Primeira reportagem de Fernando Morais, constante do livro "Cem Quilos de Ouro".
1. Cem quilos de ouro
No final de 1988 eu trabalhava na pesquisa e
nas entrevistas que iriam se transformar no livro Chatô, o
rei do Brasil. Certa noite, em um jantar com amigos, o
advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira contou que acabara de voltar da Bahia,
onde vivera uma dramática experiência. Seu irmão mais novo, o empresário
Guilherme Affonso Ferreira, o Willy, fora libertado depois de passar cinco dias
em poder de seqüestradores, que exigiam nada menos que cem quilos de ouro para
libertá-lo.
Naquela época os seqüestros não eram um crime
tão comum quanto hoje (o mais célebre deles, o do empresário paulista
Abílio Diniz, só aconteceria um ano depois). Mas como esse teve lugar na Bahia, acabou
recebendo uma cobertura discreta nos jornais do Rio e de São Paulo. Pedi a
Manuel Alceu que consultasse o irmão para saber se aceitaria contar os detalhes
do seqüestro para uma reportagem. Com o sinal verde da Bahia, ofereci a matéria
a Juca Kfouri, diretor de redação da revista Playboy, e me preparei para ir a Salvador. Na véspera
do embarque, porém, recebi um inesperado telefonema do governador de São Paulo,
Orestes Quércia, que eu não via desde sua eleição, em 1986:
— Vou reformular meu secretariado e estou te
convidando para ser o novo secretário da Cultura do Estado.
Pedi um tempo para pensar e consultar a
família, mas ele foi peremptório:
— Nada feito. A posse dos novos secretários
será daqui a três dias e você tem que decidir agora. É pegar ou largar.
Pegar significava largar a matéria que já me
deixava com água na boca. Contei a história do seqüestro e propus uma solução
de compromisso: eu aceitava o convite, desde que pudesse ir para a Bahia atrás
da reportagem. Ele podia me nomear, mas minha posse ficaria adiada por cerca de
dez dias.
Desembarquei em Salvador já com meu nome
publicado no Diário Oficial de São Paulo. Eu pressentia que, apesar de ser
um ótimo assunto, essa não seria uma reportagem trabalhosa.
Na verdade, foram menos de quatro dias de
trabalho ininterrupto: tomei um longo e minucioso depoimento de Willy, ouvi os
policiais e as pessoas da família encarregadas das negociações (entre
elas o irmão Manuel Alceu), falei com gerentes de bancos e donos de supermercados,
reconstituí o trajeto de Willy antes que fosse apanhado pelos criminosos, fiz uma
pesquisa nos jornais e nos arquivos da polícia de Salvador e retornei a São
Paulo. Cinco dias depois o texto estava na redação de Playboy.
Realizado em dezembro de 1988 e publicado em
fevereiro de 1989, “Cem quilos de ouro” seria meu último trabalho como repórter
antes do retorno à política. Só quase quatro anos depois, em 1992, é que eu
voltaria a escrever.
Leia a reportagem clicando na capa do livro abaixo:

