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25 julho 2024

Guerra de gênero e negação da natureza humana

 



O texto lança um pouco de luz sobre a longa história de negação da natureza humana e confronta alguns dogmas dessa nossa estranha época na qual a questão do que é uma mulher se tornou uma provocação. Catarina Rochamonte para O Antagonista:


O tradicional jornal suíço Neue Zürcher Zeitung (NZZ) publicou uma matéria muito interessante, assinada pelo jornalista científico Reto U. Schneider, sobre a atual batalha de gênero, a qual, segundo o autor, teria começado com uma falsa suposição por parte das feministas.

O oportuno texto lança um pouco de luz sobre a longa história de negação da natureza humana e confronta alguns dogmas dessa nossa estranha época na qual “a questão do que é uma mulher se tornou uma provocação.”

O artigo nos remete aos idos de 1978, por ocasião de uma conferência do renomado entomólogo e biólogo norte-americano, Edward O. Wilson, conhecido por seu trabalho com ecologia, evolução e sociobiologia.

Conforme a narrativa do jornalista, no momento em que o pesquisador da Universidade de Harvard estava prestes a começar sua palestra, “uma dúzia de jovens subiram ao palco, derramaram uma jarra de água sobre sua cabeça e gritaram: ´Racista Wilson, você não pode se esconder”.

O estranho protesto tinha a ver com o fato de que Wilson estava atento em relação às novas teorias da biologia evolutiva que explicavam de forma plausível diferenças há muito observadas entre os sexos.

Na palestra intitulada “Humano: Da Sociobiologia à Sociologia”, o pesquisador sugeriu que olhássemos para os seres humanos “como se fôssemos zoólogos de outro planeta completando um catálogo de espécies sociais na Terra”.

Com isto, explica Schneider, “um debate de longa data sobre a natureza dos seres humanos e, portanto, também sobre a natureza dos homens e das mulheres atingiu o seu clímax”.

Embora à época não se duvidasse da relação entre os instintos, os impulsos e os reflexos que surgiram ao longo da evolução e o comportamento social dos animais, os seres humanos eram apartados dessa apreciação e as ciências sociais abordavam o comportamento humano como se não houvesse condicionantes biológicos a serem considerados.

“Foi amplamente aceito nas universidades que as pessoas nascem como uma tábula rasa e são moldadas exclusivamente pela educação e pelas experiências. Ao mesmo tempo, isso significava que homens e mulheres diferiam entre as pernas, mas não entre as orelhas. Todo comportamento típico de gênero seria resultado de influências sociais”, observa Reto U. Schneider.

Behaviorismo X psicologia evolucionista

O jornalista científico do NZZ explica que, quando Edward O. Wilson deu a sua palestra no Sheraton, a psicologia estava sob forte influência do behaviorismo, doutrina segundo a qual os seres humanos nascem como um conjunto de reflexos simples que se transformam em uma personalidade por meio da educação e de outras influências externas.


Essa parecia ser então uma linha de pesquisa sensata, principalmente ao se considerar os descalabros morais causados por teorias que atribuíram características inatas a grupos de pessoas.

“Esterilizações forçadas, escravatura e genocídio: os piores atos da humanidade foram justificados por uma suposta inferioridade hereditária de certas partes da sociedade. Foi, portanto, considerado repreensível considerar que os comportamentos típicos de grupo também poderiam ter raízes genéticas”, explica Schneider.

A despeito disso, a sociobiologia de Edward O. Wilson apresentava-se como uma linha de pesquisa distinta do behaviorismo, desbravando um campo de investigação que hoje é chamado de psicologia evolucionista e que se tornou um ramo frutífero da ciência.

A sociologia e o negacionismo biológico

Ocorre que a psicologia evolucionista parece ter sido solenemente ignorada nas ciências sociais. Isso guarda relação estreita com aquilo que hoje se chamada de ideologia de gênero:

“A tese do gênero exclusivamente construído socialmente só pode ser mantida se for introduzida uma exceção absurda para a nossa espécie, nomeadamente que, em contraste com todos os outros animais, a evolução humana parou no pescoço. É como dizer que os genes contêm o projeto do corpo, mas não o cérebro”, argumenta Schneider.

A hipótese do gênero como construção social pressupõe a negação de uma relação entre as diferentes anatomias dos sexos e as suas inclinações, o seu comportamento. Mas a psicologia evolutiva mostra que essa relação existe.

As mãos se desenvolveram ao longo da evolução para agarrar e os olhos para ver. Da mesma forma, o cérebro também desenvolveu adaptações que provaram ser benéficas para a nossa vida social, pois o cérebro não faz menos parte da biologia humana do que as mãos ou os olhos.

As diferenças entre os gêneros resultaram do fato de as mesmas adaptações não terem sido consideradas benéficas para os homens e para as mulheres.

Se, em média, os corpos masculino e feminino diferem em muitos aspectos, não é surpreendente ou inaceitável supor que o cérebro também funcione de modo distinto, afinal, o cérebro é uma parte do corpo.

Ser diferente não é ser inferior

As feministas, explica ainda o autor do referido artigo, tinham bons motivos para cortar pela raiz a ideia das diferenças entre os cérebros dos homens e das mulheres, pois sempre que tais diferenças foram postuladas no passado, elas o foram em detrimento das mulheres.

“Os homens têm naturalmente mais força do que as mulheres, logo, devem dominá-las”. Isso é uma falácia naturalista. Falácia naturalista é a tendência que muitas pessoas têm de derivar da natureza o que é bom e moralmente correto.

Foi com essa falácia que os homens tentaram durante muito tempo impedir a igualdade das mulheres. A melhor forma de se contrapor a ela não é negando o fato de que os homens são mais fortes, mas negando a consequência ética equivocada que se tenta tirar desse fato.

As mulheres, de fato, foram julgadas intelectualmente inferiores, além de dependentes, passivas, instáveis, etc. Isso as manteve injustamente afastadas, por muito tempo, do estudo acadêmico, da política e de muitas atividades profissionais nas quais se provaram posteriormente muito competentes.

A socióloga francesa Christine Delphy argumentou corretamente quando afirmou que “até agora, a diferença física serviu apenas como pretexto para o exercício do poder de um sexo sobre o outro”, mas ela forçou a barra e saiu da descrição factual para o ativismo político quando complementou que a consequência disso era que a “destruição das diferenças de gênero equivale à destruição da hierarquia”.

Feminismo e negação das diferenças de gênero

A rejeição feminista de qualquer influência biológica no comportamento de gênero foi radical e intransigente.

“Para separar o corpo dos papéis de gênero, as pessoas começaram a falar sobre sexo biológico (sexo) e sexo social (gênero). À primeira vista, isto tornou a discussão mais fácil porque o gênero, ou seja, o gênero social, tinha agora sido retirado linguisticamente da biologia. Mas a nova classificação tinha um problema óbvio: o gênero social, que também incluía comportamento, pensamento e sentimentos, está intimamente ligado ao cérebro”, escreve Reto U. Schneider.

A escritora francesa Simone de Beauvoir já havia dito em 1949: “Você não nasce mulher, você se torna mulher”. Ou seja, para a companheira de Jean Paul Sartre, o conceito “mulher” seria carente de essência, artificial, sempre definido pelo seu opressor: o homem e, portanto, socialmente construído.

A distinção que Beauvoir estabelece entre sexo (dado natural) e gênero (construção social), negando relevância à determinação que o primeiro impõe sobre o segundo é, sem dúvida, prelúdio da visão de mundo radical e absurda que se convencionou chamar de ideologia de gênero, segundo a qual o dado natural pode ser ignorado e negado em favor do sentimento, do desejo, da vontade do homem que quer se construir socialmente como mulher ou vice-versa, a despeito das determinações que a biologia lhes impõe.

Embora não se possa culpar a escritora pelo uso posterior que se fez da sua famosa frase, convém notar que ao existencialismo ateu – pano de fundo filosófico de toda sua obra – é inerente esse risco de abolir qualquer consciência de determinação natural do ser humano.

Reto U. Schneider aponta que a frase de Beauvoir foi constantemente repetida de diversas formas na revista feminista “Emma”, fundada em 1977, cuja fundadora e editora-chefe Alice Schwarzer escreveu em 1984: “A base da minha consciência feminista continua sendo a compreensão de que ‘masculinidade’ e ‘feminilidade’ não são inatas, mas sim adquiridas.”

O articulista explica que essa visão se estendia a todas as características psicológicas e cognitivas, incluindo a vida amorosa. Ele cita outra frase da editora-chefe da revista Emma: “A sexualidade não é algo inato, não é da natureza, mas da cultura.”

Segundo as feministas, portanto, diferenças inatas não existem. O negacionismo foi tão longe ao ponto de Alice Schwarzer escrever sobre a superioridade física “instilada” nos homens.

As diferenças de gênero foram consideradas uma ameaça pelas feministas. Antes mesmo de qualquer resultado, a própria investigação das diferenças proposta pela sociobiologia foi considerada um tabu e a disciplina passou a ser vista como um “instrumento de propaganda das forças políticas conservadoras e reacionárias” , conforme se lê na revista feminista Emma

A despeito da ideologia das feministas da década de 70 e da atual militância woke, a afirmação de que a sexualidade não é algo inato é uma afirmação absurda do ponto de vista biológico.

Comportamentos típicos de gênero

O jornalista suíço prossegue o seu artigo elencando alguns estudos que mostram a existência de comportamentos típicos de gênero. Citarei apenas alguns, a título de curiosidade.

Óbvio que a influência mútua entre fatores sociais e biológicos é um pressuposto incontornável. Isso, porém, não torna ocioso o exame dos fatores biológicos. Outra obviedade é que toda regra tem exceção. Por exemplo, constatar que homens são, via de regra, mais forte e mais alto que as mulheres, não significa que não haja determinadas mulheres mais fortes e mais altas que determinados homens. Isso também vale para tipos de comportamentos.

Dito isso, sigamos com a apresentação de algumas diferenças comportamentais típicas de gênero:

1 – Homens são mais violentos

Tanto quanto se sabe pela história, os homens foram mais violentos do que as mulheres em todos os tempos e em todos os lugares. O tamanho do corpo seria, segundo e explicação de Schneider, um dos principais indícios de que essa diferença tem raízes biológicas. “Em média, os homens são mais altos e mais fortes que as mulheres. É difícil explicar esta diferença na estrutura corporal sem assumir que a luta desempenhou um papel importante na história evolutiva do homem”. O corpo mais forte seria, por assim dizer, o comportamento violento encarnado.

A explicação biológica de determinados comportamentos não implica determinismo. Ninguém está indefeso à mercê de seus genes. O ser humano é dotado de consciência e liberdade e, como já foi dito, a cultura, o sistema político, a riqueza material, ou seja, os fatores sociais também influenciam o nosso comportamento. Mas a influência da biologia permanece.

2 – Homens querem mais sexo do que as mulheres

Segundo Schneider, “todos os estereótipos desprezíveis sobre homens e sexo parecem ser estatisticamente verdadeiros.” Eles “querem mais sexo com mais mulheres, masturbam-se com mais frequência, pensam em sexo com mais frequência, têm mais casos e consomem mais pornografia”

Por mais que isso não soe bem, importa notar que reconhecer diferenças de gênero não é o mesmo que tirar conclusões sobre os indivíduos com base nas características gerais reais ou supostas: “É um princípio das democracias liberais que cada pessoa tem o direito de ser vista e tratada como um indivíduo – especialmente se não corresponder à maioria em determinadas características”.

Mas qual seria a explicação biológica para essa diferença do comportamento sexual entre homens e mulheres? O investimento diferenciado dos sexos na reprodução:

“Para os homens, em casos extremos, são cinco minutos de sexo e uma colher de chá de esperma. Para as mulheres, porém, um óvulo precioso, nove meses de gravidez, um parto perigoso e um bebê que precisa ser amamentado por muito tempo.

Isto significa que os homens seriam capazes de aumentar o número de filhos se os seus cérebros estivessem equipados com tendências que o levassem a fazer muito sexo com muitas mulheres. As mulheres, por outro lado, não podiam aumentar o seu número de filhos com muito sexo; só podiam dar à luz um filho a cada nove meses”.

A permanência da diferença de desejo sexual sugere que não se trata de algo que possa ser eliminado socialmente, embora possa e deva ser algo trabalhado de modo a não prejudicar as mulheres, animalizar os homens e conduzir a catástrofes domésticas.

O cérebro, masculino e feminino, sofreu uma série de adaptações durante a nossa filogenia: “a forma como agimos é, em última análise, o resultado de debates confusos entre estes impulsos biológicos, por vezes conflitantes, e as experiências que acumulamos”.

O gênero não é uma construção social

O gênero não é uma construção social. Se as diferenças de gênero se devessem apenas a influências sociais, elas diminuiriam à medida que a igualdade aumenta num país, mas pesquisas recentes mostram que não é isso que está acontecendo.

Schneider cita um estudo que mostra, por exemplo, que com o aumento da igualdade, as mulheres não têm maior probabilidade de seguir uma carreira técnica ou científica, mas menos probabilidade, apesar dos cursos de robótica e das aulas de aritmética para mulheres:

“Na Finlândia, um dos países mais progressistas do mundo, de acordo com o Índice Global de Disparidades de Gênero, pouco mais de vinte por cento das mulheres escolhem uma carreira relacionada com a tecnologia ou a ciência”.

Isso nos leva a outra diferença estável de gênero: homens são mais interessados em coisas e mulheres mais interessadas em pessoas. Aliás, a filósofa e santa Edith Stein, já havia explicado isso de maneira primorosa:

“A atitude da mulher tem em vista o pessoal-vivente e visa o todo. Cuidar, velar, conservar, alimentar e promover o crescimento: esse é seu desejo natural, genuinamente maternal. O inanimado, a coisa lhe interessa, precipuamente, na medida em que está a serviço do pessoal-vivente: menos em si mesma”, escreveu Stein no seu livro A mulher, sua missão segundo a natureza e a graça.

Um homem ou uma mulher comum

A constatação de que a evolução fez coisas diferentes nos cérebros das mulheres e nos cérebros dos homens é importante para que os sexos opostos se compreendam, se respeitem e se complementem.

Infelizmente os jovens não estão sendo educados para entenderem essas diferenças, mas para renegá-las.

Cada pessoa deve ter liberdade para expressar seu gênero de uma forma individual e única, mas “os jovens também deveriam aprender que, para a maioria das pessoas, a identidade sexual está intimamente ligada ao sexo biológico. E devem estar preparados para as diferenças evolutivas quando encontrarem o sexo oposto como um homem ou uma mulher comum”.

10 abril 2024

A Sociedade Fabiana e Seus Membros Atuantes no Passado e no Presente




Autor: Carl Teichrib, Forcing Change, Volume 3, Edição 4.

Desde janeiro de 2008, o mundo voltou sua atenção para o novo presidente americano, Barack Obama. Isto é compreensível, pois o carisma de Obama e seu slogan de campanha, "Mudança", despertaram a imaginação das pessoas nos EUA e em todo o mundo. A "mudança" está acontecendo; em vez de grande governo, existe agora o governo gigante e, em vez de níveis incontroláveis de dívida pública, o que existem agora são níveis inimagináveis de dívida pública. Nas questões mundiais, o presidente Obama assumiu uma posição decisivamente pró-internacional. Mas, Obama é agora um novo ator na política internacional e seu apoio público à governança global — conquanto real e documentável [2] — é relativamente brando em comparação ao seu colega no outro lado do Atlântico. Pelo menos por enquanto...

Se alguém tem sido um pregador da mudança global, este é o primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Desde que assumiu o cargo em 2007, Brown tem apelado incessantemente a um novo internacionalismo. Quando ouvimos seus discursos, parece até que ele está mais interessado em defender uma ONU investida com maiores poderes e um superestado europeu, do que defender uma Grã-Bretanha independente, livre e próspera.

Mas isto tem alguma relevância para aqueles que estão fora do Reino Unido?

Para aqueles que moram na Inglaterra e em outros países europeus – e de certa forma nos países da Comunidade Britânica de Nações — a posição de Brown é entendida: é o desejo de dar à luz uma "internacional socialista" bem-sucedida. Porém, para aqueles que moram em outros lugares, o nome de Gordon Brown pouco importa. Afinal, por que alguém que reside em Cleveland (EUA) se preocuparia com o que o primeiro-ministro britânico diz ou apoia?

Por que a Grã-Bretanha é uma líder global, que exerce enorme influência em seus papéis nas Nações Unidas e na OTAN, e sua contínua liderança na Comunidade Britânica de Nações (um grupo formado por 53 países). Além disso, a Grã-Bretanha é uma das principais detentoras de títulos da dívida do Tesouro dos EUA. Na verdade, o Reino Unido é atualmente o sétimo maior detentor de títulos americanos (os dez maiores, em ordem decrescente, são China, Japão, Centros Bancários do Caribe, países exportadores de petróleo — OPEP, Brasil, Rússia, Reino Unido, Luxemburgo, Hong Kong e Taiwan). [3]. E isso não é nada comparado com o papel que a Grã-Bretanha desempenhou como um agente histórico durante os últimos cem anos ou mais; poucos países moldaram o cenário global como a Grã-Bretanha fez. [4].

E agora o líder britânico está tentando criar uma rota para atravessar a tempestade econômica global. Neste sentido, o país teve a presidência do G20 em 2009. O G20 é um grupo formado pelos Ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais dos vinte países mais industrializados e desenvolvidos; ele é o principal veículo que está sendo usado para nos guiar durante o furacão financeiro; como o mundo funcionará no outro lado será reflexo da visão do G20.

Então a Grã-Bretanha é importante para os moradores de Cleveland ou de qualquer outro lugar fora do Reino Unido? Ela foi importante no passado, é importante hoje e será ainda mais no futuro. Soluções globais são necessárias, ou é isto que nos dizem, para corrigir os problemas globais. O homem que reside no número 10 de Downing Street (NT: A residência oficial do chefe do governo britânico), o primeiro-ministro Gordon Brown acredita piamente nisso. Aliás, ele vê a crise atual como uma oportunidade para introduzir mudança global.

Hoje, a voz dele pode ser ouvida desde o salão do Parlamento Europeu, onde ele propôs recentemente a criação de uma "sociedade realmente global", [5] até o salão do Congresso dos EUA, onde ele proclamou que "devemos aproveitar o momento, porque nunca antes vimos um mundo com tanta vontade de se unir." Como um disco riscado, que repete sempre as mesmas palavras, ele lembrou o Congresso que "a nova verdade comum é que problemas globais requerem soluções globais." [6].

No mundo perfeito de Gordon Brown, como seria isto? Uma pista foi dada no Fórum Econômico Mundial de 2009, em Davos, Suíça (no dia 30 de janeiro, durante a sessão "Renovando o Crescimento Econômico"). Durante a discussão, o moderador dirigiu a Brown uma pergunta ligeiramente capciosa focando na necessidade de um governo mundial. O primeiro-ministro respondeu com uma promoção velada de um governo mundial:

Moderador: "Primeiro-ministro Brown, o Sr. fala muito sobre a necessidade de uma melhor governança global, mas o problema geralmente é que os países não querem abrir mão de sua soberania... Como podermos ter uma governança global sem órgãos globais, supranacionais, que não são bem vistos pelas pessoas no seu país e no meu, os Estados Unidos? Há uma grande desconfiança com relação a essas organizações, como a Organização Mundial do Comércio ou a União Europeia. Seria a solução aqui criar mais organizações desse tipo?
Gordon Brown: "... existem mercados de capital global, existem fluxos financeiros globais, mas só existem supervisores nacionais. E não dá certo quando existem atividades transnacionais e ninguém praticamente sabe o que está acontecendo. E então se descobre durante uma crise, que existem bancos ou instituições financeiras que sempre foram internacionais, mas que agora se encontram em dificuldades e a única forma de socorro existente é nacional e não internacional. Portanto, acredito que as pessoas estão percebendo que a cooperação internacional de que estamos falando é essencial. Estamos em um sistema econômico mundial, como se poderia sequer pensar que é possível resolver crises financeiras globais sem existir um nível de cooperação mundial? Isso me parece absolutamente óbvio."
"O problema é que nossas instituições foram criadas nos anos 1940s e para economias protecionistas, para concorrência limitada, para fluxos de capitais nacionais e não globais. Portanto, temos de remodelar essas instituições…"
"Este é o problema. Ainda não temos instituições internacionais que funcionem bem o suficiente, embora façamos parte de uma economia global, que todos sabem ser global e que não deixará de ser global no futuro. Se não agirmos, as tendências protecionistas se tornarão maiores e falharemos logo no primeiro passo para construir uma nova era global, onde espero que uma economia global levará a uma verdadeira sociedade global."

Grandes Planos para uma Sociedade Global

As ideias de Gordon Brown não são só dele. A Grã-Bretanha, assim como os EUA, possui uma longa história de aspirações a um governo mundial. Clarence Streit, um pioneiro na defesa de uma Federação Atlântica e, posteriormente, um lobista pró-reforma da OTAN, testificou esse fato em seu livro Union Now With Britain, publicado em 1941:
"Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha têm sido, individualmente, grandes defensores de um governo tanto local como geral. Nenhum outro povo provou ter uma mentalidade tão provinciana como esses dois. Ninguém tem feito tanto para estabelecer um governo mundial como nós, americanos e britânicos." [7].

Ao longo das décadas, a liderança global americana incluiu homens como o presidente Woodrow Wilson (criador da Liga das Nações), Samuel Gompers (Organização Internacional do Trabalho), Elihu Root (Corte Internacional), Owen Young (Banco Mundial) e os presidentes Roosevelt e Truman (Organização das Nações Unidas). Comentando sobre essas primeiras instituições, Clarence Streit observou o papel essencial da Grã-Bretanha:
"Para sermos justos, precisamos também admitir que foi principalmente o apoio britânico que permitiu que cada uma dessas quatro experiências inestimáveis em matéria de governo mundial — Liga das Nações, Corte Internacional, OIT e Banco Mundial — se materializassem e não ficassem apenas no papel." [8].

É impossível documentar o alcance das ações globalistas britânicas em apenas um único artigo, mas um exame de alguns indivíduos essenciais será suficiente para demonstrar a dimensão histórica do "pensamento internacional" no Reino Unido.

Por que isto é importante? Porque compreender os alicerces nos dará uma importante plataforma para a observação da visão de "sociedade global" de Gordon Brown, que é hoje o maior defensor de um governo global — mais do que o presidente Obama, mais do que a chanceler alemã Angela Merkel e talvez mais até que o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon. Nos grandes planos de Brown todos nós viveremos sob um sistema socialista de governo mundial.

Vejamos rapidamente três figuras históricas da Grã-Bretanha e a busca delas por uma nova sociedade global.

H. G. Wells

O autor de clássicos como A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1895), O Homem Invisível (1897), e A Guerra dos Mundos (1898) — Wells se interessava profundamente pelo "destino da sociedade humana" e acreditava que a gestão dos seres humanos deveria ser abordada com um pouco de "ciência".

Em 1925, Wells publicou uma série de artigos em um volume intitulado A Year of Prophesying (Um Ano de Profetização), em que propôs uma economia e um sistema político únicos para todo o mundo: "Apoio o controle mundial da produção, do comércio e do transporte, uma moeda mundial e a confederação da humanidade. Sou a favor de um superestado..." [9].

Tenha em mente que isto foi durante a época da Liga das Nações, a primeira grande experiência de cooperação transnacional. Mas, H. G. Well não ficou satisfeito com a Liga. Em sua visão, o objetivo final da Liga não estava sendo aproveitado:

"Sou hostil à presente Liga das Nações, porque desejo a Confederação da Humanidade."
"Não acho que as possibilidades obstrutivas da existente Liga das Nações sejam suficientemente compreendidas pelas pessoas de mente progressista de todo o mundo. Não acho que elas percebem o quão eficazmente a Liga pode ser usada como uma forma de consumir e dispersar a energia criativa que, de outro modo, nos levaria adiante rumo à Confederação do Mundo."
"A Liga das Nações que vimos em nossas visões naqueles anos turbulentos, mas criativos de 1917 e 1918, deveria ter sido um verdadeiro passo adiante nas questões humanas..."
"A Liga que queríamos era para ter sido a primeira conferência ampla que nos levaria a um governo federal para todo o mundo." [10].

A abordagem de Wells à existente soberania dos estados-nações também era antagônica:

"O mundo é um remendo de campos de prisioneiros de tamanhos variados chamados de Estados Soberanos Independentes... Mas, virá o dia... quando os únicos passaportes no mundo estarão ao lado de ídolos astecas, dos instrumentos de tortura e de outras relíquias de superstição em nossos museus de história." [11]
Wells acreditava e trabalhava em prol de uma "conspiração aberta" para uma revolução mundial. Em 1928, ele publicou um livro intitulado Open Conspiracy: Blueprints for a World Revolution (Conspiração Aberta: Modelos Para uma Revolução Mundial), no qual afirmava que uma revolução mundial levaria a um supergoverno global. Para ele, essa era "a verdade e o caminho de salvação". [12].

Considere o seguinte excerto de "Conspiração Aberta" e veja se há alguma semelhança com o que vemos hoje:

"O caráter da conspiração aberta agora será claramente demonstrado. Ela se tornará um grande movimento mundial, tão disseminado e evidente quanto o socialismo e o comunismo. Ela tomará o lugar desses movimentos quase que completamente. Ela será algo mais, será uma religião mundial. Essa grande e ampla massa assimilatória de grupos e sociedades estará definitiva e obviamente tentando engolir toda a população do mundo e se tornará a nova comunidade humana." [13].
Outros livros, como o seu monumental Outline of History (Um Estudo em Tópicos da História), apontavam para a vindoura esperança de um supergoverno mundial. Entretanto, perto do fim de sua vida, Wells perdeu muito do otimismo de sua "Conspiração Aberta". Após ter vivido e visto a devastação de Londres durante os ataques aéreos na Segunda Guerra, ele percebeu que o poder do homem em realizar a guerra era grande demais para ser superado. A conclusão foi tão problemática para Wells que em edições modernas desse livro, seus pensamentos sobre a sociedade mundial prevista foram removidos. [14].

Apesar de sua posição alterada no fim da vida, as primeiras obras literárias de Wells tiveram uma grande influência na formulação de uma ideologia globalista.


O primeiro-ministro Churchill foi, e ainda é, o símbolo mais visível da Inglaterra como uma nação soberana no ardor da crise. Por causa de sua determinação de buldogue, os cidadãos de seu país foram capazes de se unir contra o ataque nazista na Segunda Guerra Mundial. Hoje, Churchill é o principal ícone do Partido da Independência do Reino Unido, um corpo político pró-nacional e contrário à União Europeia. Embora essa imagem de independência seja legítima no contexto da Segunda Guerra, havia muito mais para o Sr. Churchill. [15].

É interessante observar que, apesar de o "buldogue" não concordar com uma organização política conhecida como Sociedade Fabiana, que defendia uma ordem mundial socialista, [16] ele abraçava claramente a visão de um governo mundial. Durante um discurso em setembro de 1943 sobre a "União Anglo-Americana" na Universidade de Harvard, Churchill declarou o seguinte:
"Estou aqui para lhes dizer que não importa a forma que seu sistema de segurança mundial possa ter, por mais que as nações estejam agrupadas e alinhadas, por mais que se fale contra a soberania nacional e a favor de uma síntese maior, nada funcionará solidamente, ou por muito tempo, sem o esforço conjunto dos povos britânico e americano." [17].

Esse "sistema de segurança mundial" se tornou a ONU, na qual Churchill teve um papel fundamental, junto com Stalin, Roosevelt e Truman. No entanto, a posição de Churchill a respeito de um governo mundial veio para o primeiro plano de fato após a criação da ONU. Indo além, o buldogue ligou diretamente um governo mundial à criação de um novo superestado europeu.
"A criação de uma ordem mundial investida de autoridade e de plenos poderes é o objetivo máximo pelo qual devemos lutar. A não ser que um supergoverno mundial eficaz seja estabelecido e colocado em ação rapidamente, as perspectivas de paz e de progresso humano são obscuras e duvidosas."
"Mas, que não haja erro quanto à questão principal. Sem uma Europa unida não existe perspectiva segura de governo mundial. Este é o passo urgente e indispensável para a realização desse ideal." [18].

Ele também fez comentários similares ao público na Universidade de Westminster, em Fulton, Missouri, e na Universidade de Zurique, na Suíça. [19]

O envolvimento direto de Churchill na criação da ONU e seu apoio declarado a um "supergoverno mundial eficaz" fez com que a Associação da Federação Mundial o listasse como um dos líderes históricos que abriram o caminho para um movimento globalista moderno. [20].

Com certeza, há mais na história de Churchill do que apenas determinação e capacidade de unir seu país diante da adversidade. Como Wells, Churchill estava comprometido com uma mudança global em uma escala muito maior.

Bertrand Russell

Tido por muitos como o pensador progressista mais importante do século passado, Bertrand Russell foi reconhecido mundialmente por suas contribuições à filosofia, à política e na defesa da paz. [21]. Ele escreveu mais de trinta livros, fez inúmeras palestras e buscou abertamente o objetivo de uma autoridade mundial centralizada.

Membro de uma longa linhagem de políticos progressistas britânicos, [22] o jovem Russell também adotou uma visão progressista/esquerdista do mundo — indo tão longe que abraçava filosoficamente o comunismo, ao mesmo tempo que considerava detestáveis as práticas do governo soviético. [23]. Após visitar a União Soviética com uma delegação especialmente organizada do Partido Trabalhista, Russell escreveu: "As ideias fundamentais do comunismo não são de forma alguma impraticáveis, e contribuiriam muito, se realizadas, para o bem-estar da humanidade." [24]. Isso não é surpreendente, já que Russell reconhecia que "O verdadeiro comunista é profundamente internacional." [25].

Bertrand Russell também associava "controle populacional" com mudança mundial radical. Suas ideias de redução populacional tinham um toque distintamente apocalíptico. Considere um trecho de uma palestra feita na Sociedade Real de Medicina, em Londres, Inglaterra:

"Não quero dizer que o controle de natalidade seja a única maneira pela qual a população pode ser contida. Existem outras, as quais, devemos supor, os oponentes do controle de natalidade prefeririam. A guerra, como disse há pouco, tem até agora sido decepcionante nesta questão, mas talvez a guerra bacteriológica possa provar ser mais eficaz. Se uma peste negra pudesse se espalhar pelo mundo uma vez a cada geração, então os sobreviventes poderiam procriar livremente sem encher demais o mundo. Não há nada nisto que ofenda as consciências dos devotos ou que restrinja as ambições dos nacionalistas. O estado de coisas pode ser um pouco desagradável, mas e daí? As pessoas de mente elevada são indiferentes à felicidade, especialmente à felicidade dos outros." [26].

Russell prosseguiu oferecendo uma solução global para o problema global:
"... a não ser que exista um governo mundial que garanta controle de natalidade universal, é necessário haver de tempos em tempos grandes guerras, nas quais a pena pela derrota seja a morte pela fome... As duas grandes guerras que vivenciamos reduziram o nível de civilização em muitas partes do mundo, e a próxima com certeza realizará mais nesse sentido. A não ser que em algum ponto, uma potência, ou grupo de potências, surja vitoriosa e comece a estabelecer um governo mundial único com o controle total das forças armadas, é claro que o nível da civilização continuará a declinar..."
"A necessidade de um governo mundial, se quisermos resolver o problema da população de uma forma humana, é completamente evidente com base nos princípios darwinistas." [27].

Os pensamentos de Russell com relação à tirania eram igualmente perturbadores:

"Dada uma organização mundial econômica e politicamente estável, mesmo se, a princípio, ela repousar sobre nada a não ser força bruta, os males que agora ameaçam a civilização diminuiriam gradualmente e uma democracia mais ampla que a existente poderá se tornar possível. Acredito que, devido à insensatez humana, um governo mundial será estabelecido apenas pela força e será, portanto, cruel e despótico no início. Mas, acredito que isso seja necessário para a preservação de uma civilização científica e que, se realizado, gradualmente dará lugar a outras condições toleráveis de existência. [28].

"Tolerável" a quem? Àqueles que detêm a autoridade máxima sobre a vida e a morte em um regime global? Lembre-se, este homem é considerado como um dos maiores pensadores do século XX. É interessante que Bertrand Russell também via a arena educacional como parte da estrutura de controle autoritária global:
"...a fisiologia [a ciência que estuda as funções dos organismos vivos] descobrirá, com o tempo, maneiras de controlar as emoções, o que é difícil de duvidar. Quando esse dia chegar, teremos as emoções desejadas por nossos líderes e o principal objetivo da educação fundamental será produzir a disposição desejada... O homem que administrar esse sistema terá um poder muito além dos sonhos dos jesuítas..." [29].
O Socialista Fabiano Gordon Brown

A mensagem do primeiro-ministro Gordon Brown de uma "sociedade global" está enraizada em um movimento que se estende por mais de cem anos, desde H. G. Wells, Churchill e Bertrand Russell. Mas, existe outra ligação que vai além de aspirações visionárias — uma que une o ideal intelectual de uma comunidade mundial com o poder político de fato.

Há mais de um século que a Sociedade Fabiana — mencionada anteriormente neste artigo — tem feito avançar o socialismo nos níveis nacional (na Grã-Bretanha) e internacional. O emblema da sociedade é a tartaruga, uma proclamação de que "devagar, mas com constância" se ganha a corrida. Mas, qual é a linha de chegada?

Uma das exposições mais notáveis feitas sobre a Sociedade Fabiana foi o livro Fabian Freeway, de Rose L. Martin, publicado em 1968. [30]. Rose documenta claramente que o objetivo dos fabianos é o socialismo internacional e liga o grupo a uma miríade de organizações interconectadas e movimentos que trabalham com objetivos parecidos. Portanto, não é surpreendente descobrir que H. G. Wells foi um membro da Sociedade — apesar de ter deixado o grupo, frustrado com sua metodologia — e que Bertrand Russell participou da Sociedade Fabiana durante certo tempo.


Desde sua origem em meados de 1880, a Sociedade Fabiana tem sido a força motriz do movimento político e intelectual inglês para o socialismo internacional. A sociedade fundou a Escola de Economia de Londres (LSE, de London School of Economics), uma universidade reconhecida mundialmente e que se concentra em questões econômicas, políticas e sociais. Na verdade, no dia 20 de abril de 2006, o primeiro-ministro Tony Blair apresentou "o vitral fabiano perdido" durante uma cerimônia na LSE. Esse vitral apresenta os líderes fabianos usando martelos para esmiuçar um globo colocado sobre uma bigorna: é a recriação do mundo. [31]. Junto ao topo da janela está escrito: "Remodele-o conforme o desejo do coração." H. G. Wells é visto de um dos lados da gravura e um grupo de membros está rezando diante de uma pilha de textos teóricos de sociologia. O que é realmente significativo é o brasão acima do globo que está sendo remodelado: Um lobo em pele de cordeiro.

O vitral foi apresentado pela primeira vez pelo primeiro-ministro Clement Attlee, do Partido Trabalhista, que esteve no cargo de 1945 a 1951, e depois foi reapresentado em 2006 por outro líder trabalhista, Tony Blair. [32]. Isso não deveria surpreender; afinal, a Sociedade Fabiana foi a principal planejadora do Partido Trabalhista. Como o fundador da Sociedade Fabiana, Sidney Webb, explicou com relação à ligação entre a Sociedade e o Partido: "A Sociedade Fabiana participou desde a primeira reunião [do partido] e tem desde então formado uma parte constituinte de sua organização." [33]. Portanto, desde a criação do partido, todos os primeiros-ministros trabalhistas foram membros da Sociedade Fabiana. [34].

Essa ligação íntima entre os fabianos e os trabalhistas explica porque o Manifesto Eleitoral do Partido Trabalhista de 1964 é tão... descarado.

"... o Partido sempre... permaneceu fiel à sua crença de longa data no estabelecimento de cooperação Leste-Oeste [Nota: Isto se refere à Rússia e ao Ocidente] como base para uma ONU fortalecida se desenvolvendo em direção a um governo mundial..."
"Para nós, o governo mundial é o objetivo final – e as Nações Unidas são o instrumento escolhido pelo qual o mundo pode se afastar da anarquia do poder político rumo à criação de uma comunidade genuinamente global e ao império da lei." [35].

Outros Manifestos Eleitorais do Partido Trabalhista Britânico falam em formar uma comunidade mundial, fortalecendo as Nações Unidas, e defendendo um sistema de leis internacionais relacionadas: isto é governança global — a peça central do gerenciamento mundial.

Não é de se admirar que o primeiro-ministro Brown tenha feito tantos discursos nos últimos dois anos defendendo uma sociedade global — isto está na essência de seu partido e é o ideal fabiano. Como Brown explicou em sua palestra de 2008 no Memorial Kennedy, em Boston:
"Pela primeira vez na história temos a oportunidade de nos unirmos em torno de um pacto global, para reestruturarmos a arquitetura internacional e construirmos uma sociedade realmente global." [36].

Se ainda estivessem vivos, H. G. Wells, Winston Churchill, Bertrand Russell e os fundadores da Sociedade Fabiana ficariam orgulhosos. Brown e seus camaradas estão falando àqueles que têm ouvidos para ouvir: A "sociedade global" sonhada há tanto tempo está bem próxima.

Todos aqueles que prezam a liberdade precisam acordar, pois a "mudança" está vindo.


Notas Finais

1. Clarence K. Streit, Union Now With Britain (Nova York: Harper and Brothers Publishers, 1941) pág. 124. A ideia de Clarence Streit de combinar os EUA com a Comunidade Britânica de Nações para criar um governo mundial regional chamou muita atenção e ganhou enorme apoio dos governos americano e britânico da época. A OTAN de hoje foi parcialmente fundada com base no conceito da união proposta por Streit.

2. Um exemplo é sua promoção da Lei de Pobreza Global, enquanto ainda era um senador. Para ver mais sobre este assunto, veja o artigo de Tom DeWeese, "Barak Obama & the UN’s Drive for Global Governance", em http://www.newswithviews.com/DeWeese/tom114.htm.

3. Para uma lista atual dos portadores de títulos do Tesouro dos EUA, veja a publicação mais recente de dados do Departamento do Tesouro Americano emhttp://www.treas.gov/tic/mfh.txt.

4. Para informações sobre o papel da Grã-Bretanha em moldar assuntos internacionais, veja os dois livros de Carroll Quigley, Tragedy and Hope: A History of the World in Our Time(1966) e The Anglo-American Establishment (1981). O envolvimento do Reino Unido na mudança colonial também não pode ser ignorado. Do Oriente Médio até o Pacífico e a África, a Grã-Bretanha deixou suas impressões digitais bem marcadas nas páginas da história moderna.

5. Primeiro-ministro Gordon Brown, Discurso Diante do Parlamento Europeu, 24 de março de 2009, http://www.number10.gov.uk/Page18718.

6. Discurso do primeiro-ministro britânico Gordon Brown na sessão conjunta do Congresso dos EUA, 4 de março de 2009, http://www.number10.gov.uk/Page18506.

7. Clarence K. Streit, Union Now With Britain (Nova York: Harper and Brothers Publishers, 1941), pág. 124.

8. Idem, pág. 123.

9. H. G. Wells, A Year of Prophesying (Toronto: Ryerson Press, 1925), pág. 86.

10. Idem, págs. 9-10.

11. Idem, pág. 86.

12. H. G. Wells, The Open Conspiracy: Blue Prints for a World Revolution (Garden City, 1928) pág. ix.

13. Idem, pág. 163.

14. Veja a nota final nas novas edições revisadas de The Outline of History. Compare com a nova versão com a edição de três volumes de 1940-1941.

15. Veja Leftism: From De Sade and Marx to Hitler and Marcuse, de Erik Von Kuehnelt-Leddihn para um exame de como Winston Churchill jogava nos dois lados, conservador/progressista.

16. Veja Fabian Freeway: High Road to Socialism in the USA, de Rose L. Martin, para mais informações sobre o papel e a influência dos fabianos nas questões políticas europeias e americanas. Leftism, de Von Kuehnelt-Leddihn, também contém algumas informações importantes sobre a Sociedade Fabiana e seu papel internacional na agenda socialista global.

17. Churchill Speaks, 1897-1963: Collected Speeches in Peace and War (Nova York: Barnes and Noble, 1980) pág. 817.

18. Idem, pág. 913. Discurso intitulado "Europa Unida," 14 de maio de 1947, Albert Hall, Londres, Reino Unido.

19. Idem, pág. 878/893, "Os Tendões da Paz", 5 de março de 1946, Fulton, Missouri, "A Tragédia da Europa," 19 de setembro de 1946, Universidade de Zurique, Suíça.

20. Guia de Ativistas da Associação da Federação Mundial, Seção 1, pág. 15.

21. Bertrand Russell foi um gigante no campo da filosofia e política. Por causa das complexidades de sua vida e crenças, é completamente impossível justificar o assunto em um artigo limitado em espaço como este. Sugiro a leitura dos próprios escritos de Russell para ter uma noção do escopo de sua vida, e ler as várias biografias e comentários. Alguns de seus trabalhos mais obscuros estão entre os mais reveladores, como The Impact of Science on Society (1953).

22. O avô dele foi primeiro-ministro e seu pai foi um membro do Parlamento por pouco tempo (ele morreu prematuramente). Outros em sua família estiveram envolvidos na política britânica e na alta sociedade inglesa. Para uma breve introdução das raízes políticas da família de Russell, veja Alan Ryan, Bertrand Russell: A Political Life (Oxford University Press, 1988).

23. Veja Bertrand Russell, The Practice and Theory of Bolshevism; Sidney Hook, Political Power and Personal Freedom (B. R. tem algumas correspondências interessantes publicadas aqui); Alan Ryan, Bertrand Russell: A Political Life.

24. The Practice and Theory of Bolshevism, págs. 23-24, 117.

25. Idem., pág. 30.

26. Bertrand Russell, The Impact of Science on Society (Nova York: Simon and Schuster, 1953), págs. 103-104.

27. Idem, pág. 105.

28. Bertrand Russell, The Future of Science (Nova York: Wisdom Library, 1959), págs. 33-34.

29. Idem, pág. 46.

30. Rose L. Martin, Fabian Freeway: High Road to Socialism in the USA (Fidelis Publishers, 1968). Para mais informações sobre a Sociedade Fabiana, veja o livro The Story of the Fabian Socialism, de Margaret Cole (Stanford University Press, 1961) e Fabian Essays in Socialism (Sociedade Fabiana, 1908).

31. Escola de Economia de Londres, "A Piece of Fabian History Unveiled at LSE", 20 de abril de 2006. Comunicado à imprensa.

32. Idem.

33. Fabian Essays in Socialism, edição de 1920, pág. xv. Introdução de novembro de 1919 à coleção de ensaios.

34. Sobre a Sociedade Fabiana, (http://www.fabians.org.uk/about-the-fabian-society).

35. Manifesto Eleitoral de 1964 do Partido Trabalhista: "A Nova Grã-Bretanha." (O texto na íntegra pode ser encontrado em http://www.labour-party.org.uk/manifestos/1964/1964-labour-manifesto.shtml).

36. Você pode ler trechos selecionados desse discurso em Developments, Edição 42, pág. 4. Developments é a revista oficial do Departamento de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido.


02 janeiro 2024

Claudine Gay, reitora de Harvard, renuncia. (2 textos)

 


Reitora de Harvard renuncia após polêmicas de plágio e antissemitismo

02 JANEIRO 2024 3min de leitura

A reitora de Harvard, Claudine Gay, renunciou nesta terça-feira, 2, em meio a acusações de plágio e críticas sobre a forma como lidou com o antissemitismo no campus da prestigiada universidade americana após o conflito em Gaza. Claudine, a primeira presidente negra de Harvard, anunciou sua saída poucos meses após seu mandato, em uma carta à comunidade de Harvard.

A acadêmica se viu envolvida em polêmicas depois de se recusar a dizer inequivocamente se o apelo ao genocídio dos judeus violava o código de conduta de Harvard, durante uma audiência no Congresso ao lado dos reitores do MIT e da Universidade da Pensilvânia, no mês passado. Os três presidentes haviam sido convocados para responder às acusações de que as universidades não estavam protegendo os estudantes judeus em meio aos crescentes temores de antissemitismo.

Claudine disse que dependia do contexto, acrescentando que quando “a fala se cruza com a conduta, isso viola as nossas políticas”. A resposta enfrentou uma rápida reação por parte dos legisladores republicanos e de alguns legisladores democratas, bem como da Casa Branca. Mais tarde, Claudine pediu desculpas, dizendo ao jornal estudantil The Crimson que ela se envolveu em uma discussão acalorada na audiência.

“O que eu deveria ter tido a presença de espírito de fazer naquele momento era retornar à minha verdade orientadora, que é que os apelos à violência contra a nossa comunidade judaica – ameaças aos nossos estudantes judeus – não têm lugar em Harvard e nunca permanecerão incontestados. “, disse.


Acusações de plágio

Após a audiência no Congresso, a carreira acadêmica de Claudine ficou sob intenso escrutínio por ativistas conservadores que desenterraram vários casos de suposto plágio em sua tese de doutorado de 1997. O conselho administrativo de Harvard inicialmente apoiou a então reitora, dizendo que uma revisão de seu trabalho acadêmico revelou “alguns casos de citação inadequada”, mas nenhuma evidência de má conduta de pesquisa.

Dias depois, a Harvard Corporation revelou que encontrou dois exemplos adicionais de “linguagem duplicada sem atribuição apropriada”. O conselho disse que ela atualizaria sua dissertação e solicitaria correções.

Claudine Gay, que fez história como a primeira negra a dirigir a poderosa universidade de Cambridge, Massachusetts, disse em sua carta de demissão que foi vítima de ataques pessoais e racismo.

“Tem sido difícil ver o meu compromisso de enfrentar o ódio e defender o rigor acadêmico ser questionado... e aterrorizante ser alvo de ataques pessoais e ameaças alimentadas pelo racismo”, escreveu. Mas ela, que voltará ao corpo docente da universidade, acrescentou “ficou claro que é do interesse de Harvard que eu me demita para que a nossa comunidade possa navegar neste momento de desafio extraordinário”.

A Harvard Corporation disse que a demissão veio “com grande tristeza” e agradeceu a Claudine por seu “compromisso profundo e inabalável com Harvard e com a busca pela excelência acadêmica”.

  • Alan M. Garber, reitor e diretor acadêmico, atuará como reitor interino até que Harvard encontre um substituto, informou o conselho em comunicado. Garber, economista e médico, atuou como reitor por 12 anos.

Saída celebrada por republicanos


Mais de 70 legisladores, incluindo dois democratas, pediram a renúncia. Vários ex-alunos e doadores importantes de Harvard também pediram sua saída. Mesmo assim, mais de 700 professores de Harvard assinaram uma carta de apoio à chanceler.

A demissão de Claudine foi celebrada pelos conservadores que colocaram o seu alegado plágio no centro das atenções nacionais. Christopher Rufo, um ativista que ajudou a mobilizar o Partido Republicano contra a teoria racial crítica e outras questões culturais, disse estar “feliz por ela ter partido”.

“Em vez de assumir a responsabilidade de minimizar o antissemitismo, cometer plágio em série, intimidar a imprensa livre e prejudicar a instituição, ela chama seus críticos de racistas”, disse Rufo no X, antigo Twitter. Rufo acrescentou que “este é o veneno” da ideologia da diversidade, da equidade e da inclusão./AFP e Associated Press.


A armadilha identitária

Jerônimo Texeira para a Crusoé (29/12/2023)

Em seu discurso de posse, Jair Bolsonaro afirmou que seu governo vinha liberar o Brasil do “politicamente correto”. Qualquer que fosse seu entendimento da expressão, é certo que ele fracassou nesse intento: sob outros nomes e roupagens, a entidade que atendia pelo nome de “politicamente correto” seguiu viva e vigorosa ao longo dos quatro anos em que o bolsonarismo esteve no poder. Talvez tenha até vicejado com mais força nesse período: a presença de um inimigo declarado no Planalto renovou suas energias.

Neste ano que se encerra, sob o terceiro reinado de Lula, ela ganhou alguns carguinhos desdenhados pelo Centrão, que lhe servem bem para fazer barulho e causar pequenos constrangimentos ao governo (lembram da assessora da secretaria de Igualdade Racial tuitando sobre a branquitude da torcida do São Paulo?). Em sua origem e centro irradiador, a universidade americana (ou “estadunidense”, na linguagem decolonial), os vexames vêm sendo bem mais sérios, o que levou os otimistas a anunciar seu ocaso.

O “politicamente correto” nunca teve contornos conceitualmente bem definidos, e desconfio que a expressão está caindo em desuso. Muito empregada por pessoas de direita para ridicularizar certos adversários do campo oposto, ela era uma forma demasiado genérica para se referir a um conjunto de ideias caras à esquerda pós-moderna que se preocupa mais com minorias étnicas e sexuais do que com o esquecido proletariado. Ao tempo em que o termo se popularizou, os corretos da política formavam (formam ainda, em novas configurações) uma corrente política cuja ação se concentrava na vigilância feroz sobre a linguagem cotidiana, tendência que chegou a seu paroxismo com a chamada “linguagem neutra”.

(Já que falamos de linguagem, um aparte estilístico: com seu pesado adjetivo de modo e um adjetivo fazendo as vezes de substantivo, “politicamente correto” é quase tão canhestro quanto “estadunidense“. “Correção política” seria mais simples e elegante. Mas não adianta protestar contra uma expressão já consagrada – e desgastada. Adiante.)

Hoje, essa esquerda é mais conhecida por termos que seus próprios adeptos empregam. Em inglês, eles se dizem woke (despertos, alertas). De forma mais precisa e frequente, diz-se que eles professam uma ideologia identitária, cuja prática política centra-se obsessivamente em certas identidades étnicas e de gênero. Em O progressista de ontem e do amanhã, Mark Lilla, cientista político da Universidade Columbia, observa um tique linguístico que sintetiza bem o modo de pensar identitário: a mania de abrir uma frase opinativa com uma declaração de identidade. “Como uma mulher trans, eu me sinto ameaçada por J.K. Rowling e Dave Chappelle.” “Como homem negro, eu me sinto ofendido com críticos literários brancos que não gostam de Torto arado.” (Os exemplos são meus, não de Lilla.)

Não se trata de uma fórmula anódina, diz Lilla. Ela serve para dizer ao interlocutor que a pessoa que fala ocupa uma posição especial na hierarquia dos oprimidos. “Digo isso como X” levanta “uma muralha contra questionamentos que, por definição, vem de uma perspectiva não-X”. Quando lançada na mesa, portanto, a carta identitária vem encerrar a discussão e calar o dissensão: quem não pertence ao grupo X não tem lugar na conversa. E quem pertence ao grupo X mas reivindica o direito de pensar fora dos parâmetros identitários torna-se um completo pária.

Desvela-se nessa simples expressão a natureza sectária do identitarismo – e também seu ímpeto censório, que é mais disseminado e opressivo do que eventuais “cancelamentos” de celebridades do showbiz deixam perceber.

Nos seis anos desde que Lilla publicou sua breve mas incisiva crítica à esquerda identitária, essa corrente transbordou de vez do ambiente acadêmico onde foi incubada para tomar boa parte da grande imprensa, do mundo das artes e de muitas empresas (na sigla ESG, o S de “social” às vezes pode ser trocado pela letra I). Também passou a ditar políticas públicas nos Estados Unidos, sobretudo na educação. O percurso dos nichos universitários mais radicais para o centro da vida pública está minuciosamente mapeado em The identity trap (A armadilha identitária, título que peguei emprestado para este artigo), obra lançada este ano pelo cientista político americano (nascido na Alemanha) Yascha Mounk, da Universidade Johns Hopkins, entrevistado por Caio Mattos em um número recente de Crusoé. Ao amálgama ideológico formado por ideias nem sempre bem digeridas de Frantz Fanon, Michel Foucault e Edward Said combinados a posts militantes nas redes sociais (em The identity trap, descobrimos que o hoje esvaziado Tumblr teve um papel inusitado nessa história), Mounk deu o nome de “síntese identitária”, expressão sóbria que não caberá no palanque de um Bolsonaro ou Trump (Mounk, aliás, é um analista acurado do novo populismo).

A ambição um tanto “sonhática” de The identity trap é resgatar o universalismo que, diz Mounk, faz parte da tradição da esquerda internacional e do movimento por direitos civis americano. No lugar de nos isolarmos no casulo identitário, deveríamos nos encontrar no campo comum de nossa humanidade. Isso não exige, aliás, que abdiquemos de nossa herança cultural ou de nossa identidade étnica. É o contrário: o identitarismo é que limita seus adeptos à clausura de uma ideia reduzida de identidade.

Entre os críticos mais consistentes do identitarismo, estão vários pensadores alinhados à esquerda – de progressistas moderados como Jonathan Haidt, John McWhorter e os já citados Lilla e Mounk a marxistas como Adolph Reed, Freddie DeBoer e o performático Slavoj Zizek (que citei em “O futuro será woke”, texto publicado em junho). A reação típica do povo woke a esses críticos vai do etarismo explícito – são todos boomers aferrados aos preconceitos d’antanho – à reivindicação de um estatuto moral angélico – como podem nos criticar, se estamos lutando por justiça social no TikTok?

Do meu modesto “lugar de fala” de homem branco politicamente desencantado, venho criticando a tara identitária há uns bons anos, em veículos diversos. Aqui em Crusoé, o melhor texto que publiquei a respeito foi, creio, “Crônicas da histeria progressista”, exame de três casos exemplares de insanidade woke no universo das artes e do showbiz. Tenho atacado sobretudo o gosto perverso que os identitários têm pela censura. Nos Estados Unidos, há até quem deseje revisar ou revogar a primeira emenda da Constituição, pilar da liberdade de expressão.

Há quem diga que eu poderei mudar de assunto em breve. Pois o ataque terrorista a Israel em 7 de outubro expôs uma rachadura no monólito da santimônia identitária: ficou claro que, no ideário da turma, a vítima tem sempre razão, a não ser que tal vítima seja um judeu. Em universidades de elite dos Estados Unidos, os novos progressistas fizeram protestos e manifestos contra Israel e não raro em favor do Hamas. Estudantes judeus foram hostilizados e agredidos. O antissemitismo escancarado tomou como pretexto a defesa da Palestina contra a agressão “colonial” dos sionistas. Muitas dessas manifestações, porém, começaram antes do ataque de Israel à Faixa de Gaza. Os velhos e crianças brutalmente assassinados, as jovens estupradas e sequestradas, os pacifistas reunidos em uma rave exterminados só por serem judeus – nenhum deles mereceu uma só palavra de solidariedade. Na hierarquia identitária, um dos povos historicamente mais perseguidos da história não pode ser contado entre as minorias oprimidas. O judeu é o supremo supremacista branco: inapelavelmente rico, opressor, colonialista.

Alguns figurões empresariais que faziam vultosas doações a universidades fecharam a torneira, condicionando o retorno dos investimentos a providências efetivas contra o antissemitismo. Chamados a depor no Congresso, os reitores não tiveram resposta satisfatória. A alegação de que não se pode coibir o direito de manifestação no campus não para de pé. Como bem observou John McWhorter no The New York Times, as mesmas universidades que coibiam qualquer palavra que pudesse causar “desconforto” aos estudantes negros – uma superproteção que configura uma forma de racismo, diz o autor – consideram permissível que alunos marchem pelo campus pedindo o genocídio dos israelenses. McWhorter, a propósito, é negro.

A reitora da Universidade da Pennsylvania renunciou ao posto, e a reitora de Harvard saiu desmoralizada do episódio (e de acusações subsequentes de plágio em artigos acadêmicos). Houve quem comemorasse tudo isso como um potencial momento de virada: o reino de idiotia e censura do woke estaria chegando ao fim nas universidades. Mas o identitarismo, tendo consolidado posições de mando na educação, não será desalojado tão facilmente. A mudança, se vier, será lenta.

Há outro fator de peso a considerar: Donald Trump tem boas chances de se eleger presidente no ano que vem. Mounk, entre outros analistas, tem observado um patológico mecanismo de retroalimentação entre o progressismo identitário e o populismo de direita, dois monstros censórios e autoritários. Bolsonaro deveria ter agradecido o “politicamente correto”: foi um grande cabo eleitoral.

Fatalmente, voltarei a falar do assunto em 2024. Feliz ano novo, leitor.


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