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21 agosto 2024

A Doninha e o Homem (Fedro - Fábulas)


 


Original latino: Phaedrus I, XXII. Mustela et Homo

Tradução para o português: Antônio Inácio de Mesquita Neves (Editora Átomo, 2ª edição)


Mustela ab homine prensa, cum instantem necem
effugere vellet, 'Parce, quaeso', inquit 'mihi,
quae tibi molestis muribus purgo domum'.
Respondit ille 'Faceres si causa mea,
gratum esset et dedissem veniam supplici.
Nunc quia laboras ut fruaris reliquiis,
quas sunt rosuri, simul et ipsos devores,
noli imputare vanum beneficium mihi'.
Atque ita locutus improbam leto dedit.
Hoc in se dictum debent illi agnoscere,
quorum privata servit utilitas sibi,
et meritum inane iactant imprudentibus.


Dum Homem presa, a Doninha

Como fugir pretendesse

À morte instante e mesquinha

Que talvez não merecesse,

Assim lhe fala: – "Que causa

Te induz a me maltratar,

Se para bem teu, sem pausa,

Limpo dos ratos teu lar?"

Ele então: – "Se o que tens feito

Fosse só por meu respeito,

Ser-me-ia muito agradável,

Rendendo à justiça preito,

Deixar-te livre, inviolável;

Mas, pois trabalhas atenta

Em gozares dos sobejos

Do que esses animalejos

Têm por costume roer,

Enquanto sempre sedenta,

Se um pilhas dos malfazejos,

Não te fartas de o comer;

Não suponhas que vãmente,

Para sustar teu exício,

Eu creia em teu benefício."

Assim falando, o inclemente

Trucida, esmaga a imprudente.



13 junho 2024

A Focinheira - Trilussa



A Focinheira
(Trilussa, poeta italiano)




– Sabe que sou fiel e afeiçoado, dizia o Cão ao Homem, e disposto a tudo, mesmo a ser sacrificado cumprindo as suas ordens.



Isto posto, quero falar, agora, com franqueza:

a focinheira põe-me deprimido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido,
apático e traidor por natureza?

O Homem responde:

– Mas a focinheira lembra sempre a existência de um patrão

que te protege e, de qualquer maneira, é quem te ampara e te garante o pão.

– Já que assim é, dito por não dito! corrige o Cão,

desculpe-me a besteira.

E, desde aí, com ar convicto, passou a falar bem da focinheira...







— Tu sai ch'io so' fedele e affezzionato
— diceva er Cane all'Omo — e sempre pronto
a zompà addosso a chi te fa un affronto,
a costo puro de morì ammazzato.

Tutto questo va be': ma francamente
'sta musarola nun me piace affatto;
perché, piuttosto, nu' la metti ar Gatto,
che nun t'è amico e nun t'ajuta in gnente? —

L'Omo rispose: — Ma la legge è legge:
eppoi 'sta musarola, a l'occasione,
dimostra l'esistenza d'un padrone
che t'assicura un pane e te protegge. —

— S'è come dichi, basta la parola, —
je disse er Cane. E infatti, da quer giorno,
come j'annava quarchiduno intorno
diceva bene de la musarola.




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