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07 junho 2022

Agora só os doentes usam máscara


SÁBADO, 23 DE ABRIL DE 2022


 Alberto Gonçalves para o Observadorvia OTambosi:

Nos últimos dias, surgiram por aí diversos vídeos ilustrativos do momento em que, durante os voos, as companhias aéreas americanas anunciaram o fim das máscaras no interior dos aviões. São testemunhos de alegria, inequívoca por parte do pessoal de bordo e, ao que me pareceu, da maioria dos passageiros. Suspeito que a alegria é precoce e, certamente, desajustada. Por um lado, aquela gente agradece a devolução de uma liberdade que, com péssimos modos, lhe fora retirada. Por outro, nem sequer foram os mandantes da imposição a retirá-la, e sim uma juíza na Flórida que decretou ilegal a imposição. O governo federal, aliás, já anunciou que tentará impugnar judicialmente tamanha libertinagem. Uma representante do sr. Biden explicou que é importante o CDC (a DGS de lá, só um nadinha mais composta) não abdicar do poder de despejar proibições em cima da ralé. E vários “especialistas” (tão ridículos quanto os de cá) esclareceram que é importante aguardar – adivinharam – mais duas semanas, as mesmas que se aguardam há dois anos.

Poder e irracionalidade, tragédia e comédia. Cito o exemplo dos EUA porque é dali que têm saído as directivas a cumprir em matéria de Covid, que depois aplicamos com superior zelo e incomparável consenso. A cabecinha do sinistro dr. Fauci, que em jovem alertava para o contágio do HIV pelo ar e em velho garantia que a vacina impediria a infecção pelo coronavírus, é o modelo de quase todas as políticas ocidentais de “combate” à Covid. Nenhuma das políticas resultou, o que não abalou as convicções de quem manda e de quem obedece. Não fosse a evolução natural do vírus, a imunidade natural e, admito, a relativa eficácia das vacinas na prevenção de doenças graves, estaríamos ainda em Abril de 2020. Cheiinhos de medo, muitos cidadãos permanecem em Abril de 2020. Inchados com prepotência, muitos responsáveis fingem permanecer em Abril de 2020.

Não estamos em Abril de 2020. A separar-nos dessa data há um imenso cemitério, onde jazem as vítimas directas da Covid (que as “medidas” não salvaram), as vítimas de doenças graves (que a histeria condenou), incontáveis negócios (que a irresponsabilidade arruinou) e, em vala comum e decomposição avançada, as sucessivas “estratégias” dos governos para travar em vão o bicho. Dos confinamentos à abolição da venda de livros, dos jardins vedados à vacinação de criancinhas, as “estratégias” caíram uma a uma, sem um pedido de desculpas ou o reconhecimento dos erros. Descontadas certas metástases residuais, nos lugares particularmente bárbaros sobrou a máscara.

Tinha de sobrar qualquer coisa. A máscara é o derradeiro símbolo, símbolo da “pandemia” e da tentativa de respectiva perpetuação (já notaram o amalucado gozo com que alguns dizem “a pandemia ainda não acabou”?). As vacinas, que de repente dividiram a humanidade entre devotos e hereges, perderam estatuto tão depressa quanto perdem validade: a lengalenga de que a vacinação nos devolveria a uma vida normal sumiu quando sumiram as tendas de campanha. Por razões sortidas, todas deprimentes, a normalidade não era desejável. A anormalidade prosseguiu através do farrapo na cara, afinal a melhor maneira de anunciar a persistência da Covid, de legitimar os desastres anteriores e de permitir que se continuasse a invocar a “ciência”.

Nunca a ciência, a autêntica, se vira assim pervertida e reduzida a uma palavra vazia para justificar o brutal desprezo pela realidade. Descemos a tal estádio de crendice que se um nutricionista jurar que é vegetariano, ninguém ousará reparar que ele despacha uma posta à mirandesa. O que nos impingiram ao longo destes 25 meses não tem nada de científico: é da ordem do misticismo, da feitiçaria, do pensamento mágico, do fervor religioso ou, pior, da política. Esqueçam, por favor, as conspirações: o vírus chinês constituiu apenas o pretexto ideal para governantes sem escrúpulos subjugarem de vez sociedades infantilizadas, que subitamente se descobriram mortais. Povos apavorados e dependentes tendem a conceder rédea solta ao Estado a troco de uma protecção imaginária. A máscara, um farrapinho tonto, é a bandeira dessa relação primitiva e perigosa.

Não discuto a função profiláctica da máscara, ao que constava somente destinada à protecção de terceiros. Limito-me a citar o citado dr. Fauci, a 8 de Março de 2020: “Não há motivo para usar máscara. No meio de uma epidemia, a máscara pode dar conforto, mas não protege adequadamente” (exactamente duas semanas decorridas – sempre as duas semanas –, a dra. Graça cometeu as famosas declarações acerca de as máscaras conferirem “uma falsa sensação de segurança”). Também não discuto a função profiláctica das leis que decretam a obrigatoriedade da máscara: inúmeros exemplos e comparações provam que é nula. O problema da máscara é mais fundo: se talvez não anule microorganismos, anula de certeza o portador.

Uma pessoa sem rosto, ou de rosto coberto, não é uma pessoa inteira. Não é à toa que na Antiguidade Clássica, leia-se de 2019 para trás, era impossível transpor o check-in do aeroporto com um simples boné. O rosto identifica-nos, distingue-nos, responsabiliza-nos, liga-nos ao próximo, humaniza-nos em suma. Agora que a grotesca obrigação do açaime terminou ou, em lugarejos atrasados, se atenuou, é agradável ver a satisfação dos que regressam à liberdade. E assustam-me os que lhe são indiferentes.

Claro que, como sempre deveria ter sido, cada um usa máscara (ou pendura um regador ao pescoço) se quiser. Mas os que, sem riscos particulares e após tantos abusos e fraudes, a querem usar e o proclamam com orgulho estão a exibir uma submissão que convida múltiplas desgraças, bem maiores que a Covid. Ladrões à parte, dantes só usava máscara quem estava doente. Voltou a ser o caso. “Chalupas”, parece que é o termo.



07 dezembro 2015

EUA: Porte de armas cresce 178% em 7 anos; criminalidade despenca

"Mais permissões [para porte de armas] significa que está ficando mais difícil para os criminosos atacarem as vítimas".

De 2007 até o presente momento, o número de americanos com licença para portar armas cresceu 178% (fonte, página 9).
Só no ano passado, foram emitidas mais de 1,7 milhão de novas licenças, um crescimento de 15,4% num único ano — o maior já registrado —, totalizando 12,8 milhões de autorizações de porte de armas (fonte, página 6).
Essa estatística despertou a preocupação de diversas organizações desarmamentistas, que temiam que as armas elevassem as taxas de homicídio no país.
Mas o que os dados recentes revelaram foi justamente o contrário: ao mesmo tempo em que o número de cidadãos armados cresceu, a taxa de crimes violentos despencou no país inteiro.
Segundo estatísticas oficiais do governo, citadas neste estudo do Centro de Pesquisa para a Prevenção de Crimes, a taxa de crimes violentos caiu 25% no período e a taxa de homicídios por 100 mil habitantes saiu dos 5,6 para os 4,2, apesar do crescimento massivo do porte de armas. Os números são os mais baixos desde 1957, quando a taxa de homicídios atingiu 4,0 por 100 mil habitantes.
Um dado interessante encontrado pelos pesquisadores foi o de que as mulheres estão se armando mais do que os homens: entre 2007 e 2014, o número de mulheres com porte de arma cresceu 270%, enquanto entre os homens o número foi elevado em 156% (fonte, página 10).
Além das mulheres, a população negra também está se armando mais. Uma análise, citada no estudo, revelou que entre 2012 e 2014, o grupo que mais mudou de opinião em relação aos benefícios do armamento foram os negros (fonte, página 14).
De acordo com a pesquisa, conduzida pelo Pew Research Center, a proporção de afro-americanos que responderam que armas contribuem mais para a autodefesa do que para crimes saltou dos 29% para 54% — um crescimento de 86% —, no sentido contrário do estereótipo de que armamentistas são, em geral, brancos. Além de terem se tornado mais favoráveis, a população negra também tirou mais licenças para porte de armas (fonte, página 10).
"Mais permissões [para porte de armas] significa que está ficando mais difícil para os criminosos atacarem as vítimas", afirma John Lott, autor do estudo. "A composição de pessoas que estão ganhando as novas permissões também está mudando. Estamos vendo um grande aumento entre minorias e mulheres tirando essa autorização. Ter esses grupos mais armados contribui muito para reduzir a criminalidade."
Para Lott, além da visão da população sobre o armamento ter mudado, outro fator que contribuiu para o crescimento do número de licenças para porte de armas foi a redução do custo dessas licenças, que varia de estado para estado.
Como destaca o economista, os estados que reduziram o custo dessa autorização — que varia de US$ 10 a US$ 450 (fonte, páginas 5 e 6) — ou ainda os que já praticavam preços mais baixos, tiveram maiores crescimentos no número de cidadãos negros registrando o porte.
Atualmente, 5,2% da população adulta possui licença para portar armas nos Estados Unidos (fonte, página 4). Apesar disso, em 5 estados (Alabama, Dakota do Sul, Indiana, Pensilvânia e Tennessee), a taxa de porte de armas por adulto está acima dos 10% (fonte, página 5).
O gráfico abaixo (fonte, página 5) mostra a evolução do porte de armas nos EUA em porcentagem da população adulta (eixo Y, linha contínua) e a evolução da taxa de homicídios por 100 mil habitantes (também eixo Y, pontos azuis):

Em contraste, no Brasil, apenas 0,00185% da população possui autorização para portar armas, segundo o Instituto Defesa— aqui, a UF com a maior taxa de porte de armas é a do Distrito Federal, que tem 7,2 vezes mais autorizações para porte que a média nacional.
O estudo ainda destaca que o policiamento não pode ser tomado como responsável pela queda na criminalidade: mesmo após isolar dados de policiamento per capita e de prisões, o crescimento do número de licenças para porte de armas continuou associado com a redução no número de crimes violentos e homicídios. (fonte, páginas 4 e 19)
Apesar do alto crescimento nos últimos anos, o número de licenças para porte de armas emitidas nos Estados Unidos pode diminuir nas próximas décadas, mas por uma outra razão: atualmente, em 6 estados, o ato de portar armas visíveis em público não requer nenhuma autorização. Apesar do número ainda pequeno, a cada ano mais estados se juntam a esse grupo — em 2010, 3 estados permitiam o porte sem autorização.
Maine, que no início deste mês anunciou a nova lei, foi o último estado a entrar para a lista. Com a mudança na legislação, que entra em vigor em outubro, o estado se junta ao grupo de estados mais liberais em relação ao porte de armas, ao lado de Alasca, Arizona, Wyoming, Kansas e Vermont. Além destes, outros cinco estados também possuem uma legislação similar em relação ao porte sem necessidade de autorização, embora apenas para casos especiais.
O mapa abaixo mostra a distribuição de assassinatos em massa praticados com armas de fogo (mass shootings) em cada estado americano:
Tiroteios em massa desde 2012.
Fonte: Vox.com
Já este mapa mostra o número de armas de fogo por habitante.

Uma imagem vale mais que mil palavras. Os estados costeiros, por exemplo, possuem uma taxa de armas de fogo bem baixa e leis bem restritas com o porte e a posse desses artefatos. Nada disso impediu que 486 inocentes perdessem a vida entre 2000 e 2013 em assassinatos em massa praticados com armas de fogo (mass shootings) exatamente nestes estados.
Por fim, e ironicamente, o controle de armas tem um histórico racista. Nos Estados Unidos, foi usada por diversos estados como forma de evitar que os escravos revidassem os abusos de seus senhores. O medo era tão grande que até cães chegaram a ser considerados uma "arma" e sua posse por negros, proibida.

Publicado no site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

Leônidas Villeneuve é colunista do site Spotniks.




17 janeiro 2015

O real significado da “separação entre a Igreja e o Estado”

Bill Federer revela a verdade por trás das palavras mais distorcidas de Thomas Jefferson.



Em 1 de janeiro de 1802, o povo de Cheshire, Massachusetts, enviou um bloco gigante de queijo ao presidente Thomas Jefferson, sendo apresentado pelo famoso pastor batista, John Leland.
John Leland foi então convidado a pregar para o presidente e o Congresso no Capitólio dos Estados Unidos. O tema de sua palestra foi "a separação entre a Igreja e o Estado".
Os batistas tinham sido particularmente perseguidos na Virgínia colonial, como Francis L. Hawks escreveu em História Eclesiástica (1836): "Nenhum dissidente na Virginia experimentou por um tempo tratamento mais severo do que os batistas. Eles eram espancados e presos… A crueldade forçava a criatividade a inventar novas formas de punição e aborrecimento".
Assim, muitos pastores batistas eram perseguidos e seus cultos interrompidos de modo que James Madison introduziu uma lei na Câmara Legislativa da Virginia, em 31 de outubro de 1785, intitulada "Uma Lei para Punir Perturbadores de Culto Religioso", que foi aprovada em 1789.
A Virginia Colonial teve uma lei da Igreja da Inglaterra, ou da "Igreja Anglicana" a partir de 1606 até 1786. A lei significava todos eram obrigados a ser membros dessa igreja e todos tinham de pagar impostos para sustentá-la e ninguém poderia ocupar cargos públicos, a menos que fosse um de seus membros.
Ao longo do tempo, a aplicação frouxa da lei permitiu que grupos religiosos "dissidentes" entrassem na Virginia, sendo os primeiros os presbiterianos e quakers, seguidos pelos luteranos alemães, os menonitas e a Irmandade da Morávia e, então finalmente, os batistas.
John Leland, que considerou concorrer para o Congresso, queria uma alteração na nova Constituição dos Estados Unidos que protegesse a liberdade religiosa.
Leland teria se encontrado com James Madison perto de Orange, Virginia, e com a promessa de Madison de introduzir o que viria a ser a Primeira Emenda, Leland persuadiu aos batistas para o apoiarem.
John Leland escreveu nos inalienáveis Direitos de Consciência de 1791, que eles queriam não apenas tolerância, mas a igualdade: "Todo homem tem de dar contas de si mesmo a Deus e, portanto, cada um deve ter a liberdade de servir a Deus de uma forma que ele possa conciliar melhor com a sua consciência. Se o governo puder responder por indivíduos no dia do juízo, que os homens possam ser controlados por ele em questões religiosas; de outro modo, que os homens sejam livres".
Seguindo o Primeiro Grande Despertamento de Avivamento de George Whitefield, um Segundo Grande Despertamento de Avivamento ocorreu no condado de Albemarle, de Jefferson.
Cultos de avivamento de batistas, presbiterianos e metodistas eram realizados. Até a filha de Jefferson, Mary, participou de um avivamento batista pregado por Lorenzo Dow.
Dolly Madison, esposa de James Madison, informou que, em 1774, Jefferson jantou em Monticello, juntamente um outro convidado, o pastor batista Andrew Tribble.
Depois de questionar o Pastor Tribble sobre como um governo da igreja batista funcionava, Jefferson comentou: "(Essa) era a única forma de democracia pura que existe no mundo… Seria o melhor plano de governo para as colônias americanas".
Durante a Revolução, os pastores anglicanos haviam se aliado ao rei George III, que era o chefe da Igreja Anglicana. Como resultado, os paroquianos patrióticos começaram a sair das igrejas estatais e a entrar nas igrejas "dissidentes".
Embora Jefferson tivesse sido batizado, casado e sepultado pela Igreja Anglicana, conforme registrado em sua Bíblia de família, ele começou uma espécie de igreja dissidente em 1777, chamada de Igreja Reformada Calvinista.
Jefferson redigiu os estatutos da Igreja, que se reunia no Palácio de Justiça do condado de Albemarle. Sua idéia era para que fosse uma igreja "voluntária", sustentada apenas pelas doações voluntárias daqueles que participavam dela, em contraste com o modelo anglicano que contava com o apoio de impostos do governo.
O livro de notas de Jefferson mostra que ele contribuiu para o seu pastor evangélico, o Rev. Charles Clay, bem como para os missionários e outras igrejas: "Eu subscrevi com a construção de uma igreja episcopal, 200 dólares, uma presbiteriana, 60 dólares, e uma batista, 25 dólares".
Depois da Revolução, a Câmara Legislativa da Virginia reescreveu as suas leis para eliminar as referências ao Rei. As Igrejas "dissidentes" pressionaram Jefferson para "desestabilizar" a Igreja Anglicana.
Jefferson respondeu escrevendo a sua Lei para o Estabelecimento da Liberdade Religiosa. Em 1779, o coronel John Harvie, que também era membro da Igreja Reformada Calvinista de Jefferson, apresentou o projeto de lei na Assembléia da Virginia.
Depois que três dos filhos de Jefferson morreram, sua esposa faleceu em 1782. Após o seu funeral, Jefferson sofreu de depressão e se retirou da política. Em sua dor, ele queimou todas as cartas que ele teve com sua esposa e se isolou em seu quarto por três semanas, apenas se aventurando a andar a cavalo pelas colinas de sua propriedade.
A filha de Jefferson, Martha "Patsy" Jefferson, descreveu como ele chorava por horas: "Nesses passeios melancólicos eu era sua companheira constante ... uma testemunha solitária para as muitas explosões de violenta tristeza ... a violência de sua emoção ... até hoje eu não posso descrever de mim mesma".
Tentando ajudar, o Congresso pediu para Jefferson, em 1784, ir para a França como embaixador. A França estava passando por um período de "infidelidade francesa", antes de sua sangrenta Revolução Francesa e Reino de Terror.
Ao voltar para a América, Jefferson se inclinou em direção de liberalismo "deísta-cristão", embora mais tarde na vida ele fosse descrito simplesmente como um "anglicano liberal".
A Lei de Jefferson, que ele anotou em sua lápide como "Estatuto da Virgínia para a Liberdade Religiosa", passou na Assembléia da Virginia, em 16 de janeiro de 1786: "O Deus Todo-Poderoso criou a mente livre. ... Todas as tentativas de influenciá-la por punições temporais ... são um afastamento do plano do Santo Autor da religião que, sendo Senhor tanto de corpo como da mente, ainda assim escolheu não propagá-lo pela coerção de ambos, como estava em seu poder Todo-Poderoso para o fazer. ... Seja decretado ... que nenhum homem deve ... sofrer por conta de suas opiniões religiosas".
O desestabelecimento da Igreja Anglicana da Virginia nunca teria sido aprovado se não fosse pelo bispo metodista Francis Asbury, separando o movimento metodista popular para longe da Igreja Anglicana em sua própria denominação em 1785.
Havia líderes notáveis que resistiram ao "desestabelecimento" da Igreja Anglicana, ou como agora era chamada, a Igreja Episcopal, pessoas tais como o Governador Patrick Henry. Esse movimento foi mais tarde chamado de "anti-desestabelecimentismo".
A Virginia construiu a sua primeira sinagoga judaica em 1789 e a sua primeira Igreja Católica em 1795.
John Leland, em seguida, ajudou a iniciarem várias igrejas batistas em Connecticut, que era um estado que tinha um estabelecimento da Igreja Congregacional desde a sua fundação em 1639 até 1818.
Os batistas em Connecticut formaram a Associação Batista de Danbury e enviaram uma carta ao presidente Jefferson, em 7 de outubro de 1801: "Senhor ... Nossos sentimentos são uniformemente no lado da liberdade religiosa — que a religião é para todo o tempo e coloca um assunto entre Deus e os indivíduos — que nenhum homem deve sofrer em nome, pessoa ou efeitos por conta de suas opiniões religiosas — que o poder legítimo do governo civil não vai além de punir o homem que faz o mal ao próximo: Mas senhor ... nossa carta antiga (em Connecticut ), juntamente com as leis feitas com isso ... são coincidentes; que ... quaisquer privilégios religiosos que desfrutamos (como batistas) ... nós apreciamos como favores concedidos, e não como direitos inalienáveis.
A carta continua: "Senhor, nós estamos cientes de que o presidente dos Estados Unidos não é o legislador nacional e também cientes de que o governo nacional não pode destruir a legislação de cada Estado; mas nossas esperanças são grandes de que os sentimentos de nosso amado Presidente, os quais já tiveram um efeito genial, como as vigas radiantes do Sol, vão brilhar e prevalecer por todos esses Estados e todo o mundo até que a Hierarquia e Tirania sejam destruídas da Terra".
"Senhor", continua a carta, "nós temos razão para acreditar que o Deus da América elevou-o para ocupar a direção do Estado. ... Que Deus o fortaleça para a árdua tarefa que a Providência e a voz do povo vos têm chamado ... e que o Senhor vos conserve a salvo de todo o mal e traga-lhe, enfim, o seu reino celestial por meio de Jesus Cristo, nosso Mediador Glorioso".
Em 1 de janeiro de 1802, Jefferson respondeu com a sua famosa carta, concordando com os batistas de Danbury: "Senhores ... Acreditando como vocês que a religião é um assunto que é da competência exclusiva entre o homem e o seu Deus, que ele não deve dar contas a ninguém pela sua fé ou pelo seu culto, que os poderes legislativos do governo atingem apenas as ações, e não opiniões, eu contemplo com reverência solene que o agir de todo o povo americano que declararam que a sua legislatura ‘não deve fazer nenhuma lei considerando o estabelecimento de uma religião, ou proibindo o seu livre  exercício’, construindo um muro de separação entre a Igreja e o Estado".
Jefferson terminou: "Aderindo a esta expressão da vontade suprema da nação em nome dos direitos da consciência, vou ver com satisfação sincera o progresso desses sentimentos que tendem a restaurar o homem a todos os seus direitos naturais, convencido de que ele não tem nenhuma direito natural em oposição aos seus deveres sociais. Retribuo suas orações amáveis para a proteção e bênção do Pai e Criador do homem comum".
Os batistas estavam familiarizados com a metáfora de Jefferson, "muro de separação", como o fundador batista de Rhode Island, Roger Williams, a usou em seu sangrento Princípio de Perseguição por Causa de Consciência, de 1644: "Os judeus sob o Velho Testamento ... e ... os cristãos sob o Novo Testamento ... foram ambos separados do mundo; e que, quando eles abriram uma lacuna na barreira, ou no muro de separação, entre o jardim da Igreja e o deserto do mundo, Deus já derrubou a parede em si ... e que, portanto, se ele alguma vez vai se agradar a restaurar o Seu jardim e paraíso novamente, ele deverá ser, necessariamente, murado peculiarmente para Si do mundo".
Jefferson via o "muro", como a limitação do governo federal de "inter-intromissão" no governo da igreja, como explicou em sua carta a Samuel Miller, de 23 de janeiro de 1808: "Eu considero o governo dos Estados Unidos como interditado (proibido) pela Constituição de inter-intromissão com instituições religiosas, suas doutrinas, a sua disciplina, ou seus exercícios. Isto resulta não só da prestação de que nenhuma lei deve ser feita respeitando o estabelecimento ou o livre exercício da religião, mas de que também reserva para os estados os poderes não delegados aos Estados Unidos (décima emenda)".
Jefferson continuou: "Certamente, nenhum poder de decretar qualquer culto religioso, ou de assumir a autoridade na disciplina religiosa, foi delegado ao governo (federal) geral. ... Toda sociedade religiosa tem o direito de decidir por si os horários para esses cultos e os objetos adequados para eles, de acordo com os seus próprios dogmas particulares".
O governo federal não se limitou, porém, de espalhar a religião em territórios ocidentais, como em 26 de abril de 1802, o governo de Jefferson estendeu a lei do Congresso de 1787, onde as terras eram designados: "Para uso exclusivo dos índios cristãos e dos missionários da Irmandade da Morávia por civilizarem os índios e promoverem o cristianismo".
E, novamente, em 3 de dezembro de 1803, durante a administração de Jefferson, o Congresso ratificou um tratado com os índios Kaskaskia: "Considerando que a maior parte da referida tribo foi batizada e recebida na Igreja Católica ... os Estados Unidos vão dar anualmente, por sete anos, cem dólares para o apoio de um padre dessa religião, que vai se envolver em realizar para a referida tribo os deveres do seu cargo, e também para instruir a muitos de seus filhos quanto for possível ... e os Estados Unidos vão dar ainda mais a soma de três centenas de dólares, para ajudar a tribo na construção de uma igreja".
Quando a esposa de John Adams ", Abigail, morreu, Thomas Jefferson escreveu-lhe, em 13 de novembro de 1818: "O tempo não está muito distante, em que veremos depositados na mesma mortalha, nossas tristezas e corpos que sofrem, e ascenderemos na sua essência para uma reunião em êxtase com os amigos que temos amado e perdido, e a quem ainda devemos amar e nunca perder de novo. Deus abençoe a você e o apoie sob a sua pesada aflição".
Doze anos antes de sua morte, Jefferson compartilhou as suas visões pessoais para Miles King, em 26 de setembro de 1814: "Nós temos ouvido dizer que não há um quaker, ou um batista, um presbiteriano ou um episcopal, um católico ou protestante no céu; que ao entrar naquele portão, deixamos esses crachás de cisma para trás. ... Vamos ser felizes na esperança de que por estes caminhos diferentes vamos todos nos encontrar no final. E que eu e você possamos nos encontrar e nos abraçarmos, é a minha oração sincera".
Ao longo do tempo, as brilhantes mentes jurídicas usaram as palavras de Jefferson para proibir as crenças de Jefferson.
Jefferson escreveu na Declaração: "Todos os homens são dotados por seu Criador", mas em 2005, o juiz distrital John E. Jones, em Kitzmiller versus Dover Area School District, determinou que os alunos não podem ser ensinados que há um Criador: "Para preservar a separação entre a Igreja e o Estado".
Grupos usam a frase de Jefferson "separação entre a Igreja e o Estado" para remover o reconhecimento nacional de Deus, apesar da advertência de Jefferson contra essa mesma coisa, como está inscrito no Memorial de Jefferson, em Washington, DC: "Deus que nos deu a vida, nos deu liberdade. Podem as liberdades de uma nação estar seguras quando nós removemos a convicção de que essas liberdades são um presente de Deus?"
Tradução: Dionei Vieira 

02 novembro 2014

Como uma genuína austeridade gera crescimento econômico

O termo "austeridade" continua sendo utilizado na Europa.  E a Alemanha continua sendo criticada por promover essa visão.  Afinal, a austeridade pode fazer uma economia crescer?


Em primeiro lugar, é necessário deixar claro alguns conceitos.  A palavra "austeridade" normalmente é utilizada para descrever duas coisas totalmente opostas e contraditórias: reduzir os gastos do governo ou elevar impostos. 


Por que essas duas medidas são opostas?  Porque reduzir gastos do governo significa que menos recursos escassos da economia serão apropriados pelo governo; significa que haverá mais recursos disponíveis para pessoas e empresas.

Quando o governo gasta, ele está consumindo bens que, de outra forma, seriam utilizados pela população ou mesmo por empreendedores para fins mais úteis e mais produtivos.  Bens que foram poupados para serem consumidos no futuro acabam sendo apropriados pelo governo, que os utilizará sempre de forma mais irracional que o mercado, que sempre se preocupa com o sistema de lucros e prejuízos.  Portanto, os gastos do governo exaurem a poupança (por ''poupança'', entenda-se ''bens que não foram consumidos no presente para serem utilizados em atividades futuras'').

Logo, uma redução nos gastos do governo permite que haja mais recursos disponíveis na economia.

Já uma elevação de impostos significa o contrário: mais recursos da economia — principalmente o capital de pessoas e empresas, que seriam utilizados para consumo e investimento — serão apropriados pelo governo.

E esse é justamente o cerne da questão: deveríamos dar mais ou menos recursos para o governo?

Como na fábula em que o escorpião dá uma ferroada no sapo, keynesianos sempre inventam razões para explicar por que gastos do governo são bons para todos.  Um de seus principais argumentos é o de que é "impossível alcançar a prosperidade cortando".  Como todas as propagandas, essa afirmação é enganosa — austeridade não é sobre "cortar"; é sobre transferir.  Mais especificamente, retirar o controle de recursos produtivos de burocratas e transferi-los para indivíduos e empresas.

Vamos analisar os argumentos keynesianos.  Segundo eles, os gastos do governo são bons para todos — o que significa que a austeridade baseada no corte de gastos é ruim — porque esses gastos governamentais criam um "efeito multiplicador".  Sendo assim, cada $1 gasto pelo governo cria, digamos, $2 de valor.

Isso de fato seria ótimo — e está na mesma categoria dos unicórnios, do moto-perpétuo e do sorvete grátis para sempre.  Tal raciocínio implica que o colapso da União Soviética permanece sendo um mistério econômico, uma vez que o sistema soviético deveria estar repleto desse multiplicador produtivo.

Para refutar essa ideia de multiplicador, nem é necessário entrar em detalhes técnicos.  Aliás, podemos inclusive supor que de fato exista tal multiplicador.  Basta apenas dizer que qualquer multiplicador que porventura possa existir é necessariamente cancelado pelo "multiplicador negativo", uma vez que os recursos necessariamente tiveram de vir de algum lugar.  Assim, se você dá $1 para o governo, você necessariamente ficou com $1 a menos, o que significa que você agora terá menos $1 para gastar no restaurante.  Ambas as unidades monetárias possuem um "multiplicador" em direções opostas.  Elas se cancelam.

Tchau, sorvete grátis.

Porém, tudo ainda piora: ha fortes motivos para crer na existência de um multiplicador negativo.  Ou seja, o governo confisca via impostos $1 e o transforma, digamos, em $0,80.  Ou até mesmo em $0,05.  Por quê?  Porque o governo é extremamente eficaz em desperdiçar recursos.

Apenas pense na economia real — em suas "microfundações", como dizem os teóricos.  A produção não é um fenômeno que cai do céu.  Ao contrário, a produção é feita de recursos — fábricas, matérias-primas, trabalhadores, empreendedores, concreto e aço.  Esses fatores são combinados de modo a gerar bens de consumo ou bens de capital.  Ou eles podem simplesmente ser poupados para serem utilizados no futuro.  Isso significa que há apenas 3 ações que você pode fazer com um recurso produtivo: consumi-lo, investi-lo ou poupá-lo para uso posterior.

Simultaneamente, há apenas três categorias de pessoas para fazer alguma dessas ações (consumir, investir ou poupar): indivíduos consumidores, indivíduos empreendedores ou indivíduos políticos/burocratas.

Portanto, todo o debate sobre se austeridade é bom ou ruim é simplesmente um debate sobre se os governos são melhores gerenciadores de recursos.  Só isso.  Os governos farão investimentos mais sensatos e mais produtivos?  Os governos irão poupar recursos de maneira mais prudente que indivíduos e empresas?

A menos que você tenha acabado de chegar de Marte, você já sabe a resposta: governos são inacreditavelmente ineficientes e esbanjadores.  É impossível que "investimentos" do governo sejam eficazes (ver detalhes aqui,aqui e aqui) e é irreal imaginar o governo como um "poupador prudente".

Sendo assim, se o governo é um péssimo gerenciador de recursos, conclui-se que cada recurso que conseguimos impedir que seja apropriado pelo governo nos torna mais ricos.  Tendo menos recursos, o governo fará menos guerras, dará menos subsídios a empresas, e financiará menos grupos de interesse.  Em vez disso, esses recursos serão utilizados por indivíduos em investimentos mais produtivos, mais prudentes e mais sensatos.  E será assim porque essas pessoas estarão utilizando seu próprio dinheiro, e não um dinheiro que foi confiscado de terceiros.

Essa definição de austeridade — os recursos devem ficar com indivíduos e empresas em vez de serem entregues ao governo — implica que a austeridade fará crescer a economia, e não que irá encolhê-la.  No entanto, se a "austeridade" se basear meramente em aumento de impostos, como está ocorrendo na Europa, então de fato não está havendo austeridade nenhuma.  Ao contrário, está havendo o oposto de austeridade.

Cortar os gastos do governo, permitindo que indivíduos e empresas tenham mais recursos à sua disposição, é o caminho mais sensato para a prosperidade.
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Leia também:

Peter St. Onge é pesquisador temporário do Mises Institute e professor assistente da Fengjia University College of Business, em Taiwan.  Seu blog é Profits of Chaos.

22 outubro 2014

A origem violenta do Estado



“- Um atrevido, homem de idéias e de punhos, descobre um rochedo que domina um desfiladeiro entre dois vales férteis; aí se instala e se fortifica. Assalta os transeuntes, assassinando alguns e roubando o maior número. Possui a força; tem, portanto, o Direito.

- Os viajantes, temendo a rapinagem, ficam em casa ou fazem uma volta. O bandido então reflete que morrerá de fome, se não fizer um pacto. Proclama que os viandantes lhe reconheçam o direito sobre a estrada pública e lhe paguem pedágio, podendo depois passar em paz. O pacto é concluído e o astuto enriquece. Eis que um segundo herói, achando bom o negócio, esgarrancha-se no rochedo fronteiriço. Ele também mata e saqueia, estabelece “seus direitos”. Diminui assim as rendas do colega, que franze o cenho e resmunga na sua furna, mas considera que o recém-vindo tem fortes punhos. Resigna-se ao que não poderia impedir; entra em combinação. Os viageiros pagavam um, terão agora que pagar dois: todos precisam viver!
- Aparece um terceiro salteador, que se instala numa curva da estrada. Os dois veteranos compreendem que abrirão falência se forem pedir três soldos aos passantes, que, só tendo dois para dar, ficarão em casa, em vez de arriscar suas pessoas e bens. Arremessam-se sobre o intruso, que desancado e machucado, foge campo a fora. Depois, reclamam dos viajores dois vinténs suplementares, em remuneração pelo trabalho de expulsar o espoliador e pelo cuidado em não deixar que ele volte. Os dois peraltas, mais ricos e poderosos do que antes, intitulam-se agora “Senhores dos Desfiladeiros”, “Protetores das Estradas Nacionais”, “Defensores da Indústria”, “País da Agricultura”, títulos que o povo ingênuo repete com prazer, pois agrada-lhe ser onerado sob o pretexto de ser protegido. Assim – admirai o engenho humano! – o banditismo se regulariza, se desenvolve e se transforma em ordem pública. A instituição do roubo, que não é o que o vulgo pensa, fez nascer à polícia.
- A autoridade política, que ainda nos diziam ser emanação do Direito Divino e benefício da Providência, constitui-se a pouco e pouco pelos cuidados de salteadores patenteados, pelos esforços sistemáticos de malandrins, homens de experiência [...]” 

(Reclus – Les Primitifs, citado por E. Picard – Lei Droit Pur, pág. 288). 
(AZAMBUJA, DARCY. Teoria Geral do Estado. São Paulo: Globo, 1988, p. 94-95).

04 fevereiro 2014

Entrevista Hans-Hermann Hoppe - IMB

Economia Global e Secessão


A seguinte entrevista com Hans-Hermann Hoppe foi publicada na revista Wirtschaftswoche, o principal semanário da Alemanha sobre economia e negócios, e foi conduzida por Malte Fischer.

Professor Hoppe, ao redor do mundo estamos vivenciando, novamente, uma crescente intervenção do estado tanto na economia quanto na sociedade.  Vários cidadãos querem mais governos e menos mercado.  Como o senhor explica isso?

Se há algo que a história nos mostra de maneira cristalina é que crises promovem o crescimento do estado.  Isso é particularmente mais evidente em casos de guerras e de ataques terroristas.  Os governos utilizam essas crises em proveito próprio para posarem de solucionadores de problemas.  Isso também se aplica à crise financeira.  Ela forneceu aos governos e aos bancos centrais a providencial oportunidade de intervirem ainda mais na economia e na sociedade.  Os políticos foram bem-sucedidos em atribuir a culpa da crise ao capitalismo, ao mercado e à ganância.

Sem a intervenção dos governos, na forma de programas de estímulos, e dos bancos centrais, na forma de injeções de liquidez, o mundo não estaria hoje mergulhado em uma profunda recessão, como nos anos 1930?

Há esse juízo falso de que os governos e os bancos centrais podem ajudar a economia com programas que supostamente a ajudem a se recuperar.  Até mesmo na década de 1930, nos EUA, foram implantados vários programas de estímulos.  Mas a Grande Depressão realmente só acabou após o fim da Segunda Guerra Mundial.  Nos anos anteriores à guerra, a taxa de desemprego jamais ficou abaixo dos 15%.  Os bancos estavam entesourando o dinheiro que lhes fora entregue pelo Banco Central em vez de emprestá-lo.
As circunstâncias atuais são similares.  O dinheiro não está indo para o mercado de bens; por isso os preços mal estão subindo.  Mas isso não significa que não esteja havendo inflação.  Basta você olhar para as principais bolsas de valores do mundo e ver como elas estão se comportando; aí você vai identificar para onde exatamente está indo esse dinheiro criado pelos bancos centrais e entregue ao sistema bancário.  A inflação está ocorrendo no mercado de ativos.

A bonança nos mercados de ações também é uma consequência das taxas de juros negativas que desestimulam o ato de poupar...

... e que colocam em risco nossa prosperidade.  Uma economia só irá crescer de maneira saudável e duradoura se as pessoas estiveram poupando mais do que consumindo.  É necessário poupar mais e consumir menos.  Sem poupança, não há investimentos viáveis.

Por quê?

Vou dar um exemplo simples.  Imagine Robinson Crusoé e Sexta-Feira em uma ilha deserta.  Se Robinson pescar peixes e consumir somente alguns deles, mas não todos, ele poderá emprestar para Sexta-Feira os peixes que ele poupou.  Sexta-Feira, então, poderá se alimentar destes peixes por alguns dias enquanto investe seu tempo na construção de uma rede de pesca para ele próprio.  Com essa rede, Sexta-Feira poderá agora pegar um número tão grande de peixes, que ele não apenas será capaz de alimentar a si próprio como também poderá devolver a Robinson o mesmo número de peixes que este havia lhe dado.  Mais ainda: Sexta-Feira, em princípio, torna-se capaz de quitar seu empréstimo junto a Robinson, mais juros, e ainda obter lucro na forma de peixes adicionais para si próprio. 
Mas o que acontecerá se Robinson, em vez de poupar, simplesmente comer todos os peixes que pegou e, simultaneamente, der a Sexta-Feira certificados de papel que, em teoria, podem ser restituídos em peixes?  Se Sexta-Feira decidir ir até Robinson para restituir seus certificados de papel em peixes, ele descobrirá que não há peixe nenhum com Robinson.  Sendo assim, Sexta-Feira terá urgentemente de conseguir comida para si próprio e, consequentemente, não terá tempo para finalizar a construção da sua rede.  A construção da rede será um projeto abandonado.  O padrão de vida tanto de Sexta-Feira quanto de Crusoé estará agora menor.
Ou seja, todo este arranjo seria fisicamente impossível caso o empréstimo de Robinson para Sexta-Feira fosse apenas um pedaço de papel denominado em peixes, mas não lastreado por uma genuína poupança de peixes.

O que isso tem a ver com a nossa atual situação?

Algo similar ocorreu nas economias modernas na década de 2000.  A expansão do crédito feita pelo sistema bancário em conjunto com seus respectivos bancos centrais nada mais foi do que um processo de criação de dinheiro do nada.  Tal processo de criação de crédito reduziu artificialmente as taxas de juros e consequentemente estimulou vários tipos de investimentos, para os quais não havia uma correspondente poupança.  As taxas de juros artificialmente baixas que vigoraram (e ainda vigoram) tanto na Europa quanto nosEUA não apenas não estimularam ninguém a poupar, como na realidade encorajaram todos a consumir desbragadamente — exatamente como os peixes de Crusoé não foram poupados, mas sim consumidos por ele. 
O aumento do consumismo em conjunto com uma menor taxa de poupança leva a um aumento de preços e a um aumento do endividamento.  Isso, por sua vez, faz com que os bancos passem a restringir mais o processo de criação de crédito.  E essa maior restrição no crédito, em conjunto com o maior endividamento e os preços mais altos, gera um redução no consumo e no investimento.  Os projetos que haviam sido iniciados e que até então pareciam lucrativos sofrem uma repentina queda na demanda (lembre-se de que não havia poupança para dar sustento a essa demanda futura).  É aí que a economia entra em recessão.

Dado que nada mudou no comportamento dos bancos centrais desde então, podemos dizer que haverá uma nova crise?

Os bancos centrais estão tentando resolver a crise criando mais dinheiro e gerando mais crédito, ignorando completamente o fato de que a crise foi causada justamente por excesso de criação de dinheiro e de crédito.  Logo, a próxima crise será ainda mais severa do que a última.

As autoridades monetárias, em especial o Fed, prometeram que irão enxugar a liquidez no momento certo, antes que a situação degringole.

Teoricamente, isso é possível.  Os bancos centrais podem tentar reduzir a oferta monetária vendendo títulos do governo para o sistema bancário.  O problema é que, na prática, isso até hoje nunca ocorreu.  Mesmo porque tal medida vai contra o objetivo dos bancos centrais, que é o de manter as taxas de juros as mais baixas possíveis.

E produzir inflação?

Os bancos centrais de todo o mundo estão se esforçando ao máximo para manter o atual sistema monetário — que é todo baseado no dinheiro fiduciário — a todo o custo.  Receio que o próximo passo será a eliminação do pouco que ainda resta da atual concorrência monetária global.  Tal eliminação ocorrerá por meio de uma centralização do dinheiro e do sistema bancário.  No final, é bem possível que surja algum tipo de banco central global, o qual irá manusear uma moeda única universal, resultante de uma fusão entre dólar, euro e iene.  Livre da concorrência imposta por outras moedas, este banco central global teria então ainda mais espaço para inflacionar.  A crise não apenas não acabaria, como ainda retornaria com força total em nível global.

Alguns economistas clamam por um padrão-ouro com o intuito de amarrar as mãos dos bancos centrais.

Governos e bancos centrais resistirão ferozmente a este arranjo.  Na condição de monopolista estatal da distribuição do dinheiro, bancos centrais não têm absolutamente nenhum interesse em perder seu poder.  Considero um retorno voluntário ao padrão-ouro algo totalmente irrealista.

E quanto à China?  O país quer estabelecer o renminbi como a moeda de reserva internacional.

Para a China, seria uma medida esperta lastrear o renminbi em ouro, pois isso afetaria a dominância global do dólar.  Com um renminbi lastreado em ouro, os dias de dominância econômica dos EUA e do dólar estariam contados.  O Ocidente, portanto, irá fazer todo o possível para impedir que a China adote essa medida.

Na Europa, os governos e o Banco Central Europeu (BCE) ignoraram a lei e agiram acima da lei para socorrer o arranjo do euro.  E não houve nenhum protesto público na Alemanha contra isso.

Os alemães aceitam passivamente receber ordens dos EUA sobre o que eles podem e o que eles devem fazer.  Os EUA possuem um interesse vital em garantir que o euro sobreviva porque, para o dólar, é mais conveniente ter um único concorrente a ter de competir com 17 moedas nacionais europeias.  No atual arranjo, os EUA precisam recorrer a apenas um Banco Central, o BCE, para fazer pressão política e impor seus interesses.

O socorro ao euro e a crescente concentração de poderes em Bruxelas estão gerando inquietações nos europeus.  Será que as elites políticas não estão testando demais a disposição da população em aceitar ainda mais integração política?

Governos e estados têm a tendência de centralizar seus poderes.  Na Europa, os poderes estão sendo transferidos para Bruxelas com o intuito de eliminar a concorrência entre os países.  O sonho dos estatistas é um estado mundial que imponha impostos e regulamentações uniformes, e que retire totalmente dos cidadãos a capacidade de melhorar sua vida por meio de emigração.  Os europeus já perceberam que, basicamente, a União Europeia nada mais é do que um enorme aparato de redistribuição.  Isso gera discórdia e incita a inveja e o rancor entre os cidadãos de diferentes países.

O que podemos fazer quanto a isso?

Para a causa da liberdade, o melhor seria se a Europa se desintegrasse no maior número possível de micro-estados.  Isso também vale para a Alemanha.  Quanto menor a extensão espacial de um estado, mais fácil seria emigrar e, consequentemente, menos intrusivo e coercivo teria de ser o estado.  Afinal, seria de seu total interesse fazer de tudo para que as pessoas produtivas se sentissem estimuladas a permanecer dentro de seu território.
Estados pequenos possuem vários concorrentes geograficamente próximos.  Se um governo passar a tributar e a regulamentar mais do que seus concorrentes, a população emigrará, e o país sofrerá uma fuga de capital e mão-de-obra.  O governo ficará sem recursos e será forçado a revogar suas políticas confiscatórias. 

O senhor quer retornar ao "Kleinstaaterei", o sistema de mini-países que vigorou na Alemanha no século XIX?

Apenas veja a evolução econômica e cultural ocorrida naquela época.  No século XIX, a área da qual a Alemanha hoje faz parte era a principal região da Europa.  As grandes realizações culturais ocorreram em uma época em que não havia um estado grande e centralizado.  Os pequenos territórios viviam em intensa concorrência entre si.  Todos queriam ter as melhores bibliotecas, os melhores teatros, as melhores universidades.  Essa região era significativamente mais avançada — tanto em termos culturais quanto intelectuais — do que a França, que, àquela época, já possuía um governo centralizado.  À medida que toda a cultura foi centralizada em Paris, o resto do país caiu na obscuridade cultural.




Mas o livre comércio seria ameaçado pela secessão e por esse retorno a um arranjo de nações fragmentadas

Muito pelo contrário.  Estados pequenos têm necessariamente de comercializar.  Não há alternativas, pois seu mercado interno não é grande e nem suficientemente diversificado para que a população possa viver de maneira autônoma e independente.  Se eles não praticarem um livre comércio, morrerão de fome em uma semana.  É exatamente o mesmo fenômeno que ocorre com uma cidade pequena dentro de um país grande.  Se ela se fechar completamente e não comercializar com as outras cidades, seus habitantes morrerão.
Quanto menor o país, maior será a pressão para que ele adote um genuíno livre comércio e maior será a oposição a medidas protecionistas.  Toda e qualquer interferência governamental sobre o comércio exterior leva a um empobrecimento relativo, tanto no país quanto no exterior.  Quanto menor um território e seu mercado interno, mais dramático será esse efeito.  Se os EUA adotarem um protecionismo mais forte, o padrão de vida médio dos americanos cairá, mas ninguém passará fome.  Já se uma pequena cidade, como Mônaco, fizesse o mesmo, haveria uma quase que imediata inanição generalizada.
Adicionalmente, estados pequenos e soberanos não podem permanentemente culpar forças externas quando algo vai mal em suas economias.  Na União Europeia, Bruxelas é frequentemente culpada por todos os tipos de malefícios vivenciados nos países da UE.  Já com estados pequenos e independentes, os governos teriam de aceitar a responsabilidade pelos problemas vivenciados em seus próprios territórios.  Isso gera um efeito pacificador nas relações entre os países.

Mas se cada um destes pequenos estados tivesse sua própria moeda, isso acabaria com a integração dos mercados de capital.

Estados pequenos não podem se dar ao luxo de utilizar uma moeda própria porque isso elevaria enormemente os custos de transação.  É como se você tivesse de trocar de moeda todas as vezes que fosse de uma cidade para outra dentro do mesmo país.  Isso seria um custo de transação irracional.  Logo, tais estados teriam de se esforçar, de forma natural, para adotar uma moeda em comum e que fosse independente de governos e fora da influência de políticos e burocratas.  Há uma grande probabilidade de que eles iriam concordar em adotar como moeda uma commodity como o ouro ou a prata, cujo valor é determinado pelo mercado. 
Em suma, a secessão também promoveria uma integração monetária e levaria à substituição do atual sistema monetário baseado em moedas fiduciárias nacionais — que flutuam entre si e se desvalorizam diariamente — por um padrão monetário baseado em uma commodity totalmente fora do controle dos governos.  Assim, o mundo seria formado por pequenos governos liberais e seria economicamente integrado por meio do livre comércio e de uma moeda-commodity internacional.  O Kleinstaaterei leva a mais mercado e a menos intervenção estatal no sistema monetário.

Mas se a Europa fosse uma coleção de pequenos estados, não seria correto dizer que, no cenário internacional, ela não teria nenhuma influência, ao menos em relação aos grandes estados?

Essa tese não se sustenta.  Afinal, como é que Suíça, Liechtenstein, Mônaco e Cingapura conseguem estar economicamente no topo?  A minha impressão é que estes países são mais ricos do que a Alemanha, e que os alemães eram ricos antes de embarcarem na aventura do euro.  É imperativo nos livrarmos desta falsa e perigosa ideia de que o comércio e os negócios ocorrem entre estados.  O comércio e os negócios ocorrem entre indivíduos e empresas que produzem em diversos pontos geográficos.  Economias não consistem de estados concorrendo com outros estados, mas sim de indivíduos e empresas concorrendo com outros indivíduos e empresas.  
Não é o tamanho de um estado o que determina sua prosperidade, mas sim a capacidade e o preparo de seus cidadãos.   

Ausência do Estado



Independentemente do número de territórios soberanos, ainda resta a questão do tamanho do governo.  Os liberais clássicos sugerem que o estado seja um mero 'guarda noturno', o qual se limita a garantir a liberdade, a propriedade e a paz.  Mas o senhor não quer estado nenhum.  Por quê?

Os liberais clássicos subestimam a inerente tendência de qualquer arranjo estatal ao inchaço.  Essa é uma propensão irreversível.  Quem determina quantos policiais, quantos juízes e quantos soldados — todos eles financiados por impostos — haverá em um estado mínimo voltado exclusivamente para a segurança e para os serviços judiciais?  
No mercado, onde bens e serviços são demandados e pagos voluntariamente, a resposta é clara: bens e serviços serão produzidos na quantidade e aos preços que os consumidores estiverem dispostos a pagar.  Por outro lado, no que tange ao governo de qualquer país, a pergunta "quanto?" será sempre respondida da mesma maneira: quanto mais dinheiro você nos der, mais poderemos fazer por você.
Dado que o governo pode obrigar seus cidadãos a pagar impostos, o governo sempre irá exigir cada vez mais dinheiro e, em troca, ofertará serviços de qualidade cada vez pior, dado que o governo não opera em ambiente concorrencial.  A ideia de um estado mínimo, principalmente em uma democracia, é um projeto conceitualmente falho.  Estados mínimos jamais permanecem mínimos.

Então não deveria haver estado nem sequer para proteger a propriedade, e para fornecer serviços de segurança e de justiça?

Se o estado for proteger a propriedade utilizando uma polícia estatal, então ele terá de coercivamente coletar impostos.  No entanto, impostos são expropriação.  Desta maneira, o estado paradoxalmente se transforma em um expropriador protetor da propriedade.  Não faz sentido.  Ademais, um estado que quer manter a lei e a ordem, mas que pode ele próprio criar leis, será ao mesmo tempo um transgressor e um mantenedor da lei.
E isso tem de ficar claro: o estado não nos defende; ao contrário, o estado nos agride, confisca nossa propriedade e a utiliza para se defender a si próprio.  A definição padrão do estado é essa: o estado é uma agência caracterizada por duas feições exclusivas e logicamente conectadas entre si.  Primeiro, o estado é uma agência que exerce o monopólio compulsório da jurisdição de seu território; o estado é o tomador supremo de decisões.  Ou seja, o estado é o árbitro e juiz supremo de todos os casos de conflito, incluindo aqueles conflitos que envolvem ele próprio e seus funcionários.  Não há qualquer possibilidade de apelação que esteja acima e além do estado.  Segundo, o estado é uma agência que exerce o monopólio territorial da tributação.  Ou seja, é uma agência que pode determinar unilateralmente o preço que seus súditos devem pagar pelos seus serviços de juiz supremo.  Baseando-se nesse arranjo institucional, você pode seguramente prever quais serão as consequências:
a) em vez de impedir e solucionar conflitos, alguém que possua o monopólio da tomada suprema de decisões irá gerar e provocar conflitos com o intuito de resolvê-los em benefício próprio.  Isto é, o estado não reconhece e protege as leis existentes, mas as distorce e corrompe por meio da legislação.  Contradição número um: o estado é, como dito, um transgressor mantenedor das leis. 
b) em vez de defender e proteger alguém ou alguma coisa, um monopolista da tributação irá invariavelmente se esforçar para maximizar seus gastos com proteção e ao mesmo tempo minimizar a real produção de proteção.  Quanto mais dinheiro o estado puder gastar e quanto menos ele tiver de trabalhar para obter esse dinheiro, melhor será a sua situação.  Contradição número dois: o estado é, como dito, um expropriador protetor da propriedade.

Então, para quem o senhor gostaria de transferir a tarefa de proteger direitos e propriedade?

Tais tarefas devem ser realizadas por aquelas empresas privadas que comprovadamente demonstrarem competência em um mercado livre e concorrencial — exatamente como ocorre com os outros serviços. 
Em uma sociedade de leis privadas, a produção de lei e ordem — de segurança — seria feita por indivíduos e agências livremente financiados, concorrendo entre si por uma clientela disposta a pagar (ou a não pagar) voluntariamente por tais serviços — exatamente como ocorre com a produção de todos os outros bens e serviços.  Como esse sistema funcionaria é algo que pode ser mais bem compreendido ao contrastarmos tal sistema com o funcionamento do nosso atual e totalmente conhecido sistema estatista. 
Se quisermos resumir em uma única palavra a diferença (e a vantagem) decisiva entre uma indústria de segurança operando em ambiente concorrencial e a atual prática estatista, essa palavra seria: contrato.
O estado opera em um vácuo jurídico.  Não existe nenhum contrato entre o estado e seus cidadãos.  Não está determinado contratualmente o que de fato pertence a quem; consequentemente, não está determinado o que deve ser protegido.  Não está determinado qual serviço o estado deve fornecer, nem o que deve acontecer caso o estado falhe em cumprir seu dever, e nem qual preço o "consumidor" de tais "serviços" deve pagar.  Ao contrário: o estado determina unilateralmente as regras do jogo, podendo mudá-las, por mera legislação, durante o jogo. 
Obviamente, tal comportamento seria inconcebível para fornecedores de serviços de segurança financiados livremente.  Apenas imagine um fornecedor de serviços de segurança — seja uma polícia, uma seguradora ou um tribunal de arbitragem — cuja oferta consistisse em algo mais ou menos assim: "Eu não vou contratualmente garantir nada a você; não irei lhe dizer o que estou obrigado a fazer caso você não fique satisfeito com meus serviços.  Porém, mesmo assim, eu me reservo o direito de determinar unilateralmente o preço que você deve me pagar por tais serviços indefinidos." 
Qualquer fornecedor de serviços de segurança desse tipo iria imediatamente desaparecer do mercado em decorrência de uma total falta de clientes.
Em vez de agir assim, cada produtor de serviços de segurança, sempre financiado livremente, teria de oferecer um contrato aos seus clientes em potencial.  E esses contratos — a fim de serem considerados aceitáveis para consumidores que estão pagando voluntariamente por eles — devem conter cláusulas e descrições totalmente claras, bem como serviços e obrigações mútuas claramente definidos.  Cada uma das partes do contrato, ao longo de sua duração e até o vencimento do contrato, estaria vinculada a ele de acordo com seus termos e condições; e qualquer mudança nos termos ou nas condições iria requerer o consentimento unânime de todos os lados envolvidos.
Mais especificamente, para serem tidos como aceitáveis por seus potenciais compradores, esses contratos teriam de conter cláusulas especificando o que será feito no caso de um conflito ou desavença entre a agência de segurança (ou seguradora) e seus segurados, bem como no caso de um conflito entre diferentes agências de proteção e seus respectivos clientes.  E, nesses casos, apenas uma solução mutuamente acordada é possível: os lados em discórdia concordariam contratualmente em recorrer a um tribunal de arbitragem comandado por algum agente que seja independente e que goze da confiança mútua desses dois lados. 
E quanto a esse agente, ele também deve ser financiado no livre mercado, além de sofrer a concorrência de vários outros arbitradores e agências de arbitragem.  Seus clientes — isto é, as seguradoras e os segurados — esperam que ele dê um veredito que seja reconhecido por todos como sendo justo e imparcial.  Somente arbitradores capazes de dar vereditos justos e imparciais terão êxito no mercado de arbitramento.  Arbitradores incapazes disso, e consequentemente vistos como parciais ou tendenciosos, irão desaparecer do mercado.

E como seriam definidas as leis e como seria sua aplicação?

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que, se não houvesse conflitos entre indivíduos e todos nós vivêssemos em perfeita harmonia, não haveria nenhuma necessidade de leis ou normas.  O propósito de leis ou normas é justamente o de ajudar a evitar conflitos que de outra forma seriam inevitáveis.  Somente as leis que atingem esse objetivo podem ser chamadas de leis boas.  Uma lei que gera conflitos em vez de ajudar a evitá-los é contrária ao propósito intrínseco de qualquer lei —ou seja, trata-se de uma lei ruim, disfuncional e corrupta. 
Em segundo lugar, é preciso entender que toda e qualquer sociedade tem como característica intrínseca conflitos de propriedade sobre bens escassos.  Conflitos ocorrem porque vivemos em um mundo de escassez, onde os bens são escassos.  Afinal, se os bens são escassos, eles não podem ser de todos.  É necessário haver propriedade sobre eles.  As pessoas entram em choque porque querem utilizar exatamente o mesmo bem de maneiras distintas e incompatíveis.  Ou eu venço a briga e utilizo tal bem do meu jeito, ou você vence e utiliza tal bem do seu jeito.  É impossível que nós dois saiamos "ganhadores".  No caso de bens escassos, portanto, são necessárias regras ou leis que nos ajudem a solucionar reivindicações rivais e conflituosas. 
Mas não é necessário que seja o estado quem irá resolver tais conflitos. 
Logo, todos os conflitos relacionados ao uso de bens escassos, poderão ser evitados apenas se cada bem for propriedade privada, isto é, se cada bem escasso for exclusivamente controlado por um indivíduo (ou grupo de indivíduos) específico — e não por vários indivíduos não-especificados —, e sempre for deixado claro qual bem é propriedade de quem, e qual não é.  E, para que os conflitos fossem evitados desde o início da humanidade, por assim dizer, seria necessário ter uma regra determinando que a primeira apropriação original de algum recurso escasso e até então sem dono configuraria propriedade privada. 
Sendo assim, existem essencialmente três "leis boas" que podem garantir uma interação humana sem a ocorrência de conflitos (ou a "paz eterna"):
a) aquele que se apropria de algo até então sem dono torna-se o seu proprietário exclusivo (na condição de primeiro proprietário, ele logicamente não entrou em conflito com ninguém, dado que todas as outras pessoas apareceram em cena apenas mais tarde);
b) aquele que produz algo utilizando tanto o seu próprio corpo quanto os bens dos quais se apropriou originalmente torna-se o proprietário único e legítimo do produto de seu trabalho — desde que ele, nesse processo, não danifique a integridade física da propriedade de terceiros; e
c) aquele que adquire um bem de algum proprietário por meio de uma troca voluntária — isto é, uma troca considerada a priori como mutuamente benéfica — torna-se o novo proprietário desse bem.
Portanto, tendo este pano de fundo, imagine agora uma sociedade sem estado.  Nesta ordem natural, cada indivíduo que for o primeiro a se apropriar de algo irá se tornar o proprietário original dos bens que ele controla.  Quem sugerir o contrário terá o ônus da prova.  Neste arranjo, conflitos serão resolvidos por uma autoridade natural.  Em vilarejos, esta autoridade natural são aquelas pessoas que forem respeitadas por todos; elas atuarão como juízes.  Se houver alguma contenda envolvendo pessoas pertencentes a comunidades distintas, e que recorrerem a juízes distintos, o conflito terá de ser arbitrado no nível superior mais próximo.  O que é importante é que nenhum juiz detenha o monopólio da aplicação de leis. 
O mesmo raciocínio se aplica a qualquer cidade, de qualquer tamanho, dado que toda e qualquer cidade está dividida em bairros, que funcionam como se fossem vilarejos integrados.
Isso soa muito irrealista...
... mas não é!  Apenas veja como as contendas transnacionais são resolvidas atualmente.  Em nível internacional, já existe uma espécie de anarquia jurídica, pois não há um governo mundial que a tudo regula.  Por exemplo, pense na cidade da Basileia.  Ela está localizada em uma tríplice fronteira entre Suíça, França e Alemanha.  O que seus cidadãos fazem quando há uma contenda entre eles?  Em primeiro lugar, eles irão contatar suas respectivas jurisdições.  Se não houver nenhum acordo, arbitradores independentes são convocados para resolver o caso.  Por acaso existem mais contendas entre os cidadãos desta região do que entre cidadãos de Dusseldorf e Colônia?  Nunca ouvi falar.  Isso mostra que é possível regular disputas interpessoais pacificamente, sem que haja um estado detentor do monopólio do justiça.

Um sistema jurídico sem estado provavelmente está muito além da imaginação das pessoas.

Por quê?  Basicamente, são ideias facilmente compreensíveis que, ao longo dos séculos, foram abolidas e extirpadas de nós por apologistas do poder estatal.  Foi um grande erro evolucionário substituir a liberdade de escolha das pessoas em termos legais por um monopólio estatal da legislação.  Este atual estado de coisas levou a um arranjo em que, nas eleições, uma horda ignara adquire cargos governamentais e utiliza seu poder legiferante para se enriquecer expropriando a propriedade daqueles que possuem mais riquezas do que eles próprios.  Já o chefe de um clã que seja voluntariamente escolhido como um arbitrador de disputas normalmente será um indivíduo já rico que não terá motivos para querer tomar para si a propriedade de terceiros.  Caso contrário, ele não seria escolhido voluntariamente como arbitrador.

Como, em um mundo sem a ordem do estado, poderíamos impedir a violação de direitos elementares à liberdade, como o direito à integridade física?

Contra-pergunta: por acaso tais violações são atualmente impedidas pela existência do estado?  Como está a violência em países que têm um estado grande e onipresente, como os da América Latina?
Enquanto os humanos forem humanos, sempre existirão áreas em que haverá homicídios e assaltos.  Os governos conseguiram melhorar esta situação?  Tenho minhas dúvidas.  Governos também são geridos por humanos.  Porém, ao contrário de uma sociedade sem estado, os líderes detêm um monopólio sobre sua posição de poder.
Isso por acaso não torna estas pessoas piores do que já são?  Humanos não são anjos; frequentemente fazem maldades e causam enormes estragos.  Por este motivo, a melhor defesa da liberdade e da propriedade é não permitir que ninguém crie um monopólio protegido por lei.  Tão logo exista um monopólio protegido por lei, não serão exatamente seres angelicais que surgirão dele.

Suponhamos que sigamos suas ideias e transfiramos as clássicas funções do estado, como a proteção da propriedade e da imposição da justiça, para organizações privadas.  Imediatamente teríamos de lidar com o problema de que, também nestas organizações, os homens maus podem assumir o comando e criar cartéis à custa dos cidadãos.

O risco de isso ocorrer é baixo.  Cartéis só conseguem sobreviver no longo prazo se o estado protegê-los.  Isso ocorre hoje justamente em todos os setores da economia que são controlados por agências reguladoras, as quais existem para impedir que novas empresas entrem no mercado, façam concorrência e perturbem a tranquilidade das empresas já estabelecidas e que são as preferidas do estado.
Cartéis nunca se sustentaram no livre mercado.  O que tradicionalmente sempre ocorreu foi o seguinte: as grandes empresas começaram a se unir para dividir o mercado exclusivamente entre elas; no entanto, tal arranjo, por elevar os preços e reduzir a qualidade dos serviços, acaba beneficiando os membros mais ineficientes deste cartel e prejudicando os mais eficientes.  Estes percebem que podem conquistar uma maior fatia de mercado fora do cartel.  Tão logo eles percebem isso, o cartel se esfacela.

Mas até que isso ocorra, os membros do cartel exploram os cidadãos.

Esse seu raciocínio é o que eu chamo de "se suicidar por medo de morrer".  Se você transfere tal tarefa ao estado, então você está dando a ele logo de partida um monopólio total.  E ele certamente irá abusar deste monopólio para restringir a liberdade dos cidadãos.

Em uma sociedade sem estado e com leis privadas, como lidar com o problema das externalidades?  Por exemplo, quem iria fazer com que poluidores ambientais também tivessem de arcar com os custos?

Esse problema é fácil de ser resolvido.  Basta você conferir à parte prejudicada o direito de tomar medidas judiciais contra o agressor.  Ato contínuo, ela poderá processar o causador do estrago, fazendo com que esta lhe dê um pagamento indenizatório.  No século XIX, era uma prática comum os cidadãos processarem empresas que danificassem sua propriedade em decorrência de poluição.  Com o tempo, o estado começou a limitar o direito de apelação, tudo com o intuito de proteger determinadas indústrias.
Por isso, e como expliquei anteriormente, é crucial que os direitos de propriedade sejam claramente atribuídos.  O princípio básico tem de ser: quem for o primeiro a se apropriar de um local ainda inutilizado e sem dono, adquire os direitos de propriedade.
Por exemplo, se uma indústria construir uma planta que apresente uma intensa emissão de poluentes nas vizinhanças de um determinado bairro residencial, então estes moradores — que chegaram lá primeiro — podem processar a empresa e pedir indenização.  Trata-se de um princípio simples que até mesmo crianças conseguem entender.  Nos EUA, durante a época da corrida do ouro, vários critérios foram estabelecidos sem a intromissão o estado.  E várias pessoas registraram suas queixas contra mineradores.  Isso mostra que questões de transgressão de propriedade podem ser resolvidas sem o estado.

E a questão das forças armadas?  Não dá para organizar a defesa nacional sem o estado, e ninguém pode ser excluído da segurança fornecida por um exército.  Logo, você precisa do estado para obrigar todos os cidadãos a pagarem impostos para financiar as forças armadas.

E quem disse que absolutamente todos os cidadãos querem ser defendidos por um exército?  De novo, vivemos em um mundo de escassez.  O dinheiro que for gasto com defesa não mais estará disponível para ser gasto em outros propósitos.  Algumas pessoas talvez não queiram ser defendidas e, em vez disso, preferem pagar por férias no Havaí.  No caso de um ataque externo, elas provavelmente iriam optar por deixar o país e, sendo assim, elas não precisam de defesa de nenhum exército.
O estado não tem nenhum direito de obrigar estas pessoas a pagar impostos para financiar forças armadas.  Em uma sociedade sem estado, as pessoas podem, se assim o desejarem, criar pequenas unidades de segurança, como vigilâncias comunitárias.  Podem também se defender por conta própria por meio do uso de armas.  Ou podem ainda contratar segurança privada.  Elas teriam a liberdade de decidir livremente como iriam gastar seu próprio dinheiro.




Hans-Hermann Hoppe é um membro sênior do Ludwig von Mises Institute, fundador e presidente da Property and Freedom Society e co-editor do periódico Review of Austrian Economics. Ele recebeu seu Ph.D e fez seu pós-doutorado na Goethe University em Frankfurt, Alemanha. Ele é o autor, entre outros trabalhos, de Uma Teoria sobre Socialismo e Capitalismo eThe Economics and Ethics of Private Property.
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