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28 novembro 2023

Aceitem que ganharam (Alexandre Soares Silva, para a Crusoé, 23/11/2023)

 

O movimento feminista e o movimento negro venceram faz tempo, mas ainda se fazem de derrotados. Alexandre Soares Silva para a Crusoé.



A maior prova de caráter é uma pessoa saber reconhecer a sua vitória.

Mas isso ninguém quer. Ninguém quer dizer que venceu. Em política? Fora das eleições? Ninguém. Em política, em qualquer contexto exceto eleições, dizer “Que é isso, a vitória é sua, a vitória é sua” é uma canalhice, uma canalhice que todos fazem o tempo todo, porque todo mundo quer se fazer de derrotado.

G. K. Chesterton, poeta, romancista, contista e ensaísta, já havia notado que em política existe um velho truque retórico: por mais firme e mais popular que seja a sua posição, por maior que seja a multidão que o apoia, o truque é discursar como se fosse um herói solitário acuado contra um muro, sem amigos e sem apoio.

“Todos os poderes do mundo estão contra mim! Empresários contra mim! Jornais contra mim! Mas não me calarei!”, diz o representante do grupo apoiado por todos os empresários e jornais.

Bom, estou falando do movimento feminista e do movimento negro, embora seja uma regra universal. Mas cá entre nós: é bastante claro para quem tenha o cérebro de uma taturana que eles venceram faz tempo, muito tempo; e venceram com uma grande margem; e eu acharia gracioso da parte deles se eles reconhecessem isso, mas infelizmente é óbvio que jamais vão dizer “ok, já temos tudo que queríamos e podemos parar por aqui” — porque enquanto continuarem reclamando vão continuar ganhando uns prêmios extras por sobre todas as vitórias que tiveram.

E além disso é tão gostoso, como acho que Chesterton disse (meus livros estão encaixotados devido a uma mudança), fingir que está acuado contra um muro, que todos estão contra você, que o mundo é estruturalmente contra você — mesmo quando todas as agências governamentais e todas as grandes corporações estão não só a seu favor, mas maniacamente a seu favor.

Vejam algumas notícias da semana.

Na Folha: “USP muda lista de livros do vestibular e terá obras só de mulheres pela 1ª vez na história.”

Também na Folha: “Exame para juízes terá nota de corte diferenciada para negros.” (Uma nota de corte menor para negros, caso você não consiga adivinhar se era maior ou menor.)

Da Bloomberg de um mês atrás: “As corporações dos EUA prometeram empregar muito mais negros. E foi o que fizeram. Um ano depois dos protestos do Black Lives Matter, as grandes empresas criaram mais 300.000 vagas. 94% delas foram para pessoas de cor.”

Só sabemos de casos de brancos que querem se passar por negros, e não o contrário. Alguém se lembra de alguma notícia de jornal ilustrando o contrário? Todos conhecemos sujeitos que nem considerávamos negros uns anos atrás e que de repente viraram super-negros, só falam sobre o quanto são negros, o quanto sofreram racismo a vida inteira etc. Fazem isso porque querem sofrer a perseguição que os negros sofrem no Brasil de 2023? Não, né?

Mas não vou fazer esse argumento. Seria um argumento irrespondível, se eu o fizesse. Mas não vou fazer pois tenho um certo apreço por não ser ostracizado pela sociedade humana inteira e ter que ir viver nas brenhas das selvas, entre pacas e jaguatiricas.

Se você visitasse um planeta com duas formas de vida, A e B, e nesse planeta eles fizessem passeatas para celebrar a forma A, e tivessem o mês da forma A, e festivais para apreciar a arte produzida pela forma A, e não se pudesse nesse planeta fazer o mesmo com a forma B, qual forma de vida você diria que domina esse planeta?

Quando falo na vitória das feministas e do movimento negro você tem essa reação de incredulidade porque ainda não viu isso ilustrado em filmes, romances e histórias em quadrinhos. Nossa imaginação não absorveu esses fatos óbvios da vitória completa das feministas e do movimento negro, e não absorveu porque não foi alimentada com eles através de histórias.

Pelo contrário, ainda estamos acostumados com as histórias no sentido contrário, histórias passadas nos anos 50 principalmente, quando o machismo e o racismo contra negros estavam começando a ser combatidos e ainda havia exemplos numerosos de racistas de verdade e machistas de verdade por aí.

Nossa imaginação ainda está sendo forçada a se alimentar com as condições sociais prevalecentes nos anos 50 como se elas fossem as atuais. E por que isso acontece? Porque quem alimenta a nossa imaginação através de filmes, romances e histórias em quadrinhos não passa no teste de caráter com que comecei este texto: o de admitir que venceu faz tempo.

Agora estamos num momento esquisito de transição. Vamos ainda viver um tempo vendo filmes esquizofrênicos em que mulheres são oprimidas e empoderadas ao mesmo tempo, e negros são oprimidos e empoderados ao mesmo tempo. Isso é o que em 2060 as pessoas vão achar de mais esquisito ao ver os filmes de hoje.

Admitam logo de uma vez. Confessem que conseguiram tudo que queriam. Qual a vergonha de terem vencido? Sejam honestos e tenham a decência de fazer umas dancinhas de vitória na cara da sociedade.




01 maio 2022

Me deixem falar uma coisa

 

Eu também não confio em bilionários. Mas confio mais em bilionários que em milionários. A crônica de Alexandre Soares Silva para a Crusoé via OTambosi:

“Não confio em bilionários”, estão dizendo todos, agora que Elon Musk comprou o Twitter.

Bom, eu também não confio em bilionários. Mas confio mais em bilionários que em milionários, e confio mais em milionários que na classe média alta, e mais na classe média alta que na média, e mais na média que na baixa, e mais na baixa que em mendigos, e mais em mendigos que em crackudos, e mais em crackudos que em presidiários queimando colchões, decapitando colegas e contrabandeando maços de cigarros enfiados nos seus derrières.

Não é que eu confie em quem tem dinheiro. É só que eu desconfio mais de quem não tem. Como vou confiar que alguém cuide dos meus interesses, se ele é tão ruim em cuidar dos seus? Qual a chance que isso aconteça? Mas ainda confio mais em crackudos e presidiários que em políticos, estudantes de todas as espécies, e professores da USP. Achei importante frisar isso, para que não achem que sou maluco.

Suponho que sou um defensor da liberdade de expressão não tanto por motivos racionais, que existem, e que posso enumerar se você pedir e se nós dois conseguirmos ficar acordados enquanto enumero, mas porque instintivamente associo a falta de liberdade de expressão com o fato de que não consigo dormir com as pernas presas pelo lençol. Assim que estou sem lençol, nem penso em mexer as pernas, tudo está bem, e durmo tranquilo; mas assim que me meto, por exemplo, nos lençois opressivamente justos de um hotel (por que sempre fazem assim em hotéis?), preciso mexer as pernas compulsivamente.

É assim que me sinto quando falam que não posso dizer isso ou aquilo ou vou ter o meu perfil apagado. Eu nem queria dizer aquilo, não penso nada daquilo, acho horrível aquilo (vamos fingir), mas agora preciso dizer aquilo. Dá até uma angústia se não disser, e acabo enchendo meus amigos com mensagens moralmente horrorosas de WhatsApp só porque não me deixaram falar a mesma coisa no Twitter. É uma espécie de Tourette das opiniões. Suponho que o número de pessoas sofrendo do mesmo mal deve estar crescendo pelo mundo inteiro, à medida em que a liberdade de expressão diminui.

“Não há nenhuma exceção legítima ao direito da livre expressão”, escreveu o economista libertário Walter Block, em um livro de 1976, chamado Defendendo o Indefensável. É um livro muito divertido em que ele defende o direito de chantagistas, proxenetas, publicitários e pessoas desse tipo. Tem também um capítulo em que ele defende o direito das pessoas gritarem fogo num cinema lotado. Eu aprecio a coragem (o que os judeus chamam de “chutzpah”) necessária pra escrever essas coisas. Mas nenhum dos seus argumentos me convence muito, e ainda prefiro o meu argumento “mas-eu-fico-aflito-quando-não-posso-dizer-uma-coisa”.

Há, claro, o argumento do filósofo inglês John Stuart Mill. Vou explicar o argumento, tentando ser breve e bem didático, e fingindo que li John Stuart Mill. O argumento é que se as coisas boas que existem na sociedade (deve haver algumas) não forem submetidas ao ataque contínuo das ideias ruins que querem destruí-las, vamos aos poucos esquecer por que essas coisas são boas, e em uma ou duas gerações seremos completamente incapazes de defendê-las de qualquer ataque retórico. Acho o argumento bem razoável.

Ainda outro argumento é o de Jordan Peterson, que a liberdade de expressão é análoga à terapia freudiana: aquilo que reprimimos cresce e nos infecta; aquilo que expressamos, dominamos e podemos vir a abandonar. Razoável também.

De qualquer forma entendo um pouco o pânico dos progressistas com a notícia da compra do Twitter por Elon Musk. O Twitter para eles sempre foi um clube onde eles podiam se juntar com pessoas parecidas com eles. Conservadores podiam entrar também, mas, assim que incomodavam demais, um progressista fazia um gesto discreto para um segurança e o conservador era levado para um quartinho nos fundos, onde era devidamente espancado. Passado esse contato breve e sórdido com um conservador, o progressista podia relaxar com os seus amigos em volta da piscina do clube. Devia ser muito aconchegante. Quem não quer um clube feito só de pessoas parecidas conosco?

Gosto de fingir que gosto de variedade de opinões. Já devo ter contado essa lorota até aqui na Crusoé. Se menti, menti até para mim, porque é gostoso pensar em mim mesmo como alguém civilizado que gosta de debater com os outros enquanto bebe uma taça de vinho do porto e oferece um charuto. Mas a verdade é que, embora ache que o mundo é melhor com muitas opiniões diferentes, prefiro que as opiniões diferentes das minhas fiquem longe de mim.

Como os progressistas, gosto de viver numa bolha. Mas sempre podemos viver em bolhas, já que escolhemos quem seguimos na internet. O que incomoda os progressistas não é tanto que não possam viver numa bolha, porque podem. É a existência de outras bolhas ao lado da bolha deles. É o fato de que nessas outras bolhas as pessoas estão falando uns negócios lá. E esse é um incômodo do qual não compartilho e do qual me parece monstruoso compartilhar.



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