O ser humano é
portador de eminente dignidade natural. Abdica a essa dignidade quem aceita ser
passivo nas suas relações com os outros e com o Estado.
Procure, leitor, os lugares onde as pessoas são mais
necessitadas e chegará àqueles em que o Estado decidiu ser tudo para todos.
Por Percival Puggina
Ninguém desconhecerá, por certo, o efeito da publicidade e
da propaganda sobre o comportamento humano. Não fosse eficaz, o mercado
publicitário não movimentaria cerca de US$ 20 bilhões por ano em nosso país.
Tendo isso em vista, a propaganda política não deveria descurar, como descura,
da pedagógica função cívica inerente às suas mensagens.
De uns tempos para cá, a cada campanha eleitoral, mais e
mais partidos transmitem de algum modo a mensagem de que vão "cuidar bem
das pessoas". Perceberam? Já passamos da fase do paternalismo e entramos
num patamar superior - o maternalismo. Partidos e candidatos disputam troféus na
produção de zelos maternais. Nós, os cidadãos, somos vistos nessas peças
publicitárias como bebês de fraldas e chupeta, cujas vidas dependem
inteiramente dos cuidados da mamãe estatal. Por isso, o "Dia das
Mães" cívico deve ser aquele celebrado a cada quatro anos, no primeiro
domingo de outubro, quando digitamos na boca da urna nossa mensagem de gratidão
à legenda que consideramos mais jeitosa e cuidadosa. Fôssemos todos bons filhos
da Pátria deveríamos ensopar as teclas com as lágrimas da nossa gratidão.
Não, não, não. Não estou exagerando. Bem, talvez um pouco,
sim. Mas reconheça-se: é exatamente isso que vem sendo ensinado ao povo
brasileiro mediante inesgotáveis demonstrações práticas. É a disputa dos
corações para domínio das mentes. Com a generosa mão esquerda distribuem toda
sorte de bônus. Com a direita enviam a conta para os pagadores de impostos.
Como não poderia deixar de acontecer, enquanto "cuidam das pessoas",
os agentes dessa política maternalista deixam morrer à míngua as funções
essenciais do Poder Público. O pior, o mais nocivo, é que tais estratégias
funcionam. E por funcionarem, deformam as consciências, convertendo pessoas em
seres carentes, pets de última geração, aos cuidados do
Estado.
O ser humano é
portador de eminente dignidade natural. Abdica a essa dignidade quem aceita ser
passivo nas suas relações com os outros e com o Estado. Fomos criados para
existirmos em sociedade e em solidariedade, mas sem deixarmos de ser nós
mesmos, indivíduos sempre, nos nossos erros e nos nossos acertos. E, por isso,
responsáveis. Aceitar passivamente que o Estado esteja aí para cuidar da gente
é desconectar-nos das fontes de energia interior que nos impelem a cuidarmos
bem de nós mesmos. E equivale a transferir essa energia que é nossa, com grande
perda, para as usinas cada vez mais poderosas e totalizantes do Estado.
O Estado brasileiro é forte onde deveria ser fraco e fraco
onde deveria ser forte. É forte nos meios de ingerência e concentração de
recursos e de poder, a ponto de estar acabando com a Federação. E fraco,
fraquíssimo, em suas funções essenciais, a começar pela manutenção da ordem e
segurança da sociedade. Não cabe a ele tomar dos indivíduos as rédeas dos seus
destinos. Cabe-lhe criar as condições - repito: criar as condições - para que
os indivíduos se desenvolvam. Portanto, só lhe compete fazer aquilo que as
pessoas não possam fazer por si. E mesmo quando tais ações forem necessárias,
deve o Estado reconhecer seu papel subsidiário. Fica bastante coisa para o
Estado, sim. Mas sempre na justa medida, sem invadir o espaço sagrado onde cada
um é soberano de si mesmo. Procure, leitor, os lugares onde as pessoas são mais
necessitadas e chegará àqueles em que o Estado decidiu ser tudo para todos. Ou
sequer apareceu para fazer o que deveria porque está metido onde não deve.
