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30 janeiro 2022

O peido (Rubem Fonseca)


 

Sei que peido é um tabuísmo, id est, palavra, locução ou acepção tabus, consideradas chulas, grosseiras ou ofensivas demais na maioria dos contextos. Mas vou chamar de quê? Flato? Flatulência é ar ou gás expelido através de qualquer orifício do corpo. Ou seja, o arroto é uma flatulência.

No clássico A arte de dar peidos, publicado pela primeira vez em 1751, Pierre-Thomas[1]Nicolas Hurtaut explica coisas como a diferença entre o peido e o arroto.

O peido sai pelo ânus, no que difere do arroto, que, apesar de formado de matéria idêntica, mas no estômago, escapa pelo alto, devido à proximidade de saída, ou porque a dureza e a repleção do ventre, ou quaisquer outras causas, não lhe permitem dirigir-se para as vias inferiores.



Hurtaut fala ainda de ventosidades coliquativas, do murmúrio e do burburinho do ventre, um texto complicado. Ele diz amar o peido, cuja causa final pode ser a saúde do corpo desejada pela natureza ou um deleite proporcionado pela arte, a arte de peidar, evidentemente.

Não participo do grupo que acredita que peidar é uma arte. Mas confesso que gosto de peidar. Sempre gostei. E os mais odoríferos, os que exalam um cheiro mais agradável, são os noturnos, quando estou deitado: eu fruo com um prazer inebriante o aroma, a fragrância que se exala de dentro do lençol.

Não há quem não ame o perfume do próprio peido. Mas todos odeiam o das outras pessoas, acham-no de um fedor desagradável, insuportável mesmo. Até o dos respectivos consortes, com quem invariavelmente dividem o mesmo lençol. Isso é uma irrefutável prova do nosso egoísmo: o que é nosso é sempre bom, pode ser um peido ou uma xícara de café; o que é dos outros é sempre ruim, pode ser um peido ou uma xícara de café.

 

Fonte: Histórias Curtas (Rubem Fonseca)

05 novembro 2019

Histórias Curtas – Rubem Fonseca





Descrição do livro

Rubem Fonseca completa noventa anos em 2015, mas quem pensa que ele pretende dar uma pausa para descansar está muito enganado. Só para dar uma ideia, Rubem publicou 12 livros nos últimos 15 anos, e sua produção continua vigorosa. Depois de Amálgama, publicado em 2013 e laureado com o Jabuti de Melhor Livro de Contos no ano seguinte, o autor vem agora com Histórias curtas, uma coletânea com 38 contos inéditos. Em seu novo livro, Rubem faz referências aos temas clássicos de sua escrita, como a violência e o erotismo, mas também explora facetas até então não tão recorrentes em sua obra. A velhice e a degeneração da mente, por exemplo, são tratadas em muitos contos do novo livro, ora com irreverência, ora com profundidade dramática. As histórias são as mais variadas possíveis, e a única regra que conduz todas narrativas já se explica no título: são histórias curtas. Mas nem é preciso dizer que tamanho, ainda mais no catálogo de um gigante da nossa literatura, não é documento.





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