Fonte: O Estado de S. Paulo - quarta-feira, 15/01/2003, Folha A6
Presidente
responde ao serviço de segurança, que tenta, em vão, afastá-lo do assédio popular
LEONÊNCIO NOSSA e GILSE GUEDES

BRASÍLIA – Em mais um dia de afagos e autógrafos aos eleitores que amanhecem no portão do Palácio do Alvorada, o presidente Luís Inácio Lula da Silva rebateu com um desabafo os argumentos do serviço de segurança da Presidência de que sua integridade física pode estar em risco com tanto assédio popular. Lula voltou a afirmar que tem grande satisfação em envolver-se no corpo-a-corpo com populares e revelou que tem apenas um medo: o de ficar "isolado".
Com o bom humor e a boa vontade que sempre dispensa às pessoas que esperam por sua chegada ou sua saída do Alvorada, o presidente repetiu que pretende manter esse estilo. Ao ser indagado se não tinha medo de possíveis problemas no empurra-empurra, respondeu: "Medo de quê? Eu gosto disso. Tenho medo é do isolamento".
O medo da solidão dos palácios governamentais é sempre um fantasma que acompanha os presidentes da República. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a comentar várias vezes que sua agenda era sempre cheia, mas a solidão batia à porta muitas vezes.
Logo que assumiu, há pouco mais de dez dias, Lula também confidenciou a assessores que manteria, sim, a proximidade com o povo porque não queria ficar isolado em palácios.
Enquanto recebia beijos e abraços de eleitores, ontem de manhã, ao lado da primeira-dama Marisa Letícia, o presidente comentou também que as dores no ombro direito – por causa de uma bursite – estão passando e, por isso, a intervenção cirúrgica está, pelo menos até agora, descartada pela equipe médica.
Congresso – Sobre a mobilização do seu partido para garantir a vitória do deputado João Paulo (SP) na eleição da presidência da Câmara e assegurar, assim, uma base parlamentar mais sólida, Lula deixou claro que isso ainda não o preocupa. E afirmou que a construção de uma base coesa no Congresso é uma questão de tempo e, no jogo político, não deve haver precipitação. "O (novo) Congresso ainda nem tomou posse. Não podemos colocar o carro na frente dos bois. Não vamos ser precipitados", disse.
Campos – Ao comparecer ontem ao velório do senador Lauro Campos (PDT-DF), um ex-petista, o presidente disse que os políticos sempre respeitaram o parlamentar pelo seu "comportamento ético e ideológico". O corpo do senador, que morreu vítima de complicações de um enfarte, na segunda-feira, em São Paulo, foi velado no Congresso e contou com a presença de vários parlamentares.
"A minha relação com Lauro Campos era muito antiga, desde 1981. Eu penso que os políticos de Brasília e do Brasil poderiam ter discordância com Lauro Campos do ponto de vista ideológico. Mas, certamente, todos que o conheciam o respeitavam pelo seu comportamento ético, compromissos ideológicos e dignidade", afirmou Lula.
O senador, que morreu aos 74 anos, deixou o PT para ingressar no PDT depois de discordar da condução política do partido.