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21 agosto 2024

Artigos falsos em revistas científicas expõem militância da universidade

Ato do Black Lives Matter em Washington

(foto: Tasos Katopodis/Getty Images/AFP)

RAMIRO BATISTA

02/11/2021


Entenda o escândalo que provou como é possível publicar qualquer bobagem identitária na área de Ciências Sociais desde que inclua seus chavões e sua literatura


Em meados de 2018, uma das publicações científicas americanas líderes da geografia feminista, a Gender, Place & Culture, publicou com alta badalação e destaque entre os 12 melhores de sua edição comemorativa de 25 anos o artigo "Parques Caninos".

Uma defesa do adestramento de homens como cães como forma de combate à cultura do estupro, a partir da observação de que parques caninos são espaços de apologia ao estupro. Assentava-se em vasta literatura de estudos de raça, gênero e identidade e um título prolixo típico desse universo: "Reações Humanas à Cultura do Estupro e à Performatividade Queer em Parques Urbanos para Cães em Portland, Oregon."

Tinha passado pelos trâmites longos e rigorosos de aceitação de artigos científicos, com exame e refutação de pares da academia, e colhido pareceres empolgados como o de que significava "contribuição importante à geografia animal feminista". Ou:

“Este é um artigo maravilhoso, incrivelmente inovador, rico em análise e extremamente bem escrito e bem organizado, dados os conjuntos de literatura incrivelmente diversos e questões teóricas postas em questão. O desenvolvimento que a autora faz do foco e das contribuições do artigo é particularmente impressionante. O campo de trabalho desenvolvido contribui imensamente à contribuição do artigo como um trabalho acadêmico inovador e valioso, que atrairá os leitores de uma ampla gama de disciplinas e formações teóricas.”

Por essa mesma época, a não menos respeitável Sexuality & Culture, publicou outro em defesa da tese de que  o uso de consolos por homens pode ajudar a combater a transfobia e reforçar valores feministas. Título: "Entrando pela Porta dos Fundos: Desafiando a Homohisteria e a Transfobia de Homens Heterossexuais através do Uso de Brinquedos Eróticos Penetrantes". Tão fundamentado, analisado e aprovado quanto:

"Este artigo é uma contribuição incrivelmente rica e empolgante ao estudo da sexualidade e da cultura, e particularmente da intersecção entre a masculinidade e a analidade. … Essa contribuição, por certo, é importante, vem em boa hora e é digna de publicação."

A Sex Roles publicou sob os mesmos trâmites outro sobre objetificação sexual a partir da análise de homens que frequentam restaurantes de garçonetes de peito semi exposto, os "peitaurantes", como sintoma de herança patriarcal e desejo de dar ordens a mulheres atraentes: "Uma Etnografia da Masculinidade de Peitaurante: Temas de Objetificação, Conquista Sexual, Controle Masculino, e Firmeza Masculina num Restaurante Sexualmente Objetificador"

E a também honorável Fat Studies publicou sob o mesmo rigor a tese de que "o corpo gordo é um gordo legitimamente cultivado" e que a obesidade mórbida é um estilo de vida saudável, distorcido pelas "normas culturais que fazem a sociedade considerar o cultivo de músculos em vez de gordura como algo admirável". Título: "Quem São Eles Para Julgar?: Superando a Antropometria, e um Arcabouço para o Fisiculturismo Gordo".

Entre os elogios dos pareceristas, uma restrição risível, reveladora das obsessões dessa tribo:

"[O] uso do termo ‘fronteira final’ é problemático ao menos de duas formas. Primeira — o termo ‘fronteira’ sugere a expansão colonial e a posse hostil, e o apagamento genocida dos povos indígenas. Encontre outro termo.”

Três outras grandes publicações analisavam empolgadas, pela ordem, 

- um artigo sobre a masturbação masculina como indício de violência sexual contra a mulher, mesmo que ela não consinta ou saiba, 

- um outro sobre o risco de a inteligência artificial se transformar numa construção masculinista e 

- um terceiro, uma versão feminina de Mein Kampf de Hitler ("Minha Luta é Nossa Luta").

Até saberem que, como os quatro primeiros, se tratavam de um embuste, uma fraude monumental, produzidos com metodologias questionáveis, estatísticas implausíveis, alegações não sustentadas pelos dados e análises qualitativas motivadas puramente por ideologia.

Foram perpetrados sob pseudônimo por um professor de filosofia, um doutor em matemática e uma pesquisadora de textos medievais escrito por e sobre mulheres. Dispostos a provar, como provaram, que é possível publicar qualquer bobagem da moda na política em publicações científicas respeitáveis de estudos de gênero, desde que cheia de clichês ideológicos e envernizada por citações da literatura da área.

— Conforme progredíamos, começamos a perceber que mais ou menos qualquer coisa poderia funcionar, contanto que ficasse dentro da ortodoxia moral da área e demonstrasse um entendimento da literatura existente — escreveram na síntese do trabalho a que chamaram "Estudos de Ressentimento", neste site, traduzida pelo biólogo geneticista Eli Vieira. 

Peter Boghossian, Helen Pluckrose e James A. Lindsay produziram em um ano 20 artigos totalmente fraudulentos, mas dentro dos cânones exigidos pelo meio acadêmico, com ampla fundamentação da literatura da área e submissão ao escrutínio de seus pares, além dos clichês e do título rebuscado, claro.

Conseguiram publicar sete, um índice altíssimo em tão pouco tempo no meio, e andavam com outros sete em correção, na iminência de publicação, quando foram denunciados por um curioso de rede social (Real Peer Review) e expuseram em longa entrevista ao Wall Street Journal o propósito da empreitada.

Foram perpetrados sob pseudônimo por um professor de filosofia, um doutor em matemática e uma pesquisadora de textos medievais escrito por e sobre mulheres. Dispostos a provar, como provaram, que é possível publicar qualquer bobagem da moda na política em publicações científicas respeitáveis de estudos de gênero, desde que cheia de clichês ideológicos e envernizada por citações da literatura da área.

— Conforme progredíamos, começamos a perceber que mais ou menos qualquer coisa poderia funcionar, contanto que ficasse dentro da ortodoxia moral da área e demonstrasse um entendimento da literatura existente — escreveram na síntese do trabalho a que chamaram "Estudos de Ressentimento", neste site, traduzida pelo biólogo geneticista Eli Vieira. 

Peter Boghossian, Helen Pluckrose e James A. Lindsay produziram em um ano 20 artigos totalmente fraudulentos, mas dentro dos cânones exigidos pelo meio acadêmico, com ampla fundamentação da literatura da área e submissão ao escrutínio de seus pares, além dos clichês e do título rebuscado, claro.

Conseguiram publicar sete, um índice altíssimo em tão pouco tempo no meio, e andavam com outros sete em correção, na iminência de publicação, quando foram denunciados por um curioso de rede social (Real Peer Review) e expuseram em longa entrevista ao Wall Street Journal o propósito da empreitada.

Foram perpetrados sob pseudônimo por um professor de filosofia, um doutor em matemática e uma pesquisadora de textos medievais escrito por e sobre mulheres. Dispostos a provar, como provaram, que é possível publicar qualquer bobagem da moda na política em publicações científicas respeitáveis de estudos de gênero, desde que cheia de clichês ideológicos e envernizada por citações da literatura da área.

— Conforme progredíamos, começamos a perceber que mais ou menos qualquer coisa poderia funcionar, contanto que ficasse dentro da ortodoxia moral da área e demonstrasse um entendimento da literatura existente — escreveram na síntese do trabalho a que chamaram "Estudos de Ressentimento", neste site, traduzida pelo biólogo geneticista Eli Vieira. 

Peter Boghossian, Helen Pluckrose e James A. Lindsay produziram em um ano 20 artigos totalmente fraudulentos, mas dentro dos cânones exigidos pelo meio acadêmico, com ampla fundamentação da literatura da área e submissão ao escrutínio de seus pares, além dos clichês e do título rebuscado, claro.

Conseguiram publicar sete, um índice altíssimo em tão pouco tempo no meio, e andavam com outros sete em correção, na iminência de publicação, quando foram denunciados por um curioso de rede social (Real Peer Review) e expuseram em longa entrevista ao Wall Street Journal o propósito da empreitada.

Opinião sem dados é preconceito, disse numa entrevista em que exemplificou: se você diz que a polícia americana para ou mata mais negros que brancos, é preciso ir lá e medir para ver se é verdade e encarar verdades inconvenientes. 

Não teorizar a priori que é racismo estrutural ou resquício de dominação ancestral branca, acrescento. Se a polícia tem uma larga faixa de negros e certamente por isso negros também matam negros, como no Brasil, como fica a teoria?


Foi agredido de diferente formas quando tentou explicar o que acreditam as pessoas que defendem fechamento de fronteiras, que há diferenças físicas entre homens e mulheres e o problema do islamismo radical. Um aluno o acusou de racista e se retirou da sala quando ele tentou explicar o básico de que Islã não é raça, é religião, e que raça não se escolhe.

Num primeiro momento, ele começou a acreditar que a contaminação ideológica e a intimidação de estudantes, administradores e outros departamentos atingiam “um número razoável de pessoas”, mas “em um pequeno número de faculdades”. 

Mais tarde, quando testou sua hipótese num artigo em uma revista de baixo prestígio que o pênis era um "conceito construído socialmente”, que chegam a “muita gente em um pequeno número de faculdades”. Até concluir, depois do estândalo, que eram comuns a “quase todas as pessoas nas universidades”.

Até o ponto em que foi demitido — ao invés de promovido — da Portland, no rastro da polêmica, depois de ouvir do reitor o disparate de que a função da universidade era fazer justiça racial. Não produzir conhecimento independente, como deve ser.

E tomar consciência de que o sistema todo estava infectado, como disse em entrevista recente à Gazeta do Povo, de Curitiba, onde previu que a doença que chegou ao estado atual de cancelamento e lacração, para não ouvir o outro lado, vai piorar ainda muito antes de melhorar.

— A cultura woke está piorando porque as universidades continuam a formar gente com essa bobagem, nesse sistema de crenças doentio e perigoso.

Vai melhorar um dia porque, segundo ele, "criamos uma cultura em que as pessoas fingem acreditar no que de fato não acreditam. Isto não é sustentável. Ninguém aguenta viver assim".

21 janeiro 2024

A TERRA PLANA E A CIÊNCIA ATEÍSTA


 Por Levi Matheus


“Agora também, quando estou velho e de cabelos brancos, não me desampares, ó Deus, até que tenha anunciado a tua força a esta geração, e o teu poder a todos os vindouros”. (Salmos 71:18). 

O sol e a lua pararam nas suas moradas; andaram à luz das tuas flechas, ao resplendor do relâmpago da tua lança. (Habacuque 3:11). 

E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Isto não está escrito no livro de Jasher? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro. (Josué 10:13).

Quem está certo: a ciência que afirma que a Terra é um planeta e que gira em torno do Sol, ou a Bíblia que - como está escrito em Josué capítulo 10:13, e ratificado em Habacuque 3:11 - relata o sol e a lua parando pelo poder do Senhor Deus?

Eu sei que quase todos os pregadores ao discorrer o texto em questão, tende a conciliar as Escrituras com a dita ciência; assim eles usam uma mesma narrativa: "a perspectiva do observador". Ou seja, na visão de quem presenciou o fato, foi o sol que se deteve e foi a lua que parou, mas não a Terra.

Porém, a mesma ciência que diz que a Terra gira em torno de si mesma como um pião, também diz que a velocidade de rotação dela é de mais de 1.600Km/h; então, segundo a ciência, a Terra gira numa velocidade superior à supersônica.

Agora... Pensem comigo; se realmente a Terra girasse, e não o sol, então uma frenagem de 1.600Km/h para 0Km/h, não causaria a extinção de toda vida no mundo? Sim, pois, imaginem só a catástrofe gigantesca que se daria com os oceanos invadindo os continentes, e a ocorrência de mega terremotos partindo a crosta terrestre, e os inúmeros vulcões explodindo ao mesmo tempo... Seria o caos!

Vou dar mais um exemplo; em 2 Rs 20:11 e Is 38:8; Deus concedeu um sinal que confirmaria a sua Palavra ao rei Ezequias; o sinal foi: "o sol retrocedeu dez graus". Bom! Se já é impossível aceitar que a Terra tenha freado instantaneamente duma velocidade supersônica para zero; o argumento da "perspectiva do observador" dos pregadores moderninhos fica insustentável diante duma Terra retrocedendo do seu “giro supersônico”. Quem quer adequar as Escrituras à ciência mundana, professa, não a fé nas Escrituras, mas na falsa ciência dos homens sem Deus. 

A verdade crucial é que a Terra não gira em torno de si mesma e nem ao redor do sol; pois a Bíblia nos diz exatamente isto em Josué capítulo 10. A Terra não é um planeta (astro errante) como os cientistas ateus dizem. A Terra é um Reino criado por Deus; e o sol e a lua são os astros que giram no firmamento deste Reino, luminares criados para fins específicos: "o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite" (Gn 1:16). 

“Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos clamores vãos e profanos e às oposições da falsamente chamada ciência, a qual professando-a alguns, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém”. (1 Timóteo 6:20,21).


11 abril 2023

Quantum - o computador que vai mudar o mundo

 

Um computador quântico resolveu em 3 minutos e 20 segundos o cálculo que um supercomputador demoraria 2 dias e meio para solucionar. Dagomir Marquezi para a edição desta semana da Oeste via OTambosi:



Existem os computadores. Existem os supercomputadores. E existem os computadores quânticos. Computadores comuns são como o meu e o seu, com um processador cada um. Supercomputadores são como o Blue Gene/P da IBM, que roda 164 mil processadores ao mesmo tempo. Já os computadores quânticos…

Em 2019, a Google sugeriu um problema matemático que computadores comuns nem conseguiriam compreender direito. Um supercomputador demoraria mais de 10 mil anos (ou dois dias e meio, segundo algumas versões) para encontrar uma solução. O computador quântico pioneiro da Google (chamado Sycamore) resolveu o cálculo em exatos 3 minutos e 20 segundos.

Com esse feito, a Google anunciou, em 22 de outubro de 2019, a conquista pela primeira vez da chamada “supremacia quântica”. Significa a capacidade de resolver problemas que computadores convencionais não conseguem solucionar. O computador quântico era mais um conceito teórico. A partir daí passava a ser uma realidade.

Além da Google, a Microsoft, a Intel e a IBM também estão desenvolvendo seus projetos próprios de computadores quânticos na iniciativa privada. O regime chinês gastou US$ 10 bilhões no maior laboratório de pesquisa quântica, na cidade de Hefei. O governo Donald Trump colocou US$ 4,8 bilhões iniciais num projeto chamado National Quantum Initiative. Outros países estão investindo na área — Alemanha, Reino Unido, Singapura, Índia, Israel, Austrália, Rússia, Coreia do Sul, Holanda e Canadá. O investimento global em pesquisas foi de US$ 22 bilhões em 2020. Quase metade disso veio da China. É o tamanho da importância que o Partido Comunista chinês está dando para a essa questão.

Dario Gil, diretor da IBM Research, em frente ao computador quântico IBM Q System One. A máquina é lacrada em um cubo de vidro preto para proteger do frio e vedar os ruídos e interferências do universo.


No último dia 25, de forma modesta, o Brasil entrou oficialmente nessa corrida. Foi lançada a Quantum Information Technologies, ou QuInTec, uma iniciativa de professores da Universidade de São Paulo, Universidade Federal de São Carlos e Unicamp. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) é considerada um elemento-chave para esse projeto.

Segundo Marcelo Cunha, um dos fundadores da QuInTec, “as tecnologias quânticas serão importantes nas próximas décadas. É muito perigoso se o Brasil não fizer nada. Seremos mercado e não participantes nesse mercado. O que mais queremos é que os estudantes de tecnologias quânticas possam olhar para a possibilidade de ser empresários e empreendedores, produzindo novidades tecnológicas fora da academia. Essas empresas podem fazer o país avançar”. Algumas startups brasileiras já estão trabalhando na área, como a Brazil Quantum, a QCSC e a Quanby.

Essa corrida tem dois motivos principais, um construtivo e um destrutivo. O construtivo é que um computador com o poder do quântico tornará possível romper barreiras de conhecimento em áreas vitais como medicina, engenharia, meteorologia, ecologia, administração pública, transportes, exploração espacial e tudo o que depender de cálculos complexos.

Por outro lado, a computação quântica poderá vir a se tornar uma arma de destruição em massa. Num estágio mais avançado (e em mãos erradas), poderia aniquilar os mecanismos convencionais de segurança de sistemas militares, financeiros, industriais, etc. Um ataque hacker com o poder dos computadores quânticos é um pesadelo difícil até de imaginar.

“Computadores quânticos poderiam decifrar cada código e quebrar a internet como a conhecemos”, escreveu Ed Conway para o jornal britânico The Times. “Se você tiver essa intenção, pode descobrir detalhes de cartões de crédito, decodificar mensagens secretas, tornar-se um bilionário do bitcoin, e talvez até iniciar a 3ª Guerra Mundial.”

Sabendo que soou “um pouco apocalíptico”, Conway ressalva que os computadores quânticos ainda não estão em condições de provocar nenhum estrago. E, quando estiverem, vão possibilitar uma nova geração de códigos, senhas e criptografia muito mais avançada que a atual. Ao mesmo tempo, como diz o autor, se finalmente for descoberta a cura definitiva de doenças como câncer e Alzheimer, “um computador quântico provavelmente vai estar por trás da conquista”.

Projetada por um escritório de arquitetura para ser tão moderna, intimidante e opaca quanto o próprio futuro, esta máquina é o computador mais bonito que seus usuários provavelmente nunca verão




Afinal, como funciona o computador quântico? Ele usa a base teórica da mecânica quântica, um território da ciência habitado por partículas subatômicas de nomes exóticos como quarks, bósons e fótons. Para nós, os leigos, o conceito mais importante é o da superimposição.

Na mecânica quântica, um objeto pode ter mais de um estado. É a negação da dúvida de Hamlet: pode ser e não ser ao mesmo tempo. No método digital convencional à base de bits, tudo pode ser representado por 1 ou 0. Na computação quântica, que tem como unidade o qubit (ou “quantum bit”), a unidade pode ser 1 e 0 ao mesmo tempo. Não apenas isso, mas também todas as possibilidades entre 1 e 0, o que aumenta explosivamente seu potencial de cálculo.

Com todo o seu poder, o hardware do computador quântico é frágil e sensível a qualquer variação ambiental. Modelos mais avançados estão sendo desenvolvidos em condições de isolamento e frio extremo. Sem essas providências, os qubits se desintegram e não servem para nada.

O potencial de computação é vertiginoso. “Enquanto um bit pode ser pensado como uma moeda com duas faces”, escreveu Rhys Blakely para o Times, “um qubit é como uma esfera onde cada ponto na superfície representa uma face diferente. Com apenas um punhado de qubits, você pode produzir tantas permutações quanto existe de átomos no universo”.

Segundo Blakely, pesquisadores da Microsoft descreveram a diferença entre um computador comum e um quântico usando a imagem da navegação por um labirinto. “No mundo da computação clássica, você segue por um caminho de cada vez até que encontra a saída. No mundo quântico, você pode explorar todos os caminhos ao mesmo tempo.”

Então quando teremos nosso computador quântico pessoal sobre a escrivaninha? Estamos muito longe dessa possibilidade. A Alphabet (empresa que controla a Google) estabeleceu 2029 como a data para pôr à disposição do mercado um modelo de computador quântico capaz de realizar cálculos de larga escala para pesquisa científica e projetos econômicos. A IBM é mais otimista e planeja lançar um monstro de 1.121 qubits (chamado Condor) em 2023. Tanto a IBM quanto a Google planejam chegar ao primeiro milhão de qubits em seus modelos em 2030. Segundo o Wall Street Journal, empresas como Visa, J.P. Morgan Chase e Volkswagen já estão operando com os estados iniciais da tecnologia quântica agora mesmo.

Quer fazer um test drive num computador quântico? Experimente o IBM Quantum, que funciona on-line. A inscrição é muito fácil. Mas, quando você entra no site em si, provavelmente vai ficar perdido (como eu) num ambiente criado para especialistas em matemática avançada. O resto de nós boia como um pedaço de isopor.

Para os leigos, a visão quântica de mundo traz uma característica adicional muito interessante. Ela lida com fenômenos invisíveis, inexplicáveis e universos paralelos. “Essas partículas não obedecem às leis da física newtoniana clássica”, escreveu Jeanne Whalen para o Washington Post. Duas ou mais partículas podem se comportar de modo idêntico, mesmo que separadas por longa distância. Albert Einstein descrevia o fenômeno como “assustador”.

Vivemos cheios de certezas científicas desde os tempos de René Descartes, no século 17. Só acreditamos no que vemos, e nos consideramos os guardiões da razão. O salto quântico nos mostra que nem tudo está sob controle de nossos sentidos. A nova tecnologia pode ser a ponte que une a ciência mais avançada com fenômenos tidos até agora como fantasias. Fantasmas, óvnis, viagens no tempo e universos paralelos passarão a ter outro significado.








24 fevereiro 2023

Pesquisas sugerem que o corpo da mulher carrega dentro de si ADN do sémen dos seus parceiros anteriores


Por Daryush Valizadeh


Pesquisas científicas convincentes revelaram que os insectos e os mamíferos do sexo feminino são capazes de absorver ADN estranho através das células dos seus corpos. Nos seres humanos já foi demonstrado de forma convincente que este fenómeno ocorre durante a gravidez quando material genético do bebé em crescimento funde-se com áreas do cérebro da mulher, afectando as suas chances de desenvolver a doença de Alzheimer.
As evidências sugerem agora que os animais do sexo feminino podem incorporar dentro de si ADN do esperma dos parceiros sexuais anteriores. Este ADN estranho acaba  depois por fazer parte dos filhos futuros após a mulher ser bem sucedida em engravidar de um homem totalmente diferente. No nosso mundo isto significa que os filhos que o homem vier a ter com uma mulher promiscua podem ter genes de parceiros sexuais anteriores que ele nunca viu ou chegou a conhecer.

Existem também estudos sociológicos que revelam que quando a mulher teve mais do que dois parceiros sexuais, os casamentos são mais susceptíveis de acabar (1234), mas agora apoio adicional para o dantes suspeito campo da telegonia está a revelar que existem também motivos genéticos para não iniciar um casamento com uma mulher promiscua: as crianças que vieres a ter com ela podem ter o "pool" genético poluído pelos seus encontros aleatórios anteriores e pelos encontros casuais.

A telegonia é uma ideia avançada inicialmente por Aristóteles e ela alega que os filhos podem herdar genes dos parceiros sexuais anteriores. Esta ideia não tinha suporte científico até que as evidências se amontoaram em favor do microquimerismo - o fenómeno do ADN estranho a incorporar-se no genoma dum indivíduo. Reparou-se que isto acontece
 no caso das transfusões de sangue. Se por acaso tu recebes sangue enquanto te encontras num estado traumático, o ADN do doador pode-se incorporar no teu genoma. Surpreendentemente, poucas pesquisas foram feitas entretanto, mas todas as evidências indicam que este é um fenómeno genético comum por todo o reino animal.

Um
 estudo importante em torno das moscas mostrou como as fêmeas incorporavam o ADN dos parceiros sexuais anteriores, e como, mais tarde, os traços desse ADN masculino se manifestava na prole que elas vinham a ter com machos totalmente distintos.
Cientistas da Universidade de New South Wales [Austrália] descobriram que, pelo menos nas moscas da fruta, o tamanho da descendência era determinado pelo tamanho do primeiro macho com quem a fêmea acasalou, e não com o segundo macho com quem ela gerou descendência. (...)

"As nossas pesquisas levam as coisas para um nível superior - mostrando que o macho também pode transmitir algumas das suas características adquiridas à prole gerada por outros machos" disse ela. "Mas ainda não sabemos se isto se aplica a outras espécies. (...)

O Dr Stuart Wigby, do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, acrescentou: "O princípio da telegonia é, teoricamente, possível para qualquer animal internamente fertilizado, mas historicamente não tem havido muitas evidências em favor disso.

Cientistas envolvidos no estudo estão a lançar a hipótese de que
 o ADN do esperma é absorvido dentro dos ovos femininos sem, no entanto, fertilizá-los:

Os pesquisadores sugeriram que o efeito deve-se às moléculas que se encontram dentro do fluído seminal do primeiro macho e destes serem absorvidos pelos ovos femininos que ainda não estão amadurecidos, e influenciando posteriormente o crescimento da descendência dos machos subsequentes.

Já foi observado que o corpo humano feminino
 age como uma esponja em relação ao ADN estranha que é depositado dentro dele: 

É possível que o Mc [microquimerismo] no cérebro seja capaz de distinguir os vários fenótipos amadurecidos, ou atravesse por uma fusão com as células pré-existentes, e adquira um novo fenótipo, tal como sugerido por estudos feitos em murinos ou em humanos onde células derivadas da medúla óssea circulavam até ao cérebro e geravam células neuronais por diferenciação, ou por fusão com neurónios pré-existentes. (....)

Embora a relação entre o Mc do cérebro e a saúde versus a doença necessite de mais estudos, os nossos achados sugerem que o Mc com origem fetal pode impactar a saúde maternal e, potencialmente, pode ter um significado evolutivo [sic].

O estudo citado em cima tem duas implicações sísmicas: o primeiro é que a mulher pode absorver ADN suficiente durante a sua vida que venha a causar a que ela mude o seu fenótipo (isto é, a sua aparência e o seu estado de saúde geral). Pode haver alguma verdade na frase "cara de vadia", onde uma mulher altamente promíscua sofre alterações na sua aparência física devido aos variados tipos de esperma de homens distintos que foram depositados dentro dela.

A segunda implicação emana do facto de que é cientificamente conclusivo que as mães solteiras têm ADN dos seus filhos bastardos a viver permanentemente dentro dos seus corpos. Qualquer homem que se reproduza com uma mãe solteira, irá ter filhos que têm dentro de si ADN dos seus filhos bastardos, o que, obviamente, inclui ADN dos seus pais ausentes.

Isto implica que os homens podem ser geneticamente traídos [inglês: "cuckholded"] sem terem sido traídos da maneira normal, e que ter filhos com uma mãe solteira é, e termos prácticos, dar ao pai do seu primeiro filho um prémio adicional no jogo da evolução.

O microquimerismo foi também observado
 nos cães, onde os mais velhos passam os seus genes aos irmãos mais novos, sugerindo que os primeiros filhos têm o grau mais elevado de pureza genética - uma suspeição muito provavelmente notada pela nobreza do passado. Não só isso, mas as cadelas incorporam o material genético associado ao cromossoma Y proveniente da sua descendência masculina. Essencialmente, a cadela fica mais masculina ao ter descendência masculina.
Os pesquisadores encontraram células com cromossomas Y na mãe depois destes nascimentos, o que significa que a mãe tinha células masculinas no seu corpo. Os pesquisadores encontraram células masculinas geneticamente semelhantes na descendência feminina da mesma mãe nas ninhadas posteriores. Estas cadelinhas eram recém-nascidas e nunca tinham estado grávidas, o que sugere fortemente que elas haviam adquirido as células que haviam ficado para trás, deixadas pelos seus irmãos mais velhos enquanto estes se encontravam no útero.

Se as mulheres absorvem genes associados ao cromossoma Y através do sexo casual, então isso pode explicar o porquê das mulheres com um passado sexualmente promíscuo exibirem mais traços masculinos, algo que qualquer playboy internacional pode confirmar. A mulher promiscua torna-se mais masculina devido ao facto de vários genes masculinos estarem a ser inseridos no seu genoma, e estarem a afectar o seu fenótipo.

Algumas ideias mais antigas relativas à telegonia, datando de há mais de um século, não parecem agora estar longe da verdade:

No seu livro “Individual Evolution, Heredity and Neo-Darwinists” (1899), o biólogo e filósofo Francês Felix Le Dantec menciona vários factos que demonstram a telegonia, mas as evidências eram bastante pseudo-científicas até mesmo para essa altura.

O autor menciona dois exemplos com animais e um com seres humanos. Le Dantec escreveu que um agricultor lhe havia dito que, a dada latura, uma das suas porcas copulou com um javali, e, na sua cor, a descendência parecia-se totalmente com o pai. Mas quando a mesma porca copulou com outro javali, alguns porquinhos da segunda ninhada continuavam a ter semelhanças cromáticas com o javali com quem a porca havia copulado em primeiro lugar.

Ele escreveu também da forma como Lord Morton cruzou uma égua com uma zebra e obteve o híbrido dum cavalo com uma zebra. Quando ele voltou a cruzar a mesma égua com um cavalo, esta segunda copulação gerau um potro que tinha mesmo assim linhas semelhantes às de uma zebra.

O microquimerismo encontra-se na vanguarda das pesquisas genéticas que têm, ultimamente,
 incluído a epigenética que é o ligar e o desligar de certos genes devido a estímulos ambientais. A epigenética tem levantado questões contra a teoria da evolução porque ela demonstra que a adaptação pode ocorrer dentro dos indivíduos sem a acção da selecção natural. Pesquisas recentes estão a revelar o pouco que sabemos em relação à forma como o genoma humano funciona, sugerindo uma imagem mais complexa do que aquela que havíamos imaginado.
As pesquisas sociológicas foram as primeiras a revelar que casar com uma mulher com um passado sexual robusto aumentava as probabilidades do casamento falhar.

Agora, as pesquisas genéticas disponibilizam mais evidências de que tais mulheres irão dar à luz filhos que - segundo princípios que ainda não entendemos - não são totalmente do pai. Devido ao facto deste campo de pesquisa ser politicamente incorrecto (ao pintar consequências fortemente negativas para as mulheres que levam uma vida promiscua "forte e independente") é pouco provável que as universidades esquerdistas aprovem mais pesquisas neste área.

Durante milhares de anos, a pureza feminina foi estimada acima de qualquer coisa no momento em que se pensava em formar uma família. Hoje, a comunidade científica está a confirmar a validade dessa práctica. Até que a ciência fique estabelecida neste ponto, os homens que insistam em casar com uma mulher promiscua devem pelo menos exigir uma entrevista com os seus parceiros sexuais anteriores para que fiquem mais familiarizados com os homens cujos genes podem vir a ser transmitidos para os seus futuros filhos.









24 novembro 2018

USP Talks #24 - Bactérias

Bactérias resistentes são um desafio na saúde do mundo inteiro
FONTE

Publicado em 17 de nov de 2018 no Canal USP



Você sabia que a maioria das bactérias que existem no mundo são inofensivas ou até benéficas para o ser humano. Muitas delas são, inclusive, essenciais para a nossa sobrevivência! Mas há também aquelas que nos fazem mal; e a má notícia é que a capacidade da medicina de nos proteger delas está diminuindo rapidamente. O uso indiscriminado de antibióticos vem gerando “superbactérias”, que nenhum antibiótico é capaz de destruir. Como resolver isso?

Esse foi o tema do USP Talks de 30 de outubro, no Museu de Arte de São Paulo (MASP), com participação dos pesquisadores Natalia Pasternak e Nilton Lincopan, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).


Natalia Pasternak

Bióloga, com especialização em microbiologia (estudo de bactérias, vírus e outros microrganismos). É pesquisadora-colaboradora do ICB-USP e divulgadora científica, coordenadora do Pint of Science Brasil.



Nilton Lincopan

Farmacêutico, professor do Departamento de Microbiologia do ICB-USP, especialista em resistência microbiana. Seu grupo identificou, em 2016, a presença de um gene de superresistência em bactérias no Brasil, chamado MCR-1.




Debate





20 janeiro 2015

A reintegração do homem (19/01/1972, Páginas Amarelas de VEJA)




ENTREVISTA: CLAUDE LÉVI-STRAUSS


 

ESTA É A ÚNICA FÓRMULA QUE RESTA
PARA O SER HUMANO,
QUE SE DESTRÓI DESDE O SEU PRINCÍPIO


Para o “The Times” londrino, ele é o “pai do estruturalismo”. Para seus antigos alunos na Universidade de São Paulo, é o grande pesquisador das culturas indígenas da bacia amazônica que elaborou, em sua permanência no Brasil, há mais de trinta anos, o importante “Tristes Tropiques”, que anunciava o crepúsculo irremediável das tribos aborígines, exterminadas pelo progresso ou pela cobiça da civilização branca. Claude Lévi-Strauss, aos 63 anos de idade, acaba de publicar em Paris o quarto e último volume de sua série intitulada “Mytologique”: “L´Homme Nu”. É um livro fascinante, que aparenta a etnologia com a música e vê no mito dos deuses em ruínas uma alegoria da nossa própria civilização. Os fatores de excesso de população, o extermínio das sociedades primitivas, o racismo e a intolerância que não decrescem no decurso da história do homem – só a tecnologia evolui, a história moral do homem é imutável na sua injustiça: “Nossa civilização se caracteriza por dispensar, como nenhuma outra, modificações importantes”. Para o belga Lévi-Strauss, o estruturalismo é “uma forma de reintegrar o homem na natureza”, através do estudo dos mitos e da confluência de culturas: o ocidente aprendendo a respeitar a vida alheia e as civilizações exóticas como o budismo do extremo ocidente. Sem amigos, sem levar uma vida social, em seu refúgio em Lignerolles, na França, Lévi-Strauss é um pessimista que diagnostica o fim do homem se ele não souber modificar suas formas suicidas de convívio com o seu próximo.

 


“NÃO TENHO MEDO DE
CONFESSAR QUE
SOU PESSIMISTA”
 



VejaSr. Lévi-Strauss, corre a seu respeito que o senhor encontrou refúgio, com suas pesquisas sobre povos primitivos, num mundo sadio e que o senhor prevê, para as sociedades modernas, uma espécie de crepúsculo dos deuses. O sr. é pessimista com relação ao futuro do homem e da sua cultura?

Lévi-Strauss – Não tenho medo de confessar, logo de princípio, que sou muito pessimista. Se me dediquei ao estudo de sociedades exóticas, que se diferenciam ao máximo da nossa, foi porque não sinto a mínima atração pelo século em que nasci. De fato, não estou muito otimista com relação ao futuro de uma humanidade que se reproduz tão rapidamente, que constitui uma ameaça para sua própria sobrevivência, antes mesmo que lhe comecem a faltar os elementos mais essenciais como o ar, a água e o espaço.

VejaAlguns filósofos contemporâneos criticam a sua afirmação de que as estruturas sociais modernas são menos humanas do que as primitivas.

Lévi-Strauss – Bem, eu não sou nenhum filósofo. O fato é que, seja como for, acidentes da minha carreira fizeram de mim e de outros etnólogos testemunhas de um estilo de vida extremamente diverso do nosso e que por isso foi em grande parte liquidado por nós. Senti-me moralmente comprometido a dar meu testemunho: o de defender esse tipo de sociedades, que permitiram à humanidade viver e desenvolver-se e que agora devem desaparecer só porque nós assim decretamos.

VejaMas o senhor compara sociedades primitivas que estudou com sociedades modernas.

Lévi-Strauss – Essas estruturas sociais realmente não podem mais ser comparadas entre si, porque é absolutamente inimaginável que possamos voltar a uma condição de vida ou possamos revivê-la quando se torna impossível, atualmente, a sobrevivência dessas sociedades “exóticas”.

 


AS VÁRIAS DESCOBERTAS,
AINDA ATUAIS,
DAS ANTIGAS SOCIEDADES
 




VejaEntão não se pode dizer que as sociedades primitivas eram mais humanas e talvez até mais “progressistas” do que as atuais?

Lévi-Strauss – Que eram sociedades progressistas me parece fora de dúvida. Afinal, foram elas que descobriram uma série de formas artísticas civilizadoras sobre as quais nós mesmos ainda nos baseamos. No fim das contas, a utilização do fogo, a cerâmica, a tecelagem, a domesticação dos animais pelo homem surgiram numa época que é comparável à das sociedades “exóticas” ainda hoje existentes.

VejaTrata-se de uma evolução técnica, porém. Mas a discussão filosófica entre o senhor e alguns marxistas parte do fato de o senhor ter comparado sociedades primitivas e modernas sob o ponto de vista do papel que nelas desempenham o humanitarismo e a consciência histórica. Criticam a sua maneira conservadora de julgá-las ou, mais exatamente, sua afirmativa de que não existe progresso humanitário na história da humanidade.

Lévi-Strauss – São muitas questões apresentadas todas ao mesmo tempo. Tomemos a última, a questão do progresso. É tão óbvia a existência de um progresso tecnológico, que não precisamos nem abordar esse aspecto. Mas também me parece igualmente certo que esse progresso tecnológico levou ao abandono de uma série de valores aos quais as sociedades “exóticas” ainda aderem.

VejaSartre e outros marxistas o acusam, dizendo que o estruturalismo é um desvio ao humanismo. É uma acusação que o senhor já conhece.

Lévi-Strauss – Eu sou da opinião que a acusação parte de um duplo mal-entendido: de um teórico e de um prático. O mal-entendido teórico consiste no fato de eu nunca ter discutido sequer o direito de quem quer que seja de estudar o ser humano da perspectiva que bem entender. O que eu discuto é a afirmação digamos monopolística segundo a qual o ser humano só pode ser definido e estudado sob um único ângulo.

 


O HUMANISMO, QUE LEVOU
ÀS GUERRAS, AOS
CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO
 



VejaMas a escolha de um determinado ângulo, por si, já constitui a pré-escolha do resultado de uma análise.

Lévi-Strauss – Se olharmos para uma gota de água a olho nu não veremos absolutamente nada. Mas, se a colocarmos debaixo de um microscópio que a aumente trezentas vezes e em seguida debaixo de um microscópio eletrônico, que é capaz de aumentá-la 50 000 vezes, aí veremos coisas completamente diferentes. O mesmo acontece quando se estuda o ser humano. Os humanistas examinam o ser humano sob o mesmo ângulo no qual se tornam visíveis, na gota de água pouco aumentada, animaizinhos que existem como indivíduos e como tais se combatem e se amam. Mas nós sabemos que a ciência deve a sua existência ao fato de termos compreendido que uma série de fenômenos não pode ser observada apenas de um ponto de vista único. Aumentando-se o ângulo de visão, constatamos que esses seres vivos desaparecem por completo, só permanecem visíveis as moléculas. Aumentando-se mais ainda, distinguimos, por detrás das moléculas, os átomos. O estruturalismo tenta demonstrar que, mesmo para analisarmos fenômenos humanos, não basta um só nível de investigação, mas que, ao contrário, existem muitos. Nós nos colocamos num dado ângulo de fenômenos inconscientes ou semiconscientes no qual os problemas tradicionais da humanidade desaparecem. Com isso não quero dizer que os problemas não existam. É perfeitamente justificado estudá-los. Mas é insuportável que nos proíbam outras pesquisas baseando-se na suposição de que o homem só pode ser definido sob um único ponto de vista.

VejaIsso significa que o estruturalismo é somente um método de análise e de pesquisa sem teoria própria?

Lévi-Strauss – De modo algum. No fundo, trata-se apenas de uma determinada tomada de posição científica. Nisso se resume o mal-entendido teórico. Mas há ainda o segundo aspecto, o aspecto prático. Já é hora de finalmente levarmos em conta que a atitude absolutista e humanista, que predomina entre nós desde a Renascença e que se originou provavelmente das grandes religiões do mundo ocidental acarretou consequências extremamente catastróficas. Alguns séculos de humanismo nos levaram às grandes guerras, aos massacres, aos campos de concentração e à destruição de todos os tipos de seres vivos. E empobrecemos a natureza.

VejaE como seria então uma atitude humanista que o senhor considerasse aceitável?

Lévi-Strauss – Um humanismo na verdadeira acepção do termo deveria, paradoxalmente, estimular a humanidade a moderar seu humanismo e aprender com as grandes religiões do extremo oriente – com o budismo, por exemplo – que o ser humano, em última análise, é apenas um ser vivo entre outros seres vivos e que só poderá sobreviver se souber respeitar a vida dos demais.

VejaO senhor se interessou muito por Marx. Na sua opinião, o marxismo é um humanismo ou um método de análise?

Lévi-Strauss – Quando eu tinha uns dezessete anos, o marxismo teve um papel importante na minha evolução. É um fato que Marx constitui minha primeira leitura filosófica e ao ler Marx fui adiante, passando dele para Hegel e para Kant. Foi pela leitura de Marx que assimilei a primeira lição fundamental dos estudos humanísticos: a de que o homem não pode ser analisado sob seu mero aspecto exterior, aparente, porque as aparências enganam.

VejaÉ verdade que existem várias interpretações ao marxismo. O senhor tende para qual interpretação?

Lévi-Strauss – Prefiro não responder a essa pergunta, porque até certo ponto eu pouco me interesso pelos marxistas.

VejaDe qualquer modo, Marx estudou as infraestruturas, como o senhor.

Lévi-Strauss – Eu tento fazer o que Marx talvez tenha considerado necessário, mas não tenha tido talvez ou tenha querido fazer pessoalmente, ou seja: comparar a superestrutura em sua coesão com a infraestrutura. Para isso limito-me a coisas bem elementares. Meu catecismo marxista reduz-se a duas ou três regras, o que não me capacita, de forma alguma, a emitir um juízo sobre a obra de Marx.

 


“NA FRANÇA, ONDE AS
PESSOAS
BRINCAM COM IDEIAS...”
 


VejaEntão o estruturalismo é um mito inventado pelos seus adversários?

Lévi-Strauss – Às vezes até pelos meus próprios amigos.

VejaAs conclusões que se tiraram de suas pesquisas, no entanto, não são tão insignificantes assim. Como filósofo o senhor teve muito mais influência de que como etnólogo.

Lévi-Strauss – Na França, onde pessoas brincam com as ideias, muita gente acredita que o estruturalismo é a filosofia do mundo moderno. Mas isso foi uma moda que passou depois de maio de 1968 ([1]). Assim que se descobriu que os jovens que protestavam em maio de 1968 não eram de forma alguma estruturalistas, mas meros adeptos do velho existencialismo de guerra, segundo a moda vigente em 1944, 1945, todos perderam o interesse pela questão, o que é ótimo, aliás.

VejaAlguns de seus discípulos aplicam o método do estruturalismo ao estudo sociológico de sociedades modernas – o senhor vê algum sentido nisso?

Lévi-Strauss – O estruturalismo pretende insistir apenas numa constatação já feita muito antes de nós pelos físicos e pelos estudiosos de ciências naturais: a de que só apreendemos a realidade simplificando-a ([2]). Dentro da multiplicidade de fenômenos devemos isolar pequenas áreas nas quais por sua vez é possível pesquisarmos um pequeno número de variáveis. Primeiro isso se deu no território claramente delimitável da linguística. Em seguida eu me propus a ampliar esses mesmos métodos de estudo a outros campos. Mas, se se tentar aplicar o método estruturalista às estruturas sociais contemporâneas, então me cabe perguntar de que forma se fará a análise dessas concentrações complexíssimas com um número já quase infinito de variáveis incluídas. Creio que não existe a possibilidade de se aplicar o estruturalismo a sistemas intelectuais ou a sistemas sociais de grande porte.

VejaSr. Lévi-Strauss, em seu livro “Tristes Trópicos” ([3]) o senhor fez uma menção – espantosa – a Richard Wagner. O senhor se interessa por ele sobretudo sob o aspecto do “crepúsculo dos deuses”?

Lévi-Strauss – Muitas vezes passo uma semana inteira ouvindo as transmissões diretas das óperas de Wagner levadas em Bayreuth. No quarto e último volume da minha coleção intitulada “Mitológica”, que foi publicado recentemente sob o título de “O Homem Nu”, eu falo mais a esse respeito. Nele afirmo que, no momento do desmoronamento da mitologia como estilo literário predominante, as estruturas do pensamento mítico foram absorvidas pela música. A mensagem do mito passou para o romance, mas a música se apoderou de sua forma.

VejaE quando se deu isso?

Lévi-Strauss – É um fenômeno que começa com Bach, desenvolveu-se com seus sucessores e atinge com Wagner sua forma consciente. Foi Wagner quem compreendeu que o mito e a música, se posso me exprimir assim, caminharam um ao encontro do outro e estavam destinados a se fundirem. Wagner expressou essa espécie de aliança de forma extraordinária.

VejaDo que se deduz que Wagner é um compositor estruturalista?

Lévi-Strauss – Toda a teoria do Leitmotiv é por si mesma estruturalista. O estruturalismo em si originou-se na Alemanha.

 


UM INTELECTUAL E UM
PORTEIRO: ATÉ
ONDE SÃO DIFERENTES?
 



VejaO senhor pode especificar melhor?

Lévi-Strauss – Sempre me disseram que na Alemanha havia uma grande repulsa pelo estruturalismo. Mas, se investigarmos o estruturalismo até a sua origem, onde é que ele começa no mundo moderno? Na Europa, com Dürer. Com seus “Quatro Livros sobre a Proporção Humana” e a ideia de que se pode passar de uma forma de rosto a outra por meio da transformação geométrica, inicia-se o estruturalismo. Em seguida com Goethe e a sua morfologia das plantas: o conceito de que a folha e o botão mutuamente se transformam é estruturalista. Portanto não é nada surpreendente que Wagner faça parte dessa genealogia.

VejaAchamos surpreendente que nessa genealogia o senhor inclua tantos grandes artistas e ao mesmo tempo negue que o estruturalismo seguido conscientemente possa trazer quaisquer consequências para a situação intelectual da nossa sociedade.

Lévi-Strauss – Não gosto de profecias. Imaginaram que o estruturalismo fosse portador de uma mensagem e que os estruturalistas fossem os grandes sábios da época moderna. Lamento dizê-lo, mas isso está errado. É pura imaginação, forjada nos salões entre 1958 e 1968.

VejaSr. Lévi-Strauss, talvez sua recusa em discutir as consequências filosóficas da sua obra seja o motivo pelo qual o senhor às vezes é chamado de “o filósofo do status quo”. O senhor é o primeiro a reconhecer que o estruturalismo não é capaz de alterar os dados históricos. Então, que explicação o senhor dá para o fascínio que o estruturalismo desperta nas pessoas?

Lévi-Strauss – Isso se deve ao fato de que em nossa sociedade a ciência está completamente separada da arte, separada portanto daquilo que para nós está associado com a sensibilidade. O estruturalismo não separa esses dois pólos. Ao estudar fenômenos muito concretos, que tocam a sensibilidade, ele põe em prática o que eu chamo de “teoria do pensamento selvagem”. Essa “teoria do pensamento selvagem” pode exercer certa fascinação sobre os homens contemporâneos, que se sentem dilacerados entre a ciência e a sensibilidade.

VejaGostaríamos de voltar a falar do seu pessimismo. Na França constitui uma velha tradição o fato de os intelectuais serem “engajados”, para usar uma definição de Sartre. O senhor dá alguma importância ao protesto intelectual?

Lévi-Strauss – Já tomei partido algumas vezes anteriormente. O “engajamento” do intelectual é um mal-entendido que considero insuportável, pois minha assinatura só em valor graças aos trabalhos que publiquei. Se eu tomar atitudes com relação a fatos que desconheço, ponho em risco então o crédito que minha obra possa me ter granjeado.

VejaMas nem sempre é indispensável apresentar estudos exaustivos para se saber o que é justo e o que é injusto.

Lévi-Strauss – Mas é indispensável conhecer o assunto de que se fala.

VejaE que reações lhe provoca a guerra do Vietnam?

Lévi-Strauss – Reações de profunda repulsa, mas baseadas na mesma base de conhecimentos do meu porteiro, da minha faxineira ou do quitandeiro da esquina. Não acho que neste ano meu veredicto valha mais do que o deles.

VejaCom isso o senhor não estará julgando de maneira severa demais todos os intelectuais engajados?

Lévi-Strauss – De forma alguma.

VejaEntão o senhor não acha que um intelectual tão famoso quanto o senhor tem no plano político mais responsabilidade do que um porteiro de edifício?

Lévi-Strauss – Um intelectual famoso é responsável pela especialidade que lhe trouxe renome. Se ele for examinar um por um todos os assuntos a respeito dos quais é chamado a se pronunciar, terá que perder um tempo imenso para poder tomar partido com conhecimento de causa. Consequentemente, não se dedicaria mais à pesquisa e não mereceria mais o renome conquistado.

 


A BRIGA COM SARTRE,
O RACISMO
E AS INTOLERÂNCIAS
 



VejaO senhor diria que Sartre assinou manifestos demais?

Lévi-Strauss – De forma alguma. Absolutamente não me comparei com Sartre. Sartre expressou-se pelos meios mais diversos – romance, teatro, filosofia, política. É uma capacidade que eu não tenho. Nem briguei com Sartre, ao contrário do que afirma o antropólogo inglês Edmund Leach, ao “trabalhar estreitamente com Sartre na elaboração do trabalho sobre o ‘pensamento selvagem’”. Na realidade eu só me encontrei com Sartre umas quatro vezes na minha vida.

VejaNuma conferência que proferiu recentemente na Unesco, o senhor tirou conclusões políticas de suas concepções ao afirmar: “Não se pode admitir que os preconceitos raciais tenham diminuído”.

Lévi-Strauss – É uma conclusão que não transcende certos limites e que me parece suficientemente clara.

VejaO senhor também afirmou que não basta, para diminuir a intolerância, mudar as ideias. Seria necessário alterar também as condições naturais nas relações entre o homem contemporâneo e a natureza.

Lévi-Strauss – Eu não disse que elas deviam ser alteradas. Eu disse que elas deviam se alterar, o que não é a mesma coisa. E isso não quer dizer que eu ache que elas iriam se alterar. Como já foi dito: o estruturalismo trata de temas que não têm aplicação prática alguma. O que se define como racismo ou intolerância sempre existiu nas sociedades humanas.

VejaE como o senhor encara o futuro das esparsas sociedades primitivas ainda remanescentes?

Lévi-Strauss – Estão todas condenadas a desaparecer, o que me entristece profundamente.

FIM






([1]) Talvez uma referência ao dia 03/05/1968 (sexta-feira), quando o Reitor chama a polícia e fecha a Universidade Sorbonne. No dia 06/05/1968 (segunda-feira), houve manifestações de estudantes e professores da Sorbonne pedindo a abertura da Universidade. Em 23/05/1968 (quinta-feira), estudantes ocupam a Universidade de Nanterre (França). Veja mais: http://pt.wikipedia.org/wiki/Maio_de_1968 (Acesso em 30/12/2014, 14:13).
([2]) Seria uma referência à Navalha de Occam? Veja mais: http://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Occam (Acesso em 30/12/2014, 14:26).
([3]) A obra em Espanhol: AQUI. Português: AQUI. Inglês: AQUI. Francês: AQUI.
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