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16 março 2023

Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan – Marco Antonio Coutinho Jorge

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Descrição do livro


Introdução didática que esclarece, à luz de Freud e Lacan, os conceitos mais importantes da teoria psicanalítica, entre os quais: pulsão, recalque, sintoma, real-simbólico-imaginário, objeto ‘a’ e sublimação.

Ao desenvolver amplamente os dois eixos principais da psicanálise (sexualidade e linguagem), o autor enfatiza o abandono do funcionamento instintual – produzido pela aquisição da postura ereta, a bipedia – e o conseqüente advento da pulsão como fatores essenciais e fundadores da espécie humana.


FONTE: Lê Livros

26 setembro 2016

“Freud é apenas uma lenda” - MIKKEL BORCH-JACOBSEN



Filósofo e historiador, o professor da Universidade de Washington diz por que considera o pai da psicanálise uma fraude

por Natália Martino
Edição 31.10.2012 - nº 2242

OMISSÃO
"Muitos pacientes de Freud cometeram suicídio e
ele nunca disse uma palavra sobre isso"
, afirma o professor 

O filósofo e historiador Mikkel Borch-Jacobsen não se esquiva de uma polêmica. A última década da sua carreira, dedicada aos estudos sobre a história da psicanálise e da psiquiatria, foi pródiga em livros e opiniões controversas que lhe renderam inimigos entre terapeutas do mundo inteiro. Começou a receber as primeiras críticas severas em 1996 com o lançamento do livro “Anna O. – Uma Mistificação Centenária”, no qual questionava as avaliações de Freud sobre uma das suas principais pacientes. Foi também um dos autores do “Livro Negro da Psicanálise”, uma das obras mais barulhentas já lançadas sobre o assunto. Agora, escreveu “Os Pacientes de Freud”, lançado recentemente no Brasil (Editora Texto e Grafia), no qual reconstrói a trajetória de 31 pacientes de Freud. Na obra, ele conta os motivos que os levaram até o analista e, principalmente, como viveram durante e depois do tratamento. A partir de documentos, como cartas trocadas entre o terapeuta e seus amigos e entrevistas confidenciais feitas com os pacientes de Freud, o autor desconstrói o mito do criador da psicanálise.

"Os medicamentos foram excluídos das histórias que o psicanalista
contou, mas muitos pacientes eram viciados em morfina"

"Como Anna iria se curar se seu analista era o próprio pai do qual
ela deveria se desligar? Parece óbvio, mas ele não percebeu isso"

ISTOÉ –
 O que os relatos que o sr. apresenta em seu livro revelam sobre Freud e a psicanálise?
Mikkel Borch-Jacobsen –
As histórias dos pacientes de Freud foram a base das suas teorias. Quando percebemos que elas são falsas, como vemos ao analisar a vida dos pacientes que descrevo no livro, toda a teoria da psicanálise é abalada. O caso apresentado por Freud como sendo de Anna O., que hoje sabemos tratar-se de Bertha Pappenheim, por exemplo, é considerado um dos mais fundamentais para o desenvolvimento da psicanálise. A paciente tinha sintomas graves de histeria que, supostamente, Freud curou com o método catártico. Mas isso não é verdade. No fim do tratamento, ela já não suportava mais conviver com o problema e foi internada em uma clínica, onde continuou apresentando o mesmo quadro de histeria. Apenas seis ou oito anos depois, Bertha foi considerada curada. Não se sabe como ela se curou, mas é óbvio que não foi com a psicanálise, ninguém se cura por meio de um tratamento finalizado quase uma década antes.  
ISTOÉ –
Os resultados terapêuticos eram insuficientes?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Na maioria dos casos sim. Era comum que as condições dos pacientes piorassem, como no caso de Viktor von Dirsztay, que mais tarde chegou a admitir que a análise o destruiu. Muitos outros dos seus pacientes cometeram suicídio, como Margit Kremzir e Pauline Silberstein. Claro que qualquer terapeuta está sujeito ao risco de suicídio dos seus pacientes, mas a questão é que Freud nunca disse uma palavra sobre isso. 
ISTOÉ –
Ele escondia esses fatos?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Como um bom positivista, Freud sempre afirmou que suas teorias eram baseadas na observação de dados clínicos. Por um longo período, porém, tudo o que sabíamos sobre esses dados se baseava no que ele escolheu nos mostrar. Ao compararmos essas histórias com a realidade, observamos discrepâncias que automaticamente invalidam as conclusões de Freud. Os medicamentos, por exemplo, foram sistematicamente excluídos das histórias que ele contou, mas muitos dos seus pacientes eram viciados em morfina. Hoje é muito claro que a droga teve em alguns casos um papel essencial no tratamento. Freud dizia, por exemplo, que diante dos ataques histéricos de Anna von Lieben, a Cäcilie M. citada em “Estudos sobre a Histeria”, ele conduzia um tratamento hipnótico que a fazia se sentir melhor. O que ele não nos contava é que as crises dela eram causadas por abstinência de drogas e que ela se acalmava quando ele lhe dava uma injeção de morfina. A famosa cura catártica nada mais era do que cura com morfina. 
ISTOÉ –
Os diagnósticos dele são questionáveis?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Sim, os diagnósticos que Freud alegava fazer tão cuidadosamente escancaram discrepâncias entre sua prática real e suas descrições. Quando o pai da jovem Ida Bauer, que Freud eternizou como Dora, a levou até Freud devido a um episódio de asma, o analista instantaneamente diagnosticou neurose. Mas como ele poderia saber? Aquela era a primeira vez que ele a via. Há vários exemplos desse tipo e uma vez que definia seu diagnóstico, Freud o mantinha obstinadamente, mesmo que os fatos mostrassem a ele outro caminho. As consequências dessa postura frequentemente eram bem sérias, como quando Freud forçou Horace Frink a se divorciar da esposa para se casar com a milionára Angelika Bijur para combater a homossexualidade que o paciente negava vigorosamente. 
ISTOÉ –
Freud chegava a dar conselhos tão diretos aos pacientes?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Ele intervia diretamente na vida dos seus pacientes e não hesitou em instigar alguns a se casarem e terem filhos, por exemplo. Foi o que aconteceu com Max Graf e Olga Hönig, os pais do “pequeno Hans” – e o casamento foi um completo desastre. Em outros casos, Freud proibia pacientes de se masturbarem, como no caso da sua filha, Anna Freud. Sempre que essas instruções eram dadas, Freud era a voz da autoridade.  
ISTOÉ –
Ele acreditava que podia tratar a filha? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Freud queria muito ajudar a filha a se desligar dele e isso fica claro em várias cartas que ele escreveu a amigos. Mas a única coisa que ele podia oferecer a ela era a psicanálise, o que, obviamente, era a coisa mais estúpida que ele poderia fazer. Como ela conseguiria se curar se sua única ajuda era de um analista que era o próprio pai do qual ela deveria se desligar? Por mais óbvio que pareça, Freud não percebeu isso. Não estou dizendo que ele abusou da filha, de jeito nenhum, ele a amava. Mas estava tão convencido de que sabia como ajudá-la que não permitiu que ela se libertasse dele. 
ISTOÉ –
Para Freud, a psicanálise sempre funcionava? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Sim, claro, ele acreditava que havia descoberto a cura para as doenças mentais. Freud tinha suposições teóricas que o impediam de ver o que estava acontecendo. Ele estava tão convencido de que a terapia funcionava que, quando ela não dava certo, ele simplesmente achava que era necessário ir mais fundo no inconsciente. Só no fim da sua vida, em seus últimos artigos, ele admitiu que os métodos eram inconclusivos em alguns casos. 
ISTOÉ –
Mas em algum momento ele foi deliberadamente negligente ou desumano com seus pacientes?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Sim, a forma como ele sacrificava seus pacientes no altar das suas teorias é vergonhosa. Marie von Ferstel, por exemplo. Ela era uma mulher rica que sofria de fobias e de constipação. Freud disse a ela que, para resolver esses problemas, ela teria que aprender a se desapegar, por exemplo, do dinheiro. O que ela fez? Transferiu para ele o título de uma das suas propriedades, que ele prontamente vendeu. Eu acho isso imperdoável. Freud simplesmente não era uma pessoa admirável. 
ISTOÉ –
De que forma essas revelações atingem a psicanálise hoje?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Não vejo como salvar a psicanálise diante de tudo isso. Eu sei que muitas pessoas admiram Freud como um pensador independentemente das vicissitudes de sua prática. Também acho que ele era um gênio, tinha ideias realmente incríveis. Mas as suas teorias são contraditórias demais às suas práticas para serem levadas a sério. 
ISTOÉ –
O sr. aponta essas contradições em 31 casos e Freud atendeu pelo menos cinco vezes mais pacientes. Não poderia ser coincidência?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Uma das minhas principais fontes de pesquisa foram as entrevistas com pacientes de Freud conduzidas por Kurt Eissler, que era secretário do Arquivos de Freud. Esse material ficou inacessível até 1999, quando Eissler morreu e, a partir daí, começou a ser colocado em domínio público, processo que só deve acabar em 2057. Eissler tinha enorme interesse em defender a memória do pai da psicanálise e se essas entrevistas fossem positivas não teriam sido tornadas confidenciais. Muita coisa ainda será revelada, possivelmente conseguiremos rastrear outros pacientes, mas não acho que as novas histórias irão contradizer as estatísticas que já temos.
ISTOÉ –
Muitas pessoas afirmam hoje ter encontrado conforto na psicanálise. Não há nenhum valor nisso?  
Mikkel Borch-Jacobsen –
No meu ponto de vista, neuroses, como histeria e obsessão, não são doenças mentais, são pedidos de socorro. A análise cumpre, nesses casos, o papel que a religião cumpria antes. As pessoas iam até o padre para buscar respostas e as encontravam. Qualquer uma das centenas de tipos de psicoterapias que existem hoje pode cumprir esse papel. Reconheço que, em alguns casos, pessoas com problemas pessoais podem encontrar conforto no divã. 
ISTOÉ –
Mas seus livros parecem tentar destruir a psicanálise.
Mikkel Borch-Jacobsen –
Eu sou um acadêmico e meu único interesse é separar as verdades das lendas. Freud é apenas uma lenda. Ele reescreveu a história de acordo com seus propósitos pessoais.
ISTOÉ –
Essa sua postura crítica em relação à psicanálise acompanhou toda a sua carreira? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Não, no início eu era simpático à psicanálise e tinha interesse especial na escola Lacaniana. 
ISTOÉ –
E o que essa mudança significou profissionalmente? 
Mikkel Borch-Jacobsen –
Eu era constantemente convidado para conferências e para escrever artigos em revistas até que eu publiquei meu primeiro livro mais crítico sobre Freud. A partir desse momento, não fui mais convidado para nada. Não se pode ser crítico à psicanálise sem sofrer as consequências disso. 
ISTOÉ –
O sr. também estudou a psiquiatria. Acredita que esse é um caminho mais válido para tratar doenças mentais?
Mikkel Borch-Jacobsen –
A psiquiatria não é uma teoria única, mas, de forma geral, fez enormes progressos, como se vê, por exemplo, nos diagnósticos de esquizofrenia, depressão e outras doenças. Do ponto de vista da cura, porém, ela não avançou. Temos várias drogas hoje que nos permitem controlar certos sintomas das doenças mentais, mas ainda não há cura para elas e nem mesmo se conhece suas causas. A psiquiatria tenta encontrar soluções, mas ainda não foi bem-sucedida. 
ISTOÉ –
Qual é o próximo mito que o sr. pretende desbancar?
Mikkel Borch-Jacobsen –
Agora estou estudando a indústria farmacêutica. Sou muito crítico com as drogas psiquiátricas e, por isso, estou pesquisando esse universo do ponto de vista histórico.  

12 fevereiro 2015

FREUD ESTÁ VIVO (12/03/2003, Páginas Amarelas de VEJA)




Editor de nova tradução da obra de Freud diz que a psicanálise funciona, mas precisa se libertar do controle dos iniciados. reportagem de Jerônimo Teixeira, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do dia 12 de março de 2003.

Por Eduardo Salgado






O inglês Adam Phillips, de 48 anos, tem se dedicado a uma tarefa histórica: a organização da segunda tradução do alemão para o inglês da obra de Sigmund Freud. O primeiro volume da nova versão saiu no ano passado e, até o fim de 2004, serão publicados mais de dois terços do trabalho do pai da psicanálise. Um dos psicanalistas mais influentes da Inglaterra, Phillips pretende corrigir os erros e os excessos cometidos pela primeira tradução, a que popularizou as ideias de Freud não apenas nos países de língua inglesa, mas também na Europa e na América Latina. Ele promete ser fiel ao estilo do original de Freud – que, garante, é mais acessível que o da tradução tradicional. Com isso, quer libertar a psicanálise do establishment médico. Autor de dez livros e reconhecido como um dos grandes ensaístas de sua geração, Phillips trabalhou no sistema de saúde inglês durante dezessete anos. Separado e pai de uma menina de 8 anos, hoje atende apenas em um consultório localizado no charmoso bairro de Notting Hill, em Londres, de onde deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Freud criou o termo “psicanálise” no século XIX. Tudo o que ele escreveu ainda faz sentido?

Phillips – Não. Várias coisas que ele disse não têm valor hoje. Freud acreditava, por exemplo, que a sexualidade das mulheres é mais misteriosa que a dos homens. No entanto, essas generalizações imprecisas não invalidam toda a obra. Apenas reforçam a necessidade de tirá-lo do altar em que foi colocado.

Veja – Quem foi Freud? Um cientista, um escritor ou um charlatão?

Phillips – Foi um escritor que aspirava ser um cientista. Freud descobriu algo importante e decidiu legitimar essa descoberta usando o critério científico, que então era dominante. Essa tarefa se mostrou impossível. Não há como testar ou checar a existência do inconsciente. Não tem ninguém que possa testemunhar o sonho alheio. É uma criação solitária. A ciência depende da reprodução de experiências, e isso não é possível na psicanálise.

Veja – Por que houve a necessidade de uma nova tradução do trabalho de Freud?

Phillips – A primeira tradução do alemão para o inglês foi feita por James Strachey, com a ajuda de Anna, a filha de Freud. Começou a ser publicada nos anos 50 e foi a principal responsável pela polarização da psicanálise em todo o mundo. O grande problema é que essa edição, chamada de standard, acabou recebendo o tratamento de texto sagrado. Acho que Strachey é maravilhoso, mas ele cometeu alguns deslizes. O texto original é mais acessível que a versão em inglês. Há pouco jargão no original. Strachey tentou fazer um texto com termos mais científicos porque buscava a legitimidade do meio médico. Sempre existiu o receio de que a psicanálise soasse meio mística e artística. Os termos “ego”, “superego” e “id”, que fazem parte dos conceitos básicos da psicanálise, são de Strachey. No texto em alemão, Freud usou palavras corriqueiras, como “eu”, “supereu” e “isso”.

Veja – Essas diferenças são tão importantes assim?

Phillips – São, sim. Chegou a hora de libertar Freud do establishment médico e das universidades. A psicanálise tornou-se um culto misterioso entendido e dominado apenas pelos iniciados. Não há necessidade para isso. Agora, pessoas de vários setores podem ler, entender e debater as ideias de Freud. Como a psicanálise é uma cura pela linguagem, as palavras são muito importantes.

Veja – Strachey não estava certo em tentar fazer da psicanálise algo mais científico para que ela fosse aceita?

Phillips – Por um lado, sim. Dá para fazer uma comparação com um imigrante, que precisa assimilar a cultura legitimadora. Mas, por outro lado, a herança de Freud foi dominada pelo establishment médico, o que limitou as contribuições de vários outros grupos dentro da sociedade. Na Inglaterra, muitos escritores e pintores da turma de Virginia Woolf se interessaram pelo assunto. O problema é que o trabalho de Freud tornou-se prisioneiro da própria respeitabilidade que adquiriu. A psicanálise não é propriedade de ninguém.

Veja – Por que o número de cirurgias plásticas e implantes de silicone não para de aumentar?

Phillips – Hoje as pessoas têm mais medo de morrer do que no passado. Há uma preocupação desmedida com o envelhecimento, com acidentes e doenças. É como se o mundo pudesse existir sem essas coisas. Há uma enorme sensação de invisibilidade. Todo mundo acha que ficou de fora de algo, mas não sabe do que exatamente. É como se sempre houvesse uma festa imperdível em algum lugar e ninguém conseguisse encontrar o local. A obsessão por beleza reflete a necessidade de ser amado e aceito.

Veja – Essa necessidade é maior hoje do que era no passado?

Phillips – Na cultura atual, parece que há apenas dez pessoas que estão vivendo. São as celebridades. O resto encontra-se num nível bem mais baixo. Isso tudo é um absurdo sem tamanho. A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser inVejada. Esse estado de coisas deixa muita gente enfurecida e infeliz.

Veja – Por que mulheres e homens parecem totalmente obcecados por dietas de emagrecimento e exercícios?

Phillips – É uma nova versão do que Freud chamou de histeria. Mas, desde que ele escreveu sobre o assunto, as coisas pioraram. Todos devem estar se sentindo muito enfermos e vulneráveis para se preocupar de forma tão doentia com a saúde. O sexo é outro assunto preocupante. Hoje todo mundo fala de sexo, mas ninguém diz nada interessante. É uma conversa estereotipada atrás da outra. Vemos exageros até com crianças, que aprendem danças sensuais e são expostas ao assunto muito cedo. Estamos cada vez mais infelizes e desesperados com o estilo de vida que levamos.

Veja – Isso tem relação com o número de casos de depressão?

Phillips Muitas pessoas conseguem suportar o mundo contemporâneo apenas num estado de depressão. Se não estivessem assim, ficariam enfurecidas e tentariam mudar o mundo. Hoje trabalhamos e produzimos numa velocidade que impede a reflexão sobre o significado de nossa vida. Estamos hipnotizados. Vivemos em sociedades em que é mais importante ser rico do que ter amigos íntimos, mais importante ser famoso do que amar. Isso é enlouquecedor. Estamos todos muito sós e famintos de contatos eróticos que sejam genuinamente criativos.

Veja O que é depressão?

Phillips Para muita gente, é melhor estar quase morto que totalmente vibrante diante de uma situação difícil. A depressão funciona como um escudo para evitar situações conflituosas. Esse tipo de comportamento certamente aumentou. Dito isso, sofremos de outro tipo de problema. É a indústria do diagnóstico. Nos consultórios, qualquer tristeza é chamada de depressão.

Veja Recentemente, pesquisadores americanos afirmaram ter encontrado uma parte do cérebro que comprova a existência do inconsciente. A ciência irá um dia validar as idéias de Freud?

Phillips Não há como. A busca por uma explicação científica é uma distração. O que Freud descreve é um tipo diferente de experiência. A psicanálise é uma prática de falar e escutar. Trata dos problemas enfrentados pelas pessoas no dia-a-dia. Uma das questões centrais é: o que faz a vida valer a pena? Como acabou fazendo parte da tradição médica, a psicanálise parece ter o poder de curar doenças. Mas não é bem assim. O objetivo é ajudar as pessoas a descobrir o que desejam. Em alguns casos, como nas fobias, pode realmente acabar com os sintomas. Em outros, o paciente toma consciência do problema e descobre uma maneira de conviver com ele. Esse trabalho tem relação direta com a individualidade e com a história de cada paciente. É a ciência da singularidade. Funciona com algumas pessoas e não exerce efeito positivo em outras.

Veja – Muitas crianças têm agenda lotada de compromissos. Há tempo para ser criança no mundo atual?

Phillips Com certeza, não. As crianças entram na corrida pelo sucesso muito cedo e ficam sem tempo para sonhar. Há grande ansiedade da parte dos pais em relação ao futuro. Essa pressão está literalmente enlouquecendo muitas crianças. A decisão sobre a profissão está acontecendo cada vez mais cedo. No século XIV, se as pessoas fossem perguntadas sobre o que queriam da vida, diriam que buscavam a salvação divina. Hoje a resposta é: "ser rico e famoso". Existe uma espécie de culto que faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem da vida.

Veja Do ponto de vista dos pais, não é legítimo o desejo de sucesso e riqueza para os filhos?

Phillips Claro. Não acho que as crianças deveriam ser educadas para se tornar revolucionárias. Mas é possível melhorar o que temos. Os pais devem ter como objetivo garantir o futuro de seus filhos e, ao mesmo tempo, deixá-los mais à vontade, com mais tempo e espaço para ser menos focados, menos objetivos. Adiar as decisões sobre o futuro, dar tempo ao tempo.

Veja O senhor consegue atingir esse equilíbrio com sua filha de 8 anos?

Phillips Acho que sim. Não fico tentando entender tudo que minha filha faz e diz. Estou mais preocupado em que se divirta. Não acredito num planejamento milimétrico para o futuro de uma criança, como se tudo pudesse ser programado.

Veja Há alguns anos se fala da necessidade de dar limites aos filhos. Por que os pais acham essa tarefa tão difícil?

Phillips É assim porque os pais não acreditam nos limites. É preciso acreditar neles para que funcionem. A cultura em que vivemos não facilita esse trabalho. Os pais criam limites que a cultura não sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam controlar a dieta dos filhos dizendo que é mais saudável comer verduras do que salgadinhos enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos adolescentes. Muitos pais procuram argumentar que é necessário ter um comportamento responsável enquanto a mídia diz que não há limites.

Veja Como os pais podem resolver esse problema?

Phillips Resolver o problema é algo muito ambicioso. O que podemos fazer é instruir as crianças a interpretar a cultura em que vivemos. O que está a nosso alcance é ensiná-los a ser críticos. Mostrar que as propagandas não são ordens e devem ser analisadas. Será que realmente precisamos de tal coisa? Será que é a melhor opção? Será que tal comportamento é o melhor? Outro problema é a incapacidade dos adultos de ser adultos. Os pais também devem aprender a ser odiados pelos filhos em algumas ocasiões. Muitas pessoas têm filhos porque acham que o nascimento deles é uma garantia de que serão amados de forma incondicional e eterna. Por isso, têm receio do ódio e da desaprovação deles. Tratam crianças como se fossem adultos. Uma coisa precisa ficar clara de uma vez por todas: embora reclamem, as crianças dependem do controle dos adultos. Quando não têm esse controle, sentem-se completamente poderosas, mas ao mesmo tempo perdidas. Hoje há muitos pais com medo dos próprios filhos.

Veja Por que a psicanálise é tão popular na América Latina e tão pouco disseminada na Ásia?

Phillips Imagino que na Ásia o problema seja a religiosidade dos povos. As idéias de Freud vão radicalmente contra a pregação do hinduísmo, do islamismo e do budismo. Isso faz com que a assimilação seja muito complicada. Sobre o sucesso na América Latina, não tenho certeza. Talvez tenha a ver com fatores como a colonização européia e a instabilidade política.

Veja Os remédios e as terapias alternativas estão acabando com a psicanálise?

Phillips A psicanálise está apenas começando. A experiência de ser ouvido é muito poderosa. Definitivamente, tem efeito benéfico. É verdade que num mundo ideal ninguém precisaria de analista. O diálogo com os amigos daria conta do recado. O problema é que não temos a coragem de contar certas coisas aos amigos. Outras podemos até contar, mas os amigos não sabem como ajudar.  

Veja Os amigos, pelo menos, não cobram uma exorbitância para ouvir, não é verdade?

Phillips Essa crítica é totalmente válida. Ninguém deveria escolher a profissão de psicanalista para enriquecer. Os preços das sessões deveriam ser baixos e o serviço, acessível. Deve-se desconfiar de analistas caros. A psicanálise não pode ser medida pelo padrão consumista, do tipo "se um produto é caro, então é bom". Todos precisam de um espaço para falar e refletir sobre sua vida. 

FONTE: Acervo Veja




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