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07 março 2024

Entrevista de Pedro Collor à VEJA em 1992


“O PC é o testa-de-ferro do Fernando”
Na tarde da última quarta-feira Pedro Collor tomou um avião em Maceió e chegou a São Paulo após uma escala no Recife. Em com­panhia da mulher. Maria Tereza, e de uma irmã, Ana Luiza, Pedro Collor deu uma entrevista de duas horas a VEJA. A seu pedido, o encontro ocorreu nas dependências da revista. A mulher e a irmã de Pedro Collor foram testemunhas de suas declarações, e chegaram a colaborar em algumas respostas. Além de fazer novas denúncias sobre a atividade de PC Farias no governo, Pedro Collor diz que ele é “testa-de-ferro” do presidente Fernando Collor. Diz que o jornal Tribuna de Alagoas, que PC Farias quer lançar em Maceió, na verdade pertence a seu irmão. Também garante que um apartamento de Paris que se supunha ser propriedade do empresário na realidade pertence a Fernando Collor. Para Pedro Collor, existe uma “simbiose profunda” entre os dois. Os principais trechos da entrevista:
VEJA – O senhor se considera louco?
Pedro Collor – Não, de jeito nenhum.
VEJA – Se a sua própria mãe está falando isso, é o caso de perguntar. Já fez algum tratamento psiquiátrico?
Pedro Collor – Não, nunca fiz tratamento psiquiátrico ou psicanálise. Essa pressão toda tem um objetivo claro. O objetivo foi passar para a opinião pública a sensação de que não tenho credibilidade, que estou sob forte comoção. Convenceram mamãe a assinar aquela carta. Ela é muito ingênua nesse sentido.
VEJA – As suas afirmações e denúncias, os documentos que o senhor levantou contra Paulo César Farias e as críticas que vem fazendo ao Presidente colocam o governo e o país numa situação delicada. O senhor está ciente disso?
Pedro Collor – Absolutamente consciente.
VEJA – O senhor tem dito que suas revelações podem acabar com o governo do seu irmão. É isso que o senhor quer?
Pedro Collor – Não, mas qual foi o principal mote da campanha do Fernando? Quem roubava ia para a cadeia. Na prática, estou vendo uma coisa completamente diferente. Ninguém pode enrolar todo mundo o tempo todo.
VEJA – Essa briga começou em torno do lançamento de um novo jornal, que concorreria com a Gazeta de Alagoas, das organizações Arnon de Mello?
Pedro Collor – Em janeiro de 1991, levei ao Fernando, no Palácio do Planalto, o plano de se montar um novo jornal em Alagoas. Seria um jornal vespertino. Já houve no passado vespertinos no Estado, e que pararam por um motivo ou outro, agora não há nenhum. Como achei que havia uma brecha no mercado, e a gráfica do nosso grupo estava ociosa, fiz a proposta ao Fernando. Expliquei que o novo jornal não faria parte do grupo da Gazeta, seria uma iniciativa à parte.
VEJA – O que o presidente achou da ideia?
Pedro Collor – Ele me disse o seguinte: “Não, não leve a ideia do jornal adiante porque eu vou montar uma rede de comunicação paralela em Alagoas com o Paulo César, e essa rede terá um jornal”. O Fernando falou que o jornal iria se chamar Tribuna de Alagoas. Disse também que a Tribuna seria impressa na imprensa oficial do Estado. Então perguntei por que ele não imprimia esse novo jornal na gráfica do nosso grupo. O Fernando respondeu: “Não”.
VEJA – A rede de comunicação seria de PC Farias?
Pedro Collor – O PC seria o testa-de-ferro. Era uma empresa de testa-de-ferro, que teria o jornal e de doze a catorze emissoras de rádio.
VEJA – Qual foi a sua reação a essa rede?
Pedro Collor – Raciocinei que, se o novo jornal ia ser impresso na imprensa oficial, seria em preto-e-branco, um jornal para ocupar espaço, evitar que grupos adversários na política entrassem na área. Dizia-se que não era um jornal para concorrer efetivamente com a Gazeta e, de repente, compraram um maquinário exatamente igual ao nosso, e me tomam funcionários pagando três ou quatro vezes mais do que eles ganham conosco. Então é um negócio para destruir o nosso, certo? Foi aí que a coisa começou. Houve também um problema corri a instalação de rádios. Na mesma reunião em que falei do novo jornal com o Fernando, eu disse que precisávamos também de duas rádios, FMs pequenas ou médias, na periferia de Maceió.
VEJA – Como o senhor conseguiria essas rádios?
Pedro Collor – Pelas vias normais. Essas duas rádios já existiam no plano traçado pelo governo.
VEJA – E obteve as rádios?
Pedro Collor – Obtive duas negativas. Simultaneamente, eles mexeram no plano, a ponto de contemplar todas as cidades que até então não estavam com rádios FM.
VEJA – Isso foi feito por quem?
Pedro Collor – Por solicitação do deputado Augusto Farias, irmão do PC. Vejam bem: converso com ele tentando montar um jornal, falo das rádios que podem entrar. Negam para mim. E viabilizam para eles umas doze rádios que nem estavam cogitadas no plano.
VEJA – O senhor tentou chegar a um acordo sobre o jornal antes de começar a recolher documentos sobre os negócios de PC?
Pedro Collor – Houve tentativas que não deram certo, porque a intenção não era montar um jornal assim ou assado, mas montar um jornal para destruir o nosso. Em fevereiro passado, saiu aquela reportagem do Eduardo Oinegue, em VEJA, sobre o assunto, em que eu chamava o PC de lepra ambulante. Eu estive então com o Cláudio Vieira (secretário particular de Collor, afastado do governo na reforma ministerial). O Cláudio me disse que há cinco dias o Fernando não despachava com ele, nem com o general Agenor, nem com o Marcos Coimbra. O Cláudio Vieira me contou que no dia anterior o Fernando havia se reunido, durante uma hora e meia. com o procurador-geral da República, Aristides Junqueira. Segundo o Cláudio me contou, o procurador disse ao Fernando que, se eu não desmentisse a reportagem de VEJA, o Junqueira iria instaurar um inquérito, e que isso derrubaria o governo. Eu respondi ao Cláudio que não tinha intenção de derrubar o governo de ninguém, que minha intenção era me preservar e alertar que o PC era uma bomba atômica ambulante, independentemente de jornal ou coisa que o valha. Esclareci que não poderia desmentir a reportagem pura e simplesmente, e pedi um compromisso firme de que o PC não iria tentar acabar com nossa organização. Sugeri que a Gazeta arrendasse a gráfica da Tribuna, pagasse, e nós imprimíssemos o jornal. Cheguei a conversar depois sobre essa proposta com o PC, e ele disse que adorou. Na hora de formalizar o acordo, sumiu. O Cláudio Vieira então me disse que o Paulo César estava com outras idéias e ia me procurar. Estou esperando até hoje.
VEJA – Por que o pre­sidente Collor, se é ele que está por trás dessa rede de comunicações montada pelo PC, esta­ria interessado em preju­dicar e até destruir os negócios da família?
Pedro Collor – É uma questão que só Freud explica. (Tereza, mulher de Pedro Collor. pede para falar)
Tereza – O Fernando Collor faz isso porque o Pedro não se submete a ele. O Fernando viu que não podia tirar o Pedro da administração dos negócios da família. Foi o Pedro quem geriu, e bem, as empresas durante esses anos todos. O Fernando quer o meio de comunicação e instrumento político, enquanto o Pedro tem a responsabilidade de administrá-lo como empresa. É daí que nasceu a divergência.
VEJA – O senhor acha mesmo que o PC é um testa-de-ferro do presidente nos negócios?
Pedro Collor – Eu não acho, eu afirmo categoricamente que sim. O Paulo César é a pessoa que faz os negócios de comum acordo com o Fernando. Não sei exatamente a finalidade dos negócios, mas deve ser para sustentar campanhas ou manter o status quo
VEJA – De quem é o apartamento de Paris onde funciona a S.CI . de Guy des Longchamps e Ironildes Teixeira?
Pedro Collor – É dele.
VEJA – Dele, quem?
Pedro Collor – Dele. Do Fernando, claro.
VEJA – O senhor não tem dúvidas?
Pedro Collor – Não tenho a menor dúvida.
VEJA – De quem é o jatinho Morcego Negro?
Pedro Collor – Acho que é do Paulo César, mas não posso afirmar.
VEJA – O presidente Collor sairá mais rico do governo?
Pedro Collor – Em patrimônio pessoal, sai. Sem dúvida nenhuma.
VEJA – O presidente está envolvido na sua denúncia de que o Paulo César recebeu unta comissão de 22% sobre os negócios entre a empresa IBF e o governo para a implantação da raspadinha federal?
Pedro Collor – O Fernando não entra no varejo da coisa. Ele apenas orienta o negócio.
VEJA – O que acontece com o dinheiro?
Pedro Collor – O Paulo César diz para todo mundo que 7O% é do Fernando e 3O% é dele.
VEJA – O senhor acredita nisso?
Pedro Collor – Eu não sei se a porcentagem exata é essa.
VEJA – Mas o senhor sustenta que existe uma sociedade entre os dois?
Pedro Collor – Tenho certeza de que é assim. Existe urna simbiose aí. Eu não estendo as acusações ao Fernando diretamente. Uma coisa é você concordar. Outra coisa é operacionalizar. São duas coisas distintas. Operacionalizar, no sentido do dolo, no sentido do ilícito, isso é muito do temperamento do PC. Ele tem prazer nisso. O Fernando é incapaz de sentar em uma mesa e dizer assim: “O negócio é o seguinte: preciso de uma grana para a minha campanha. Me ajuda”. Pode estar nu e sem sapato que não pede ajuda. Já o PC toma. Deixa você nu se for possível.
VEJA – O senhor já ouviu do Paulo César que ele tem essa associação com o seu irmão?
Pedro Collor – Sim, já ouvi dele.
VEJA – E do presidente?
Pedro Collor – Não, do Fernando, não.
VEJA – O PC é uma pessoa digna de crédito?
Pedro Collor – Se ele foi o tesoureiro de duas campanhas do Fernando, se age com age publicamente, se ele mesmo fala isso, eu só posso concluir que é verdade.
VEJA – Qual foi a última vez em que o senhor e o presidente conversaram sobre as atividades de PC Farias?
Pedro Collor – Em janeiro deste ano. Eu tinha acabado de chegar do exterior e o Fernando me chamou para almoçar. Foi uma conversa afável, embora o Fernando, tenha se mostrado cuidadoso ao mencionar o nome do PC. Pisava em ovos. Eu reclamei da maneira como o PC vinha tentando destruir o nosso jornal em Alagoas, chamando nossos funcionários. Foi uma conversa sobre os problemas com o jornal.
VEJA – O senhor mencionou as denúncias de corrupção sobre PC?
Pedro Collor – Com o Fernando, exatamente, não. Falei “n” vezes com os meus irmãos Leopoldo e Leda, com o Cláudio Vieira e o Marcos Coimbra.
VEJA – Por que nunca falou diretamente com o presidente?
Pedro Collor – Eu sentia que, se eu falasse, ele iria ter uma explosão violentíssima. O Fernando não gosta de escutar críticas.
VEJA – Por que o senhor passou a envolver o presidente Collor nas suas denúncias contra o PC?
Pedro Collor – Eu comecei a receber ameaças de morte dos irmãos do PC através de interlocutores comuns. Cheguei a falar com o Cláudio Vieira sobre tudo o que estava acontecendo. Concluí que o PC não estava agindo por conta própria. É o estilo típico do Fernando usar instrumentos. Ele não ataca de frente.
VEJA – O senhor não acredita que exista uma vontade política real do presidente em investigar as atividades de PC Farias. Afinal, a Receita Federal foi acionada para vasculhar o imposto de renda de PC?
Pedro Collor – Não acredito nisso. Acho que a investigação ia ser empurrada com a barriga e seria apenas retórica.
VEJA – Qual a diferença entre o PC Farias e o Pedro Paulo Leoni Ramos, o PP? Ou entre o PC e o Cláudio Vieira? Ou entre eles e o Claudio Humberto?
Pedro Collor – São os métodos. O PC é o erudito do roubo, da corrupção, da chantagem. Os outros têm uma aspiração, mas também têm um teto. O PC não tem limites.
VEJA – Mas o PC vai até onde?
Pedro Collor – Ele é capaz de matar para extorquir.
VEJA – O senhor apresentou o PC Farias ao Fernando Collor. Quando começou a afastar-se dele? Por quê?
Pedro Collor – Na época eu não o via como hoje. Ele era um sujeito enrolado com negócios, mas apenas isso. Não pagava as contas. Mas era um sujeito jeitoso, muito insinuante, muito simpático. Ele é muito envolvente em negócios. Comecei a me afastar quando o Fernando se tornou governador do Estado.
VEJA – O senhor tem alguma coisa contra o cidadão Fernando Collor, seu irmão?
Pedro Collor – Pessoalmente, o Fernando é um sujeito extremamente talentoso, carismático, magnético e, em alguns momentos, é uma criatura fantástica, cheia de energia. Ao mesmo tempo, é rancoroso, vingativo e adora manipular as pessoas. Ele gosta das pessoas subservientes.
VEJA – O senhor chegou a falar que o seu irmão Fernando tentou se insinuar junto a sua mulher, Tereza. Como foi isso?
Pedro Collor – Não foi exatamente isso. Eu e Tereza tínhamos passado por uma crise conjugal, o que acontece muitas vezes entre casais. Isso foi em 1987, quando Fernando era governador de Alagoas. Nesta ocasião, eu estava no Canadá. Tive a informação de que ele chamou Tereza para conversar no palácio. Conversaram durante um bom tempo. Ali era o lugar onde ele tinha intercurso, com algumas moças. Houve fofocas sobre isso e eu fui informado. Tereza foi depois para Paris e Fernando me chamou para dizer que havia conversado com ela e que eu me preparasse porque ela iria se separar de mim. Disse que eu havia pisado muito na bola e que me preparasse. Em paralelo, eu sabia que ele estava telefonando para ela em Paris, naturalmente utilizando a fragilidade da relação para telefonar e talvez até fazer a cabeça dela. Eu consegui as contas telefônicas do palácio que comprovaram essas ligações.
VEJA – Houve uma tentativa explícita de sedução?
Pedro Collor – Eu acredito que implicitamente ele tentava mapear a situação, diante de uma pessoa fragilizada emocionalmente pela perspectiva de uma ruptura de casamento. Uma voz simpática. um ombro amigo…
VEJA – Tereza, houve uma tentativa de sedução?
Pedro Collor – Não, ele tem esse jeito de falar que é meio fraternal, meio conselheiro.
VEJA – Apesar de sua suspeita de paquera por que continuou freqüentando seu irmão? Por que esteve na posse dele como presidente?
Pedro Collor – Porque não se deve sair arrebentando portas. Tive controle emocional.
VEJA – Pelo que se deduz, o senhor coloca esse episódio como um entre vários através dos quais seu irmão tenta atingi-lo. É isso?
Pedro Collor – O que ele quer é me ver distante do comando administrativo das empresas que temos. Para colocar uma pessoa dele lá dentro, por uma questão política.
VEJA – O senhor nomeou alguém para o governo federal?
Pedro Collor – Nem para a prefeitura de Maceió nem para o governo de Alagoas nem para o governo federal.
VEJA- Por quê?
Pedro Collor – Não é do meu feitio.
VEJA – O que o senhor acha das nomeações do Leopoldo (irmão mais velho de Collor)?
Pedro Collor – Eu não conheço as nomeações do Leopoldo. Não converso sobre esse assunto com ele.
VEJA – O senhor já admitiu que consumiu drogas na juventude. Como foi isso?
Pedro Collor – Quando eu era jovem, era uma coisa que estava na moda, lá por 1968,1969,197O.
VEJA – Em 1968, o senhor estava com 16 anos de idade.
Pedro Collor – Mas é isso.
VEJA – Que tipo de droga?
Pedro Collor – Cocaína.
VEJA – Seu irmão Fernando também?
Pedro Collor – Sim.
VEJA – Foi ele que o induziu a experimentar cocaína?
Pedro Collor – Não é que induziu, nem apresentou nem nada. As pessoas, por serem de faixa etária um pouco acima, naturalmente têm mais acesso a esse tipo de coisa. Foi assim que aconteceu.
VEJA – LSD também tinha?
Pedro Collor – Teve também LSD, umas duas ou três vezes.
VEJA – O senhor largou isso quando?
Pedro Collor – Logo depois. Senti que me fazia mal. Emagreci muito.
VEJA – Quanto ao presidente, o senhor tem notícia de que ele tenha consumido drogas após essa época na Juventude?
Pedro Collor – Não, depois dessa época. não.
VEJA – O senhor já ouviu falar em Allan Mishai Fauru?
Pedro Collor – Conheço desde menino do Rio. Um belo dia, o Fernando já governador, me parece, o Allan o convidou para ser padrinho do casamento dele. Depois ele se mudou para Maceió, anos mais tarde, e montou um boteco. Soube depois que ele tinha ligações com traficantes, vendia, repassava. Mas ele não tem qualquer relação com o Fernando, absolutamente.
VEJA – O senhor não acha que as instituições brasileiras correm algum risco com assuas denúncias?
Pedro Collor – Acho que nossas instituições aguentam o tranco. Se eu começar a entrar muito em considerações a respeito do governo, eu não dou um passo. Tenho de fazer aquilo que acho correto. Que os outros façam as partes deles.
VEJA – O senhor acredita que, com as últimas mudanças no ministério, o PC é menos influente no governo?
Pedro Collor – Sim. Ele perdeu toda ou quase toda a sustentação.

Pedro Collor morreu em 19 de dezembro de 1994, aos 42 anos de idade.

15 novembro 2022

Paulo Francis comenta debate Collor vs Lula em 14/12/1989





2º debate envolvendo Fernando Collor de Melo (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado no dia 14 de dezembro de 1989. O Debate foi transmitido em pool pela Rede Globo, SBT, TV Manchete e Rede Bandeirantes.



Mediadores: Boris Casoy (SBT), Marilia Gabriela (BAND), Eliakim Araujo (Manchete) e Alexandre Garcia (Globo).



Os jornalistas Luis Fernando Emadiato (SBT), Fernando Mitre (Band), Vilas-Bôas Correa (Manchete) e Joelmir Beting (Globo) participaram fazendo perguntas.









Lula lá lá é o fim

Paulo Francis (Folha de S. Paulo: 16.12.1989, sábado)[1]

O texto AQUI

Digam o que disserem as pesquisas de opinião, essa desculpa que a imprensa arranjou para se omitir da sua responsabilidade de analisar e de opinar, Collor deu uma lavagem em Lula no debate de anteontem.
Lula deveria perguntar a um psicanalista o que significa uma pessoa, quando acuada, ficar esfregando uma mão na outra. A resposta não seria lisonjeira.
Lula marcou alguns pontos. Collor é dono de Alagoas. But... who cares? Quem se interessa? Quase vomito quando Collor fala que é “temente de Deus”, ou do hino nacional. O virundu[2], eu, hem?
Mas no que consta foi um nocaute. Collor diz a besteira que remetemos 5% do nosso produto nacional bruto todo ano aos banqueiros. É 1,5% ao ano. A informação está disponível no Itamaraty. Delfim explicou zombeteiramente, seu hábito, como as coisas funcionam, no seu artigo na Folha de quarta-feira[3]. Mas errou dizendo que o saldo comercial e os juros da dívida geram um déficit de 2% do PIB. É apenas 1,5%, diferença importante quando se trata de bilhões de dólares. E nota Delfim que esse déficit deveria ser coberto pelo governo com um superávit igual, cobrado de preços e tarifas dos setores beneficiados com a dívida, que a amortizassem. Mas nem dona Zélia[4] nem seu Mercadante[5] sabem disso. Caímos na jecaria e no amadorismo.
Collor, ao menos, sabe que a causa principal da inflação é a diferença entre receita e gastos do governo, que tem de emitir para pagar sua estroinice em favor dos compadres do Executivo, Legislativo e Judiciário. É Brasília contra o resto do país. Não é à toa que Lula ganha fácil em Brasília e no Rio, cidades parasitárias de burocracia federal, porque acha espantosamente – se cabe a palavra em relação ao seu bestunto – que o governo está bom do tamanho que está.
Li no excelente artigo de Newton Rodrigues, também na quarta-feira[6], demonstrando que Collor e Lula são minoritários, que Weffort[7], um dos crânios de Lula, disse que no Brasil há uma tal estatização que se a democracia avançar teremos uma sociedade socialista. É um asno ou um néscio? Povo nenhum quer ou jamais votará socialista. Votou uma pluralidade comunista na Tchecoslováquia[8], em 1948, e no Chile, com Allende[9]. Mas no primeiro caso a KGB interveio para comunizar, dando um golpe, em que “suicidou” Jan Masaryk, o ministro do Exterior e filho do fundador do Estado, Thomas Masaryk. Hoje, o povo está nas ruas[10]. Conheço pessoalmente o líder, Václav Havel, que não fugiu para Paris, como seu (ex?) amigo Milan Kundera[11], porque, me disse, dedicou sua vida a livrar seu país da praga do socialismo (sic), que embota a alma humana e não funciona economicamente. E, no Chile, sabemos o que aconteceu com Allende. A maioria da sociedade se revoltou contra ele. A maioria. Pinochet matou gente pra diabo, talvez cerca de 30 mil pessoas[12]. Mas hoje o Chile é rico, ostensivamente, sua economia cresce 5% ao ano e sua inflação é de 16% ao ano![13] Clóvis Rossi[14] diz que o Chile está assolado (sic) pelo neoconservadorismo. O fato é que a esquerda que se elegeu sabe que socialismo não dá certo. Até a próxima geração doidivanas que não tenha memória...
Como nós não temos. Quando Allende caiu, o PC italiano, o mais inteligente da Europa, se reuniu e decidiu não tomar o poder pelo voto. Não tomar, exatamente. Porque sabia que no máximo conseguiria uma chama de socialismo. E decidiu fazer o que chamou de “compromisso histórico”, uma aliança com a Democracia Cristã. Em nenhum órgão de imprensa brasileira encontro uma analogia entre a situação italiana e a nossa. Mogadon Suplicy[15] me critica porque chamei Lula de “perigosíssimo”. Claro. Ele vai governar como líder sindical, o mesmo líder sindical, e nada mais, que se revelou no debate a cada soco certeiro de Collor. É afinal o que ele é. Lula vai mexer com o Partido Verde. Não é aquele dos veados. É o que tem dragonas e estrelas no ombro. Estou muito velho para aguentar outra ditadura, porque intelectuais desocupados, como notam Roberto Campos[16] e George Orwell em “Inside the Whale”[17], pessoas razoavelmente instruídas, não se sentem recompensados pela sociedade brasileira, cuja pobreza cultural é igual à material, e querem um emprego rico pago pelo Estado. Ou porque intelectuais ricos querem um substituto para a fé religiosa que perderam e se prostram diante do totalitarismo como a Baal[18]. Eu poderia dar nomes, mas estou cansado de fazer inimigos.
Lula e Mogadon acham que no Leste da Europa estão querendo socialismo com face humana, como o de Dubcek[19], em 1968. Estive lá, na Polônia e Hungria. Como Lula ousa dizer que o Solidariedade[20] quer socialismo? Quer investimentos estrangeiros e o capitalismo democrático, de consumo, e não essa tamanqueira estatal, que sempre acaba falida, como a nossa já está. Weffort, francamente. Joelmir Beting[21] citou os números: 97% do arrecadado é para pagar ao funcionalismo. Vai estourar com qualquer presidente.
Como Lula ousa dizer que é a dívida que traz miséria ao povo? O Brasil não está pagando juros, como não pagou sob a moratória, e a miséria aumentou. Lula está repetindo o que algum comuna irregenerado lhe enfiou na cabeça, que os EUA, o “imperialismo”, são o inimigo número um e que é preciso destruí-los economicamente, tese de Stálin[22], dos anos 1950, que Kruschev[23] já começou a abandonar no início dos anos 1960, e que Gorbachev[24], claro, renegou por completo. Gorbachev quer entrar para o FMI e Lula quer sair. Collor disse certo que Lula não sabe a diferença entre uma fatura e uma duplicata.

O CANDIDATO DOS RICOS

As pesquisas mostram claramente que Collor atinge as classes C, D e E, a pobreza, e Lula, em 45%, as classes A e B. Bem, nos velhos totalitários é banzo religioso, nos jovens a culpa é de papai e mamãe, Freud explica, e, em geral, é a autoflagelação da classe média.
Mas Lula é um pelego estatal. Ganha mais do que eu, que abrilhanto com o suor do meu rosto publicações e televisão. Pelo menos no câmbio oficial. Ele vai ganhar 200 mil cruzados, disse Collor, e não foi contestado. E há, claro, mil mordomias. Não corre o risco de perder o emprego, como nós, da iniciativa privada. É o sonho de todo medíocre, disfarçado em nacionalismo, que é mania de grandeza e complexo de inferioridade, misturados.

SUGESTÕES CONSTRUTIVAS

Que ninguém reclame que não ajudei o novo governo, se for de Lula, como dizem. Ele propõe, por exemplo, estreitar relações com a África negra e cortar relações com a África do Sul. Esta tem muito dinheiro e paga suas contas. É a segunda produtora de ouro do mundo. Maltrata os seus negros, que, falando nisso, cantam e dançam quando protestam, ao contrário dos que vêm à Folha pedir minha cabeça.
Apesar disso, há 1 milhão de negros na África negra trabalhando ilegalmente na África do Sul, porque ganham mais do que nos seus respectivos países. A África negra, rica de recursos, está falida, roubada por tiranos pseudopopulistas. Bokassa[25] e Amin[26] são a regra e não a exceção.
Sabe-se, não pela ONU, que é cúmplice, que esses países estão em grande parte revertendo ao canibalismo. Sabe-se porque está nos relatórios confidenciais da comissão conjunta de informações da Câmara e do Senado dos EUA.
Logo, Lula nada tem a comprar ou vender à África negra. Em Angola, falta sabão desde 1988... Sugestão: que Lula exporte burgueses gorduchinhos e que sejam contra sua república sindicalista. Variariam o menu dos negros. É possível imaginar: “coxas à carioca”, “peito de paulista” ou “espeto de nordestino”. Este último ficaria a cargo do presidente do PT no Paraná[27].
Lula, presidente, vai criar o seu “DIP”, o tal de “Controle Social das Comunicações de Massa”. Censura. Tenho um candidato para dirigir esse órgão. Dou um videoteipe do debate para quem adivinhar quem é.
Lula vai governar com um Politburo à margem do Ministério e do Legislativo. Imagino que frei Boff[28] faça parte. Li, finalmente, parte de um artigo dele no Jornal do Brasil. É um comunista amador. Como disse Lênin[29] de Bukharin[30], não manja picas da dialética. Mas descobri que João Paulo II[31] é um liberal. Fosse eu papa, já teria excomungado esse cara na primeira.
Villas-Bôas Corrêa lavou minha alma no debate. Disse o que qualquer jornalista decente sente em se prestando a levantar a bola dessa dupla. Jecaria e amadorismo. É nossa sina.
16.12.1989




[1] Artigo disponível no livro “Paulo Francis: Diário da Corte”, Crônicas do maior polemista da imprensa brasileira. São Paulo, Três Estrelas: 2012. Páginas 340-344.
[2] Virundum ou Mondegreen em inglês, é uma percepção imprecisa de uma frase, que é trocado por uma homofonia. É mais comumente é aplicada a um verso de um poema ou uma letra de canção. Em português, o termo é originário de uma má interpretação do Hino Nacional Brasileiro cuja primeira estrofe é "Ouviram do Ipiranga". Alguns exemplos de virunduns: na música Written In The Stars, é possível ouvir Tinie Tempah dizendo "sou f*da" aos 3:06. Na música Balada de Gusttavo Lima; no trecho em que ele canta "Eu já lavei o meu carro regulei o som, já tá tudo preparado vem que o reggae é bom" alguns entendem que ele diz "vem que o brega é bom" e outros "vem comer minha vó". E por último, na música da Rihanna What's My Name no trecho que ela diz "I need a boy to take it over" muitos entendem "to take piromba". (Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Virundum Acesso em 05/12/2014 11:29).
[3] Folha de S. Paulo, A-2 – Opinião – Quarta-feira, 13 de dezembro de 1989, “Ignorância e sinceridade”, por Antonio Delfim Netto. Leia aqui, aqui ou download aqui.
[4] Zélia Cardoso de Mello, economista formada pela USP, prima de Fernando Collor de Mello, responsável pelo seu programa econômico, que viera a ser sua Ministra da Fazenda.  Veja uma entrevista sua em 17/09/1990 no Programa Roda Viva, da TV Cultura, AQUI.
[5] Aloizio Mercadante Oliva, economista formado pela USP, um dos fundadores do PT, responsável pelo programa econômico de Lula. Veja uma entrevista sua em 04/12/1989 no Programa Roda Viva, da TV Cultura, AQUI.
[6] Folha de S. Paulo, A-3 – Opinião – Quarta-feira, 13 de dezembro de 1989, “A maioria derrotada busca seu mal menor”, por Newton Rodrigues. Leia aqui ou download aqui. 
[7] Francisco Correia Weffort, cientista político. Membro do PT até 1994, quando deixa o partido para assumir o Ministério da Cultura no 1º Governo Fernando Henrique Cardoso.
[8] País que existiu entre 1918 e 1992 (com exceção do período da Segunda Guerra Mundial, ver Acordo de Munique), que teve como primeiro presidente Thomas Masaryk.
[9] Salvador Allende Gossens, médico e político marxista chileno.  Fundador do Partido Socialista, governou seu país de 1970 a 1973, quando foi deposto por um golpe de estado liderado por seu chefe das Forças Armadas, Augusto Pinochet (Dados do Wikipédia).
[10] A chamada Revolução de Veludo (17 de Novembro a 29 de dezembro de 1989), revolução não agressiva na antiga Tchecoslováquia que testemunhou a deposição do governo comunista daquele país. Esta é vista como uma das mais importantes revoluções de 1989. Em 17 de novembro de 1989, a polícia reprimiu uma manifestação estudantil em Praga. Esse evento desencadeou uma série de manifestações populares de 19 de novembro até o fim de dezembro. Até 20 de novembro, o número de manifestantes pacíficos em Praga passou de 200 mil a meio milhão de pessoas. Um movimento geral envolvendo todos os cidadãos da Tchecoslováquia foi feito em 27 de novembro. Com o colapso dos outros governos comunistas e o aumento dos protestos de rua, o Partido Comunista da Tchecoslováquia anunciou no dia 28 de novembro que iria acabar com o poder e desmantelar o Estado de partido único. Uma espécie de cerca, com arames farpados e outras obstruções, foi removida da fronteira da Alemanha Oriental com a Áustria no começo de dezembro. No dia 10 de dezembro, o presidente Gustáv Husák apresentou o primeiro grande governo não-comunista na Tchecoslováquia desde 1948, e renunciou. Alexander Dubcek foi eleito presidente do parlamento federal em 28 de dezembro e Václav Havel, escritor conhecido que estava à frente da revolução, tornou-se presidente da Tchecoslováquia em 29 de dezembro de 1989. Em junho de 1990, a Tchecoslováquia teve sua primeira eleição democrática desde 1946 (Dados da Wikipédia).
[11] Milan Kundera, nascido em 1º de abril de 1929, é um escritor tcheco, autor de, entre outros, “O Livro do Riso e do Esquecimento” e “A Insustentável Leveza do Ser”.
[12] Dados de 2011 dão conta que foram mortas 40.280 pessoas, sendo 3.225 desaparecidas dadas como mortas. Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/08/novo-relatorio-sobe-para-mais-de-40000-as-vitimas-da-ditadura-de-pinochet.html Acesso em 05/12/2014 13:32.
[13] Em 1989, a inflação atingiu a cifra de 1 973%. Veja um estudo a respeito, AQUI.
[14] Jornalista. Atualmente (05/12/2014) é colunista da Folha de S. Paulo.
[15] Eduardo Matarazzo Suplicy, político paulista. Paulo Francis “chamava Eduardo Suplicy de ‘mogadon’. (medicamento contra a insônia, que deixa quem o usa,  meio abobalhado)”, explicação para o apelido encontrado no Blog da Adriana Vandoni AQUI.
[16] Roberto de Oliveira Campos, economista, diplomata e político sul-mato-grossense. Faleceu em 09.10.2001, no Rio de Janeiro.
[17] Artigo de Orwell publicado em Inside the Whale and Other Essays (1940); no Brasil, Dentro da baleia e outros ensaios (São Paulo: Companhia das Letras, 2005). NOTA ENCONTRADA NO LIVRO.
[18] Antigo deus fenício. Há 114 ocorrências desse deus na Bíblia Sagrada, apenas uma vez no Novo Testamento (Romanos 11.4), o que indica que seu culto foi antagônico ao culto a Javé.
[19] Alexander Dubček, chefe de estado da antiga Tchecolosváquia e líder do partido comunista daquele país.
[20] Solidarność, federação sindical polonesa, fundada em 31 de agosto de 1980, liderada por Lech Wałęsa.
[21] Joelmir José Beting, jornalista e sociólogo paulista. Faleceu em 29 de novembro de 2012.
[22] Josef Vissarionovitch Stalin foi o ditador russo que comandou a União Soviética até sua morte em 1953.
[23] Nikita Serguêievitch Khrushchov, sucessor de Josef Stalin.
[24] Mikhail Sergueievitch Gorbachev, último líder da União Soviética.
[25] Jean-Bédel Bokassa, presidente da República Centro-Africana de 1 de janeiro de 1966 até 4 de dezembro de 1976 e imperador Centro-Africano desde essa data até à sua deposição em 20 de setembro de 1979.
[26] Idi Amin Dada, ditador militar e terceiro presidente de Uganda entre 1971 e 1979.
[27] Ele se referia a Gil Carvalho (1986-1989) ou a Claus Germer (1989-1990), presidentes estaduais do PT no Paraná.
[28] Leonardo Boff, pseudônimo de Genézio Darci Boff, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação.
[29] Vladimir Ilitch Lenin, revolucionário e chefe de estado russo.
[30] Nikolai Ivanovich Bukharin, revolucionário e intelectual bolchevique. Leia “As confissões de Bukharin” AQUI.
[31] Karol Józef Wojtyła, o Papa João Paulo II, foi líder máximo (papa) da igreja católica romana, de 16/10/1978 até a sua morte em 2 de abril de 2005.
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