A médica inglesa,
porta-voz do Islã moderado, diz que para derrotar os terroristas é preciso
primeiro admitir que eles agem em nome de uma religião, ainda que uma minoria
os apoie
Por Felipe Carneiro
A
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médica
inglesa Qanta Ahmed, de 46 anos, trabalhava na Arábia Saudita quando dois
aviões derrubaram as Torres Gêmeas, em 2001. “Fiquei chocada com o júbilo de
meus colegas. Eram profissionais educados, médicos de alto gabarito, alguns
deles formados nos Estados Unidos”, diz ela. Esse episódio fez com que Qanta,
muçulmana devota e filha de paquistaneses, decidisse voltar para sua Londres
natal para se tornar uma porta-voz do Islã moderado. Depois, foi morar em Nova
York, onde ajudou bombeiros, policiais e voluntários que participaram do
resgate às vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 a superar seus
traumas. Mais recentemente, ela trabalhou em um programa de desradicalização de
jovens resgatados das fileiras do Talibã, no Paquistão, em 2012. De Nova York,
por telefone, Qanta concedeu seguinte entrevista a VEJA.
Em
um encontro para discutir a violência extremista, o presidente americano Barack
Obama recusou-se a chamar o terrorismo de “islâmico”. Ele estava certo? Obama tem medo de ofender os outros. É assim que
funciona o raciocínio politicamente correto. O problema é que isso pode inibir
outras coisas. A questão aqui não é de correção política, e sim conseguir
identificar corretamente o agressor. Como lutar contra um mal, se nem sequer há
coragem de chamá-lo por seu devido nome? Um inimigo genérico, sem rosto? O
comportamento e Obama é o inverso daquele discurso que vigorou após o atentado
de 11 de setembro de 2001 em Nova York. O que se observou depois desse episódio
foi uma retórica do “nós contra eles”. O Islã foi transformado em vilão. De uma
maneira ou de outra, perde-se o espaço necessário para um diálogo e para a
compreensão do fenômeno. Temos de ultrapassar essa barreira e discutir os fatos
abertamente. Só assim poderá ser possível solucionar a questão.
A
Casa Branca argumenta que Obama precisa dos muçulmanos moderados na guerra
ideológica contra os terroristas. Faz sentido? Isso vai depender da atitude das lideranças
islâmicas. Em Nova York, depois de 2001, falou-se em monitorar alguns
muçulmanos na cidade. Os líderes religiosos e comunitários ficaram indignados e
discursaram muito sobre direitos civis, direitos humanos, islamofobia, tudo
isso. Mas eles só falavam sobre direitos dos muçulmanos, e não de todos os
cidadãos. Pensei comigo mesma: o Islã ensina que temos um dever pessoal. É
preciso cuidar do corpo que Alá nos deu, observar as orações, proteger suas
criações e criaturas. Tudo isso implica que nós, muçulmanos, temos um dever
para com a sociedade. Temos de mantê-la em paz. Nenhum daqueles líderes
muçulmanos estava pensando na sociedade nova-iorquina, que tinha toda a razão
em ter medo naquela época. Eles só pensavam em si mesmos.
Há
certa cumplicidade dos clérigos muçulmanos com os grupos radicais e suas
ideologias extremistas? Em toda a
história do islamismo, houve pouquíssimos momentos em que se debateu a sério o
perigo das ideologias tóxicas que aparecem em nosso meio. É preciso muita
coragem para mudar esse comportamento.
O
descontentamento no mundo islâmico com as charges com Maomé, como as que foram
publicadas pelo jornal francês Charlie
Hebdo, torna mais difícil uma colaboração dos moderados? Não faz sentido que pessoas sejam assassinadas em
um país como a França pra vingar um crime contra uma lei de blasfêmia que não é
islâmica, e sim islamista (relativa à
vertente política do Islã). O problema está nos vários regimes que
sustentam a ideologia islamista. Neles, qualquer um pode ser atacado se for
acusado de islamofóbico. Há um paradoxo muito grande. Os radicais querem ser
respeitados, querem que nosso profeta Maomé seja tratado com consideração e não
permitem que cartuns com sua imagem sejam publicados. Mas, quando se olha
dentro do mundo islâmico, é fácil perceber que não há respeito pelas outras
culturas, por outras crenças. Isso está errado. Mais de 6.000 cristãos tiveram
de fugir do Iraque. Quase nenhum país do Golfo Pérsico permite a construção de
igrejas, com exceção do Catar. No Níger, na África, foram destruídas igrejas
católicas e neopentecostais.
Dá
para dizer que os islamistas estão ganhando a guerra? Eles já instituíram o terror em vários países e
agora estão estendendo seus domínios pelo mundo. Com o atentado ao Charlie Hebdo, jornais passaram a evitar
charges com Maomé. É como se a lei da blasfêmia, que já está sendo aplicada em
teocracias, agora tivesse de ser obedecida também na Europa. O medo de Obama de
chamar os terroristas de muçulmanos tem uma raiz parecida. O radicalismo está
expandindo seu alcance territorial. Há um vácuo de poder na Líbia, e é natural
que o Isis tentasse ocupá-lo. Não há dúvida de que os islamistas estão levando
a melhor.
O
papa Francisco disse que “a liberdade de expressão não dá o direito de insultar
a fé do próximo”. O papa estava legitimando ataques como o do Charlie Hebdo? Não é agradável ver sua religião sendo ofendida.
Mas, na prática, a limitação da liberdade de expressão sempre se torna
totalitarista, como tem acontecido nos países islamistas.
Alguns
governantes do mundo islâmico, como o egípcio Abdel Fatah Sisi e o rei
jordaniano Abdullah II, já acordaram para o perigo? Sim. Acredito que o vídeo que mostrou o piloto
jordaniano Muaz Kasasbeh sendo queimado vivo em uma cela, divulgado pelo grupo
terrorista Estado Islâmico, alterou muita coisa. Foi um choque. A cena gerou
uma indignação em todos os lugares, inclusive nos países de maioria muçulmana.
No Cairo, a Universidade Al Azhar, que vinha sendo criticada por suas
inclinações condescendentes com o terror, divulgou um comunicado no qual dizia
que esse ato não tem respaldo no Islã e pediu que os responsáveis sejam
punidos. Em grande parte, isso aconteceu porque Kasasbeh era um muçulmano
devoto. Ele não só fazia parte da força aérea de um país muçulmano como tinha
cumprido a hajj (a peregrinação para
Meca, considerada sagrada), observava as cinco orações diárias e memorizou
o Corão quando criança. Esse piloto era um símbolo de um país muçulmano moderno
e por isso sua morte incomodou tanto.
Até
então não existia a ideia de que qualquer um poderia se tornar a próxima
vítima? Na Síria, há relatos até de
crucificações, mas que não provocaram nenhum ultraje. Talvez agora tenhamos
atingido um ponto de inflexão. Demorou um pouco para que o Estado Islâmico
fosse percebido como uma ameaça a todo o mundo, e não somente um fenômeno
localizado.
O
Estado Islâmico defende a criação de um califado regido pela charia, a lei
islâmica. Isso faz sentido segundo o Corão?
Os islamistas acreditam que a única maneira
possível de o Islã manifestar-se é na forma de um Estado. O Corão, porém, não fala absolutamente
nada a respeito disso. O livro sagrado é totalmente vago sobre como as pessoas
devem se governar. Não especifica a maneira de regular uma sociedade. O termo dawla, que significa o Islã como um
Estado, não figura entre as 80.000 palavras do Corão.
Por que, então, há tantos governos baseados
no Islã político dentro e fora do Oriente Médio? Os políticos usam a
religião para se legitimar. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, por
exemplo, são monarquias que se legitimam sob o argumento de serem as guardiães
da lei islâmica. No passado, fizeram acordo com os clérigos para se manter no
poder. Deixaram o clero oprimir a população em nome do Islã para assim reforçar
a própria autoridade. A ideia de “punição impiedosa”, por exemplo, não existe
no Islã, mas encontrou um vasto apoio no mundo islâmico moderno com
apedrejamentos, vergastadas e amputações. É fácil ver que acontecem mais
violações de direitos humanos em países de maioria muçulmana do que em outros
lugares. Esses métodos cruéis não eram tão frequentes como hoje. Em cinco
séculos de história legal do Império Otomano, houve apenas um caso de apedrejamento
até a morte. Os atuais governantes podem até apresentar seus motivos como
religiosos, principalmente os da Arábia Saudita, que se dizem guardiões das
cidades sagradas de Meca e Medina, mas a verdade é que não o são. Eles são
meramente políticos totalitários.
Muita
gente achou que os protestos contra as ditaduras, que ficaram conhecidos como
Primavera Árabe, espalhariam democracias pelo Oriente Médio. Por que isso não aconteceu?
Para algo assim surgir, é preciso haver
universidades, jornais e tribunais independentes. São esses os requisitos que
poderiam trazer a mudança cultural necessária para uma democracia plena. Quando
morei na Arábia Saudita, entre 1999 e 2001, a internet tinha acabado de entrar
no país. Os celulares começaram a ser vendidos enquanto eu estava lá. Tentava me
informar pela rede, mas havia tantos sites bloqueados que era frustrante. A monarquia
tinha, e ainda tem, o controle absoluto da informação. A população, é claro,
fica menos capaz, menos preparada. Infantil, até. Quando surge uma oportunidade
como a Primavera Árabe, ela não sabe o que fazer. Não foi escrito nenhum
manifesto político. Não apareceu nenhuma ideia sobre como criar uma economia
saudável. Foi uma revolta emocional, não racional. O fracasso era o único
desfecho possível.
Como
se desradicalizam crianças no Paquistão? O projeto do qual participei atendia crianças que estavam envolvidas em
atividades do Talibã. Elas eram informantes, soldados ou estavam se preparando
para ataques suicidas com explosivos. O programa funcionava em uma escola
técnica para crianças e jovens entre 10 e 20 anos. Ao mesmo tempo que aprendiam
uma profissão, eles recebiam instrução islâmica de clérigos moderados, que
ajudavam os pequenos a traduzir e a interpretar os textos árabes corretamente. O
objetivo era desfazer o trabalho dos talibãs, que se aproveitaram da ignorância
das crianças e de adultos iletrados para manipulá-los à sua própria vontade,
distorcendo o que de fato diz o livro sagrado.
O
trabalho deu resultado? Não é fácil
conseguir isso. Os meninos recebem ajuda de psicólogos e de jovens que
estabelecem com eles uma relação de irmão mais velho. Quando eles terminam a
escola, esse contato continua uma vez por semana e chega o momento de
reinserção na comunidade. Há, contudo, um ressentimento forte da população,
pois eles foram informantes do Talibã ou participaram de alguma operação
bélica.
A
senhora é uma defensora de Israel, como se diz? Não me considero assim. Israel é um país
constituído e não precisa de minha ajuda. Sou pragmática. Israel foi fundado na
mesma época em que criaram o Paquistão. Ambos são legítimos, e não vejo como
isso possa ser discutível. Quando viajo para Israel, contudo, sempre fico um
pouco triste. Não encontrei a pluralidade que existe lá em nenhum país do
Oriente Médio. Isso inclui mulheres muçulmanas na direção de hospitais,
cristãos israelenses na corte suprema e judeus que foram perseguidos e banidos
de outros países levando vida digna. É daquela maneira que a toda região ao
redor deveria ser.
Porque
há tanto antissemitismo no mundo islâmico? Todo totalitarismo precisa de um inimigo central, que possa ser
considerado como “o outro” e leve a culpa pelos problemas da sociedade. Esse sentimento
transforma-se, quase sempre, em antissemitismo. Infelizmente, lendo os livros
de história, sabemos dos tipos de discriminação genocida que essa espécie de
sentimento pode produzir. Mas não só. Na realidade, a perseguição aos cristãos não
tem nada de diferente: todos são considerados infiéis que merecem morrer. ▪
