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23 abril 2015

Existe um bom radical (02/01/1980, Páginas Amarelas de VEJA)



O líder do PMDB lembra que no regime do AI-5
o povo pelo menos escolhia os seus prefeitos  e está
certo de que ainda há muita oposição a fazer


Aconteceu com o deputado Ulysses Guimarães um fenômeno raro na política brasileira: em vez de se tornar mais conservador com o passar dos anos, inclinou-se para a esquerda. Presidente da Câmara dos Deputados nos anos 50, ministro da Indústria e do Comércio na curta experiência parlamentarista do começo dos anos 60, Ulysses inscreveu seu nome na galeria das raposas do velho PSD   um partido cuja fobia por aventuras chegava ao requinte de não abrir qualquer reunião sem que o essencial já estivesse decidido e acertado. Os anos 70, contudo, foram vividos por Ulysses Guimarães na presidência do MDB e sua voz passou a exibir tonalidades sempre mais agressivas.
...
A reforma partidária surpreendeu o doutor Ulysses, aos 63 anos, longe de velhos companheiros  como o senador Tancredo Neves  e próximo da esquerda do extinto MDB. Atualmente empenhado na consolidação da precária aliança entre liberais e esquerdistas reunidos no PMDB, esse paulista de Rio Claro é, de qualquer modo, um homem habituado a navegar por águas revoltas: afinal, ele foi presidente do Santos F. C. antes da era Pelé e lançou-se anticandidato à presidência da República em pleno governo Emílio Médici. Na semana passada, Ulysses Guimarães falou a VEJA em sua casa no bairro paulistano de Pinheiros:




"Se cometi erros,
eu pagarei"

Veja  O senhor não estaria se deixando atropelar pelos fatos, ao condenar o Brasil de 1979 como se fosse o mesmo de 1973?

Guimarães – Não. Entendo que o Brasil necessita de reformas estruturais que só podem acontecer dentro da plenitude democrática.

Veja – Mas não houve avanços, como o fim das torturas, da censura, do AI-5, e conquistas ou reconquistas, como o habeas-corpus para crimes políticos, o pluripartidarismo e outras?

Guimarães – Depende. Não se pode atribuir esses avanços e conquistas a dádivas do general Figueiredo. Elas foram resultado de pressões populares, aliás canalizadas através do MDB. E a verdade é que aquilo que o governo tem que fazer de realmente importante ele não faz  por exemplo, acabar com a inflação. A inflação é a desintegração dos valores. O governo tem que defender o cruzeiro, porque ele é o dinheiro, o trabalho, o suor. Pessoalmente, creio que temos mudado nossa pregação. Passamos da anticandidatura em 1973 para os temas econômicos de agora.

Veja – Alguns dos mais destacados políticos do PMDB garantem que o senhor perdeu a confiança dos liberais e não tem a confiança da esquerda. Logo, estaria sem espaço.

Guimarães – O Brasil é mais importante que eu. Se cometi erros, pagarei por eles. Importante é o Brasil, a nossa luta. Posso ter cometido erros, sem dúvida. Vejam o caso de Churchill: ganhou a II Guerra Mundial e perdeu as eleições na Inglaterra.

Veja – Mas a posição do senhor à frente do PMDB não está ameaçada?

Guimarães – Quero dizer que não fiz nenhum esforço de aliciamento. Se estou nesta posição é porque tenho merecido a confiança dos companheiros. Tenho sido procurado por políticos, prefeitos, vereadores, que dizem: "Quero ir para o partido do dr. Ulysses". Eu fui agora assistir à peça "É...", de Millôr Fernandes, e, quando Fernanda Montenegro e Fernando Torres anunciaram minha presença, fui aplaudido de pé. Os jovens eram maioria na platéia. Sou um político que não paga mais conta em restaurantes no Brasil. Quando vou pagar, ou alguém já pagou, ou o restaurante oferece. Então, sou estimulado, sou confortado por essas manifestações.

Veja – O senhor ficou junto com a esquerda no PMDB, enquanto quase todos seus antigos companheiros do PSD acompanharam o senador Tancredo Neves e o deputado Thales Ramalho e hoje estão no PPB. Por que essa diferença de rotas?

Guimarães – Esses companheiros foram embora, enquanto outros ficaram, como conseqüência natural do aparecimento de outras opções. Não condeno ninguém por isso. O senador Tancredo Neves é muito capaz e talentoso. O Thales Ramalho prestou grandes serviços ao MDB, com sua enorme capacidade de aglutinação. Continuamos amigos pessoais e gostaria muito que estivessem no meu partido. O que me parece importante, porém, é que os integrantes dos partidos de oposição evitem agressões. As que alguns mais ardorosos fizeram não devem ser encampadas.

Veja – A esta altura, já é possível saber se o PMDB vai ser mais oposicionista que o PPB ou o PTB?

Guimarães – Não sei, não conheço os programas dessas legendas. Posso falar sobre o PMDB, mas não pretendo dar nota a ninguém. Isso é com o Palácio do Planalto, não é comigo.

Veja – Como o senhor encara a acusação de que os liberais, no PMDB, estão oferecendo um guarda-chuva para a esquerda mais radical, sobretudo para os comunistas?

Guimarães – Trata-se de acusação pueril, que nem tem o mérito de ser nova. É contemporânea da história do partido. Mas não se sustenta porque nosso comportamento é democrático, somos democratas. O senador Tancredo Neves, por exemplo, disse que o PMDB é o partido de Luís Carlos Prestes e de Miguel Arraes. Quero recordar que fomos acusados antes pelas mesmas razões, e algumas das nossas melhores defesas saíram da pena e do talento de Tancredo Neves. 



"Nem conheço quem
dirige o PC"

Veja – Os liberais poderão conviver harmoniosamente no PMDB com os radicais de esquerda?

Guimarães – Engana-se quem imagina que democracia é unanimidade ou mesmo harmonia. A democracia não vai resolver nenhum problema; a sua força vem justamente de ela confessar suas fraquezas. Ela extrai a estabilidade da instabilidade, com a livre manifestação da sociedade. Que às vezes tem seus excessos, suas doenças, mas precisam se manifestar.

Veja – Recentemente, Luís Carlos Prestes manifestou seu apoio ao PMDB. A companhia dos comunistas não é incômoda para o senhor?

Guimarães – Em primeiro lugar, acho que o PC deveria ser legalizado. Os comunistas existem, atuam no Brasil como em qualquer lugar, e atuam até mais na clandestinidade. Mas nunca tive qualquer entendimento, direto ou indireto, com o Partido Comunista. Eu nem conheço as pessoas que o dirigem.

Veja – O próprio Prestes declarou que o PMDB é o caminho para os comunistas.

Guimarães – Repito que não temos compromissos nem acordos pessoais com os comunistas. Se os comunistas entrarem para o PMDB, não será na condição de comunistas, mas de pessoas que aceitam o programa do partido. Se decidirem votar no PMDB, trata-se de uma decisão unilateral, não é? Nem por isso se deverá confundir o PMDB com o PC. É um absurdo.

Veja – O governo Figueiredo tem reiteradamente advertido que, unindo liberais e radicais, o PMDB inviabiliza a eleição direta dos governadores em 1982. O ministro Petrônio Portella, por exemplo, foi claro em sua conversa com o senador Franco Montoro. E o senhor é acusado de evitar o isolamento da esquerda, desejado pelo governo.

Guimarães – Esse tipo de raciocínio é viciado. O governo aplica o raciocínio da democracia relativa. Não lhe cabe designar os membros de um partido. Eu não aceito isso. Estabelecer que só haverá eleições se os candidatos se comportarem assim ou assado, ficarem aqui ou ali, não tem sentido. Para que se façam eleições, as condições são claras: tem que haver partidos, candidatos e liberdade. Se as coisas devem se encaixar no figurino do Palácio do Planalto, então é melhor entregar a chefia da oposição ao ministro Petrônio Portella.

Veja – Mas, concretamente, na vida prática, o senhor não acredita que o pacto dos liberais com a esquerda do PMDB pode inviabilizar as eleições de 1982?

Guimarães – Não acredito que o governo tenha forças para isso.

Veja – O senhor pode não gostar, mas força para tanto o governo parece ter. 

Guimarães – Tem, relativamente.

Veja – Nesse caso radicalizar não seria perigoso?

Guimarães – Depende do que se entende por radical. A palavra, que no Brasil é conhecida por suas conotações negativas, também tem as suas conotações positivas: é radical aquele que vai até a raiz das coisas. Se ele vai até a raiz e a encontra, vai bem, então é positivo. Existe o bom radical. No caso, ir à raiz das coisas é constatar a disposição ou não do governo de realizar eleições. Vejam, no regime do AI-5, o povo não escolhia o presidente da República nem os governadores, mas pelo menos escolhia os prefeitos na maioria das cidades. Este governo agora quer acabar até com a eleição de prefeitos e vereadores, previstas para novembro próximo. Então, nós que já temos presidente, governador e senadores biônicos, teremos a bionicidade estendida ao município.



"Miguel Arraes é
um democrata"


Veja – O senhor afirma que a unanimidade não é democrática. Mas não lhe parece que as posições do ex-governador Miguel Arraes e, para exemplificar, as do senador Franco Montoro são demasiado diferentes e acabarão implodindo o PMDB?

Guimarães – O senhor Miguel Arraes é um democrata. Está agora no PMDB, como antes esteve no MDB, porque aceita o programa do partido. Tem insistentemente declarado que é um democrata. Se nossas opiniões são diferentes, acho que é natural  faz parte da convivência democrática.

Veja – Que divergências existem entre o senhor e Miguel Arraes?

Guimarães – É possível que ele tenha concepções táticas e estratégicas diferentes das minhas. Mas repito que considero a divergência natural.

Veja – Quando o senhor era ministro de Estado em 1962, e Arraes prefeito do Recife, suas posições eram mais claramente divergentes?

Guimarães – Visitei Pernambuco como ministro da Indústria e do Comércio, para ver o problema do açúcar. O governador era o Cid Sampaio e Arraes era o prefeito de Recife. Havia certas discordâncias nas nossas posições. Eu divergia de certas declarações atribuídas a Miguel Arraes. Mas ele me parece um democrata.

Veja – O fato de Arraes, como outros notáveis, não ter assinado o livro de fundadores do PMDB é um sinal de que os liberais do partido querem vê-lo a uma certa distância?

Guimarães – Não. É óbvio que nem todos que gostariam podem assinar como fundadores, o número é limitado. Mas os que não assinaram a nível nacional poderão fazê-lo nos Estados.

Veja – O senhor é hoje um político de esquerda?

Guimarães – É difícil me definir nesses termos, porque política não é geometria. Eu sou um homem à esquerda do centro. Estou profundamente convencido de que a ordem social brasileira é injusta. Entendo que o Brasil precisa modificar as estruturas injustas. 

Veja – Sendo reformista, não seria mais adequado ao senhor o rótulo de conservador inteligente?

Guimarães – Conservador, não. Tenho horror a essa palavra. Se me declaro conservador, não me elejo...


"O partido é filho
do tempo"


Veja – O senhor não acha que faltam definições? A esquerda brasileira não diz que é de esquerda, porque tem medo de ir para a cadeia; a direita diz que é de centro, porque não quer se acusada de encarcerar a esquerda...

Guimarães – Já afirmei mais de uma vez que o Brasil sofre hoje daquilo que, segundo Ortega y Gasset, é o mal do dicionário. As palavras perderam o sentido. Por exemplo, o sujeito que pede melhor redistribuição da renda é comunista. O que pede liberdade de expressão virou subversivo, e assim por diante. Precisamos restabelecer a dignidade da palavra. 

Veja – O senhor é um antigo pessedista que nunca falou mal do PSD. Por que, se agora é um homem à esquerda do centro?

Guimarães – O PSD é um exemplo de que os partidos custam tempo para nascer e custam tempo para morrer. Os partidos são filhos do tempo e não das leis. Em Minas Gerais, ainda hoje, o PSD está vivo. Eu nunca critiquei o PSD porque ele foi um importante laboratório político, plástico e cambiável, mas inclinado para a esquerda  o capítulo da ordem econômica e social que o PSD fez para a Constituição de 1946 é válido ainda hoje em seus pontos básicos. Vários companheiros me propuseram ressuscitar o PSD, mas não concordei. Acho que os tempos são outros.

Veja – O senador Tancredo Neves foi um dos que o convidaram?

Guimarães – Não. Acho que é tolice procurar divergências entre o Tancredo e eu. O discurso que ele fez no Senado, lançando o PPB, é muito bom. Sobretudo na parte econômica e social, é o mesmo discurso que ele fazia antes, no MDB.

Veja – Mas há poucos dias os jornais publicaram declarações do senhor segundo as quais o problema do seu partido, que até há pouco tempo era o general Goubery do Couto e Silva, agora é o senador Tancredo Neves.

Guimarães – Eu não disse isso e não concordo com isso. 

Veja – Os primeiros confrontos entre representantes dos novos partidos têm se limitado às três legendas de oposição. Por quê?

Guimarães – É que estamos como na primeira página da criação do mundo. Tudo está meio alvoroçado, meio confuso. A nova lei partidária nem foi sancionada ainda. As pessoas ainda estão optando, procurando o partido de sabor mais palatável, porque tem partido indigesto também. A Arena, por exemplo, não quer saber de discutir o passado. E a política é naturalmente muito passional. Nietzsche dividia a humanidade entre mágicos e lógicos. Os anglo-saxões são lógicos; os latinos são mágicos. Por isso é tão diferente fazer política na Alemanha e na França, na Suécia e no Brasil.

 Veja – O senhor tem opinião formada sobre o PPB e o PTB?

Guimarães – Eu faço votos de que eles realmente façam oposição, porque no Brasil de hoje não há mais lugar para a política da habilidade. O PPB e o PTB, porém, ainda precisam dizer a que vieram, apresentando seus programas.

Veja – O senhor pode dizer a que veio o PMDB?

Guimarães – Nós estamos inclusive apresentando candidatos aos governos estaduais: Pedro Simon no Rio Grande do Sul, José Richa ou Alencar Furtado no Paraná, Saturnino Braga no Rio de Janeiro, Itamar Franco em Minas Gerais. Portanto, o nosso partido é de oposição, mas nós queremos chegar ao poder. 

Veja – Há poucos dias o senhor citou apenas o senador José Richa como candidato ao governo do Paraná.

Guimarães – Não. Citei ambos. A maioria dos jornais produziu corretamente o que eu disse em Belo Horizonte.

Veja – Voltamos a uma questão anterior. O governo já avisou que, escoltado pela esquerda, o PMDB não chegará a poder algum.

Guimarães – Este argumento está gasto. Antes nos diziam para não criticar o regime senão nos cassariam. Criticamos. Antes nos diziam que não ganhássemos eleições. Ganhamos. Antes nos diziam que não falássemos na televisão. Falamos. É verdade que o MDB pagou um alto preço por isso. E acabou extinto pelo arbítrio do governo Figueiredo.



"As mulheres têm
mais caráter"

Veja – O senhor não acha que, atribuindo a extinção do bipartidarismo ao Palácio do Planalto, está sendo leniente com o Poder Legislativo, que afinal aprovou o projeto do governo?

Guimarães – É verdade. O Congresso aprovou a extinção e com isso abriu a guarda para cortar outros pedaços de si mesmo.

Veja – Qual será a ênfase do programa do PMDB?

Guimarães – Nós daremos especial atenção ao problema social, que é o mais importante do Brasil hoje. Também daremos especial atenção às mulheres, que já formam a maioria do eleitorado brasileiro e sofrem constrangimentos, dificuldades e opressões que precisam acabar. Valéry Giscard d'Estaing elegeu-se presidente da França, em 1974, com uma diferença equivalente a 1% dos votos, graças a seu programa para as aposentadas com mais de 65 anos. Elas garantiram sua vitória. Além disso, como eu afirmei outro dia ao senador Paulo Brossard, as mulheres têm mais caráter que os homens em relação à política. Nós, políticos, às vezes rompemos com um correligionário e mais tarde acabamos subindo juntos no palanque e nos elogiando. "É um grande brasileiro", dizemos uns sobre os outros nestas ocasiões. As mulheres não esquecem.

FONTE: Acervo Veja Digital


OBSERVAÇÕES:

Em junho de 1964, foi aprovada a Lei de Greve, que estava tramitando havia catorze anos no Congresso. Representou uma vitória do governo. O relator foi o deputado Ulysses Guimarães (PSD), àquela altura bastante entrosado com o sistema revolucionário. Tanto que sugeriu a Castello que a lei fosse promulgada perante a Hora do Brasil, fazendo resumo do alcance social, humano, cristão.
(VILLA, Marco Antonio. Ditadura à Brasileira (1964-1985), pág. 50).
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