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07 abril 2025

O visto dos milionários: países que, como Estados Unidos, aceitam ricos

 

Vale a pena pagar até cinco milhões de dólares para ter acesso privilegiado ao direito de residência, como propaga Trump? Vilma Gryzinski:


Com alma de vendedor, Donald Trump fez publicidade. “Por cinco milhões de dólares, ele pode ser seu”. Na mão, o visa ouro com seu retrato, uma promoção nada apropriada, mas dentro do estilo dele.

Por causa da antipatia da maioria esmagadora da imprensa, muitos disseram que ele estava vendendo o direito de residência nos Estados Unidos, com um caminho aberto para a eventual cidadania.

Na verdade, ele só aumentou o preço. Já existia o visto EB-5, para os privilegiados que pudessem investir um milhão de dólares numa atividade que criasse dez empregos nos Estados Unidos, de preferência em áreas mais desassistidas. Em média, a taxa de aprovação era de mais de 75%, num processo geralmente feito por escritórios especializados. A maior procura vinha de cidadãos da China, Coreia do Sul, Taiwan e Reino Unido. Outros notáveis: Vietnã, Índia, Brasil, México e Nigéria.

Muitos indianos estão lamentando a mudança na regra porque usavam o visto do investidor mais como uma forma de pular a fila do green card e assumir empregos de alta remuneração no setor tecnológico.

CONCORRÊNCIA POR IMÓVEIS

Para os brasileiros interessados, o “aumento de preço” coincide com mudanças em uma outra alternativa, o visto ouro de Portugal. Devido à pressão da opinião pública, que credita, erroneamente, a escassez de moradia ao golden visa concedido a quem investisse 250 mil dólares num imóvel, as regras mudaram. Agora, só valem fundos de investimentos (que não sejam imobiliários) ou aplicação de capital em projetos de recuperação do patrimônio.

Cidadãos brasileiros estavam em segundo lugar na lista do golden visa português, depois dos chineses.

A Espanha, outra porta de acesso à residência e eventual cidadania em um país membro da União Europeia, simplesmente extinguiu seu programa similar. O motivo é o mesmo: o país precisava de dinheiro depois da crise de 2013, hoje está estabilizado e muitos cidadãos reclamam da “concorrência” estrangeira na busca por imóveis. Cidades sem muito espaço para se expandir e com muito a preservar dificultam a construção de imóveis, criando um ambiente hostil a estrangeiros que os adquirem.

Alternativas europeias: Malta e a Grécia, onde a compra de imóveis – fora das áreas mais disputadas – continua a ser uma alternativa para o chamado segundo passaporte, com acesso aos 28 países da União Europeia.

ADAPTAÇÃO CULTURAL

Os vistos de investidor têm influência econômica relativamente irrelevante, mas de fato atraem pessoas “brilhantes, que trabalham duro e criam empregos”, segundo Trump. A ideia de que ajudem a pagar a avassaladora dívida de 37 trilhões de dólares é totalmente fora de proporção.

O secretário do Comércio, Howard Lutnick, fez uma projeção de 37 milhões de interessados em potencial, um exagero evidente.

Segundo especialistas nesse tipo de processo, os interessados geralmente estão dispostos a investir 10% de seu patrimônio num visto ouro, considerando-se que têm outras atividades em seus países e não querem arriscar tudo num único investimento ou empreendimento. Como existem no mundo, segundo um cálculo de Credit Suisse, 260 mil pessoas com patrimônio de 50 milhões de dólares, das quais 140 mil já são americanas, o público alvo do novo visto é consideravelmente menor.

Atrair empreendedores que já são bem sucedidos é de interesse de todos os países, mas envolve questões de amplo alcance, inclusive o nível de padrão de vida e a adaptação cultural, no caso daqueles que querem fazer a mudança completa, com a família, não apenas se dividir entre dois países (o golden visa português exige apenas permanência de sete dias por ano no país).

Um mapa feito pelo site Visual Capitalist sobre a movimentação de milionários no ano passado revela muito: quais economias estão indo bem e quais as vantagens que pesam na hora de escolher o segundo passaporte.

CAMPEÃO DE MILIONÁRIOS

Sem contar, claro, os impostos. As vantagens fiscais e os incentivos ao empreendedorismo de Dubai transformaram o pequeno emirado do Golfo Pérsico no país que mais atraiu milionários em 2024: 6,7 mil. Estados Unidos, 3,8 mil. Em Singapura, com ambiente cultural chinês e campeã no índice de percepção de segurança, foram 3,5 mil. Canadá, que também tem um programa de atração de investidores, 3,2 mil.

Outros da lista: Austrália (2,5 mil), Itália (2,2 mil), Suíça (1,5 mil) e Portugal (800).

Perderam milionários a China, campeã com 15,2 mil, o Reino Unido do governo trabalhista cheio de impostos, com 9,5 mil, e a Índia, com 4,3 mil. O Brasil entra na lista do vermelho com 800, abaixo da Coreia do Sul (1,2 mil) e acima da África do Sul (600).

Para quem não pode nem pensar na possibilidade de pagar caro para mudar de país, vale a pena refletir: onde é melhor morar, num lugar que atrai quem tem muito dinheiro ou que repele milionários?

Os números mostrarão se os Estados Unidos continuam a atraí-los, mesmo que o preço tenha quintuplicado, ou se a atual instabilidade introduzida por Trump influi nesse fluxo. Será interessante ver o que acontece neste ano.



28 fevereiro 2025

O pobre de direita se liberta

 

Por que os truques populistas de Lula funcionam cada vez menos. Rodolfo Borges e Deborah Sena para a Crusoé:

A intelectualidade brasileira se iludiu durante décadas com a ideia de que uma pessoa pobre não poderia — e nem deveria — ter valores de direita.


A base do raciocínio é humilhante: quem passa por dificuldade econômica deveria esperar — implorar? — pela ajuda do Estado.

Os resultados das últimas eleições no Brasil deixaram claro que essa lógica não existe, e o principal partido de esquerda do país sente os efeitos dessa realidade nas urnas — e na popularidade de seu maior expoente.

As últimas pesquisas de institutos como Quaest, AtlasIntel, Datafolha e CNT/MDA mostraram que a decadente popularidade de Lula perdeu força entre o eleitorado de baixa e média renda, alvo histórico do PT.

E isso mesmo após o governo petista aquecer a economia brasileira com gastos irresponsáveis, o que levou ao crescimento artificial do PIB e à redução recorde do desemprego.

Mais pobres

A pesquisa CNT/MDA divulgada na terça-feira, 25, indicou desaprovação de 35% de Lula no eleitorado mais pobre, que ganha até dois salários mínimos, onze pontos percentuais a mais desde novembro de 2024.

Em maio de 2023, no início do governo, a desaprovação entre os mais pobres era de apenas 19%.

O mesmo levantamento diz que a maior qualidade de Lula para 20,1% dos brasileiros é "cuidar dos pobres" — outros 36,5% não enxergam nenhuma qualidade no petista e 21,7% dizem que seu maior defeito é ser "desonesto".

Quer dizer, o discurso do presidente ainda reverbera em parte do país, mas parece perder força eleitoral.

O fato é que o truque de distribuir benesses não funcionou desta vez.

E nada foi mais eloquente sobre esse descolamento entre um governo que alega defender os pobres e a população mais humilde do que a reação nas redes sociais de trabalhadores informais que se viram na mira da sanha arrecadatória de Lula ao saber da ampliação do monitoramento do Pix.

Aplicativos

A distância entre os trabalhadores e o petismo, criado sob a alegação de defendê-los, já tinha se manifestado de forma contundente na tentativa da regulamentação do trabalho por aplicativo.

Entregadores e motoristas protestaram Brasil afora contra a pretensão de burocratizar seu oficio, e restou ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, fantasiar com a possibilidade de os cambaleantes Correios substituírem o Uber no caso de a plataforma estrangeira deixar o Brasil por falta de condições de atuar.

Os aplicativos deram uma alternativa de liberdade — ainda que sem segurança nenhuma — aos brasileiros, que têm demonstrado, desde a reforma trabalhista do governo Michel Temer, em 2017, repúdio aos sindicatos, formando filas todo ano para pedir dispensa da contribuição, que deixou de ser obrigatória.

Os evangélicos

O filósofo Luiz Felipe Pondé, que trata do assunto "pobre de direita" há quase uma década, definiu esse perfil de brasileiro na expressão “ter que ir atrás do prejuízo e trabalhar”.

Esse seria uma contraponto à perspectiva esquerdista de aguardar — ou proporcionar — o auxílio estatal.

Essa perspectiva de autonomia e liberdade proporcionadas pela desburocratização — e o consequente barateamento — das contratações e das possibilidades de trabalho parece ter encontrado em certo ideário evangélico o ambiente perfeito para se disseminar.

"O ambiente de muitas das igrejas evangélicas estimula a disciplina pessoal e a resiliência dos fiéis, promove a cultura do empreendedorismo, fortalece a atuação de redes de ajuda mútua e incentiva o investimento em instrução profissional", diz o antropólogo Juliano Spyer em Povo de Deus (Geração).

Spyer, que promove outro livro sobre o mesmo assunto, intitulado Crentes: pequeno manual sobre um grande fenômeno (Record), diz que a igreja ajuda a promover o "fim do alcoolismo e consequentemente da violência doméstica, fortalecimento da autoestima, da disciplina para o trabalho e aumento do investimento familiar em educação e nos cuidados com a saúde", o que "geralmente conduz à ascensão socioeconômica".

"Os ressentidos"

O sociólogo Jessé Souza lançou, em 2024, um livro um pouco mais carregado na tinta ideológica para tratar diretamente do Pobre de Direita (Civilização Brasileira).

O subtítulo da obra fala em "vingança dos bastardos" e questiona: "O que explica a adesão dos ressentidos à extrema direita?".

Souza parte do princípio de que as classes populares "não têm nada a ganhar com Bolsonaro, só a perder, especialmente sob o ponto de vista econômico objetivo".

O sociólogo ignora que Jair Bolsonaro não apenas distribuiu benefícios aos mais pobres, por ocasião da pandemia de Covid, como colheu frutos eleitorais disso, ainda que insuficientes para vencer Lula em 2022.

O autor de Pobre de Direita parte daquela premissa clássica da intelectualidade nacional, de que apenas a esquerda sabe "cuidar" dos pobres — ignorando, também, que, enquanto concede um benefício com uma mão, Lula aumenta a dívida pública, a inflação e os juros com a outra —, e aposta na moralidade como fator para explicar por que os "ressentidos" estariam votando contra seus próprios interesses.

"Há um abismo"

Seja por valores morais ou econômicos, a batalha pelos corações dos mais pobres está sendo travada dentro de igrejas evangélicas.

Nos últimos meses, Lula sancionou leis pera criar o Dia Nacional da Pastora Evangélica e do Pastor Evangélico e o Dia Nacional da Música Gospel, sempre com muitas orações e poses para a posteridade.

O presidente também incorporou expressões como "graças a Deus" em seus discursos e enviou emissários, como o advogado-geral da União, Jorge Messias, à Marcha para Jesus.

Mas a estratégia de aproximação não parece estar surtindo efeito — os evangélicos são a parcela da população que mais reprova seu governo —, e isso é admitido até por quem se dispôs a ajudar o petista na missão.

"Há um abismo entre o que nós evangélicos pensamos e o que o PT pensa", disse a Crusoé o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), que esteve com Lula na sanção da lei do Dia Nacional da Música Gospel e acabou virando alvo de protesto dos evangélicos depois de tentar ajudar o petista.

Otoni perdeu nesta semana a disputa pelo comando da Frente Parlamentar Evangélica para Gilberto Nascimento (PSD-MG), apoiado pelos aliados de Bolsonaro.

"Se Lula quiser pelo menos ser ouvido por nós, precisa se afastar do identitarismo do seu partido e começar a governar sem que essas pautas progressistas pautem seu governo. Ele é presidente de uma nação majoritariamente conservadora", disse o deputado.

"Nossos valores são mais caros que qualquer benefício que recebamos do governo. Nenhum governo vai comprar os evangélicos com comida ou programas sociais", completa.

"Vai na fé"

O fator "evangélicos" se tornou tão relevante para a política e a economia brasileiras que levou uma gestora de recursos a elaborar um relatório para mapear a influência eleitoral da religião no país.

"A gente estava tentando entender por que a popularidade do Lula estava baixa numa conjuntura que era amplamente favorável", diz Paulo Coutinho, um dos autores do relatório "Vai na fé! O impacto eleitoral do crescimento dos evangélicos", da Mar Asset Management, que chamou a atenção dos investidores do país em janeiro.

"Se você pegar a foto hoje, é muito favorável: um PIB que cresce mais de 3%, menor taxa de desemprego, massa salarial não para de crescer, a renda ampliada cresce num ritmo de 5% nos últimos dois anos. Se você me falasse isso há dois anos, eu diria que o Lula ia estar com a popularidade lá em cima", diz Coutinho.

O relatório afirma o seguinte: "Observamos uma relação robusta entre a presença de igrejas evangélicas e o perfil de votação. O PT e partidos de esquerda recebem menos votos em municípios com maior presença evangélica. Essa tendência é consistente entre estados e regiões".

O CNPJ das igrejas

Diante da defasagem de números do Censo sobre os evangélicos (os últimos são de 2010), os analistas da Mar Asset Management tentaram quantificar o crescimento desse segmento social por meio da abertura de igrejas.

E descobriram que "entre 2010 e 2024 o número de igrejas de denominação evangélicas com CNPJ ativo dobrou, chegando a mais de 140 mil templos em 2024".

"O ritmo de expansão permaneceu surpreendentemente constante. Em todos os ciclos presidenciais desde 2010, foram registradas, em média, cerca de 5 mil novas aberturas de templos por ano", diz o relatório.



O futuro

Com base nesse cenário, os autores do relatório se aventuram a projetar o futuro:

"Em 2022, a conversão de votos entre a população não evangélica em Lula foi a maior da história. Mesmo assumindo que isso se repetisse, o maior número de evangélicos no país já seria suficiente para garantir a vitória de um candidato de direita em 2026."

Os autores do relatório estimam que a proporção da população evangélica no Brasil aumentará de 22% em 2010 para 35,8% em 2026.
Direita

Uma vitória da direita dependerá, contudo, do candidato que se apresentar em 2026.

Bolsonaro está inelegível até 2030 e, enquanto tenta reverter a condenação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também batalha para impedir que alternativas cresçam à sua sombra.

O desentendimento entre os opositores de Lula é a melhor chance — talvez a única — de o petista se manter no poder apesar de boa parte do país mostrar que já está farta de sua forma de governar.






Por que a Europa está doente? (Javier Benegas)

 

A origem da atual prostração da Europa foi a transformação de sociedades capitalistas competitivas em sociedades tecnocráticas dirigidas. Javier Benegas para O Objetivo:


Para entender o estado de prostração da Europa, não basta apontar alguns dos erros mais monstruosos de sua classe dominante, como a absurda transição energética ou a promoção do decrescimento como o Santo Graal da sustentabilidade, de que "não terás nada e serás feliz", com o qual querem convencer os europeus de que não ter propriedade, nem mesmo um carro modesto, não é sinal de empobrecimento, mas de virtude. A virtude que salvará o planeta.

 

Em todas essas políticas há uma mistura confusa de ideologia, interesses corporativos, corrupção e, em conexão com esta última, muito provavelmente a longa sombra do poder severo de potências cínicas como a China e regimes belicosos como a Rússia.

 

No entanto, diz-se que as políticas malucas que dominaram a Europa durante décadas são o resultado de uma transformação anterior, uma mudança radical que distorceu a própria essência do sistema democrático liberal a ponto de tornar algumas de suas principais qualidades inoperantes. Essa mudança crucial, que estaria na origem da prostração da Europa, foi a transformação de sociedades capitalistas europeias competitivas em sociedades tecnocráticas dirigidas.

 

As democracias europeias teriam evoluído para uma espécie de epistrocracias, mas muito desvalorizadas, pois nem mesmo o poder teria acabado nas mãos de uma aristocracia solvente, mas sim de uma espécie de elites credenciadas no papel, sem feitos pessoais destacados, apenas títulos, documentos selados por burocracias acadêmicas ou, na sua falta, pelo Estado.

 

Até pouco tempo atrás, não era incomum que pessoas com pouca educação alcançassem enorme sucesso, mas era algo bastante comum. A educação formal proporciona conhecimento, é claro, mas há outros fatores, outras qualidades pessoais que podem contribuir ainda mais do que qualificações acadêmicas para o progresso das sociedades europeias. E, no entanto, já faz algum tempo que os diplomas se tornaram o salvo-conduto indispensável para acessar os mais altos cargos da Administração, da indústria ou dos negócios, fechando o caminho para aqueles que possuem qualidades excepcionais, mas não diplomas.

 

Neste ponto, o contra-argumento usual é que é preferível que um advogado entre na política, tendo que decorar pelo menos 500 matérias e passar em um exame difícil, do que um idiota que mal conseguiu terminar o ensino médio. Mas essa é uma falácia comparativa que demonstra justamente que o grau foi imposto como a única unidade de medida que somos capazes de reconhecer, excluindo qualquer outra qualidade que este sistema de acreditação não possa certificar.

 

O mérito acadêmico avalia mais os títulos do que as conquistas, as promessas mais do que os fatos, as aptidões para conseguir atingir o resultado, mais do que o resultado em si. E é claro que nenhum diploma acadêmico garante o comportamento ético de ninguém. Isso não significa que o sistema de acreditação acadêmica tenha sua razão de ser nas sociedades de massa. Para muitas tarefas, ele fornece uma garantia, mesmo que imperfeita. Por exemplo, um Ministério de Obras Públicas precisa de engenheiros qualificados para supervisionar obras de engenharia civil. Mas a visão dessas obras, sua necessidade ou relevância, ou simplesmente tomar a decisão certa na hora de descartar alguns projetos e promover outros, não depende de um diploma. Depende de uma visão muito mais ampla.

 

Isso não significa que qualquer pessoa em sã consciência deva entrar em uma sala de cirurgia sem a garantia de que será tratada por um cirurgião credenciado, ou embarcar em um avião que não foi projetado por engenheiros aeronáuticos qualificados, ou que, em uma disputa judicial, deva se colocar nas mãos de alguém que não estudou direito. A nuance é que todos esses exemplos se referem a tarefas muito específicas e especializadas.

 

Embora ser médico possa ajudar a ter uma visão mais próxima da saúde pública, isso não garante uma boa gestão de um Ministério da Saúde (basta olhar para o Ministro da Saúde espanhol). Ser engenheiro ou mesmo um cientista ganhador do Prêmio Nobel também não impede atitudes e ideias potencialmente catastróficas na política. Integridade intelectual, ou, por assim dizer, boa inteligência, muitas vezes faz diferenças intransponíveis. E essa mistura de inteligência, difícil de mensurar, e integridade moral é inacessível à acreditação tecnocrática que domina a Europa.

 

Quando o mérito acadêmico, ou como o historiador Joseph F. Kett o chamou, "mérito institucional",[1] é exclusivo, ele se torna um obstáculo, uma barreira, uma versão altamente desvalorizada do ideal meritocrático porque acaba excluindo muitas pessoas válidas. Apenas os certificados contam, pois são uma medida imperfeita de inteligência, habilidade, esforço, criatividade ou conhecimento. E, claro, honestidade.

 

O presidente americano Harry S. Truman não teve educação superior. Sua educação formal limitou-se ao ensino médio, e ele foi o último presidente dos EUA a não obter um diploma universitário. Antes de entrar na política, Truman teve vários empregos, incluindo o de cronometrista na Atchison, Topeka and Santa Fe Railway, no Kansas; isto é, manobrista. No entanto, ele era um leitor ávido, especialmente de história, o que lhe permitiu desenvolver uma grande cultura geral.

 

Truman não foi um mau presidente, pelo menos não comparado a outros que vieram depois dele e que, diferentemente dele, eram academicamente muito bem credenciados. Ele lançou um ambicioso programa de ajuda econômica para reconstruir a Europa após a guerra, evitando o colapso das economias europeias e fortalecendo os países ocidentais contra a influência soviética. Truman é lembrado por seu papel na Guerra Fria, sua liderança na reconstrução da Europa e da Ásia e sua luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Embora não tenha sido eleito inicialmente (ele assumiu a presidência após a morte de Roosevelt), ele deixou uma marca importante na política mundial.

 

Outro político singular, com papel muito relevante na história recente da Europa, foi Winston Churchill. Embora tenha sido educado na Academia Militar Real de Sandhurst e tenha sido oficial do exército antes de entrar para a política, ele nunca frequentou a universidade. E Lech Wałęsa, que desempenhou um papel crucial no colapso do império soviético, era um simples eletricista.

 

Angela Merkel, ao contrário de Truman, tem um histórico acadêmico invejável. Ele se formou em Física pela Universidade de Leipzig com uma tese sobre química quântica. Ele recebeu seu doutorado magna cum laude pela Academia de Ciências de Berlim. No entanto, o legado do ex-chanceler alemão é envenenado. Suas políticas transformaram o antigo poder do velho continente no homem doente da Europa. E ele também está gravemente doente, cuja doença está progredindo a uma taxa de 10.000 empregos industriais perdidos a cada semana.

 

Em grande parte, os erros graves de Merkel se devem ao fato de sua inteligência ser muito adequada à física quântica, mas não tanto para governar um país. Mas também porque cálculos políticos a levaram a se preocupar mais com sua permanência como chanceler do que com o futuro da Alemanha, razão pela qual ela cometeu o terrível erro de adotar os postulados dos Verdes alemães, porque considerou que levantar a bandeira do ambientalismo radical lhe renderia votos ou pelo menos não os tiraria. E suspeito que o mesmo pode ser dito sobre sua permissividade em relação à imigração em massa e descontrolada. A questão é, portanto, se as credenciais acadêmicas de Merkel foram garantia suficiente de honestidade e boa governança. Infelizmente, essa é uma pergunta retórica.

 

Entretanto, o maior dano causado pela transformação de sociedades capitalistas competitivas em sociedades tecnocráticas dirigidas tem sido convencer os cidadãos comuns de que as qualificações são os únicos parâmetros. Isso, por um lado, levou boa parte das sociedades europeias a desenvolver um comportamento estratégico: se o critério para ascender na hierarquia são os títulos, eles devem ser adquiridos a todo custo. Então, mais do que conhecimento, o que importa é obter um documento selado, aquele salvo-conduto que permite escapar do gulag dos ninguéns. O que, por sua vez, levou à desonestidade e até mesmo a fraudes acadêmicas notáveis, como a do nosso Primeiro-Ministro[2].

 

Do outro lado estão os cidadãos que se gabam da sua ignorância, como se ser ignorante fosse uma nova consciência de classe, porque associam o conhecimento a uma elite que abominam por considerá-la, não sem razão, responsável pela sua insignificância e precariedade. E, finalmente, no meio estão aqueles que, sem cair em nenhuma dessas duas atitudes, desistem e se resignam a tentar sobreviver em sociedades cada vez mais fechadas, hierárquicas e inacessíveis ao talento e à integridade moral.

 

A imposição de acreditação tecnocrática não é exclusiva da Europa. Ela se espalhou globalmente, inclusive nos Estados Unidos e especialmente na China. Entretanto, a forte tradição esquerdista europeia, e seu derivado mais temível, a obsessão pelo planejamento e controle social, que permeia a maioria das correntes políticas europeias, mesmo as supostamente conservadoras, transformou a padronização da inteligência em um sistema pétreo, egoísta e medíocre, incompatível com o progresso, a inovação, o empreendedorismo e, em última análise, a liberdade e a decência.

 

Agora que a guerra na Ucrânia colocou os europeus diante do espelho da nossa mediocridade tecnocrática, e que até mesmo membros da direita se tornaram membros tardios do movimento flowe power, que só precisam cantarolar Imagine, de John Lennon ("Imagine todas as pessoas / Vivendo a vida em paz"), lembro-me do que Milan Kundera alertou em Immortality:

 

«A guerra e a cultura são os dois polos da Europa, o seu céu e o seu inferno, a sua glória e a sua vergonha, mas não é possível separá-los. Quando um acaba, o outro acaba, e um não pode acabar sem o outro. O fato de não haver guerras na Europa há cinquenta anos tem alguma conexão misteriosa com o fato de nenhum Picasso ter aparecido durante cinquenta anos.

 



[1] Joseph F. Kett discutiu o conceito de "mérito institucional" em seu livro Merit: The History of a Founding Ideal in America (2013). Nesse livro, ele analisa como a ideia de mérito evoluiu nos Estados Unidos, distinguindo entre diferentes formas de mérito, incluindo o mérito institucional, que se refere ao reconhecimento e à valorização do mérito dentro de estruturas organizacionais, como universidades e burocracias.

[2] Refere-se ao Chefe ao Presidente do Governo da Espanha Pedro Sánchez.






14 fevereiro 2025

O Lado Oculto do Dia a Dia – Steven D. Levitt

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FONTE: dLivros




Princípios de Microeconomia – N. Gregory Mankiw (6ª Edição)

 





fonte


Banco do PCC movimentou R$ 8 bilhões para financiar políticos e crime organizado

 


  • 30/10/2024 12:35


Investigações da Polícia Civil de São Paulo começam a revelar um esquema que movimentou cerca de R$ 8 bilhões envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC) com o banco digital 4TBank, uma espécie de fintech usada, segundo a polícia, para promover financiamentos de políticos e campanhas eleitorais neste ano, além de esquentar dinheiro vindo de ações ilegais e retroalimentar o crime organizado.

Gazeta do Povo procurou a fintech, mas até a publicação desta reportagem os representantes da empresa não haviam se pronunciado. O espaço segue aberto.


No último dia da campanha eleitoral deste ano, na data do segundo turno das eleições, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que encaminharia ao Ministério Público cartas atribuídas à organização criminosa orientando familiares de faccionados a votarem em Guilherme Boulos (Psol) à prefeitura de São Paulo.

Vale destacar, no entanto, que a investigação em curso envolvendo a fintech ligada à organização criminosa não tem relações com a denúncia feita por Tarcísio de Freitas, nem evidências de financiamentos do PCC à campanha de Boulos. Parte dos candidatos supostamente financiados pela facção está ligada a partidos de centro e prioritariamente em cargos de vereadores.

O esquema bilionário envolvendo o banco do PCC começou a ser desvendado há um ano e não tinha como foco original essa investigação.

Em agosto de 2023, a Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Mogi das Cruzes (SP) se debruçou para apurar possíveis financiamentos de políticos e campanhas no estado após a prisão, por tráfico de drogas, de uma mulher suspeita de integrar o PCC.

Ela é esposa de um dos líderes da organização criminosa que está preso há 22 anos. Segundo a polícia, desde a prisão do marido ela passou a coordenar os negócios. O homem apontado como o gerenciador do banco do PCC, João Gabriel Yamawaki, é primo do criminoso que está encarcerado há mais de duas décadas. A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Yamawaki. O espaço segue aberto às manifestações.

A teia começou a ser desmantelada quando os investigadores identificaram no celular e outros dispositivos eletrônicos da mulher presa conversas com membros da facção indicando como e para quem deveria ser destinado o financiamento de campanha e apadrinhamento político.

Na casa da suspeita a polícia também encontrou cartas escritas pelo marido, de dentro do sistema prisional, determinando em quais candidatos deveriam ser investidos recursos e a forma como isso deveria ocorrer. Havia nomes e indicações em diversas cidades paulistas, desde a capital, região metropolitana, até o litoral e interior, tudo bancado pelo banco digital do PCC, de acordo com as investigações.

Operador do banco do PCC tinha experiência com mercado financeiro e o meio político

A Polícia Civil afirma que João Gabriel Yamawaki, apontado como operador do banco do PCC, tem experiência no meio político e com o mercado financeiro. Ele é “batizado” no PCC – nomenclatura usada quando um membro é oficialmente aceito e compõe a facção – e integra a chamada Sintonia Geral dos Caixas, que opera movimentações financeiras e de câmbio à organização criminosa. Yamawaki foi preso durante uma operação da Polícia Civil em agosto deste ano.

O delegado Fabrício Intelizano afirmou que os R$ 8 bilhões rastreados pela operação correspondem ao valor dos bloqueios que a polícia pediu à Justiça referentes às movimentações dos suspeitos investigados, incluindo pessoas presas e outras que seguem em liberdade e permanecem na mira dos investigadores. Há poucos dias o Ministério Público de São Paulo ofereceu denúncia contra 19 suspeitos de envolvimento no esquema.

Para o especialista em segurança pública, Sérgio Leonardo Gomes, que atuou no serviço público de inteligência, está evidente que o grande objetivo não é a facção tomar o Estado, mas se infiltrar para obter vantagens econômicas e financeiras, como chegar às licitações e contratos com o setor público.

Foi exatamente isso que revelaram as investigações. Com o apadrinhamento de políticos, além de se infiltrar para ter acesso a informações sobre políticas de segurança e enfrentamento ao crime, a organização criminosa pretendia ampliar seus tentáculos financeiros, acessando mais facilmente contratos e licitações para esquentar dinheiro vindo do tráfico de drogas e outros crimes.

“O objetivo está na capitalização constante e de operar em setores legais da economia para esquentar dinheiro vindo de ações ilegais como o tráfico de drogas. São as diversas formas de operação das organizações criminosas para dar um ar de legalidade a dinheiro sujo, vimos isso nos contratos com o transporte público em cidades paulistas”, descreve Gomes.

“Somado a isso, há gente da facção na política para fazer lobby contra ações de segurança pública ou mesmo orientar faccionados sobre operações, possíveis alvos e ações focadas em regiões das cidades dominadas pelos criminosos”, completa o especialista.

Depois de acessar o banco digital do PCC, os recursos serviam para capitalizar a facção dando ar de legalidade a dinheiro ilegal e até para custear a compra de drogas no Paraguai. A polícia identificou que contas vinculadas ao banco do PCC foram usadas para fazer pagamentos envolvendo transações de entorpecentes no país vizinho.

Quanto ao esquema voltado às eleições, ele era articulado há pelo menos um ano, mas a criação do banco do PCC teria como um dos seus pilares os financiamentos de campanha e de políticos. Seu CNPJ mais antigo está registrado há cinco anos, segundo a polícia.

As investigações identificaram ainda o apadrinhamento de pessoas próximas a faccionados e outras cooptadas pela organização para disputas de cargos eletivos.

A polícia também apontou que a esposa do suspeito tido como líder das operações financeiras chegou a se lançar como pré-candidata a vereadora em Mogi das Cruzes, mas desistiu após a prisão do marido, em agosto. Uma ONG também é citada no esquema de lavagem de dinheiro, sem muitos detalhamentos de como ela operava no esquema.

Segundo o inquérito policial, são mais de 30 investigados dos quais seis teriam ligações diretas com o chamado banco do crime do PCC, os demais têm ligação com o tráfico internacional de drogas.

A polícia identificou que empresas ligadas ao banco transacionaram recursos entre si pela fintech e designavam verbas de financiamentos de campanha, em transferências ou em espécie. As investigações ainda querem entender quanto recurso foi destinado às campanhas e se candidatos bancados pelos criminosos foram eleitos neste ano.

Movimentação bilionária do banco do PCC e o Banco Central

Basta uma consulta rápida sobre a situação de instituições reguladas/supervisionadas pelo Banco Central no site oficial do BC para descobrir que a financeira digital 4TBank não possui licenças para operar no Brasil. Mesmo assim, seu CNPJ tem cinco anos e nunca despertou qualquer tipo de suspeitas da autarquia federal que deve garantir a estabilidade da moeda nacional e do sistema financeiro.

No site sobre a condição legal de operações, o BC alerta que a consulta sobre as condições de bancos e instituições financeiras “são importantes para conhecer o mercado e saber se a instituição que está oferecendo a abertura de conta, algum produto ou empréstimo está cadastrada no BC e, assim, evitar golpes”, mas a fintech com movimento bilionário operou a serviço do crime sem ser barrada por meia década, aplicando, ao que indica a apuração policial, um golpe ao sistema federal.

“É preocupante que uma instituição que opera como banco digital do PCC tenha funcionado por tanto tempo e movimentado tantos recursos sem ter chamado a atenção das autoridades”, avalia o analista de mercado financeiro, Marcelo Dias.

Além do CNPJ original, outros dois Cadastros Nacionais de Pessoas Jurídicas aparecem vinculados à instituição financeira. Ao menos 19 empresas suspeitas de operar como laranjas são investigadas no esquema.

Na internet o 4TBank, indicado pela polícia como o banco do PCC, se descreve como “um banco digital que oferece vantagens como comodidade, segurança, menos burocracia, opções de investimentos, menores custos e taxas”. Nesta semana a página estava fora do ar e as contas dos investigados, de acordo com a Justiça, foram bloqueadas.

Gazeta do Povo procurou o BC, questionando sobre as operações da instituição financeira apontada como banco do PCC, as movimentações ilegais e possíveis fiscalizações, mas até a publicação desta reportagem não obteve retorno. A Polícia Civil de São Paulo reforçou no inquérito que o 4TBank não tinha licenças do BC para operar.

Para o especialista Marcelo Dias, soma-se à gravidade de não autorização para operar, as movimentações constantes entre contas de membros tidos como faccionados ou a serviço da facção sem levantar suspeitas. “Não estamos falando de milhares nem milhões, mas de bilhões de reais. Como esses recursos entraram e saíram das contas sem que tivessem sido rastreados pelas autoridades de fiscalização e controle? Isso é inadmissível”.

Somente em um dos CNPJs vinculado ao banco digital, a polícia identificou a movimentação de R$ 100 milhões nos últimos cinco anos em saques em espécie. “Dinheiro vivo é uma forma muito clara para operações financeiras não serem rastreadas. Financiamentos de campanha, compra de votos, o dinheiro em espécie deixa poucas marcas de rastreabilidade e facilita muito as ações criminosas”, explica Marcelo Dias.

No mesmo período a movimentação financeira global deste CNPJ foi de R$ 600 milhões envolvendo transações diversas, como transferências entre uma empresa suspeita e outra. Além do estado de São Paulo, um dos CNPJs é de uma financeira com sede em Palmas, no estado do Tocantins. A polícia indica que se trata de uma empresa ligada a laranjas.


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