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20 dezembro 2024

Por que Cristo nasceu em 25 de Dezembro e Por que Isso Importa

INTRODUÇÃO

A Igreja Católica, desde pelo menos o século II, afirmou que Cristo nasceu em 25 de dezembro. No entanto, é comumente alegado que o nosso Senhor Jesus Cristo não nasceu neste dia e que esta data foi importada do Paganismo.
Neste presente texto iremos demonstrar como Cristo nasceu em 25 Dezembro e refutar as principais acusações. Por uma questão de simplicidade, vamos colocar apenas as objeções mais usuais para a data e responder cada uma delas.

COMO DESCOBRIR A DATA DO ANIVERSÁRIO DE CRISTO?

Agora vamos estabelecer o aniversário de Cristo a partir da Escritura Sagrada em duas etapas. O primeiro passo é usar a Escritura para determinar o aniversário de São João Batista. O segundo passo é usar o aniversário João Batista como a chave para encontrar o aniversário de Cristo.
Podemos descobrir que Cristo nasceu no final de Dezembro, observando primeiro a época do ano em que Lucas descreve Zacarias no templo. Isso nos fornece a data da concepção aproximada de João Batista. A partir daí podemos seguir a cronologia que São Lucas dá, e que nos leva ao final de Dezembro.
Lucas relata que Zacarias servia na “classe de Abdias" (Lc 1, 5), que os registros bíblicos mencionam como a oitava classe entre as vinte e quatro classes sacerdotais (Ne 12, 17). Cada classe de sacerdotes servia uma semana no templo duas vezes por ano. A classe de Abdias servia durante a oitava semana e a trigésima segunda semana no ciclo anual. No entanto, quando é que o ciclo de classes começa?
Josef Heinrich Friedlieb convincentemente estabeleceu que a primeira classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a destruição de Jerusalém no nono dia do mês judaico de Av.[1] Assim, a classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a segunda semana de Av. Consequentemente, a classe sacerdotal de Abdias (A classe de Zacarias) estava, sem dúvida, servindo durante a segunda semana do mês judaico de Tishrei – a própria semana do Dia da Expiação, no décimo dia de Tishri. Em nosso calendário, o Dia da Expiação cai em qualquer dia entre 22 de Setembro e 8 de outubro.
Zacarias e Isabel conceberam João Batista imediatamente após Zacarias servir na sua classe. Isto implica que São João Batista teria sido concebido por volta do final de setembro, colocando assim o nascimento de João no final de junho do ano posterior, o que confirma a celebração da Natividade de São João Batista em 24 de junho. Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria em Lucas 1, 36, disse que Isabel já estava no sexto mês de gravidez, logo se João Batista foi concebido em setembro, seis meses depois estariam em Março, logo Maria ficou grávida de Jesus em Março, em uma gravidez normal, Março é mês 3, mais 9 meses de gravidez, vamos cair irremediavelmente em Dezembro.
O protoevangelho de Tiago do segundo século também confirma a concepção de João Batista no final de setembro uma vez que a obra descreve Zacarias como Sumo Sacerdote e entrando no Santo dos Santos, não apenas no lugar santo do altar do incenso. Este é um erro fatual porque Zacarias não era o sumo sacerdote, mas um dos principais sacerdotes. Ainda assim, o protoevangelho refere se a Zacarias como um sumo sacerdote, e este o associa com o Dia da Expiação, que desembarca no décimo dia do mês hebreu de Tishrei (aproximadamente o final do nosso setembro). Imediatamente após esta entrada ao templo e a mensagem do Arcanjo Gabriel, Zacarias e Isabel conceberam João Batista. Tendo quarenta semanas (nove meses) de gestação, isso coloca o nascimento de João Batista no final de junho e, mais uma vez confirmando a data Católica para o Nascimento de João Batista em 24 de junho.
O resto da datação é bastante simples. Vamos recapitular: Lemos que, logo após a Imaculada Virgem Maria conceber Cristo, ela foi visitar sua prima Isabel que estava grávida de seis meses de João Batista. Isso significa que João Batista era seis meses mais velho que o nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 1, 24-27, 36). Se você adicionar seis meses a 24 de junho, quando João nasceu, você tem 24-25 Dezembro como o nascimento de Cristo. Então, se você subtrair nove meses a partir de 25 de Dezembro que você tem a Anunciação em 25 de Março. Todas as datas coincidem perfeitamente. Assim, pois, se João Batista foi concebido logo após o Dia judaico da Expiação, em seguida, as datas católicas tradicionais são essencialmente corretas. O nascimento de Cristo seria por volta ou em 25 de dezembro.
Além disso, os testemunhos dos antigos revelam que os Padres da Igreja alegavam 25 de Dezembro como o aniversário de Cristo antes da conversão de Constantino e do Império Romano. O registro mais antigo desta situação é que o Papa São Telesforo (reinou 126- 137 d.C) que instituiu a tradição da Missa do Galo na véspera de Natal. Embora o Liber Pontificalis não nos dá a data do Natal, ele assume que o Papa já estava comemorando o Natal e que uma missa à meia-noite era realizada. Durante este tempo, também lemos as seguintes palavras de Teófilo (115-181 d.C), bispo católico de Cesaréia na Palestina:
Devemos comemorar o aniversário de Nosso Senhor, a cada 25 de dezembro isso deve acontecer.” (Magdeburgenses, Cent. 2. c. 6. Hospinian, De origine Festorum Chirstianorum.)
Pouco tempo depois, no século II, Santo Hipólito (170-240 AD) escreveu em uma passagem, que o nascimento de Cristo ocorreu em 25 de dezembro:
O Primeiro Advento de nosso Senhor na carne ocorreu quando Ele nasceu em Belém, era 25 de dezembro, uma quarta-feira, enquanto Augustus estava em seu quadragésimo segundo ano, que é de cinco mil e quinhentos anos desde Adão. Ele morreu no trigésimo terceiro ano, 25 de março, sexta-feira, no décimo oitavo ano de Tibério César, enquanto Rufus e Roubellion eram cônsules.” (Comentário sobre Daniel 4, 23) [2]
Observe também, na citação acima, o significado especial de 25 de Março, que marca a morte de Cristo (25 de março correspondia ao mês hebraico de Nisan 14 - a data tradicional da crucificação)  Cristo, como o homem perfeito, acreditava-se ter sido concebido e morrido no mesmo dia de 25 de março  em seu Chronicon, Santo Hipólito afirma que a Terra foi criada em 25 de março de 5500 a.C. Assim, 25 de março foi identificado pelos Padres da Igreja, como a data de criação do universo, como a data da Anunciação e Encarnação de Cristo, e também como a data da morte de Cristo, nosso Salvador.
Na Igreja síria, 25 de março ou a Festa da Anunciação era vista como uma das festas mais importantes de todo o ano. É indicado o dia em que Deus assumiu a sua residência no seio da Virgem. Na verdade, se a Anunciação e Sexta-Feira Santa entram em conflito no calendário, a Anunciação superou isso, tão importante foi o dia na tradição síria. Desnecessário será dizer que a Igreja síria preservou algumas das mais antigas tradições cristãs e tinha uma devoção doce e profunda a Maria e a Encarnação de Cristo.
25 de março foi consagrado na tradição cristã primitiva, e a partir desta data, é fácil discernir a data do nascimento de Cristo. 25 de Março (Cristo concebido pelo Espírito Santo), mais nove meses nos leva a 25 de dezembro (o nascimento de Cristo em Belém).
Santo Agostinho confirma esta tradição de 25 março como a concepção messiânica e 25 de dezembro como o Seu nascimento:
É crido que ele foi concebido no dia 25 de março, dia em que também ele sofreu; de modo que o seio da Virgem, no qual ele foi concebido, onde ninguém dos mortais foi gerado, corresponde à nova sepultura na qual ele foi enterrado, na qual ninguém havia sido posto (Jo 19,41), nem antes nem depois dele. Mas ele nasceu, segundo a tradição, em 25 de dezembro.” (Sobre a Trindade Livro 4,  Capítulo 5)
Por volta do ano 400 d.C, Santo Agostinho também observou como os donatistas cismáticos comemoravam 25 de dezembro como o nascimento de Cristo, mas que os cismáticos se recusavam a celebrar a Epifania em 6 de janeiro, uma vez que eles consideravam Epifania como uma nova festa sem uma base na Tradição Apostólica. O cisma donatista originou-se em 311 d.C o que indica que a Igreja Latina celebrava o Natal em 25 de dezembro. Qualquer que seja o caso, a celebração litúrgica do nascimento de Cristo foi comemorada em Roma em 25 de dezembro muito antes de o cristianismo se tornar legalizado e muito antes de qualquer registro mais antigo de uma festa pagã para o aniversário do Sol Invicto. Por estas razões, é razoável e com razão, que Cristo nasceu em 25 de dezembro no ano 1 a.C e que ele morreu e ressuscitou em Março do ano 33 d.C.

REFUTANDO OBJEÇÕES

Objeção I:
25 de dezembro foi escolhido para substituir o festival pagão romano de Saturnália. Saturnália era uma festa popular do inverno e assim a Igreja Católica prudentemente substituiu o Natal em seu lugar.

Reposta a Objeção I:
Na Saturnalia comemorava-se o solstício de inverno. No entanto, o solstício de inverno cai em 22 de dezembro. É verdade que as celebrações da Saturnalia começavam mais cedo por volta de 17 de dezembro e era prorrogado até 23 de dezembro. Ainda assim, as datas não coincidem.

Objeção II:
25 de dezembro foi escolhido para substituir o feriado pagão romano Natalis Solis Invicti que significa “Aniversário do Sol Invícto.”

Resposta à Objeção II:
Vamos examinar primeiro o culto do Sol Invicto. O imperador Aureliano introduziu o culto do Sol Invictus ou Sol Invicto a Roma em 274 d.C. Aureliano encontrou tração política com esse culto, porque o seu próprio nome de Aureliano deriva da palavra latina aurora denotando “nascer do sol”. Moedas revelam que chamava a si mesmo imperador Aureliano o Pontifex Solis ou Pontífice do Sol. Assim, Aureliano simplesmente acomodou um culto solar genérico e identificou o seu nome com ele no final do terceiro século depois de Cristo.
Mais importante ainda, não há nenhum registro histórico para uma celebração do Natalis Sol Invictus em 25 de dezembro antes de 354 depois de Cristo. Dentro de um manuscrito iluminado do ano de 354 d.C, há uma entrada de 25 de dezembro de leitura "N INVICTI CM XXX." Aqui N significa “natividade”. Invicti significa “do Invicto”. CM significa “circenses missus” ou “jogos ordenados.” o XXX numeral romano é igual a trinta. Assim, a inscrição significa que trinta jogos foram encomendados para a natividade do Invicto para 25 de dezembro. Note-se que a palavra “sol” não está presente. Além disso, o mesmo codex também lista “Christus natus in Betleem Iudeae” no dia de 25 de dezembro. A frase é traduzida como nascimento de Cristo em Belém da Judéia.”[3]
A data de 25 de dezembro só se tornou o “Aniversário do Sol Invicto” sob o imperador Juliano o Apóstata. Juliano, o Apóstata que tinha sido um cristão, mas que havia apostatado e retornou ao paganismo romano. A história revela que ele foi um ex-imperador cristão odioso que erigiu um feriado pagão em 25 de dezembro. Pense nisso por um momento. O que ele estava tentando substituir? Estes fatos históricos revelam que o Sol Invicto não era provavelmente uma divindade popular no Império Romano. O povo romano não precisava ser tirado de um chamado “feriado antigo”. Além disso, a tradição de uma celebração em 25 de dezembro não encontra lugar no calendário romano até depois da cristianização de Roma. O feriado do “Aniversário do Sol Invicto” era pouco tradicional e dificilmente popular. Saturnalia (mencionado acima) foi muito mais popular, tradicional e divertido. Parece, antes, que Juliano, o Apóstata tinha tentado introduzir um feriado pagão, a fim de substituir o cristão! Ou seja, ao invés do cristianismo tentar copiar uma festa pagã, foram os pagãos que tentaram substituir uma festa Cristã.

Objeção 3:
Cristo não poderia ter nascido em dezembro já que Lucas descreve pastores com seus rebanhos nas áreas vizinhas de Belém. Pastores não arrebanham durante o inverno. Assim, Cristo não nasceu no inverno.

Resposta à objeção III:
Quem faz esta objeção acha que a palestina tem um inverno tal qual a Europa. Vale lembrar que a Palestina não é a Inglaterra, Rússia, ou Alasca. Belém está situada na latitude de 31.7. Dallas, no Texas tem latitude de 32,8, e ainda é bastante confortável do lado de fora em Dezembro. Como o grande Cornelio em uma Lapide observa durante sua vida, ainda se podia ver pastores e ovelhas nos campos da Itália durante o final de dezembro, e a Itália tem maior latitude que Belém.
Podemos ver no site do accuweather, um dos mais respeitados sites de metereologia do mundo, que a temperatura média de Jerusalém no mês de Dezembro varia entre 10 e 20 ºC em todo o mês de Dezembro. Claro que estamos falando de 2015 anos de diferença, porém por projeção e sabendo que não houve uma drástica mudança climática em Jerusalém neste tempo, podemos afirmar que esta era a temperatura média que Maria e José enfrentavam quando Jesus nasceu. Em outros locais com temperatura menor que esta, várias atividades são feitas normalmente, nada impediria pastores estarem com seus rebanhos no campo, mesmo levando em conta a temperatura mínima e mesmo que houvesse neve.


Ovelhas durante a neve no campo

A Bíblia confirma plenamente a capacidade de pastores estarem nos campos, vigiando seus rebanhos em dezembro. Refere-se especificamente que Jacó vigiava rebanhos de Labão pela geada do inverno à noite (Gn 31, 40). As fotos abaixo foram tiradas em Belém no Natal de 1890 e 2006. Como pode ser visto, o clima é perfeitamente adequado para estar do lado de fora. Por isso, não há simplesmente nenhuma base para essa objeção.

Natal em Belém em 1890 


Natal em Belém em 2006



NOTAS

[1] Josef Heinrich Friedlieb’s Leben J. Christi des Erlösers. Münster, 1887, p. 312.
[2] O  “25 de Dezembro” não se encontra na NFPF tradução do protestante Philip Schaff, sobre isso ler aqui: http://www.roger-pearse.com/weblog/2010/01/12/the-text-tradition-of-hippolytus-commentary-on-daniel/
[3] The Chronography of AD 354. Part 12: Commemorations of the Martyrs. MGH Chronica Minora I (1892), pp. 71-2.

PARA CITAR

Apologistas Católicos. Por que Cristo Nasceu em 25 de Dezembro e Por que isso importa. Disponível em <http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/natal/836-por-que-cristo-nasceu-em-25-de-dezembro-e-por-que-isso-importa>. Desde 01/12/2015. 

07 dezembro 2018

A TRÉGUA DE NATAL - DEZEMBRO DE 1914


O soldado raso Graham Williams, da Brigada de Fuzileiros de Londres, descreve o início da trégua informal no setor da frente junto a Ploegsteert, Bélgica, na noite de 24 de dezembro de 1914:

De repente, luzes começaram a aparecer ao longo da balaustrada alemã, e estava claro que eram árvores de Natal improvisadas, adornadas com velas acesas, que ardiam constantes no ar silencioso e gélido. Outras sentinelas tinham, é claro, visto a mesma coisa, e rapidamente acordaram as que estavam de guarda, adormecidas nos abrigos [...].
Então nossos oponentes começaram a cantar "Stille Nacht, Heilige Nacht". [Noite Feliz] [...]. Eles terminaram sua cantiga e nós achamos que devíamos responder de alguma maneira, por isso cantamos "The First Nowell" [O Primeiro Natal], e assim que terminamos todos eles começaram a aplaudir; e então eles iniciaram outra de suas favoritas, "O Tannenbaum". E assim foi. Primeiro os alemães cantavam um de seus hinos de Natal e depois nós cantávamos um dos nossos, até que começamos a entoar "O Come All Ye Faithful" [Oh, venham todos os fiéis] e os alemães imediatamente se juntaram a nós, cantando o mesmo hino, mas com a letra em latim "Adeste Fidelis". E eu pensei: isto é mesmo uma coisa extraordinária  duas nações cantando o mesmo hino no meio de uma guerra. 


O soldado raso François Guilhem, do 296º Regimento de Infantaria, parte do 8º Exército francês em Flandres, descreve a troca de cânticos de Natal em seu setor da frente:



Jamais vou me esquecer desta noite de Natal: sob o luar claro como o dia, e com a neve tão dura que dava até para quebrar pedras, estávamos subindo por volta de dez da noite, carregando lenha para as trincheiras. Vocês podem imaginar nosso espanto quando ouvimos os Chucrutes cantando hinos em suas trincheiras e os franceses nas deles; então os Chucrutes cantaram seu hino nacional e aplaudiram e deram vivas. Os franceses responderam com o "Chant du départ" [Canção da partida]. Toda essa cantoria por parte de milhares de homens no meio de uma zona rural foi verdadeiramente mágica.



Um soldado alemão, Bernhard Lehnert, servindo o 4º Exército em Flandres ocidental, descreve uma troca de canções no dia de Natal com os soldados franceses da trincheira defronte:



No dia de Natal de 1914, as sentinelas na trincheira cantaram "Stille Nacht, Heilige Nacht". Assim que entoaram as primeiras palavras, os franceses começaram a disparar furiosamente, achando que era o início de um ataque, embora esse hino não fosse marcial. Pouco depois eles pararam de atirar, porque nada aconteceu. Devem ter entendido que a música estava relacionada ao Natal e permaneceram em silêncio. Quando terminamos a nossa "Stille Nacht, Heilige Nacht", os franceses cantaram a "Marselhesa". E foi assim que passamos o Natal de 1914. 

(Sondhaus, Lawrence in "A Primeira Guerra Mundial", Tradução: Roberto Cataldo Costa,  São Paulo: Contexto. pág. 114-15)






27 julho 2016

Doistoiévski - O Menino Mendigo

Ilustração alemã de uma mãe sem-teto e seus filhos na rua, antes de 1883



Este ano, quando o Natal estava próximo, passava muitas vezes na rua diante de um menino talvez de uns sete anos de idade, que eu via sempre acocorado no mesmo canto. Ainda o encontrei mais uma vez na véspera da festa. Debaixo de um frio terrível estava vestido como se fosse verão, trazendo, à guiza de xale, um pedaço de pano velho enrolado  em roda do colo. Pedia esmolas, apresentava a mão, conforme costumam fazer os pequenos mendigos de São Petersburgo. São muitos os pobres meninos enviados dessa maneira a implorar a caridade dos transeuntes, a gemer  algum estribilho que aprendem de cor. Aquele, porém, não gemia: falava ingenuamente, como qualquer novato na profissão. O olhar dele tinha um quê de franco, o que me confirmou  na convicção de tratar-se de principiante. Às perguntas que lhe fiz respondeu que tinha uma irmã doente, que não podia trabalhar; pareceu-me verdadeiro o que dizia. Além disso, somente mais tarde fiquei sabendo do número enorme de crianças que mandam mendigar daquela maneira, quando o frio é mais rigoroso. Se nada arranjarem poderão ter a certeza de serem espancados ao voltar para casa. Quando conseguir juntar alguns copeques, o pirralho dirige-se, com as mãos roxas e intumescidas, para o buraco em que um bando de vendedores de roupas usadas e de operários folgados, que deixaram a fábrica no sábado para aparecer somente na terça-feira seguinte, fartam-se a comer e beber conscientemente. Nesses buracos  as mulheres magras e surradas bebem álcool em companhia dos maridos, enquanto choramingam á porfia, as criaturinhas ainda de peito. Aguardente, miséria, sujeira, corrupção, e, antes de tudo e sobretudo, aguardente!
Apenas chegado, manda-se o menino à venda com o dinheiro mendigado, e quando chega com o álcool, divertem-se com ele fazendo-o beber uma dose que lhe corta a respiração e, subindo-lhe à cabeça, o faz rolar pelo chão, para grande gáudio de todos os presentes.
Quando o menino atinge quatorze ou quinze anos, colocam-no logo em uma fábrica, com a obrigação de entregar à família  tudo quanto ganha, gastando-o os pais em aguardente. Antes, porém, de atingirem a idade em que possam trabalhar, esses meninos se transformam em estranhos vagabundos. Andam à solta pela cidade, acabando por descobrir onde possam meter-se para passar a noite sem terem que voltar para casa. Um desses rapazolas dormiu durante algum tempo em casa de um empregado subalterno da Corte: tinha feito a cama em uma cesta, sem que o dono da casa percebesse. É claro que não demoram muito para começar a roubar. E, muitas vezes, o roubo chega a converter-se em paixão, em pequenos de oito anos que dificilmente se julgam culpados por terem os dedos demasiadamente ágeis.
Cansados dos maus-tratos dos que os exploram, fogem e não voltam mais aos buracos em que os maltratavam; preferem sofrer fome e frio e ter a liberdade de vagabundar por conta própria.
Frequentemente esses pequenos selvagens não sabem nada de nada; ignoram a que nação pertencem, não sabem onde vivem e jamais ouviram falar de Deus ou do Imperador. Muitas vezes sabe-se a respeito deles o que há de mais inverossímil, mas que, entretanto, é verdade.


Fonte: Dostoiévski. Diário de um Escritor. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, págs. 73-74, Ano 1876. Tradução de E. Jacy Monteiro
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