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28 fevereiro 2025

O pobre de direita se liberta

 

Por que os truques populistas de Lula funcionam cada vez menos. Rodolfo Borges e Deborah Sena para a Crusoé:

A intelectualidade brasileira se iludiu durante décadas com a ideia de que uma pessoa pobre não poderia — e nem deveria — ter valores de direita.


A base do raciocínio é humilhante: quem passa por dificuldade econômica deveria esperar — implorar? — pela ajuda do Estado.

Os resultados das últimas eleições no Brasil deixaram claro que essa lógica não existe, e o principal partido de esquerda do país sente os efeitos dessa realidade nas urnas — e na popularidade de seu maior expoente.

As últimas pesquisas de institutos como Quaest, AtlasIntel, Datafolha e CNT/MDA mostraram que a decadente popularidade de Lula perdeu força entre o eleitorado de baixa e média renda, alvo histórico do PT.

E isso mesmo após o governo petista aquecer a economia brasileira com gastos irresponsáveis, o que levou ao crescimento artificial do PIB e à redução recorde do desemprego.

Mais pobres

A pesquisa CNT/MDA divulgada na terça-feira, 25, indicou desaprovação de 35% de Lula no eleitorado mais pobre, que ganha até dois salários mínimos, onze pontos percentuais a mais desde novembro de 2024.

Em maio de 2023, no início do governo, a desaprovação entre os mais pobres era de apenas 19%.

O mesmo levantamento diz que a maior qualidade de Lula para 20,1% dos brasileiros é "cuidar dos pobres" — outros 36,5% não enxergam nenhuma qualidade no petista e 21,7% dizem que seu maior defeito é ser "desonesto".

Quer dizer, o discurso do presidente ainda reverbera em parte do país, mas parece perder força eleitoral.

O fato é que o truque de distribuir benesses não funcionou desta vez.

E nada foi mais eloquente sobre esse descolamento entre um governo que alega defender os pobres e a população mais humilde do que a reação nas redes sociais de trabalhadores informais que se viram na mira da sanha arrecadatória de Lula ao saber da ampliação do monitoramento do Pix.

Aplicativos

A distância entre os trabalhadores e o petismo, criado sob a alegação de defendê-los, já tinha se manifestado de forma contundente na tentativa da regulamentação do trabalho por aplicativo.

Entregadores e motoristas protestaram Brasil afora contra a pretensão de burocratizar seu oficio, e restou ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, fantasiar com a possibilidade de os cambaleantes Correios substituírem o Uber no caso de a plataforma estrangeira deixar o Brasil por falta de condições de atuar.

Os aplicativos deram uma alternativa de liberdade — ainda que sem segurança nenhuma — aos brasileiros, que têm demonstrado, desde a reforma trabalhista do governo Michel Temer, em 2017, repúdio aos sindicatos, formando filas todo ano para pedir dispensa da contribuição, que deixou de ser obrigatória.

Os evangélicos

O filósofo Luiz Felipe Pondé, que trata do assunto "pobre de direita" há quase uma década, definiu esse perfil de brasileiro na expressão “ter que ir atrás do prejuízo e trabalhar”.

Esse seria uma contraponto à perspectiva esquerdista de aguardar — ou proporcionar — o auxílio estatal.

Essa perspectiva de autonomia e liberdade proporcionadas pela desburocratização — e o consequente barateamento — das contratações e das possibilidades de trabalho parece ter encontrado em certo ideário evangélico o ambiente perfeito para se disseminar.

"O ambiente de muitas das igrejas evangélicas estimula a disciplina pessoal e a resiliência dos fiéis, promove a cultura do empreendedorismo, fortalece a atuação de redes de ajuda mútua e incentiva o investimento em instrução profissional", diz o antropólogo Juliano Spyer em Povo de Deus (Geração).

Spyer, que promove outro livro sobre o mesmo assunto, intitulado Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno (Record), diz que a igreja ajuda a promover o "fim do alcoolismo e consequentemente da violência doméstica, fortalecimento da autoestima, da disciplina para o trabalho e aumento do investimento familiar em educação e nos cuidados com a saúde", o que "geralmente conduz à ascensão socioeconômica".

"Os ressentidos"

O sociólogo Jessé Souza lançou, em 2024, um livro um pouco mais carregado na tinta ideológica para tratar diretamente do Pobre de Direita (Civilização Brasileira).

O subtítulo da obra fala em "vingança dos bastardos" e questiona: "O que explica a adesão dos ressentidos à extrema direita?".

Souza parte do princípio de que as classes populares "não têm nada a ganhar com Bolsonaro, só a perder, especialmente sob o ponto de vista econômico objetivo".

O sociólogo ignora que Jair Bolsonaro não apenas distribuiu benefícios aos mais pobres, por ocasião da pandemia de Covid, como colheu frutos eleitorais disso, ainda que insuficientes para vencer Lula em 2022.

O autor de Pobre de Direita parte daquela premissa clássica da intelectualidade nacional, de que apenas a esquerda sabe "cuidar" dos pobres — ignorando, também, que, enquanto concede um benefício com uma mão, Lula aumenta a dívida pública, a inflação e os juros com a outra —, e aposta na moralidade como fator para explicar por que os "ressentidos" estariam votando contra seus próprios interesses.

"Há um abismo"

Seja por valores morais ou econômicos, a batalha pelos corações dos mais pobres está sendo travada dentro de igrejas evangélicas.

Nos últimos meses, Lula sancionou leis pera criar o Dia Nacional da Pastora Evangélica e do Pastor Evangélico e o Dia Nacional da Música Gospel, sempre com muitas orações e poses para a posteridade.

O presidente também incorporou expressões como "graças a Deus" em seus discursos e enviou emissários, como o advogado-geral da União, Jorge Messias, à Marcha para Jesus.

Mas a estratégia de aproximação não parece estar surtindo efeito — os evangélicos são a parcela da população que mais reprova seu governo —, e isso é admitido até por quem se dispôs a ajudar o petista na missão.

"Há um abismo entre o que nós evangélicos pensamos e o que o PT pensa", disse a Crusoé o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), que esteve com Lula na sanção da lei do Dia Nacional da Música Gospel e acabou virando alvo de protesto dos evangélicos depois de tentar ajudar o petista.

Otoni perdeu nesta semana a disputa pelo comando da Frente Parlamentar Evangélica para Gilberto Nascimento (PSD-MG), apoiado pelos aliados de Bolsonaro.

"Se Lula quiser pelo menos ser ouvido por nós, precisa se afastar do identitarismo do seu partido e começar a governar sem que essas pautas progressistas pautem seu governo. Ele é presidente de uma nação majoritariamente conservadora", disse o deputado.

"Nossos valores são mais caros que qualquer benefício que recebamos do governo. Nenhum governo vai comprar os evangélicos com comida ou programas sociais", completa.

"Vai na fé"

O fator "evangélicos" se tornou tão relevante para a política e a economia brasileiras que levou uma gestora de recursos a elaborar um relatório para mapear a influência eleitoral da religião no país.

"A gente estava tentando entender por que a popularidade do Lula estava baixa numa conjuntura que era amplamente favorável", diz Paulo Coutinho, um dos autores do relatório "Vai na fé! O impacto eleitoral do crescimento dos evangélicos", da Mar Asset Management, que chamou a atenção dos investidores do país em janeiro.

"Se você pegar a foto hoje, é muito favorável: um PIB que cresce mais de 3%, menor taxa de desemprego, massa salarial não para de crescer, a renda ampliada cresce num ritmo de 5% nos últimos dois anos. Se você me falasse isso há dois anos, eu diria que o Lula ia estar com a popularidade lá em cima", diz Coutinho.

O relatório afirma o seguinte: "Observamos uma relação robusta entre a presença de igrejas evangélicas e o perfil de votação. O PT e partidos de esquerda recebem menos votos em municípios com maior presença evangélica. Essa tendência é consistente entre estados e regiões".

O CNPJ das igrejas

Diante da defasagem de números do Censo sobre os evangélicos (os últimos são de 2010), os analistas da Mar Asset Management tentaram quantificar o crescimento desse segmento social por meio da abertura de igrejas.

E descobriram que "entre 2010 e 2024 o número de igrejas de denominação evangélicas com CNPJ ativo dobrou, chegando a mais de 140 mil templos em 2024".

"O ritmo de expansão permaneceu surpreendentemente constante. Em todos os ciclos presidenciais desde 2010, foram registradas, em média, cerca de 5 mil novas aberturas de templos por ano", diz o relatório.



O futuro

Com base nesse cenário, os autores do relatório se aventuram a projetar o futuro:

"Em 2022, a conversão de votos entre a população não evangélica em Lula foi a maior da história. Mesmo assumindo que isso se repetisse, o maior número de evangélicos no país já seria suficiente para garantir a vitória de um candidato de direita em 2026."

Os autores do relatório estimam que a proporção da população evangélica no Brasil aumentará de 22% em 2010 para 35,8% em 2026.
Direita

Uma vitória da direita dependerá, contudo, do candidato que se apresentar em 2026.

Bolsonaro está inelegível até 2030 e, enquanto tenta reverter a condenação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também batalha para impedir que alternativas cresçam à sua sombra.

O desentendimento entre os opositores de Lula é a melhor chance — talvez a única — de o petista se manter no poder apesar de boa parte do país mostrar que já está farta de sua forma de governar.






01 janeiro 2024

Uma Critica ao Intervencionismo – Ludwig Von Mises


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Descrição do livro

Quando Ludwig von Mises, o grande economista da Escola Austríaca, escreveu os seis ensaios desta obra, ele se referia às teorias e políticas que permeavam os programas sociais e econômicos da infortunada República de Weimar dos anos de 1920, na Alemanha. Mas esses escritos clássicos são tão importantes hoje como o foram há quase um século. Os nomes e os lugares mudaram, mas as mesmas noções estatistas ainda existem. E as críticas incisivas de Mises, firmemente baseadas em princípios econômicos imutáveis, são ainda válidas. 
O conjunto destes ensaios destrói a noção de que pode haver um meio termo intervencionista entre uma ordem social livre, baseada na propriedade privada, e uma sociedade totalitária de propriedade governamental ou de gerenciamento da produção e distribuição. Mises não deixa duvida quanto ao fato de que não pode haver meio termo democrático entre o liberalismo clássico e o comunismo.

144 páginas
Autor: Ludwig von Mises



01 dezembro 2023

Por aqui, a liberdade não avança.

 


A Direita, vergonhosa e covardemente, evita posicionar-se sobre o fenômeno Milei e refugia-se em epítetos difamatórios que ilustram a sua néscia preguiça intelectual e o seu oportunismo tático. Alexandre Mota para o Observador.


“Para corromper um indivíduo basta chamar direitos aos seus anseios e abusos aos direitos dos demais.” (Nicolás Gomez Dávila)

12 de Novembro de 2023, último debate para as eleições presidenciais na Argentina, frente a frente estavam os dois candidatos que tinham passado à 2ª volta. De um lado, Sergio Massa, figura impecável, elegante, fato azul-escuro, gravata a condizer com um nó imaculado, pin alvi-celeste cuidadosamente incrustado na lapela, postura firme, serena e afável. Se nos desligássemos do sentido das palavras ditas, vislumbraríamos tranquilidade, segurança e bom senso. Em suma, fiabilidade.

Do outro lado estava Javier Milei e o seu inacreditável penteado (neste caso, despenteado). A similitude era óbvia com Trump, que também tem um penteado estranho, e até com Hitler. O nosso software mental na versão “pensar depressa” diz-nos que deve haver uma ligação: este Milei é provavelmente como os outros! Ademais, tal como os outros dois, também ele tem olhos azuis e um ar alucinado. É também um incontinente verbal que, fora do âmbito político, tem no seu currículo umas quantas bizarrias. Em suma, um louco.

E no entanto…

Sergio Massa é o mais recente representante das políticas que, eleição após eleição, levaram a Argentina à ruína. Tranquilo, ele argumenta, como se desta vez pudesse ser diferente, que é nele e na mão protectora do estado que os argentinos devem confiar, convocando todos para uma “remontada” em nome da pátria, de um mundo melhor e mais inclusivo, que combata todas as desigualdades e as alterações climáticas, promova a justiça social e o bem comum em geral. Quase verti uma lágrima de emoção com o “don`t cry for me Argentina” em loop no meu subconsciente.

Curiosamente, Massa ocupou parte do seu tempo no debate a fazer perguntas a Milei. O intuito era evidente. Ao apertar com “o louco”, as respostas deste acabariam por penalizá-lo. Parecia bem visto, mas foi um falhanço retundo. Milei respondeu a todas as questões, inclusive com detalhes que podia e deveria ter evitado. O penteado de Milei pode não estar em ordem, mas as ideias estão.

Javier Milei é, na sua autodefinição, um liberal libertário. A necessidade de apor o termo libertário ao termo liberal exige uma clarificação, que decorre da confusão em volta do termo “liberalismo” consoante as diferentes geografias e contextos políticos. A origem etimológica de “Liberal” vem do latim “Liber”, que significa Livre. Se ser livre é ter liberdade, então o que é a liberdade? Para os liberais clássicos, a raiz do conceito é a ausência de coerção sobre os indivíduos e sobre os seus direitos naturais: direito à vida, à liberdade e à propriedade. No entanto, o termo foi capturado pelas ideologias social-progressistas que entendem a liberdade como a libertação do indivíduo pelo estado. Assim, por exemplo nos EUA, os liberals são aqueles que defendem esta segunda versão de liberdade, a tal corrupção a que aludia na citação que inicia este artigo. Por cá, o exemplo mais recente pode ser encontrado no último artigo de Rui Tavares no Público, fazendo uso do truque mais velho do mundo em política: a demagogia. “A liberdade de Milei não tem nada a ver com a libertação da fome, da pobreza, da dominação e da ignorância que constitui desde a Antiguidade o cerne mais profundo da ideia e da filosofia da liberdade.”

Se é verdade que as esquerdas americana e europeia se apropriaram do termo “liberal”, não é menos verdade que o termo “libertarian”, outrora usado por anarquistas de esquerda, foi cooptado pelo campo dos velhos liberais clássicos americanos, e depois reinventado por figuras como Murray Rothbard, o pai espiritual desta escola de pensamento. E foi desta forma que, apesar de algumas dissensões importantes quer no campo económico quer no campo da filosofia política, o encontro entre as ideias do liberalismo clássico e do libertarianismo não é uma mera coincidência.

Coincidência terá sido o facto de este terramoto político se ter dado na Argentina. Em 1959, o liberal clássico Ludwig Von Mises, economista da escola austríaca, visitou este país para ministrar um conjunto de palestras que passaram depois a livro: As Seis Lições – o capitalismo, o socialismo, o intervencionismo, a inflação, o investimento estrangeiro e a política e ideias. O sucesso editorial não foi acompanhado pelo sucesso económico da Argentina, que continuou paulatinamente a destruir a sua economia com políticas exatamente inversas às preconizadas por Mises, aqui resumidas pelo Professor Ubiratran Iorio: “Mostra Mises que a melhor política económica é aquela que limita o governo a criar as condições que permitem aos indivíduos perseguirem seus próprios objetivos e viverem em paz e que a obrigação do governo é simplesmente proteger a vida e a propriedade para permitir que as pessoas desfrutem da liberdade e da oportunidade de cooperar e de efetuar trocas entre si. Assim, o governo deve criar o ambiente que permita que o capitalismo possa florescer.”

Eis o testemunho Miseano que, mais de 60 anos depois, está nas mãos de Javier Milei. Ao rever grande parte das suas entrevistas percebe-se que tem a lição bem estudada, pelo que nenhum liberal clássico ou libertário deveria estar incomodado, bem pelo contrário. A preocupação é, aliás, exatamente inversa: conseguirá fazer tudo o que promete? Provavelmente e infelizmente, não.

E o que deveria fazer Milei?

Antes de mais, eis o legado peronista de forma resumida: déficit orçamental de cerca de 5% do PIB; dívida pública gigantesca; risco país de 24 pontos percentuais; 40% de pobres.

Perante este cenário sombrio quase apocalíptico provocado pelo socialismo argentino, não pode haver meias medidas. A Argentina terá de ter imediatamente um deficit zero ou mesmo um superavit orçamental. Se o estado recebe 100 de impostos não pode gastar mais de 100. Segundo alguns analistas, a despesa pública política é cerca de 25%, pelo que, a fazer fé nestes números, o corte de despesas poderá ser exequível em pouco tempo sem grande impacto nas despesas sociais. Estancado a desvario da despesa, a emissão monetária deixa de ser tão necessária e a inflação é controlada, assim como é restaurada a confiança dos vários agentes económicos. Seguem-se cortes de impostos, abertura da economia, privatizações, desregulamentação e, por último, o fim do Banco Central e da moeda própria, passo polémico embora coerente com a vontade de cortar pela raiz a plutocracia fiscal e monetária que corrói a Argentina.

Claro que, em Portugal, a direita dita moderada e civilizada está a sinalizar suposta virtude traçando linhas vermelhas com este novo desafio ao seu posicionamento. Esta é a mesma direita que fez coro com o PS nos atropelos aos direitos dos cidadãos durante a Covid-19 e que quer dar mais uma estocada nesses direitos numa revisão constitucional; é a mesma direita que dança a música apocalíptica dos fanáticos do clima, sem sequer ousar levantar a discussão sobre estratégias alternativas mais lúcidas e menos empobrecedoras; ou, no caso da direita “liberal”, esta é a direita que subscreve toda a agenda social do bloco de esquerda, uma agenda de libertação do indivíduo das amarras da sua história, das suas raízes familiares e da sua natureza e que vergonhosa e cobardemente evita posicionar-se sobre o fenómeno Milei ou se refugia em epítetos difamatórios, os quais só servem para ilustrar publicamente a sua néscia preguiça intelectual e o seu oportunismo táctico.

Dessas direitas não teremos surpresas positivas nem esperança alguma que vão além de umas migalhas pomposamente anunciadas e frequentemente impregnadas de uma tibieza que lhes está no sangue. Foram completamente engolidas pelas causas da moda e não se dão conta de que a discussão democrática segue nos termos da esquerda, começando na definição primacial de liberdade. É neste contexto que ouvir alguns líderes partidários e de opinião à direita é um exercício de masoquismo só ao alcance dos mais valentes amantes da liberdade de expressão.

Restaria eventualmente o Chega para agitar as águas. Mas há alguma semelhança, mesmo que remota, entre uma proposta económica corajosa como a de Milei e os ziguezagues do Chega ao som do bombo de Ventura?! Nenhuma. A verdade nua e crua é que o Chega é um partido infantilmente inconsistente e tendencialmente estatista. Embora coloque o dedo na ferida em muitas questões relevantes, não vislumbro em André Ventura a loucura corajosa de um Javier Milei. Pelo contrário, vejo um oportunista igual a tantos outros, que não hesitará, como já o fez, em deitar fora princípios sobre os quais tinha jurado fortes convicções, substituindo-os por outros com mais mercado eleitoral.

Dito isto, claro que não é absolutamente indiferente a composição da futura Assembleia. Seria muito grave um novo governo PS, especialmente se liderado por Pedro Nuno Santos. Contudo, a alternativa, com Chega ou sem Chega, não seria um avanço assinalável para a causa da liberdade.

Por aqui, a Liberdade, quando avança, fá-lo muito devagarinho.


15 outubro 2023

O Príncipe da Bahia (22/11/2006, Páginas Amarelas de VEJA)

À maneira de Maquiavel, o pensador florentino, ACM diz que, entre ser respeitado e ser querido, fica com a primeira opção

Thaís Oyama














"Vou voltar com mais força do que tinha antes, porque os meus adversários fracassarão"









Só há um assunto do qual o senador Antonio Carlos Magalhães entende mais do que política, e esse assunto é poder. Seja por usufruir dele há mais de meio século, seja por ter convivido com quem o teve em abundância, ACM lida com naturalidade com o tema – e o aprecia também. "Tenho gosto pelo exercício do mando", diz. Nas últimas eleições, o mando do senador sofreu um baque histórico. Além de assistir a seu grupo perder a hegemonia de dezesseis anos na Bahia, viu-se, pela primeira vez, cercado de adversários por todos os lados: na prefeitura, no governo estadual, no governo federal. Próximo de completar 80 anos de idade, ele admite a derrota, mas não o fim do jogo. "Voltarei com mais força do que tinha antes", afirma. ACM, que se orgulha de ser "a única sigla que pegou no Brasil, além de JK", recebeu VEJA em sua cobertura em Salvador para uma conversa em que falou de política, presidentes – e, claro, poder. 

Veja – Em 2004, seu grupo já havia perdido a prefeitura de Salvador e, nas últimas eleições, foi derrotado também no governo estadual. Em 2007, o senhor fará 80 anos. Acha que ainda pode recuperar sua antiga força política? 

ACM – Tenho certeza. Vou voltar com mais força do que tinha antes, porque os meus adversários fracassarão. E fracassarão porque sabem fazer campanha mas não sabem governar. De maneira que minha volta não será fruto do meu trabalho, e sim fruto do erro deles. Como já disse, derrotados não falam, derrotados esperam. Quantas vezes já disseram que o carlismo havia morrido?

Veja – Algumas. 

ACM – Em 1986, quando perdi o governo para Waldir Pires; em 1998, quando o meu filho (deputado Luís Eduardo Magalhães)morreu; em 2001, quando renunciei; em 2004, quando João Henrique ganhou a prefeitura. Hoje, se você perguntar sobre João Henrique em Salvador, ninguém dirá uma palavra simpática. E digo mais: não é justo dizer que fui derrotado no governo estadual. O próprio Paulo Souto (atual governador da Bahia, candidato de ACM à reeleição e derrotado no primeiro turno pelo petista Jaques Wagner) disse à imprensa: "Quem perdeu fui eu. Até porque o ACM se meteu muito pouco ou quase nada no meu governo".

Veja – Não foi o senhor que mandou que ele desse essa declaração? 

ACM – Não, eu não tenho conversado muito com ele. Só vou lá para dar carinho a Paulo Souto, não para chateá-lo. Ele mesmo achou que tinha a obrigação de fazer isso. Mas que eu estava com vontade de dizer isso, estava.

Veja – O senhor conheceu dezesseis presidentes da República. Conviveu com diversos deles e foi íntimo de alguns. Quem, dentre todos, considera o melhor? 

ACM – Juscelino, de quem fui mais próximo (ACM prepara um livro sobre o período em que ele, jovem deputado udenista, se tornou amigo do presidente bossa-nova). Juscelino foi o melhor porque tinha gosto pela administração e porque tinha o dom de não guardar mágoas de ninguém, mesmo daqueles que mais o injuriavam, mais o atacavam.
Veja – Essa é uma qualidade positiva num político? 

ACM – Para aqueles que conseguem, sem dúvida é uma boa qualidade. Evidentemente, não é o meu caso.

Veja – O senhor é admirador de Napoleão Bonaparte e leu quase todas as suas biografias. Que características admira nele? 

ACM – O gosto pelo poder é a primeira. Também admiro sua visão de mundo – para alguns, imperialista. E o fato de que ele sabia mandar. Saber mandar é uma coisa vocacional. Se você sabe mandar, vai poder mandar em tudo: da sua casa até o órgão mais importante da República. Se você não sabe mandar, pode assumir grandes postos e não adiantará nada – acontece o que está acontecendo hoje no Brasil. Esse problema do controle aéreo, por exemplo: quando isso ocorreu nos Estados Unidos, o presidente (Ronald) Reagan resolveu em 24 horas. Quem está aí não sabe mandar.

Veja – O senhor se refere ao presidente Lula ou ao ministro da Defesa? 

ACM – O presidente é o maior responsável, mas o ministro da Defesa* não poderia estar ali. Ele não conhece o assunto, fica sabendo das coisas por terceiros, e o resultado é que acha que está tudo na maior normalidade. Um apagão aéreo! Isso é normal? Se tivesse lá alguém de pulso, isso já teria terminado.

Veja – Dos presidentes que o senhor conheceu, quem melhor sabia mandar? 

ACM – O presidente mais completo era Juscelino, mas comandava com suavidade. O mais duro no mando, mas muito competente, era Geisel. A figura dele já impunha autoridade. Nem por isso deixamos de ter algumas divergências, como no caso da Light. Quatro ministros já haviam assinado a entrega da Light por uma bagatela, um negócio que iria beneficiar umas vinte pessoas no Rio de Janeiro. Eu era presidente da Eletrobrás e resisti. O Geisel chegou a se levantar e dizer: "Você quer mandar? Sente na minha cadeira, então". Mais tarde, ele me chamou para uma viagem a Santarém e disse: "Olha, vou lhe dar razão no caso da Light. Mas, se você sair por aí contando vantagem, eu o demito". Isso também é saber mandar.

Veja – Qual dos presidentes não tinha essa vocação? 

ACM – Figueiredo. Figueiredo não sabia mandar. Quando tentava, não era obedecido. Havia uma forte razão para isso: ele mandava muito errado. Seu fracasso como presidente acabou apressando o fim do regime militar.

Veja – E Lula? 

ACM – Não manda. Ele me disse certa feita que havia comprado um carro novo e o partido o obrigou a vendê-lo. Noutra vez, a Erundina (ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina) o convidou para um espetáculo no Teatro Municipal e o partido achou que ele não devia ir, porque era no Municipal – muito burguês. Ele me disse isso numa conversa em 18 de dezembro de 1995, na casa de um amigo comum, o doutor Márcio Thomaz Bastos. Agora, está tentando se livrar do petismo criando o lulismo. Ele está tentando, não sei se vai conseguir. Sei que, se conseguir, isso será prejudicial ao país. No momento em que se tenta fortalecer os partidos, fazer uma reforma política, vem o lulismo? Isso é um retrocesso do ponto de vista democrático.

Veja – Como o senhor avalia os primeiros movimentos do presidente depois da reeleição? 

ACM – O mal do Lula é que, em seu primeiro mandato, ele fez um governo fraco com homens fracos. Tudo leva a crer que vai repetir esse erro. Se você olhar os nomes que estão visitando o Palácio do Planalto nesses últimos dias, verá que são tão fracos como os que estão aí. Todos com passado ruim. Lula fez um ministério de derrotados. À exceção do doutor Márcio Thomaz Bastos – que é a alma deste governo, porque, com a prática da advocacia criminal, o salvou –, só tem a Dilma Rousseff. No governo Lula, a pessoa que sabe mandar é Dilma Rousseff. Ela tem capacidade.

Veja – O que o senhor acha da estratégia de Lula de aproximar-se dos governadores como forma de driblar a oposição no Congresso? 

ACM – É um grave erro. Mesmo porque, de modo geral, os governadores não têm levado as suas bancadas. No Senado, temos hoje uma maioria provável para determinadas votações. Jamais o presidente Lula conseguirá uma reforma constitucional, que exige 49 votos, se não for acertando conosco. Agora, o campo dessa conversa tem de ser o Congresso, e não o Palácio do Planalto. O Congresso é para conversar. O Palácio do Planalto é para cooptar.

Veja – O pensador florentino Nicolau Maquiavel dizia que o governante deve ser antes temido do que amado. O senhor concorda? 

ACM – O ideal é ter as duas coisas, mas, entre ser respeitado e ser querido, prefiro ser respeitado. O amor é instável. Hoje você é querido, amanhã não é. Já o respeito é permanente. É fruto da credibilidade que você adquire. O sujeito não chega batendo em sua barriga. Agora, autoridade não significa autoritarismo. O autoritarismo é coisa dos incompetentes, dos que querem aparecer pela força.

Veja – Mas o senhor mesmo já destruiu gravadores de repórteres e agrediu fisicamente adversários. Não foram manifestações de uma personalidade truculenta? 

ACM – Os meus adversários me adjetivam assim, mas não sou. Eu lhe digo sinceramente: há jornalistas de quem não gosto. Nunca me fizeram nada, mas não gosto deles. Eu sei que não gostam de mim, por que vou gostar deles? Sou muito intuitivo: olhando para você, sei o que você pensa de mim. Depois de cinqüenta anos lidando com pessoas, isso não é nenhum dom sobrenatural.

Veja – Voltando à questão da autoridade: que atitude é necessária para preservá-la? 

ACM – Por exemplo: se você me faz uma pergunta altamente ofensiva, fecho a cara para você e você não faz a segunda.

Veja – Entendi. 

ACM – Não, não estou falando isso para você. É um exemplo que não precisa servir para um jornalista, pode ser para um deputado. O que não pode é você deixar passar de um certo limite. Um limite que você adquiriu com o quê? Com seus três mandatos de governador, não sei quantos de ministro, com cinqüenta anos de política, com seus cabelos brancos, tudo isso.

Veja – O senhor disse que tem "gosto pelo exercício do mando". Quais as boas coisas que o poder proporciona? 

ACM – O poder tem de ser um instrumento para você realizar, para você servir à coletividade. O poder pelo poder, pela satisfação pessoal, nunca dá certo. Os que quiseram fazer isso fracassaram. (Fernando) Collor é um exemplo.

Veja – Mas o senhor preza os ritos do poder. Quando era presidente do Senado, fazia questão de que seus assessores o aguardassem todos os dias na entrada do Congresso, por exemplo. 

ACM – Até hoje é assim. Quando chego ao Senado, gosto que os meus auxiliares estejam me esperando na porta. E que me levem à porta na hora de eu ir embora. Meu ritual é completo. Eu disse uma vez a Luiz Viana Filho (seu antecessor no primeiro mandato como governador da Bahia) que era muito chato passar em revista as tropas. Ele me disse: "No início você acha chato, depois se acostuma e depois sente falta".

Veja – Qual foi o seu maior erro político? 

ACM – Acho que foi a troca de agressões com Jader Barbalho.

Veja – Por quê? 

ACM – Porque resultou no meu afastamento do Congresso e no dele.

Veja – O senhor costumava se aconselhar muito com o seu filho, Luís Eduardo. Desde a sua morte, qual foi o momento em que mais sentiu falta desses conselhos? 

ACM – Eu sinto a falta de Luís Eduardo todos os dias – diria até que em todos os momentos. Mas dos seus conselhos, da sua ajuda, acho que senti mais falta em 2000, 2001, quando tive aqueles problemas no Congresso.

Veja – O senhor se refere à violação do painel de votação do Senado e à descoberta de que adversários seus e uma amiga haviam sido grampeados? (Ambos os episódios foram atribuídos a ACM). 

ACM – Eu não tive nada com o painel. Nada com o painel. Eles me puniram exclusivamente porque não puni o (José Roberto)Arruda (então líder do governo no Senado) e a dona Regina(Regina Borges, então funcionária do Senado). Entendeu? A tese era essa: eu tinha de puni-los quando tomei conhecimento do fato. E não puni porque achava que era muito pior tornar sem efeito a votação do que consumá-la. A votação era uma vontade do Congresso e era uma coisa justa.

Veja – Quanto ao episódio dos grampos, o senhor também o considera uma injustiça? 

ACM – Quando eu digo que não tive nada diretamente com o assunto, as pessoas não acreditam por causa das coincidências que existiram. Mas o fato é que não tive nada diretamente com isso. Agora, confesso que esse é um assunto de que, em respeito às pessoas que estiveram envolvidas nele, eu não trato. Se Luís Eduardo estivesse comigo naquele momento, eu não teria passado por nada daquilo, tenho certeza. Ele próprio teria atuado em meu favor e resolvido os assuntos, com certeza absoluta.

Veja – Existe alguém que o senhor não perdoe? 

ACM – Tenho um caso apenas. É o de uma pessoa que afrontou a memória de minha filha (Ana Lúcia, que se suicidou em 1986, aos 28 anos). Mas tenho como regra não declarar o nome dos meus inimigos. Inimigo você deve esquecer. Se você o esquecer, ele morre por si. Claro que nem sempre você consegue esquecer, mas, na aparência, tanto quanto possível, deve ignorá-lo – o que não significa que não deva destruí-lo no tempo certo.

Veja – O senhor se considera vingativo? 

ACM – Não. Ao contrário do que dizem, não sou vingativo. Meus inimigos se destroem por si próprios.

Veja – O senhor tem medo de quê? 

ACM – De nada. De nada, nada, nada. Aquilo que o Schmidt (o poeta e editor Augusto Frederico Schmidt) disse de Juscelino, podem dizer de mim também: "Deus o poupou do sentimento do medo". Agora, uma coisa devo dizer: os homens que têm juízo devem sempre temer o ódio das mulheres.

Veja – O senhor já perdeu uma filha e um filho. Já adoeceu gravemente, já sofreu grandes derrotas políticas e já teve de renunciar a um mandato sob a ameaça de tê-lo cassado. Em todas as ocasiões, pensou-se que o senhor submergiria e isso não aconteceu. O que lhe dá energia para voltar sempre? 

ACM – A vontade de demonstrar aos meus adversários que eles são bem mais fracos do que eu. É isso que me move. Se não fossem os meus adversários, talvez eu já tivesse deixado a vida pública. Eles são o melhor incentivo que tenho para continuar lutando. Os inimigos nos fustigam, nos chateiam, mas, sem eles, não tem graça.


Fonte: Veja Entrevistas

* O Ministro da Defesa era Waldir Pires

27 julho 2023

O feminismo como a grande causa revolucionária

Fonte: http://www.sweetjuniperinspiration.com/2013/05/my-favorite-dads-from-anti-suffrage.html


Por Mário Chainho
(11/09/2016)

O feminismo não começa na inveja, ao contrário do que muitos pensam. A inveja existe “desde sempre”, ao passo que o feminismo é um fenómeno relativamente recente na História.

Na realidade, como quase todos os fenómenos sociais, o feminismo teve as suas origens nas classes mais invejadas, ou seja, em certas elites que no final do séc. XIX começaram a defender algumas “causas”, como a das sufragistas. No fundo, era uma resposta à sufocante mentalidade burguesa embora vinda também, em grande parte, dos próprios burgueses enfadados com a vida e que facilmente encontravam emoção nas ideias revolucionárias.

A sociedade burguesa criou inúmeras contradições e esta foi apenas mais uma. A sociedade tinha um nível de riqueza nunca visto antes e, por isso, foi dado às mulheres o privilégio de não terem de trabalhar. Mas num mundo de aparências, um privilégio não aproveitado é visto como uma afronta, e rapidamente se constituiu numa espécie de obrigação. Por outro lado, o privilégio dos homens serem os únicos votantes enfrentava dois empecilhos na sociedade burguesa: por um lado, o homem já não cumpria mais a função de chefe e defensor da família, sendo essas funções cada vez mais desempenhadas pelo Estado; por outro lado, isso contrariava a ideologia da “igualdade”, que deixava de ser uma “igualdade perante Deus” para ir se transformando numa fantasia de igualitarismo social. Assim, é natural que que o alargamento do direito de voto às mulheres tenha sido a principal bandeira do início do feminismo, porque era a solução mais lógica para as contradições existentes. Na realidade, há quem nem chame esta primeira fase de feminismo, por parecer uma coisa tão diferente e muito mais decente que o feminismo tardio, mas há uma factor comum, que é a confusão inocente e propositada de alguns factores, como a assinalada confusão entre privilégio e obrigação.

O feminismo na primeira metade do século XX não tinha condições para ampliar o seu espectro de reivindicações e de se espalhar pela população. É fácil de perceber porquê, dado que nas duas guerras mundiais foram os homens que tiveram o “privilégio” de ir morrer em massa nos conflitos. Apenas depois da Segunda Guerra Mundial e de se ter espalhado a ideia de uma paz perpétua kantiana foi possível começar a reivindicar para as mulheres os mesmos direitos que os homens tinham. Podemos questionar se a Guerra Fria não podia ter colocado um freio nisto mas, se olharmos com atenção, vemos que não. Depois de se ter percebido os efeitos das armas atómicas e nucleares, ficou patente que as armas tinham um poder tão grande que o os seres humanos tinham um papel irrelevante, quer fossem homens ou mulheres. Isto na realidade não era bem assim, mas de certa forma criou a ideia de que as armas modernas tinham igualado as mulheres aos homens.

O feminismo do pós-guerra (ou segunda onda do feminismo, como por vezes é chamado) já não tem apenas uma certa dose de contradição embutida, o que é quase inevitável em qualquer proposta real, mas é essencialmente uma fraude. É até incompreensível que tão pouca gente tenha se dado conta de que a suposta libertação das mulheres era na realidade uma escravidão de facto, onde havia uma pequena dose de liberdade para alguns caprichos. Primeiro, o direito das mulheres trabalharem em todo o tipo de postos era, como é óbvio, o fim de um privilégio, mesmo que este possa ser sentido com incómodo. Em segundo lugar, a mulher era libertada da “escravidão da natureza”, e já não era mais obrigada a ser mãe e podia ser “o que ela quisesse”. Mas isto era feito com o auxílio da ciência, o que criava uma situação peculiar e que ainda hoje pouca gente quer perceber.

A ciência moderna possibilitou que existisse uma coisa chamada “planeamento familiar”, que hoje é um considerado quase que universalmente como um bem inegável. Mas o planeamento familiar quer dizer, primeiro que tudo, que os filhos já não são uma dádiva de Deus (ou da natureza) mas são fruto de uma escolha deliberada dos pais. Parecia uma milagrosa libertação do ser humano dos ciclos impostos pela natureza, e agora cumpria-se a proposta humanista da soberania do “eu”. De início, o planeamento familiar foi usado sobretudo para limitar o número de filhos, ou seja, ao invés dos casais terem 7, 8 ou mais filhos, passavam a ter apenas 2 ou 3. Mas, vendo bem, para quê ter 2 ou 3 filhos quando se pode ter apenas um? As famílias libertavam-se supostamente da natureza, mas tinham agora de viver numa sociedade estruturada cada vez mais pelas ciências, em que praticamente “tudo o que não era proibido se tornava obrigatório”. Os bens de consumo irrelevantes criados pela ciência e pela tecnologia obrigavam também que as pessoas adiassem cada vez mais a paternidade e se dedicassem a períodos cada vez mais extensos de futilidade. Assim, as mulheres que na idade média começavam a ter filhos pelos 14 anos, no pós-guerra já começavam a ser mães pelos 24, e mais recentemente serão mães (quando o são) mais por volta dos 34 anos. Por essa altura as mulheres já devem ter perdido as ilusões de que iriam ser todas administradoras de grandes empresas e percebem que andaram a desperdiçar os seus melhores anos a fazer coisas que apenas lhes criam uma sensação de vazio.

O feminismo parecia ser uma coisa em extinção no início dos anos 90. Por um lado, a parte mais folclórica do feminismo – mulheres queimando soutiens e não fazendo depilação – era ridicularizada. Por outro lado, o modo de vida moderno, anti-família e cheio de 'stress', tornava-se cada vez mais desconfortável. Havia uma certa vontade de “voltar atrás” e foram tempos em que papa João Paulo II tinha algum impacto na sociedade apelando a um modo de vida mais “conservador”.

Contudo, a causa feminista tinha um potencial revolucionário enorme e não foi descartada assim facilmente. A clássica “luta de classes” marxista cria uma certa fractura social, que na verdade já existe em alguma medida, mas tem um alcance limitado, porque estas classes já vivem mesmo largamente separadas. Mas o feminismo divide literalmente a humanidade ao meio e coloca um parte contra a outra em permanência. Assim, o feminismo foi renovado e tornado ainda mais radical. Podemos questionar como foi possível renovar um movimento que tinha caído num descrédito tão grande. Isso acontece porque novas gerações entram em acção na sociedade e, por regra, ignoram quase tudo o que veio antes delas. Desta forma, estas gerações são facilmente manipuladas pelos velhos revolucionários, que na verdade são dos poucos que compreendem como funcionam as transformações sociais.

O feminismo de terceira vaga não se limita a pedir igualdade de direitos, o que já era algo com uma grande dose de falsidade, mas exige uma reparação histórica pelas injustiças cometidas às mulheres. É impressionante como o argumento podia ser rebatido em grande parte ou mesmo até invertido, bastando lembrar como as mulheres foram largamente poupadas ao esforço da guerra ao longo dos milénios. Mas foi possível implementar a fraude porque a industria da comunicação social, as universidades, o mundo do espectáculo, as editoras e demais instâncias culturais passaram a responder a umas poucas vozes. Assim, em pouco tempo cria-se a ilusão de que está ocorrendo uma grande transformação social, o que depois se transforma numa profecia auto-realizada, dado o estado atomístico em que as pessoas se encontram, tendo pouco mais liberdade do que colocar em prática o desejo mimético.

Os efeitos desta terceira vaga de feminismo têm sido catastróficos. Hoje, muitos homens morrem de medo das mulheres e acham que nunca poderão fazer o suficiente para aliviar uma data de culpas históricas que receberam à nascença. Isto quer dizer que temos já uma ou duas gerações que praticamente já não conhecem o sexo oposto a não ser de forma esquemática e enviesada. De certa forma, o preservativo é o símbolo perfeito para ilustrar estas gerações, que necessitam de uma protecção para se aproximar do outro sexo, tal o perigo que ele encerra. Ao mesmo tempo, as mulheres talvez estejam mais vulneráveis aos predadores sexuais do que em qualquer outra altura, porque estes não se preocupam com as convenções sociais e os outros homens não imaginam que têm a função de proteger as mulheres.

Mas o pior deu-se ao nível da alteração da percepção do valor da vida. A contradição de certa forma estava embutida na proposta humanista, que foi em muito ajudada pelo liberalismo tornado ideologia política, que é o eterno capacho dos socialistas. O ser humano que se torna no critério último, na prática vai impor-se sobre o outro. Assim, a mulher que não é mais obrigada a conceber, caso venha a ser mãe é porque já está a fazer uma concessão ao filho. Neste contexto incontestado, o aborto tornar-se-ia, mais tarde ou mais cedo, num direito libertador. Aquelas pessoas que são contra o aborto porque este significa a morte de um ser humano não percebem que este argumento tem pouca ou nenhuma eficácia em sociedades em que o feminismo se implantou quase como se fosse senso comum. Depois de se espalhar a ideia de planeamento familiar, cada vida humana é fruto da liberdade do casal, caso contrário é considerada uma irresponsabilidade. Assim, a liberdade de escolha antecede e, aparentemente, afigura-se como superior à própria vida humana.

Mas isto não é auto-contraditório? Sim, porque o valor da liberdade humana deriva da própria existência humana, pois só quem é vivo pode decidir. Contudo, o ser humano tem a capacidade de se abstrair da experiência real e apenas considerar uma parcela, podendo depois tomá-la como absoluta. E a abstraccão não tem que ficar por aqui e, por isso, o aborto está longe de ser o limite. O império da liberdade humana exigirá, pela sua própria natureza demente, que o infanticídio e a pedofilia façam parte dos direitos humanos.





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