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27 junho 2023

Como será o dia em que Putin desligar os cabos da internet mundial?



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MOISÉS NAÍM 25 JUNHO 2023 4min de leitura


É fácil imaginar a internet como um fenômeno etéreo, imaterial. Nestes tempos é normal, por exemplo, conectar-se à rede sem necessidade de cabos, guardar dados na “nuvem” e supor que a informação flui sem “sujar-se” no mundo tátil.

Pena que essas suposições sejam errôneas. A rede da qual dependemos é alarmantemente física e eminentemente vulnerável. Segundo o marechal Edward Stringer, ex-diretor de operações do Ministério de Defesa britânico, 95% do tráfego internacional de dados passa por um pequeno número de cabos submarinos. Estamos falando de meros 200 cabos, cada um da grossura aproximada à de uma mangueira de jardim e capaz de transferir cerca de 200 terabytes por segundo.

Por essa rede física trafegam US$ 10 trilhões em transações financeiras a cada dia. Como explica Stringer, nos últimos 20 anos, a Rússia investiu fortemente em sistemas capazes de atacar essa rede de cabos submarinos. O Kremlin conta hoje com uma frota de sofisticados submergíveis não tripulados projetados especificamente para esses fins. E a China também.

De fato, não se trata de uma ameaça teórica. Em outubro de 2022, o cabo submarino que conecta as Ilhas Shetland com o restante do mundo foi cortado em dois pontos. Poucos dias antes, havia sido detectada presença nessa região de um barco russo de “investigação científica”.

Não é possível vincular a presença do barco com o corte do cabo. De fato, na maioria das vezes os cortes se devem a acidentes com embarcações pesqueiras ou a eventos sísmicos no leito marinho. Mesmo assim, essa coincidência preocupou muito as agências de segurança das potências ocidentais, que perceberam o o incidente como uma advertência enviada pelo Kremlin.

Outro evento relevante nesse sentido foi a decisão tomada em fevereiro de 2023 pelas duas maiores empresas de telecomunicações chinesas, que decidiram se retirar do consórcio internacional encarregado de desenvolver uma rede de 19,2 mil quilômetros de cabos submarinos que conectam o sudoeste da Ásia e a Europa Ocidental.

Os impactos de um ataque coordenado contra os principais cabos submarinos em nível global seriam incalculáveis. Um ataque simultâneo paralisaria o comércio global, os mercados financeiros, o trabalho remoto e as indústrias de tecnologia e comunicação, provocando uma recessão mundial.

Mas o problema não seria meramente financeiro: as cadeias de fornecimento do século 21 dependem da transferência constante de dados para coordenar a entrega de bens e produtos. A interrupção deste fluxo poderia causar um efeito dominó de atrasos e cancelamentos que restringiria a integração econômica, política e até cultural de diferentes zonas geográficas.

Ainda mais, a crise financeira e econômica que um ataque desse tipo precipitaria nem sequer seria o maior dos problemas. “Desconectar” os cabos de potências rivais desembocaria numa crise inadministrável, especialmente se for possível atribuir a responsabilidade a algum ator estatal específico, o que poderia provocar conflitos e reconfigurar alianças. Os países que dependem em grande medida da infraestrutura digital seriam os mais afetados, e aqueles com capacidades autônomas de comunicação e tecnologia poderiam obter vantagens estratégicas.

Desafortunadamente, tais cenários não podem ser ignorados, porque no alto-mar reina a anarquia. Os tratados internacionais existentes sobre direito de navegação não cobrem satisfatoriamente o caso dos cabos submarinos. Trata-se de um exemplo emblemático de uma realidade global que, apesar de ser de grande interesse público, não está adequadamente protegida nem física nem legalmente.

    Até agora, as potências marítimas se abstiveram de atacar em grande escala as infraestruturas submarinas. Obviamente, atacar os cabos e conexões submarinas do rival provocaria custosas retaliações. Mas o equilíbrio atual é instável e inerentemente suscetível a perturbações que podem desestabilizar o sistema mundial da noite para o dia.

    Quando imaginamos que eventos seriam capazes de suscitar uma escalada entre o Ocidente e seus rivais, nós tendemos a nos esquecer dessa realidade. As sociedades contemporâneas não podem funcionar sem a transmissão de dados facilitada pela internet que, por sua vez, não pode funcionar sem infraestruturas muito difíceis de defender.

    A sensação de invulnerabilidade do Ocidente é ilusória, e seus rivais entenderam bem que certas infraestruturas — começando pelos cabos submarinos — são seu calcanhar de Aquiles. Essa realidade sublinha a necessidade de manter relações minimamente funcionais na arena internacional.

    A interdependência entre os países não é apenas um conceito usado por diplomatas. É uma realidade que define o mundo de hoje. Este é um mundo no qual os problemas, riscos e ameaças se fazem cada vez mais internacionais, enquanto as respostas dos governos seguem sendo predominantemente nacionais. Há problemas que nenhum país consegue resolver atuando sozinho. A necessidade de coordenar respostas e responder coletivamente com eficácia às ameaças é um objetivo para o qual o mundo não está preparado. 


    16 maio 2022

    Rússia escolhe vida

    Steven W. Mosher



    Publicado em 
    26 de dezembro de 2013


    Na semana passada, o presidente russo Vladimir Putin sancionou uma lei que proíbe anúncios comerciais de aborto. Alguns membros da Duma (o Congresso da Rússia) estão falando de ir mais longe e proibir o próprio procedimento do aborto. A Igreja Ortodoxa Russa, cujos membros estão se enchendo de convertidos e pessoas que estavam desviadas, está também mostrando seu peso na questão. Um prelado ortodoxo chamou o aborto de “rebelião contra Deus.” Eu mesmo não poderia ter expressado isso de forma melhor.



    16.out.2014 - Membros do grupo ativista Femen (incluindo a líder da organização, Inna Shevchenko, à esquerda) protestam na praça del Duomo, diante da catedral de Milão, contra a participação da Rússia na guerra no leste da Ucrânia, em razão da participação do presidente russo, Vladimir Putin, no 10º Encontro Ásia-Europa, nesta quinta-feira (16). Putin e o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, terão, no primeiro dia da cúpula, o terceiro encontro desde o início das tensões na Ucrânia Marco Bertorello/AFP






     Essa é uma virada estupenda num país que há muito tempo é conhecido por seu índice de aborto tragicamente elevado. Até recentemente, em média a mulher russa poderia esperar ter sete abortos durante sua vida inteira. Até mesmo o jornal New York Times, que não é um bastião de sentimentos pró-vida, se sentiu compelido a reconhecer que o elevado índice de aborto da Rússia estava prejudicando a saúde e fertilidade das mulheres russas. Como o jornal comentou num editorial de 2003: “Agora o governo russo está tentando reduzir o índice de aborto. É uma meta admirável, considerando o preço muito alto que os abortos múltiplos têm causado na saúde e fertilidade das mulheres russas.” Sem mencionar o preço elevado que o aborto tem custado em vidas de bebês em gestação, e na população como um todo.

    O aborto foi forçado no povo russo pelos bolcheviques (o Partido Comunista da Rússia sob a liderança de Lênin), que ao subirem ao poder em 1920 legalizaram o aborto até o momento do nascimento, sem nenhuma restrição. A meta deles era destruir a família incentivando as mulheres a fazer abortos, a não ficar em casa e a trabalhar fora. A Rússia foi o primeiro país do mundo a declarar guerra nos bebês em gestação desse jeito. É claro que com seus expurgos, execuções em massa e gulags a guerra atingiu os bebês em gestação de outras maneiras também.

    Aliás, foram os primeiros bolcheviques que desenvolveram a máquina de sucção de aborto que ainda hoje as clínicas de aborto usam. De fato, eles desenvolveram duas versões. A primeira era a máquina de sucção elétrica de fazer aborto, usadas nas clínicas de abortos dos Estados Unidos e outros países. A segunda foi o aspirador manual a vácuo, uma máquina de aborto manual que é usada nos países menos desenvolvidos em lugares que não dispõem de energia elétrica.

    O Instituto de Pesquisa Populacional, organização pró-vida com sede nos EUA, vem desempenhando um papel importante ajudando a Rússia a voltar a apoiar a vida. Participei da primeira Cúpula Demográfica na Universidade Social Estatal Russa em Moscou em maio de 2011. Conversamos com elevadas autoridades russas sobre a necessidade de proteger a vida. Não muito depois, uma lei foi aprovada proibindo o aborto de bebês de mais de 12 semanas. A lei também ordenava um período de 2 a 7 dias de espera para um aborto médico, e exigia que todos os que fazem anúncio de serviços de aborto incluíssem um aviso no sentido de que “o aborto é perigoso para a saúde da mulher.” Agora, evidentemente, o anúncio de qualquer tipo de aborto foi proibido.

    Consideradas individualmente, cada uma das leis implantadas pelo governo russo tem um impacto demográfico relativamente pequeno. O governo russo, por exemplo, paga uma bonificação de $13.000 aos pais de cada bebê recém-nascido. Contudo, de acordo com o demógrafo Igor Beloborodov, essa bonificação só convenceu 8 por cento dos casais em idade reprodutiva a considerar ter outro filho.

    O efeito cumulativo de todas as políticas pró-vida e pró-natalidade adotadas até agora está longe de ser importante. Embora haja ainda, de acordo com o Ministério da Saúde da Rússia, 1,7 abortos para cada nascimento vivo no país, essa proporção está diminuindo, pois o índice de natalidade está se elevando e o aborto está se tornando gradualmente menos comum.

    Como resultado da adoção de políticas inteligentes para proteger a santidade da vida, o declínio da população da Rússia foi praticamente detido, e o país entrou num curso demográfico mais estável.

    O inverno demográfico da Rússia ainda não acabou, mas há sinais de degelo de primavera.

    Traduzido por Julio Severo do artigo do Instituto de Pesquisa Populacional: Russia Chooses Life



    05 maio 2022

    Depois da Ucrânia, o próximo alvo será o Brasil (Daniel Lopez)

     



    No final das contas, a Guerra na Ucrânia é, principalmente, uma disputa energética. Os Estados Unidos estavam muito incomodados com a proximidade da conclusão do Nord Stream 2, o gasoduto que saía diretamente da Rússia para a Alemanha, seguindo pelo Mar Báltico. Era uma solução para os problemas gerados pelo Nord Stream 1, que cruza vários países, como Belarus, Polônia e Ucrânia, pagando pedágio, antes de chegar às demais nações da Europa. Caso concluído, o novo empreendimento colocaria nas mãos de Moscou praticamente todo o controle energético europeu, o que gerou grande descontentamento por parte de Washington.

    Em 2018, por exemplo, Donald Trump impôs sanções a indivíduos e empresas envolvidas na construção do Nord Stream 2, determinando a saída da maioria das companhias envolvidas no projeto. Entretanto, a empresa russa Gazprom decidiu seguir com as obras, o levando à conclusão neste ano. Porém, por pressão norte-americana, a licenças de funcionamento não foi concedida. Dessa forma, com a pressão comercial e a Guerra na Ucrânia, Washington conseguiu o que tanto queria: o projeto foi cancelado, com prejuízos bilionários, tirando da Rússia a esperança de controlar ainda mais a Europa por meio do fornecimento de energia. E isso levou os europeus a uma crise energética sem precedentes.

    O problema é que, além da escassez de energia, o conflito na Ucrânia também está gerando temores de uma gigantesca crise alimentícia, uma vez que as regiões envolvidas são grandes produtores de comida e fertilizantes. Os ucranianos não conseguiram tocar sua agricultura no primeiro semestre de 2022, enquanto a Rússia, devido às sanções, tem encontrado dificuldade para escoar sua produção. Podemos dizer, portanto, que o “celeiro do mundo” foi destruído. E só há um país que pode suprir essa demanda: o Brasil.

    Em visita recente a Brasília, a diretora da Organização Mundial do Comércio afirmou que o Brasil pode salvar o mundo da escassez de alimentos. Assim, fica claro que a triste situação na Ucrânia nos colocou numa condição de grande potencial, não apenas para suprir a demanda de comida, mas combater a crise energética. Isso insere o país numa nova dimensão em termos geopolíticos.

    Em 2021, os EUA tentaram estabelecer uma forte aproximação com Brasília, enviando o Conselheiro de Segurança Nacional, o diretor da CIA e depois com telefonemas constantes do Secretário de Estado Antony Blinken para o chanceler Carlos França. Todavia, com a visita do Presidente Bolsonaro a Moscou, a situação sofreu uma guinada. “O Brasil parece estar do outro lado”, disse, em fevereiro deste ano, a porta-voz da Casa Branca Jen Psaki, comentando sobre visita do presidente brasileiro a Vladmir Putin. E algumas insinuações de interferência em nosso cenário interno começaram a aparecer.

    Poderia o Brasil começar a sofrer sanções por não interromper suas relações comerciais com a Rússia? Ou por comprar fertilizantes de Moscou? Ou, talvez, devido ao desmatamento na Amazônia? Não sabemos ainda, mas essas hipóteses já foram sugeridas por algumas figuras importantes no cenário internacional. O detalhe é que tais posturas poderiam ser usadas para garantir o aumento do controle sobre nossa produção agrícola, que hoje se transformou em questão de vida ou morte para os países que ainda lutam para conseguir sua segurança alimentar.

    O que as nações mais poderosas do mundo estariam dispostas a fazer para garantir que o Brasil forneça para eles alimentos? Ou o controle sobre nossas matrizes energéticas e nossa água potável? Isso está se transformando de uma questão comercial para uma questão existencial. Por isso, neste ano, ou o Brasil decola, com ousadia e soberania, como uma potência, ou continuaremos ainda mais nas mãos de interesses de grandes conglomerados internacionais. Espero que consigamos ajudar o mundo, mas, ao mesmo tempo, e mantendo nossa autonomia, para que não nos transformemos em massa de manobra nas mãos dos abutres que desejam sugar nossas riquezas e recursos naturais.

    Foto de perfil de Daniel Lopez

    Daniel Lopez

    Daniel Lopez é jornalista, formado pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutor em Linguística (UFF), mestre em Linguística (UERJ), bacharel em Teologia (UMESP) e licenciado em Letras. Tem especialização em Teoria da Arte, Crítica de Arte, Filosofia, Sociologia e Antropologia. Foi professor nas áreas de Filosofia da Educação, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e de Linguística, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É pastor na Igreja Bola de Neve Sede, na cidade de São Paulo, desde 2014. É escritor, tradutor e professor universitário. Mantém o canal no YouTube "Daniel Lopez" e o site www.daniellopez.com.br.

    12 abril 2022

    BREVE INTRODUÇÃO AO EURASIANISMO (Fábio Blanco)


    02/03/2022 

    BREVE INTRODUÇÃO AO EURASIANISMO II


    Há uma guerra acontecendo, com o potencial de acarretar sérias consequências a todo mundo. Diante disso, acredito ser importante fazer uma análise mais aprofundada sobre as razões ideológicas que existem por trás das ações do governo de Vladimir Putin, e que estão além dos motivos geopolíticos e econômicos declarados.

    Nem todo mundo sabe, mas Putin possui como que um conselheiro permanente em assuntos estratégicos. Alexandr Dugin é a mente por detrás de muitas das decisões do presidente russo e o principal responsável por fornecer para o governo uma estrutura ideológica que lhe dê sustentação.

    Há dez anos, o professor Dugin – que possui alguns admiradores aqui no Brasil – foi convidado para um debate, por escrito, com o professor Olavo de Carvalho. O debate, então, transformou-se em um livro, chamado “Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial”. Nele, a ideologia duginiana foi exposta e devidamente contraditada pelo professor Olavo. Nas próximas linhas, farei uma síntese daquilo que Dugin expôs, para que possamos começar a entender o seu pensamento.

    Segundo o professor Dugin, depois do fim da guerra fria, nasceu uma Nova Ordem Mundial, baseada na cooperação entre os EUA e a URSS. No entanto, com a dissolução desta, os Estados Unidos passaram a buscar o controle hegemônico da política e da economia mundiais. Para isso, eles apostariam em três vias concomitantes: a do Império Americano (da preferência dos neocons), a da unipolaridade multilateral (da preferência dos democratas) e o do simples e direto governo mundial (delineada nas mesas do CFR).

    Tudo isso porque, conforme pensa Dugin, os EUA enxergam a si mesmos como o pico da civilização e o fim da história. Com isso, entendem-se obrigados a impor uma ordem global unilateral, tendo seu estilo de vida como o modelo a ser seguido em todo o mundo. Nessa tentativa de imposição, os EUA estariam promovendo um período de transição, que seria a passagem do liberalismo para um tipo de pós-humanismo, com a destruição de qualquer entidade social holística e com a fragmentação e atomização da sociedade.

    O que Dugin quer dizer é que os Estados Unidos querem impor o seu estilo de vida, baseado na competição, no individualismo e no materialismo sobre todo o mundo, sufocando as formas mais tradicionais e naturais de existência, dissolvendo as identidades nacionais e desprezando as raízes culturais dos povos.

    Porém, explica Dugin, contra essa ordem americana, existem grupos que se opõem, propondo configurações globais alternativas. Um deles seria o mundo islâmico e outro o neo-socialismo. Porém, há também o eurasianismo, o qual o professor representa. O Eurasianismo propõe simplesmente a divisão do mundo em grandes espaços, com a união de nações através da comunidade de valores e princípios. Seria, então, um mundo repartido em blocos ideológicos, cada um possuindo seu próprio estilo de vida e, consequentemente, sua própria maneira de viver, incluindo aí, seu próprio sistema econômico. A proposta eurasiana é o rompimento com a ordem político-econômica global, como ela vem sendo desenhada, para apresentar um modelo alternativo, que, se diz não querer dominar o mundo inteiro, certamente quer ter autonomia para dominar as nações que estiverem sujeitas à sua própria ordem.

    Sendo assim, é um objetivo manifesto da ideologia eurasiana fazer com que a Rússia rompa com o sistema global atual. Isso significaria, segundo sua perspectiva, a libertação em relação ao imperialismo americano e uma verdadeira independência daquilo que é considerado por ela como uma imposição de uma forma de vida que é uma afronta às tradições e história russas.

    Há diversas teorias que sustentam a ideologia eurasiana e que precisam ser compreendidas com mais profundidade. Por ora, é preciso entender que se trata de uma ideologia revolucionária, com elementos socialistas e fascistas, que tem como objetivo não apenas romper com uma ordem imposta desde fora, mas que pretende criar uma nova ordem, da mesma maneira autoritária.


    O dunguinismo no Brasil




    16 dezembro 2014

    DISCURSO DO PRESIDENTE DA RÚSSIA, VLADIMIR PUTIN.




    Discurso efetuado por ocasião da Reunião do Clube de Discussão Internacional Valdai, em 24 de outubro de 2014, em Sochi.

    Colegas, senhoras e senhores, amigos, é um prazer recebê-los para a reunião XI do Clube de Discussão Internacional Valdai.
    Foi mencionado que o clube tem novos co-organizadores este ano. Elas incluem as organizações não-governamentais russas, grupos de especialistas e as melhores universidades. Foi, também, levantada a ideia de ampliar as discussões para incluir não apenas as questões relacionadas com a própria Rússia, mas também a política mundial e a economia.
    A organização e o conteúdo vão reforçar a influência do clube como um importante fórum de discussão e de especialistas. Ao mesmo tempo, espero que o ‘espírito de Valdai’ permaneça — essa atmosfera livre e aberta e com a chance de expressar todos os tipos de opiniões muito diferentes e francas.
    Deixe-me dizer a este respeito que eu também não vou desapontar vocês e vou falar diretamente e com franqueza. Algumas das coisas que eu disser podem parecer um pouco duras demais, mas se nós não falarmos diretamente e honestamente sobre o que realmente pensamos, então não vale a pena nos reunirmos desta forma. Seria melhor, neste caso, apenas manter os encontros diplomáticos, onde ninguém diz nada de verdadeiro sentido e, recordando as palavras de um diplomata famoso, você percebe que os diplomatas têm línguas, mas não para falar a verdade. Ficamos juntos por outras razões. Nós nos reunimos assim para falarmos francamente um com o outro. Precisamos ser diretos e francos, hoje, não para trocarmos farpas, mas a fim de tentar chegar ao fundo do que está realmente acontecendo no mundo, tentar entender por que o mundo está se tornando menos seguro e mais imprevisível e por que os riscos estão aumentando em todos os lugares à nossa volta. A discussão de hoje tomou lugar sob o tema: Novas Regras ou um Jogo Sem Regras. Eu acho que essa fórmula descreve com precisão o ponto de virada histórico a que chegamos hoje e a escolha que todos nós enfrentamos. Naturalmente, não há nada de novo na idéia de que o mundo está mudando muito rápido. Eu sei que isso é algo que vocês têm comentado nas discussões de hoje. Certamente é difícil não notar as transformações dramáticas na política mundial e na economia, na vida pública e na indústria, nas tecnologias de informação e sociais.
    Deixe-me perguntar-lhes agora e peço que me perdoem se eu acabar repetindo o que alguns dos participantes da discussão já disseram. É praticamente impossível evitar. Vocês já realizaram discussões detalhadas, mas vou definir o meu ponto de vista. Ele vai coincidir com a opinião dos outros participantes em alguns pontos e divergir em outros.
    Ao analisar a situação de hoje, não esqueçamos as lições da história. Primeiramente, as mudanças na ordem mundial — e o que estamos vendo hoje são eventos nessa escala — têm geralmente sido acompanhadas, se não de uma guerra e conflitos mundiais, por uma cadeia de intensos conflitos em nível local. Em segundo lugar, a política global é, acima de tudo, sobre a liderança econômica, questões de guerra e paz e a dimensão humanitária, incluindo os direitos humanos.
    O mundo está cheio de contradições hoje. Precisamos ser francos em perguntar uns aos outros se temos uma rede de segurança confiável funcionando direito. Infelizmente, não há nenhuma garantia e não há certeza de que o atual sistema de segurança global e regional é capaz de nos proteger de convulsões. Esse sistema tornou-se seriamente enfraquecido, fragmentado e deformado. As organizações de cooperação internacional e regional políticas, econômicas e culturais também estão passando por momentos difíceis.
    Sim, muitos dos mecanismos que temos para garantir a ordem mundial foram criados muito tempo atrás, inclusive e, sobretudo, no período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. Deixe-me enfatizar que a solidez do sistema criado naquela época não repousou apenas no equilíbrio de poder e os direitos dos países vencedores, mas no fato de que "os pais fundadores" desse sistema tiveram respeito um pelo outro, não tentaram colocar pressão sobre os outros, mas procuraram chegar a acordos.
    A principal coisa é que este sistema necessita se desenvolver, e apesar de suas várias deficiências, precisa pelo menos ser capaz de manter os problemas atuais do mundo dentro de certos limites e regular a intensidade da concorrência natural entre os países.
    É minha convicção de que não poderíamos tomar este mecanismo de freios e contrapesos que construímos ao longo das últimas décadas, às vezes com tal esforço e dificuldade, e simplesmente acabar com eles sem construir qualquer coisa em seu lugar. Caso contrário, ficaríamos sem nenhum outro instrumento além da força bruta.
    O que precisávamos fazer era realizar uma reconstrução racional e adaptá-la às novas realidades no sistema das relações internacionais.
    Mas os Estados Unidos, tendo se declarado o vencedor da Guerra Fria, não vê necessidade para isso. Em vez de estabelecer um novo equilíbrio de poder, essencial para a manutenção da ordem e da estabilidade, eles tomaram medidas que jogaram o sistema em um desequilíbrio agudo e profundo.


    Fonte: Julio Severo

    03 fevereiro 2014

    Tempos Perigosos: Rússia Ascendendo no Oriente Médio




    James Lewis
    Agora que os EUA fazem uma política de liderar dos bastidores, algumas potências mais sérias correm para preencher o vazio. E Obama está pronto para deixar isso acontecer, razão pela qual a Índia acaba de lançar seu primeiro porta-aviões de fabricação própria e o Japão está se rearmando para evitar que a China roube todo o Mar da China Meridional.
    Quando os EUA saírem do jogo, o que virá não é amor e paz, ao contrário do que pensam os esquerdistas, profundamente iludidos. O que irá acontecer é uma disputa mundial para ver quem vai ser o “rei do pedaço”. Instabilidade produz guerra, como podemos ver nas manchetes de jornais. Obama derrubou o regime de Mubarak no Egito, um pilar de paz e estabilidade que durou trinta anos. Agora a guerra civil explodiu por todos os lados: Egito, Líbia e Síria. Grande coisa essa tão louvada “Primavera Árabe”. Os iranianos estão rindo a essa altura, se preparando para passar a perna no Ocidente mais uma vez.
    E para mostrar sua profunda preocupação com a matança, Obama está mandando cartões postais da ilha de Martha’s Vineyard, onde passa férias, rindo e se divertindo.
    Os árabes não estão rindo. No Egito, ambos os lados culpam Obama. Na Líbia e na Síria, os americanos também alienaram ambos os lados. E pelos bastidores, os sauditas estão pagando o exército egípcio para derrubar a Irmandade Islâmica, enquanto os barões do petróleo do Qatar tentam passar os sauditas para trás.
    Israel é o único país democrático, estável e próspero da região, e observa com nervosismo enquanto seus inimigos matam uns aos outros. O Egito agora está em guerra com o Hamas em Gaza, onde a Irmandade Islâmica se abriga. E o Hezbollah está infiltrado na Síria, defendendo o regime dos rebeldes da Al Qaeda.
    Na ausência da força e da confiabilidade americana, todos os protagonistas se voltam para a Rússia, que está emergindo:
     como defensora declarada do Cristianismo contra a perseguição muçulmana ao redor do mundo;
     como uma plausível negociadora de paz no Oriente Médio, com relações muito melhores com Israel, Arábia Saudita, Egito e Síria que as que os EUA têm hoje;
     como detentora do monopólio do fornecimento de gás natural para a Alemanha, com o consentimento do eixo franco-alemão;
     como o único país com um guarda-chuva nuclear confiável para proteger os amigos e deter os inimigos;
     como um país que entende o valor de mercados relativamente livres (veja o imposto uniforme de 14% que Putin acabou de introduzir na Rússia).
    Vladimir Putin agora parece ser o herdeiro de Pedro I da Rússia, o czar modernizador. Essa é outra estranha reviravolta da história, mas fatos são fatos.
    A Rússia de Putin não é um poder marxista imperialista. Isso é importante, porque costumávamos pensar em um império soviético expansionista. Hoje, Putin tem que ser prático para recuperar a força da Rússia depois de décadas de fracasso e decadência. Por isso ele está usando a Igreja Ortodoxa Russa como sua base ideológica para construir sua popularidade. Ele segue os passos dos czares. Até o momento, Putin não avança de maneira agressiva, buscando primeiramente o prestígio internacional, conquistas econômicas e influência nos países vizinhos. Uma das razões para isso é que ele tem um competidor global: a China.
    Isso não quer dizer que ele é um cara legal, ou que a Rússia não irá buscar um poder maior. Putin é um imperador da Grande Rússia. A China, a Europa e o islamismo são suas maiores ameaças históricas. Mas, na era nuclear, há ameaças por todos os lados.
    Por isso, Putin busca tomar o lugar dos EUA como poder decisivo no Oriente Médio. Ele também quer desempenhar um grande papel na próxima OPEP, baseada no gás e no óleo de xisto. E também gosta de provocar os EUA.
    A surpresa maior é que, ao contrário de Obama, o presidente mais antiamericano que já existiu, Vladimir Putin emerge como um defensor de valores tradicionais ocidentais.
    Isso é esquisito demais para você?
    Para mostrar a seriedade da Rússia no Oriente Médio, Putin visitou pessoalmente e buscou contato com todos os protagonistas, incluindo o regime de Sisi no Egito, Israel, a Síria de Assad e a Arábia Saudita. Todos agora estão buscando seu apoio.
    Faz sentido. Suponha que você seja o general Sisi do Egito, tentando governar uma nação no caos. Quem você quer para garantir sua segurança? Um autodepreciativo e traiçoeiro Obama, ou um implacável, mas coerente Putin?
    A resposta é clara.
    Isso também se aplica a Israel, que não quer uma guerra com o Irã, mas não pode confiar nos malucos de Teerã. Somente a Rússia tem a vontade e o respaldo militar para manter os mulás em seus lugares. Os EUA têm o poder, mas não mais a vontade ou a confiança de seus aliados.
    Se Putin se voltar contra os mulás, eles não têm como ganhar. Ele é perigoso demais, com uma força nuclear intimidadora e que ele está disposto a colocar em ação se Teerã em algum momento representar ameaça. Os mulás sabem o que Putin fez à Chechênia muçulmana depois dos ataques terroristas em Moscou e na Bielorrússia. O exército russo é brutal e indiscriminado. Eles não têm medo da histeria esquerdista ocidental. Obama pode ansiar por ser adorado, mas Putin quer ser temido e respeitado. Putin é um homem, com valores masculinos. Obama não.
    Nossos aliados da OTAN agora estão felizes em comprar a proteção nuclear de Putin em vez de uma América fraca e vacilante. Esta semana, as forças aéreas francesas e russas estão fazendo treinamentos conjuntos. Não é coincidência.
    Na política internacional, os poderes sérios prevalecem. Ninguém irá apostar sua sobrevivência a uma pequena seita de egoístas iludidos da Casa Branca. Homens como Putin irão mastigá-los, cuspi-los e pedir mais.
    Durante o Império Soviético, a ascensão da Rússia teria sido má notícia. Hoje em dia, talvez dê aos EUA espaço para respirar e consertar o que está errado em casa.
    Poderiam começar introduzindo o imposto uniforme de 14%, uma ideia criada nos EUA, mas que sua classe política vê com desdém.
    Se o imposto uniforme funciona na Rússia, vejamos outra glasnost e outra perestroika, mas desta vez na América, se suas próprias ideias políticas voltarem do exterior.
    Depois de Obama, parece que irão precisar. 
    Traduzido por Luis Gustavo Gentil do original do American Thinker: Dangerous Times: Russia Rising in the Middle East


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