Mostrando postagens com marcador racismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador racismo. Mostrar todas as postagens

26 setembro 2024

Che Guevara diz que pratica fuzilamento na ONU - discurso de 1964





“Nós temos que dizer aqui o que é uma verdade conhecida, que temos expressado sempre diante do mundo: fuzilamentos, sim! Fuzilamos, estamos fuzilando e seguiremos fuzilando até que seja necessário. Nossa luta é uma luta até a morte. Nós sabemos qual seria o resultado de uma batalha perdida e os vermes também têm de saber qual é o resultado da batalha perdida hoje em Cuba. E vivemos nessas condições por imposição do imperialismo norte-americano. Isso, sim, mas assassinatos não cometemos, como comete neste momento a polícia política venezuelana que, creio, recebe o nome de Digepol se não estou mal informado. Essa polícia cometeu uma série de atos de barbárie, de fuzilamentos, ou melhor, de assassinatos, e depois atirou os cadáveres em alguns lugares (…)”



Do blog de Reinaldo Azevedo (VEJA, 17/03/2014 às 15:25)


Che Guevara: Anatomia de um psicopata




28 novembro 2023

Aceitem que ganharam (Alexandre Soares Silva, para a Crusoé, 23/11/2023)

 

O movimento feminista e o movimento negro venceram faz tempo, mas ainda se fazem de derrotados. Alexandre Soares Silva para a Crusoé.



A maior prova de caráter é uma pessoa saber reconhecer a sua vitória.

Mas isso ninguém quer. Ninguém quer dizer que venceu. Em política? Fora das eleições? Ninguém. Em política, em qualquer contexto exceto eleições, dizer “Que é isso, a vitória é sua, a vitória é sua” é uma canalhice, uma canalhice que todos fazem o tempo todo, porque todo mundo quer se fazer de derrotado.

G. K. Chesterton, poeta, romancista, contista e ensaísta, já havia notado que em política existe um velho truque retórico: por mais firme e mais popular que seja a sua posição, por maior que seja a multidão que o apoia, o truque é discursar como se fosse um herói solitário acuado contra um muro, sem amigos e sem apoio.

“Todos os poderes do mundo estão contra mim! Empresários contra mim! Jornais contra mim! Mas não me calarei!”, diz o representante do grupo apoiado por todos os empresários e jornais.

Bom, estou falando do movimento feminista e do movimento negro, embora seja uma regra universal. Mas cá entre nós: é bastante claro para quem tenha o cérebro de uma taturana que eles venceram faz tempo, muito tempo; e venceram com uma grande margem; e eu acharia gracioso da parte deles se eles reconhecessem isso, mas infelizmente é óbvio que jamais vão dizer “ok, já temos tudo que queríamos e podemos parar por aqui” — porque enquanto continuarem reclamando vão continuar ganhando uns prêmios extras por sobre todas as vitórias que tiveram.

E além disso é tão gostoso, como acho que Chesterton disse (meus livros estão encaixotados devido a uma mudança), fingir que está acuado contra um muro, que todos estão contra você, que o mundo é estruturalmente contra você — mesmo quando todas as agências governamentais e todas as grandes corporações estão não só a seu favor, mas maniacamente a seu favor.

Vejam algumas notícias da semana.

Na Folha: “USP muda lista de livros do vestibular e terá obras só de mulheres pela 1ª vez na história.”

Também na Folha: “Exame para juízes terá nota de corte diferenciada para negros.” (Uma nota de corte menor para negros, caso você não consiga adivinhar se era maior ou menor.)

Da Bloomberg de um mês atrás: “As corporações dos EUA prometeram empregar muito mais negros. E foi o que fizeram. Um ano depois dos protestos do Black Lives Matter, as grandes empresas criaram mais 300.000 vagas. 94% delas foram para pessoas de cor.”

Só sabemos de casos de brancos que querem se passar por negros, e não o contrário. Alguém se lembra de alguma notícia de jornal ilustrando o contrário? Todos conhecemos sujeitos que nem considerávamos negros uns anos atrás e que de repente viraram super-negros, só falam sobre o quanto são negros, o quanto sofreram racismo a vida inteira etc. Fazem isso porque querem sofrer a perseguição que os negros sofrem no Brasil de 2023? Não, né?

Mas não vou fazer esse argumento. Seria um argumento irrespondível, se eu o fizesse. Mas não vou fazer pois tenho um certo apreço por não ser ostracizado pela sociedade humana inteira e ter que ir viver nas brenhas das selvas, entre pacas e jaguatiricas.

Se você visitasse um planeta com duas formas de vida, A e B, e nesse planeta eles fizessem passeatas para celebrar a forma A, e tivessem o mês da forma A, e festivais para apreciar a arte produzida pela forma A, e não se pudesse nesse planeta fazer o mesmo com a forma B, qual forma de vida você diria que domina esse planeta?

Quando falo na vitória das feministas e do movimento negro você tem essa reação de incredulidade porque ainda não viu isso ilustrado em filmes, romances e histórias em quadrinhos. Nossa imaginação não absorveu esses fatos óbvios da vitória completa das feministas e do movimento negro, e não absorveu porque não foi alimentada com eles através de histórias.

Pelo contrário, ainda estamos acostumados com as histórias no sentido contrário, histórias passadas nos anos 50 principalmente, quando o machismo e o racismo contra negros estavam começando a ser combatidos e ainda havia exemplos numerosos de racistas de verdade e machistas de verdade por aí.

Nossa imaginação ainda está sendo forçada a se alimentar com as condições sociais prevalecentes nos anos 50 como se elas fossem as atuais. E por que isso acontece? Porque quem alimenta a nossa imaginação através de filmes, romances e histórias em quadrinhos não passa no teste de caráter com que comecei este texto: o de admitir que venceu faz tempo.

Agora estamos num momento esquisito de transição. Vamos ainda viver um tempo vendo filmes esquizofrênicos em que mulheres são oprimidas e empoderadas ao mesmo tempo, e negros são oprimidos e empoderados ao mesmo tempo. Isso é o que em 2060 as pessoas vão achar de mais esquisito ao ver os filmes de hoje.

Admitam logo de uma vez. Confessem que conseguiram tudo que queriam. Qual a vergonha de terem vencido? Sejam honestos e tenham a decência de fazer umas dancinhas de vitória na cara da sociedade.




10 outubro 2021

O Presidente Negro – Monteiro Lobato

 






Descrição do livro

Em seu primeiro romance para adultos, Monteiro Lobato aborda temas polêmicos como a segregação entre brancos e negros e a guerra dos sexos. Ainda prevê a futura hegemonia asiática em uma época em que a China, o gigante industrial do terceiro milênio não passava de um país quase feudal e totalmente dilacerado.
Neste livro também aparece o Teatro Onírico, que fixa os sonhos na tela de cinema, desmistificando as teorias freudianas ao transformar os fluxos do inconsciente em entretenimento de massa.
Ele intuiu também os experimentos científicos semelhantes aos clones atuais, em que seres humanos criados pela Corporação Psíquica de Detroit desdobravam-se, multiplicando os cinco sentidos.
Após o período em que viveu nos EUA, Monteiro Lobato afirmou que a América retratada neste livro estava de acordo com o que encontrara.



23 agosto 2020

Rumo ao Apartheid: os progressistas decidiram que bebê negro só pode ter médico negro.


No mundo dessa gente, homens e mulheres devem viver separados como no Irã. Artigo de Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo, via TOMBOSI



Com dados, faz-se de tudo. Suponha-se que cientistas torcedores do Coritiba, interessados no aprimoramento do desempenho do seu time, se unam para descobrir se o uso de cuecas da sorte pela torcida durante as partidas contribui para vitórias. Primeiro, eles assistem a três partidas com cuecas da sorte. Todas as partidas são vitoriosas. Depois, assistem a mais três partidas sem as cuecas da sorte. Todas são derrotas. Estariam prontos, portanto, para enviar um paper ao (hipotético) Harvard Journal on Lucky Underwear Studies [Jornal Acadêmico de Harvard sobre as Cuecas da Sorte] que mostra existirem indícios de que o uso de cuecas da sorte está associado à vitória do time. A CNN noticiaria, e os jornais brasileiros repercutiriam. Alguns times ameaçariam de expulsão os torcedores sem cueca da sorte, enquanto que outros, de diretoria mais sensata, apontariam que a amostra foi de apenas seis jogos, e que cientistas corintianos vêm tendo resultados dessemelhantes, com uma amostragem muito maior.

Tudo isso poderia ser razoável, se, além de dados brutos e habilidade com planilhas, a ciência não exigisse bom-senso e noção de causalidade. Faz muito mais sentido procurar os motivos do desempenho em razões técnicas, administrativas e até aleatórias, do que na cueca que os torcedores usam. Ainda assim, quem porventura escolhesse essa via teria dados e mais dados a coletar. E papers e mais papers para fazer. E manchetes caça-clique às pencas.

Existem estudos que são bons para fazer manchetes caça-clique. A toda hora não descobrem uma comida mágica responsável pela prevenção do câncer e, mais recentemente, do mal de Alzheimer? É muito simples: todo o mundo pode ser dividido entre os que comem cúrcuma e os que não comem cúrcuma, ou os que têm uma dieta mediterrânea e os que não têm. Pegue-se uma divisão binária dessas, aplique-se aos pacientes de câncer ou Alzheimer, e algum número irá aparecer. O paper será publicado em um periódico qualquer, um jornalista científico fará o caça-clique, e a Bela Gil fará alguma coisa repulsiva com o ingrediente mágico.

Médicos brancos seriam todos Mengele

O estudo caça-clique da vez, porém, fomenta racismo e aponta para hospitais black only como medida salutar à saúde de bebês negros. Conforme noticiou a CNN, mostra-se-ia que bebês negros têm três vezes mais chances de morrer no primeiro ano de vida caso sejam atendidos por um médico branco, em vez de um médico negro. Os dados seriam acachapantes: quase dois milhões de bebês entre 1992 e 2015 na Califórnia.

Acontece que quatro gênios, três da área de administração e um de saúde pública, um da Harvard Business School, dois da Universidade de Minnesota e outro da Universidade George Mason, pegaram os dados da Califórnia e simplesmente lançaram o modelo. Nem puseram o pé no hospital, nem viram a cara de um paciente. Eles escolheram começar por 1992 por ser o ano em que a burocracia começou a registrar a cor dos bebês. Descartaram os bebês que não foram classificados nesse período, ou que receberam outra classificação. Quanto aos médicos, não há registro de cor; por isso, os quatro luminares se deram ao trabalho de olhar as fotos e classificá-los. A despeito de a pesquisa ser relativa ao primeiro ano de vida, todos os bebês são chamados de newborns, ou recém-nascidos.

Providenciadas as divisões raciais binárias, essas pessoas brilhantes dividiram os bebês entre os que completaram o primeiro ano de vida e os que morreram no hospital, para em seguida analisar os impactos da “concordância racial” entre médico e paciente. “Concordância racial” é o nome que deram ao fato de o médico e o paciente terem a mesma cor. Há alguns senões: nem todos os bebês que morreram no hospital foram cuidados por médicos, o que quer dizer que bebê negro que morreu atendido por socorristas entra na estatística de bebês negros mortos. Outra divisão, portanto, é a entre bebês que morreram no hospital nas mãos de um médico, e os que morreram lá sem médico. Além disso, foi considerado se o bebê tinha seguro (que é coisa de pobre, nos EUA) ou se pagava privado; se tinha comorbidades; se os “efeitos” da comorbidade foram “consertados” pelo médico, e quanto tempo viveram. Os estudiosos pontuaram que os médicos negros costumam tratar mais pacientes do que médicos brancos, que tratam mais pobres (“underresourced”) do que os brancos, e que tratam, ainda assim, mais brancos do que negros. (Como a Califórnia não é nenhuma Bahia, e está mais para um Paraná, é de se supor que existam mais pobres brancos pelo simples fato de existirem mais brancos.) Os negros seriam mais pobres, e as mães negras, mais propensas a problemas de saúde durante a gravidez, tais como eclâmpsia, pré-eclâmpsia e parto prematuro.

Das tabelas feitas com esses dados, os estudiosos concluem que é importante manter a “concordância racial” para salvar a vida de bebês negros, que é um problema existirem muitos médicos brancos, e que os elaboradores de políticas públicas devem levar essa maravilha de estudo em conta. Tudo isso sem pôr o pé num hospital de verdade, apenas olhando tabelas e fotos de médicos! Eles apontam também que a “concordância racial” não tem nenhum efeito sobre as mortes das mães negras, mas ainda assim um viés favorável à própria raça faria com que bebês negros morressem nas mãos de médicos brancos, sem que se passasse o mesmo com as mães negras. Estranho viés!

Apesar de falar em “concordância racial”, o estudo não cobre os seus efeitos em bebês brancos. Dado que os médicos negros têm uma clientela de maioria branca, é de se imaginar que um eventual apartheid hospitalar lhes tirasse empregos.

Por detrás da tabela

Existe uma infinidade de fatores que podem determinar a maior mortalidade entre um grupo do que outro. Um ano é um período grande o suficiente para haver muitas razões para a morte de um bebê, para além do atendimento médico. Digamos que os pais sejam desses de mundo cão, que matam os filhos e vão parar no Datena. Se o filho chega ainda com vida ao hospital e é atendido por um branco, entra na estatística; se morre em casa, não entra. Se houver um médico branco cujo plantão coincida com os horários de maiores acidentes de carro, e os bebês chegarem ainda com vida às suas mãos, esse médico aparecerá como um Josef Mengele na tabela. Inclusive, se o médico branco for um “antirracista” do quilate desses pesquisadores, poderá dar as costas aos bebês negros para não aumentar o número de bebês negros mortos nas mãos de médicos brancos. E se o médico branco for um racista convicto, que quer acabar com a minoria negra nos Estados Unidos, poderá despachar as crianças doentes do hospital e dizer que estão bem. Assim, passará por bom médico na tabela, desde que essas crianças morram bem longe de si; de preferência, em casa, atacadas por um mal não tratado.

Essa tabela é tão sensata quanto uma de cuecas da sorte!

Deixando-se de lado a moralidade dos médicos e pais envolvidos, não será uma boa ideia pensar na qualidade da formação dos médicos? Felizmente, esses cientistas dos Estados Unidos pensaram nisso. Traduzo-os, para o leitor não achar que estou inventando coisa: “Pesquisas sugerem, ademais, que treinamento especializado [em quê??] pode render benefícios superiores no cuidado clínico. Uma forma particular de treinamento [qual??], a certificação baseada na especialidade [qual??], na qual os médicos completam estudos de um a três anos adicionais, recebeu atenção considerável. As pesquisas sugerem que tal treinamento aumenta o entendimento da nuance das doenças, aumenta a lembrança das informações e acelera a reação a informações novas. Portanto replicamos nossas estimativas dividindo a amostragem entre os médicos que são certificados em […rufam os tambores...] pediatria [OH!!] e os que não são. Os resultados estão na tabela 4. Duas descobertas interessantes se veem. Primeiro, a pena de mortalidade absoluta para recém-nascidos negros é menor entre pediatras negros e brancos, comparada a não-pediatras. Segundo, vemos benefícios significativos da concordância racial entre pediatras certificados e não-pediatras (em ambos os casos, a pena de mortalidade negra é praticamente a metade). Isso sugere que treinamento adicional pode reduzir a magnitude da pena de mortalidade negra, mas não parece eliminar essas diferenças. Resultados com neonatologistas rendem resultados consistentes.”

Mas que surpresa! Treinar os médicos em pediatria para atender bebês reduz a mortalidade de bebês! Quem diria, não? O próximo passo será descobrir que obstetras são melhores em fazer parto do que urologistas. Contentemo-nos em supor que um dia esses gênios se perguntem pela qualidade dos hospitais que atendem os negros, em vez de ficar etiquetando médico com raça.

Lembrando Sowell

Com tudo isso, não queremos aqui dar a certeza de que os médicos brancos dos Estados Unidos são todos igualmente humanos com os bebês de qualquer cor. É possível que bons cientistas sociais ponham os pés em hospitais, entrevistem médicos e pacientes, elaborem tabelas, e encontrem algum tipo de problema relativo a raça com médicos brancos de uma dada localidade. Por outro lado, pegar os dados de médicos brancos atendendo negros na Califórnia e universalizar automaticamente é coisa de racista, que acha que brancos e negros têm comportamento determinado pela raça e não pela cultura, que varia de lugar para lugar.

Quanto aos negros dos Estados Unidos, não se alardeia tanto a precariedade geral da sua situação? Os lares sem pai, a alta taxa de encarceramento, os maus hábitos alimentares, o uso de drogas… Se for assim mesmo, fará algum sentido atribuir a mortalidade de bebês negros exclusivamente a cuidados médico-hospitalares, desconsiderando-se o lar?

Thomas Sowell trata, à exaustão, da degradação dos negros norte-americanos, e a atribui às políticas de bem-estar social, que tiram das famílias a responsabilidade de cuidar das crianças. Decerto é uma tese que, como qualquer outra, merece contestação. No entanto, a querela de Sowell diz mais respeito aos fatos do passado do que do presente: segundo Sowell, a família negra já foi estável, até ser destruída pelo Estado; segundo progressistas, os negros são meras vítimas que nunca saíram da lama desde a escravidão. Se Sowell e os progressistas estão de acordo quanto a haver muitos drogados e criminosos entre os negros dos EUA, não é de surpreender que seus bebês morram mais.

A hipótese de Sowell não tem nada de racista. Ele explica a situação social de um grupo humano a partir da forma como um Estado obcecado por raça resolveu tratar esse grupo humano. Diz ele: “Por ter as necessidades materiais providas por um Estado assistencial, como se fossem animais em uma fazenda, essa subclasse tem ‘uma vida esvaziada de significado’, como diz Dalrymple, já que não pode nem mesmo se orgulhar de conseguir pagar a própria comida e a própria casa como fizeram as gerações anteriores.” Tiro este trecho da sua apresentação do livro A vida na sarjeta, onde Dalrymple, médico do serviço público inglês, conta suas histórias de mundo cão. Diz Sowell: “Como médico do serviço de emergência, Theodore Dalrymple atende jovens que foram espancados na escola a ponto de precisar de cuidados médicos – por tentar ir bem na escola. Quando isso acontece nos guetos norte-americanos, as vítimas são acusadas de ‘agir como os brancos’ por tentar uma boa formação. No outro lado do Atlântico, tanto as vítimas quanto os agressores são brancos.”

Qualquer cientista social que saiba quem é Max Weber concordará que valores são importantes para explicar o destino de uma sociedade. Valores não podem ser apreendidos com uma tabela burocrática de hospital.

Hospital black only é só mais um passo rumo ao admirável mundo progressista

Mas de onde esses “cientistas” tiraram a ideia de “concordância racial” como fundamental? Segundo eles mesmos informam, é só mais um passo dado no sentido de dividir a humanidade em caixinhas de sexo e cor: “Os pesquisadores da sociologia notaram os benefícios da liderança feminina para as mulheres jovens que trabalham em firmas. […] Economistas mostraram que o desempenho acadêmico é mais alto quando os estudantes compartilham a raça [sic] com seus professores. Ademais, acadêmicos de direito descobriram taxas mais altas de encarceramento entre réus pareados com juízes de raça diferente. No entanto, apesar da prevalência dessas descobertas, pouca evidência do efeito da concordância racial e de gênero existia até há pouco.”

No mundo dessa gente, homens e mulheres devem viver separados como no Irã. Cidadãos do Ocidente devem regredir à condição dos Estados Unidos ou da África do Sul no começo do séc. XX: escolas e hospitais devem impedir o contato humano entre brancos e negros, os quais devem ser categorizados racialmente desde bebês.

Por sorte, os valores da gente comum do nosso Brasil são muito superiores ao dessa gentalha metida a iluminada. Mas como na nossa cúpula burocrática e intelectual sempre há quem queira copiar essa escória, fiquemos atentos. Quando aparecer na nossa imprensa progressista notícias do gênero, ou essa mesma notícia, olhemos com desconfiança.



21 fevereiro 2020

A Igreja Católica e a escravidão: fatos e mistificações




De algum modo, não sei qual, tive uma ideia a respeito de Deus – o Criador de toda a humanidade, dos negros e dos brancos –, que Ele havia feito os negros para servirem aos brancos como escravos. Como Ele poderia fazer isso e ser bom, eu não sabia. Não fiquei satisfeito com essa teoria, que tornou Deus responsável pela escravidão, pois me doeu muito e chorei por muito tempo e muitas vezes. (Frederick Douglass)


Não é fácil analisar acontecimentos históricos do passado sem cairmos na tentação de julgarmos esse passado com nossas lentes do presente. Mais tentador ainda é fazermos julgamentos a respeito do presente como consequência direta de um passado que temos dificuldade de abarcar corretamente. Ficarmos presos ao passado – tema já abordado por mim aqui nesta Gazeta do Povo – é a pior maneira de lidarmos com o presente e de construirmos perspectivas para o futuro. O passado, quando muito, deve nos servir, se bom, como inspiração; quando ruim, de prudente alerta em relação ao futuro. E só.

A discussão sobre o racismo no Brasil, por sua potente carga emocional oriunda da escravidão, tende a esse aprisionamento. Em partes porque os maus resultados da abolição ainda se fazem sentir (também já tratei disso), e a pobreza – que, infelizmente, tem cor no Brasil – é uma ferida ainda aberta de nossa história, que também nos liga ao nosso recente passado escravista. Por outro lado, essa circunstância é um prato cheio para reformadores sociais e revolucionários marxistas (alguns devidamente disfarçados de historiadores), pois dá a eles a narrativa adequada ao seu monocórdio bordão de opressores contra oprimidos; com isso, o ressentimento – fio condutor de todo projeto revolucionário – contamina toda a nossa análise do passado, tornando impossível uma contextualização adequada sob pena de estarmos relativizando a injustiça. Desse modo, a luta antirracista agora baseia-se não no progresso dos negros ou na luta por condições melhores para a população mais vulnerável do país, mas na vil, infrutífera e indistinta acusação contra os chamados opressores, na famigerada luta de classes, que serve a interesses políticos absolutamente alheios aos necessários para que os negros – e pobres em geral – alcancem a tão sonhada ascensão social. É a isso que tenho chamado de escravidão ideológica.

A pior característica dessa situação é que, na era da pós-verdade, ao mesmo tempo em que os acadêmicos progressistas determinaram a morte dos fatos, as redes sociais se transformaram num ambiente absolutamente generalizado de desinformação; a manipulação intencional e os erros involuntários foram potencializados a níveis assustadores, uma vez que a coragem de espalhar uma “informação” é inversamente proporcional à vontade (ou capacidade ou honestidade) de verificar e expor sua veracidade. Isso empobrece sobremaneira qualquer discussão séria e provoca uma total babelização do debate público – ainda mais quando os próprios acadêmicos engajados e pessoas influentes aderiram a essa prática. Os acadêmicos engajados o fazem porque tal ambiente é absolutamente favorável à manipulação ideológica necessária ao avanço de seus projetos utópicos de transformação social. Sir Roger Scruton, que faleceu no último domingo, dia 12, e a quem gostaria de honrar com uma citação, tem um artigo interessantíssimo sobre o poder de manipulação da pós-verdade: “Você pode culpar Nietzsche, cuja declaração de que ‘não há verdades, apenas interpretações’ o transformou na mais alta autoridade entre os acadêmicos pós-modernos. Mas o aforismo de Nietzsche é um mero paradoxo, sobre o qual nada pode ser construído. Muito mais importante foi Marx, cuja teoria da ideologia colocou o poder acima da verdade como motivo do pensamento político. O resultado da teoria de Marx foi sugerir que meu pensamento é ciência, o seu é ideologia: a minha é a verdadeira voz da história; a sua, a ‘falsa consciência’ da burguesia. Ainda mais destrutivo foi Foucault, que reformulou a teoria marxista da ideologia burguesa em termos da episteme de uma cultura – a estrutura de conceitos e argumentos que a classe dominante estabelece sobre a sociedade para que toda voz fale com seus termos”. O propósito, no fim das contas, é dominar a linguagem, pois quem a domina também domina a sociedade. Já as pessoas influentes – em geral, artistas –, porque precisam da anuência de uma elite que legitima suas ações, espalham aquilo que os faz parecer virtuosos. Vamos a um exemplo.
Dias atrás deparei-me com uma postagem, numa rede social, da indefectível Alexandra Loras, a ex-consulesa da França no Brasil – sobre quem também já falei em artigo –, a respeito da bula Dum Diversas, escrita pelo papa Nicolau V, que em 1452 deu “plena e livre permissão [ao rei Afonso V, de Portugal] de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo”. Loras, que agora é militante profissional em país alheio enquanto, em seu próprio país, a realidade do racismo não é muito diferente (exemplos aqui e aqui), disse: “O papa Nicolau V, que tinha mais autoridade que os reinados da Europa em 1452, autorizou a escravidão e colonização, até hoje o Vaticano não se desculpou por milhões de vidas impactadas, destruídas e abusadas por essa decisão. Até hoje as consequências sistêmicas dessa supremacia tem efeitos vivos na nossa sociedade”.
Qual o problema dessa afirmação da ex-consulesa, que diz ter ficado no Brasil porque aqui tem um palco? Primeiro, o sentimentalismo, que, segundo Anthony Daniels (a.k.a. Theodore Dalrymple), em Podres de Mimados, “enquanto manancial da política pública, ou da reação pública a acontecimentos ou a problemas sociais, (...) é tão desastroso quanto preponderante”. Um fato histórico não pode ser analisado dessa maneira. Segundo é que ela mente. O Vaticano já se desculpou pelos erros do passado da Igreja Católica – dentre eles, a escravidão (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). O mais recente pedido foi feito pelo papa Francisco, que disse: “Quero ser muito claro no que vou dizer, como foi João Paulo II, para, humildemente, pedir perdão pelas ofensas da própria Igreja contra os povos originários, e também pelos injustificáveis crimes cometidos em nome de Deus durante a chamada conquista da América”. Se tais pedidos não são suficientes, se a militância quer um pedido específico, é outro problema. O que não podemos é mentir em uma sinalização de virtude. Outra mistificação é dizer que o papa Nicolau V “tinha mais autoridade que os reinados da Europa”. Nicolau V foi chamado de “patrono das artes” e seu curto pontificado (1447 a 1455) não foi mais poderoso ou influente do que qualquer outro. Nicolau também não está na lista daqueles papas considerados “maus” pelo historiador Eric Russell Chamberlin em seu famoso livro The bad popes; muito pelo contrário, como podemos notar:

Um homem modesto e honrado, ele era por inclinação um estudioso (scholar) e, embora dirigisse os negócios da Igreja com energia e habilidade, seu primeiro e último amor era aprender coisas novas. Enviou emissários ao redor do mundo em busca de manuscritos preciosos e fundou efetivamente a mãe das bibliotecas, a Biblioteca do Vaticano. Ao seu redor, ele reuniu os principais estudiosos humanistas da época, incentivando a expansão e o crescimento daquele espírito de busca que, inevitavelmente, se voltou contra seu patrono.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...