Por que os truques populistas de Lula funcionam cada vez menos. Rodolfo Borges e Deborah Sena para a Crusoé:
A intelectualidade brasileira se iludiu durante décadas com a ideia de que uma pessoa pobre não poderia — e nem deveria — ter valores de direita.
A base do raciocínio é humilhante: quem passa por dificuldade econômica deveria esperar — implorar? — pela ajuda do Estado.
Os resultados das últimas eleições no Brasil deixaram claro que essa lógica não existe, e o principal partido de esquerda do país sente os efeitos dessa realidade nas urnas — e na popularidade de seu maior expoente.
As últimas pesquisas de institutos como Quaest, AtlasIntel, Datafolha e CNT/MDA mostraram que a decadente popularidade de Lula perdeu força entre o eleitorado de baixa e média renda, alvo histórico do PT.
E isso mesmo após o governo petista aquecer a economia brasileira com gastos irresponsáveis, o que levou ao crescimento artificial do PIB e à redução recorde do desemprego.
Mais pobres
A pesquisa CNT/MDA divulgada na terça-feira, 25, indicou desaprovação de 35% de Lula no eleitorado mais pobre, que ganha até dois salários mínimos, onze pontos percentuais a mais desde novembro de 2024.
Em maio de 2023, no início do governo, a desaprovação entre os mais pobres era de apenas 19%.
O mesmo levantamento diz que a maior qualidade de Lula para 20,1% dos brasileiros é "cuidar dos pobres" — outros 36,5% não enxergam nenhuma qualidade no petista e 21,7% dizem que seu maior defeito é ser "desonesto".
Quer dizer, o discurso do presidente ainda reverbera em parte do país, mas parece perder força eleitoral.
O fato é que o truque de distribuir benesses não funcionou desta vez.
E nada foi mais eloquente sobre esse descolamento entre um governo que alega defender os pobres e a população mais humilde do que a reação nas redes sociais de trabalhadores informais que se viram na mira da sanha arrecadatória de Lula ao saber da ampliação do monitoramento do Pix.
Aplicativos
A distância entre os trabalhadores e o petismo, criado sob a alegação de defendê-los, já tinha se manifestado de forma contundente na tentativa da regulamentação do trabalho por aplicativo.
Entregadores e motoristas protestaram Brasil afora contra a pretensão de burocratizar seu oficio, e restou ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, fantasiar com a possibilidade de os cambaleantes Correios substituírem o Uber no caso de a plataforma estrangeira deixar o Brasil por falta de condições de atuar.
Os aplicativos deram uma alternativa de liberdade — ainda que sem segurança nenhuma — aos brasileiros, que têm demonstrado, desde a reforma trabalhista do governo Michel Temer, em 2017, repúdio aos sindicatos, formando filas todo ano para pedir dispensa da contribuição, que deixou de ser obrigatória.
Os evangélicos
O filósofo Luiz Felipe Pondé, que trata do assunto "pobre de direita" há quase uma década, definiu esse perfil de brasileiro na expressão “ter que ir atrás do prejuízo e trabalhar”.
Esse seria uma contraponto à perspectiva esquerdista de aguardar — ou proporcionar — o auxílio estatal.
Essa perspectiva de autonomia e liberdade proporcionadas pela desburocratização — e o consequente barateamento — das contratações e das possibilidades de trabalho parece ter encontrado em certo ideário evangélico o ambiente perfeito para se disseminar.
"O ambiente de muitas das igrejas evangélicas estimula a disciplina pessoal e a resiliência dos fiéis, promove a cultura do empreendedorismo, fortalece a atuação de redes de ajuda mútua e incentiva o investimento em instrução profissional", diz o antropólogo Juliano Spyer em Povo de Deus (Geração).
Spyer, que promove outro livro sobre o mesmo assunto, intitulado Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno (Record), diz que a igreja ajuda a promover o "fim do alcoolismo e consequentemente da violência doméstica, fortalecimento da autoestima, da disciplina para o trabalho e aumento do investimento familiar em educação e nos cuidados com a saúde", o que "geralmente conduz à ascensão socioeconômica".
"Os ressentidos"
O sociólogo Jessé Souza lançou, em 2024, um livro um pouco mais carregado na tinta ideológica para tratar diretamente do Pobre de Direita (Civilização Brasileira).
O subtítulo da obra fala em "vingança dos bastardos" e questiona: "O que explica a adesão dos ressentidos à extrema direita?".
Souza parte do princípio de que as classes populares "não têm nada a ganhar com Bolsonaro, só a perder, especialmente sob o ponto de vista econômico objetivo".
O sociólogo ignora que Jair Bolsonaro não apenas distribuiu benefícios aos mais pobres, por ocasião da pandemia de Covid, como colheu frutos eleitorais disso, ainda que insuficientes para vencer Lula em 2022.
O autor de Pobre de Direita parte daquela premissa clássica da intelectualidade nacional, de que apenas a esquerda sabe "cuidar" dos pobres — ignorando, também, que, enquanto concede um benefício com uma mão, Lula aumenta a dívida pública, a inflação e os juros com a outra —, e aposta na moralidade como fator para explicar por que os "ressentidos" estariam votando contra seus próprios interesses.
"Há um abismo"
Seja por valores morais ou econômicos, a batalha pelos corações dos mais pobres está sendo travada dentro de igrejas evangélicas.
Nos últimos meses, Lula sancionou leis pera criar o Dia Nacional da Pastora Evangélica e do Pastor Evangélico e o Dia Nacional da Música Gospel, sempre com muitas orações e poses para a posteridade.
O presidente também incorporou expressões como "graças a Deus" em seus discursos e enviou emissários, como o advogado-geral da União, Jorge Messias, à Marcha para Jesus.
Mas a estratégia de aproximação não parece estar surtindo efeito — os evangélicos são a parcela da população que mais reprova seu governo —, e isso é admitido até por quem se dispôs a ajudar o petista na missão.
"Há um abismo entre o que nós evangélicos pensamos e o que o PT pensa", disse a Crusoé o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), que esteve com Lula na sanção da lei do Dia Nacional da Música Gospel e acabou virando alvo de protesto dos evangélicos depois de tentar ajudar o petista.
Otoni perdeu nesta semana a disputa pelo comando da Frente Parlamentar Evangélica para Gilberto Nascimento (PSD-MG), apoiado pelos aliados de Bolsonaro.
"Se Lula quiser pelo menos ser ouvido por nós, precisa se afastar do identitarismo do seu partido e começar a governar sem que essas pautas progressistas pautem seu governo. Ele é presidente de uma nação majoritariamente conservadora", disse o deputado.
"Nossos valores são mais caros que qualquer benefício que recebamos do governo. Nenhum governo vai comprar os evangélicos com comida ou programas sociais", completa.
"Vai na fé"
O fator "evangélicos" se tornou tão relevante para a política e a economia brasileiras que levou uma gestora de recursos a elaborar um relatório para mapear a influência eleitoral da religião no país.
"A gente estava tentando entender por que a popularidade do Lula estava baixa numa conjuntura que era amplamente favorável", diz Paulo Coutinho, um dos autores do relatório "Vai na fé! O impacto eleitoral do crescimento dos evangélicos", da Mar Asset Management, que chamou a atenção dos investidores do país em janeiro.
"Se você pegar a foto hoje, é muito favorável: um PIB que cresce mais de 3%, menor taxa de desemprego, massa salarial não para de crescer, a renda ampliada cresce num ritmo de 5% nos últimos dois anos. Se você me falasse isso há dois anos, eu diria que o Lula ia estar com a popularidade lá em cima", diz Coutinho.
O relatório afirma o seguinte: "Observamos uma relação robusta entre a presença de igrejas evangélicas e o perfil de votação. O PT e partidos de esquerda recebem menos votos em municípios com maior presença evangélica. Essa tendência é consistente entre estados e regiões".
O CNPJ das igrejas
Diante da defasagem de números do Censo sobre os evangélicos (os últimos são de 2010), os analistas da Mar Asset Management tentaram quantificar o crescimento desse segmento social por meio da abertura de igrejas.
E descobriram que "entre 2010 e 2024 o número de igrejas de denominação evangélicas com CNPJ ativo dobrou, chegando a mais de 140 mil templos em 2024".
"O ritmo de expansão permaneceu surpreendentemente constante. Em todos os ciclos presidenciais desde 2010, foram registradas, em média, cerca de 5 mil novas aberturas de templos por ano", diz o relatório.

O futuro
Com base nesse cenário, os autores do relatório se aventuram a projetar o futuro:
"Em 2022, a conversão de votos entre a população não evangélica em Lula foi a maior da história. Mesmo assumindo que isso se repetisse, o maior número de evangélicos no país já seria suficiente para garantir a vitória de um candidato de direita em 2026."
Os autores do relatório estimam que a proporção da população evangélica no Brasil aumentará de 22% em 2010 para 35,8% em 2026.
Direita
Uma vitória da direita dependerá, contudo, do candidato que se apresentar em 2026.
Bolsonaro está inelegível até 2030 e, enquanto tenta reverter a condenação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também batalha para impedir que alternativas cresçam à sua sombra.
O desentendimento entre os opositores de Lula é a melhor chance — talvez a única — de o petista se manter no poder apesar de boa parte do país mostrar que já está farta de sua forma de governar.