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05 outubro 2024

Os Ombros Suportam o Mundo



Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

21 abril 2023

Será crime um branco não ter amigos negros para mostrar? - JOÃO PEREIRA COUTINHO


FOLHA DE SP - 09/08

Ah, a experiência! Os colunistas são como certos cachorros de caça. A presa ainda não apareceu no horizonte. Mas os nossos caninos já estão espumando de excitação.

Exemplo: dias atrás, li uma excelente entrevista de Jonathan Franzen à "Slate". Gosto de Franzen. Conheci-o pela primeira vez em 2002, talvez 2003, em livro de ensaios que recomendo ("Como Ficar Sozinho", Companhia das Letras). Depois, provei os romances. Também recomendo, embora "As Correções" (Companhia das Letras) me pareça bem melhor que os seguintes.

Mas regresso à entrevista. E aos meus caninos. A certa altura, o entrevistador pergunta a Franzen se ele nunca pensou em escrever um romance sobre os conflitos raciais que correm pelos Estados Unidos. A pergunta é absurda: um escritor não tem que escrever sobre os temas que interessam ao entrevistador –e isso revela a decadência cultural do jornalismo contemporâneo.

Franzen escutou a pergunta, meditou e finalmente respondeu, embaraçado: "Não tenho muitos amigos negros", um eufemismo para dizer que não tem nenhum. E depois, com honestidade, concluiu: só devemos escrever sobre realidades que conhecemos bem.

Terminei essa parte da entrevista com duas perguntas a balançar no trapézio.

A primeira foi questionar se também eu tenho amigos negros. Não tenho. Existem conhecidos, colegas, amigos de amigos. Mas não tenho no portfólio um exemplar para mostrar. Razões?

Nenhuma em especial. Nunca aconteceu. O destino, nessas matérias, tem uma palavra importante. E, além disso, eu ainda respeito o significado profundo da palavra "amigo". São três ou quatro e ponto final. Por acaso, todos brancos.

Mas a segunda pergunta é mais relevante que a primeira e foi ela que despertou o meu faro: depois da confissão de Franzen, esperei pelas críticas das brigadas. Que logo surgiram, para confirmarem o meu instinto.

No inglês "The Guardian", a escritora Lindy West resumiu o estado da arte: Franzen faz parte da esmagadora maioria de americanos brancos (75%, segundo um estudo do Public Religion Research Institute) que não tem amigos de outras raças. Franzen seria, na linguagem erudita de West, um caso de "auto-segregação": um escritor que se esconde na sua bolha de privilégio e que nunca mostrou interesse em ter amigos negros.

Ponto prévio: se a cifra está correta (75% de brancos sem amigos de outras raças), é óbvio que existem dois planetas distintos nos Estados Unidos quando os negros representam 12% da população (estimativa conservadora).

A pobreza tem aqui a palavra central, admito: nas nossas vidas cotidianas, tendemos a cultivar "relações de classe". Se os brancos são mais afluentes que os negros, é normal que os brancos tenham amigos brancos.

Por outro lado, já não será tão normal viver em grandes cidades –como Nova York, Chicago ou Los Angeles– sem amigos negros que habitam a mesma classe média. Mas será que isso constitui um crime? Ou, pelo menos, uma falha de caráter?

A escritora acredita que sim. E, na sua cabeça pequena, não lhe ocorre a possibilidade singela de Franzen não ter amigos negros porque nunca os encontrou.

Para Lindy West, a raiz do desencontro está na pigmentação da pele; mas como excluir, com dogmatismo infantil, a importância das afinidades culturais, dos interesses comuns ou até dos acasos biográficos ou geográficos?

Finalmente, e em verdadeira paródia ao conceito de "amizade", Lindy West questiona por que motivo Franzen não faz um esforço para procurar amigos negros. "Amizade", para ela, é uma espécie de jardim zoológico privado onde temos o amigo negro na jaula 1; o asiático na jaula 2; o hispânico na jaula 3; o samoano na jaula 4; e, já agora, o índio na jaula 5. Parafraseando os existencialistas, a aparência precede a essência.

É um caminho. Claro que esse conceito de amizade também pode ser problemático: se a ONU tem 193 Estados membros, uma amizade verdadeiramente inclusiva deve transcender as fronteiras do país e abraçar o mundo inteiro. Ou somos cosmopolitas, ou não somos nada.

Prometo que vou fazer um esforço: amanhã começo na letra A – com um amigo afegão– e só descanso quando chegar ao Zimbábue.



12 maio 2022

Cristina Mel - Ao amigo distante



És amado, amigo, e eu oro por ti
Embora tão longe, contigo estou
Desde então, só as lembranças vêm
Colocar-nos lado a lado

Seu rosto nas fotos
Momentos tão bons
Recordo


E ao te ver tão longe
Dói mais que muito
Um pedaço grande do coração tirou
E levou pra longe, responde
Tenta ligar para mim
Eu ainda te amo demais
Te amo


E em lugares que juntos
Estivemos a rir
Agora, sozinha não consigo sorrir
Tua fala sincera eu gravei
O teu jeito tão real
Ah! eu confesso, amigo
Meu amor por ti é leal

E ao te ver tão longe
Dói mais que muito
Um pedaço grande do coração tirou
E levou pra longe, responde
Tenta ligar para mim
Eu ainda te amo demais
Te amo


E ao te ver tão longe
Dói mais que muito
Um pedaço grande do coração tirou
E levou pra longe, responde
Pergunte a Deus sobre mim
Vai saber que te amo demais
Te amo, amigo






27 agosto 2016

Como ser feliz?



ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 30/05/2015





1. Não vá atrás de fama, sexo ou dinheiro. Não é que não tragam felicidade: trazem, mas é momentânea, e a ressaca costuma ser dura. Melhor se contentar com as coisas simples, que trazem mais alegria, e são um pouco mais fáceis de conseguir.


A fama é uma prostituta


2. Tenha um cachorro, ou um gato. Animais domésticos estão as fontes maiores de felicidade que uma pessoa pode ter. Nunca entendi as pessoas que abandonam ou maltratam animais domésticos. Na minha opinião, deveriam ser castrados, e estou falando dos donos, e não dos animais.


Cachorros nunca cansam de brincar
3. Não tenha "amigos virtuais". Esse negócio de Facebook, Twitter, Tinder, etc, é tudo uma grande perda de tempo. Uma pessoa que dá "like" em uma foto não vai te ajudar quando você tiver câncer. Como disse um sábio certa vez, se você nem sabe direito quem uma pessoa é, como é que pode ser "amigo" dela?





Além de tudo, eles te vigiam.



4. Tenha poucos amigos reais. Amigos de verdade na vida são poucos. Eu mesmo acho que não tenho mais nenhum, mas já tive um ou dois. Nada mais triste do que ser enganado por amigos que você considera verdadeiros. Fique com os poucos bons.


Amizade verdadeira é difícil, e no trabalho, impossível.


5. Case cedo e tenha filhos. Nem filhos nem casamento são garantia de felicidade, aliás, muitas vezes são garantia de infelicidade e desgosto. Porém, não casar ou não ter filhos costuma ser motivo de arrependimento maior. Quanto ao casamento, é melhor não demorar muito e casar com a/o primeira/o namorada/o com quem você tiver ficado em uma relação estável de mais de dois ou três anos. Eu garanto, não vai aparecer ninguém melhor. (Em geral, a idéia de que algum dia virá algo melhor na vida é pura ilusão: o melhor é na infância, e depois só vai piorando!)

Estes jovens seguiram meu conselho.



6. Não veja pornografia. Alguns acham que pornografia devia ser proibida para menores de 18. Eu acho o contrário, devia ser liberada para os menores de 18, ou entre 14 e 18, e terminantemente proibida para os maiores! Entre os 14 e os 18 anos é quando nos masturbamos compulsivamente e não temos mesmo, salvo raros casos, como conseguir mulher. Depois disso fica mais fácil, e é melhor acostumar-se com o sexo real do que com as fantasias estúpidas e irreais propagadas por essa indústria nefasta e infecta.

Já o erotismo, eu até que acho bacana.



7. Tenha uma religião. As pessoas mais felizes que conheço são cristãos praticantes. Parece que alguns judeus e muçulmanos praticantes também, não sei. Que importa? Até os rastafari e as testemunhas de Jeová devem ser mais felizes do que ateus e agnósticos! Porém, para muitos de nós, esse consolo não existe.



E se não fores feliz, irás para o Inferno.



8. Tenha um hobby. Quem pratica uma arte ou algum tipo de hobby criativo é, em geral, mais feliz. E, se não for, isso pode ao menos ajudar a passar o tempo. Não somente os hobbies como a prática da arte ou, para quem não tem nenhum talento, a mera contemplação da arte são, na opinião de alguns dos maiores filósofos, as maiores fontes de felicidade.



Mas também não exagere e vire um nerd imbecil.



9. Fique próximo da Natureza. Cidades podem ser bacanas, porém também podem levar à perdição. Melhor mesmo é passar um tempo na Natureza, caminhando, nadando, acampando, pescando, etcétera. Porém, leve o protetor solar e a pomada contra mosquitos.



Cuidado com abelhas e vespas também.





10. Seja bom. A melhor forma de ser feliz é sendo bom com os outros, pois estamos aqui para ajudar os outros, um pouco que seja. É o que dizem, ao menos, mas eu não saberia dizer, pois fui em grande parte das vezes uma pessoa egoísta, vã, fútil e má.


E pior que é mesmo.



Em resumo, não faças como eu fiz, e serás feliz! 



FONTE: Blog do Mr X


04 março 2015

Os gays e o fim da amizade masculina



Um artigo muito bem escrito (mas bem longo, e em inglês) adverte para um problema no qual eu jamais tinha pensado, mas que faz sentido: a propagação da cultura gay tem tido um efeito negativo sobre a amizade masculina.

O argumento é o seguinte: a aceitação pública dos gays mudou o sentido de certos comportamentos, antes comuns. Ao ver dois homens abraçados na rua, já pensamos: "é viado", embora poderiam ser apenas irmãos, ou amigos próximos. 

Pense na sua infância ou adolescência: talvez você tivesse algum amigo bem próximo com o qual passava grande parte do tempo, e aí, algum outro coleguinha invejoso, ou até alguma menina, insinuou: "esses aí são gays". E vocês, temerosos, afastaram-se um do outro, embora não houvesse absolutamente nada de remotamente sexual na relação.

Pense também nos filmes, na literatura. Quantas vezes agora dois personagens amigos homens (i.e. Frodo e Bilbo, Asterix e Obelix, Sherlock Holmes e Watson) já são interpretados como "gays" pelo simples fato de serem amigos próximos. Ver "gays" em tudo virou a nova norma; e a amizade masculina, com isso, sofreu um baque. (Isso foi parodiado também naquele episódio de Seinfeld em que George e Seinfeld eram vistos como gays, "not that there's anything wrong with that") 

O autor adverte também para um outro perigo: imagine, por exemplo, que o incesto e a pedofilia fossem liberados. Isso também mudaria a linguagem das relações humanas. Ao ver um pai abraçando a filha, já pensaríamos que pode ter algo mais aí do que o mero afeto filial. Ora, argumenta o autor, é justamente a proibição do incesto o que permite a proximidade familiar, assim como (antes) a proibição ou ao menos censura do comportamento gay é que permitia a amizade maior entre dois homens, sem que ninguém pensasse que um deles dava o cu. 

De fato isso já aconteceu um pouco: nos EUA, por exemplo, um homem que se aproxima mais de dois metros de crianças ou jovens desconhecidos já é visto como um tarado em potencial e chama-se a polícia, muito embora possa ser apenas um simpático vizinho. Mais de um fotógrafo já foi preso por ter tirado fotos de crianças em público, confundido com pedófilo. No Brasil, um pai e um filho podem ser agredidos ao ser confundidos com casal gay. Perdeu-se a sensação de inocência que antes havia; tudo agora é ou pode ser sexual. E portanto a amizade inocente de outros tempos também acabou. 



Batman e Robin são gays, é claro.

Fonte: Blog do Mr. X
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