MIGUEL DE ALMEIDA
Em “O
homem que amava os cachorros”, o escritor cubano Leonardo Padura reconstrói a
atmosfera de perseguição montada por Stalin, nas décadas de 1930-50, a Trostski
e seus outros inimigos. A perseguição se dava no nível físico (espiões,
policiais, caça-recompensas) e no moral, por meio de mentiras, intrigas,
aleivosias e canalhices diversas. Stalin fazia ainda uso de cães intelectuais —
em geral gente em busca de glórias efêmeras, como um prêmio ou um elogio — na
desconstrução de seus adversários. Não vem à toa a admiração de Hitler pelo
regime soviético: o nazismo fará uso de seus vira-latas provocadores (exemplo:
a turma que avançou sobre Janaina Paschoal) e Stalin forjará o oportuno
Inimigos do Povo (exemplo: a campanha contra ex-petistas como Fernando Gabeira
e Luiza Erundina). O nazismo muito deve ao stalinismo (exemplo: Marilena Chauí
difundir que Sérgio Moro é filhote do FBI e os SS digitais repercutirem a
difamação).
Padura
fornece ao leitor um retrato do clima policialesco criado por Stalin. São
creditados nas costas de Trotski, mesmo exilado e banido, o poder de uma
hipotética conspiração, a autoria de documentos apócrifos... Tudo balela. Cena
construída para distrair os militantes dos reais motivos do desastre econômico
perpetrado por Stalin e sua megalomania estatista. Depois, Stalin jamais foi
marxista e só foi de esquerda (oportunista) até chegar ao poder (exemplo: nunca
antes neste país...). Lá, usurpou o sonho de vários gerações. Muitos deram suas
vidas por acreditar estarem defendendo a revolução e ainda lutaram contra o que
julgavam ser o jogo da direita (exemplo: fazer vaquinha para pagar a multa do
companheiro José Dirceu e depois carregar seu cadáver político, de boca
fechada).
Os
paralelos com a história política brasileira atual são assustadores. Padura
recriou o Brasil clivado por ideologias de apostilas ao contar a história de
Trostski e seu algoz, Ramón Mercader: as falsas informações plantadas na
imprensa mundial (os amigos dos cães), os supostos complôs (olha o pré-sal aí,
gente), com o objetivo de atiçar na militância ralé (a turminha do Facebook) um
ódio contra o ex-dirigente da Revolução Russa, que passa a apupar sua biografia
sem entender nada do riscado (exemplo: Trotski caiu ao propor uma plataforma
econômica em interação com as forças do mercado. Stalin o satanizou. No poder,
depois de ver seu barco estatal afundar, Stalin praticou... a política
defendida por Trotski, de braço dado com o capital internacional. Você pode
pensar em Dilma/Joaquim Levy e Lula/Henrique Meirelles e não estará errado).
Vale lembrar também que a visão econômica de Stalin era identificada como sendo
nazinacionalista. Stalin era o sonho de Hitler.
As
mentiras urdidas por Stalin repercutiam facilmente. Os intelectuais se calavam.
E quando ousavam... Foi o caso de André Gide, escritor francês e militante de
esquerda. Após visitar a convite a União Soviética em 1936, percebeu a arapuca
e denunciou o engodo. Afinal, acreditava, era seu dever alertar as forças de
esquerda que Stalin era tão-somente um ditador, e nada tinha de progressista (o
Brasil não conhece o Brasil...).
Pobre
Gide. Até então, seu homossexualismo não fora um estorvo nas fileiras da Causa.
Segundo os stalinistas, como se poderia acreditar num escritor que tinha o
hábito de gostar de homens? Era traidor... e gay. Trinta anos depois e milhões
de mortes, Kruschev repetiria o mesmo diagnóstico de Gide. Sabe, o que
aconteceu? A ficha só caiu em 1989, quase 40 anos depois e outras milhares de
mortes.
Miguel De
Almeida é escritor e editor

