FONTE: Canal Uirá Ramos, no Youtube
2º debate envolvendo Fernando Collor de Melo (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado no dia 14 de dezembro de 1989. O Debate foi transmitido em pool pela Rede Globo, SBT, TV Manchete e Rede Bandeirantes.
Mediadores: Boris Casoy (SBT), Marilia Gabriela (BAND), Eliakim Araujo (Manchete) e Alexandre Garcia (Globo).
Os jornalistas Luis Fernando Emadiato (SBT), Fernando Mitre (Band), Vilas-Bôas Correa (Manchete) e Joelmir Beting (Globo) participaram fazendo perguntas.
Lula
lá lá é o fim
Paulo Francis (Folha de S. Paulo: 16.12.1989, sábado)[1]
O texto AQUI
Digam
o que disserem as pesquisas de opinião, essa desculpa que a imprensa arranjou
para se omitir da sua responsabilidade de analisar e de opinar, Collor deu uma
lavagem em Lula no debate de anteontem.
Lula
deveria perguntar a um psicanalista o que significa uma pessoa, quando acuada,
ficar esfregando uma mão na outra. A resposta não seria lisonjeira.
Lula
marcou alguns pontos. Collor é dono de Alagoas. But... who cares? Quem se
interessa? Quase vomito quando Collor fala que é “temente de Deus”, ou do hino
nacional. O virundu[2],
eu, hem?
Mas
no que consta foi um nocaute. Collor diz a besteira que remetemos 5% do nosso produto
nacional bruto todo ano aos banqueiros. É 1,5% ao ano. A informação está
disponível no Itamaraty. Delfim explicou zombeteiramente, seu hábito, como as
coisas funcionam, no seu artigo na Folha
de quarta-feira[3].
Mas errou dizendo que o saldo comercial e os juros da dívida geram um déficit
de 2% do PIB. É apenas 1,5%, diferença importante quando se trata de bilhões de
dólares. E nota Delfim que esse déficit deveria ser coberto pelo governo com um
superávit igual, cobrado de preços e tarifas dos setores beneficiados com a
dívida, que a amortizassem. Mas nem dona Zélia[4] nem seu Mercadante[5] sabem disso. Caímos na
jecaria e no amadorismo.
Collor,
ao menos, sabe que a causa principal da inflação é a diferença entre receita e
gastos do governo, que tem de emitir para pagar sua estroinice em favor dos
compadres do Executivo, Legislativo e Judiciário. É Brasília contra o resto do
país. Não é à toa que Lula ganha fácil em Brasília e no Rio, cidades
parasitárias de burocracia federal, porque acha espantosamente – se cabe a
palavra em relação ao seu bestunto – que o governo está bom do tamanho que
está.
Li
no excelente artigo de Newton Rodrigues, também na quarta-feira[6], demonstrando que Collor e
Lula são minoritários, que Weffort[7], um dos crânios de Lula,
disse que no Brasil há uma tal estatização que se a democracia avançar teremos
uma sociedade socialista. É um asno ou um néscio? Povo nenhum quer ou jamais
votará socialista. Votou uma pluralidade comunista na Tchecoslováquia[8], em 1948, e no Chile, com
Allende[9]. Mas no primeiro caso a
KGB interveio para comunizar, dando um golpe, em que “suicidou” Jan Masaryk, o
ministro do Exterior e filho do fundador do Estado, Thomas Masaryk. Hoje, o
povo está nas ruas[10]. Conheço pessoalmente o
líder, Václav Havel, que não fugiu para Paris, como seu (ex?) amigo Milan
Kundera[11], porque, me disse,
dedicou sua vida a livrar seu país da praga do socialismo (sic), que embota a alma humana e não funciona economicamente. E, no
Chile, sabemos o que aconteceu com Allende. A maioria da sociedade se revoltou
contra ele. A maioria. Pinochet matou gente pra diabo, talvez cerca de 30 mil
pessoas[12]. Mas hoje o Chile é rico,
ostensivamente, sua economia cresce 5% ao ano e sua inflação é de 16% ao ano![13] Clóvis Rossi[14] diz que o Chile está
assolado (sic) pelo
neoconservadorismo. O fato é que a esquerda que se elegeu sabe que socialismo não
dá certo. Até a próxima geração doidivanas que não tenha memória...
Como
nós não temos. Quando Allende caiu, o PC italiano, o mais inteligente da
Europa, se reuniu e decidiu não tomar o poder pelo voto. Não tomar, exatamente.
Porque sabia que no máximo conseguiria uma chama de socialismo. E decidiu fazer
o que chamou de “compromisso histórico”, uma aliança com a Democracia Cristã. Em
nenhum órgão de imprensa brasileira encontro uma analogia entre a situação
italiana e a nossa. Mogadon Suplicy[15] me critica porque chamei
Lula de “perigosíssimo”. Claro. Ele vai governar como líder sindical, o mesmo
líder sindical, e nada mais, que se revelou no debate a cada soco certeiro de
Collor. É afinal o que ele é. Lula vai mexer com o Partido Verde. Não é aquele
dos veados. É o que tem dragonas e estrelas no ombro. Estou muito velho para
aguentar outra ditadura, porque intelectuais desocupados, como notam Roberto
Campos[16] e George Orwell em
“Inside the Whale”[17], pessoas razoavelmente instruídas, não se sentem
recompensados pela sociedade brasileira, cuja pobreza cultural é igual à
material, e querem um emprego rico pago pelo Estado. Ou porque intelectuais
ricos querem um substituto para a fé religiosa que perderam e se prostram
diante do totalitarismo como a Baal[18]. Eu poderia dar nomes,
mas estou cansado de fazer inimigos.
Lula
e Mogadon acham que no Leste da Europa estão querendo socialismo com face
humana, como o de Dubcek[19], em 1968. Estive lá, na
Polônia e Hungria. Como Lula ousa dizer que o Solidariedade[20] quer socialismo? Quer
investimentos estrangeiros e o capitalismo democrático, de consumo, e não essa
tamanqueira estatal, que sempre acaba falida, como a nossa já está. Weffort, francamente.
Joelmir Beting[21]
citou os números: 97% do arrecadado é para pagar ao funcionalismo. Vai estourar
com qualquer presidente.
Como
Lula ousa dizer que é a dívida que traz miséria ao povo? O Brasil não está
pagando juros, como não pagou sob a moratória, e a miséria aumentou. Lula está
repetindo o que algum comuna irregenerado lhe enfiou na cabeça, que os EUA, o
“imperialismo”, são o inimigo número um e que é preciso destruí-los
economicamente, tese de Stálin[22], dos anos 1950, que
Kruschev[23]
já começou a abandonar no início dos anos 1960, e que Gorbachev[24], claro, renegou por
completo. Gorbachev quer entrar para o FMI e Lula quer sair. Collor disse certo
que Lula não sabe a diferença entre uma fatura e uma duplicata.
O CANDIDATO DOS RICOS
As
pesquisas mostram claramente que Collor atinge as classes C, D e E, a pobreza,
e Lula, em 45%, as classes A e B. Bem, nos velhos totalitários é banzo
religioso, nos jovens a culpa é de papai e mamãe, Freud explica, e, em geral, é
a autoflagelação da classe média.
Mas
Lula é um pelego estatal. Ganha mais do que eu, que abrilhanto com o suor do
meu rosto publicações e televisão. Pelo menos no câmbio oficial. Ele vai ganhar
200 mil cruzados, disse Collor, e não foi contestado. E há, claro, mil
mordomias. Não corre o risco de perder o emprego, como nós, da iniciativa
privada. É o sonho de todo medíocre, disfarçado em nacionalismo, que é mania de
grandeza e complexo de inferioridade, misturados.
SUGESTÕES CONSTRUTIVAS
Que
ninguém reclame que não ajudei o novo governo, se for de Lula, como dizem. Ele propõe,
por exemplo, estreitar relações com a África negra e cortar relações com a
África do Sul. Esta tem muito dinheiro e paga suas contas. É a segunda
produtora de ouro do mundo. Maltrata os seus negros, que, falando nisso, cantam
e dançam quando protestam, ao contrário dos que vêm à Folha pedir minha cabeça.
Apesar
disso, há 1 milhão de negros na África negra trabalhando ilegalmente na África
do Sul, porque ganham mais do que nos seus respectivos países. A África negra,
rica de recursos, está falida, roubada por tiranos pseudopopulistas. Bokassa[25] e Amin[26] são a regra e não a
exceção.
Sabe-se,
não pela ONU, que é cúmplice, que esses países estão em grande parte revertendo
ao canibalismo. Sabe-se porque está nos relatórios confidenciais da comissão
conjunta de informações da Câmara e do Senado dos EUA.
Logo,
Lula nada tem a comprar ou vender à África negra. Em Angola, falta sabão desde 1988...
Sugestão: que Lula exporte burgueses gorduchinhos e que sejam contra sua
república sindicalista. Variariam o menu dos negros. É possível imaginar:
“coxas à carioca”, “peito de paulista” ou “espeto de nordestino”. Este último
ficaria a cargo do presidente do PT no Paraná[27].
Lula,
presidente, vai criar o seu “DIP”, o tal de “Controle Social das Comunicações
de Massa”. Censura. Tenho um candidato para dirigir esse órgão. Dou um
videoteipe do debate para quem adivinhar quem é.
Lula
vai governar com um Politburo à margem do Ministério e do Legislativo. Imagino que
frei Boff[28]
faça parte. Li, finalmente, parte de um artigo dele no Jornal do Brasil. É um comunista amador. Como disse Lênin[29] de Bukharin[30], não manja picas da
dialética. Mas descobri que João Paulo II[31] é um liberal. Fosse eu
papa, já teria excomungado esse cara na primeira.
Villas-Bôas
Corrêa lavou minha alma no debate. Disse o que qualquer jornalista decente sente
em se prestando a levantar a bola dessa dupla. Jecaria e amadorismo. É nossa
sina.
16.12.1989
[1]
Artigo disponível no livro “Paulo Francis: Diário da Corte”, Crônicas do maior
polemista da imprensa brasileira. São Paulo, Três Estrelas: 2012. Páginas
340-344.
[2] Virundum ou Mondegreen em inglês, é uma percepção imprecisa
de uma frase, que é trocado por uma homofonia.
É mais comumente é aplicada a um verso de um poema ou uma letra de canção. Em
português, o termo é originário de uma má interpretação do Hino Nacional Brasileiro cuja primeira estrofe é "Ouviram
do Ipiranga". Alguns exemplos de virunduns: na música Written In The
Stars, é possível ouvir Tinie Tempah dizendo "sou f*da" aos 3:06. Na
música Balada de Gusttavo Lima; no trecho em que ele canta "Eu já lavei o
meu carro regulei o som, já tá tudo preparado vem que o reggae é bom"
alguns entendem que ele diz "vem que o brega é bom" e outros
"vem comer minha vó". E por último, na música da Rihanna What's My
Name no trecho que ela diz "I need a boy to take it over" muitos entendem
"to take piromba". (Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Virundum
Acesso em 05/12/2014 11:29).
[7] Francisco
Correia Weffort, cientista político. Membro do PT até 1994, quando deixa o
partido para assumir o Ministério da Cultura no 1º Governo Fernando Henrique
Cardoso.
[8]
País que existiu entre 1918 e 1992 (com exceção do período da Segunda Guerra
Mundial, ver Acordo de
Munique), que teve como primeiro presidente Thomas Masaryk.
[9] Salvador
Allende Gossens, médico e político marxista chileno. Fundador do Partido
Socialista, governou seu país de 1970 a 1973, quando foi deposto por um golpe de estado liderado por seu chefe das Forças Armadas, Augusto
Pinochet (Dados do Wikipédia).
[10] A
chamada Revolução de Veludo (17 de Novembro a 29 de dezembro de 1989), revolução não
agressiva na antiga Tchecoslováquia que
testemunhou a deposição do governo comunista daquele país. Esta é
vista como uma das mais importantes revoluções de 1989. Em 17 de novembro
de 1989, a polícia reprimiu uma manifestação estudantil em Praga. Esse evento
desencadeou uma série de manifestações populares de 19 de novembro até o
fim de dezembro. Até 20 de novembro, o número de manifestantes pacíficos
em Praga passou de 200 mil a meio milhão de pessoas. Um movimento geral
envolvendo todos os cidadãos da Tchecoslováquia foi feito em 27 de
novembro. Com o colapso dos outros governos comunistas e o aumento dos
protestos de rua, o Partido Comunista da Tchecoslováquia anunciou no dia 28
de novembro que iria acabar com o poder e desmantelar o Estado de partido
único. Uma espécie de cerca, com arames farpados e outras obstruções, foi
removida da fronteira da Alemanha Oriental com a Áustria no
começo de dezembro. No dia 10 de dezembro, o presidente Gustáv
Husák apresentou o primeiro grande governo não-comunista na Tchecoslováquia
desde 1948, e renunciou. Alexander Dubcek foi eleito presidente do parlamento federal
em 28 de dezembro e Václav Havel, escritor conhecido que estava
à frente da revolução, tornou-se presidente da Tchecoslováquia em 29 de
dezembro de 1989. Em junho de 1990, a Tchecoslováquia teve sua
primeira eleição democrática desde 1946 (Dados da Wikipédia).
[11]
Milan Kundera, nascido em 1º de abril de 1929, é um escritor tcheco, autor de,
entre outros, “O Livro do Riso e do Esquecimento” e “A Insustentável Leveza do
Ser”.
[12]
Dados de 2011 dão conta que foram mortas 40.280 pessoas, sendo 3.225
desaparecidas dadas como mortas. Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/08/novo-relatorio-sobe-para-mais-de-40000-as-vitimas-da-ditadura-de-pinochet.html
Acesso em 05/12/2014 13:32.
[14]
Jornalista. Atualmente (05/12/2014) é colunista da Folha de S. Paulo.
[16]
Roberto de Oliveira Campos, economista, diplomata e político sul-mato-grossense.
Faleceu em 09.10.2001, no Rio de Janeiro.
[17] Artigo
de Orwell publicado em Inside the Whale and Other Essays (1940); no Brasil,
Dentro da baleia e outros ensaios (São Paulo: Companhia das Letras, 2005). NOTA
ENCONTRADA NO LIVRO.
[18]
Antigo deus fenício. Há 114 ocorrências desse deus na Bíblia Sagrada, apenas
uma vez no Novo Testamento (Romanos
11.4), o que indica que seu culto foi antagônico ao culto a Javé.
[19] Alexander Dubček, chefe de estado da antiga
Tchecolosváquia e líder do partido comunista daquele país.
[20] Solidarność, federação sindical polonesa,
fundada em 31 de agosto de 1980, liderada por Lech Wałęsa.
[21] Joelmir
José Beting, jornalista e sociólogo paulista. Faleceu em 29 de novembro de
2012.
[22] Josef Vissarionovitch Stalin foi o ditador
russo que comandou a União Soviética até sua morte em 1953.
[23] Nikita Serguêievitch Khrushchov, sucessor de
Josef Stalin.
[25] Jean-Bédel Bokassa, presidente da República Centro-Africana de 1
de janeiro de 1966 até 4
de dezembro de 1976 e imperador
Centro-Africano desde essa data até à sua deposição em 20 de setembro de 1979.
[27]
Ele se referia a Gil Carvalho (1986-1989) ou a Claus Germer (1989-1990),
presidentes estaduais do PT no Paraná.
[28] Leonardo Boff, pseudônimo de Genézio Darci Boff, escritor e professor universitário, expoente da Teologia
da Libertação.
[31] Karol Józef Wojtyła, o Papa João Paulo II, foi líder máximo (papa) da
igreja católica romana, de 16/10/1978 até a sua morte em 2 de abril de 2005.

