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02 agosto 2020

Reminiscências de viagens e permanências … (Daniel Kidder)


Piancó

[ Piancó ] - PB
1839



Trecho da Obra:
         Pouco antes de visitarmos Pernambuco, deram-se lamentáveis ocorrências no interior da província, evidenciando que o fanatismo, nas suas piores modalidades, não se restringe aos países protestantes. É possível que os fatos que passaremos a narrar, extraídos de documentos oficiais, não encontrem símile nem na história, nem na mitologia. Para que o leitor possa compreendê-los bem, lembraremos que ainda existe em Portugal e até certo ponto, também no Brasil, uma seita denominada dos Sebastianistas. O dogma fundamental dessa seita é que D. Sebastião, Rei de Portugal, que em 1577 empreendera uma expedição contra os mouros, na África, da qual jamais voltou, vive ainda e algum dia reaparecerá na Terra. Número sem conta de profecias, sonhos e interpretações de fatos maravilhosos confirmam essa crença e, divulgados com a sanção do clero, muita gente os aceita sem vacilação. Nem tem faltado, em períodos diversos, quem se proponha a cumprir as profecias, fazendo-se passar pelo verdadeiro D. Sebastião. 

        Contudo, o ponto principal da crença é que o rei voltará, vivo ainda, sem jamais ter morrido. Os portugueses esperam o seu reaparecimento em Lisboa, mas os brasileiros acham mais natural que ele venha ter, em primeiro lugar, à sua cidade de São Sebastião. 

        Entretanto, certo espertalhão sem escrúpulos, de nome João Antônio, instalou-se em recanto afastado da Província de Pernambuco, próximo a Piancó, Comarca de Flores, à espera da volta de D. Sebastião. O local em questão estava situado dentro de uma floresta onde havia duas cavernas. A isso o impostor chamou de reino encantado, próximo a se desencantar, quando então D. Sebastião apareceria à frente de um exército, coberto de glória e poder para dar a riqueza e a felicidade a todos que, na expectativa de seu regresso, se associassem ao tal João Antônio. 

        Como era de esperar, o fanático logo conseguiu prosélitos que dentro em pouco se convenceram de que o reino imaginário só se desencantaria quando regado com o sangue de uma centena de crianças inocentes! Na falta de crianças, homens e mulheres deveriam ser imolados. As vítimas, porém, ressuscitariam depois de alguns dias e entrariam na posse de enormes riquezas. Ao que parece o profeta não teve coragem para levar a cabo seu plano sanguinário, mas delegou poderes a um de seus asseclas, chamado João Fernandes, que tomando o título de "sua santidade", pôs um ramo verde sobre a cabeça e abrigou seus fiéis a lhe beijarem os pés, sob pena de morte. [109] Depois de numerosas cenas por demais horríveis para serem aqui reproduzidas, começou ele a matança de seres humanos. Cada chefe de família era obrigado a oferecer um ou dois de seus filhos. Em vão as crianças choravam e suplicavam que as não matassem. Os pais desnaturados respondiam-lhes; "não, meu filho, não há remédio" e ofereciam os inocentes, à força. No curto espaço de dois dias João Antônio havia assim assassinado, a frio, vinte e um adultos e vinte crianças, quando um irmão do profeta, invejoso de "sua santidade", assassinou-o e tomou seu lugar. Foi então que alguém conseguiu fugir e comunicar às autoridades a horrível tragédia. 

        Enviou-se força ao local, mas os enfatuados sebastianistas nada temiam e pregavam aos seus apaniguados que, se fossem atacados, seria esse o sinal da restauração do reino, a ressurreição dos mortos e a destruição de seus inimigos. Portanto, quando perceberam a aproximação da tropa, atiraram-se contra ela desafiando-a, matando cinco dos que vinham em seu socorro e ferindo outros, antes que pudessem ser subjugados. Entretanto, não se renderam enquanto vinte e nove fanáticos, entre os quais três mulheres, não foram mortos. As esposas, vendo seus maridos morrerem a seus pés, não procuravam fugir, antes gritavam "chegou o tempo; viva, viva, é chegado o tempo!!!" Dos que sobreviveram, poucos fugiram para o mato, os demais se deixaram aprisionar. Verificou-se, depois, que as vítimas desse horrível fanatismo nem ao menos enterravam os corpos de seus filhos e parentes mortos, tão certos estavam elas de sua ressurreição imediata. [110]


KIDDER, Daniel. Reminiscências de viagens e permanências … Editora Itatiaia limitada; Editora da Universidade de São Paulo, 1980,  109-110. Obra(s) relacionada(s): https://digital.bbm.usp.br/browse?type=author&value=Kidder%2C+Daniel+P.%2C+1815-1891

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