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27 março 2023

O Lupanar (Augusto dos Anjos)



O lupanar



Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!
Este lugar, moços do mundo, vêde:
É o grande bebedouro colectivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!
É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,
Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!

27 abril 2022

SONETO DE TODAS AS PUTAS (Bocage)





Não lamentes, ó Nize, o teu estado; 

Puta tem sido muita gente boa; 

Putíssimas fidalgas tem Lisboa, 

Milhões de vezes putas têm reinado; 



Dido foi puta, e puta de um soldado; 

Cleópatra por puta alcançou a coroa; 

Tu, Lucrécia, com toda a tua proa, 

O teu cono não passa por honrado: (cona) 



Essa da Rússia imperatriz famosa, 

Que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta) 

Entre mil piças expirou vaidosa; 



Todas no mundo dão a sua greta; 

Não fiques pois, ó Nize, duvidosa 

Que isso de virgem e honra é tudo peta. 


20 agosto 2021

Pecadora (Augusto dos Anjos)





Pecadora

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,
A chama cruel que arrasta os corações,
Os seios rijos eram dois brasões
Onde fulgia o simb’lo do Pecado.


Bela, divina, o porte emoldurado

No mármore sublime dos contornos,

Os seios brancos, palpitantes, mornos,

Dançavam-lhe no colo perfumado.



No entanto, esta mulher de grã beleza,

Moldada pela mão da Natureza,

Tornou-se a pecadora vil. Do fado,



Do destino fatal, presa, morria

Uma noute entre as vascas da agonia

Tendo no corpo o verme do pecado!



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