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15 outubro 2016

A TRAGÉDIA AMERICANA



Inês Teotónio Pereira (15/10/2016)



As eleições americanas estão a destruir anos e anos de educação. Uma pessoa em casa tenta explicar aos miúdos[1] o que é ser conservador, quem foi Reagan, Thatcher, Sá Carneiro, vá. Mostramos filmes, recomendamos livros, contamos histórias. Percebemos o quanto eles são novos e nós velhos quando perguntam se a queda do Muro foi antes ou depois do 25 de Abril ou quem é Freitas do Amaral. Mas resistimos. E vamos a De Gaulle para chegar a Jean Monnet, a Kennedy para explicar a descolonização, ao Império Otomano, meu Deus, para contextualizar o caos do Médio Oriente. 


De caminho exaltamos os princípios do mundo livre do Ocidente, a génese das raízes judaico-cristãs e esforçamo-nos que nenhuma pergunta fique sem resposta para que a miudagem não se deixe enganar por populismos desonestos vindos da esquerda e da direita. 


E por fim, estoirados, contamos onde estávamos no dia em que o Muro caiu para emprestar a credibilidade que o "eu vi" dá a qualquer história. Mas bem que podemos falar que eles não percebem. É abstração a mais. Para os miúdos toda esta conversa vale zero. Para eles, líderes como aqueles que víamos na televisão, são pré-história ou, na melhor das hipóteses, são conversa de mãe saudosista – coitada. E porquê? Os nossos filhos têm Trump em vez de Reagan ou mesmo de Bush, têm Boris Johnson em vez de Thatcher, Le Pen em vez de Mitterrand e até o fato de treino de Hugo Chávez em vez da farda de Fidel Castro. Da esquerda à direita, os nossos filhos não têm referências, têm humor negro. Os políticos concorrem com a FOX Comedy e ganham. Ora, perante isto é quase impossível explicar o que é um conservador ou um democrata honesto quando aquilo que lhes aparece no YouTube são as enormidades[2] de Trump e as aldrabices[3] de Clinton. Em termos de referências políticas os meus filhos votam em Jimmy Fallon ou nos Simpson. Se Trump não trouxer mais nenhuma tragédia ao mundo pelo menos já deixou esta: ser conservador é hoje sinónimo de palhaço para as novas gerações.






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[1] Crianças pequenas, meninos, pirralhos, filhos.

[2] Disparates, ditos extravagantes. 

[3] Mentiras, patranhas, trapaças.

12 outubro 2016

“Brasileiros, me aguardem” (19/02/2014, Páginas Amarelas de VEJA)

 

Entrevista com Donald Trump, sob o título  “Brasileiros, me aguardem”, reportagem de Monica Weinberg, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do dia 19 de fevereiro de 2014

O bilionário-celebridade solta a língua e fala sobre Barack Obama, economia, cabelo, poder de sedução (dele, claro) e de sua recente decisão de finalmente investir no Brasil
Por Monica Wainberg, de Nova York


No 26º andar do edifício tomado de espelhos, dourados e mármore cor-de-rosa que mandou erguer em Manhattan na década de 80, o bilionário americano Donald Trump, 67 anos, fez de sua sala uma espécie de museu em que ele, e só ele, é o tema. Centenas de capas de revista promovem um percurso por todas as fases de sua vida, desde quando começou a fazer fortuna com a construção de arranha-céus até os dias de celebridade à frente do show O Aprendiz – está em exposição, inclusive, a capa da Playboy em que ele posa com um vastíssimo topete que faz até onda, aos 43. Ícone do capitalismo nos anos 80, Trump quase quebrou nos 90, mas se reergueu: hoje empresta sua grife a hotéis, campos de golfe e até água mineral. Depois de muito alardear seu interesse pelo Brasil – chegou a anunciar participação em um megalômano resort que minguou por falta de licença ambiental – , agora ele decidiu ir adiante. Vai operar um hotel de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste carioca, com inauguração prevista até 2016. Casado com uma eslovena 24 anos mais nova e ainda topetudo, Trump, que vem ao Rio de Janeiro em março, foi logo avisando: “Tenho a melhor vista de Nova York”.

Há anos o senhor acenava com a possibilidade de fazer negócio no Brasil. Por que só agora decidiu ir em frente? Meus instintos dizem que é um bom momento, e dificilmente eles falham. Sei que o Brasil tem problemas. Para começar, é um país conhecido mundialmente pela alta carga de impostos, o que, vamos combinar, não é uma boa fama, certo? Também acompanhei os protestos na televisão e não posso dizer que achei uma maravilha. Maravilha foi ver o Papa no Rio. Os protestos, não. São sinônimo de incerteza. E incerteza é uma palavra maldita nos negócios. Agora, olho para a frente e vejo uma Copa, uma Olimpíada, uma economia que tem muito por onde crescer e um povo que está melhorando de vida, que quer gastar. Adoro os brasileiros – em especial as brasileiras, mulheres absolutamente incríveis. Acho que posso ensinar alguma coisa a essa gente. Aliás, adoro ensinar. Sou ótimo professor.

E o que teria a ensinar a brasileiros e brasileiras? Uma lição básica do bom empreendedorismo: se você trabalha duro e de forma inteligente, vai alcançar um alto padrão. O povo no Brasil é gentil, sorridente, trata as pessoas muitíssimo bem, mas os serviços oferecidos à população têm má reputação. É bom que os brasileiros vejam na prática como o nível pode se elevar. Tenha essa expertise.

Investidores estrangeiros estão tirando dinheiro do país. O senhor não teme uma bolha? Pode acontecer em qualquer lugar, inclusive no Brasil. E é claro que os riscos aumentam longe de seu próprio quintal. Mas olhe o que ocorre no meu quintal: as taxas de desemprego dispararam nos Estados Unidos. Esse é um tremendo risco. Só espero que os brasileiros não se encantem com um vizinho tipo a Venezuela. Mesmo com tanto petróleo, o Hugo Chávez conseguiu acabar com aquilo ali. É muito fácil para esse pessoal da extrema esquerda sair por aí dizendo: “Vamos deixar tudo para trás, vamos fazer a revolução”. Pode ser bonito de ouvir, mas não leva a lugar algum. Não acredito que o Brasil vá por esse lado do esquerdismo inconsequente. Acho que as bases do país são boas e o vento está a favor.

O senhor já esteve com Dilma Rousseff? Não. Quem é ele?

É a presidente da República. E de Lula, o senhor já ouviu falar? Também não.

Trata-se do ex-presidente, o mesmo sobre quem o presidente americano Barack Obama declarou: “Ele é o cara”. Obama diz isso para todo mundo. Legal ele pode até ser, mas infelizmente não está fazendo bem o seu trabalho na Casa Branca. Os Estados Unidos estão virando um Estado de bem-estar social e, pior, comendo poeira na corrida com outros países. Veja a pujança chinesa diante da americana. É inadmissível. Obama enfraqueceu a economia.

Muita gente disse que o senhor passou dos limites, e até resvalou para o ridículo, ao insistir na tese de que Obama não teria nascido nos Estados Unidos. Acha que se excedeu? Prestei um serviço à nação. Fiz o presidente vir a público mostrar a certidão de nascimento. Hillary Clinton não fez isso. John McCain não fez isso. Eu fiz. E muitos americanos aprovaram a minha iniciativa. Só espero que o documento seja mesmo verdadeiro. Obama, e ninguém mais, sabe dizer. Quanto aos que me ridicularizaram, certamente se trata de uma gente amarga ou malsucedida – provavelmente, os dois.

Sua escola de negócios, a Trump University, é alvo de um processo movido por estudantes que o acusam de propaganda enganosa. Eles têm razão? De jeito nenhum. Isso é tudo obra de um procurador de Nova York que está tentando me extorquir. São 40 milhões de dólares em jogo. Acho que o próprio Obama pode estar por trás disso. Os dois estiveram juntos um dia antes de essa história aparecer. Quanto ao pequeno grupo de alunos indignados, o que posso dizer? Eles viram a possibilidade de ganhar dinheiro e estão indo atrás. É humano. Mas são a minoria: uma pesquisa mostrou que 98% dos alunos aprovam minha escola.

Ora o senhor alimenta as especulações de que se candidatará ao governo de Nova York, ora à Presidência dos Estados Unidos. O que será, afinal? Estou preparado para o que for. Os republicanos me mostram pesquisas em que meu nome está lá na frente, e isso me anima, claro. Gosto de política. Mas ainda falta uma eternidade. No momento certo, vou decidir. Posso dizer desde já que tenho filhos capazes de ocupar bem a minha cadeira, por mérito. Não é como muitos empresários que conheço, gente de carreira brilhante no mundo dos negócios que passa o poder a herdeiros sem nenhum jeito para a coisa. Aí vem aquela catástrofe. Deve ser terrível você ver o próprio império desmoronando.

O senhor mesmo quase quebrou nos anos 90. Como foi estar no fundo do poço? Passei um período duríssimo. Fui testado no limite. E a gente só sabe que é resistente de verdade quando se vê sob pressão. O mercado estava ruim, e muita gente boa quebrou. Uns caras que pareciam durões não aguentaram o tranco e perderam o controle. Eu podia ter entrado em depressão. Estava por baixo, por baixo mesmo, mas segui em frente e me reinventei. Olhe quantas capas de revista falam do meu sucesso empresarial. Supero qualquer supermodel. As paredes da minha sala estão lotadas. Não é por acaso.

Quais são os prazeres da vida de celebridade? Gosto da sensação de descer do elevador do prédio onde trabalho, botar o pé na Quinta Avenida e sentir aquela energia da multidão enlouquecida, gritando: “Trump! Trump! Você está demitido!”. Esse é o bordão do meu programa, O Aprendiz. Poderia haver resposta melhor para quem achava que eu seria um fiasco no showbiz? Ninguém esperava que eu fosse estourar. As pessoas me diziam: “Esquece, você não tem jeito para a TV”. Aí fui para o topo da audiência e calei a boca de todo mundo. Ser celebridade é bom umas 70% das vezes: traz popularidade, dinheiro e poder. Mas também prezo a privacidade de vez em quando.

O poder atrai as mulheres? Todas as mulheres dão em cima de mim no show. Elas querem vencer o jogo.

Como dono do concurso Miss Universo, o senhor também provoca alvoroço entre as concorrentes? Conheço as misses e converso com elas. É parte do meu trabalho. Mas não sei dizer se flertam comigo. O que sei é que algumas dessas mulheres são de uma inteligência extraordinária. São médicas, advogadas. As brasileiras, em particular, chamam a atenção: elas são deslumbrantes, de uma natureza privilegiada. Mas, calma, não quero confusão para o meu lado.

Fora da TV, o senhor tem algum prazer em demitir seus funcionários? Em geral, não. São pessoas incompetentes, coitadas. Elas já nasceram assim. Não é caso para espezinhar. Só tenho prazer mesmo em demitir ladrões. Adoro. E olhe que já cruzei com verdadeiros profissionais na minha vida.

Com uma agenda tão atribulada sobra tempo para a leitura? Não muito.  Costumo ler contratos,  mas não na letra miúda. Isso quem faz são meus advogados. São muitas páginas. Sabe o que eu gosto mesmo de ler? The Art of the Deal (A Arte de Fazer Negócios), de Donald Trump.

Foi um bom aluno? Era um bom aluno em Warthon, sim, mas isso não explica tudo. Quase todos os caras nota 10 com quem estudei estão hoje em posições medíocres. Eram quadrados demais. Já os mais medianos, não. Embora não fossem brilhantes nem os melhores da turma, tinham uma qualidade essencial:  gostavam de correr riscos. E também tinham um ego considerável, característica fundamental para o sucesso. Hoje são CEOs de grandes corporações.

O senhor sempre diz que é vital para qualquer CEO selar um bom acordo pré-nupcial. Chegou a perder muito dinheiro em seus divórcios? Não. O que debitei de minha fortuna foi insignificante. Isso porque me preocupei em deixar tudo bem claro no papel antes de subir ao altar. E os acordos que fiz foram bastante razoáveis.

O que é em sua concepção um acordo pré-nupcial razoável? Não tem um valor predefinido. Ele deve variar segundo a participação da mulher na vida de seu marido. Algumas são mais colaborativas, outras produzem verdadeiras catástrofes nas finanças. Sei da história de muitos homens que não alcançaram o sucesso justamente por causa de suas mulheres. Na hora do divórcio, elas queriam sugar tudo deles. Quando soube do casamento de Mark Zuckerberg (CEO do Facebook), pensei: “Tomara que este tenha um bom acordo pré-nupcial”. Mas não liguei para ele, não. Achei que não precisava de um conselho tão básico.

Em seu histórico matrimonial, as mulheres são sempre bonitas e cada vez mais jovens. Não se sente como um senhor de 67 anos? De forma alguma. Estou no auge do meu vigor. Bem de corpo, de cabeça e de dinheiro.

Sua primeira esposa, Ivana Trump, é checa; a atual, Melania Knauss-Trump, eslovena. Isso o tornou um poliglota? Não falo nem uma palavra de checo nem de esloveno. Também não sei nada dessas culturas. Até gosto de visitar a Europa – a Alemanha, a Inglaterra, a Itália, é tudo muito lindo –, mas nada neste mundo me faria mudar dos Estados Unidos.

Posaria de novo para a capa da Playboy?  Tenho o maior orgulho dessa capa. Poderia até repetir, mas não estou mais nos meus 40, né? O engraçado é que, mesmo sendo um homem na capa, essa foi uma das edições que mais venderam em toda a história da revista. Um fenômeno. E olha que eu ainda não era tão famoso quanto agora. Em compensação, tinha mais cabelo.

A propósito do cabelo, seu penteado vem sendo, há décadas, alvo de críticas ferinas. Nunca pensou em mudar? Por nada neste mundo eu troco de penteado. Gosto dele. Parece que se acomodou bem à minha cabeça. Não dá problema e tem o seu estilo. Quanto ao pessoal que me critica, pode reparar: certamente, é uma gente perdedora e invejosa.

Afinal, é o não é peruca? Nada de peruca. Este cabelo é meu, original de fábrica. Basta olhar para minhas fotos de juventude para saber; é a mesma coisa, só um pouco mais ralo e mais esbranquiçado. Já ouvi de muita gente: “Você é ótimo nos negócios. Já essa sua peruca...”. Uma parte dessa turma provavelmente nem acha que é falso, mas fala mesmo assim, só para chatear. Um dia, fui ao programa da Barbara Walters e ela pediu para tocar no meu cabelo. Eu a deixei à vontade. Ela mexeu, mexeu e disse: “Então, é seu mesmo?”. É o que venho dizendo todos esses anos, em vão. Quer tocar?

29 julho 2016

História dos Estados Unidos – Leandro Karnal




Descrição do livro



Como pode os Estados Unidos provocarem tanto ódio, a ponto de muita gente no mundo ficar feliz com ataques suicidas de fanáticos obscurantistas contra eles? Como pode uma cultura influenciar tantas outras e ostentar, muitas vezes, um provincianismo digno de rincões escondidos no espaço e no tempo? Nação que absorveu mais imigrantes que nenhuma outra na história, que respeita as diferenças criando etiquetas para as minorias, que incorpora cientistas do mundo todo em suas melhores universidades, que espalhou para o mundo o cinema e o jazz, séries de tv e calças jeans, padrão de magreza anoréxica e de seios inflados; país que defendeu a democracia em ‘guerras justas’ e atentou contra ela em invasões injustificáveis.



É sobre esse fascinante país que trata este livro. Feita com olhar brasileiro, a obra foi escrita por quatro especialistas da área, passando longe da visão maniqueísta com que o tema comumente é tratado. Obra de referência, essencial para quem não é indiferente (gostando ou não) às influências que a terra do ‘Tio Sam’ exerce sobre nós.



FONTE: Lê Livros



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16 dezembro 2014

DISCURSO DO PRESIDENTE DA RÚSSIA, VLADIMIR PUTIN.




Discurso efetuado por ocasião da Reunião do Clube de Discussão Internacional Valdai, em 24 de outubro de 2014, em Sochi.

Colegas, senhoras e senhores, amigos, é um prazer recebê-los para a reunião XI do Clube de Discussão Internacional Valdai.
Foi mencionado que o clube tem novos co-organizadores este ano. Elas incluem as organizações não-governamentais russas, grupos de especialistas e as melhores universidades. Foi, também, levantada a ideia de ampliar as discussões para incluir não apenas as questões relacionadas com a própria Rússia, mas também a política mundial e a economia.
A organização e o conteúdo vão reforçar a influência do clube como um importante fórum de discussão e de especialistas. Ao mesmo tempo, espero que o ‘espírito de Valdai’ permaneça — essa atmosfera livre e aberta e com a chance de expressar todos os tipos de opiniões muito diferentes e francas.
Deixe-me dizer a este respeito que eu também não vou desapontar vocês e vou falar diretamente e com franqueza. Algumas das coisas que eu disser podem parecer um pouco duras demais, mas se nós não falarmos diretamente e honestamente sobre o que realmente pensamos, então não vale a pena nos reunirmos desta forma. Seria melhor, neste caso, apenas manter os encontros diplomáticos, onde ninguém diz nada de verdadeiro sentido e, recordando as palavras de um diplomata famoso, você percebe que os diplomatas têm línguas, mas não para falar a verdade. Ficamos juntos por outras razões. Nós nos reunimos assim para falarmos francamente um com o outro. Precisamos ser diretos e francos, hoje, não para trocarmos farpas, mas a fim de tentar chegar ao fundo do que está realmente acontecendo no mundo, tentar entender por que o mundo está se tornando menos seguro e mais imprevisível e por que os riscos estão aumentando em todos os lugares à nossa volta. A discussão de hoje tomou lugar sob o tema: Novas Regras ou um Jogo Sem Regras. Eu acho que essa fórmula descreve com precisão o ponto de virada histórico a que chegamos hoje e a escolha que todos nós enfrentamos. Naturalmente, não há nada de novo na idéia de que o mundo está mudando muito rápido. Eu sei que isso é algo que vocês têm comentado nas discussões de hoje. Certamente é difícil não notar as transformações dramáticas na política mundial e na economia, na vida pública e na indústria, nas tecnologias de informação e sociais.
Deixe-me perguntar-lhes agora e peço que me perdoem se eu acabar repetindo o que alguns dos participantes da discussão já disseram. É praticamente impossível evitar. Vocês já realizaram discussões detalhadas, mas vou definir o meu ponto de vista. Ele vai coincidir com a opinião dos outros participantes em alguns pontos e divergir em outros.
Ao analisar a situação de hoje, não esqueçamos as lições da história. Primeiramente, as mudanças na ordem mundial — e o que estamos vendo hoje são eventos nessa escala — têm geralmente sido acompanhadas, se não de uma guerra e conflitos mundiais, por uma cadeia de intensos conflitos em nível local. Em segundo lugar, a política global é, acima de tudo, sobre a liderança econômica, questões de guerra e paz e a dimensão humanitária, incluindo os direitos humanos.
O mundo está cheio de contradições hoje. Precisamos ser francos em perguntar uns aos outros se temos uma rede de segurança confiável funcionando direito. Infelizmente, não há nenhuma garantia e não há certeza de que o atual sistema de segurança global e regional é capaz de nos proteger de convulsões. Esse sistema tornou-se seriamente enfraquecido, fragmentado e deformado. As organizações de cooperação internacional e regional políticas, econômicas e culturais também estão passando por momentos difíceis.
Sim, muitos dos mecanismos que temos para garantir a ordem mundial foram criados muito tempo atrás, inclusive e, sobretudo, no período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. Deixe-me enfatizar que a solidez do sistema criado naquela época não repousou apenas no equilíbrio de poder e os direitos dos países vencedores, mas no fato de que "os pais fundadores" desse sistema tiveram respeito um pelo outro, não tentaram colocar pressão sobre os outros, mas procuraram chegar a acordos.
A principal coisa é que este sistema necessita se desenvolver, e apesar de suas várias deficiências, precisa pelo menos ser capaz de manter os problemas atuais do mundo dentro de certos limites e regular a intensidade da concorrência natural entre os países.
É minha convicção de que não poderíamos tomar este mecanismo de freios e contrapesos que construímos ao longo das últimas décadas, às vezes com tal esforço e dificuldade, e simplesmente acabar com eles sem construir qualquer coisa em seu lugar. Caso contrário, ficaríamos sem nenhum outro instrumento além da força bruta.
O que precisávamos fazer era realizar uma reconstrução racional e adaptá-la às novas realidades no sistema das relações internacionais.
Mas os Estados Unidos, tendo se declarado o vencedor da Guerra Fria, não vê necessidade para isso. Em vez de estabelecer um novo equilíbrio de poder, essencial para a manutenção da ordem e da estabilidade, eles tomaram medidas que jogaram o sistema em um desequilíbrio agudo e profundo.


Fonte: Julio Severo

Conflito na Síria











 









Veja texto: O tiro saiu pela culatra, do blog de Julio Severo

Blog do Fábio Ibrahim

Guerra Civil na Síria: Wikipedia

Análise do Conflito: ANAJURE

01 outubro 2014

Julio Severo: Entrevista com Don Hank - interpretando o que está acontecendo com os EUA, Europa e Rússia hoje

Julio Severo
Como um evangélico conservador americano que fala e lê russo e várias línguas europeias e asiáticas, Don Hank está numa posição singular para explicar os grandes desafios e perigos para os EUA, Europa e Rússia.
Nesta entrevista, ele ajudará os leitores internacionais, especialmente brasileiros, a compreenderem o que está acontecendo com essas culturas que têm tradições cristãs.
Don tem uma preocupação especial por cristãos que estão sendo perseguidos, estuprados e massacrados como consequência de equivocadas e malévolas políticas geopolíticas das potências ocidentais. Ele tem escrito vários artigos em apoio desses cristãos perseguidos.
Ele tem tido uma conexão especial com dois de seus amigos brasileiros. Quando o PayPal, sob pressão de uma campanha de uma grande organização homossexual dos EUA, encerrou minha conta, Don denunciou esse abuso num artigo que foi manchete no WND, intitulado “PayPal coloca escritor cristão na lista negra.”
Outro brasileiro ajudado por Don foi o filósofo Olavo de Carvalho. A primeira vez que algum artigo do Olavo apareceu no WND foi por meio da tradução do Don.
Aliás, vim a conhecer o Don Hank por meio do Olavo. Ambos foram muito especiais e apoiadores em meus momentos de perseguição vinda dos ativistas homossexuais.
A guerra épica envolvendo colossais forças homossexuais e islâmicas está atingindo os EUA, a Europa e a Rússia de forma extraordinária. Portanto, convidei Don para nos falar o que ele sabe, pois ele tem muito conhecimento dessas três culturas.
JULIO SEVERO: Em vista do fato de que a maior ameaça ao mundo e principalmente aos cristãos é o islamismo, por que os EUA e a Rússia, ambas nações cristãs, estão brigando uma com a outra, em vez de lutarem contra o islamismo?
DON HANK: A resposta vai a essa pergunta tão longe de nossa zona de conforto e nossa barreira mental do que é aceitável que muitos ocidentais recusarão crer. Mas está aqui para os que têm disposição de considerar minha interpretação:
Os EUA não são cristãos no mesmo sentido que a Rússia. Nos EUA, a Esquerda tem travado uma guerra contra o Cristianismo que deixou os cristãos americanos debilitados e incapazes de resistir. Um exemplo saliente é o modo como nosso povo, inclusive muitos cristãos, foram subjugados à doutrina politicamente correta de que proibições bíblicas contra a conduta homossexual são antiquadas e “homofóbicas.” Essa doutrina politicamente correta é quase impossível de resistir, pois geralmente os americanos a aceitam ou têm medo de fazer-lhe resistência, e muitos outros estão dispostos a insultar ou desprezar qualquer um que expressar o ponto-de-vista contrário. Há também uma tendência oficial de sancionar e cumprir leis que punem cristãos e outros que se opõem ao conceito de “casamento homossexual.” Muitas igrejas aceitam essa doutrina antibíblica e algumas têm pastores que são abertamente homossexuais. Na Rússia, não existe nenhuma repressão legal ou social contra os que aceitam ou expressam o ponto-de-vista da Bíblia e bom senso de que a homossexualidade é anormal. Quase todas as igrejas russas aceitam a visão bíblica acerca da homossexualidade.
Portanto, em resumo, tanto o governo quanto o povo da Rússia são mais próximos em suas opiniões quanto ao Cristianismo como é ensinado na Bíblia. O Cristianismo na forma pura não é uma ideologia. Eu defino ideologia essencialmente como aquilo que se distancia do bom senso, e os russos, graças a Deus, ainda se permitem guiar pelo bom senso. A propósito, Putin, numa entrevista recente, disse que não tem uma ideologia. Ele se descreve como um conservador e pragmático, mas insistiu que o conservadorismo e o pragmatismo não são ideologias. Em outras palavras, em linguagem simples, a Rússia é, ironicamente, um país cristão de verdade enquanto os EUA são um país cristão de nome. Ou mais precisamente, os EUA estão rapidamente se tornando um país não cristão guiado por uma ideologia que dá para se chamar, em termos gerais, ocidentalismo, ou liberalismo ocidental.
Essa ideologia tem muitas facetas, tais como uma forma venenosa de secularismo que é realmente anticristã enquanto finge ser neutra; russofobia (um tipo de racismo, semelhante ao antissemitismo de Hitler, ensinando, por exemplo, que a Rússia é moralmente inferior ao Ocidente, um ensinamento que atrai seu apoio de sentimentos que ainda restam da Guerra Fria em muitos americanos que obtêm a maior parte de suas informações da mídia de massa); a doutrina da excepcionalidade americana, que dá às forças armadas dos EUA o privilégio de invadir qualquer país que se opõe aos EUA, e os conceitos agora sem sentido de “liberdade” e “democracia”; que em termos reais significam apenas o oposto do que sugerem; e um conceito de Nova Ordem Mundial de um mundo dividido em várias regiões facilmente controláveis, uma das quais seria muçulmana e seria dominada pela xaria, a lei islâmica.
Esse regionalismo criaria hierarquias que as oligarquias ocidentais que o criaram esperam controlar. Eles dão pouca consideração às consequências inesperadas de tal sistema, que poderia ser desastroso para eles. Essa faceta regionalista da política dos EUA é a mais perigosa de longe e estamos só agora começando a ver a ameaça que ela representa para todos os povos ocidentais por causa da situação do Oriente Médio. É difícil crer, mas, embora os oligarcas ocidentais possuam formidáveis meios militares, eles são ideologicamente impotentes para se opor ao islamismo.
Por essas razões, a Rússia naturalmente apoia os cristãos, tais como os cristãos sérvios e sírios, ao passo que as políticas dos EUA podem no final causar a morte e destruição desses cristãos se nenhuma força contrária intervir. Os oligarcas dos EUA (diferente do povo americano) são ideologicamente incapazes de se aliar à Rússia contra o islamismo. Aliás, já escrevi um artigo intitulado “Capital dos EUA é a sede do califado islâmico,” que explica a razão disso ser assim.
JULIO SEVERO: Don, você disse: “Os EUA não são cristãos no mesmo sentido que a Rússia” e “a Rússia é, ironicamente, um país cristão de verdade enquanto os EUA são um país cristão de nome.” Concordo com você que a Igreja Ortodoxa Russa, que sabe preservar suas tradições, está se saindo melhor do que as principais denominações dos EUA como a Igreja Presbiteriana, a Igreja Luterana e outras igrejas protestantes tradicionais. A missão básica de uma igreja tradicional é preservar suas tradições cristãs. E o Cristianismo não tem nenhuma tradição de apoiar a matança de bebês em gestação e outros inocentes e da mesma forma nenhuma tradição de apoiar o “casamento” gay e outros aspectos da agenda gay.
Por que um número elevado de igrejas protestantes tradicionais nos EUA aceita essas aberrações e a Igreja Ortodoxa na Rússia não? Nesse sentido, o Cristianismo tradicional na Rússia está se saindo melhor do que o Cristianismo tradicional nos EUA. Mas sou da linha carismática/pentecostal, e na minha opinião muitos americanos dessa linha estão se saindo muito melhor, até onde sei, do que os russos. Por exemplo, a Rússia não tem nenhum David Wilkerson ou Jack Deere. Aliás, o americano mais importante que participou de um recente evento pró-vida em Moscou é membro da Assembleia de Deus. Vamos fazer outra pergunta:
William Murray disse que a Arábia Saudita é o maior financiador do terrorismo islâmico mundial. Além disso, a Arábia Saudita mata escancaradamente homossexuais, proíbe o Cristianismo e persegue e tortura cristãos. Por que os EUA, que é o mais importante aliado da Arábia Saudita e um promotor ativo de direitos gays mundiais, nunca os condenam por executarem homossexuais, mas condenam a Rússia por causa de uma mera lei que proíbe propaganda homossexual para menores de idade?
DON HANK: Os EUA estão agora nas mãos de um pequeno grupo de oligarcas que são anticristãos. Para eles a lei da Rússia que proíbe a propaganda homossexual não é uma “mera” lei, é uma declaração de guerra ao ocidentalismo, que, embora seja uma ideologia, está realmente se tornando uma religião aos olhos desses oligarcas famintos de poder, que irracionalmente odeiam todos os que se opõem a eles… não diferente dos fascistas. A homossexualidade é uma das colunas dessa religião, uma de suas doutrinas sagradas. A ironia das políticas dos EUA é, conforme você mostra, Julio, que elas apoiam dois ensinos mutuamente exclusivos: a agenda homossexual e o islamismo. Para eles, isso não é problema, pois o fim justifica os meios. O segredo que só alguns observadores articularam é que tanto o islamismo quanto a agenda homossexual são anticristãos. O que é incrível então é que o ocidentalismo adotou esses dois ensinos apenas com o objetivo de destruir o Cristianismo. A Rússia, é claro, se opõe a ambos, e por esse motivo, a Rússia é hoje a única potência em condições de defender os cristãos e o Cristianismo.
JULIO SEVERO: Por que os EUA são tão delicados com a Arábia Saudita, que mata homossexuais, e tão duros com a Rússia que não os mata?
DON HANK: Olha, se o governo dos EUA estivesse realmente preocupado com homossexuais, não promoveria a islamização do jeito que vem fazendo. De forma semelhante, se realmente se preocupasse sobre apoiar o islamismo, não promoveria a agenda homossexual. A única explicação que resta para essa conduta incoerente — a explicação espontânea — é que os EUA estão interessados principalmente em destruir a cultura cristã, e por essa razão apoia a ideia de um califado. A Arábia Saudita apoia a fundação de um califado, que é parte do conceito de Nova Ordem Mundial de um mundo dividido em regiões que são facilmente controláveis pelos oligarcas ocidentais. Os oligarcas enxergam a Rússia como rebelde, pois não obedece ao Ocidente, principalmente aos EUA, que os oligarcas veem como lei para si mesmos, não obedecendo nem as leis de Deus nem as do homem. Os EUA fazem suas próprias leis para sua própria conveniência. Ironicamente, a Rússia tem mostrado que age de acordo com o direito internacional enquanto os EUA zombam do direito internacional. Isso é evidente numa entrevista televisada com o ministro de relações externas da Rússia Lavrov que traduzi para o inglês.
JULIO SEVERO: Não há dúvida alguma de que a agenda gay e a agenda islâmica são ideologias de tirania. Como os EUA e a Rússia reagem domesticamente a essas ameaças?
DON HANK: Um especialista em política russa, que era um analista profissional aposentado no governo russo, certa vez disse num email privado a um grupo em que eu estava incluído, que Putin, logo depois de sua eleição, lidou com os rebeldes muçulmanos chechenos enviando um de seus generais à Chechênia com uma força militar imensa. O general disse ao chefe islâmico de cada cidade que eles deveriam se entregar. Ele disse que se eles se entregassem pacificamente, eles seriam poupados. Se não, a cidade seria destruída. Ele manteve sua promessa. Putin é cruelmente criticado pelo Ocidente por essa política, exatamente como Assad é criticado por ser duro com os terroristas. Contudo, pela inação de líderes ocidentais, estamos testemunhando violência diária no Oriente Médio e até uma crescente guerra santa no Ocidente. Precisamos compreender que a inação é mais devastadora a longa prazo do que lidar duramente com assassinos.
Quanto à agenda homossexual, o governo de Putin deu um jeito de sancionar e cumprir leis que proíbem a propaganda gay. A Rússia prendeu um grupo de mulheres, o Pussy Riot, que entrou ilegalmente e profanou uma igreja. A razão para o sucesso de Putin é que, apesar das acusações ocidentais de que ele é um tirano, seu governo é muito mais democrático do que o governo dos EUA no sentido de que o povo russo não quer ter políticas e propaganda pró-homossexualismo impostas sobre eles, e as políticas dele respeitam a vontade do povo. Em contraste, os oligarcas dos EUA no governo e nas ONGs têm de vencer a vontade do povo a fim de impor o “casamento” gay em nós. Tudo está ao contrário. A Rússia, que no passado era esquerdista, agora é a potência mundial mais social e economicamente conservadora, enquanto os EUA, outrora conservadores, são hoje muito radicais e esquerdistas.
JULIO SEVERO: Como é que os EUA vieram a ter um presidente que é simultaneamente pró-islamismo e pró-sodomia?
DON HANK: Em minha opinião, Julio, Obama não é realmente tanto pró-islamismo ou pró-sodomia quanto ele é pró-liberalismo ocidental, que é essencialmente a mesma coisa que neoconservadorismo. Ele só está usando o islamismo e a agenda homossexual para impor a vontade do Ocidente no resto do mundo. E ele não está agindo só. Ele está simplesmente acompanhando a ideologia secular ocidentalista central.
JULIO SEVERO: Com sucesso, Ronald Reagan criou a Política da Cidade do México, que proibiu, na época dele, o governo dos EUA de financiar o aborto em outros países. Mas ele não teve êxito em derrotar Roe versus Wade, a lei aprovada em 1973 que permite em todo o território americano o aborto desde o primeiro até o último mês de gravidez. De modo semelhante, o atual governo mais conservador da Rússia tem tido êxito em liderar a luta contra o aborto no sistema da ONU, mas domesticamente só o tem restringido e proibido sua propaganda. O que você acha desses paralelos conservadores?
DON HANK: Penso que Putin é conservador em seu coração, mas como Reagan, ele é um pragmático que conhece os limites de seu poder. Putin já está fazendo grandes mudanças no índice de aborto e, diferente de Reagan, ele tem uma razão moral e econômica para se opor ao aborto. O índice de natalidade é baixo demais para ser sustentável. Se existe algum país que vai chegar ao ponto de proibir o aborto, acho que será a Rússia.
JULIO SEVERO: Numa escala maior, velhas igrejas cristãs na Europa estão se transformando em mesquitas. Numa escala menor, a mesma coisa está acontecendo nos EUA. Em contraste, a Rússia está reconstruindo igrejas cristãs e proibindo a construção de mesquitas em Moscou. Será que o caso europeu e americano é um exemplo de “democracia” ou suicídio? Será que os russos estão tentando impedir a enorme “invasão” islâmica que está transformando o cenário cultural e religioso da Europa e dos EUA?
DON HANK: A Europa e os EUA estão ambos se rendendo gradualmente ao islamismo e há pouca evidência de que os líderes dessas regiões pararão até que tenham sido completamente islamizados. Os únicos sinais de um despertamento para os perigos são os partidos políticos que estão crescendo rapidamente na Inglaterra, Holanda e França, os quais estão dando grandes passos para educar o público acerca da ameaça muçulmana. Os EUA não tiveram experiência direta suficiente com o islamismo para se opor a ele com força, e evidentemente o governo de Obama realmente tem muçulmanos em cargos governamentais elevados. Crê-se amplamente que John Brennan, o diretor da CIA, é muçulmano. Isso é um sinal muito sinistro. Portanto, a resposta à sua pergunta se somos uma democracia ou suicídio, eu teria de dizer que estamos rumando para o suicídio, ironicamente, como consequência de nossa obsessão com a democracia, embora com a advertência de que nossa “democracia” não representa a vontade do povo. Um estudo entre as Universidades de Northwestern e Princeton mostrou inequivocamente que os EUA são mais oligarquia do que democracia.
Quanto à Rússia, embora o governo central esteja tomando cuidado para evitar confrontos com o islamismo, áreas locais e cidades têm, como você mencionou, adotado medidas sérias para deter o avanço do islamismo, inclusive leis que proíbem a construção de mesquitas em várias cidades e em Moscou, recusando dar permissão para passeatas contra a “islamofobia.”
JULIO SEVERO: Muitas pessoas falam sobre a Rússia sem compreender sua língua, cultura e tradições. É esse o seu caso? O que você sabe sobre a Rússia?
DON HANK: Tenho mestrado em língua e literatura russa e estudei na Universidade de Leningrado (agora Petersburgo). Leio a língua russa sempre que posso. É quase impossível compreender o que realmente está acontecendo na Rússia sem olhar para o ponto-de-vista russo. Meus amigos russófobos insistem em que quase tudo o que os russos dizem é mera propaganda. Contudo, deve-se apontar que a Rússia não é mais um governo monolítico. Creio que você, Julio, mostrou num recente comentário que o jornal Moscow Times tem opiniões contra o governo russo. Portanto, ninguém pode com honestidade dizer que toda notícia da Rússia é propaganda.
Há também uma razão muito importante por que vejo a Rússia de forma diferente de muitos outros americanos, inclusive cristãos conservadores. Tenho tido contato considerável com a literatura russa e reconheço nas palavras e ações de Putin a influência clara do pensamento cristão russo. Autores cristãos que eu tenho lido em russo incluem Dostoyevsky e Tolstoy, cujos pensamentos cristãos são expressos e ilustrados nas palavras e ações de Putin. De modo semelhante, Putin teve relações amistosas com Alexander Solzhenitsyn, um homem cujos escritos refletiam o pensamento religioso numa época em que tal era estritamente proibido pelos comunistas (mas sem necessariamente se declarar cristão). É muito difícil para os ocidentais com pouco ou nenhum contato com a literatura russa avaliar de forma correta Vladimir Putin.
JULIO SEVERO: Ultranacionalistas americanos como Cliff Kincaid acreditam que Putin está sendo influenciado por uma ideologia chamada “eurasianismo,” que foi introduzida pelo filósofo Alexander Dugin. Aliás, Kincaid disse que Dugin é um conselheiro de Putin. Qual é sua opinião sobre isso?
DON HANK: Russofobia é agora uma indústria nos EUA e picaretas que trabalham nela são pagos para dar palestras e escrever livros que essencialmente mantêm quente a guerra fria. Nenhum dos que conheço, inclusive Kincaid, têm um conhecimento amplo da cultura, literatura ou língua russa e eles não leem a imprensa de língua russa. É impossível ser uma autoridade sobre questões da Rússia sem ter esse conhecimento.
Julio, sei que muitas pessoas aqui no mundo ocidental ouvem dos críticos anti-russos que Alexander Dugin é um “mentor” de Putin. Isso não é verdade. Dugin é um homem muito esperto que quer poder para si e tem feito tentativas desesperadas de ganhar a aprovação de Putin. Dugin jamais chegou a entender Putin. Depois que Dugin fez aquele discurso louco numa entrevista televisada exortando “matem, matem, matem” (os ucranianos), muitos russos exigiram que Dugin fosse demitido de seu cargo de professor. Aliás, ele foi demitido, e o que é significativo é que Putin não objetou a isso.
Na verdade, Putin disse várias vezes em entrevistas que os russos e os ucranianos são irmãos. Ele quer reconciliação e quer que os russos respeitem outros povos. Dugin foi estúpido ao dizer o que disse. Dugin mais tarde culpou, de forma tola, Putin por não socorrê-lo. Obviamente, esse homem é um egoísta que não tem nenhuma influência em Putin, e duvido que ele já teve no passado. Putin recentemente foi entrevistado pela mídia russa e lhe perguntaram qual era sua ideologia. Putin disse que ele não tinha ideologia e que ele era um conservador e pragmático. Esse foi um sinal forte para o público de que ele não estava de forma alguma ligado a Dugin e não seria influenciado pela ideologia dele.
JULIO SEVERO: Obrigado, Don. Se a Rússia seguisse o modelo de livre expressão dos EUA, Dugin nunca seria demitido, pois milhares de professores americanos proclamam besteiras e até assassinatos (principalmente de bebês em gestação) e não são demitidos. Aliás, a moda hoje nos EUA é demitir apenas professores que se expressam contra o aborto e a homossexualidade. Portanto, é muito interessante que no modelo russo, Dugin foi demitido. Agora, outra pergunta:
Alguns dias atrás, o Kremlin realizou um fórum internacional sobre famílias grandes e o futuro da humanidade. Originalmente, o Congresso Mundial de Famílias estava programado para realizar seu grande evento pró-família no Kremlin. Mas organizações esquerdistas e homossexuais conseguiram pressionar o governo dos EUA a proibir grupos cristãos e conservadores de participarem. Então, o Congresso Mundial de Famílias teve de se submeter sob essa enorme pressão negativa. Qual é o poder hoje das organizações gays e esquerdistas dos EUA para deter a liberdade de grupos cristãos e conservadores? Por que outros grandes grupos conservadores dos EUA não denunciaram isso? Pelo contrário, os ativistas gays dos EUA trataram como lixo o evento de Moscou. A organização esquerdista PFAW (sigla de Pessoas em favor do Jeito Americano), que me atacou semanas atrás, também tratou o evento como lixo. Aliás, ultranacionalistas americanos como Cliff Kincaid o trataram como lixo também. Até o jornal russo secular The Moscow Times, seguindo a mídia secular americana, tratou o evento como lixo, usando basicamente as mesmas palavras de Kincaid, dizendo que os palestrantes russos eram “corruptos” e acusando os participantes americanos e internacionais de serem “neocons.” Essa foi a primeira vez na minha vida que fui acusado de ser neocon. Como você interpreta essa estranha “aliança” contra o evento pró-família em Moscou?
DON HANK: Primeiramente, Julio, quero com todo coração congratular você por ter podido estar nessa conferência. Creio que Deus estava com você ao abrir o coração de seus leitores para doarem de forma tão generosa ao lhe dar condições de fazer essa viagem. É incrível que o governo de uma nação “cristã” poderia se deixar pressionar para proibir a ida de alguém ao Kremlin. Que visita maravilhosa e historicamente educativa que teria sido! Não posso lhe dizer exatamente a razão por que grupos conservadores não se queixaram sobre essa proibição absurda, mas tenho uma teoria. Desde que sites começaram a publicar meus artigos sobre Putin e a Rússia, venho recebendo e-mails de grupos que chamo de “russófobos profissionais,” ativistas que apoiam a visão neocon acerca da Rússia e são pagos para dar palestras e escrever livros que denigrem a Rússia. Isso é pouco mais do que prostituir seus talentos.
Russofobia é racismo, exatamente como o antissemitismo. Ambos implicam um medo e/ou ódio de um grupo étnico, que eles consideram moralmente, intelectualmente ou em outros aspectos inferior, enquanto consideram a si mesmos superiores. Jesus avisou contra esse sentimento de superioridade moral em sua parábola do fariseu e o cobrador de impostos orando no Templo. Infelizmente, muitos cristãos ocidentais são também russófobos, e esse é um sinal de cegueira espiritual — o mesmo tipo de cegueira espiritual que impede os cristãos de defenderem com eficácia sua fé contra a islamização e os abusos da agenda homossexual. Só uma pessoa espiritualmente cega não conseguiria ver como a Rússia está hoje defendendo o Cristianismo contra o islamismo e contra a agenda homossexual.
O jornal Moscow Times é anti-Putin. Acusar você de ser neocon é prá lá de absurdo. Essa gente não tem ideia do que é um neocon. Os neocons de hoje são anti-russos. Há um movimento anti-Putin muito forte na Rússia e consiste principalmente do que chamam de ocidentalizadores, que se alinham com o Ocidente. Essa dicotomia entre eslavófilos e ocidentalizadores data do século XVIII na Rússia. Dá para compreender a diferença entre esses movimentos lendo a novela “Nest of Noblefolk” de Turgenev (acessível como filme online. Eu muito o recomendo para aficionados de filmes clássicos). É difícil de acreditar, mas os ocidentalizadores estão ainda ativos hoje e querem que a Rússia fique mais próxima da ideologia da Europa e EUA.
JULIO SEVERO: Alguns líderes pró-família americanos foram muito corajosos e foram ao evento conservador de Moscou. Agora a Campanha pelos Direitos Humanos, a maior organização homossexual dos EUA, quer que o Departamento de Estado dos EUA os investigue. Existe uma Gaystapo (uma opressiva máquina de monitoração gay com assistência estatal) nos EUA? Por que os ativistas homossexuais da Rússia não têm a mesma “liberdade” e aparato para ser uma Gaystapo contra os cristãos?
DON HANK: Julio, gosto de sua palavra “Gaystapo” porque descreve perfeitamente muitos ativistas gays e o aparato estatal que os protege enquanto persegue os cristãos que ousam dizer que a conduta homossexual é pecado. Já frequentei uma igreja em que o pastor ensinava a visão bíblica acerca da homossexualidade. Uma vez enquanto o pastor estava pregando sobre a homossexualidade, um rapaz pulou de seu banco e correu para fora, seguido pelo filho do pastor. Foi um quadro bizarro, mas suspeitei o que estava por trás daquilo.
Algumas semanas mais tarde, depois que esse pastor havia de novo pregado a visão bíblica acerca da homossexualidade, a casa do pastor foi totalmente incendiada. Os investigadores da polícia descobriram que o incêndio havia sido consequência de ação criminosa, mas ninguém conseguiu localizar os criminosos. Suficiente dizer que os ativistas gays que se retratam como vítimas são tudo, menos vítimas.
JULIO SEVERO: Scott Lively, que é a maior autoridade cristã hoje sobre a agenda gay, disse que possivelmente o governo de Obama pode ter usado a crise ucraniana para atacar a postura russa contra a agenda gay. Antes dessa crise, todos os meios de comunicação dos EUA estavam de modo sistemático e crescente atacando a Rússia por causa de sua lei que proíbe a propaganda homossexual para crianças. Em contraste, na matéria de capa da revista evangélica Decision, Franklin Graham louvou o governo russo por essa lei e por posturas mais favoráveis aos cristãos. Você acredita que o governo de Obama e os neocons, que provocaram a crise ucraniana, a usaram para desviar a atenção das medidas conservadoras russas?
DON HANK: O ocidentalismo, ou liberalismo ocidental, é uma religião. A partir do que tenho observado, seus seguidores são fanáticos absolutos que não se deterão por nada para impor suas metas. Julio, creio pois que você está certo e que a crise ucraniana foi na verdade usada para esse propósito, mas também para executar a doutrina Wolfowitz, que exige que a Rússia seja contida e isolada das ex-repúblicas soviéticas. Esse isolamento é absolutamente injusto em si, mas o acordo de associação entre a Ucrânia e a UE é uma provocação direta à Rússia. Esse acordo torna ilegal que a Ucrânia faça comércio bilateral com a Rússia sem a permissão da UE, e de acordo com os russos, essa proibição custará uma perda de bilhões de dólares à Rússia.
A UE (União Europeia) é um pseudo-estado fracassado que está trazendo apenas miséria para seus membros. A maioria dos membros do Norte da Europa já não querem mais ser parte da UE, mas seus líderes os estão traindo negando-lhes um referendo que lhes daria condições de recuperar sua soberania. Creio que a UE acabará caindo, e com ela, os EUA também. Ambas entidades não são nada mais que ditaduras e perderam toda legitimidade. Entristece-me dizer isso, pois sou americano. Mas parece que os EUA em que nasci não são os EUA em que morrerei. Se não fosse pela minha fé em Deus, não sei se eu conseguiria suportar o sofrimento de ver meu país cair tão longe da graça. Mas minha fidelidade é a Deus Todo-poderoso e a Jesus Cristo Seu Filho, não a algum país. Certa vez Ronald Reagan disse: “Eu não abandonei o Partido Democrático. Ele me abandonou.” De forma semelhante, digo que não abandonei meu país. Ele me abandonou.
JULIO SEVERO: Quem são os neoconservadores, ou neocons? Eles são úteis ou não para o movimento conservador cristão? Qual é o poder dos neocons?
DON HANK: O termo neocon descreve na realidade um grupo de políticos poderosos e seus facilitadores que simplesmente fingem ser conservadores, mas são promotores esquerdistas de uma Nova Ordem Mundial, ou um governo socialista mundial que, se vier à existência, será uma plataforma para os oligarcas dos EUA e suas elites no sistema bancário e geopolítico para governar o mundo de acordo com a doutrina do liberalismo ocidental. Obviamente, essa gente não é de forma alguma útil para os cristãos. Embora finjam apoiar a justiça, a democracia e a “liberdade,” uma de suas principais metas é a destruição da civilização ocidental. Eles querem eliminar as fronteiras em torno dos EUA exatamente como a UE eliminou as fronteiras em torno de seus países membros que, como consequência, estão agora transbordando de muçulmanos hostis que os ameaçam com guerra santa. É uma situação desesperada que, de acordo com meus amigos europeus, um dia certamente levará à guerra.
O poder dos neocons na geopolítica é quase ilimitado, ou mais precisamente, é limitado quase que exclusivamente pela Rússia na esfera internacional e por um número pequeno de conservadores corajosos na esfera nacional. Pessoas como você, Julio, que não têm medo de dizer a verdade e desmascará-los
O motivo por que eles são tão poderosos é que suas políticas e sua ideologia impregnam os dois maiores partidos dos EUA e também se estendem à OTAN e à UE. Essencialmente, os neocons apareceram pela primeira vez no Partido Republicano, mas suas ideias de política externa se estenderam ao Partido Democrático também. Um exemplo perfeito disso é Victoria Nuland, vice-secretária de Estado para assuntos europeus e eurasianos. O marido de Nuland é o historiador Robert Kagan, membro do Conselho de Relações Estrangeiras (CRE), e co-fundador da instituição “Project for the New American Century” (Projeto para o Novo Século Americano). O CRE é um portador da ideia de que as fronteiras precisam ser eliminadas a fim de preparar o caminho para um governo mundial único. O fato de que Kagan foi assessor tanto de membros do Partido Democrático quanto do Partido Republicano exemplifica claramente como os neocons apoiam ambos os partidos nos EUA. É por isso que parece sem sentido que muitos americanos votem num candidato democrático ou republicano, pois ambos os partidos aceitam as políticas dos neocos que invariavelmente levam à destruição de comunidades cristãs.
JULIO SEVERO: Como é que os EUA, a Europa e a Rússia, com suas tradições cristãs, estão se rendendo às ideologias islâmicas e homossexuais?
DON HANK: As elites da Europa e EUA abandonaram o Cristianismo. As tradições cristãs não significam nada para elas. A Rússia é a única potência do mundo que adota o Cristianismo e isso não é apenas um truque político. Reflete plenamente o pensamento cristão russo conforme a literatura do século XIX expressa. A UE e os EUA estão falindo. As economias dessas duas entidades não são mais sustentáveis a longo prazo, já que operam na base de dívida, não em princípios empresariais e bancários saudáveis. Ambas estão em sua fase final de existência, uma fase em que a única estratégia que lhes sobrou é imprimir dinheiro de papel. Mas imprimir dinheiro de papel para pagar dívidas é como acrescentar água à sopa quando chegam novos convidados. Quando chegarem convidados demais, a sopa não mais é sopa. É apenas água com algumas verduras boiando nela. O Zimbábue e a República de Weimar na Alemanha, por exemplo, faliram como consequência dessa política.
Para piorar a situação para os EUA principalmente, os russos e seus parceiros BRICS, inclusive o Brasil, estão começando a parar de usar o dólar nas transações comerciais internacionais, usando como base o rublo ou o yuan, por exemplo. Quando essa estratégia tiver avançado até certo nível, o dólar terá perdido tanto de seu valor que será quase imprestável.
JULIO SEVERO: Como é que os EUA, a Europa e a Rússia, com suas tradições cristãs, poderiam trabalhar juntos para derrotar a ideologia islâmica e homossexual?
DON HANK: Em algum momento, por causa das políticas fracassadas, os EUA dependerão da Rússia e da China quase que completamente, e nesse ponto, os neocons perderão seu poder. Os russos poderão exigir que os EUA e até a Europa os ajudem a combater a islamização e, se eles escolherem ajudar, aceitarão as políticas russas com relação à homossexualidade.
Mas nada disso pode acontecer sem a intervenção de Deus. Tudo o que precisamos fazer é aguardar para ver… e orar.
Julio, muito obrigado por esta oportunidade. Desejo a você e a seus leitores tudo do melhor e oro para que Deus continue a abençoar vocês todos ricamente.
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