6; 6.4; 12.12; Cl 1.11; 1 Ts 1.3; 2 Ts 1.4; 3.5; 1 Tm 6.11; 2 Tm 3.10; Tt 2.2; Hb 10.36; 12.1; Tg 1.3,4; 5.11; 2 Pe 1.6(2x); Ap 1.9; 2.2,3,19; 3.10; 13.10; 14.12. 


Sermão da Sexagésima Padre António Vieira
Pregado na Capela Real, no ano de 1655

Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11.

I
E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.
Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens que professam pregar e: propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: «Uma vez que iam, não tornavam». As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto: mas esse espírito tinha impulsos para os levar,não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair. Assim arguis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro géneros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no: Conculcatum estAb hominibus (diz a Glossa).

Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!

Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem oNotum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.




Fonte: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação

22 maio 2024

Demonstrasão da necesidade da abolisão do celibato (Pe. Diogo Antonio Feijó, 1828)



Demonstrasão da necesidade da abolisão do celibato clerical pela Asemblea Geral do Brazil, e da sua verdadeira e legitima competencia nesta materia.








29 janeiro 2024

I see the pope his sacred trust betray


Canção popular do século xiv mostra o sentimento popular em relação a todos os tipos de sacerdotes católicos

I see the pope his sacred trust betray
For while the rich his grace can gain alway,
        His favours from the poor are ye withholden.
He strives to gather wealth as best he may,
Foreing Christ’s people blindy to obey,
        So that he may repose in garments golden…

No better is each honoured cardinal.
From early morning’s dawn to evening’s fall
Their time is passed in eagerly coutriving
        To drive some bargain foul with each and all…

Our bishops, too, are plunged in similar sin,
For pictisessly they flay the very skin
        From all their priests who chance to have fat livings.
For gold their seal official you can win.
To any writ, no matter what’s therein.
        Sure God alone can make them stop their thievings…

Then as for all the priests and minor clerks,
There are, God knows, too many of them whose works
And daily life belie their teaching…

For, learned or ignorant, they’re ever bent
To make a traffic of each sacrament
        The mass’s holy sacrifice included…

Tis true lhe monks and friars make ample show
Of rules austere which they all undergo,
        But this vainest is of all pretences.
In sooth, they full twice as wel we know,
As e’er they did at hoje, desquite their vow
        And all their mock parade of abstinences…



(Leo Huberman, História da Riqueza do Homem, pp. 72-73, LTC: Rio de Janeiro, 1986, 21ª edição. Tradução de Waltensir Dutra – citando J. H. Robinson)



Vejo o papa seu sagrado compromisso trair / pois enquanto os ricos sua graça ganham sempre / seus favores aos pobres são negados. / Procura reunir a maior riqueza possível / obrigando os cristãos a obedecer cegamente, / para que ele possa deitar-se entre roupas de ouro... / Nem são melhores os honrados cardeais, / que desde a manhã cedo até a noite fechada / passam o tempo empenhados em imaginar / um modo de enganar a toda gente... / Nossos bispos também estão mergulhados em pecado semelhante, pois impiedosamente arrancam a própria pele / de todos os padres que por acaso vivam bem. / Por ouro podemos conseguir seu selo ficial / a qualquer ordem, não importa o que diga. / Sem dúvida somente Deus pode pôr fim a suas roubalheiras... / Também entre todos os padres e clérigos menores / há, sabe Deus, grande número cujas obras e vida diária / contrariam os ensinamentos que pregam quotidianamente... / Pois, cultos ou ignorantes, estão sempre dispostos / a fazer comércio de todo sacramento, / inclusive da própria missa sagrada... / É certo que monges e frades exibem com estardalhaço / as regras austeras a que estão sujeitos. / Esse, porém, é o mais vão de todos os fingimentos. / Na verdade, vivem duas vezes melhor do que sabemos, / como fazem sempre em casa, apesar do voto / e de toda a sua falsa exibição de abstinência...

01 junho 2022

Pederastia




Carlos Nougué
Estamos, em nosso Curso de História da Filosofia “Do Impulso Grego ao Abismo Moderno”, na altura de Sócrates, o grego que abriu a estrada real da filosofia. E, entre as muitas inverdades que se dizem a respeito desse gigante do pensamento, está a de que partilhava o gosto e a prática do chamado “amor dório”, ou seja, o homossexual masculino, que partindo de Esparta acabou por conquistar boa parte da Hélade. Não conquistou toda a Hélade (haja vista, por exemplo, a rejeição ao homossexualismo na Jônia); nem todas as mentes (haja vista, por exemplo, Platão, que nas Leis o diz antinatural ou contra naturam; ou o historiador Xenofonte, que em seu Banquete tece um veemente elogio do amor conjugal, masculino-feminino; ou Aristóteles, que na Política afirma que devia ser expurgado da melhor pólis); nem perdurou de modo majoritário por muito tempo, declinando ainda em vida de Platão. Mas arraigou-se profundamente ali, e em especial em Atenas, e para disso nos certificarmos basta ler, no Banquete platônico, o discurso de Fedro, o de Pausânias, o de Aristófanes, etc., nos quais não só se defende ardorosamente o amor dório, como se lançam farpas agudas contra o amor masculino-feminino, cujos praticantes seriam ou covardes, ou adúlteros, etc.

Mais, porém, que o amor dório em geral, deitou raízes nefastas no solo grego ― e particularmente em Atenas ― uma de suas manifestações, a pederastia (do grego paiderastía,as, “prática sexual de um homem maduro com um efebo ou rapazinho entre a puberdade e a adolescência”). Em outras palavras: o que hoje pode perfeitamente chamar-se “pedofilia homossexual masculina”. Pois é disto mesmo que dizem ter sido Sócrates aficionado, o que se confirmaria por sua relação com o belo efebo Alcibíades, e por sua confessa mestria na “Arte do Amor”, exercida justamente com jovenzinhos. Como teremos oportunidade de dizer em nosso Curso, nem aquela relação nem o exercício desta Arte alicerçam tal suposição, o que, por sua vez, é plenamente confirmado por ninguém menos que o mesmo Alcibíades, que no Banquete platônico narra sua própria tentativa infrutífera de fazer Sócrates ceder a suas investidas amorosas. O que era tal Arte para Sócrates, vê-lo-emos, como dito, no Curso; o que porém agora temos de dizer é que o mundo de hoje que quer ver em Sócrates um homossexual com todo o direito à pederastia é o mesmíssimo mundo que, em contrapartida, não dá semelhante “direito” aos sacerdotes da Igreja.

Nos dias que transcorrem diante de nossos pobres olhos, a virulência com que são atacados os sacerdotes acusados de pedofilia (insista-se: de pedofilia homossexual masculina) é inversamente proporcional ao gozo e gáudio com que se louva a pederastia na Grécia antiga. Mas pergunte-se a esses campeões da autocontradição: Não são vocês a favor da liberdade para todas as “orientações sexuais”? Não são vocês radicalmente contra a censura aos meios de comunicação e às artes? Não são vocês incisivamente a favor de passeatas gays e de amores livres diante dos olhos de quem quer que seja, incluídos os efebos? E não são vocês contra o celibato sacerdotal? Então por que o escândalo com os casos de pedofilia sacerdotal apontados, raivosamente, por vocês mesmos (vários deles, aliás, apenas presumidos, não comprovados)?

É, pois, patente que grande parte dos que saem em defesa da Igreja ante aquelas acusações aduz verdades em sua argumentação; e entre essas verdades está a de que muitos dos que acusam as autoridades eclesiásticas de conivência com os pedófilos são, em verdade, ateus militantes e adversários coléricos de Cristo, de sua Igreja, da lei natural, da moral evangélica; e está também a de que não se pode punir antes de averiguar e julgar canonicamente. Outros dados apresentados em defesa da Igreja, como a acusação de que grupos homossexuais planejaram e praticam uma infiltração metódica nos seminários, são possíveis, dir-se-ia em alguns casos prováveis, mas ainda não indubitavelmente certos.

Escrevo porém este brevíssimo artigo, sobretudo, para dizer outra coisa: para dizer precisamente que, apesar de quanto se disse acima, o fato é que não podemos, uma vez mais, enfiar a cabeça na terra qual avestruz ou tentar tapar o sol com a peneira. A que me refiro? Ao fato evidente, que transcorre à luz do dia diante de nossos pobres olhos, de que em boa parte do mundo é imensa e abjeta a corrupção moral do clero. Sem dúvida alguma, a Igreja já padeceu em outras épocas graves crises morais, como o chamado nicolaísmo ou concubinato dos padres (com mulheres, é claro), no século IX ― crise a que, porém, se seguiu a tão vigorosa reação católica do século X ao XIII. Mas a Igreja padeceu aquelas crises pelas fraquezas dos homens, ainda os da Hierarquia, diante da guerra que sempre lhe moveram e movem seus inimigos: o mundo, a carne e o demônio. Hoje, todavia, padece-a não só por isso, mas por algo muito mais sério: por um câncer. Por uma degeneração interna, e não propriamente por uma invasão. E esse câncer, esse processo degenerativo tem nome: o humanismo católico (de que são manifestações o liberalismo católico, o modernismo, a Nova Teologia, etc.); e sua metástase partiu de um órgão preciso: o Concílio Vaticano II.

O processo de putrefação é patente: desolação doutrinal (incluída a iníqua, conquanto sutil, alteração da hierarquia dos fins do matrimônio) > por um lado, afrouxamento moral > por outro, renúncia ao caráter monárquico da Igreja e consequente perda de autoridade efetiva pelo papado. Por que toda e qualquer pessoa, sem o socorro da Graça, sem a doutrina perene e imutável dada pelo Mestre dos mestres, sem a submissão mais estrita ao Rei dos reis e seus sacerdotes, é capaz de incorrer nos mais graves pecados e cometer as mais terríveis abjeções, e estaria isenta disto a Hierarquia eclesiástica?

A crise é mais que grave, e a Igreja vive a sua Sexta-feira da Paixão. Hoje não podemos senão fazer, como já dito em outro lugar, o nosso aprendizado de solidão e rogar a Deus que nos dê virtudes heróicas, sem ceder em nem um iota quanto à doutrina ― ainda que o ouropel oferecido brilhe mais que o sol que nos ofusca.

Em tempo: Como católicos que somos, não podemos senão nos solidarizar com o Papa ante os ataques virulentos e medonhos dos inimigos de Cristo e de sua Esposa, e ante as abjeções internas de que com razão tanto se envergonha. Mas precisamente porque somos católicos e amamos a Igreja e o Vigário de Cristo é que insistimos: não terá força o Papa para combater não só os inimigos externos, mas as abjeções internas, enquanto a Hierarquia for caudatária da doutrina deletéria do Concílio Vaticano II, e enquanto não se restaurar a estrutura monárquica da Igreja e, pois, a mesma e efetiva autoridade papal. 

Fonte: Contra Impugnantes

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Código Penal Militar:

Pederastia ou outro ato de libidinagem
         Art. 235. Praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração militar:

        Pena - detenção, de seis meses a um ano.


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Na minha obra "Catálogo de Vícios", ainda não publicada, pude selecionar o que segue:


1.      EFEMINADOS à μαλακός [malakós]. Um adjetivo significando mole, macio, fraco, delicado à vestes macias, luxuosas, delicadas (Mt 11.8; Lc 7.25). O malakós é um indivíduo fraco como mulher, moleirão à sentido figurativo para efeminado. Μαλακία (Mt 4.23 – “fraqueza”).  Malaka (Mt 11.8); malakaios (Mt 11.8; Lc 7.25); malakoi (1 Co 6.9). República 3.387c; 3.398e (harmonias lassas); 3.410d (quem se dedica só à música torna-se mais mole do que desejaria a decência); 3.410e; 3.411a; 7.524a(3x); 8.556c (Platão); Medeia 1404 (Eurípides); Odisséia 19.234: “tão delicado era o todo, assim como do Sol o alto brilho.”(Homero); Os Cavaleiros 785 (Aristófanes). Na Vulgata, molles. Retórica 1.10.15 [1368b] (Aristóteles) = “Os motivos pelos quais premeditadamente se causa dano e procede mal em violação da lei são a maldade e a intemperança; pois, se algumas pessoas têm um ou mais vícios, naquilo em que são viciosas são também injustas; por exemplo, o avarento em relação ao dinheiro, o licencioso em relação aos prazeres do corpo, o efeminado em relação à indolência, o covarde em relação aos perigos...”. A Versão Reina-Valera (em espanhol) traz afeminados. “Devassos” (ARC, IBB, ACF, TEB), “impudicos” (BJ). A versão francesa Louis Segond traz efféminés.  Em Retórica 3.16.1 [1416b] (Aristóteles) está escrito: “E, contudo, isto é como aquela do padeiro que perguntava se deveria fazer a massa de consistência dura ou macia...” A palavra “macia” aqui é μαλακηv (malaken). Em Retórica 3.7.1 [1408b] (Aristóteles) está escrito: “Por conseguinte, se disserem palavras suaves com dureza e palavras duras com suavidade, o discurso não se torna persuasivo.” Uso da palavra suaves [μαλακα] e a palavra suavidade [μαλακός]. Em Retórica 2.17.1 [1391a] (Aristóteles) está escrito: “... assim, os seus atos são moderados, uma vez que a dignidade é uma gravidade polida e distinta”. Para moderados, temos [malakh]. Em Retórica 2.22.1 [1396b] (Aristóteles) está escrito: “... quer os seus silogismos sejam mais rigorosos ou mais brandos”. Para brandos, temos [malakw/].


2.      SODOMITAS à a)rsenokoi&thj [arsenokoítes]. Na literatura grega, só encontrado em 1 Co 6.9 e 1 Tm 1.10. “Abusadores de homens”. São os que se deitam com homens, homossexuais. Para “sodomitas”, ver Gn 13.13; 19.5; Jd 7. Na Lei, temos Lv 18.22; 20.13. A palavra é formada por ἄῤῥην [árren], αρσην [arsen] = (macho) + koi&th [koíte] = cama; conceber; lugar de coabitação, de relacionamento sexual (Rm 13.13 à desonestidades-ARC, impudicícias-ARA, imoralidades-NTHL, orgias-CNBB; Lc 11.7 à cama; Rm 9.10 à concebeu; Hb 13.4 à leito). Ver κοιτών [koitón] em At 12.20 (camareiro). A palavra poderia ser traduzida também por “homossexual” ou “pederasta” (dado que o arsen pode ser um menino).

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Platão, no Simpósio (em português, O Banquete), escreveu:

[181ξ] τε οὔσης πολὺ  τῆς ἑτέραςκαὶ μετεχούσης ἐν τῇ γενέσει καὶ θήλεος καὶἄρρενος δὲ τῆς Οὐρανίας πρῶτον μὲν οὐ μετεχούσης θήλεος ἀλλ᾽ ἄρρενοςμόνονκαὶ ἔστιν οὗτος  τῶν παίδων ἔρωςἔπειτα πρεσβυτέραςὕβρεωςἀμοίρουὅθεν δὴ ἐπὶ τὸ ἄρρεν τρέπονται οἱ ἐκ τούτου τοῦ ἔρωτος ἔπιπνοιτὸφύσει ἐρρωμενέστερον καὶ νοῦν μᾶλλον ἔχον ἀγαπῶντεςκαί τις ἂν γνοίη καὶἐν αὐτῇ τῇ παιδεραστίᾳ τοὺς εἰλικρινῶς.

[181c] for this Love proceeds from the goddess who is far the younger of the two, and who in her origin partakes of both female and male. But the other Love springs from the Heavenly goddess who, firstly, partakes not of the female but only of the male; and secondly, is the elder, untinged with wantonness: wherefore those who are inspired by this Love betake them to the male, in fondness for what has the robuster nature and a larger share of mind. Even in the passion for boys you may note the way of those who are under the single incitement of this Love:

[181c] Trata-se com efeito do amor proveniente da deusa que é mais jovem que a outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho. O outro porém é o da Urânia, que primeiramente não participa da fêmea mas só do macho - e é este o amor aos jovens - e depois é a mais velha, isenta de violência; daí então é que se voltam ao que é másculo os inspirados deste amor, afeiçoando-se ao que é de natureza mais forte e que tem mais inteligência. E ainda, no próprio amor aos jovens poder-se-iam reconhecer os que estão movidos exclusivamente por esse tipo de amor;

Pegue O Banquete (Symposium) AQUI (em português) ou AQUI (em grego) ou ainda AQUI (em inglês). Se quiser em divisão por versos, procure o site Perseus (clique na palavra).
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