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21 abril 2023

Será crime um branco não ter amigos negros para mostrar? - JOÃO PEREIRA COUTINHO


FOLHA DE SP - 09/08

Ah, a experiência! Os colunistas são como certos cachorros de caça. A presa ainda não apareceu no horizonte. Mas os nossos caninos já estão espumando de excitação.

Exemplo: dias atrás, li uma excelente entrevista de Jonathan Franzen à "Slate". Gosto de Franzen. Conheci-o pela primeira vez em 2002, talvez 2003, em livro de ensaios que recomendo ("Como Ficar Sozinho", Companhia das Letras). Depois, provei os romances. Também recomendo, embora "As Correções" (Companhia das Letras) me pareça bem melhor que os seguintes.

Mas regresso à entrevista. E aos meus caninos. A certa altura, o entrevistador pergunta a Franzen se ele nunca pensou em escrever um romance sobre os conflitos raciais que correm pelos Estados Unidos. A pergunta é absurda: um escritor não tem que escrever sobre os temas que interessam ao entrevistador –e isso revela a decadência cultural do jornalismo contemporâneo.

Franzen escutou a pergunta, meditou e finalmente respondeu, embaraçado: "Não tenho muitos amigos negros", um eufemismo para dizer que não tem nenhum. E depois, com honestidade, concluiu: só devemos escrever sobre realidades que conhecemos bem.

Terminei essa parte da entrevista com duas perguntas a balançar no trapézio.

A primeira foi questionar se também eu tenho amigos negros. Não tenho. Existem conhecidos, colegas, amigos de amigos. Mas não tenho no portfólio um exemplar para mostrar. Razões?

Nenhuma em especial. Nunca aconteceu. O destino, nessas matérias, tem uma palavra importante. E, além disso, eu ainda respeito o significado profundo da palavra "amigo". São três ou quatro e ponto final. Por acaso, todos brancos.

Mas a segunda pergunta é mais relevante que a primeira e foi ela que despertou o meu faro: depois da confissão de Franzen, esperei pelas críticas das brigadas. Que logo surgiram, para confirmarem o meu instinto.

No inglês "The Guardian", a escritora Lindy West resumiu o estado da arte: Franzen faz parte da esmagadora maioria de americanos brancos (75%, segundo um estudo do Public Religion Research Institute) que não tem amigos de outras raças. Franzen seria, na linguagem erudita de West, um caso de "auto-segregação": um escritor que se esconde na sua bolha de privilégio e que nunca mostrou interesse em ter amigos negros.

Ponto prévio: se a cifra está correta (75% de brancos sem amigos de outras raças), é óbvio que existem dois planetas distintos nos Estados Unidos quando os negros representam 12% da população (estimativa conservadora).

A pobreza tem aqui a palavra central, admito: nas nossas vidas cotidianas, tendemos a cultivar "relações de classe". Se os brancos são mais afluentes que os negros, é normal que os brancos tenham amigos brancos.

Por outro lado, já não será tão normal viver em grandes cidades –como Nova York, Chicago ou Los Angeles– sem amigos negros que habitam a mesma classe média. Mas será que isso constitui um crime? Ou, pelo menos, uma falha de caráter?

A escritora acredita que sim. E, na sua cabeça pequena, não lhe ocorre a possibilidade singela de Franzen não ter amigos negros porque nunca os encontrou.

Para Lindy West, a raiz do desencontro está na pigmentação da pele; mas como excluir, com dogmatismo infantil, a importância das afinidades culturais, dos interesses comuns ou até dos acasos biográficos ou geográficos?

Finalmente, e em verdadeira paródia ao conceito de "amizade", Lindy West questiona por que motivo Franzen não faz um esforço para procurar amigos negros. "Amizade", para ela, é uma espécie de jardim zoológico privado onde temos o amigo negro na jaula 1; o asiático na jaula 2; o hispânico na jaula 3; o samoano na jaula 4; e, já agora, o índio na jaula 5. Parafraseando os existencialistas, a aparência precede a essência.

É um caminho. Claro que esse conceito de amizade também pode ser problemático: se a ONU tem 193 Estados membros, uma amizade verdadeiramente inclusiva deve transcender as fronteiras do país e abraçar o mundo inteiro. Ou somos cosmopolitas, ou não somos nada.

Prometo que vou fazer um esforço: amanhã começo na letra A – com um amigo afegão– e só descanso quando chegar ao Zimbábue.



26 agosto 2020

Intelectuais e raça - o estrago incorrigível (Thomas Sowell)

E as tragédias causadas pelos oportunistas




Há tantas falácias ditas sobre raça, que é difícil escolher qual é a mais ridícula. No entanto, uma falácia que costuma se sobressair é aquela que afirma haver algo de errado com o fato de que as diferentes raças são representadas de forma numericamente desproporcional em várias instituições, carreiras ou em diferentes níveis de renda e de feitos empreendedoriais.
Cem anos atrás, o fato de pessoas de diferentes antecedentes raciais apresentarem taxas de sucesso extremamente discrepantes em termos de cultura, educação, realizações econômicas e empreendedoriais era visto como prova de que algumas raças eram geneticamente superiores a outras.
Algumas raças eram consideradas tão geneticamente inferiores, que a eugenia foi proposta como forma de reduzir sua reprodução. O antropólogo Francis Galton chegou a exortar "a gradual extinção de uma raça inferior".
E as pessoas que diziam essas coisas não eram meros lunáticos extremistas. Muitos deles eram Ph.D.s oriundos de várias universidades de ponta, lecionavam nas principais universidades do mundo e eram internacionalmente reputados.
Reitores da Universidade de Stanford e do MIT estavam entre os vários acadêmicos defensores de teorias sobre inferioridade racial — as quais eram aplicadas majoritariamente aos povos do Leste Europeu e do sul da Europa, uma vez que, à época, era dado como certo o fato de que os negros eram inferiores.
E este não era um assunto que dividia esquerda e direita. Os principais proponentes de teorias sobre superioridade e inferioridade genética eram figuras icônicas da esquerda, de ambos os lados do Atlântico.
John Maynard Keynes ajudou a criar a Sociedade Eugênica de Cambridge.  Intelectuais adeptos do socialismo fabiano, como H.G. Wells e George Bernard Shaw, estavam entre os vários esquerdistas defensores da eugenia.
Foi praticamente a mesma história nos EUA. O presidente democrata Woodrow Wilson, como vários outros progressistas da época, eram sólidos defensores de noções de superioridade e inferioridade racial. Ele exibiu o filme O Nascimento de uma Nação, que glorificava a Ku Klux Klan, na Casa Branca, e convidou vários dignitários para a sessão.
Tais visões dominaram as primeiras duas décadas do século XX. 
Mudando de lado - mas não para melhor
Agora, avancemos para as últimas décadas do século XX.  A esquerda política desta era já havia se movido para o lado oposto do espectro das questões raciais. No entanto, ela também considerava que as diferenças de sucesso entre grupos étnicos e raciais era algo atípico, e clamava por uma explicação única, vasta e arrebatadora.
Desta feita, em vez de os genes serem a razão predominante para as diferenças nos êxitos pessoais, o racismo se tornou o motivo que explicava tudo. Mas o dogmatismo continuava o mesmo. Aqueles que ousassem discordar, ou até mesmo questionar o dogma predominante em ambas as eras, era tachado de "sentimentalista" no início do século XX e de "racista" na era multicultural.
Tanto os progressistas do início do século XX quanto os novos progressistas do final do século XX partiram da mesma falsa premissa, a saber: que há algo de estranho quando diferentes grupos raciais e étnicos alcançam diferentes níveis de realizações.
No entanto, o fato é que minorias raciais e étnicas sempre foram as proprietárias — ou gerentes — de mais da metade de todas as principais indústrias de vários países. Dentre estas minorias bem-sucedidas, temos os chineses na Malásia, os libaneses na África Ocidental, os gregos no Império Otomano, os bretões na Argentina, os indianos em Fiji, os judeus na Polônia, os espanhóis no Chile — entre vários outros.
Não apenas diferentes grupos raciais e étnicos, como também nações e civilizações inteiras apresentaram níveis de realizações extremamente distintos ao longo dos séculos. A China do século XV era muito mais avançada do que qualquer país europeu. Com o tempo, no entanto, os europeus ultrapassaram os chineses — e não há nenhuma evidência de ter havido alterações nos genes de nenhuma destas civilizações.
Dentre os vários motivos para estes diferentes níveis de realizações está algo tão simples quanto a idade
A média de idade na Alemanha e no Japão é de mais de 40 anos, ao passo que a média de idade no Afeganistão e no Iêmen é de menos de 20 anos. Mesmo que as pessoas destes quatro países tivessem absolutamente o mesmo potencial intelectual, o mesmo histórico, a mesma cultura — e os países apresentassem rigorosamente as mesmas características geográficas —, o fato de que as pessoas de determinados países possuem 20 anos a mais de experiência do que as pessoas de outros países ainda seria o suficiente para fazer com que resultados econômicos e pessoais idênticos sejam virtualmente impossíveis.
Acrescente o fato de que diferentes raças se desenvolveram em diferentes arranjos geográficos, os quais apresentaram oportunidades e restrições extremamente diferenciadas ao seu desenvolvimento, e as conclusões serão as mesmas.
No entanto, a ideia de que diferentes níveis de realização são coisas atípicas — se não sinistras — tem sido repetida ad nauseam pelos mais diferenciados tipos de pessoas, desde o demagogo de esquina até as mais altas eminências do Supremo Tribunal.
Nunca houve igualdade de realizações grupais
Quando finalmente reconhecermos que as grandes diferenças de realizações entre as raças, nações e civilizações têm sido a regra, e não a exceção, ao longo de toda a história escrita, restará ao menos a esperança de que haja pensamentos mais racionais — e talvez até mesmo alguns esforços construtivos para ajudar todas as pessoas a progredirem.
Até mesmo um patriota britânico como Winston Churchill certa vez disse que "Devemos Londres a Roma" — um reconhecimento de que foram os conquistadores romanos que criaram a mais famosa cidade britânica, em uma época em que os antigos bretões eram incapazes de realizar esta façanha por conta própria.
Ninguém que conhecesse os iletrados e atrasados bretões daquela era poderia imaginar que algum dia os britânicos criariam um império vastamente maior do que o Império Romano — um império que abrangeria um quarto de toda a área terrestre do globo e um quarto dos seres humanos do planeta.
A história apresenta vários exemplos dramáticos de ascensão e queda de povos e nações, por uma variada gama de motivos conhecidos e desconhecidos. Mas há um fenômeno que não possui confirmação histórica, um fenômeno que, não obstante esta ausência de exemplos práticos, é hoje presumido como sendo a norma: igualdade de realizações grupais em um dado período do tempo.
As conquistas romanas tiveram repercussões históricas por séculos após a queda do Império Romano. Um dos vários legados da civilização romana foi o alfabeto latino, o qual gerou versões escritas dos idiomas da Europa ocidental séculos antes de os idiomas do Leste Europeu serem transformados em letras. Esta foi uma das várias razões por que a Europa ocidental se tornou mais desenvolvida que a Europa Oriental em termos econômicos, educacionais e tecnológicos.
Enquanto isso, as façanhas de outras civilizações — tanto da China quanto do Oriente Médio — ocorreram muito antes das façanhas do Ocidente, embora a China e o Oriente Médio posteriormente viessem a perder suas vantagens.
Há tantas reviravoltas documentadas ao longo da história, que é impossível acreditar que um único fator sobrepujante seja capaz de explicar tudo, ou quase tudo, do que já aconteceu ou do que está acontecendo. O que realmente se sabe é que raramente, para não dizer nunca, ocorreram façanhas iguais alcançadas por diferentes pessoas ao mesmo tempo.
No entanto, o que mais temos hoje são grupos de interesse e movimentos sociais apresentando estatísticas — que são solenemente repercutidas pela mídia — alegando que, dado que os números não são aproximadamente iguais para todos, isso seria uma prova de que alguém foi discriminatório com outro alguém.
Se os negros apresentam diferentes padrões ocupacionais ou diferentes padrões gerais em relação aos brancos, isso já basta para despertar grandes suspeitas entre os sociólogos — ainda que diferentes grupos de brancos sempre tenham apresentado diferentes padrões de realizações entre si.
Quando os soldados americanos foram submetidos a exames mentais durante a Primeira Guerra Mundial, aqueles homens de ascendência alemã pontuaram mais alto do que aqueles de ascendência irlandesa, sendo que estes pontuaram mais alto do que aqueles que eram judeus. Carl Brigham, o pioneiro do campo da psicometria, disse à época que os resultados dos exames mentais do exército tendiam a "desmentir a popular crença de que o judeu é altamente inteligente".
Uma explicação alternativa é que a maioria dos imigrantes alemães se mudou para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes irlandeses, os quais por sua vez se mudaram para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes judeus. Alguns anos depois, Brigham viria a admitir que a maioria dos mais recentes imigrantes havia sido criada em lares onde o inglês não era a língua falada, e que suas conclusões anteriores, em suas próprias palavras, "não possuíam fundamentos".
Nessa época, os judeus já estavam pontuando acima da média nacional dos exames mentais, e não abaixo. 
Se não há igualdade geral de resultados, por que o espanto?
Disparidades entre pessoas do mesmo grupo, em qualquer área que seja, não são obviamente uma realidade imutável. Mas uma igualdade geral de resultados raramente já foi testemunhada em qualquer período da história — seja em termos de habilidades laborais ou em termos de taxas de alcoolismo ou em termos de quaisquer outras diferenças — entre aqueles vários grupos que hoje são ajuntados e classificados como "brancos".
Sendo assim, por que então as diferenças estatísticas entre negros e brancos produzem afirmações tão dogmáticas — e geram tantas ações judiciais e trabalhistas por discriminação — sendo que a própria história mostra que sempre foi comum que diferentes grupos seguissem diferenciados padrões ocupacionais ou de comportamento?
Um dos motivos é que ações judiciais não necessitam de nada mais do que diferenças estatísticas para produzir vereditos, ou acordos fora de tribunais, no valor de vultosas somas monetárias. E o motivo de isso ocorrer é porque várias pessoas aceitam a infundada presunção de que há algo de estranho e sinistro quando diferentes pessoas apresentam diferentes graus de êxito pessoal.
O desejo de intelectuais de criar alguma grande teoria que seja capaz de explicar padrões complexos por meio de algum simples e solitário fator produziu várias ideias que não resistem a nenhum escrutínio, mas que não obstante têm aceitação generalizada — e, algumas vezes, consequências catastróficas — em vários países ao redor do mundo.
A teoria do determinismo genético, que predominou no início do século XX, levou a várias consequências desastrosas, desde a segregação racial até o Holocausto. A teoria atualmente predominante é a de que algum tipo de maldade explica as diferenças nos níveis de realizações entre os vários grupos étnicos e raciais. 
Se os resultados desta teoria hoje em voga gerariam tantas mortes quanto no Holocausto é uma pergunta cuja resposta requereria um detalhado estudo sobre a história de rompantes letais contra determinados grupos odiados por causa de seu sucesso.
Estes rompantes letais incluem a homicida violência em massa contra os judeus na Europa, os chineses no sudeste asiático, os armênios no Império Otomano, e os Ibos na Nigéria, entre outros. Exemplos de chacinas em massa baseadas em classes sociais e voltadas contra pessoas bem-sucedidas vão desde os extermínios stalisnistas do kulaks na União Soviética até a limpeza promovida por Pol Pot de pelo menos um terço da população do Camboja pelo crime de serem pessoas cultas e de classe média, crime este que era evidenciado por sinais tão tênues quanto o uso de óculos.
A perseguição liderada pelos intelectuais aos bem-sucedidos
Minorias que se sobressaíram e se tornaram mais bem-sucedidas do que a população geral são aquelas cujo progresso provavelmente em nada está ligado ao fato de terem ou não discriminado as maiorias politicamente dominantes. No entanto, foram exatamente estas minorias que atraíram as mais violentas perseguições ao longo dos séculos e dos países ao redor do mundo.
Todos os negros que foram linchados durante toda a história dos EUA não chegam ao mesmo número de homicídios cometidos em apenas um ano contra os judeus na Europa, contra os armênios no Império Otomano ou contra os chineses no sudeste asiático.
Há algo inerente aos sucessos de determinados grupos que inflama as massas em épocas e lugares tão distintos. O que seria? Esse fenômeno inflama não apenas as massas, como também leva a genocídios cometidos por governos, como os da Alemanha nazista ou o regime de Pol Pot no Camboja. Podemos apenas especular as razões, mas não há como fugir desta realidade.
Aqueles grupos que ficam para trás frequentemente culpam seu atraso nas malfeitorias cometidas por aqueles grupos mais bem-sucedidos. Dado que a santidade não é comum a nenhum ramo da raça humana, é óbvio que nunca haverá escassez de pecados a serem mencionados, inclusive a arrogância e a insolência daqueles que calham de estar no topo em um determinado momento.  
Mas a real pergunta a ser feita é se esses pecados — reais ou imaginários — são de fato o motivo destes diferentes níveis de êxitos pessoais.
O problema é que os intelectuais — pessoas de quem normalmente esperaríamos análises racionais que se contrapusessem à histeria das massas — frequentemente sempre estiveram na vanguarda daqueles movimentos que promovem a inveja e o ressentimento contra os bem-sucedidos. Tal comportamento é especialmente perceptível naquelas pessoas que possuem diplomas mas que não possuem nenhuma habilidade economicamente significativa que lhes permita obter aquele tipo de recompensa que elas esperavam ou julgavam ter o direito de auferir.
Tais pessoas sempre se destacaram como líderes e seguidoras de grupos que promoveram políticas anti-semitas na Europa entre as duas guerras mundiais, o tribalismo na África, e as mudanças sociais no Sri Lanka, um país que, outrora famoso por sua harmonia intergrupal, se rebaixou, por influência de intelectuais, à violência étnica e depois se degenerou em uma guerra civil que durou décadas e produziu indescritíveis atrocidades.
Intelectuais sempre estiveram por trás da inflamação de um grupo contra outros, promovendo a discriminação e a violência física em países tão díspares quanto Índia, Hungria, Nigéria, Tchecoslováquia e Canadá.
Tanto a teoria do determinismo genético como sendo a causa dos diferentes níveis de realizações pessoais quanto a teoria da discriminação como o motivo destas diferenças — ambas contraditórias e criadas por intelectuais — geraram apenas polarizações raciais e étnicas. O mesmo pode ser dito da ideia de que uma dessas teorias tem de ser a verdadeira.
Essa falsa dicotomia de que uma delas tem de ser a verdadeira deixa aos grupos mais bem-sucedidos duas opções: ou eles se assumem arrogantes ou se assumem culpados criminalmente. Da mesma forma, deixa aos grupos menos exitosos a opção entre acreditar que sempre foram inerentemente inferiores durante toda a história ou que são vítimas da inescrupulosa maldade de terceiros.
Quando inumeráveis fatores fazem com que a igualdade de resultados seja virtualmente impossível, reduzir estes fatores a uma questão de genes ou de maldade é a fórmula perfeita para se gerar uma desnecessária e perigosa polarização, cujas consequências frequentemente são escritas em sangue ao longo das páginas da história.
Multiculturalismo
Dentre as várias e ignaras ideias a respeito de grupos raciais e étnicos que polarizaram as sociedades durante séculos e ao redor de todo o mundo, poucas foram mais irracionais e contraproducentes do que os atuais dogmas do multiculturalismo.
Aqueles intelectuais que imaginam que, ao utilizar uma retórica multicultural que redefine e até mesmo revoga o conceito de atraso, estarão ajudando grupos raciais e étnicos que ficaram para trás estão, na realidade, levando estas pessoas para um beco sem saída.
O multiculturalismo é um tentador paliativo aplicado àqueles grupos que ficaram para trás porque ele simplesmente afirma que todas as culturas são iguais, ou "igualmente válidas", em algum sentido vago e sublime. De acordo com este dogma, as características culturais de todas as etnias e raças seriam apenas diferentes — nem melhores nem piores.
No entanto, tomar emprestadas características particulares de outras culturas — como os algarismos arábicos que substituíram os algarismos romanos, mesmo nas culturas ocidentais oriundas de Roma — implica que algumas características não são simplesmente diferentes, mas sim melhores, inclusive os números utilizados. 
Algumas das mais avançadas culturas de toda a história pegaram emprestados comportamentos e características de outras culturas; e isso pelo simples fato de que até hoje nenhuma coleção única de seres humanos foi capaz de criar as melhores respostas para todas as questões da vida.
Todavia, dado que os multiculturalistas veem todas as culturas como sendo iguais ou "igualmente válidas", eles não veem nenhuma justificativa para as escolas insistirem, por exemplo, que as crianças negras aprendam seu idioma materno. Em vez disso, cada grupo é estimulado a se apegar ferreamente à sua própria cultura e a se orgulhar de suas próprias glórias passadas, reais ou imaginárias.
Em outras palavras, membros de grupos minoritários que são atrasados educacionalmente e economicamente devem continuar se comportando no futuro como sempre se comportaram no passado — e, se eles não conseguirem os mesmos resultados dos outros, então a culpa é da sociedade. Essa é a mensagem principal do multiculturalismo.
George Orwell certa vez disse que algumas ideias são tão insensatas, que somente um intelectual poderia acreditar nelas. O multiculturalismo é uma dessas ideias. A intelligentsia sempre irrompe em indignação e ultrajes a qualquer "diferença" ou "disparidade" de resultados educacionais, econômicos ou outros — e denuncia qualquer explicação cultural para esta diferença de resultados como sendo uma odiosa tentativa de "culpar a vítima".
Não há dúvidas de que algumas raças ou até mesmo nações inteiras foram vitimadas por terceiros, assim como não há dúvida de que câncer pode causar morte. Porém, isso é muito diferente de dizer que as mortes podem automaticamente ser imputadas ao câncer. Você pode pensar que intelectuais seriam capazes de fazer essa distinção. Mas muitos não são.
Ainda assim, intelectuais se veem a si próprios como amigos, aliados e defensores das minorias raciais, ao mesmo tempo em que empurram as minorias para a estagnação cultural. Isso permite à intelligentsia se congratular e se lisonjear de que estão ao lado dos anjos contra as forças do mal que estão conspirando para manter as minorias oprimidas.
Por que pessoas com altos níveis de capacidade mental e de talentos retóricos se entregam a este tipo de raciocínio deturpado é um mistério. Talvez seja porque elas não conseguem abrir mão de uma visão social que é extremamente lisonjeira para eles próprios, não obstante quão deletéria tal visão possa ser para as pessoas a quem elas alegam estar ajudando.
O multiculturalismo, assim como o sistema de castas, encurrala e amarra as pessoas naquele mesmo segmento cultural e social no qual elas nasceram. A diferença é que o sistema de castas ao menos não alega beneficiar aqueles que estão na extremidade inferior.
O multiculturalismo não serve apenas aos interesses ególatras dos intelectuais; ele serve também aos interesses de políticos que têm todos os incentivos para promover uma sensação de vitimização — e até mesmo de paranóia — entre grupos de cujos votos eles precisam em troca de apoio material e psicológico.
A visão multicultural do mundo também serve aos interesses daqueles que estão na mídia e que prosperam ao explorar os melodramas morais. O mesmo pode ser dito de todos os departamentos universitários voltados para estudos étnicos e sociais, bem como de toda a indústria de assistentes sociais, de especialistas em "diversidades" e da ampla gama de oportunistas que prosperam ao fazer proselitismo racial.
Os maiores perdedores de toda essa história são aqueles membros das minorias raciais que se permitem ser conduzidos para esse beco sem saída do ressentimento e da raiva, mesmo quando há várias outras avenidas de oportunidades disponíveis. E todos nós perdemos quando a sociedade fica polarizada.








23 agosto 2020

Rumo ao Apartheid: os progressistas decidiram que bebê negro só pode ter médico negro.


No mundo dessa gente, homens e mulheres devem viver separados como no Irã. Artigo de Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo, via TOMBOSI



Com dados, faz-se de tudo. Suponha-se que cientistas torcedores do Coritiba, interessados no aprimoramento do desempenho do seu time, se unam para descobrir se o uso de cuecas da sorte pela torcida durante as partidas contribui para vitórias. Primeiro, eles assistem a três partidas com cuecas da sorte. Todas as partidas são vitoriosas. Depois, assistem a mais três partidas sem as cuecas da sorte. Todas são derrotas. Estariam prontos, portanto, para enviar um paper ao (hipotético) Harvard Journal on Lucky Underwear Studies [Jornal Acadêmico de Harvard sobre as Cuecas da Sorte] que mostra existirem indícios de que o uso de cuecas da sorte está associado à vitória do time. A CNN noticiaria, e os jornais brasileiros repercutiriam. Alguns times ameaçariam de expulsão os torcedores sem cueca da sorte, enquanto que outros, de diretoria mais sensata, apontariam que a amostra foi de apenas seis jogos, e que cientistas corintianos vêm tendo resultados dessemelhantes, com uma amostragem muito maior.

Tudo isso poderia ser razoável, se, além de dados brutos e habilidade com planilhas, a ciência não exigisse bom-senso e noção de causalidade. Faz muito mais sentido procurar os motivos do desempenho em razões técnicas, administrativas e até aleatórias, do que na cueca que os torcedores usam. Ainda assim, quem porventura escolhesse essa via teria dados e mais dados a coletar. E papers e mais papers para fazer. E manchetes caça-clique às pencas.

Existem estudos que são bons para fazer manchetes caça-clique. A toda hora não descobrem uma comida mágica responsável pela prevenção do câncer e, mais recentemente, do mal de Alzheimer? É muito simples: todo o mundo pode ser dividido entre os que comem cúrcuma e os que não comem cúrcuma, ou os que têm uma dieta mediterrânea e os que não têm. Pegue-se uma divisão binária dessas, aplique-se aos pacientes de câncer ou Alzheimer, e algum número irá aparecer. O paper será publicado em um periódico qualquer, um jornalista científico fará o caça-clique, e a Bela Gil fará alguma coisa repulsiva com o ingrediente mágico.

Médicos brancos seriam todos Mengele

O estudo caça-clique da vez, porém, fomenta racismo e aponta para hospitais black only como medida salutar à saúde de bebês negros. Conforme noticiou a CNN, mostra-se-ia que bebês negros têm três vezes mais chances de morrer no primeiro ano de vida caso sejam atendidos por um médico branco, em vez de um médico negro. Os dados seriam acachapantes: quase dois milhões de bebês entre 1992 e 2015 na Califórnia.

Acontece que quatro gênios, três da área de administração e um de saúde pública, um da Harvard Business School, dois da Universidade de Minnesota e outro da Universidade George Mason, pegaram os dados da Califórnia e simplesmente lançaram o modelo. Nem puseram o pé no hospital, nem viram a cara de um paciente. Eles escolheram começar por 1992 por ser o ano em que a burocracia começou a registrar a cor dos bebês. Descartaram os bebês que não foram classificados nesse período, ou que receberam outra classificação. Quanto aos médicos, não há registro de cor; por isso, os quatro luminares se deram ao trabalho de olhar as fotos e classificá-los. A despeito de a pesquisa ser relativa ao primeiro ano de vida, todos os bebês são chamados de newborns, ou recém-nascidos.

Providenciadas as divisões raciais binárias, essas pessoas brilhantes dividiram os bebês entre os que completaram o primeiro ano de vida e os que morreram no hospital, para em seguida analisar os impactos da “concordância racial” entre médico e paciente. “Concordância racial” é o nome que deram ao fato de o médico e o paciente terem a mesma cor. Há alguns senões: nem todos os bebês que morreram no hospital foram cuidados por médicos, o que quer dizer que bebê negro que morreu atendido por socorristas entra na estatística de bebês negros mortos. Outra divisão, portanto, é a entre bebês que morreram no hospital nas mãos de um médico, e os que morreram lá sem médico. Além disso, foi considerado se o bebê tinha seguro (que é coisa de pobre, nos EUA) ou se pagava privado; se tinha comorbidades; se os “efeitos” da comorbidade foram “consertados” pelo médico, e quanto tempo viveram. Os estudiosos pontuaram que os médicos negros costumam tratar mais pacientes do que médicos brancos, que tratam mais pobres (“underresourced”) do que os brancos, e que tratam, ainda assim, mais brancos do que negros. (Como a Califórnia não é nenhuma Bahia, e está mais para um Paraná, é de se supor que existam mais pobres brancos pelo simples fato de existirem mais brancos.) Os negros seriam mais pobres, e as mães negras, mais propensas a problemas de saúde durante a gravidez, tais como eclâmpsia, pré-eclâmpsia e parto prematuro.

Das tabelas feitas com esses dados, os estudiosos concluem que é importante manter a “concordância racial” para salvar a vida de bebês negros, que é um problema existirem muitos médicos brancos, e que os elaboradores de políticas públicas devem levar essa maravilha de estudo em conta. Tudo isso sem pôr o pé num hospital de verdade, apenas olhando tabelas e fotos de médicos! Eles apontam também que a “concordância racial” não tem nenhum efeito sobre as mortes das mães negras, mas ainda assim um viés favorável à própria raça faria com que bebês negros morressem nas mãos de médicos brancos, sem que se passasse o mesmo com as mães negras. Estranho viés!

Apesar de falar em “concordância racial”, o estudo não cobre os seus efeitos em bebês brancos. Dado que os médicos negros têm uma clientela de maioria branca, é de se imaginar que um eventual apartheid hospitalar lhes tirasse empregos.

Por detrás da tabela

Existe uma infinidade de fatores que podem determinar a maior mortalidade entre um grupo do que outro. Um ano é um período grande o suficiente para haver muitas razões para a morte de um bebê, para além do atendimento médico. Digamos que os pais sejam desses de mundo cão, que matam os filhos e vão parar no Datena. Se o filho chega ainda com vida ao hospital e é atendido por um branco, entra na estatística; se morre em casa, não entra. Se houver um médico branco cujo plantão coincida com os horários de maiores acidentes de carro, e os bebês chegarem ainda com vida às suas mãos, esse médico aparecerá como um Josef Mengele na tabela. Inclusive, se o médico branco for um “antirracista” do quilate desses pesquisadores, poderá dar as costas aos bebês negros para não aumentar o número de bebês negros mortos nas mãos de médicos brancos. E se o médico branco for um racista convicto, que quer acabar com a minoria negra nos Estados Unidos, poderá despachar as crianças doentes do hospital e dizer que estão bem. Assim, passará por bom médico na tabela, desde que essas crianças morram bem longe de si; de preferência, em casa, atacadas por um mal não tratado.

Essa tabela é tão sensata quanto uma de cuecas da sorte!

Deixando-se de lado a moralidade dos médicos e pais envolvidos, não será uma boa ideia pensar na qualidade da formação dos médicos? Felizmente, esses cientistas dos Estados Unidos pensaram nisso. Traduzo-os, para o leitor não achar que estou inventando coisa: “Pesquisas sugerem, ademais, que treinamento especializado [em quê??] pode render benefícios superiores no cuidado clínico. Uma forma particular de treinamento [qual??], a certificação baseada na especialidade [qual??], na qual os médicos completam estudos de um a três anos adicionais, recebeu atenção considerável. As pesquisas sugerem que tal treinamento aumenta o entendimento da nuance das doenças, aumenta a lembrança das informações e acelera a reação a informações novas. Portanto replicamos nossas estimativas dividindo a amostragem entre os médicos que são certificados em […rufam os tambores...] pediatria [OH!!] e os que não são. Os resultados estão na tabela 4. Duas descobertas interessantes se veem. Primeiro, a pena de mortalidade absoluta para recém-nascidos negros é menor entre pediatras negros e brancos, comparada a não-pediatras. Segundo, vemos benefícios significativos da concordância racial entre pediatras certificados e não-pediatras (em ambos os casos, a pena de mortalidade negra é praticamente a metade). Isso sugere que treinamento adicional pode reduzir a magnitude da pena de mortalidade negra, mas não parece eliminar essas diferenças. Resultados com neonatologistas rendem resultados consistentes.”

Mas que surpresa! Treinar os médicos em pediatria para atender bebês reduz a mortalidade de bebês! Quem diria, não? O próximo passo será descobrir que obstetras são melhores em fazer parto do que urologistas. Contentemo-nos em supor que um dia esses gênios se perguntem pela qualidade dos hospitais que atendem os negros, em vez de ficar etiquetando médico com raça.

Lembrando Sowell

Com tudo isso, não queremos aqui dar a certeza de que os médicos brancos dos Estados Unidos são todos igualmente humanos com os bebês de qualquer cor. É possível que bons cientistas sociais ponham os pés em hospitais, entrevistem médicos e pacientes, elaborem tabelas, e encontrem algum tipo de problema relativo a raça com médicos brancos de uma dada localidade. Por outro lado, pegar os dados de médicos brancos atendendo negros na Califórnia e universalizar automaticamente é coisa de racista, que acha que brancos e negros têm comportamento determinado pela raça e não pela cultura, que varia de lugar para lugar.

Quanto aos negros dos Estados Unidos, não se alardeia tanto a precariedade geral da sua situação? Os lares sem pai, a alta taxa de encarceramento, os maus hábitos alimentares, o uso de drogas… Se for assim mesmo, fará algum sentido atribuir a mortalidade de bebês negros exclusivamente a cuidados médico-hospitalares, desconsiderando-se o lar?

Thomas Sowell trata, à exaustão, da degradação dos negros norte-americanos, e a atribui às políticas de bem-estar social, que tiram das famílias a responsabilidade de cuidar das crianças. Decerto é uma tese que, como qualquer outra, merece contestação. No entanto, a querela de Sowell diz mais respeito aos fatos do passado do que do presente: segundo Sowell, a família negra já foi estável, até ser destruída pelo Estado; segundo progressistas, os negros são meras vítimas que nunca saíram da lama desde a escravidão. Se Sowell e os progressistas estão de acordo quanto a haver muitos drogados e criminosos entre os negros dos EUA, não é de surpreender que seus bebês morram mais.

A hipótese de Sowell não tem nada de racista. Ele explica a situação social de um grupo humano a partir da forma como um Estado obcecado por raça resolveu tratar esse grupo humano. Diz ele: “Por ter as necessidades materiais providas por um Estado assistencial, como se fossem animais em uma fazenda, essa subclasse tem ‘uma vida esvaziada de significado’, como diz Dalrymple, já que não pode nem mesmo se orgulhar de conseguir pagar a própria comida e a própria casa como fizeram as gerações anteriores.” Tiro este trecho da sua apresentação do livro A vida na sarjeta, onde Dalrymple, médico do serviço público inglês, conta suas histórias de mundo cão. Diz Sowell: “Como médico do serviço de emergência, Theodore Dalrymple atende jovens que foram espancados na escola a ponto de precisar de cuidados médicos – por tentar ir bem na escola. Quando isso acontece nos guetos norte-americanos, as vítimas são acusadas de ‘agir como os brancos’ por tentar uma boa formação. No outro lado do Atlântico, tanto as vítimas quanto os agressores são brancos.”

Qualquer cientista social que saiba quem é Max Weber concordará que valores são importantes para explicar o destino de uma sociedade. Valores não podem ser apreendidos com uma tabela burocrática de hospital.

Hospital black only é só mais um passo rumo ao admirável mundo progressista

Mas de onde esses “cientistas” tiraram a ideia de “concordância racial” como fundamental? Segundo eles mesmos informam, é só mais um passo dado no sentido de dividir a humanidade em caixinhas de sexo e cor: “Os pesquisadores da sociologia notaram os benefícios da liderança feminina para as mulheres jovens que trabalham em firmas. […] Economistas mostraram que o desempenho acadêmico é mais alto quando os estudantes compartilham a raça [sic] com seus professores. Ademais, acadêmicos de direito descobriram taxas mais altas de encarceramento entre réus pareados com juízes de raça diferente. No entanto, apesar da prevalência dessas descobertas, pouca evidência do efeito da concordância racial e de gênero existia até há pouco.”

No mundo dessa gente, homens e mulheres devem viver separados como no Irã. Cidadãos do Ocidente devem regredir à condição dos Estados Unidos ou da África do Sul no começo do séc. XX: escolas e hospitais devem impedir o contato humano entre brancos e negros, os quais devem ser categorizados racialmente desde bebês.

Por sorte, os valores da gente comum do nosso Brasil são muito superiores ao dessa gentalha metida a iluminada. Mas como na nossa cúpula burocrática e intelectual sempre há quem queira copiar essa escória, fiquemos atentos. Quando aparecer na nossa imprensa progressista notícias do gênero, ou essa mesma notícia, olhemos com desconfiança.



20 junho 2020

EUA criticam repressão aos negros sul-africanos (sexta-feira, 20/06/1980)

FOLHA DE S. PAULO
Editor Responsável: Boris Casoy
Ano 59, Nº 18.706
Cr$ 15,00
Página 09






WASHINGTON – O governo norte-americano poderá rever suas relações com a África do Sul, caso o governo sul-africano insista em manter sua política de discriminação racial e de repressão aos movimentos civis negros, afirmaram ontem funcionários do Departamento de Estado ao comentar os violentos distúrbios raciais que ocorreram nos últimos quatro dias em várias cidades sul-africanas e que provocaram a morte de cerca de 60 pessoas e ferimentos graves em mais de 300 outras.

Segundo os funcionários do Departamento de Estado, a posição dos Estados Unidos frente a essa questão foi oficialmente comunicada pelo subsecretário de Estado, Richard Moose, ao embaixador sul-africano Donald Sole. O comunicado de Moose ao embaixador foi seguido da divulgação de uma declaração do Departamento de Estado, manifestando sua preocupação pela crescente onda de violência racial na África do Sul, sobretudo com a decisão das autoridades policiais de ordenar aos soldados para atirar para matar em qualquer pessoa que seja considerada em atitude suspeita.

O porta-voz do Departamento de Estado, Hodding Carter, numa outra declaração a respeito, afirmou que os Estados Unidos deploram os ciclos de violência na África do Sul e exortou o governo sul-africano a ser moderado em seus esforços para restabelecer a calma no país.


CALMA E APELO

A calma vai aos poucos voltando aos bairros negros e mestiços da Cidade do Cabo, onde foram mais violentos os distúrbios raciais anteontem, com a população negra confinada em suas residências, temendo sair às ruas e morrer sob as balas das forças de segurança que receberam ordens de "atirar para matar". Ao mesmo tempo, dirigentes religiosos solicitaram ao primeiro-ministro P. W. Botha que se reúna com eles para salvar o país.

O bispo Desmond Tutu, o principal líder religioso sul-africano e destacado opositor à política racial do governo de minoria branca, afirmou ao jornal "Post", que o Conselho Sul Africano de Igrejas está disposto a aceitar as condições estabelecidas pelo primeiro-ministro para reunir-se com ele.

Botha disse anteontem que estaria disposto a reunir-se com os dirigentes religiosos se estes rejeitassem publicamente o comunismo para a África do Sul, se desligassem das atividades "dirigidas para solapar os serviços nacionais" e denunciassem as organizações que recorrem à violência contra o governo de minoria branca, inclusive o Congresso Nacional Africano (CNA) – organização negra que dirige a luta armada contra o governo racista de minoria branca.

"Não temos problemas com nenhuma das condições estabelecidas, embora preferíssemos nos reunir sem condições", disse Tutu, que é secretário do Conselho de Igrejas. "Poderíamos também, por exemplo, apresentar condições, como a da libertação dos presos políticos ou a convocação de uma convenção nacional, mas estou disposto a fazer qualquer coisa para salvar o país", afirmou Tutu.

O governo racista de minoria branca não deu nenhuma indicação de realização do encontro, o qual, se vier a ocorrer, será a primeira vez desde o recrudescimento da violência racial na África do Sul, há cerca de seis meses.


NÚMERO DE MORTOS

As autoridades sul-africanas não têm o número exato de mortos nos incidentes dos últimos três dias. A agência sul-africana de notícias afirmou que são 40, enquanto as organizações religiosas e civis afirmam que são mais de 60 os mortos e 300 os feridos. Ontem, o único incidente registrado na Cidade do Cabo, foi o incêndio de um vagão ferroviário, interrompendo por pouco tempo o trânsito entre a Cidade do Cabo e seus subúrbios.

Um outro incidente ocorreu em Uitenhage, próximo a Port Elizabeth, onde a polícia dispersou com bombas de gás lacrimogêneo centenas de trabalhadores da empresa automobilística Volkswagen, que acabavam de receber a informação de que a direção da empresa decretara um lock-out depois da greve de três dias realizada pelos empregados que exigem aumentos salariais. A polícia interveio também na Universidade de Hindu em Durban Westville para dispersar centenas de estudantes que se reuniram para recordar as manifestações realizadas em 16 de junho de 1976 no bairro dormitório negro de Soweto, próximo a Joanesburgo, quando a polícia matou cerca de 600 pessoas, nos incidentes raciais mais graves já registrados na África do Sul.

Nos pequenos incidentes de ontem ocorreram mortes e as autoridades raciais sul-africanas insistem, através de comunicados oficiais, que "elementos anti-sociais e criminosos" são os responsáveis pelos choques das últimas 72 horas.
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