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15 junho 2020

A Sentença de Tiradentes


Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (Fazenda do Pombal[1] , batizado em 12 de novembro de 1746 — Rio de Janeiro21 de abril de 1792) foi um dentistatropeiromineradorcomerciantemilitar e ativista político que atuou nos domínios portugueses no continente americano (Brasil colonial,1530-1815), mais especificamente nas capitanias de Minas Gerais e Rio de Janeiro. No Brasil, é reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira, patrono cívico do Brasil, patrono também das Polícias Militares dos Estados e herói nacional.
O dia de sua execução, 21 de abril, é feriado nacional. A cidade mineira de Tiradentes, antiga Vila de São José do Rio das Mortes, foi renomeada em sua homenagem. Seu nome está inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, desde 21 de abril de 1992. 
(Fonte: Wikipedia)


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A SENTENÇA DE TIRADENTES (1792)

"Mostra-se que entre os chefes, e cabeças da Conjuração, o primeiro que suscitou as ideas de república foi o Réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, Alferes que foi da Cavallaria paga da Capitania de Minas, o qual há muito tempo, que tinha concebido o abominavel intento de conduzir os povos d'aquelia Capitania a uma rebelião, pela qual se subtrahissem da justa obediência devida à dita Senhora, formando para este fim publicamente discursos sediciosos, que foram denunciados ao Governador de Minas antecessor do actual, e que então sem nenhuma razão foram despresados, como consta afl. 74, folhas 68v., folhas 127v., e fl. 2ª do Ap. n. 8 da devassa principiada n'esta cidade: e supposto que aquelles discursos não produzissem n'aquelle tempo outro effeito mais do que o escandalo e abominação que mereciam, com tudo, como o réo viu que o deixavam formar impunemente aquelias criminosas praticas, julgou por occasião mais oportuna para continuaras com maior efficacia no anno de Jesus Christo de 1788, em que o actual governador de Minas tomou posse do governo da capitania e tratava de fazer lançar a derrama para completar o pagamento das cem arrobas de ouro, que os povos de Minas se obrigaram a pagar anualmente pelo offerecimento voluntário que fizeram em 24 de março de 1734, aceito e confirmado pelo Alvará de 3 de Dezembro de 1750, em lugar da capitação desde então abolida. Porem persuadindo-se o réo que o lançamento da derrama para completar o computo das cem arrobas de ouro não bastaria para conduzir os povos à rebellião, estando elles certos em que tinham offerecido voluntariamente aquelle computo como um subrogado muito favoravel em lugar do quinto do ouro que tirassem nas minas, que são um direito real em todas as monarchias, passou a publicar que na derrama competião a cada pessoa as quantias que arbitrou, que seriam capazes de atemorizar os povos, e a pretender fazer com temerario atrevimento e horrenda falsidade odioso o suavíssimo e iluminadissimo governo da dita senhora, e as sabias providencias dos seus ministros de Estado, publicando que o actual governador de Minas tinha trazido ordem para opprimir e arruinar os leaes vassalios da mesma senhora, fazendo com que nenhum d'elles pudesse ter mais de dez mil cruzados, o que jura Vicente Vieira da Motta a fl. 60, e o tenente coronel Basilio de Brito Malheiro a fl. 52v., ter ouvido d'este réo, e a fl. 108, da devassa tirada por ordem do governador de Minas, e que o mesmo a ouvira a João da Costa Rodrigues a fl. 57 e ao conego Luiz Vieira a fl. 60 da devassa tirada por ordem do vice-Rei do Estado.
Mostra-se que tendo o réo Tiradentes publicado aquelias horríveis e notarias falsidades, como alicerce da infame machina que pretendia estabelecer, communicou, em Setembro de 1788 as suas perversas idéas ao réo José Alvares Maciel, visistando-o n'esta cidade a tempo que o dito Maciei chegava de viajar por alguns reinos estrangeiros para se recolher à Vilia-Rica, de onde era natural, como consta a fl. 10 do Ap. n. 1 e fl. 2 do Ap. n. 112 da devassa principiada nesta cidade; e tendo o dito réo Tiradentes encontrado no mesmo Maciei não só approvação, mas também novos argumentos que o confirmaram nos seus execrandos projectos, como se prova a fl. 10 do dito Ap. n. 1 e a fi. 7 do Ap. n. 4 da dita devessa, sahiram os referidos réos d'esta cidade para Vilia-Rica, capital da capitania de Minas, ajustados em formarem o partido para rebelião; e com effeito o dito réo Tiradentes foi logo de caminho e examinando os animos das pessoas a quem faltava, como foi aos réos José Ayres Gomes e padre Manoei Rodrigues da Costa: chegando à Vilia-Rica, a primeira pessoa a quem os sobreditos dois réos Tiradentes e Maciei faltaram foi ao réo Francisco de Paula Freire de Andrade, que então era tenentecoronel commandante da tropa paga da capitania de Minas, cunhado do dito Maciei; e supposto que o dito Francisco de Paula duvidasse no princípio conformar-se com as idéias d'aquelles dois perfidos réos, o que confessa o dito Tiradentes a fl. 10 v. do dito Ap. n. 1, comtudo, persuadito pelo mesmo Tiradentes com a falsa asserção de que n'esta cidade do Rio de Janeiro havia um grande partido de homens de negócio promptos para ajudarem a sublevação, tanto que elia se effectuasse na capitania de Minas, e pelo réo Maciel seu cunhado, com a phantastica promessa de que logo se executasse a sua infame resolução, teriam socorros de potências estrangeiras, referindo em confirmação d'isto algumas praticas, que dizia ter por lá ouvido, perdeu o dito réo Francisco de Paula todo o receio, como consta a fl. 10 v e fl. 11 do Ap. n. 1, e fl. 7 do Ap. n. 4 da devassa desta cidade, adoptando os perfidos projectos dos ditos dois réos para formarem a infame conjuração de estabelecerem na capitania de Minas uma república independente.
Mostra-se quanto ao réo Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes, que esta monstruosa perfídia depois de recitar naquelas escandalosas, e horrorosas assembéas as utilidades, que reultariam do seu infame projecto, se encarregou de ir cortar a cabeça ao General, como consta a fl. 103 v. e fl. 107 e Aps. n. 4, fl. 10 e n. 5 a fls. 7v. da devassa d'esta cidade, e fis. 99v. da devassa de Minas, e conduzindo-a faria patente ao povo e tropa, que estaria formada na maneira sobredicta, não obstante dizer o mesmo réo a f I. 1 1 v. do Ap. n. 1, que só se obrigou a ir prender o mesmo General, e conduzilo com sua família fora dos limites da capitania, dizendo-lhe, que se fosse embora; parecendo-lhe talvez que com esta confissão ficaria sendo menor o seu delicto.
Mostra-se que este abominavel réo ideou a forma da bandeira que devia ter a república, que devia constar de tres triangulos com aliusão ás tres pessoas da Santissima Trindade, o que confessa a fl. 12 do Ap. n. 1, ainda que contra este voto prevaleceu o réo Alvarenga, que se lembrou de outra mais ailusiva à liberdade, que foi geralmente approvada pelos conjurados. Tambem se obrigou o dito réo Tiradentes a conduzir para a sublevação a todas as pessoas que pudesse. Confessa a fl. 12 Ap. n. 1, e satisfez ao que prommeteu fallando em particular a muitos, cuja fidelidade pretendeu corromper, principiando a expor-lhes as riquezas d'aquella capitania, que podia ser um imperio florescente, como foi a Antonio de Affonseca Pestana, a Joaquim José da Rocha, e n'esta cidade a João Nunes Carneiro e a Manoei Luiz Pereira, furriei do regimento de artilharia; consta a fl. 16 e fl. 18 da devassa d'esta cidade; os quaes como atalharam a prática por onde o réo principiava ordinariamente a iludir os animos, não passou avante a communicar-lhes com mais clareza os seus malvados e perversos intentos,- confessa o réo a fl. 18 v., Ap. n. 1.
Mostra-se mais que o réo se animou com sua costumada ousadia a convidar expressamente para o levante ao réo Vicente da Motta, confessa este a fl. 73 v., e no Ap. n. 20, e o réo a fl. 12 v., Ap. n. 1, e era tal o excesso e descaramento d'este réo, que publicamente formava discursos sediciosos onde quer que se achava, ainda mesmo pelas tavernas, com o mais escandaloso atrevimento, como se prova pela testemunha a fl. 71, 73, Ap. n. 8, fl. 3 da devassa d'esta cidade, a fl. 58 da devassa de Minas, sendo talvez por esta descomedida ousadia, com que mostrava ter totalmente perdido o temor das justiças e o respeito e fidelidade devida à dita Senhora, reputado por um heroe entre os cunjurados, como consta a fl. 102 e Ap. 4, a fl. 10 da devassa d'esta cidade.
Mostra-se mais que com o mesmo perfido animo e escandalosa ousadia partiu o réo de Vilia-Rica para esta cidade em Março de 1789, para o intento de publicar, e particularmente com as suas costumadas praticas convidar gente para o seu partido, dizendo ao coronel Joaquim Silverio dos Reis, que reputava ser do numero dos conjurados, encontrando-o no caminho perante várias pessoas - Cá vou trabalhar para todos-o que juram as testemunhas a fis. 15 fis. 99 v. fls. 142 fls. 100 e fls. 143 da devassa d'esta cidade; e com effeito continuou a desempenhar a perfida comissão de que se tinha encarregado nos abomináveis conventiculos, faltando no caminho a João Dias da Motta para entrar na rebelião, e descaradamente na estalagem da Varginha perante os réos João da Costa Rodrigues e Antonio de Oliveira Lopes, dizendo a respeito do levante - que não era levantar, que era restaurar a terra - expressão infame de que já se tinha usado em casa de João Rodrigues de Macedo, sendo reprehendido de faliar em levante, o que consta a fl. 61 da devassa d'esta cidade e a fl. 36 da devassa de Minas.
Mostra-se que n'esta cidade fallou o réo com o mesmo atrevimento e escandalo, em casa de Valentim Lopes da Cunha, perante várias pessoas, por ocasião de se queixar o soldado Manoei Corrêa Vasques de não poder conseguir a baixa que pretendia, ao que respondeu o réo, como louco furioso, que era muito bem feito que soffresse a praça, e que o açoitassem, porque os cariocas americanos eram fracos, vis e de espíritos baixos, porque podiam passar sem o jugo que soffriam, e viver independentes do reino, e o toleravam; mas que se houvesse algum como elle réo, talvez que fosse outra cousa, e elle agora receiava que houvesse levante na capitania de Minas, em razão da derrama que se esperava, e que em semelhantes circunstâncias seria fácil havei-o; de cujas expressões sendo reprehendido pelos que estavam presentes, não declarou mais os seus perversos e horríveis intentos; consta a fl. 17 e fl. 18 da devassa d'esta cidade. E sendo o vice-rei do Estado a esse tempo já informado dos abominaveis projectos do réo, mandou vigiar-lhe os passos, e averiguar as casas onde entrava, e de que tendo elle alguma noticia ou avizo, dispôz a sua fugida pelo sertão da capitania de Minas, sem dúvida para ainda executar os seos malvados intentos, se pudesse, occultando-se para este fim em casa do réo Domingos Fernandes, aonde foi preso, achando-se-lhe as cartas dos réos Manoel José de Miranda, e Manoel Joaquim de Sá Pinto do Rego Fortes, para o mestre de campo lgnacio o auxiliar na fugida.
Portanto condenam ao réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas Gerais, a que, com baraço e pregação, seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da fôrca, e nela morra morte natural para sempre e que, depois de morto, lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, aonde, em o lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, aonde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios de maiores povoações, até que o tempo também os consuma; declaram o réu infame, e seus filhos e netos, tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelo bens confiscados, e no mesmo chão se levantará um padrão, pelo qual se conserve em memória a infância dêste abominável réu.

29 abril 2019

Devassa (Luiz Felipe Pondé)





De quatro, ela gemia. Por trás, ele a penetrava e doía. O amor anal é sempre selvagem e mais íntimo do que todos os outros. Gemia de dor, as lágrimas escorriam pelos lábios. Ele puxava seus cabelos loiros com força. Sentia-se uma cadela, momento supremo, pedia que a tratasse por cachorra. Um filósofo diria: eis a mulher. 

Finalmente sentindo-se objeto, como sempre quis. Finalmente alguém que não a respeitava. Espécie em extinção, homem que não pede licença. As mulheres ainda vão sonhar com o tempo que faltavam com o respeito com elas nas ruas. 

Ao final, veste-se. A roupa branca trai sua função social: médica. Já no hospital, sorri para seus pequenos pacientes indefesos. Pediatra bem-sucedida. 

Na TV, uma entrevista com uma chatinha condena o comercial da cerveja “Devassa” como sendo exploração da mulher. Nossa médica gostosa, do alto de seu salto e de sua roupa branca, sonha em ser de novo objeto no dia seguinte. O amor anal a deixa ali onde ela quer estar: no lugar do objeto. Nenhuma mulher é mais amada do que a que é objeto de alguém. E ela pensa: “como essas chatinhas atrapalham minha vida”. Escondida por baixo das roupas brancas, uma espécie caçada: a devassa. A mulher que gosta de homem e não é histérica. 

A lembrança ainda escorria em suas pernas. Criada num mundo ignorante sobre sexo, porque o confunde com província da “biopolítica”, nossa heroína do amor anal demorou a descobrir o que se sabe desde a Pré-história. Fala-se “penetrar uma mulher” porque a anatomia imita a vida do afeto: o amor é invasão da vida. 

Dedico esses aforismos imorais a ela.



27 agosto 2016

Como ser feliz?



ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 30/05/2015





1. Não vá atrás de fama, sexo ou dinheiro. Não é que não tragam felicidade: trazem, mas é momentânea, e a ressaca costuma ser dura. Melhor se contentar com as coisas simples, que trazem mais alegria, e são um pouco mais fáceis de conseguir.


A fama é uma prostituta


2. Tenha um cachorro, ou um gato. Animais domésticos estão as fontes maiores de felicidade que uma pessoa pode ter. Nunca entendi as pessoas que abandonam ou maltratam animais domésticos. Na minha opinião, deveriam ser castrados, e estou falando dos donos, e não dos animais.


Cachorros nunca cansam de brincar
3. Não tenha "amigos virtuais". Esse negócio de Facebook, Twitter, Tinder, etc, é tudo uma grande perda de tempo. Uma pessoa que dá "like" em uma foto não vai te ajudar quando você tiver câncer. Como disse um sábio certa vez, se você nem sabe direito quem uma pessoa é, como é que pode ser "amigo" dela?





Além de tudo, eles te vigiam.



4. Tenha poucos amigos reais. Amigos de verdade na vida são poucos. Eu mesmo acho que não tenho mais nenhum, mas já tive um ou dois. Nada mais triste do que ser enganado por amigos que você considera verdadeiros. Fique com os poucos bons.


Amizade verdadeira é difícil, e no trabalho, impossível.


5. Case cedo e tenha filhos. Nem filhos nem casamento são garantia de felicidade, aliás, muitas vezes são garantia de infelicidade e desgosto. Porém, não casar ou não ter filhos costuma ser motivo de arrependimento maior. Quanto ao casamento, é melhor não demorar muito e casar com a/o primeira/o namorada/o com quem você tiver ficado em uma relação estável de mais de dois ou três anos. Eu garanto, não vai aparecer ninguém melhor. (Em geral, a idéia de que algum dia virá algo melhor na vida é pura ilusão: o melhor é na infância, e depois só vai piorando!)

Estes jovens seguiram meu conselho.



6. Não veja pornografia. Alguns acham que pornografia devia ser proibida para menores de 18. Eu acho o contrário, devia ser liberada para os menores de 18, ou entre 14 e 18, e terminantemente proibida para os maiores! Entre os 14 e os 18 anos é quando nos masturbamos compulsivamente e não temos mesmo, salvo raros casos, como conseguir mulher. Depois disso fica mais fácil, e é melhor acostumar-se com o sexo real do que com as fantasias estúpidas e irreais propagadas por essa indústria nefasta e infecta.

Já o erotismo, eu até que acho bacana.



7. Tenha uma religião. As pessoas mais felizes que conheço são cristãos praticantes. Parece que alguns judeus e muçulmanos praticantes também, não sei. Que importa? Até os rastafari e as testemunhas de Jeová devem ser mais felizes do que ateus e agnósticos! Porém, para muitos de nós, esse consolo não existe.



E se não fores feliz, irás para o Inferno.



8. Tenha um hobby. Quem pratica uma arte ou algum tipo de hobby criativo é, em geral, mais feliz. E, se não for, isso pode ao menos ajudar a passar o tempo. Não somente os hobbies como a prática da arte ou, para quem não tem nenhum talento, a mera contemplação da arte são, na opinião de alguns dos maiores filósofos, as maiores fontes de felicidade.



Mas também não exagere e vire um nerd imbecil.



9. Fique próximo da Natureza. Cidades podem ser bacanas, porém também podem levar à perdição. Melhor mesmo é passar um tempo na Natureza, caminhando, nadando, acampando, pescando, etcétera. Porém, leve o protetor solar e a pomada contra mosquitos.



Cuidado com abelhas e vespas também.





10. Seja bom. A melhor forma de ser feliz é sendo bom com os outros, pois estamos aqui para ajudar os outros, um pouco que seja. É o que dizem, ao menos, mas eu não saberia dizer, pois fui em grande parte das vezes uma pessoa egoísta, vã, fútil e má.


E pior que é mesmo.



Em resumo, não faças como eu fiz, e serás feliz! 



FONTE: Blog do Mr X


26 abril 2016

DESCULPEM TOCAR NO ASSUNTO


Por Rubem Braga


Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta, comecei a folhear e esfriei: quanto telefone de gente que já morreu!

Eu e um amigo estivemos imaginando uma Cidade dos Mortos que funcionasse mais ou menos como esta em que vivemos: uma cidade em que estivessem vivendo os mortos nossos conhecidos, os nossos mortos. Tinha muita gente, e gente ótima; é verdade também que alguns chatos; isso faz parte. Mas havia bons companheiros de praia, bons amigos de bar, excelentes papos. Poucas, raras mulheres de nossa estima; as mulheres, pelo visto, não costumam falecer.

O pior — dizia meu amigo, e eu batia a cabeça tristemente, a concordar —, o pior é que esse “lado de lá” vai aumentando, e se a gente demorar muito por aqui acaba falando sozinho.

Outro dia vi um velho na rua; andava lentamente e movia os lábios, como quem fala para si mesmo. Devia estar conversando com algum amigo morto. A certa altura ficou quieto, como ar contrariado de quem está ouvindo alguma coisa de que não gosta. Depois recomeçou a falar com mais veemência.

Súbito, calou-se outra vez. O morto estava lhe dizendo poucas, porém boas. Ele tinha o ar ofendido.

O pior dos mortos é que nunca telefonam. Aparecem sem avisar, sentam-se numa poltrona e começam a falar. Tocam em assuntos que já deviam estar esquecidos, e fazem perguntas demais. Subitamente fazem silêncio. Esse silêncio é constrangedor. O morto tem um ar de queixa e ao mesmo tempo um invisível sorriso de superioridade. Outro dia eu perdi a paciência com um:

—“Está bem, meu caro. Eu sei que V. tem toda razão, e a prova de sua superioridade é que V. já está morto e eu ainda não cheguei a essa fase. Mas você está me gozando e abusando um pouco de sua qualidade de morto. Sei que não devia dizer isso, devia ser mais delicado com você, mas acontece...”

Parei de falar; ele tinha sumido. Não achei isso muito fino de sua parte. Ele devia se abster de um truque assim, que eu, como vivo, não posso usar. Essa ideia não me impedia de ter certo remorso.

O que mais me irritou foi que uns quinze minutos depois ouvi sua risada no ar, perto de minha janela. Não moro em nenhum arranha-céu, apenas em um quinto andar. Mesmo assim já é abuso, um sujeito ficar parado no ar, invisível, ali fora, fingindo que já se foi.

Está visto que era um morto relativamente recente, ainda um pouco novo-rico de sua própria morte. Imagino que todo morto vai ficando um pouco mais discreto à medida que seus amigos e conhecidos também morrem. Quando não resta mais nenhum mesmo na terra é que ele começa a viver sossegado sua vida de morto.

Não tenho nada contra o espiritismo, mas não acredito muito nessa história de sujeitos que baixam em sessões de subúrbio, cem, duzentos anos depois de morrer.

Acho que depois de certa idade (idade de falecido) o morto não acredita mais em espiritismo. Considera-o uma impertinência dos vivos.

Tenho poucas mortas. Mas como são queridas! O engraçado é que à medida que o tempo passa elas vão ficando um pouco parecidas, vão-se fazendo irmãs, mesmo as que jamais se conheceram. Aparecem raramente e sempre caçoam um pouco de mim, mas com um jeito de carinho. Não faz mal que não me levem muito a sério; não mereço.

Mas a verdade é que nos piores momentos de minha vida sempre senti uma imponderável mão em minha cabeça; então fecho os olhos e me entrego a esse puro carinho, sem sequer me voltar para ver se é minha mãe, minha irmã ou uma doce, infeliz amiga ou apenas a leve brisa em meus cabelos.

Rio, dezembro, 1957.

16 abril 2013

Intentio Lectoris



É importante preocuparmo-nos, nós que escrevemos, embora esporadicamente, na intentio lectoris (termo emprestado de Umberto Eco in "Os Limites da Interpretação). Se o que você "quis dizer" não é entendido, não haverá feedback1  e seu escrito foi vão - pelo menos para aquele leitor.
O foco que observo, em especial, na leitura e interpretação da Bíblia pelas linhas protestante (anglicanos, luteranos, presbiterianos), evangélica (batistas, adventistas, congregacionais) e pentecostal (asssembleianos, iurdianos) é o que o texto "diz" ou "quer dizer", desprezando-se o leitor. Assim, um livro tão antigo, multiautoral e diverso (história, poesia, romance, leis) necessita do auxílio de capazes teólogos-hermeneutas que orientarão o leitor/ouvinte a entender aquele texto, em especial no cuidado com o que seja literal e não literal (simbologia direta: o Cordeiro, ou indireta: o deus que opera agora nos filhos da desobediência).
A liberdade de interpretação na leitura – a par das confissões de fé e manuais de doutrina, estando os batistas na vanguarda, embora não sem imperfeição, pois ainda usam o termo “doutrina” para se referir a sua própria interpretação das Escrituras – é o grande avivamento esperado desde a Reforma: o ser inteligente, leitor, submisso mentalmente à sua consciência, moral e espiritualmente ao Livro Sagrado e ao Espírito de Deus, esse ser lê a Escritura e dela tira ensinamentos para a sua vida.
Poderão haver abusos dessa leitura livre? Como não! Mas as próprias igrejas oficiais não vêm abusando da interpretação durante toda a sua história, em especial no impedimento do pleno envolvimento da mulher no ensino, pastoreio e administração da res ecclesiasticae?
Leitor livre, intérprete livre. Agora. Ou precisaremos de uma nova reforma.
  
  
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1 Feedback. Palavra emprestada do inglês que indica, na teoria da comunicação, um processo através do qual o emissor de uma mensagem obtém uma reação do receptor, o que lhe permite verificar a eficiência de sua comunicação. (Dicionário de Linguística de Sérgio Biagi Gregório).
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