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20 junho 2020

EUA criticam repressão aos negros sul-africanos (sexta-feira, 20/06/1980)

FOLHA DE S. PAULO
Editor Responsável: Boris Casoy
Ano 59, Nº 18.706
Cr$ 15,00
Página 09






WASHINGTON – O governo norte-americano poderá rever suas relações com a África do Sul, caso o governo sul-africano insista em manter sua política de discriminação racial e de repressão aos movimentos civis negros, afirmaram ontem funcionários do Departamento de Estado ao comentar os violentos distúrbios raciais que ocorreram nos últimos quatro dias em várias cidades sul-africanas e que provocaram a morte de cerca de 60 pessoas e ferimentos graves em mais de 300 outras.

Segundo os funcionários do Departamento de Estado, a posição dos Estados Unidos frente a essa questão foi oficialmente comunicada pelo subsecretário de Estado, Richard Moose, ao embaixador sul-africano Donald Sole. O comunicado de Moose ao embaixador foi seguido da divulgação de uma declaração do Departamento de Estado, manifestando sua preocupação pela crescente onda de violência racial na África do Sul, sobretudo com a decisão das autoridades policiais de ordenar aos soldados para atirar para matar em qualquer pessoa que seja considerada em atitude suspeita.

O porta-voz do Departamento de Estado, Hodding Carter, numa outra declaração a respeito, afirmou que os Estados Unidos deploram os ciclos de violência na África do Sul e exortou o governo sul-africano a ser moderado em seus esforços para restabelecer a calma no país.


CALMA E APELO

A calma vai aos poucos voltando aos bairros negros e mestiços da Cidade do Cabo, onde foram mais violentos os distúrbios raciais anteontem, com a população negra confinada em suas residências, temendo sair às ruas e morrer sob as balas das forças de segurança que receberam ordens de "atirar para matar". Ao mesmo tempo, dirigentes religiosos solicitaram ao primeiro-ministro P. W. Botha que se reúna com eles para salvar o país.

O bispo Desmond Tutu, o principal líder religioso sul-africano e destacado opositor à política racial do governo de minoria branca, afirmou ao jornal "Post", que o Conselho Sul Africano de Igrejas está disposto a aceitar as condições estabelecidas pelo primeiro-ministro para reunir-se com ele.

Botha disse anteontem que estaria disposto a reunir-se com os dirigentes religiosos se estes rejeitassem publicamente o comunismo para a África do Sul, se desligassem das atividades "dirigidas para solapar os serviços nacionais" e denunciassem as organizações que recorrem à violência contra o governo de minoria branca, inclusive o Congresso Nacional Africano (CNA) – organização negra que dirige a luta armada contra o governo racista de minoria branca.

"Não temos problemas com nenhuma das condições estabelecidas, embora preferíssemos nos reunir sem condições", disse Tutu, que é secretário do Conselho de Igrejas. "Poderíamos também, por exemplo, apresentar condições, como a da libertação dos presos políticos ou a convocação de uma convenção nacional, mas estou disposto a fazer qualquer coisa para salvar o país", afirmou Tutu.

O governo racista de minoria branca não deu nenhuma indicação de realização do encontro, o qual, se vier a ocorrer, será a primeira vez desde o recrudescimento da violência racial na África do Sul, há cerca de seis meses.


NÚMERO DE MORTOS

As autoridades sul-africanas não têm o número exato de mortos nos incidentes dos últimos três dias. A agência sul-africana de notícias afirmou que são 40, enquanto as organizações religiosas e civis afirmam que são mais de 60 os mortos e 300 os feridos. Ontem, o único incidente registrado na Cidade do Cabo, foi o incêndio de um vagão ferroviário, interrompendo por pouco tempo o trânsito entre a Cidade do Cabo e seus subúrbios.

Um outro incidente ocorreu em Uitenhage, próximo a Port Elizabeth, onde a polícia dispersou com bombas de gás lacrimogêneo centenas de trabalhadores da empresa automobilística Volkswagen, que acabavam de receber a informação de que a direção da empresa decretara um lock-out depois da greve de três dias realizada pelos empregados que exigem aumentos salariais. A polícia interveio também na Universidade de Hindu em Durban Westville para dispersar centenas de estudantes que se reuniram para recordar as manifestações realizadas em 16 de junho de 1976 no bairro dormitório negro de Soweto, próximo a Joanesburgo, quando a polícia matou cerca de 600 pessoas, nos incidentes raciais mais graves já registrados na África do Sul.

Nos pequenos incidentes de ontem ocorreram mortes e as autoridades raciais sul-africanas insistem, através de comunicados oficiais, que "elementos anti-sociais e criminosos" são os responsáveis pelos choques das últimas 72 horas.
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