31 março 2024
27 junho 2023
Como será o dia em que Putin desligar os cabos da internet mundial?
MOISÉS NAÍM 25 JUNHO 2023 | 4min de leitura
É fácil imaginar a internet como um fenômeno etéreo, imaterial. Nestes tempos é normal, por exemplo, conectar-se à rede sem necessidade de cabos, guardar dados na “nuvem” e supor que a informação flui sem “sujar-se” no mundo tátil.
Pena que essas suposições sejam errôneas. A rede da qual dependemos é alarmantemente física e eminentemente vulnerável. Segundo o marechal Edward Stringer, ex-diretor de operações do Ministério de Defesa britânico, 95% do tráfego internacional de dados passa por um pequeno número de cabos submarinos. Estamos falando de meros 200 cabos, cada um da grossura aproximada à de uma mangueira de jardim e capaz de transferir cerca de 200 terabytes por segundo.
Por essa rede física trafegam US$ 10 trilhões em transações financeiras a cada dia. Como explica Stringer, nos últimos 20 anos, a Rússia investiu fortemente em sistemas capazes de atacar essa rede de cabos submarinos. O Kremlin conta hoje com uma frota de sofisticados submergíveis não tripulados projetados especificamente para esses fins. E a China também.
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Não é possível vincular a presença do barco com o corte do cabo. De fato, na maioria das vezes os cortes se devem a acidentes com embarcações pesqueiras ou a eventos sísmicos no leito marinho. Mesmo assim, essa coincidência preocupou muito as agências de segurança das potências ocidentais, que perceberam o o incidente como uma advertência enviada pelo Kremlin.
Outro evento relevante nesse sentido foi a decisão tomada em fevereiro de 2023 pelas duas maiores empresas de telecomunicações chinesas, que decidiram se retirar do consórcio internacional encarregado de desenvolver uma rede de 19,2 mil quilômetros de cabos submarinos que conectam o sudoeste da Ásia e a Europa Ocidental.
Os impactos de um ataque coordenado contra os principais cabos submarinos em nível global seriam incalculáveis. Um ataque simultâneo paralisaria o comércio global, os mercados financeiros, o trabalho remoto e as indústrias de tecnologia e comunicação, provocando uma recessão mundial.
Mas o problema não seria meramente financeiro: as cadeias de fornecimento do século 21 dependem da transferência constante de dados para coordenar a entrega de bens e produtos. A interrupção deste fluxo poderia causar um efeito dominó de atrasos e cancelamentos que restringiria a integração econômica, política e até cultural de diferentes zonas geográficas.
Ainda mais, a crise financeira e econômica que um ataque desse tipo precipitaria nem sequer seria o maior dos problemas. “Desconectar” os cabos de potências rivais desembocaria numa crise inadministrável, especialmente se for possível atribuir a responsabilidade a algum ator estatal específico, o que poderia provocar conflitos e reconfigurar alianças. Os países que dependem em grande medida da infraestrutura digital seriam os mais afetados, e aqueles com capacidades autônomas de comunicação e tecnologia poderiam obter vantagens estratégicas.
Desafortunadamente, tais cenários não podem ser ignorados, porque no alto-mar reina a anarquia. Os tratados internacionais existentes sobre direito de navegação não cobrem satisfatoriamente o caso dos cabos submarinos. Trata-se de um exemplo emblemático de uma realidade global que, apesar de ser de grande interesse público, não está adequadamente protegida nem física nem legalmente.
Até agora, as potências marítimas se abstiveram de atacar em grande escala as infraestruturas submarinas. Obviamente, atacar os cabos e conexões submarinas do rival provocaria custosas retaliações. Mas o equilíbrio atual é instável e inerentemente suscetível a perturbações que podem desestabilizar o sistema mundial da noite para o dia.
Quando imaginamos que eventos seriam capazes de suscitar uma escalada entre o Ocidente e seus rivais, nós tendemos a nos esquecer dessa realidade. As sociedades contemporâneas não podem funcionar sem a transmissão de dados facilitada pela internet que, por sua vez, não pode funcionar sem infraestruturas muito difíceis de defender.
A sensação de invulnerabilidade do Ocidente é ilusória, e seus rivais entenderam bem que certas infraestruturas — começando pelos cabos submarinos — são seu calcanhar de Aquiles. Essa realidade sublinha a necessidade de manter relações minimamente funcionais na arena internacional.
A interdependência entre os países não é apenas um conceito usado por diplomatas. É uma realidade que define o mundo de hoje. Este é um mundo no qual os problemas, riscos e ameaças se fazem cada vez mais internacionais, enquanto as respostas dos governos seguem sendo predominantemente nacionais. Há problemas que nenhum país consegue resolver atuando sozinho. A necessidade de coordenar respostas e responder coletivamente com eficácia às ameaças é um objetivo para o qual o mundo não está preparado.
16 maio 2022
Rússia escolhe vida

05 maio 2022
Depois da Ucrânia, o próximo alvo será o Brasil (Daniel Lopez)
No final das contas, a Guerra na Ucrânia é, principalmente, uma disputa energética. Os Estados Unidos estavam muito incomodados com a proximidade da conclusão do Nord Stream 2, o gasoduto que saía diretamente da Rússia para a Alemanha, seguindo pelo Mar Báltico. Era uma solução para os problemas gerados pelo Nord Stream 1, que cruza vários países, como Belarus, Polônia e Ucrânia, pagando pedágio, antes de chegar às demais nações da Europa. Caso concluído, o novo empreendimento colocaria nas mãos de Moscou praticamente todo o controle energético europeu, o que gerou grande descontentamento por parte de Washington.
Em 2018, por exemplo, Donald Trump impôs sanções a indivíduos e empresas envolvidas na construção do Nord Stream 2, determinando a saída da maioria das companhias envolvidas no projeto. Entretanto, a empresa russa Gazprom decidiu seguir com as obras, o levando à conclusão neste ano. Porém, por pressão norte-americana, a licenças de funcionamento não foi concedida. Dessa forma, com a pressão comercial e a Guerra na Ucrânia, Washington conseguiu o que tanto queria: o projeto foi cancelado, com prejuízos bilionários, tirando da Rússia a esperança de controlar ainda mais a Europa por meio do fornecimento de energia. E isso levou os europeus a uma crise energética sem precedentes.
O problema é que, além da escassez de energia, o conflito na Ucrânia também está gerando temores de uma gigantesca crise alimentícia, uma vez que as regiões envolvidas são grandes produtores de comida e fertilizantes. Os ucranianos não conseguiram tocar sua agricultura no primeiro semestre de 2022, enquanto a Rússia, devido às sanções, tem encontrado dificuldade para escoar sua produção. Podemos dizer, portanto, que o “celeiro do mundo” foi destruído. E só há um país que pode suprir essa demanda: o Brasil.
Em visita recente a Brasília, a diretora da Organização Mundial do Comércio afirmou que o Brasil pode salvar o mundo da escassez de alimentos. Assim, fica claro que a triste situação na Ucrânia nos colocou numa condição de grande potencial, não apenas para suprir a demanda de comida, mas combater a crise energética. Isso insere o país numa nova dimensão em termos geopolíticos.
Em 2021, os EUA tentaram estabelecer uma forte aproximação com Brasília, enviando o Conselheiro de Segurança Nacional, o diretor da CIA e depois com telefonemas constantes do Secretário de Estado Antony Blinken para o chanceler Carlos França. Todavia, com a visita do Presidente Bolsonaro a Moscou, a situação sofreu uma guinada. “O Brasil parece estar do outro lado”, disse, em fevereiro deste ano, a porta-voz da Casa Branca Jen Psaki, comentando sobre visita do presidente brasileiro a Vladmir Putin. E algumas insinuações de interferência em nosso cenário interno começaram a aparecer.
Poderia o Brasil começar a sofrer sanções por não interromper suas relações comerciais com a Rússia? Ou por comprar fertilizantes de Moscou? Ou, talvez, devido ao desmatamento na Amazônia? Não sabemos ainda, mas essas hipóteses já foram sugeridas por algumas figuras importantes no cenário internacional. O detalhe é que tais posturas poderiam ser usadas para garantir o aumento do controle sobre nossa produção agrícola, que hoje se transformou em questão de vida ou morte para os países que ainda lutam para conseguir sua segurança alimentar.
O que as nações mais poderosas do mundo estariam dispostas a fazer para garantir que o Brasil forneça para eles alimentos? Ou o controle sobre nossas matrizes energéticas e nossa água potável? Isso está se transformando de uma questão comercial para uma questão existencial. Por isso, neste ano, ou o Brasil decola, com ousadia e soberania, como uma potência, ou continuaremos ainda mais nas mãos de interesses de grandes conglomerados internacionais. Espero que consigamos ajudar o mundo, mas, ao mesmo tempo, e mantendo nossa autonomia, para que não nos transformemos em massa de manobra nas mãos dos abutres que desejam sugar nossas riquezas e recursos naturais.

Daniel Lopez
12 abril 2022
BREVE INTRODUÇÃO AO EURASIANISMO (Fábio Blanco)
BREVE INTRODUÇÃO AO EURASIANISMO II
Há uma guerra acontecendo, com o potencial de acarretar sérias consequências a todo mundo. Diante disso, acredito ser importante fazer uma análise mais aprofundada sobre as razões ideológicas que existem por trás das ações do governo de Vladimir Putin, e que estão além dos motivos geopolíticos e econômicos declarados.
Nem todo mundo sabe, mas Putin possui como que um conselheiro permanente em assuntos estratégicos. Alexandr Dugin é a mente por detrás de muitas das decisões do presidente russo e o principal responsável por fornecer para o governo uma estrutura ideológica que lhe dê sustentação.
Há dez anos, o professor Dugin – que possui alguns admiradores aqui no Brasil – foi convidado para um debate, por escrito, com o professor Olavo de Carvalho. O debate, então, transformou-se em um livro, chamado “Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial”. Nele, a ideologia duginiana foi exposta e devidamente contraditada pelo professor Olavo. Nas próximas linhas, farei uma síntese daquilo que Dugin expôs, para que possamos começar a entender o seu pensamento.
Segundo o professor Dugin, depois do fim da guerra fria, nasceu uma Nova Ordem Mundial, baseada na cooperação entre os EUA e a URSS. No entanto, com a dissolução desta, os Estados Unidos passaram a buscar o controle hegemônico da política e da economia mundiais. Para isso, eles apostariam em três vias concomitantes: a do Império Americano (da preferência dos neocons), a da unipolaridade multilateral (da preferência dos democratas) e o do simples e direto governo mundial (delineada nas mesas do CFR).
Tudo isso porque, conforme pensa Dugin, os EUA enxergam a si mesmos como o pico da civilização e o fim da história. Com isso, entendem-se obrigados a impor uma ordem global unilateral, tendo seu estilo de vida como o modelo a ser seguido em todo o mundo. Nessa tentativa de imposição, os EUA estariam promovendo um período de transição, que seria a passagem do liberalismo para um tipo de pós-humanismo, com a destruição de qualquer entidade social holística e com a fragmentação e atomização da sociedade.
O que Dugin quer dizer é que os Estados Unidos querem impor o seu estilo de vida, baseado na competição, no individualismo e no materialismo sobre todo o mundo, sufocando as formas mais tradicionais e naturais de existência, dissolvendo as identidades nacionais e desprezando as raízes culturais dos povos.
Porém, explica Dugin, contra essa ordem americana, existem grupos que se opõem, propondo configurações globais alternativas. Um deles seria o mundo islâmico e outro o neo-socialismo. Porém, há também o eurasianismo, o qual o professor representa. O Eurasianismo propõe simplesmente a divisão do mundo em grandes espaços, com a união de nações através da comunidade de valores e princípios. Seria, então, um mundo repartido em blocos ideológicos, cada um possuindo seu próprio estilo de vida e, consequentemente, sua própria maneira de viver, incluindo aí, seu próprio sistema econômico. A proposta eurasiana é o rompimento com a ordem político-econômica global, como ela vem sendo desenhada, para apresentar um modelo alternativo, que, se diz não querer dominar o mundo inteiro, certamente quer ter autonomia para dominar as nações que estiverem sujeitas à sua própria ordem.
Sendo assim, é um objetivo manifesto da ideologia eurasiana fazer com que a Rússia rompa com o sistema global atual. Isso significaria, segundo sua perspectiva, a libertação em relação ao imperialismo americano e uma verdadeira independência daquilo que é considerado por ela como uma imposição de uma forma de vida que é uma afronta às tradições e história russas.
Há diversas teorias que sustentam a ideologia eurasiana e que precisam ser compreendidas com mais profundidade. Por ora, é preciso entender que se trata de uma ideologia revolucionária, com elementos socialistas e fascistas, que tem como objetivo não apenas romper com uma ordem imposta desde fora, mas que pretende criar uma nova ordem, da mesma maneira autoritária.
O dunguinismo no Brasil
16 dezembro 2014
DISCURSO DO PRESIDENTE DA RÚSSIA, VLADIMIR PUTIN.
Discurso efetuado por ocasião da Reunião do Clube de Discussão Internacional Valdai, em 24 de outubro de 2014, em Sochi.







