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10 abril 2024

A Sociedade Fabiana e Seus Membros Atuantes no Passado e no Presente




Autor: Carl Teichrib, Forcing Change, Volume 3, Edição 4.

Desde janeiro de 2008, o mundo voltou sua atenção para o novo presidente americano, Barack Obama. Isto é compreensível, pois o carisma de Obama e seu slogan de campanha, "Mudança", despertaram a imaginação das pessoas nos EUA e em todo o mundo. A "mudança" está acontecendo; em vez de grande governo, existe agora o governo gigante e, em vez de níveis incontroláveis de dívida pública, o que existem agora são níveis inimagináveis de dívida pública. Nas questões mundiais, o presidente Obama assumiu uma posição decisivamente pró-internacional. Mas, Obama é agora um novo ator na política internacional e seu apoio público à governança global — conquanto real e documentável [2] — é relativamente brando em comparação ao seu colega no outro lado do Atlântico. Pelo menos por enquanto...

Se alguém tem sido um pregador da mudança global, este é o primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Desde que assumiu o cargo em 2007, Brown tem apelado incessantemente a um novo internacionalismo. Quando ouvimos seus discursos, parece até que ele está mais interessado em defender uma ONU investida com maiores poderes e um superestado europeu, do que defender uma Grã-Bretanha independente, livre e próspera.

Mas isto tem alguma relevância para aqueles que estão fora do Reino Unido?

Para aqueles que moram na Inglaterra e em outros países europeus – e de certa forma nos países da Comunidade Britânica de Nações — a posição de Brown é entendida: é o desejo de dar à luz uma "internacional socialista" bem-sucedida. Porém, para aqueles que moram em outros lugares, o nome de Gordon Brown pouco importa. Afinal, por que alguém que reside em Cleveland (EUA) se preocuparia com o que o primeiro-ministro britânico diz ou apoia?

Por que a Grã-Bretanha é uma líder global, que exerce enorme influência em seus papéis nas Nações Unidas e na OTAN, e sua contínua liderança na Comunidade Britânica de Nações (um grupo formado por 53 países). Além disso, a Grã-Bretanha é uma das principais detentoras de títulos da dívida do Tesouro dos EUA. Na verdade, o Reino Unido é atualmente o sétimo maior detentor de títulos americanos (os dez maiores, em ordem decrescente, são China, Japão, Centros Bancários do Caribe, países exportadores de petróleo — OPEP, Brasil, Rússia, Reino Unido, Luxemburgo, Hong Kong e Taiwan). [3]. E isso não é nada comparado com o papel que a Grã-Bretanha desempenhou como um agente histórico durante os últimos cem anos ou mais; poucos países moldaram o cenário global como a Grã-Bretanha fez. [4].

E agora o líder britânico está tentando criar uma rota para atravessar a tempestade econômica global. Neste sentido, o país teve a presidência do G20 em 2009. O G20 é um grupo formado pelos Ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais dos vinte países mais industrializados e desenvolvidos; ele é o principal veículo que está sendo usado para nos guiar durante o furacão financeiro; como o mundo funcionará no outro lado será reflexo da visão do G20.

Então a Grã-Bretanha é importante para os moradores de Cleveland ou de qualquer outro lugar fora do Reino Unido? Ela foi importante no passado, é importante hoje e será ainda mais no futuro. Soluções globais são necessárias, ou é isto que nos dizem, para corrigir os problemas globais. O homem que reside no número 10 de Downing Street (NT: A residência oficial do chefe do governo britânico), o primeiro-ministro Gordon Brown acredita piamente nisso. Aliás, ele vê a crise atual como uma oportunidade para introduzir mudança global.

Hoje, a voz dele pode ser ouvida desde o salão do Parlamento Europeu, onde ele propôs recentemente a criação de uma "sociedade realmente global", [5] até o salão do Congresso dos EUA, onde ele proclamou que "devemos aproveitar o momento, porque nunca antes vimos um mundo com tanta vontade de se unir." Como um disco riscado, que repete sempre as mesmas palavras, ele lembrou o Congresso que "a nova verdade comum é que problemas globais requerem soluções globais." [6].

No mundo perfeito de Gordon Brown, como seria isto? Uma pista foi dada no Fórum Econômico Mundial de 2009, em Davos, Suíça (no dia 30 de janeiro, durante a sessão "Renovando o Crescimento Econômico"). Durante a discussão, o moderador dirigiu a Brown uma pergunta ligeiramente capciosa focando na necessidade de um governo mundial. O primeiro-ministro respondeu com uma promoção velada de um governo mundial:

Moderador: "Primeiro-ministro Brown, o Sr. fala muito sobre a necessidade de uma melhor governança global, mas o problema geralmente é que os países não querem abrir mão de sua soberania... Como podermos ter uma governança global sem órgãos globais, supranacionais, que não são bem vistos pelas pessoas no seu país e no meu, os Estados Unidos? Há uma grande desconfiança com relação a essas organizações, como a Organização Mundial do Comércio ou a União Europeia. Seria a solução aqui criar mais organizações desse tipo?
Gordon Brown: "... existem mercados de capital global, existem fluxos financeiros globais, mas só existem supervisores nacionais. E não dá certo quando existem atividades transnacionais e ninguém praticamente sabe o que está acontecendo. E então se descobre durante uma crise, que existem bancos ou instituições financeiras que sempre foram internacionais, mas que agora se encontram em dificuldades e a única forma de socorro existente é nacional e não internacional. Portanto, acredito que as pessoas estão percebendo que a cooperação internacional de que estamos falando é essencial. Estamos em um sistema econômico mundial, como se poderia sequer pensar que é possível resolver crises financeiras globais sem existir um nível de cooperação mundial? Isso me parece absolutamente óbvio."
"O problema é que nossas instituições foram criadas nos anos 1940s e para economias protecionistas, para concorrência limitada, para fluxos de capitais nacionais e não globais. Portanto, temos de remodelar essas instituições…"
"Este é o problema. Ainda não temos instituições internacionais que funcionem bem o suficiente, embora façamos parte de uma economia global, que todos sabem ser global e que não deixará de ser global no futuro. Se não agirmos, as tendências protecionistas se tornarão maiores e falharemos logo no primeiro passo para construir uma nova era global, onde espero que uma economia global levará a uma verdadeira sociedade global."

Grandes Planos para uma Sociedade Global

As ideias de Gordon Brown não são só dele. A Grã-Bretanha, assim como os EUA, possui uma longa história de aspirações a um governo mundial. Clarence Streit, um pioneiro na defesa de uma Federação Atlântica e, posteriormente, um lobista pró-reforma da OTAN, testificou esse fato em seu livro Union Now With Britain, publicado em 1941:
"Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha têm sido, individualmente, grandes defensores de um governo tanto local como geral. Nenhum outro povo provou ter uma mentalidade tão provinciana como esses dois. Ninguém tem feito tanto para estabelecer um governo mundial como nós, americanos e britânicos." [7].

Ao longo das décadas, a liderança global americana incluiu homens como o presidente Woodrow Wilson (criador da Liga das Nações), Samuel Gompers (Organização Internacional do Trabalho), Elihu Root (Corte Internacional), Owen Young (Banco Mundial) e os presidentes Roosevelt e Truman (Organização das Nações Unidas). Comentando sobre essas primeiras instituições, Clarence Streit observou o papel essencial da Grã-Bretanha:
"Para sermos justos, precisamos também admitir que foi principalmente o apoio britânico que permitiu que cada uma dessas quatro experiências inestimáveis em matéria de governo mundial — Liga das Nações, Corte Internacional, OIT e Banco Mundial — se materializassem e não ficassem apenas no papel." [8].

É impossível documentar o alcance das ações globalistas britânicas em apenas um único artigo, mas um exame de alguns indivíduos essenciais será suficiente para demonstrar a dimensão histórica do "pensamento internacional" no Reino Unido.

Por que isto é importante? Porque compreender os alicerces nos dará uma importante plataforma para a observação da visão de "sociedade global" de Gordon Brown, que é hoje o maior defensor de um governo global — mais do que o presidente Obama, mais do que a chanceler alemã Angela Merkel e talvez mais até que o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon. Nos grandes planos de Brown todos nós viveremos sob um sistema socialista de governo mundial.

Vejamos rapidamente três figuras históricas da Grã-Bretanha e a busca delas por uma nova sociedade global.

H. G. Wells

O autor de clássicos como A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1895), O Homem Invisível (1897), e A Guerra dos Mundos (1898) — Wells se interessava profundamente pelo "destino da sociedade humana" e acreditava que a gestão dos seres humanos deveria ser abordada com um pouco de "ciência".

Em 1925, Wells publicou uma série de artigos em um volume intitulado A Year of Prophesying (Um Ano de Profetização), em que propôs uma economia e um sistema político únicos para todo o mundo: "Apoio o controle mundial da produção, do comércio e do transporte, uma moeda mundial e a confederação da humanidade. Sou a favor de um superestado..." [9].

Tenha em mente que isto foi durante a época da Liga das Nações, a primeira grande experiência de cooperação transnacional. Mas, H. G. Well não ficou satisfeito com a Liga. Em sua visão, o objetivo final da Liga não estava sendo aproveitado:

"Sou hostil à presente Liga das Nações, porque desejo a Confederação da Humanidade."
"Não acho que as possibilidades obstrutivas da existente Liga das Nações sejam suficientemente compreendidas pelas pessoas de mente progressista de todo o mundo. Não acho que elas percebem o quão eficazmente a Liga pode ser usada como uma forma de consumir e dispersar a energia criativa que, de outro modo, nos levaria adiante rumo à Confederação do Mundo."
"A Liga das Nações que vimos em nossas visões naqueles anos turbulentos, mas criativos de 1917 e 1918, deveria ter sido um verdadeiro passo adiante nas questões humanas..."
"A Liga que queríamos era para ter sido a primeira conferência ampla que nos levaria a um governo federal para todo o mundo." [10].

A abordagem de Wells à existente soberania dos estados-nações também era antagônica:

"O mundo é um remendo de campos de prisioneiros de tamanhos variados chamados de Estados Soberanos Independentes... Mas, virá o dia... quando os únicos passaportes no mundo estarão ao lado de ídolos astecas, dos instrumentos de tortura e de outras relíquias de superstição em nossos museus de história." [11]
Wells acreditava e trabalhava em prol de uma "conspiração aberta" para uma revolução mundial. Em 1928, ele publicou um livro intitulado Open Conspiracy: Blueprints for a World Revolution (Conspiração Aberta: Modelos Para uma Revolução Mundial), no qual afirmava que uma revolução mundial levaria a um supergoverno global. Para ele, essa era "a verdade e o caminho de salvação". [12].

Considere o seguinte excerto de "Conspiração Aberta" e veja se há alguma semelhança com o que vemos hoje:

"O caráter da conspiração aberta agora será claramente demonstrado. Ela se tornará um grande movimento mundial, tão disseminado e evidente quanto o socialismo e o comunismo. Ela tomará o lugar desses movimentos quase que completamente. Ela será algo mais, será uma religião mundial. Essa grande e ampla massa assimilatória de grupos e sociedades estará definitiva e obviamente tentando engolir toda a população do mundo e se tornará a nova comunidade humana." [13].
Outros livros, como o seu monumental Outline of History (Um Estudo em Tópicos da História), apontavam para a vindoura esperança de um supergoverno mundial. Entretanto, perto do fim de sua vida, Wells perdeu muito do otimismo de sua "Conspiração Aberta". Após ter vivido e visto a devastação de Londres durante os ataques aéreos na Segunda Guerra, ele percebeu que o poder do homem em realizar a guerra era grande demais para ser superado. A conclusão foi tão problemática para Wells que em edições modernas desse livro, seus pensamentos sobre a sociedade mundial prevista foram removidos. [14].

Apesar de sua posição alterada no fim da vida, as primeiras obras literárias de Wells tiveram uma grande influência na formulação de uma ideologia globalista.


O primeiro-ministro Churchill foi, e ainda é, o símbolo mais visível da Inglaterra como uma nação soberana no ardor da crise. Por causa de sua determinação de buldogue, os cidadãos de seu país foram capazes de se unir contra o ataque nazista na Segunda Guerra Mundial. Hoje, Churchill é o principal ícone do Partido da Independência do Reino Unido, um corpo político pró-nacional e contrário à União Europeia. Embora essa imagem de independência seja legítima no contexto da Segunda Guerra, havia muito mais para o Sr. Churchill. [15].

É interessante observar que, apesar de o "buldogue" não concordar com uma organização política conhecida como Sociedade Fabiana, que defendia uma ordem mundial socialista, [16] ele abraçava claramente a visão de um governo mundial. Durante um discurso em setembro de 1943 sobre a "União Anglo-Americana" na Universidade de Harvard, Churchill declarou o seguinte:
"Estou aqui para lhes dizer que não importa a forma que seu sistema de segurança mundial possa ter, por mais que as nações estejam agrupadas e alinhadas, por mais que se fale contra a soberania nacional e a favor de uma síntese maior, nada funcionará solidamente, ou por muito tempo, sem o esforço conjunto dos povos britânico e americano." [17].

Esse "sistema de segurança mundial" se tornou a ONU, na qual Churchill teve um papel fundamental, junto com Stalin, Roosevelt e Truman. No entanto, a posição de Churchill a respeito de um governo mundial veio para o primeiro plano de fato após a criação da ONU. Indo além, o buldogue ligou diretamente um governo mundial à criação de um novo superestado europeu.
"A criação de uma ordem mundial investida de autoridade e de plenos poderes é o objetivo máximo pelo qual devemos lutar. A não ser que um supergoverno mundial eficaz seja estabelecido e colocado em ação rapidamente, as perspectivas de paz e de progresso humano são obscuras e duvidosas."
"Mas, que não haja erro quanto à questão principal. Sem uma Europa unida não existe perspectiva segura de governo mundial. Este é o passo urgente e indispensável para a realização desse ideal." [18].

Ele também fez comentários similares ao público na Universidade de Westminster, em Fulton, Missouri, e na Universidade de Zurique, na Suíça. [19]

O envolvimento direto de Churchill na criação da ONU e seu apoio declarado a um "supergoverno mundial eficaz" fez com que a Associação da Federação Mundial o listasse como um dos líderes históricos que abriram o caminho para um movimento globalista moderno. [20].

Com certeza, há mais na história de Churchill do que apenas determinação e capacidade de unir seu país diante da adversidade. Como Wells, Churchill estava comprometido com uma mudança global em uma escala muito maior.

Bertrand Russell

Tido por muitos como o pensador progressista mais importante do século passado, Bertrand Russell foi reconhecido mundialmente por suas contribuições à filosofia, à política e na defesa da paz. [21]. Ele escreveu mais de trinta livros, fez inúmeras palestras e buscou abertamente o objetivo de uma autoridade mundial centralizada.

Membro de uma longa linhagem de políticos progressistas britânicos, [22] o jovem Russell também adotou uma visão progressista/esquerdista do mundo — indo tão longe que abraçava filosoficamente o comunismo, ao mesmo tempo que considerava detestáveis as práticas do governo soviético. [23]. Após visitar a União Soviética com uma delegação especialmente organizada do Partido Trabalhista, Russell escreveu: "As ideias fundamentais do comunismo não são de forma alguma impraticáveis, e contribuiriam muito, se realizadas, para o bem-estar da humanidade." [24]. Isso não é surpreendente, já que Russell reconhecia que "O verdadeiro comunista é profundamente internacional." [25].

Bertrand Russell também associava "controle populacional" com mudança mundial radical. Suas ideias de redução populacional tinham um toque distintamente apocalíptico. Considere um trecho de uma palestra feita na Sociedade Real de Medicina, em Londres, Inglaterra:

"Não quero dizer que o controle de natalidade seja a única maneira pela qual a população pode ser contida. Existem outras, as quais, devemos supor, os oponentes do controle de natalidade prefeririam. A guerra, como disse há pouco, tem até agora sido decepcionante nesta questão, mas talvez a guerra bacteriológica possa provar ser mais eficaz. Se uma peste negra pudesse se espalhar pelo mundo uma vez a cada geração, então os sobreviventes poderiam procriar livremente sem encher demais o mundo. Não há nada nisto que ofenda as consciências dos devotos ou que restrinja as ambições dos nacionalistas. O estado de coisas pode ser um pouco desagradável, mas e daí? As pessoas de mente elevada são indiferentes à felicidade, especialmente à felicidade dos outros." [26].

Russell prosseguiu oferecendo uma solução global para o problema global:
"... a não ser que exista um governo mundial que garanta controle de natalidade universal, é necessário haver de tempos em tempos grandes guerras, nas quais a pena pela derrota seja a morte pela fome... As duas grandes guerras que vivenciamos reduziram o nível de civilização em muitas partes do mundo, e a próxima com certeza realizará mais nesse sentido. A não ser que em algum ponto, uma potência, ou grupo de potências, surja vitoriosa e comece a estabelecer um governo mundial único com o controle total das forças armadas, é claro que o nível da civilização continuará a declinar..."
"A necessidade de um governo mundial, se quisermos resolver o problema da população de uma forma humana, é completamente evidente com base nos princípios darwinistas." [27].

Os pensamentos de Russell com relação à tirania eram igualmente perturbadores:

"Dada uma organização mundial econômica e politicamente estável, mesmo se, a princípio, ela repousar sobre nada a não ser força bruta, os males que agora ameaçam a civilização diminuiriam gradualmente e uma democracia mais ampla que a existente poderá se tornar possível. Acredito que, devido à insensatez humana, um governo mundial será estabelecido apenas pela força e será, portanto, cruel e despótico no início. Mas, acredito que isso seja necessário para a preservação de uma civilização científica e que, se realizado, gradualmente dará lugar a outras condições toleráveis de existência. [28].

"Tolerável" a quem? Àqueles que detêm a autoridade máxima sobre a vida e a morte em um regime global? Lembre-se, este homem é considerado como um dos maiores pensadores do século XX. É interessante que Bertrand Russell também via a arena educacional como parte da estrutura de controle autoritária global:
"...a fisiologia [a ciência que estuda as funções dos organismos vivos] descobrirá, com o tempo, maneiras de controlar as emoções, o que é difícil de duvidar. Quando esse dia chegar, teremos as emoções desejadas por nossos líderes e o principal objetivo da educação fundamental será produzir a disposição desejada... O homem que administrar esse sistema terá um poder muito além dos sonhos dos jesuítas..." [29].
O Socialista Fabiano Gordon Brown

A mensagem do primeiro-ministro Gordon Brown de uma "sociedade global" está enraizada em um movimento que se estende por mais de cem anos, desde H. G. Wells, Churchill e Bertrand Russell. Mas, existe outra ligação que vai além de aspirações visionárias — uma que une o ideal intelectual de uma comunidade mundial com o poder político de fato.

Há mais de um século que a Sociedade Fabiana — mencionada anteriormente neste artigo — tem feito avançar o socialismo nos níveis nacional (na Grã-Bretanha) e internacional. O emblema da sociedade é a tartaruga, uma proclamação de que "devagar, mas com constância" se ganha a corrida. Mas, qual é a linha de chegada?

Uma das exposições mais notáveis feitas sobre a Sociedade Fabiana foi o livro Fabian Freeway, de Rose L. Martin, publicado em 1968. [30]. Rose documenta claramente que o objetivo dos fabianos é o socialismo internacional e liga o grupo a uma miríade de organizações interconectadas e movimentos que trabalham com objetivos parecidos. Portanto, não é surpreendente descobrir que H. G. Wells foi um membro da Sociedade — apesar de ter deixado o grupo, frustrado com sua metodologia — e que Bertrand Russell participou da Sociedade Fabiana durante certo tempo.


Desde sua origem em meados de 1880, a Sociedade Fabiana tem sido a força motriz do movimento político e intelectual inglês para o socialismo internacional. A sociedade fundou a Escola de Economia de Londres (LSE, de London School of Economics), uma universidade reconhecida mundialmente e que se concentra em questões econômicas, políticas e sociais. Na verdade, no dia 20 de abril de 2006, o primeiro-ministro Tony Blair apresentou "o vitral fabiano perdido" durante uma cerimônia na LSE. Esse vitral apresenta os líderes fabianos usando martelos para esmiuçar um globo colocado sobre uma bigorna: é a recriação do mundo. [31]. Junto ao topo da janela está escrito: "Remodele-o conforme o desejo do coração." H. G. Wells é visto de um dos lados da gravura e um grupo de membros está rezando diante de uma pilha de textos teóricos de sociologia. O que é realmente significativo é o brasão acima do globo que está sendo remodelado: Um lobo em pele de cordeiro.

O vitral foi apresentado pela primeira vez pelo primeiro-ministro Clement Attlee, do Partido Trabalhista, que esteve no cargo de 1945 a 1951, e depois foi reapresentado em 2006 por outro líder trabalhista, Tony Blair. [32]. Isso não deveria surpreender; afinal, a Sociedade Fabiana foi a principal planejadora do Partido Trabalhista. Como o fundador da Sociedade Fabiana, Sidney Webb, explicou com relação à ligação entre a Sociedade e o Partido: "A Sociedade Fabiana participou desde a primeira reunião [do partido] e tem desde então formado uma parte constituinte de sua organização." [33]. Portanto, desde a criação do partido, todos os primeiros-ministros trabalhistas foram membros da Sociedade Fabiana. [34].

Essa ligação íntima entre os fabianos e os trabalhistas explica porque o Manifesto Eleitoral do Partido Trabalhista de 1964 é tão... descarado.

"... o Partido sempre... permaneceu fiel à sua crença de longa data no estabelecimento de cooperação Leste-Oeste [Nota: Isto se refere à Rússia e ao Ocidente] como base para uma ONU fortalecida se desenvolvendo em direção a um governo mundial..."
"Para nós, o governo mundial é o objetivo final – e as Nações Unidas são o instrumento escolhido pelo qual o mundo pode se afastar da anarquia do poder político rumo à criação de uma comunidade genuinamente global e ao império da lei." [35].

Outros Manifestos Eleitorais do Partido Trabalhista Britânico falam em formar uma comunidade mundial, fortalecendo as Nações Unidas, e defendendo um sistema de leis internacionais relacionadas: isto é governança global — a peça central do gerenciamento mundial.

Não é de se admirar que o primeiro-ministro Brown tenha feito tantos discursos nos últimos dois anos defendendo uma sociedade global — isto está na essência de seu partido e é o ideal fabiano. Como Brown explicou em sua palestra de 2008 no Memorial Kennedy, em Boston:
"Pela primeira vez na história temos a oportunidade de nos unirmos em torno de um pacto global, para reestruturarmos a arquitetura internacional e construirmos uma sociedade realmente global." [36].

Se ainda estivessem vivos, H. G. Wells, Winston Churchill, Bertrand Russell e os fundadores da Sociedade Fabiana ficariam orgulhosos. Brown e seus camaradas estão falando àqueles que têm ouvidos para ouvir: A "sociedade global" sonhada há tanto tempo está bem próxima.

Todos aqueles que prezam a liberdade precisam acordar, pois a "mudança" está vindo.


Notas Finais

1. Clarence K. Streit, Union Now With Britain (Nova York: Harper and Brothers Publishers, 1941) pág. 124. A ideia de Clarence Streit de combinar os EUA com a Comunidade Britânica de Nações para criar um governo mundial regional chamou muita atenção e ganhou enorme apoio dos governos americano e britânico da época. A OTAN de hoje foi parcialmente fundada com base no conceito da união proposta por Streit.

2. Um exemplo é sua promoção da Lei de Pobreza Global, enquanto ainda era um senador. Para ver mais sobre este assunto, veja o artigo de Tom DeWeese, "Barak Obama & the UN’s Drive for Global Governance", em http://www.newswithviews.com/DeWeese/tom114.htm.

3. Para uma lista atual dos portadores de títulos do Tesouro dos EUA, veja a publicação mais recente de dados do Departamento do Tesouro Americano emhttp://www.treas.gov/tic/mfh.txt.

4. Para informações sobre o papel da Grã-Bretanha em moldar assuntos internacionais, veja os dois livros de Carroll Quigley, Tragedy and Hope: A History of the World in Our Time(1966) e The Anglo-American Establishment (1981). O envolvimento do Reino Unido na mudança colonial também não pode ser ignorado. Do Oriente Médio até o Pacífico e a África, a Grã-Bretanha deixou suas impressões digitais bem marcadas nas páginas da história moderna.

5. Primeiro-ministro Gordon Brown, Discurso Diante do Parlamento Europeu, 24 de março de 2009, http://www.number10.gov.uk/Page18718.

6. Discurso do primeiro-ministro britânico Gordon Brown na sessão conjunta do Congresso dos EUA, 4 de março de 2009, http://www.number10.gov.uk/Page18506.

7. Clarence K. Streit, Union Now With Britain (Nova York: Harper and Brothers Publishers, 1941), pág. 124.

8. Idem, pág. 123.

9. H. G. Wells, A Year of Prophesying (Toronto: Ryerson Press, 1925), pág. 86.

10. Idem, págs. 9-10.

11. Idem, pág. 86.

12. H. G. Wells, The Open Conspiracy: Blue Prints for a World Revolution (Garden City, 1928) pág. ix.

13. Idem, pág. 163.

14. Veja a nota final nas novas edições revisadas de The Outline of History. Compare com a nova versão com a edição de três volumes de 1940-1941.

15. Veja Leftism: From De Sade and Marx to Hitler and Marcuse, de Erik Von Kuehnelt-Leddihn para um exame de como Winston Churchill jogava nos dois lados, conservador/progressista.

16. Veja Fabian Freeway: High Road to Socialism in the USA, de Rose L. Martin, para mais informações sobre o papel e a influência dos fabianos nas questões políticas europeias e americanas. Leftism, de Von Kuehnelt-Leddihn, também contém algumas informações importantes sobre a Sociedade Fabiana e seu papel internacional na agenda socialista global.

17. Churchill Speaks, 1897-1963: Collected Speeches in Peace and War (Nova York: Barnes and Noble, 1980) pág. 817.

18. Idem, pág. 913. Discurso intitulado "Europa Unida," 14 de maio de 1947, Albert Hall, Londres, Reino Unido.

19. Idem, pág. 878/893, "Os Tendões da Paz", 5 de março de 1946, Fulton, Missouri, "A Tragédia da Europa," 19 de setembro de 1946, Universidade de Zurique, Suíça.

20. Guia de Ativistas da Associação da Federação Mundial, Seção 1, pág. 15.

21. Bertrand Russell foi um gigante no campo da filosofia e política. Por causa das complexidades de sua vida e crenças, é completamente impossível justificar o assunto em um artigo limitado em espaço como este. Sugiro a leitura dos próprios escritos de Russell para ter uma noção do escopo de sua vida, e ler as várias biografias e comentários. Alguns de seus trabalhos mais obscuros estão entre os mais reveladores, como The Impact of Science on Society (1953).

22. O avô dele foi primeiro-ministro e seu pai foi um membro do Parlamento por pouco tempo (ele morreu prematuramente). Outros em sua família estiveram envolvidos na política britânica e na alta sociedade inglesa. Para uma breve introdução das raízes políticas da família de Russell, veja Alan Ryan, Bertrand Russell: A Political Life (Oxford University Press, 1988).

23. Veja Bertrand Russell, The Practice and Theory of Bolshevism; Sidney Hook, Political Power and Personal Freedom (B. R. tem algumas correspondências interessantes publicadas aqui); Alan Ryan, Bertrand Russell: A Political Life.

24. The Practice and Theory of Bolshevism, págs. 23-24, 117.

25. Idem., pág. 30.

26. Bertrand Russell, The Impact of Science on Society (Nova York: Simon and Schuster, 1953), págs. 103-104.

27. Idem, pág. 105.

28. Bertrand Russell, The Future of Science (Nova York: Wisdom Library, 1959), págs. 33-34.

29. Idem, pág. 46.

30. Rose L. Martin, Fabian Freeway: High Road to Socialism in the USA (Fidelis Publishers, 1968). Para mais informações sobre a Sociedade Fabiana, veja o livro The Story of the Fabian Socialism, de Margaret Cole (Stanford University Press, 1961) e Fabian Essays in Socialism (Sociedade Fabiana, 1908).

31. Escola de Economia de Londres, "A Piece of Fabian History Unveiled at LSE", 20 de abril de 2006. Comunicado à imprensa.

32. Idem.

33. Fabian Essays in Socialism, edição de 1920, pág. xv. Introdução de novembro de 1919 à coleção de ensaios.

34. Sobre a Sociedade Fabiana, (http://www.fabians.org.uk/about-the-fabian-society).

35. Manifesto Eleitoral de 1964 do Partido Trabalhista: "A Nova Grã-Bretanha." (O texto na íntegra pode ser encontrado em http://www.labour-party.org.uk/manifestos/1964/1964-labour-manifesto.shtml).

36. Você pode ler trechos selecionados desse discurso em Developments, Edição 42, pág. 4. Developments é a revista oficial do Departamento de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido.


27 abril 2017

Como ocorreu o milagre econômico de Hong Kong - da pobreza à prosperidade




Leia a primeira parte aqui.




Com milhões de refugiados chineses, sofrendo com um embargo comercial e com sua infraestrutura estrangulada, a Hong Kong do início da década de 1950 parecia confirmar os prognósticos pessimistas feitos no século XIX.
No entanto, esta enxurrada de refugiados era composta por milhões de indivíduos que, embora completamente pobres, fugiram para Hong Kong em busca de liberdade.  E embora Hong Kong não possuísse a infraestrutura adequada para recebê-los, ela fornecia ampla liberdade para qualquer indivíduo que quisesse colocar seus talentos empreendedoriais em ação. 
Não havia na ilha as mesmas restrições cambiais vigentes no Reino Unido e em grande parte da Europa — o que significava que o dólar de Hong Kong, que era ancorado à libra esterlina, era livremente conversível em outras moedas —, e a quantidade de regulamentações sobre a economia era desprezível.
A combinação entre mão-de-obra à procura de trabalho e empreendedores com conhecimento e algum capital oriundos de Xangai — até então a grande cidade capitalista chinesa — forneceu a matéria-prima para o crescimento industrial iniciado na década de 1950.  A economia começou a prosperar.
Os empreendedores de Hong Kong criaram rapidamente um número impressionante de pequenas e médias empresas durante este período, especialmente no setor têxtil.  Estes empreendimentos, os quais acabaram se diversificando e se ramificando para setores como vestuário, plásticos e eletrônicos, produziam principalmente para atender a crescente demanda da Europa e dos EUA por bens manufaturados e baratos.  
Essa rápida industrialização da década de 1950 foi possível porque ocorreu em condições nas quais 1) os direitos de propriedade eram respeitados, 2) o poder judiciário era independente e os tribunais, imparciais, e 3) a interferência econômica das autoridades coloniais era mínima.
Como o último governador britânico de Hong Kong, Christopher Patten, escreveu em seu livro de memórias, East and West, os refugiados do comunismo que correram para Hong Kong chegaram à única cidade livre da China; era de fato "a única sociedade chinesa que, por um breve período de 100 anos, viveu um ideal jamais vivenciado em nenhum outro momento da história da sociedade chinesa — um ideal em que nenhum homem tinha de viver com medo de uma batida à porta da sua casa à meia-noite".
Hong Kong tinha um governo limitado e competente, que se restringia a manter a lei e a ordem, e a permitir o funcionamento da economia de mercado.  Era um governo que honrava completamente a filosofia confuciana: "Deixe as pessoas locais serem felizes e atraia migrantes longínquos."
Mais impressionante ainda foi o fato de que, enquanto o Reino Unido estava criando um estado altamente intervencionista e assistencialista em casa, sua colônia desfrutava uma política econômica fundamentalmente de livre mercado.
No entanto, houve um responsável pela prolongada existência desta política de livre mercado.  Houve uma pessoa que seguidamente contrariou ordens do governo britânico e, com isso, permitiu a prosperidade de Hong Kong.
Sir John Cowperthwaite, o homem que permitiu a prosperidade de Hong Kong
O nome de Sir John James Cowperthwaite (1915—2006) deveria ocupar para sempre o topo do panteão dos grandes libertários.  Enquanto vários de nós apenas escrevemos sobre ideias libertárias, este cidadão de fato as transformou em política pública para milhões de cidadãos.
Cowperthwaite foi nomeado secretário das finanças de Hong Kong para o período de 1961 a 1971.  Escocês e discípulo fiel de Adam Smith, ele era assumidamente um economista na tradição da Escola de Manchester, ardorosa defensora do livre comércio. 
Na época, com a Grã-Bretanha indo a passos firmes rumo ao socialismo e ao assistencialismo, Cowperthwaite permaneceu inflexível: Hong Kong deveria se manter fiel aos princípios do laissez-faire.  Tendo praticamente controle completo sobre as finanças do governo de Hong Kong, ele se recusou a impor qualquer tipo de tarifa de importação e sempre insistiu em manter os impostos no nível mais baixo possível.
Ele era um liberal-clássico, bem ao estilo dos liberais do século XIX.  Era fiel adepto da ideia de que os países deveriam se abrir unilateralmente para o comércio, sem esperar contrapartidas.  Ele já estava em Hong Kong desde 1941, fazendo parte do Serviço Administrativo Colonial.  Com a invasão japonesa, ele foi enviado para Serra Leoa.  Ao voltar para Hong Kong, em 1946, os britânicos lhe pediram para elaborar planos e programas para que o governo pudesse estimular o crescimento econômico.  Cowperthwaite apenas respondeu dizendo que a economia já estava se recuperando sem nenhuma ordem do governo. 
Mais tarde, ao ser efetivamente nomeado secretário das finanças, em 1961, ele se tornou um defensor inflexível daquilo que passou a rotular de "não-intervencionismo positivo" e passou a pessoalmente controlar a política econômica da colônia.
Cowperthwaite transformou Hong Kong na economia mais livre do mundo.  Durante o seu mandato, o livre comércio foi instituído plenamente, pois Cowperthwaite se recusava a obrigar os cidadãos a comprar bens caros produzidos localmente se eles podiam simplesmente importar produtos mais baratos de outros países.  O imposto de renda sempre teve uma alíquota única, de 15%.  A total escassez de recursos naturais em Hong Kong — havia apenas a enseada onde está o porto — e o fato de que a ilha tinha de importar até mesmo toda a sua comida tornam o sucesso de Hong Kong ainda mais fascinante. 
"Para toda a nossa economia, é preferível confiarmos na 'mão invisível' do século XIX a aceitarmos que as canhestras mãos de burocratas manipulem os delicados mecanismos do mercado", declarou Cowperthwaite em 1962.  "Em específico, não podemos deixar que burocratas danifiquem os principais mecanismos da economia, que são a livre iniciativa e a livre concorrência". 
Ele não aceitava protecionismo nem para as chamadas "indústrias infantes": "Uma indústria infante, quando protegida e mimada, tende a permanecer infante, e jamais irá crescer e se tornar eficiente".  Também acreditava firmemente que, "no longo prazo, o agregado das decisões individuais dos empreendedores, exercitando seu juízo individual em uma economia livre, mesmo cometendo erros, tende a ser bem menos danoso do que as decisões centralizadas de um governo; e certamente o eventual dano tende a ser contrabalançado mais rapidamente."
Desde os dias de John Maynard Keynes, a ciência econômica vem sendo atormentada pela ideia de que a ação humana deve ser destilada em números, os quais se transformam em uma "pretensão ao conhecimento" para aspirantes a planejadores centrais.  Nas várias faculdades de economia atuais é difícil saber quando acaba a matemática e quando começa o real conhecimento econômico.  Para Cowperthwaite, no entanto, a compilação de estatísticas para planejamento econômico era um anátema.  Ele simplesmente se recusou a coletá-las.  Quando Milton Friedman lhe questionou, em 1963, a respeito da "escassez de estatísticas", Cowperthwaite respondeu: "Se eu deixá-los coletar estatísticas, irão querer utilizá-las para planejar a economia".
Perguntado qual era a coisa mais premente que os países pobres deveriam fazer, Cowperthwaite respondeu: "Eles deveriam abolir seus institutos de estatísticas econômicas".  Ele acreditava que, se estatísticas fossem coletadas em Hong Kong, elas estimulariam o governo britânico a implantar políticas supostamente corretivas, o que inevitavelmente afetaria a capacidade da economia de mercado funcionar corretamente.  Isso gerou consternação no governo britânico.  Uma delegação de burocratas foi enviada a Hong Kong para descobrir por que as estatísticas não estavam sendo coletadas.  Cowperthwaite literalmente mandou-os de volta a Londres no primeiro avião.
O desprezo de Cowperthwaite pela teoria econômica em voga (keynesianismo) e sua abordagem não-intervencionista eram garantia de conflitos diários tanto com o governo britânico quanto com empresários.  Os britânicos haviam elevado a alíquota do imposto de renda em Cingapura; quando ordenaram a Hong Kong que fizesse o mesmo, Cowperthwaite recusou.  Ele era contrário a dar subsídios e a conceder benefícios especiais para empresas.  Quando um grupo de empresários pediu a ele que providenciasse fundos para a construção de um túnel através da enseada de Hong Kong, ele respondeu dizendo que, se o túnel fosse economicamente sensato, o setor privado iria construí-lo.  O túnel foi construído privadamente.





O legado de Cowperthwaite
Não obstante sua postura contrária, há estatísticas sobre a Hong Kong daquela época.  Durante sua década como secretário das finanças, os salários reais subiram 50%, e a fatia da população vivenda na pobreza extrema caiu de 50 para 15%.  O mais impressionante é que Hong Kong fez tudo isso sem contar com nenhum outro recurso que não fosse sua população.  A colônia não possuía nenhuma terra agrícola e nenhum recurso natural.  E até mesmo o único recurso que ela possuía — as pessoas — não era exatamente muito culto.  Com efeito, a maior parte da massa de refugiados que chegou a Hong Kong na década de 1950 seria vista apenas como um fardo para o estado.
Também digno de menção é todo o contexto mundial vigente à época.  A transformação de Hong Kong ocorreu exatamente quando os social-democratas controlavam a Europa e quando o democrata Lyndon Johnson e seu programa da Grande Sociedade dominava a política americana, o que refletia o consenso entre as elites políticas da Europa e dos EUA de que assistencialismo e políticas econômicas intervencionistas eram a única direção sensata para as sociedades avançadas.  Mesmo nos países em desenvolvimento, políticas econômicas intervencionistas, como a industrialização por meio da substituição de importações — que se baseava na imposição de altas tarifas de importação para proteger as indústrias domésticas — eram a norma.
A pequena Hong Kong, portanto, conseguiu adotar e manter políticas de livre mercado e de livre comércio que iam totalmente contra as políticas dos governos britânico, europeus e americanos, e contra o consenso de economistas desenvolvimentistas em todo o mundo.  E fez tudo isso enquanto ainda era pobre e estava perigosamente ao lado de uma poderosa e imperialista ditadura comunista.
É difícil argumentar contra o sucesso.  Após a aposentadoria de Cowperthwaite, em 1971, sucessores menos adeptos aos seus princípios se mostraram mais propensos a aumentar os gastos assistencialistas, mas todos os aumentos foram financiados por meio da venda de terras, e não de aumento de impostos.  As alíquotas tributárias estão hoje exatamente no mesmo valor em que Sir John James Cowperthwaite as deixou.
O avanço
As políticas de livre comércio, de não-intervenção do estado na economia, de orçamentos governamentais rigidamente equilibrados, de imposto de renda de pessoa física com alíquota única (15%), de mercado de trabalho bastante flexível, de livre fluxo de capitais, de não-restrição a investimentos estrangeiros (estrangeiros podem investir livremente em empresas locais e também deterem 100% do capital) se mantiveram inalteradas após a saída de Cowperthwaite.
Esta política econômica, a qual promoveu a concorrência e o espírito empreendedorial, criou as condições para o acelerado crescimento econômico vivenciado por Hong Kong nas décadas seguintes.  Entre 1961 e 2012, o PIB real per capita de Hong Kong foi multiplicado por um fator 9.  Hoje, o PIB per capita de Hong Kong, em termos de paridade do poder de compra, é o 7º maior do mundo
Ou seja, em apenas algumas décadas, Hong Kong, sem recursos naturais, sofrendo dos mesmos problemas enfrentados por todos os outros países em desenvolvimento, e cuja renda média per capita era de apenas 28% da dos residentes do Reino Unido, deixou de ser uma favela a céu aberto e se tornou uma das economias mais ricas do mundo, superando em muito a renda média per capita de sua metrópole.
De economia industrial a uma economia de serviços
O primeiro estágio do desenvolvimento de Hong Kong baseou-se na indústria manufatureira.  No entanto, as reformas econômicas feitas na China e a política de abertura ao investimento estrangeiro adotada por Deng Xiaoping a partir de 1978 alteraram profundamente a natureza da economia de Hong Kong nas décadas seguintes.
O setor manufatureiro começou a declinar e a perder peso na economia no final de década de 1970 em decorrência de aumentos nos preços da terra — uma inevitabilidade para um local tão pequeno e povoado — e nos salários.  No entanto, a crescente integração econômica entre Hong Kong e China permitiu à ilha realocar sua produção para as zonas econômicas especiais na província adjacente de Guangdong, na China.
Estas zonas, que foram criadas no início de 1980, ofereceram aos investidores de Hong Kong a oportunidade de aumentar sua competitividade ao recorrerem a uma mão-de-obra barata e abundante (chinesa) ao mesmo tempo em que ainda usufruíam as mesmas condições não-intervencionistas do governo chinês quanto recebiam em Hong Kong.  De 1978 a 1997, o comércio entre Hong Kong e China cresceu a uma taxa média anual de 28%.  Ao final de 1997, o investimento direto feito por Hong Kong representava 80% de todo o investimento estrangeiro direto em Guangdong.
Estes novos desenvolvimentos alteraram significativamente a economia de Hong Kong.  A participação da indústria na economia declinou de 31% em 1980 para 14% em 1997 e 8% em 2008; o setor de serviços, por outro lado, aumentou sua participação consideravelmente, de 68% em 1980 para 86% em 1997 e 92% em 2008.
Desde 1997, a economia de Hong Kong se tornou um pólo para serviços de alto valor agregado (finanças, administração, logística, consultoria empresarial, comércio etc.).  Atualmente ela atrai tanto empresas chinesas que querem entrar no mercado internacional quanto empresas de todo o mundo que querem ter acesso aos mercados da China e do resto da Ásia.
A manutenção das instituições de livre mercado
Já no início da década de 1980, a perspectiva de uma iminente devolução de Hong Kong à soberania chinesa produziu grande incerteza com relação à manutenção das instituições que tornaram o território uma região rica e próspera.  Esta preocupação, no entanto, foi rapidamente abrandada.
Na Declaração Conjunta Sino-Britânica, assinada no dia 9 de dezembro de 1984, foi estabelecido que Hong Kong deixaria de ser um território sob controle britânico no dia 1º de julho de 1997.  O princípio do "um país, dois sistemas" também foi acordado nesta data.  Com a exceção das relações exteriores e da defesa nacional, o acordo concedeu ampla autonomia ao território e permitiu a Hong Kong manter seu sistema capitalista e seu estilo de vida por um período de 50 anos, até 2047.
Hong Kong hoje é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China.  Ela preservou o grosso do seu sistema político, judicial, econômico e financeiro que caracterizou a colônia quando estava sob controle britânico.  O poder judiciário é independente do poder político e continua a operar sob o sistema do direito consuetudinário herdado dos britânicos.  Os direitos de propriedade são garantidos na Constituição da Região Administrativa Especial de Hong Kong.  Seus cidadãos desfrutam amplas e fundamentais liberdades individuais.




Conclusão
Em 1960, a renda média per capita de Hong Kong era de apenas 28% da renda média per capita da Grã-Bretanha.  Atualmente, é de 140%.  Ou seja, de 1960 a 2012, a renda per capita de Hong Kong deixou de ser de aproximadamente um quarto da da Grã-Bretanha e passou a ser mais de um terço maior.  É fácil falar destes números.  Muito mais difícil é se dar conta de sua significância.
Compare a Grã-Bretanha — o berço da Revolução Industrial, a potência econômica do século XIX em cujo império o sol jamais se punha — a Hong Kong, uma mera restinga de terra, superpovoada, sem nenhum recurso natural, exceto uma enseada.  No entanto, em menos de quatro décadas, os residentes desta restinga de terra alcançaram um nível de renda um terço maior do que aquele desfrutado pelos residentes de sua metrópole.
O retorno de Hong Kong à China era inevitável, assim como era inevitável a determinação do governo chinês em preservar o capitalismo de Hong Kong.  O interesse da China em preservar sua galinha dos ovos de ouro era claro: a China sempre utilizou Hong Kong — a qual ela podia atacar e tomar à força a qualquer momento — como um meio de acesso aos mercados estrangeiros e também como fonte de capital.  Houve épocas em que 80% das receitas externas da China entrava através de Hong Kong.  A China também queria demonstrar a Taiwan que uma reunificação pacífica era possível.
O perigo sempre foi o de a liderança chinesa não entender a relação entre o hardware de Hong Kong (a economia capitalista) e o seu software (uma sociedade pluralista).  É o seu software que permite que seu hardware funcione tão bem.  Até o momento, os novos governantes de Hong Kong vêm se comprovando notavelmente aptos a dar continuidade ao funcionamento harmônico entre o hardware e o software.  A grande questão é se isso permanecerá assim no futuro.
Não foram apenas os britânicos que fizeram de Hong Kong um sucesso.  Foi principalmente a população de Hong Kong, de operários de fábricas a empreendedores, quem transformou uma ilha estéril em potência econômica.  Essas pessoas foram capazes de fazer isso porque o governo de Hong Kong, na maior parte do tempo, as deixou em paz.  Hong Kong está longe de ser perfeita, e longe de ser um paraíso libertário.  Mas permanece sendo um dramático exemplo de como a genialidade humana e o talento empreendedorial podem trazer prosperidade a uma sociedade originalmente pobre.
Por que Hong Kong sempre foi tão livre?  Em parte, Hong Kong teve a sorte de ser governada por homens que entendiam que sua função era bastante limitada.  Não era exatamente o ideal liberal-clássico, mesmo sob Cowperthwaite, mas ainda assim foi a sociedade que mais significativamente se aproximou deste ideal no século XX.  E a combinação entre a incapacidade do governo britânico em fornecer instituições democráticas e sua falta de interesse em Hong Kong permitiu àqueles homens manter suas políticas econômicas, mesmo enquanto sua própria Grã-Bretanha natal experimentava o desastre econômico do socialismo light dos anos 1950-70.  Hong Kong também se beneficiou do exemplo das desastrosas políticas econômicas da China na década de 1960.  Com tantos residentes chineses fugindo do comunismo e se refugiando em Hong Kong, a demanda por liberdade era alta. 
Hong Kong é um dos mais formidáveis e conclusivos exemplos de uma sociedade que teve grande êxito em fugir do subdesenvolvimento e enriquecer recorrendo à liberdade econômica.  Hong Kong teve sorte em ter tido essa liberdade.  E a sua população provou que a liberdade funciona.
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Participaram deste artigo:
Lawrence W. Reed, presidente da Foundation for Economic Education.
Andrew P. Morris, professor de Administração da Universidade do Alabama.
Jean-François Minardi, analista de políticas públicas do Montreal Economic Institute.
Alex Singleton, diretor geral do Globalisation Institute







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