Por Bráulio Tavares
Jornal da Paraíba, 18/12/2014
Dizem que o
ato mais anarquista da arte moderna foi quando Marcel Duchamp foi numa loja de
material de construção, comprou um mictório de porcelana branca, daqueles de
banheiro público masculino, e o mandou para uma exposição, com o título
“Fonte”. Hoje, parece até um gesto acadêmico. Duchamp pegou um objeto
industrializado, anônimo e anódino, e esfregou na cara de todo mundo que aquilo
era uma obra de arte pelo simples fato de que ele estava dizendo. Tudo isso foi
num contexto de uma certa impaciência dos artistas com a catação-de-lêndeas dos
teóricos, cuja função é pegar dois fios de cabelo contíguos e dizer que um
deles é arte e o outro não é. A mesma situação que fez Mário de Andrade
desabafar: “Conto é tudo aquilo que o autor chama de conto”.
A onda
agora é o que chamam “appropriation art”, “arte da apropriação”, e na verdade é
a industrialização e mercantilização do que Jorge Luís Borges havia sugerido
(como “experiência pensada”, de caráter filosófico e estético) no conto “Pierre Menard, o autor do Quixote”. Pierre Menard decidiu reescrever o “Dom Quixote” e
até conseguiu em alguns momentos reproduzir (sem consultar o original) trechos
inteiros da obra de Cervantes! Os apropriartistas (se este termo pegar, favor
citar o “Jornal da Paraíba” e a data de hoje) vão além. Pegam uma obra de arte
criada por outra pessoa (e não um objeto qualquer) e a expõem como se fosse sua.
Vejam
o caso de Richard Prince, um notório apropriartista norte-americano. Sua
façanha mais recente foi a publicação de “O Apanhador no Campo de Centeio”, o
romance de J. D. Salinger, em seu próprio nome. Uma reprodução quase idêntica
da primeira edição do livro, de 1951, mesma capa, “um perfeito fac-símile do
original, inclusive o papel espesso e cremoso e a clássica tipologia”. Os comentários
elogiosos ao autor permanecem na contracapa só que em nome de “Richard Prince”.
O qual, num rasgo de modéstia ou de dominação, insere na página final a nota:
“Esta é uma obra de arte de Richard Prince. Qualquer semelhança com um livro é
coincidência, e não foi intencional da parte do artista”. Cópias não assinadas
da obra são vendidas ao preço de algumas centenas de dólares; cópias
autografadas, na casa dos milhares. Exatamente os preços atuais de cópias da
primeira edição do livro, autografadas por Salinger.
Prince
é um picareta? Não sei. Ele é pintor também, e seus quadros valem milhões.
Dinheiro com isso ele não está ganhando. Está querendo enganar alguém? Se o
quisesse, não estaria usando um dos livros mais famosos do país. Preciso de uma
teoria a respeito, mas meu espaço acabou, ufa. Daqui pra amanhã eu arranjo.
