Por Mário Chainho
(11/09/2016)
O feminismo não começa na inveja, ao contrário do que muitos pensam. A
inveja existe “desde sempre”, ao passo que o feminismo é um fenómeno
relativamente recente na História.
Na realidade, como quase todos os fenómenos sociais, o feminismo teve as
suas origens nas classes mais invejadas, ou seja, em certas elites que no final
do séc. XIX começaram a defender algumas “causas”, como a das sufragistas. No
fundo, era uma resposta à sufocante mentalidade burguesa embora vinda também,
em grande parte, dos próprios burgueses enfadados com a vida e que facilmente
encontravam emoção nas ideias revolucionárias.
A sociedade
burguesa criou inúmeras contradições e esta foi apenas mais uma. A sociedade
tinha um nível de riqueza nunca visto antes e, por isso, foi dado às mulheres o
privilégio de não terem de trabalhar. Mas num mundo de aparências, um
privilégio não aproveitado é visto como uma afronta, e rapidamente se
constituiu numa espécie de obrigação. Por outro lado, o privilégio dos homens
serem os únicos votantes enfrentava dois empecilhos na sociedade burguesa: por
um lado, o homem já não cumpria mais a função de chefe e defensor da família,
sendo essas funções cada vez mais desempenhadas pelo Estado; por outro lado,
isso contrariava a ideologia da “igualdade”, que deixava de ser uma “igualdade
perante Deus” para ir se transformando numa fantasia de igualitarismo social.
Assim, é natural que que o alargamento do direito de voto às mulheres tenha
sido a principal bandeira do início do feminismo, porque era a solução mais
lógica para as contradições existentes. Na realidade, há quem nem chame esta
primeira fase de feminismo, por parecer uma coisa tão diferente e muito mais
decente que o feminismo tardio, mas há uma factor comum, que é a confusão
inocente e propositada de alguns factores, como a assinalada confusão entre
privilégio e obrigação.
O feminismo na primeira metade do século XX não tinha condições para
ampliar o seu espectro de reivindicações e de se espalhar pela população. É
fácil de perceber porquê, dado que nas duas guerras mundiais foram os homens
que tiveram o “privilégio” de ir morrer em massa nos conflitos. Apenas depois
da Segunda Guerra Mundial e de se ter espalhado a ideia de uma paz perpétua
kantiana foi possível começar a reivindicar para as mulheres os mesmos direitos
que os homens tinham. Podemos questionar se a Guerra Fria não podia ter
colocado um freio nisto mas, se olharmos com atenção, vemos que não. Depois de
se ter percebido os efeitos das armas atómicas e nucleares, ficou patente que
as armas tinham um poder tão grande que o os seres humanos tinham um papel
irrelevante, quer fossem homens ou mulheres. Isto na realidade não era bem
assim, mas de certa forma criou a ideia de que as armas modernas tinham
igualado as mulheres aos homens.
O feminismo do pós-guerra (ou segunda onda do feminismo, como por vezes
é chamado) já não tem apenas uma certa dose de contradição embutida, o que é
quase inevitável em qualquer proposta real, mas é essencialmente uma fraude. É
até incompreensível que tão pouca gente tenha se dado conta de que a suposta
libertação das mulheres era na realidade uma escravidão de facto, onde havia
uma pequena dose de liberdade para alguns caprichos. Primeiro, o direito das
mulheres trabalharem em todo o tipo de postos era, como é óbvio, o fim de um
privilégio, mesmo que este possa ser sentido com incómodo. Em segundo lugar, a
mulher era libertada da “escravidão da natureza”, e já não era mais obrigada a ser
mãe e podia ser “o que ela quisesse”. Mas isto era feito com o auxílio da
ciência, o que criava uma situação peculiar e que ainda hoje pouca gente quer
perceber.
A ciência moderna possibilitou que existisse uma coisa chamada
“planeamento familiar”, que hoje é um considerado quase que universalmente como
um bem inegável. Mas o planeamento familiar quer dizer, primeiro que tudo, que
os filhos já não são uma dádiva de Deus (ou da natureza) mas são fruto de uma
escolha deliberada dos pais. Parecia uma milagrosa libertação do ser humano dos
ciclos impostos pela natureza, e agora cumpria-se a proposta humanista da
soberania do “eu”. De início, o planeamento familiar foi usado sobretudo para
limitar o número de filhos, ou seja, ao invés dos casais terem 7, 8 ou mais
filhos, passavam a ter apenas 2 ou 3. Mas, vendo bem, para quê ter 2 ou 3
filhos quando se pode ter apenas um? As famílias libertavam-se supostamente da
natureza, mas tinham agora de viver numa sociedade estruturada cada vez mais
pelas ciências, em que praticamente “tudo o que não era proibido se tornava
obrigatório”. Os bens de consumo irrelevantes criados pela ciência e pela
tecnologia obrigavam também que as pessoas adiassem cada vez mais a paternidade
e se dedicassem a períodos cada vez mais extensos de futilidade. Assim, as
mulheres que na idade média começavam a ter filhos pelos 14 anos, no pós-guerra
já começavam a ser mães pelos 24, e mais recentemente serão mães (quando o são)
mais por volta dos 34 anos. Por essa altura as mulheres já devem ter perdido as
ilusões de que iriam ser todas administradoras de grandes empresas e percebem
que andaram a desperdiçar os seus melhores anos a fazer coisas que apenas lhes
criam uma sensação de vazio.
O feminismo parecia ser uma coisa em extinção no início dos anos 90. Por
um lado, a parte mais folclórica do feminismo – mulheres queimando soutiens e
não fazendo depilação – era ridicularizada. Por outro lado, o modo de vida
moderno, anti-família e cheio de 'stress', tornava-se cada vez mais
desconfortável. Havia uma certa vontade de “voltar atrás” e foram tempos em que
papa João Paulo II tinha algum impacto na sociedade apelando a um modo de vida
mais “conservador”.
Contudo, a causa feminista tinha um potencial revolucionário enorme e
não foi descartada assim facilmente. A clássica “luta de classes” marxista cria
uma certa fractura social, que na verdade já existe em alguma medida, mas tem
um alcance limitado, porque estas classes já vivem mesmo largamente separadas.
Mas o feminismo divide literalmente a humanidade ao meio e coloca um parte
contra a outra em permanência. Assim, o feminismo foi renovado e tornado ainda
mais radical. Podemos questionar como foi possível renovar um movimento que
tinha caído num descrédito tão grande. Isso acontece porque novas gerações
entram em acção na sociedade e, por regra, ignoram quase tudo o que veio antes
delas. Desta forma, estas gerações são facilmente manipuladas pelos velhos
revolucionários, que na verdade são dos poucos que compreendem como funcionam
as transformações sociais.
O feminismo de terceira vaga não se limita a pedir igualdade de
direitos, o que já era algo com uma grande dose de falsidade, mas exige uma
reparação histórica pelas injustiças cometidas às mulheres. É impressionante
como o argumento podia ser rebatido em grande parte ou mesmo até invertido,
bastando lembrar como as mulheres foram largamente poupadas ao esforço da
guerra ao longo dos milénios. Mas foi possível implementar a fraude porque a
industria da comunicação social, as universidades, o mundo do espectáculo, as
editoras e demais instâncias culturais passaram a responder a umas poucas
vozes. Assim, em pouco tempo cria-se a ilusão de que está ocorrendo uma grande
transformação social, o que depois se transforma numa profecia auto-realizada,
dado o estado atomístico em que as pessoas se encontram, tendo pouco mais
liberdade do que colocar em prática o desejo mimético.

Os efeitos desta terceira vaga de feminismo têm sido catastróficos.
Hoje, muitos homens morrem de medo das mulheres e acham que nunca poderão fazer
o suficiente para aliviar uma data de culpas históricas que receberam à
nascença. Isto quer dizer que temos já uma ou duas gerações que praticamente já
não conhecem o sexo oposto a não ser de forma esquemática e enviesada. De certa
forma, o preservativo é o símbolo perfeito para ilustrar estas gerações, que
necessitam de uma protecção para se aproximar do outro sexo, tal o perigo que
ele encerra. Ao mesmo tempo, as mulheres talvez estejam mais vulneráveis aos
predadores sexuais do que em qualquer outra altura, porque estes não se
preocupam com as convenções sociais e os outros homens não imaginam que têm a
função de proteger as mulheres.
Mas o pior deu-se ao nível da alteração da percepção do valor da vida. A
contradição de certa forma estava embutida na proposta humanista, que foi em
muito ajudada pelo liberalismo tornado ideologia política, que é o eterno
capacho dos socialistas. O ser humano que se torna no critério último, na
prática vai impor-se sobre o outro. Assim, a mulher que não é mais obrigada a
conceber, caso venha a ser mãe é porque já está a fazer uma concessão ao filho.
Neste contexto incontestado, o aborto tornar-se-ia, mais tarde ou mais cedo,
num direito libertador. Aquelas pessoas que são contra o aborto porque este
significa a morte de um ser humano não percebem que este argumento tem pouca ou
nenhuma eficácia em sociedades em que o feminismo se implantou quase como se
fosse senso comum. Depois de se espalhar a ideia de planeamento familiar, cada
vida humana é fruto da liberdade do casal, caso contrário é considerada uma
irresponsabilidade. Assim, a liberdade de escolha antecede e, aparentemente,
afigura-se como superior à própria vida humana.
Mas isto não é auto-contraditório? Sim, porque o valor da liberdade
humana deriva da própria existência humana, pois só quem é vivo pode decidir.
Contudo, o ser humano tem a capacidade de se abstrair da experiência real e
apenas considerar uma parcela, podendo depois tomá-la como absoluta. E a
abstraccão não tem que ficar por aqui e, por isso, o aborto está longe de ser o
limite. O império da liberdade humana exigirá, pela sua própria natureza
demente, que o infanticídio e a pedofilia façam parte dos direitos humanos.