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30 abril 2024

TRANSTEXTUALIDADE ENTRE SÓFOCLES E OVÍDIO: virtude e ira na caracterização de Ájax

TRANSTEXTUALIDADE ENTRE SÓFOCLES E OVÍDIO: virtude e ira na caracterização de Ájax  

INTRODUÇÃO

Há muito se procura por um conceito que defina Mito, mas todas as tentativas convergem eventualmente para uma mesma particularidade, a narrativa, no sentido de história elaborada pelo ato de narrar. Mário Vegetti nos mostra ao menos um parâmetro para discernir as narrativas míticas dos gêneros literários como épica, lírica e tragédia entre os povos antigos, ainda, que, atualmente, tal perspectiva seja considerada dentro de certos limites. Para este autor, as narrativas míticas em torno das divindades e das forças invisíveis e sobrenaturais, que estão presentes no universo e que também o governam, são relatos anônimos, repetidos, passados de geração em geração que funcionam como "uma espécie de catálogo do imaginário religioso" (1994, p. 37), ganhando força exatamente devido ao seu aspecto coletivo e impessoal, que, de caráter sagrado, remonta às origens de seu povo atravessando o tempo e o espaço. Com efeito, devemos ainda evidenciar que o mito é uma “narrativa aplicada como verbalização de dados complexos, supra-individuais, coletivamente importantes” (BURKERT, 1991, p. 18), e isso significa dizer que ele é o saber através de histórias. Esse conhecimento guardado nas narrativas era fundamental, sobretudo, para os gregos e romanos da Antiguidade, no entanto, o imaginário que o detinha era, de certa maneira, desordenado e caótico. É a intervenção da literatura, sobretudo da épica, que produz uma seleção e um ordenamento capaz de reforçar a conservação do caráter fundamental desses relatos, o modo narrativo com o qual um determinado povo comunica e transmite o conhecimento presente em sua cultura (VEGETTI, 1994, p. 37).

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09 julho 2023

DISCURSO DE AFRANIO COUTINHO – 12/06/1975


Palavras em Sessão do Conselho Universitário I (1975)

Palavras proferidas pelo Professor Afrânio Coutinho em sessão do Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a 12 de junho de 1975. Mais uma vez, neste discurso, podemos observar a combatividade que o Professor Afrânio Coutinho sempre demonstrou, característica marcante de sua personalidade, ao lutar para conseguir autonomia e salários dignos para a classe dos professores universitários.

Magnífico reitor: [1]

Vou reiterar agora palavras de alguns meses atrás neste egrégio conselho. Trata-se do problema do salário do magistério, problema grave para a comunidade universitária brasileira. Há pouco, soube que um professor português, desejoso de expatriar-se em face da situação política de seu país[2], conseguiu um contrato de 40 horas e dedicação exclusiva numa das universidades que compõe a Universidade de São Paulo no interior do estado, com o salário mensal de Cr$ 17.500,00[3]. Ele mesmo ficou espantado, pois nem o presidente da República de seu país aufere tal ordenado.

Ora, foi-nos acenado, quero dizer os professores que formam o corpo docente das universidades federais, com uma promessa de reclassificação e reajuste salarial à altura de nossas responsabilidades e deveres, e, em verdade, o que afinal veio a concretizar-se foi um verdadeiro parto de montanha.[4] Há dias, foi-me mostrado o contracheque de um dos nossos mais gloriosos catedráticos aposentados: era de 4 mil cruzeiros[5] a sua pensão. Pasme-se! Ridículo e humilhante que um homem leve a vida em dedicação de uma instituição, dando-lhe o máximo de seus esforços e talentos, e acabe com recompensa ridícula desta sorte!

            Eu não quero absolutamente dizer que discordo ou condeno o que faz São Paulo. Isto é que é o certo. Apenas está-se criando no País um verdadeiro mandarinato universitário que causa um desalento aos membros dos demais corpos docentes. Desalento e uma tendência a grande número correr para lá em busca de uma vida financeira compensadora e gratificante.

            Na realidade, nós somos culpados por essa situação de desprestígio das universidades brasileiras. Nosso professorado não é dotado de autonomia mental. Em geral, foram aproveitados no momento da federalização homens sem formação universitária, em grande parte humildes, submissos, sem o devido espírito de reivindicação pacífica para falar aos governos e defender as suas prerrogativas. Por isso, nossas universidades não têm autonomia, senão no papel. Não temos uma política financeira própria, uma política administrativa própria, uma política jurídica própria, uma política pedagógica própria. Somos caudatários dos órgãos do Governo Federal, cujos chefes nos dão o mesmo tratamento que aos funcionários burocráticos. Não compreendem o nosso papel. Daí que não se cria um espírito profissional em nossas universidades. Somos amadores, para os quais o cargo de magistério não passa de um bico, permitindo que possamos ganhar o nosso adequado sustento em outras atividades fora das universidades. Do contrário, não poderíamos viver, pois o salário que recebemos é de fome.

            Há tempos, neste conselho, o Professor Moniz de Aragão[6] sugeriu uma reunião especial do conselho de reitores[7] para defender junto ao Governo a nossa posição no que concerne a salário.

O fato é que somos realmente muito mal tratados. E o pior é que nós, os mais velhos[8], desta forma não temos autoridade junto aos mais moços para cobrar trabalho. É geral a justificativa quando procura um diretor fazer cumprir as exigências de carga horária da COPERTIDE[9]. Dizem então os que gostam de aparecer como bonzinhos: para que isso, o professor é um pobre coitado que ganha tão pouco, para que afligi-lo com exigências dessa natureza?

            Nós estamos, magnífico reitor, neste momento, segundo minhas antenas podem captar, atravessando um grande perigo. Estamos vendo as hostes da subversão, incutidas por propaganda sutil, novamente se aliciando. Cargos importantes foram ocupados. A palavra de ordem é o combate ao que eles chamam de “cultura burguesa”, para eles uma cultura decadente, a dying culture para empregar a expressão de um teórico marxista inglês.[10] Cultura burguesa significa, para eles, a cultura que designam também como “cultura acadêmica”, a cultura abstrata e a erudição, as artes e letras e a filosofia, que constituem o patrimônio cultural do Ocidente desde a Grécia e os judeus. Condenam essa cultura, que formou desde os antigos a essência da educação liberal e da formação humana. O que lhes importa são as formas de cultura popular e as expressões de comunidade.

            Cito uma passagem de um artigo de Joseph Lelyveld, publicado em O Estado de S. Paulo, de 8 de junho de 1975:

Com o firme objetivo de afastar os “elementos burgueses” das escolas e das profissões, a China está recompondo ativamente suas instituições educativas de nível superior. Tudo o que possa indicar um exercício intelectual abstrato ou uma erudição sem finalidade prática foi rebaixado, a favor do aprendizado ideológico e da tecnologia prática com imediata aplicação na vida agrícola e no trabalho intelectual.

Não nego que sejam importantes. Mas exaltá-las em detrimento da cultura intelectual tradicional é um contrassenso. Não teremos desenvolvimento tecnológico, industrial e agrícola, como eles pregam, sem a formação humana, feita à custa da cultura humanística. O nosso objetivo, o objetivo da educação deve ser conciliar as duas formas, aproveitando a contribuição popular e incorporando-a à cultura geral. Foi isto que fizeram os grandes gênios da humanidade.

            Outro aspecto dessa tática insidiosa é o que eu chamo a “rebelião dos sargentos universitários”, isto é, a rebelião dos professores dos escalões inferiores contra os da alta hierarquia, especialmente os catedráticos e diretores. Foi um erro a lei retirar prerrogativas de comando universitário dos escalões superiores e mesmo a diminuição da própria situação de catedrático[11]. Ninguém chega a catedrático de graça, mas à custa de um conjunto de qualidades que não se inventam, não se improvisam, nem se fazem da noite para o dia. Erro igual seria a ruptura da hierarquia militar. No entanto, foi feita essa ruptura na hierarquia universitária. E isso é além de incompreensível, de funestas consequências. Não se deduza que sou contra os jovens professores. Eles constituem legitimamente a base da vida universitária. E eu tenho dado o exemplo desse apreço na Faculdade de Letras, onde reuni um grande número de jovens professores. Mas eles necessitam da orientação superior.

Mas, pergunto eu, como iremos combater essa infiltração sutil da propaganda subversiva, se não temos autoridade, quando eles dizem que a civilização burguesa trata mal os representantes da cultura, os professores e intelectuais em geral?

Confesso, magnífico reitor, minhas apreensões. Estou dentro de um foco importante que é uma comunidade de professores e alunos de mais de 2.500 pessoas. E estou apreensivo ante o que venho observando. Não sou infenso às reformas sociais. Mas repudio os métodos violentos de alcançá-las, tal como é pregado pelos extremismos.

FONTE: “Discursos de Afrânio Coutinho”, Coleção Afrânio Coutinho, ABL, Rio de Janeiro: 2011, págs. 289 a 293.



NOTAS DO TIO CELO, EM 09 DE JULHO DE 2023.


[1] O reitor, de 1973 a 1977 foi o médico e professor Hélio Fraga (FONTE: CPDOC-FGV).
[2]  Período da Revolução dos Cravos, em Portugal. Em 12/06/1975, data do discurso de Afrânio Coutinho, quem governava Portugal era o general Costa Gomes. Como Costa Gomes era manso e conciliador e assumira em 28/09/1974, provavelmente o professor português mencionado tenha vindo ao Brasil no governo António de Spínola (de presidência curta) ou um pouco antes, nos estertores da Revolução dos Cravos.
[3] O salário mínimo vigente (desde 01/05/1975) era de Cr$ 532,80 (Decreto 75.679/75). O Brasil era governado pelo general Ernesto Geisel (Leia a entrevista do presidente Geisel a uma televisão francesa). Em valores de 09/07/2023, o salário atualizado é de R$ 1.320,00O professor português estaria ganhando, na USP, hoje, o equivalente a R$ 62.933,06 (cálculos feitos pelo índice IGP-DI), ou 32 salários mínimos da época (em salário mínimo atual seriam aproximadamente R$ 42.000,00. Neste ponto, ele compara o altíssimo salário da USP comparado ao salário da UFRJ. Em 1975, um Opala custava 64 mil cruzeiros.
[4] Fábula de Esopo. Leia aqui: http://metaforas.com.br/o-parto-da-montanha .
[5] O que, pelo cálculo esboçado na nota 3, equivaleria hoje a R$ 14.384,70. Ora, o professor ganhava, então, 7,5 salários mínimos. Nesta medida, para a realidade de 2023, o valor (presumidamente líquido) seria de R$ 9.900,00. Então, escolha: atualize pelo IGP-DI ou pelo valor do salário mínimo. Em todo o caso, pode parecer baixo para um docente de tal quilate, mas dá pra pagar as contas. O problema, hoje, são os altos salários do Ministério Público e do Judiciário, tanto na esfera federal, quanto na estadual.
[7] CRUB – Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, criado em 30 de abril de 1966.
[8] Na data do discurso, Afrânio Coutinho tinha 64 anos de idade.
[9] COPERTIDE - Comissão Permanente do Regime de Dedicação Exclusiva, a ser instituída em cada universidade, de acordo com o art. 19, caput, da Lei 5.539, de 27/11/1968.
[10] Christopher Caudwell (1907-1937), que escreveu “Studies in a Dying Culture”.
[11] Talvez uma referência ao Decreto-Lei 464, de 11.2.1969, que emendou a Lei 5.540, de 28.11.1968.




24 fevereiro 2020

Homero morreu, Vergílio também e eu já não me estou a sentir nada bem…

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Dante e Virgílio, óleo sobre tela, 281x 225 cm, 1850. Conservada no Musée d’Orsay, Paris, França.

Vivemos um tempo de sonoras proclamações, fictícios identitarismos e abundantes protestos. E muitas indignações pessoais. Um tempo de piegas com voz grossa.


Pedro Gomes Sanches


Leio no The Telegraph que a Universidade de Oxford se prepara para remover Homero e Vergílio do curriculum obrigatório do curso de Estudos Clássicos. A bem da diversidade, segundo parece. Fazem bem. Afinal quem é que hoje em dia quer aprender o que quer que seja com homens, brancos e ocidentais? Quem, para além da encantadora Daisy Florence Dunn, claro. Esta jovem e respeitada classista diz que a decisão é uma “ideia terrível”; que é como “remover a Bíblia do estudo de Teologia”. Perdão?! A Bíblia? Rio da ingenuidade da Daisy. Não, não rio. Choro, ao seu lado, da zombaria que o seu estertor motivará na turba. E segredo-lhe ao ouvido que use antes as pérolas à volta do pescoço, no lugar de as lançar aos porcos.
Por falar em porcos, ou em comida melhor dizendo: no ano passado, em Cambridge, um grupo de alunos vegetarianos e vegans sentiram-se importunados com a presença, na sala de refeições, de um quadro do sec. XVII do flamengo Frans Snyders. O quadro é O Mercado das Aves e a bicharada morta retratada numa banca incomodou as sensíveis criaturas. O quadro foi removido e a chacina dos vegetais pôde prosseguir. Por cá, no mesmo comprimento de onda (curta), o sr. Reitor da Universidade de Coimbra também poupou as vaquinhas.
Vivemos um tempo de sonoras proclamações, fictícios identitarismos e abundantes protestos. E muitas indignações pessoais. Um tempo de piegas com voz grossa. Tudo regado a emoções, que é o mesmo que dizer, em matéria de debate público, uma gigantesca fogueira regada a gasolina, de fazer inveja ao Grande Inquisidor.
Vale a pena perguntar como é que chegámos aqui. Depois de séculos de avanços admiráveis na ciência, na filosofia, nas artes e na política. Séculos que nos trouxeram, como pequenos anões alcandorados nas costas de gigantes, ao Ocidente, a mais admirável civilização da história da humanidade. A civilização com o mais alto nível de conforto dos cidadãos, onde a dignidade humana nunca foi tão preservada, onde as liberdades e o respeito pelas diferenças nunca foram tão assegurados.
Enquanto isto, na capela de Saint-Hubert, em França, um morto revira-se na tumba. Qual morto? Outro homem, branco e ocidental: Leonardo da Vinci. Dizia o velho Leonardo que pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas, muito conhecimento que se sintam humildes; como as espigas que sem grãos se erguem desdenhosamente para o Céu, enquanto que as cheias se baixam para a terra. Mas qual Céu?, indignam-se as criaturas iradas. E Leonardo revira-se novamente.
Voltemos, ao som do Requiem, a Homero, a propósito do que parece um erro e do que parece um avisado conselho. O erro? À sua estultícia o homem chama destino, dizia o grego. Eu cá, olhando para fora deste ermitério, tenderia a dizer que seria mais adequado dizer que, por este andar, o destino do homem se chama estultícia. O conselho? Um que os alunos de Oxford já não conhecerão, porque a Odisseia vai como o Odisseu, de vela: existe um tempo para muitas palavras, e também existe um tempo para dormir. Vou nisso. Quando isto acabar, acordem-me, que por agora não me estou a sentir nada bem.

24 fevereiro 2015

O Homem que Sabia Javanês - Lima Barreto



Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.


O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!

— Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!

— Cansa-se; mas não é isso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.

— Qual! Aqui mesmo, meu Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês?

— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

— Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:

— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte:

"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc".

Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir, mas entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi.

Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.

A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.

Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.

À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

— Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:

— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e... Por aí o homem interrompeu-me:

— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem.

— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?

Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:

— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe disso, Senhor Castelo?

Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.

Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao Doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres de que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar responder "como está o senhor"? e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil — pode ficar certo — aprender o javanês... Fui à pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir simpatia pela natureza...

Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava maltratada, mas não sei por que me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou malcuidadas.

Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelos de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.
Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antigüidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...

Esperei um instante o dono da casa.Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.

— Eu sou — avancei — o professor de javanês, de que o senhor disse precisar.

— Sente-se — respondeu-me o velho. — O senhor é daqui, do Rio?

— Não, sou de Canavieiras.

— Como? — fez ele. — Fale um pouco alto, que sou surdo.

— Sou de Canavieiras, na Bahia — insisti eu.

— Onde fez os seus estudos?

— Em São Salvador.

— Em onde aprendeu o javanês? — indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.

Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de uma navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.

— E ele acreditou? E o físico? — perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.

— Não sou — objetei — lá muito diferente de um javanês. Estes meu cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço malaio... Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até

godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.

— Bem — fez o meu amigo —, continua.

— O velho — emendei eu — ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, e pareceu que me julgava de fato filho de malaio, e perguntou-me com doçura:

— Então está disposto a ensinar-me javanês?

— A resposta saiu-me sem querer. Pois não.

— O senhor há de ficar admirado — aduziu o Barão de Jacuecanga — que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...

— Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...

— O que eu quero, meu caro senhor...?

— Castelo — adiantei eu.

— O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me que mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai — continuou o velho barão — não acreditou muito na história; contudo guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, e não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro que preciso entender o javanês. Eis aí.

Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.

Veio o livro. Era um velho calhamaço, um inquarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.

Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia

de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.

Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.

A filha e o genro ( penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram coisa boa para distraí-lo.

Mas com que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!"

O marido de Dona Maria da Glória ( assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.

Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia a seus olhos! Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.

Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a coisa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.

Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo de que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. — "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.

O diretor chamou os chefes de seção: "Vejam só, um homem que sabe javanês — que portento!"

Os chefes da seção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"

O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.

A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o pince-nez no nariz e perguntou: " Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Àsia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no congresso de Lingüística. Estude, leia o Hove-Iacque, o Max Müller, e outros!"

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.

O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.

Pus-me com afã no estudo das línguas malaio-polinésias; mas não havia meio!

Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos

outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do

interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entender o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Commércio, um artigo de

quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...

— Como, se tu nada sabias? — interrompeu-me o atento Castro.

— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.

— E nunca duvidaram? — perguntou-me ainda o meu amigo.

— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava em língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês — uf!

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na seção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela seção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano-brasileiro, me estava naturalmente indicada a seção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.

Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e em Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido

pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.

Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da República, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.

Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.

— É fantástico — observou Castro, agarrando o copo de cerveja.

— Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?

— Quê?

— Bacteriologista eminente. Vamos?

— Vamos.
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