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02 outubro 2021
26 novembro 2014
Roda Viva - Chico Anysio (21/6/1993)
Em entrevista dada em 1993 ao Roda Viva, na TV Cultura, o humorista explicou porque parou de fazer tantos personagens, concentrando sua energia na Escolinha do professor Raimundo, e contou ainda o que gosta de pintar.
TRANSCRIÇÃO:
[programa
gravado, portanto sem a participação dos telespectadores]
Jorge
Escosteguy: Boa Noite. Estamos começando mais um Roda
Viva pela TV Cultura de São Paulo. Nosso assunto de hoje é o
humorismo, humor e outros assuntos, política e etc, porque o nosso convidado
desta noite é um polivalente. No centro da roda está sentado Chico Anysio,
cearense de Maranguape, 62 anos, humorista, comediante, compositor, pintor,
diretor de teatro, comentarista esportivo e escritor. Chico Anysio está
lançando seu décimo quarto livro: Jesuíno, o profeta. Este
programa, pela TV Cultura será transmitido ao vivo também pela TV Pernambuco,
TV Cultura do Pará, TV Maíra de Rondônia, TV Minas Cultural e Educativa, TV
Vídeo Cabo de Belo Horizonte, TVE da Bahia, TVE do Ceará, TVE do Piauí, TVE do
Paraná, TVE de Porto Alegre, TVE do Espírito Santo e TVE do Mato Grosso do Sul.
Para entrevistar Chico Anysio, esta noite aqui no Roda Viva, nós
convidamos: Alex Solnik, editor da revista Interview,
jornalista Edélcio Mostaço, Tato Coutinho, editor de telejornalismo da TV
Cultura de São Paulo, o cartunista Paulo Caruso, Regina Echeverria, repórter da
revista Ícaro. Lembramos aos telespectadores que, como este
programa foi gravado, não haverá perguntas por telefone, ao vivo. Boa Noite
Chico.
Chico
Anysio: Boa Noite, boa noite para todos.
Jorge
Escosteguy: Você parece que depois de todas essas
atividades aqui: humorista, comediante, compositor, etc, etc, está pensando em
se dedicar a uma outra que é a de político, se candidatar a deputado. Isto é
verdade?
Chico
Anysio: Não. Pensei só. Foi verdade durante um espaço
de tempo, porque eu calculei que o fato de fazer um personagem, não me
obrigasse a tirá-lo do ar por quatro meses antes da eleição, porque eu me sinto
tão isolado do professor Raimundo, ele é uma coisa tão diferente de mim, que eu
pensei que ele pudesse seguir, desde que eu não o fizesse através dele
nenhuma...
Jorge
Escosteguy: Propaganda política ou algo parecido.
Chico
Anysio: Propaganda política. Mas aí, depois, eu fui
informado que não, que mesmo a voz teria que sair do ar. E, se o programa
saísse do ar por quatro meses, a Globo não o colocaria de novo, então, tirar do
ar o programa, eu não vou desempregar...
Jorge
Escosteguy: Não valia a pena trocar o personagem do
professor Raimundo por outro personagem? Política.
Chico
Anysio: Não, não, não.
Jorge
Escosteguy: Agora, por que você de repente resolveu
aderir...
Chico
Anysio: Porque eu sempre fui convidado, muito. Desde
que voltaram as eleições eu sempre fui convidado. Já fui convidado até para ser
candidato a senador e a deputado estadual, a vereador, deputado federal e tal.
Eu nunca aceitei. Aí, neste ano, como eu não estava mais fazendo o Fantástico nem
o Jornal da Globo, nada. De cara limpa, eu achei que pelo fato de
fazer apenas o professor Raymundo, que isso seria uma coisa viável, e aí admiti
essa possibilidade.
Jorge
Escosteguy: Mas eu digo... Por que a política? Quer
dizer, por que você de repente gostaria de ser um deputado, por exemplo,
deputado federal?
Chico Anysio: Por uma razão, porque eu acho que era a maneira de cortar um pouco
a grande frustração da minha vida que era não ter sido advogado. Eu acho que eu
seria um bom advogado, e o deputado é um advogado do povo, eu não iria para lá
do mesmo modo que a maioria está, eu iria para valer, não é? Talvez eu fosse
ser o ridículo da Câmara.
Jorge
Escosteguy: Um humorista fazendo o político a sério?
Chico
Anysio: A sério. Então, talvez eu fosse ser o
ridículo da Câmara, não me importava isso.
Regina
Echeverria: Você acredita nisso, Chico? Acha que é
possível fazer política a sério no Brasil? Hoje com representatividade, indo
para Câmara, sendo deputado, senador?
Chico
Anysio: Acho difícil, acho difícil, mas não me
custava tentar.
Regina
Echeverria: Você acha que valia a pena? Você tem 36 anos
de televisão, estava falando agora não é? Uma troca dessas?
Chico
Anysio: Não, eu não ia trocar. Eu ia fazer também,
entendeu? Eu não ia trocar.
Jorge
Escosteguy: Quer dizer, a legislação não obrigaria você a uma
troca, no caso, se você tivesse que sair do ar?
Chico
Anysio: Não, não, eu não trocaria. O que eu queria é
continuar com a minha Escolinha... [Escolinha do
professor Raimundo]
Regina
Echeverria: [interrompendo] Se você tivesse que optar,
não escolheria?
Chico
Anysio: Ah, não! Se eu, eu já optei, já optei.
Tato
Coutinho: Você acha que o fato de ser um humorista, te
daria mais legitimidade para circular nesse meio, na Câmara?
Chico
Anysio: Não, eu acho o seguinte: Eu acho que...
Tato
Coutinho: [interrompendo] No meio de tanta trapalhada.
Chico
Anysio: Não eu vou falar uma coisa aqui que vai
parecer até um vitupério, mas eu tenho uma grande credibilidade junto ao povo.
Eu nunca fiz comercial de nada que não fosse bom. Até já deixei de ganhar
dinheiro por isso, eu nunca deixei de ser um advogado do povão. O meu programa
durante 35 anos esteve semanalmente no ar e era absolutamente crítica social.
Eu sempre defendi o pobre, o preto, o nordestino, o retirante, o mendigo, o
preso, o esfarrapado. Então, rico, nos meus programas, sempre fez papéis
ridículos, nunca eu fiz um rico que se desse bem no meu programa. Que era uma
maneira de dar um sonho, que fosse, para o povão que vê o programa. Então, eu
fiz uma pesquisa, eu não estava insso assim, aleatoriamente. Quando me ocorreu
que eu poderia me candidatar, eu encomendei ao Ibope [Instituto Brasileiro de
Opinião Pública e Estatística] uma pesquisa, e a pesquisa foi surpreendente, o
próprio Ibope ficou surpreso com aquela pesquisa, não é que me davam, 58%
votariam em mim para deputado estadual, 53% para deputado federal; 44% votariam
em mim para senador, trinta e tantos por cento para prefeito, 28% para
governador e 18% votaria em mim para presidente da República.
Regina
Echeverria: Isso saindo por onde? Por que estado?
Chico
Anysio: Isso por São Paulo.
Regina
Echeverria: São Paulo?
Chico
Anysio: É
Jorge
Escosteguy: Partido? Partido, você tinha algum?
Chico
Anysio: Não, eu tinha quatro partidos em vista,
possíveis. Três com certeza.
Jorge Escosteguy: Da sua preferência, qual seria?
Chico
Anysio: O PMDB.
Alex Solnik: Você sairia praticamente eleito, não é? No cargo de deputado, até
senador, tranqüilamente, não é?
Chico
Anysio: Eu acho que sim. Acho que para deputado com
certeza.
Alex Solnik: E prefeito e governador, bem possível, até.
Chico
Anysio: Acho que até levava mais dois comigo, não é?
Alex Solnik: Agora, Chico, você... Não sei se você viu um vídeo que está
passando aqui no Brasil, um vídeo inglês, sobre a Rede Globo?
Chico
Anysio: Não, não vi.
Alex Solnik: E aí, nesse vídeo, algumas pessoas, inclusive o Chico Buarque é
uma delas, compara Roberto Marinho com
cidadão Kane [personagem do filme de mesmo nome, dirigido e estrelado por Orson
Welles, que seria o homem mais rico do mundo comandando uma empresa de
comunicação].
Chico
Anysio: Sei.
Alex Solnik: É um cara tão poderoso que tem o poder político, além das
telecomunicações. Você concorda? Você acha que o Roberto
Marinho é um cidadão Kane ?
Chico
Anysio: Ele pode até ser, mas ele não se fez,
fizeram-no, não é? Porque, como eu sou da Globo há 24 anos, eu acompanhei o
princípio da Globo, não é? Venho de longe nela. Eu sou da Globo no tempo que a
Globo não era líder ainda. Então a Rede Globo, ela se fez uma grande potência,
uma grande força, ela é, mas isso aí se deve muito mais à falta de
concorrência. O Roberto Marinho, eu não
acho que ele tenha pensado algum dia em vir a ser o que ele é hoje. Cidadão Kane,
não. Eu acho que cidadão Kane é uma comparação meio pejorativa. Mas eu acho,
também, que tem uma coisa a favor dele, talvez seja contra. Nunca houve caso de
estação nenhuma manter durante tantos anos a liderança. A Globo é caso ímpar no
mundo. Só ela consegue isso. Mas ela não...
Alex Solnik: [interrompendo] Você acha bom? Porque ela tem o monopólio, não é?
Chico
Anysio: Não, eu acho péssimo! Falta concorrência, não
acho nada bom. Não, não acho, não acho, A Globo parte de uma audiência inicial
de 25 pontos. Eu acho que nada no ar, dá 25 na Globo...
Paulo
Caruso: [interrompendo] Estou com uma questão no ar,
que é aí nesse vídeo principalmente, que é o seguinte: é colocado ali, que o
império do Roberto Marinho se
fez à sombra do seu crescimento sobre a ditadura militar, quer dizer, o jogo de
trocas de favores, quer dizer, não entrar em área de conflito. Armando Falcão
[ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel. Ver entrevista com Falcão
no Roda Viva] mesmo parece que aparece nesse vídeo dizendo que ele
adora oRoberto Marinho, não sabe por que falam
tão mal dele, porque ele sempre, enquanto o Armando Falcão era o censor, oRoberto Marinho sempre foi muito bonzinho
com ele, não é? Eu tenho uma pergunta que é um pouco dirigida para isso, na tua
carreira, quer dizer, depois de 36 anos de profissão...
Chico
Anysio: Sei.
Paulo
Caruso: Você pegou... Eu me lembro de assistir o seu
programa quando eu tinha 11 anos de idade, em 61 por aí, e já era um sucesso.
Chico
Anysio: Era.
Paulo
Caruso: Já era uma coisa assim que pegava toda a
classe média, principalmente. Então você pegou, ao longo desses 36 anos, pegou
a renúncia do Jânio, pegou o golpe de 64,
pegou 68, pegou 73, que foi o pior período da ditadura...
Chico
Anysio: [interrompendo] E peguei o Estado Novo ainda, Getúlio Vargas.
Paulo
Caruso: Getúlio
Vargas também?
Chico
Anysio: Peguei, peguei Dutra.
Paulo
Caruso: Como é que é fazer humor na ditadura? O que
você teve que mudar no teu...
Chico
Anysio: Foi a pior época, na ditadura foi a pior
época, porque qualquer censura é ruim, não é? Quer dizer, foi ruim no rádio no
tempo que tinha o DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, já era ruim, no
rádio. Cortaram coisas absurdas, não é? Cortaram... eu me lembro que um dia eu
escrevi “Auri-verde, pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e
balança”, o pessoal cortou beija e balança, quer dizer, eu acho...
[risos]
[risos]
Jorge
Escosteguy: Acharam que você estava esculhambando!
Chico
Anysio: Tive que ir lá explicar que era do Castro Alves, não era meu, não tinha culpa.
Sabe, cortaram coisas, eu botei “Você vai para a Europa, vê se me consegue uns
afrescos de Rafael” Aí cortaram afresco, o cara pôs uma puxadinha e pôs assim,
diga: "rapazes de maus hábitos". Uma coisa absurda as pessoas que censuram
eram tão...
Paulo
Caruso: Era ignorância.
Chico
Anysio: Porque eu acho que mais medo da censura, tem
o próprio censor, o próprio censor. O censor corta muito, muitas coisas que não
seriam cortadas, se as pessoas que cortassem tivessem uma autoridade maior do que
a dele. Ele tem medo de ser chamado à atenção pelo seu chefe. Então, nessa
época da ditadura, foi quando nasceu o Chico City [programa
humorístico onde Chico Anysio fazia todos os personagens principais, exibido na
TV Globo de 1973 a 1980], então tentei botar uma moeda especial que seria o
romão. Um romão valia dois cíceros, e um cícero valia quatro florianos e tal, e
fui proibido. Houve o problema dos prefeitos que fizeram a queixa, por causa do
Canavieira [o personagem Walfrido Canavieira era prefeito de Chico City]
que era ladrão e tal, e eles se defenderam que não havia prefeitos ladrões no
Brasil. E eu falei que Chico City não era Brasil, no Brasil,
de fato não há prefeitos ladrões, mas fora do Brasil todos os prefeitos roubam.
E eu tive que me defender do modo que foi possível. E no meu teatro, por
exemplo, o show, eu ia a Brasília, e eu lia, e era a coisa mais desagradável do
mundo, porque eu lia o texto do teatro todo para oito censores assim.
Paulo
Caruso: Oito censores?
Chico
Anysio: Oito! Com o pior humor possível.
Jorge
Escosteguy: Com premier absoluto do seu show?
Chico
Anysio: Ah, sim. E eu lia tudo aquilo para que eles
soubessem como aquilo seria dito, porque uma coisa é um texto para ser lido e
outra coisa é um texto para ser visto e ouvido.
Jorge
Escosteguy: Eles davam risadas, ao menos?
Chico
Anysio: Não, em hora alguma.
Jorge
Escosteguy: Não riam? Não achavam graça de nenhuma piada?
Chico
Anysio: Não! Nada, nada, nada.
Jorge
Escosteguy: Nem se seguravam? Assim, você olhava para um
estava se segurando?
Paulo
Caruso: Senão não seria censor, não é?
Tato
Coutinho: Você está falando da dificuldade de trabalhar
com a censura oficial, dentro da Globo, hoje, não tem esse problema?
Chico
Anysio: Tem uma censura pior do que essa.
Regina Echeverria: E a censura interna é...
Chico
Anysio: Interna.
Tato
Coutinho: A censura interna, na Globo é forte?
Chico
Anysio: Continua, é forte. É forte e continua, e é
desagradável. Paulo, é o seguinte, que essa censura interna da Globo é exercida
pela pessoa que quebrava os galhos da censura nos tempos da censura militar,
que é o Borjalo. O Borjalo
é que é o censor da Globo atualmente, ele se deu um outro nome: avaliador
artístico, mas para mim um cara que corta alguma coisa que eu escrevo é censor,
não é avaliador artístico, não é? Avaliador artístico...
Alex Solnik: [interrompendo] A Escolinha passa por ele?
Pelo Borjalo, os textos.
Chico
Anysio: Passa, passa e ele corta muito.
Jorge
Escosteguy: E essa censura, ela é política, ou ela é
moral como ela é?
Chico
Anysio: Ela é política, moral.
Regina
Echeverria: Ela é moral no caso de terem tirado um
homossexual do ar, os personagens...
Chico
Anysio: Não, homossexual fui eu que tirei.
Regina
Echeverria: Foi você?
Chico
Anysio: Foi.
Jorge
Escosteguy: O seu Peru [personagem homossexual
vivido pelo comediante Orlando Drummond Cardoso]?
Chico
Anysio: Foi, mas já voltou.
Jorge
Escosteguy: Eu sei, já voltou.
Regina
Echeverria: Você acha que existe alguma... Você concorda
comigo que esse tema é um pouco ridicularizado, assim, quer dizer, o personagem
é um pouco...
Chico
Anysio: O homossexual?
Regina
Echeverria: É. Um pouco depreciativo? A figura do...
Chico Anysio: Não tanto como, não tanto, não, acho que não, não especialmente
não.
Regina
Echeverria: Por que você tirou do ar?
Chico
Anysio: Porque estava muito forte. Porque eu não vejo
o programa. Eu não vejo, eu até evito ver. Porque a gente grava, o programa sai,
as pessoas gostam, e vendo eu vou achar tanto defeito, eu vou botar tanta
coisinha, eu vou querer mudar tanta coisa, prefiro não ver. Mas um dia, eu
estava em Itapetininga, tinha um show à noite, estava no hotel de tarde, aí
passou e aí eu vi, falei: “ah está forte, para esse horário está muito forte.”
Jorge
Escosteguy: Mas ele era muito engraçado, não era?
Chico
Anysio: Era. Mas era muito forte, porque ele deixou,
com licença da palavra...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Forte para quem? Forte contra
os homossexuais, forte para as pessoas que estavam vendo?
Chico
Anysio: Não, forte no modo de proceder, não é? Porque
uma coisa é frescura e outra é viadagem. Ele trocou a “frescura”, que era a
coisa, pela “viadagem” que era... Brabo! Então, aí eu tirei, tirei por um
tempo para aquilo... Mesmo para ele descer um pouco a chama. Agora, a sua
pergunta, a gente faz graça com o homossexual, como faz graça com o nordestino,
como faz com o preto.
Regina
Echeverria: Mas há uma diferença muito grande, por exemplo,
com o Painho, que você fazia para o... Como é o nome dele?
Chico
Anysio: Peru. Seu Peru.
Regina
Echeverria: Seu Peru. Você não acha?
Chico
Anysio: Bom, mas eu fazia o Painho, fazia o Haroldo,
fazia vários homossexuais. Os homossexuais adoravam, gostavam muito.
Alex Sounik: Fora aquele. O policial. Aquele era um homossexual...
Chico
Anysio: O Marmo Carrara com seus olhos cor de mel
[fala isso com a voz do personagem]. [risos] Mas isso aí é o seguinte, é o modo
de cada um fazer, não é? Eu sei fazer de um jeito e ele sabe fazer de outro. Eu
não posso passar o meu modo de fazer para ele, ele faz o dele.
Jorge
Escosteguy: Agora essa censura que você mencionou na
Globo, como é que você enfrenta essa censura? Ou seja, você discute com o Borjalo, conversa ou é imposto?
Chico
Anysio: Não, não discuto. Obedientemente...
Jorge
Escosteguy: Você faz o script ou fazem o script e ele
volta já cortado e boa noite, é assim mesmo?
Chico
Anysio: Não, o corte vem depois...
Paulo Caruso: [interrompendo] No caso do Borjalo,
o fato do Borjalo ser um criador, quer dizer,
um desenhista de trinta anos...
Chico
Anysio: Ele é melancólico, eu acho terrível,
terrível, uma pena que...
Paulo
Caruso: ...quarenta anos de profissão e que sempre
esteve do lado de quem está querendo fazer erigir e não no caso de quem está
querendo cortar. Isso não coloca vocês numa relação diferente? Quer dizer,
vocês não têm diálogo com ele...
Chico
Anysio: Não, eu tenho pena dele, eu tenho pena dele.
Eu acho que isso aí é uma coisa desagradável que ele não deve ter o menor
prazer em fazer, foi a coisa que lhe foi dada para fazer. O Borjalo foi uma pessoa que sofreu muito na
Globo, porque o Borjalo bebia muito e
tal e se internou numa clínica para parar de beber e, no dia que parou de
beber, ele foi demitido da função que exercia, quer dizer, isso deve ter dado
para ele uma ducha fria.
Paulo
Caruso: Vontade de tomar umas. [risos]
Chico
Anysio: É. Era o caso de tomar umas, mas ele parou,
não bebe mais. Mas o Borjalo foi muito
rebaixado na Globo, eu acho que a Globo tinha que pagar o Borjalo pelo tanto de bem que ele fez à
Globo, pelo tanto que ele ajudou, e deixar oBorjalo em
casa para ele poder criar, para ele desenhar de novo, para ele fazer os
trabalhos de criação que ele faz, onde era tão bom. Como censor eu acho ele
muito...
Paulo
Caruso: Mas enquanto artista, vocês não têm um
diálogo, vocês não têm assim...
Chico
Anysio: Não, eu não encontro com ele, muito
raramente. Ele trabalha no...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Pois é, como é que funciona,
ou seja: faz-se o texto, vai para ele, ele corta antes, ou grava e corta
depois, como é que é?
Chico
Anysio: Não, corta antes. No dia da gravação chega...
Jorge
Escosteguy: O script depurado.
Chico
Anysio: Chegam uns cortes não é? Na página 8, tal,
onde está aquilo está cortado; na página 12 está cortado aquilo e tal. Então
ele faz cortes de acordo com o ponto de vista dele, dele Borjalo, não é?
Regina
Echeverria: Doutor Roberto
Marinho interfere? Não?
Chico Anysio: Nada, doutor Roberto, acho, nem vê.
Regina
Echeverria: Nem vê?
Chico
Anysio: Acho que nem vê, doutor Roberto tem mais o
que fazer do que ficar às cinco e meia da tarde vendo a Escolinha, não
é?
Alex Solnik: Assisti uma entrevista tua outro dia, há alguns meses e tal, em
que você dizia assim, inclusive foi na época que você pensou na candidatura,
mas você dizia assim: “é, parece que o Boni não
conta comigo para 94, então eu vou para a política”. O que quer dizer isso? Quer
dizer, o Boni não conta comigo para 94...
Chico
Anysio: Não, isso foi depois. Ele já deu uma outra
entrevista, onde ele falou que eu sou eterno. Então...
Regina
Echeverria: Mas vocês se comunicam por entrevistas? Como
é?
Alex Solnik: Mas teve na época algum sinal?
Jorge
Escosteguy: Ele se inspirou em Vinícius de Moraes e
falou: “Eterno enquanto dure”.
Chico
Anysio: Enquanto dure, “não seja imortal posto que é
chama”. Não, é o seguinte: já tivemos um papo, isso já foi esclarecido, mas
havia essa impressão de que ele não contava comigo. Mas isso aí também não
teria importância, eu iria para o SBT [Sistema Brasileiro de Televisão, rede de
televisão do empresário e apresentador Silvio Santos, formada em 1981 depois da
compra de vários canais de televisão em todo Brasil, porém a marca só
foi começou a ser divulgada alguns anos mais tarde], eu faria um
programa aqui na TV Cultura...
Jorge
Escosteguy: Quer dizer que em termos de Ibope você está
tranqüilo? O seu Ibope é sempre um nível bastante...
Chico
Anysio: Olha, o Ibope é o seguinte: é o maior, isso é
uma coisa incrível, não é? A Escolinha é um programa de humor
de maior audiência no mundo ocidental! Não é? No mundo ocidental! Isso a gente
não inclui a China, porque tem muita gente, a Índia, não sei o quê e tal. Mas
no mundo ocidental a Escolinha, porque ela tem uma média de
quarenta pontos num universo de trinta milhões de televisores, que são doze
milhões de televisores, mas com três pessoas por televisores, da trinta e seis
milhões de telespectadores. O segundo lugar do Bill Cosby [comediante, ator e
produtor de televisão norte-americano de muito sucesso. No final da década de
1960 atuava sua própria série na TV: The Bill Cosby show, e desde
então não parou mais. Também já atuou e fez participações em vários filmes] que
tem quinze pontos num universo de noventa milhões de televisores. Mas lá, é um
ponto seis. Ele tem 32 milhões de espectadores, mas ele vai uma vez por semana
e eu vou seis. Então a Escolinha é o programa mais visto no
mundo ocidental, em que pese o tanto que falam mal dela por aí e tal.
Tato
Coutinho: É o mais visto, mas pelo que você falou, não
por você, que você veria muito defeito. Você estava falando do seu Peru, também
que você viu e...
Chico
Anysio: Mas eu não sou pago para ver, eu sou pago
para fazer.
Tato
Coutinho: Claro! Mas...
Chico
Anysio: Para ver é mais caro.
Tato
Coutinho: Mas é para saber, assim, você
freqüenta... Você estava vendo e talvez vendo você veria defeitos nos
outros personagens. Você veria em você mesmo? Como é que funciona a autocrítica
do humorista? Porque, às vezes, é muito freqüente o humorista deixar de ser
engraçado e ficar chato e vice-versa.
Chico
Anysio: Sei.
Tato
Coutinho: Como é que funciona a autocrítica assim, você
sabe quando você está ficando chato? Quando você está ficando mais engraçado?
Chico
Anysio: O meu caso é um caso diferente do normal,
porque eu pela primeira vez eu sou um só, não é? Durante 35 anos eu fui 188
pessoas diferentes, então ali ficava esquisito eu dizer 126 são bons, 17 são
regulares, 49 são mais ou menos e 16 são péssimos. Eu não tinha condição de
julgar isso. Isso era uma coisa que eu fazia no fim do ano, uma pesquisa, e o
público me dava o resultado. O mais gostado foi o Azambuja, o segundo Painho,
terceiro o Aroldo, quarto Popó.
Tato
Coutinho: Sempre através de pesquisa?
Chico
Anysio: Sempre, não tinha outro jeito, não é? Porque
as pessoas diziam para mim: “puxa Chico! Sempre os mesmos? Popó, Painho,
Pantaleão, Azambuja, Véio Zuza, Aroldo, precisava onze.
Jorge
Escosteguy: Sempre os mesmos 188?
Chico
Anysio: O que eu posso fazer? É, os mesmos. Você
agora citou onze. Sabe? Houve dia de eu fazer 26 personagens num programa, eu
não vou fazer mais isso, isso já acabou, Essa fase é uma fase vencida da minha
vida, eu não vou mais fazer nenhum personagem. Se eu fizer, um só por programa
e tal. Porque, em primeiro lugar, eu não tenho nada a provar, não estou
competindo com ninguém, não quero provar que sou bom, que sei fazer. Ou você já
sabe que eu sei fazer ou não saberá nunca, não é? Não há como te convencer de
que eu sou um bom compositor de tipos, sabe? Isso aí é uma coisa que foi uma
decisão que eu tomei no começo da minha vida, quando eu vi que eu não podia ter
a categoria do Walter D'Ávila, a graça
do Oscarito e tal, falei "eu tenho
que escolher um caminho para mim senão me perco". Então vou ser aquele que
faz vários. E eu me determinei isso: "eu vou ser aquele que faz
vários". O programa que eu criei, que é o Chico Anysio Show,
foi criado por mim e pelo Manga, principalmente
pelo Manga até, esse programa, eu fazia
todos os personagens. Era a primeira vez no mundo que havia um programa desses.
Regina
Echeverria: E a primeira vez que se usou videoteipe, não
é? Na televisão brasileira.
Chico
Anysio: Primeira vez que se usou, isso cortado com
gilete no escuro e tal. Então, isso aí é um trabalho que as pessoas podem até
não gostar, mas no mínimo elas têm que respeitar, por que... não é?
Jorge
Escosteguy: O Tato perguntava sobre a sua crítica ou
autocrítica ao personagem que você faz, no caso o professor Raimundo. Você não
se preocupa nem com uma avaliação desse tipo, ou seja, rever o professor e
saber...
Chico
Anysio: Não, O professor Raimundo é uma pessoa, sabe
Tato, o professor Raimundo é independente de mim, Ele... eu faço há 41 anos o
professor Raimundo. Ele é uma pessoa separada de mim. E eu acho ele muito bom,
eu gosto muito dele, porque eu sou escada de todo mundo ali, eu faço a
preparação para que eles façam a graça. E o professor Raimundo lançou Ari Leite, lançou Castrinho, lançou o Mussum
[personagem de Antônio Carlos Bernades Gomes, que mais tarde fez parte
de Os Trapalhões] . O Mussum foi lançado pela Escolinha do professor Raimundo, Coronel
Ludugero [personagem do humorista Luiz Jacinto da Silva], gente à beça que está
por aí, foi lançado, gente que já morreu até, Geraldo Alves [humorista que
ficou conhecido pela facilidade com que imitava artistas, jogadores de futebol
e políticos]...
Alex Solnik: Agora, Chico, esse sucesso todo da Escolinha, esse
Ibope imenso, fabuloso e tudo, mas parece que para o ano que vem a Globo está
querendo fazer alguns cortes. É verdade isso? Quer dizer, você vai ter que
diminuir o número de atores, você tem alguma?
Regina
Echeverria: Como é que você consegue manter esse elenco
enorme?
Chico
Anysio: Isso é o seguinte, isso é o seguinte: isso é
um mistério, isso é um grilo na minha vida.
Regina
Echeverria: A produção é sua? Como é?
Chico
Anysio: Não, é da Globo. O caso é o seguinte: eu
tenho... isso eu agradeço muito ao doutor Roberto
Marinho em primeira instância e ao Boni,
principalmente no fim, porque os dois sabem que eu poderia fazer aquele
programa com dezesseis alunos, e me permitem colocar quarenta e oito. Mas é o
jeito que eu encontro de arrumar emprego para mais trinta e dois, porque não há
onde trabalhar, não é? Ao comediante que sai da Escolinha hoje,
só resta para ele: A praça é nossa. E
não tem mais onde trabalhar.
Regina
Echeverria: Não tem, você está quase sozinho, não é? O
que aconteceu com o episódio do Nerso da Capitinga [personagem caipira do
humorista Pedro Bismarck]? Foi você que não gostou do personagem?
Chico
Anysio: De modo algum! Não.
Regina
Echeverria: Não?
Chico
Anysio: As portas lá estão abertas para ele, quando
ele quiser voltar, ele volta. O dia que ele quiser. Aquilo ali é a casa dele.
Ele um dia, um dia ele telefonou dizendo que não ia mais. Aí eu... ele morava
em Juiz de Fora, tinha esse problema, não é? E a mulher dele não concordava em
morar no Rio, e ele gravava segunda, terça e quarta, nós gravávamos três vezes
por semana, ele vinha de Juiz de Fora segunda, gravava, voltava para Juiz de
Fora, vinha terça gravava e voltava para Juiz de Fora e vinha quarta e voltava
para Juiz de Fora e na quinta-feira ele saía para fazer shows. Fazia shows na
quinta, sexta, sábado e domingo fazia shows por...
Jorge
Escosteguy: Quer dizer, era uma marcação cerrada ali.
Chico
Anysio: Ele não via os filhos, então, sabe? Havia
esse problema. Então eu liguei para ele, mas eu liguei para ele num dia, num
dia infeliz, o dia em que a sogra dele tinha morrido, e a sogra era a segunda
mãe dele, ele não tinha mãe e tinha a sogra como sendo a mãe. E falei para ele:
“Pedro, você fica só aos sábados, mas não sai, porque aqui é a vitrine onde você
se mostra para o país, não é? Eu não acho bom você sair. Fica só aos sábados,
você grava na segunda-feira e terça e quarta você fica em casa e tal”. Ele
falou: “não, não, talvez, me liga depois que minha sogra morreu!” Aí que ele
falou da sogra, eu vi que eu liguei no dia errado. Falei: “então faz o
seguinte, no dia que você resolver, você tem meu telefone, você me liga que
aqui está aberto para você a hora que você quiser”. Ele queria fazer um
programa sozinho, não é? Primeiro ele queria fazer um filme no esquema do
Mazzaropi [(1912-1981) ator, produtor e diretor de cinema, conhecido pelo
caipira que representava e que tinha como referência o Jeca Tatu -
personagem estereotipado criado por Monteiro Lobato] o que era impossível
porque ele, o Nerso da Capitinga é agressivo e o personagem do Mazzaropi era
manso, é o oposto do Mazzaropi...
Jorge
Escosteguy: É o ingênuo...
Chico
Anysio: Não tinha como ele seguir aquele caminho. Mas
ele ficou muito encantado com a idéia do cinema, e o empresário dele fez ver a
ele que se ele saísse acabava a Escolinha. ”Se sair você acaba com
isso aí, é só você” e tal. Então, resolveu sair..., ainda liguei de novo para
ele, para ele voltar e tal, mas está lá, ele saiu porque ele quis.
Jorge
Escosteguy: Acabou o empresário, de repente?
Chico
Anysio: Eu não sei.
Jorge
Escosteguy: Eu queria registrar, antes da próxima
pergunta, a chegada de mais um convidado, o jornalista Ivan Ângelo, editor de
artes do Jornal da Tarde e do Estado de S. Paulo.
O Paulo, por favor.
Paulo
Caruso: Música é alegria [cantando]. O que é isso?
Chico
Anysio: Isso é o seguinte: isso é o Hino ao
músico.
Regina
Echeverria: Hino ao músico.
Paulo
Caruso: Chocolate?
Chico
Anysio: Chocolate e
eu, não é? Nós fizemos isso aí no terraço da Rádio Nacional. O Chocolate chegou e disse: “bota uma letra
aqui numa música que eu fiz e vamos fazer isso o hino do músico”. Então vamos
embora! Aí, o Chocolate não tocava
nenhum instrumento, ele tocava poió, ele dizia: Popoió, poió, poió, pó poió...
[cantando]. E fizemos a letra e eu doei os direitos autorais para a Ordem dos
Músicos, não recebo nada por isso, eu recebi uma carteira, eu sou músico
honorário e isso aí é meu prefixo, não é? Desde que eu fiz, faz..., foi por
volta de 1951, que essa música foi feita, e essa música chegou a ser prefixo de
400 programas, de 408 programas de rádio pelo Brasil.
Paulo
Caruso: Agora, ela tem, quer dizer, independente de
ser a tua marca registrada, ela ficou bem caracterizada como uma coisa
classista, corporativa que é o Hino aos músicos.
Chico
Anysio: Hino aos músicos.
Paulo
Caruso: E o compositor em geral, quer dizer, imagino
que o Chocolate estivesse pensando, não é?
Chico
Anysio: Em dinheiro? Não.
Paulo
Caruso: Ou dinheiro ou então atingir o maior número
de pessoas possível, que acabou acontecendo.
Chico
Anysio: Acabou acontecendo. De uma certa forma sim.
Paulo
Caruso: E você tem outras parcerias com o Chocolate?
Chico
Anysio: Não, só essa.
Paulo
Caruso: Só essa?
Chico
Anysio: Engraçado. Meu irmão tem. Que, aliás, uma
música linda da Elizete [cantando]: "Saudade, torrente de paixão".
Paulo
Caruso: Seu irmão Zenito?
Chico
Anysio: É do meu irmão, do Elano.
Ivan Ângelo: Já que estão falando em 50... em 1950 você já era humorista?
Chico
Anysio: É, eu era desde...
Ivan Ângelo: E por que em 50, você fez um teste para locutor na rádio
Guanabara?
Chico Anysio: Não, fiz em 48.
Ivan Ângelo: Aí não era humorista ainda ou já era?
Chico
Anysio: Não. Aí eu era locutor, rádio ator e quatro
dias depois eu era redator também.
Ivan Ângelo: E consta que o Silvio Santos também ganhou?
Chico
Anysio: Silvio Santos [pseudônimo de Senor Abravanel,
apresentador de televisão e animador de auditórios que começou a vida como
camelô e é hoje um importante empresário dono do Grupo Silvio Santos – fazem
parte do grupo, o Baú da Felicidade, o Banco Panamericano e o SBT] ganhou, como
perder, não é? Silvio Santos era camelô há anos, ele tinha uma prática enorme.
E o Silvio hoje é um locutor deslumbrante, você imagina o Silvio aos 18 anos,
toda a potência da voz.
Ivan Ângelo: Quer dizer que ele continua ganhando de você?
Chico Anysio: Não, nunca perdeu de mim.
Ivan Ângelo: Ele ficou muito mais rico do que você? [Risos]
Chico
Anysio: Não, ele nunca perdeu de mim. Eu gosto demais
do Silvio, eu sou o maior admirador dele. O Silvio é um cara brilhante, quem
mais concorre com a Globo é o Silvio, quem mais tenta é o Silvio. Eu sou um
admirador do Silvio e do SBT também.
Jorge
Escosteguy: Chico, a gente discutia há pouco, a questão
do Nerso da Capitinga, e você falou que ele de repente, de certa forma, mosca
azul, queria ter um programa só para ele tal. Isso é comum acontecer com os
personagens, os humoristas que se sobressaem na Escolinha, por
exemplo? De repente, ele acha que "agora sou eu"?
Chico
Anysio: Não, não é comum não. Às vezes até nós
indicamos, sabe? Nós abrimos mão de alguns para novelas, ir ao ensaio, foi com
a Marina da Glória, [personagem da atriz] Tássia Camargo nós abrimos mão, ela
foi para novela, não voltou ainda porque ela está grávida, está esperando
neném. Mas ela quando tiver o filho, ela volta para a Escolinha até
pintar outra novela e tal. A Escolinha, para muitos, é até um
momento de espera. A Rosane Gofman está lá, ela é principalmente uma atriz de
novela. Quando a novela quiser, vai buscá-la, e ela irá.
Jorge
Escosteguy: Esses dias o..., esqueci o nome dele, agora
fez um especial?
Chico
Anysio: O Rogério Cardoso [ator e humorista
(1952-2003), na Escolinha fazia o personagem Rolando Lero - um
enrolador que nada sabia. Seu último trabalho me televisão foi Seu
Flor, no programa A grande família]?
Jorge
Escosteguy: Rogério Cardoso.
Chico
Anysio: Muito bem, mambembe; é um bom ator.
Alex Solnik: Agora, Chico, você estava falando aquela hora, não é? Sobre as
limitações que a direção da Globo está querendo fazer para o ano que vem. É
verdade que você vai ter que retirar alguns atores?
Chico
Anysio: Ah sim! É o seguinte, então eles deixaram
sempre que eu..., porque o problema é a verba, não é? Eu tenho uma verba e...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Você tem quantos ali mesmo?
Ao todo?
Chico
Anysio: Alunos têm 45, mas vão entrar mais três,
serão 48. Então, ficou combinado o seguinte: não é nem combinado, foi
determinado que no ano que vem, para que entrem dez, dez têm que sair. E até
entendo, mesmo, porque não cabe na sala, não é? Nós já estamos usando menos, só
entram na aula os que vão falar. Antigamente, entravam mesmo os que não iam
falar, porque como há liberdade absoluta, o cara não está escalado, mas se
ocorrer a ele uma boa piada, ele levanta e “pá” e fala, e aquela piada vai para
o ar. E se ele for infeliz, e a piada não sair boa, a gente corta da edição e
ele não vai ficar um vexame no ar feito por ele.
Tato
Coutinho: Você falou que está entrando mais três, você
pode adiantar quem são?
Jorge
Escosteguy: Quer dizer, desculpe falar, vocês...
Chico
Anysio: Fafy Siqueira... Desculpe.
Jorge
Escosteguy: Não, que é isso.
Chico
Anysio: O Júlio Levi, Fafy Siqueira, Júlio Levi...
Tato
Coutinho: São personagens novos?
Chico
Anysio: Fafy Siqueira é uma atriz, não é? Vai fazer a
dona Babá, o Julio Levi, são três personagens novos. Três atores.
Jorge
Escosteguy: Mas você falou para cada dez que entram, dez têm
que sair, mas a partir desse...
Chico
Anysio: Não a partir do ano que vem.
Jorge
Escosteguy: Desse piso? Não digo desse piso de 48?
Chico
Anysio: Eu acho que eu vou conseguir manter o piso de
48.
Jorge
Escosteguy: E a partir desses 48, o que aparecer de novo,
para entrar tem que sair é isso?
Chico
Anysio: É. Eu vou tentar elevar para 50, para poder
botar mais dois.
Alex Solnik: Antes do fim do ano?
Chico
Anysio: Antes do fim do ano. E aí saem dez, entram
dez e tal. Mas eu tenho um plano com o Boni,
que eu não sei se vai vingar, que é de supervisionar quatro programas de humor
para as sextas-feiras, não é? Então, como tem a Terça nobre tem
quatro programas distintos, não é? Na sexta feira também, porque o ano que vem
não tendo horário político, parece que isso vai acabar; em caso de acabar,
o Globo repórter passa para quinta e ele me dá a sexta, e eu
faço quatro programas na sexta e, talvez até participe de um deles.
Jorge
Escosteguy: Independente do seu?
Chico
Anysio: Independente do meu. Eu vou criar os
programas junto com a equipe e tal e encarreirar, e cada um terá o seu diretor
e terá o seu elenco, que isso aí é o principal. Então, um programa é o Hospital
do doutor Tantam, que só tem loucos, todo mundo é louco e tal, nesse é que
eu devo entrar, e aí vão entrar, pelo menos, uns quarenta comediantes aí. Tem
o Vapt e vupt que é um programa de jovens comediantes, só
jovens comediantes, não é? Lenice, Jean Lucas, Fafy Siqueira, o Júlio Levy, que
eu falei, Eduardo Galvão, Eri Johnson, e tal, tal, tal. Vai dar para botar uns
trinta, talvez. As noviças rebeldes que é em cima daquela peça
americana que vai ser dirigida também pelo Wolf Maia, e a cada mês uma aventura
no convento com aquelas noviças, e será escrito pelo Flávio Marinho, e o quarto
programa é Lua cheia que irá toda sexta-feira, noite de lua
cheia, e uma família de monstros que na noite de lua cheia eles se transformam
em monstros, mas monstros engraçados e tal, uma idéia do Luiz Carlos Góes.
Então esses quatro programas vão dar uma abertura no leque do humor e uma
chance maior a um número grande...
Regina
Echeverria: Há um tempo atrás você se envolveu numa
polêmica com um pessoal do TV Pirata, não é?
Chico
Anysio: Não foi polêmica.
Regina
Echeverria: Foi o quê?
Chico
Anysio: Foi um conselho.
Regina
Echeverria: Um conselho? [risos]
Jorge
Escosteguy: De quem para quem?
Chico
Anysio: De mim para eles, porque eles estavam
chegando, não foi nem para os atores, todos os atores são meus amigos e tal.
Foi uma coisa muito, muito levada para o lado contrário pela imprensa, a
imprensa teve grande culpa nisso. Eu sou um homem de televisão, não é? E eles
eram homens de imprensa, faziam jornal. Então quando o programa foi lido, ele
foi lido para o Daniel Filho, para o Carlos Manga e
para mim, nós três ouvimos o programa e foi desastroso, na opinião do Manga, na opinião do Daniel também...
Regina
Echeverria: Por quê? Você acha que eles fazem humor para
gueto, assim?
Chico
Anysio: Não, eu acho que era sem graça mesmo, estava
ruim. A única pessoa a favor do programa foi eu. Eu falei: não, eu acho que tem
jeito, tem remédio, eu acho que tem remédio, eu acho que está mal levado,
porque eles não têm a prática do humor na televisão, então o humor tem que ter
desfecho, você parte do desfecho para escrever o resto, não é? É feito um
cartoon, se ele não souber onde está a graça do cartoon, não adianta ele
começar a desenhar, ele tem que saber o final. Muito bem... Só um instantinho
porque isso é importante, porque elucida uma coisa muito séria aqui.
[dirigindo-se ao cartunista Paulo Caruso]. Então, peguei trezentos e oitenta e
cinco esquetes, quase quatrocentos, eu estava com o pé, o tornozelo quebrado,
levei para minha casa, eu estava em Petrópolis, o Paulo Ubiratan era diretor do
núcleo da TV Pirata, e eu dividi aquilo tudo, com um trabalho
enorme sem ganhar um centavo, eu só queria ajudar, só queria ajudar, em
esquetes que poderiam dar personagens fixos, esquetes que poderiam ser feitos
apenas uma vez por mês, esquetes que só poderiam ser feitos eventualmente e
esquetes que não poderiam ser feitos, porque não eram realizáveis na televisão.
Juntei aquilo tudo, o melhor material que estava lá era do pessoal da Casseta
[referente à revista de humor Casseta Popular cujos
integrantes se uniram aos escritores do jornal, também de humor, Planeta
Diário e formaram a trupe do Casseta e Planeta - eles
eram os idealizadores e redatores da TV Pirata], era o melhor
material e estava desprezado, não estava sendo usado o material do
pessoal da Casseta. Aí eu juntei tudo aquilo, montei um primeiro programa como
exemplo, fiz um trabalho muito bonito, sabe? Com clipezinho, direitinho, e tal.
Me lembrei que peguei uma tirinha do Luiz Fernando e botei junto de
brincadeira, que era assim: No primeiro quadradinho o cara dizia
assim: "o velho sol", aí no segundo quadradinho o outro dizia: "a
velha lua", e no outro quadradinho um outro dizia: "é, tem hora que
tem que chamar profissional". Essa era a tirinha do Luiz Fernando, eu
botei junto, mandei para o Daniel, um trabalho que me foram quarenta e cinco
dias para arrumar aquilo tudo. Aí o Cláudio Paiva disse que comigo não
trabalhava. Aí falei: “está bom, então eu saio, não tenho porquê. OK! estou
fora!” Aí eu saí, eu saí e falei o seguinte.., eles me entrevistaram, por que
eu saí. Falei: “não, eu saí porque o Cláudio Paiva pediu para eu sair e o
programa é dele, eu não tenho nada a ver com isso”, agora é preciso que ele
faça esse programa ser entendido no país todo, porque na hora em que ele, uma
coisa é fazer o Teatro Ipanema, o pessoal vai ao teatro para ver, e outra coisa
é na Rede Globo que ao mesmo tempo é vista em Altamira, em Arroio do Tigre, em
Maranguape, em Fortaleza, em Brasília, em São Paulo, em Itapetininga, em
Indaiatuba e tal. Então aí eu falei uma frase que foi uma gozação: “se a minha
cozinheira não entender, está errado!”.
Regina
Echeverria: Está certo.
Chico
Anysio: Aí criaram muitos problemas, eles começaram a
fazer gozações comigo e como o pessoal da Casseta faz até hoje sem que eu nunca
tenha falado mal da Casseta, eu só falei bem da Casseta até hoje, nunca falei
mal deles, eles falam muito mal de mim, o que também não me dá nenhum problema,
não me faz a menor mossa.
Jorge
Escosteguy: Não lhe tira o sono. Edélcio, por favor.
Edélcio
Mostaço: Não sei se tem a ver com isso. Na Escolinha tem
tido uma quantidade muito grande de velhos humoristas, inclusive com velhos
tipos criados.
Chico
Anysio: Sim.
Edelcio
Mostaço: São poucos os novos tipos, não é?, que
aparecem. Por outro lado também, a quantidade dos novos comediantes que tem
surgido é bastante pequena. Esses programas que você se referiu, por exemplo,
são programas com poucos integrantes ou poucos personagens. A que você atribui
esse tipo de situação criada? Quer dizer, por que a sua preferência pelos tipos
mais conhecidos e mais tradicionais? E eu queria aproveitar e te perguntar uma outra
coisa: qual é o segredo de fazer humor?
Chico
Anysio: Bom, eu não tenho preferência pelos antigos
profissionais em detrimento dos novos não. Eu sou quem mais lança novos. Os
dois maiores sucessos dos últimos anos foram lançados por mim: O Nerso da Capitinga
e o João Canabrava. Então ,eu não estou nesse time aí. Eu sou quem mais lança,
quem mais procura, quem mais dá chance. A mim que eles procuram. Eu estou
lançando lá no Rio, a Grace Jean Lucas que era conhecida aqui em São Paulo e
lancei a Cláudia Jimenez, dei a oportunidade maior dela, Stella Freitas saiu
porque ela quis. E se mais atores jovens não há, é porque, vira e mexe... uma
dupla de Goiânia, de comediantes de Goiânia também botei no programa, não deu
certo, mas não foi culpa minha. Os antigos comediantes eu ponho porque eles
são..., eles sabem como dizer, eles são mestres, eles não têm mais a capacidade
de decorar um esquete de três páginas, mas três frases eles decoram e ninguém
diz melhor do que eles. Os novos agradecem a mim o fato de estar aprendendo com
eles. Já ouvi: "é a glória trabalhar com Brandão Filho [(1910-1998) ator e
humorista que ficou famoso fazendo o quadro do primo rico e primo pobre
com Paulo Gracindo e que fazia o personagem Sandoval Quaresma na Escolinha] e
Walter D’Ávila, o que a gente aprende só de ver eles falarem é uma
maravilha".
Alex Solnik: Chico, por que hoje tem menos humoristas do que antes?
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Desculpa, Alex, um
momentinho, Alex, por favor. Faltou a segunda pergunta do Edélcio.
Edelcio
Mostaço: Mais explicitamente, qual é o segredo de
fazer humor na televisão?
Chico
Anysio: Mais difícil? Não entendi a pergunta.
Edélcio
Mostaço: Qual é o segredo de fazer humor na televisão?
Chico
Anysio: Ah! É você ser milagroso, não é? Porque não
tem mais aonde. [risos] Grande segredo é ser milagroso, é um grande milagre que
a gente consegue porque o programa do Jô [ver entrevista com Jô Soares no Roda
Viva] acabou, o programa do Jô dava emprego a muita gente. Acabou o
programa do Agildo [Ribeiro], não é? Que dava emprego a muita gente. Os
trapalhões diminuiu o elenco demais o programa, não é? Ficou muito
reduzido. A TV Pirata parou, apesar de dar emprego para sete
ou dez só, mas dava. Então foi uma... Parou meu outro programa Estados
Anysios de Chico City, onde eu empregava 65 pessoas. Então, fazer humor na
televisão hoje é uma grande glória porque significa que somos os remanescentes.
Tato
Coutinho: Chico, a briga com o Jô e o fato dele não...
Chico
Anysio: [interrompendo] Eu não briguei com o Jô.
Tato
Coutinho: Não, a polêmica com o Jô, o fato da imprensa,
pelo menos, dizer que ele não fala mais com você. Isso é mais uma das vilanias
da imprensa? Foi mais um mal entendido? Por que estava em função, um pouco,
dessa história do mercado para jovens atores?
Chico
Anysio: É isso ali foi, sabe o que é? É o seguinte:
“Papai mande dinheiro”. Porque eu falei uma coisa e a imprensa publicou outra,
foi até o Estadão que publicou. Eu falei o seguinte: “o Jô não
podia parar o programa dele, um programa de humor, porque muita gente, que ele
levou da Globo para lá depende dele, tal, e o Jô podia gravar numa
segunda-feira 16 esquetes, na outra segunda-feira 16, e pegava esses 32
espalhava pelo mês, aí o programa ficava no ar, isso é preguiça do Jô”. Aí a manchete
era “Chico Anysio chama Jô de preguiçoso”. Não foi isso, eu não falei que o Jô
era preguiçoso, não posso chamar de preguiçoso um cara que trabalha o tanto que
ele trabalha.
Jorge
Escosteguy: Você não chegou a falar com ele depois desse
mal entendido.
Chico
Anysio: Não, tentei até, mas houve um..., ele não
gostou muito de eu falar, então, não me faz a menor falta, posso viver sem o Jô
tranqüilamente o resto da minha vida, como ele pode viver sem mim, só chato ele
ter parado.
Jorge
Escosteguy: Cada um no seu canal [nessa época o Jô saiu
da Globo para fazer seu talk show no SBT].
Chico
Anysio: Hein?
Jorge
Escosteguy: Cada um no seu programa e cada um no seu
canal.
Chico
Anysio: É.
Jorge
Escosteguy: Bom, nós vamos fazer um rápido intervalo,
o Roda Viva volta daqui a pouco, entrevistando hoje Chico
Anysio. Até Já.
[intervalo]
Jorge
Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva que
hoje está entrevistando Chico Anysio, que, aliás, está com um show aqui em São
Paulo no teatro Procópio Ferreira até julho, além de ter lançado o livro Jesuíno,
o profeta. Lembramos aos telespectadores que, como este programa foi
gravado, não há perguntas por telefone ao vivo. Chico, no primeiro bloco, nós
falamos um pouco da questão da censura, censura moral, censura política etc, eu
gostaria que você me contasse uma coisa: você, durante alguns anos, na
televisão, foi considerado um humorista de humor de certa forma refinado, ou
seja, um humor um pouco mais intelectualizado em relação aos programas
tradicionais da época, tipo Praça da alegria, etc. Hoje, o humor em
geral, inclusive o seu, está mais, como você falou há pouco, tinha muita
sacanagem, então tem que cortar, ou seja, hoje ele é um humor mais malicioso,
mas mais malicioso até meio para baixaria, vamos dizer assim, ele é muito nesse
tipo, que aparentemente não era uma característica sua, claro que você era
beneficiado pelo fato de interpretar vários personagens, etc. Essa mudança é
uma coisa, uma imposição comercial, ou seja, é uma coisa que é o que vende em
programa de humor, tem que ter sempre uma coisa pegou ou não pegou , deu, não
deu, aquelas coisas?
Chico
Anysio: As coisas mudam, não é? Muda, muda o tampo, o
tamanho do esquete, muda o tipo do esquete, muda o ritmo do esquete e muda o
tema do esquete. Você tem que se adaptar ao mundo em que você vive, não é? Eu
não tenho o menor prazer em palavrão, em dizer palavrão, eu acho que posso
viver a minha vida inteira sem dizer um palavrão, mas no teatro o palavrão é
uma arma, uma arma que...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Mas, por exemplo, desculpe,
na televisão, por exemplo, quando você vira o...
Chico
Anysio: [interrompendo] Eu chego lá.
Jorge
Escosteguy: Quando você vira para o... eu esqueço o nome
dele, agora de novo me falhou, eu gosto muito do personagem dele, aquele que
nunca sabe e pergunta: “mas como? Mataram?” Como é?
Chico
Anysio: O Rolando Lero [personagem, e Rogério
Cardoso, ator].
Jorge
Escosteguy: Isso! O Rolando Lero. E você diz: “seu
corno!” Isso é uma coisa...
Chico
Anysio: Corno, no Nordeste, o pai fala para o filho:
"Quê, que há, seu corno?”
Jorge
Escosteguy: Bom, eu sei, mas é uma coisa que...
Regina
Echeverria: Mas a impressão que dá é que tem alguma coisa
interna entre vocês. Entende? Ali...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] E além de tudo ainda tem
alguma coisa interna.
Regina
Echeverria: Que vocês dão risada e a gente não sabe o que
está acontecendo.
Jorge
Escosteguy: É.
Chico
Anysio: Mas a gente faz de propósito para dar a
impressão que há mesmo, porque tudo é feito para que a impressão que passe seja
de que o programa é feito ao vivo. E de fato ele é ao vivo. Porque ele é
gravado sem ensaio, e nada se repete, como foi...
Jorge
Escosteguy: Não é ao vivo porque é cortado, senão podia
ser ao vivo.
Chico
Anysio: É, quer dizer, ele como saiu, vai. Aí o
programa tem 42 minutos, a gente, às vezes, grava uns com 64, então tem que
tirar vinte e dois minutos da gravação. Esses vinte e dois minutos dão
uma Escolinha da tarde. Mas no horário da noite, a gente dá
uma liberdade maior desse tipo de piada, porque esse tipo de piada passou a ser
o tipo de piada da época. Nós estamos vivendo numa época de moral menor, não é?
Não fui eu quem mudou a moral do mundo, eu sou um dos habitantes do mundo,
apenas isso.
Jorge
Escosteguy: Quer dizer, não é, por exemplo, uma questão
comercial em relação, por exemplo, ao programa do SBT que sempre foi mais ou
menos desse tipo?
Chico
Anysio: Não, o SBT até nisso...
Jorge
Escosteguy: Como a Globo hoje, o telejornalismo procura
fazer um telejornalismo mais parecido com o Aqui, agora [telejornal
com forte apelo popular exibido pelo SBT], ainda que pelos padrões da Globo, do
que ela fazia antes, ou seja, enfrentar uma concorrência com programas que dão
índices razoáveis, podem concorrer.
Chico
Anysio: Não sei, não sei, não posso julgar. Não me
baseio em nada, mesmo porque os personagens, não sou eu quem faz as piadas, não
é? As piadas são feitas pelos outros. Também não sou eu quem escreve as piadas,
o máximo que eu posso ser acusado é de permitir que aquelas piadas sejam divulgadas,
mas eu não acho nada de terrível no que vai no programa da tarde, o das 5h30.
Não, acho que...
Regina
Echeverria: Você prefere fazer o quê? Prefere fazer esse
tipo de humor ou você prefere fazer humor político como você fazia?
Chico
Anysio: Político eu nunca fiz...
Regina
Echeverria: Ah! Fez.
Chico
Anysio: Eu fiz assim social, não é? Político não.
Regina
Echeverria: É, aquela Velhinha de Taubaté [personagem de
Luiz Fenando Veríssimo, que acreditava cegamente no presidente da República]
que liga para o presidente, conversa com o presidente...
Chico
Anysio: A velhinha de Taubaté não, aquela velhinha
era de Passo Fundo.
Jorge
Escosteguy: Salomé.
Regina
Echeverria: De Passo Fundo.
Chico
Anysio: Não é de Taubaté não.
Jorge
Escosteguy: Aquele deputado; que dizia eu quero que o
povo se exploda.
Regina
Echeverria: É, o Justo Veríssimo.
Chico
Anysio: Sim, sim, sim, isso é social, não é político.
Regina
Echeverria: Justo Veríssimo não é político?
Alex Solnik: Ele foi baseado no Humberto Lucena, esse personagem? Foi
comentado.
Chico Anysio: Não, não, não foi.
Paulo
Caruso: Humberto Lucena ficou parecido com ele
depois.
Ivan Ângelo: Eu queria falar disso aí. Porque você foi um criador de
personagens sempre, não é? Hoje você vive à custa do professor Raimundo. Então,
não há, da sua parte, uma falta de vontade de fazer personagens de novo?
Chico
Anysio: Não, não, não quero mais não.
Ivan Ângelo: O público não pede?
Chico
Anysio: Pede. Mas agora é tarde, eles reclamaram
muito que eu fazia os mesmos, agora não quero mais não. Perdi a paciência.
Ivan Ângelo: Pois é, agora você está recitando o Jesuíno no livro? Você
usa o professor Raimundo, Jesuíno e ficou por aí.
Jorge
Escosteguy: Pois é, porque você disse: eu não preciso
provar nada a ninguém e não preciso mais competir. Passa a impressão que de
certa forma que você se acomodou e não está mais com saco de ter trabalho de
interpretar vários personagens.
Chico
Anysio: Não, não é que eu me acomodei, eu acho o
seguinte, eu acho que...
Jorge Escosteguy: Porque você - desculpa - era um ator brilhante interpretando os
personagens, ou seja...
Chico
Anysio: Muito Obrigado.
Jorge
Escosteguy: Você deu uma contribuição muito grande
criando os seus personagens e, de repente, desapareceu.
Chico
Anysio: Muito obrigado, desapareceu, desapareceu,
porque é muito difícil, sabe? É feito dor de rim, difícil de explicar, não é?
Só se você um dia fizer 188...
Jorge
Escosteguy: Só se um dia eu tiver dor de rim?
Chico
Anysio: Não, só se você um dia fizer 188 tipos de
entrevistas diferentes e um cara te disser: "Oh! Mas sempre as
mesmas?" Aí você vai entender a razão pela qual o cara que faz 188
personagens, absolutamente diferentes um do outro, escutar isso oito, dez,
doze, quinze vezes por dia na rua.
Jorge Escosteguy: E, hoje, você só faz um e ninguém diz você faz sempre o mesmo?
Chico
Anysio: Não, ninguém reclama, então está ótimo.
Alex Solnik: Você que se encheu do público.
Chico
Anysio: É, eu não me enchi do público, não, eu não
vou dizer isso, eu não me enchi do público. Eu me decepcionei com o público,
por não ter entendido o esforço enorme que eu fazia somente para ele: público,
sabe? Não era para mim.
Regina
Echeverria: Desculpe Chico, deixa eu só interromper em
negocinho: do público ou quem está te julgando, os intelectuais, os
jornalistas?
Chico
Anysio: Não, eu não dou a menor importância ao que os
jornalistas dizem, desculpe, nenhuma, nenhuma, nenhuma. Se eu desse importância
ao que os jornalistas dizem, eu já teria me suicidado há cinco ou seis anos e
não me suicidei, estou aqui, inteiro e tal. Os jornalistas só falam mal de mim,
mas acontece uma coisa, eu sempre disse isso, eles passaram anos dizendo que eu
era gênio e eu tive a genialidade de não levar isso a sério. Não é agora que me
chamam de idiota que eu vou cometer a idiotice de acreditar. Então...
Regina
Echeverria: Por quê? Você acha que houve um patrulhamento
porque você casou com a Zélia?
Chico
Anysio: Não, acho que até piorou depois que eu casei
com a Zélia, o patrulhamento vem de longe, o
jornalismo está 95% entregue ao PT, eu não sou petista, não é? Eu sou
peemedebista.
Alex Solnik: Mas quem manda nos jornalistas são os diretores, não são os
petistas, os repórteres, não...
Chico
Anysio: Isso é o que você pensa. Diretores nem têm
mais, depois do computador, o diretor só lê o jornal depois que ele está
editado.
Alex Solnik: Não, ele é quem manda as ordens pelo computador.
Chico
Anysio: Não acredito, não acredito, não acredito.
Alex Solnik: É Chico! É verdade! Não são os petistas que mandam não.
Chico
Anysio: Não acredito, não acredito.
Tato
Coutinho: Mas 95% são... do PT?
Chico
Anysio: Mas, tudo bem. Não vamos discutir o caso do
jornalismo porque eu não estou aqui para salvar a imprensa nacional, eu não
pretendo salvar ela...
Ivan Ângelo: Chico, e no teatro, você faz o quê? Você não faz personagens, como
que é?
Chico
Anysio: Faço personagens também.
Ivan Ângelo: Aqueles personagens?
Chico
Anysio: Faço personagens, de cara limpa, meus mesmo,
é. De cara limpa, é. Porque eu não preciso mais do que a cara limpa para fazer
o personagem, não é? Eu faço a voz, o corpo, o jeito, já está feito, não é?
Paulo
Caruso: Eu estava vendo você falar do fechamento do
mercado para esses humoristas antigos, não é? Que não tem mais onde trabalhar,
que o seu programa significa um pouco isso, e o programa do Jô quando fechou,
passou para o talk show, esse mercado se foi. Eu estava pensando na época que
você pegou, deve ter pego, do Cassino da Urca [A Urca é um bairro tradicional
do Rio de Janeiro e abrigou parte da aristocracia do início do século vinte, e
também um dos mais famosos cassinos da cidade. Muitos artistas moraram nesse
bairro, a exemplo de Carmen Miranda, Roberto
Carlos] e os shows que aconteciam em função dos cassinos e dos jogos.
Chico
Anysio: Não conheci, não deu para eu entrar, foi
fechado em 45 e eu tinha 14 anos.
Paulo
Caruso: Agora, você é a favor do jogo? Da abertura
dos cassinos?
Chico
Anysio: Claro, claro, sou.
Paulo
Caruso: Do jogo do bicho. Como é que você vê o jogo
do bicho no Rio de Janeiro e a juíza Denise Frossard [política e juíza de
direito brasileira, ficou conhecida nacionalmente por condenar 14
contraventores e membros do crime organizado no Rio de Janeiro – leia-se
“bicheiros” – em 1993. Aposentou-se do judiciário e entrou para política
candidatando-se em 1998 para o Senado. Em 2002 foi eleita deputada federal e em
2006 concorreu, pelo PPS, ao governo do estado do Rio de Janeiro. Foi fundadora
da ONG Transparência Brasil] nessa luta aí de botar os juízes nisso?
Chico
Anysio: Bem, juíza é sempre mais difícil que juiz,
não é? Juíza é sempre uma barra mais pesada. Se eu tiver que um dia ser julgado
por alguma coisa, eu espero que seja um juiz que me julgue. As juízas são muito
drásticas, são muito...
Jorge
Escosteguy: Por que você diria isso?
Chico
Anysio: Porque a gente vê aí, não é? Uma juíza foi
que, uma promotora...
Paulo
Caruso: Você acha que os bicheiros mereciam uma
melhor sorte?
Chico
Anysio: Não sei se os bicheiros faziam tanto mal ao
estado quanto o atraso da Justiça, por exemplo, não é? Os casos, os papéis que
estão lá empilhados, os criminosos soltos porque a Justiça não os julga. Não
sei, não sei, sinceramente, sabe? Eu acho que vão acabar com o carnaval
carioca, os bicheiros não vão mais dar o dinheiro para as escolas de samba, o
carnaval carioca que vive...
Regina
Echeverria: [interrompendo] Eles só deviam pagar imposto
igual à gente, legalizar, não é? O jogo do bicho.
Chico
Anysio: Mas isso aí, eles nunca foram contra a
legalização. Eu acho que a legalização tinha que ser feita e a coisa tinha que
ser entregue a eles para eles tomarem conta, porque eles é que entendem da
coisa.
Regina
Echeverria: Eles são competentes, está certo? Provaram
que são competentes.
Chico
Anysio: É. Eu não tenho nada a favor nem contra, eu
não jogo no bicho. Eu não tenho nada, sabe Paulo? Não tenho, sinceramente nada,
mas acho que há coisas mais importantes a serem feitas no Rio do que prender os
homens do jogo do bicho, mesmo porque não acabou o jogo do bicho, não é?
Jorge
Escosteguy: Agora Chico, você diz que as juízas são fogo,
você se tiver que ser julgado algum dia preferia ser julgado por um juiz ou por
uma juíza?
Chico
Anysio: Por um juiz.
Jorge
Escosteguy: E ministros da Economia, você preferia um
homem ou uma mulher?
Chico
Anysio: Depende, pelo que entendesse, que fosse de
competência, não é?
Jorge
Escosteguy: O Jaime Martins, por exemplo, que é da nossa
produção, perguntou, deixou uma pergunta aqui para você: o que é mais divertido
ter a poupança confiscada ou casar com a ex-ministra que confiscou?
Chico
Anysio: A poupança não foi confiscada, foi bloqueada.
E eu não casei com a ministra, eu casei com a professora. De maneira que ele
está inteiramente por fora, não sabe nem do que está falando.
Regina
Echeverria: O seu dinheiro não foi confiscado?
Chico
Anysio: Eu não tinha.
Alex Solnik: Agora entrando nesse campo de mulheres, não é? Você foi sempre um
cara que sempre teve as mulheres mais lindas do Brasil, não é? Foi casado com
mulheres maravilhosas. Eu queria saber se agora com esse casamento você
estacionou, parou, você agora se aburguesou ou de repente você ainda é o aquele
grande conquistador e tal que é o que você...
Chico
Anysio: O perigoso! Não eu acho que parei sim, parei.
Não tenho nem idade mais para ficar por aí pela noite...
Regina
Echeverria: Se falar outra coisa aqui!
Chico
Anysio: Hein?
Regina
Echeverria: Se falar outra coisa aqui.
Alex Solnik: Ninguém vai ver, ninguém vai ver.
Chico
Anysio: Não, não, sinceramente, acho que parei sim.
Acho não, eu tenho certeza eu parei mesmo. Parei mesmo, parei.
Alex Solnik: Aquelas meninas da Escolinha, não te atraem? Aquela
que apaga a lousa?
Chico
Anysio: Não, aquela é mulher de um amigo meu, do
Paulo César Grande. Não, não tem nada, não. Eu sou muito fiel, viu? Eu sempre
fui fiel. Eu sou fiel, desde que a mulher começa a me interessar, eu já fico
fiel a ela. Então essas minhas fases aí que você se referiu, foram as fases
entre casamentos, não é? Aí eu saía na noite, atacava e tal. Isso aí é uma
coisa que não vai acontecer mais, não.
Tato
Coutinho: Falando do casamento, teve uma vez que, numa
entrevista que você falou que a Zélia não
se metia no seu trabalho de criar personagens. Ela se mete nas finanças?
Chico
Anysio: Não, mas eu gostaria muito que ela se metesse
porque...
Jorge
Escosteguy: Ela dá dicas? Pega essa, pega essa grana
investe aqui.
Chico
Anysio: É o seguinte, eu estava, uma coisa muito
engraçada isso, porque não tem nada melhor do que o dia seguinte, não é? O
único defeito, o único mal da morte é que não tem mais dia seguinte.
Tato
Coutinho: [interrompendo] Depende do uísque.
Chico
Anysio: E o dia seguinte é maravilhoso... Ela estava
recortando coisas que foram faladas dela e tal, desde que ela foi nomeada
ministra e tem coisas maravilhosas. Tem um editorial da Veja onde
só não a chama de santa, não é? Porque uma pessoa que pegou a poupança... a
inflação estava a 84 e botou a menos dois e essa inflação permaneceu por aí.
Quando ela saiu estava cinco. Essa pessoa foi uma pessoa importante neste país,
ela fez um trabalho, não importa se esse trabalho custou o bloqueio de uma
poupança que depois foi devolvida. Essa poupança, se não fosse o trabalho dela,
sumiria na hiperinflação. Então é muito melhor você receber o seu dinheiro
daqui a dezoito meses do que ele acabar.
Jorge
Escosteguy: Alguns economistas, diga-se a favor, que
alguns economistas respeitáveis, inclusive aqui no Roda Viva,
disseram que essa poupança não poderia ser devolvida senão o país quebrava ou
algo parecido, não lembro quais foram as palavras.
Chico
Anysio: E foi devolvida, está certo? Eu vou usar o
exemplo da Suely May que trabalha comigo que botou cento e 50 mil cruzeiros,
três dias antes do bloqueio, houve o bloqueio, quando ela recebeu, recebeu 75
milhões. Ela aí consertou a casa dela de Piquiri que tinha caído com a chuva de
granizo o telhado todo, então ela adora a Zélia,
acha a Zélia... Ela fala: “aquela casa é da Zélia, foi a Zélia que
me deu aquela casa”. Então há pessoas que...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Então Chico...
Chico Anysio: Um minutinho. A Folha publicou um dia o seguinte:
“o plano acabou. Inflação chega a 3%”. Hoje em dia a gente dá risada disso, não
é? Mas a Folha [de S. Paulo] publicou a sério isso. ”O plano
acabou. Inflação chega a 3%”. Hoje quando chega a trinta, nós damos graças a
Deus.
Jorge
Escosteguy: O plano não começou ainda.
Chico Anysio: Não é? Chega a trinta a inflação. Agora essa inflação a trinta que
está hoje, não combina com a minha relação de compra do supermercado. O
supermercado me grita 45 no ouvido. Agora dá 30 no jornal, mas na minha vida é
45. Na minha vida, eu não sei na vida dos demais aqui, mas tudo aumenta 45, só
que a inflação é 30.
Jorge
Escosteguy: Agora Chico, sem querer invadir, com todo
respeito, invadir a sua privacidade com a ex-ministra, quer dizer, ela hoje é
uma pessoa que está respondendo a um processo. Há um processo do movimento de
irregularidades e tal. Como é que isso funciona, não digo nem no relacionamento
dos dois, mas em relação à ministra, ou seja, como ela reage em relação a isso?
Você falou como ela reage, dá risada, por exemplo, quando a Folha dizia
"3% o plano acabou".
Chico
Anysio: Olha, o seguinte: está bom, então agora eu
vou ser advogado da ministra, já que eu não me formei na Faculdade de Direito
do Rio, vou me formar aqui no Roda Viva da Cultura. É o
seguinte: eu tenho dois sócios no Rio com os quais eu construo casas. Nós
construímos uma casa por ano. Nós compramos um terreno na Barra da Tijuca e nós
três nos cotizamos, fazemos a casa e depois vendemos aquela casa no fim do ano,
não é? Somos três sócios. Essa casa tem quatro suítes em cima com closet, uma
sala íntima de cinco por cinco. Ela tem embaixo um living enorme, um
escritório, uma sala de almoço, tem uma piscina de oito por quatro, tem sauna,
churrasqueira, dois quartos de empregada, cozinha, duas despensas e tal. É, e
garagem para seis carros. Essa casa é padrão, nós fazemos a mesma casa, tá? A
mesma casa, com o mesmo material, todo o material de primeira. Eu quase mudei
para a última que nós construímos. Então, essa casa custa 150 mil dólares, o
aluguel real dela. Cinqüenta mil dólares que eu dou, 50 mil dólares o José
Antonio dá cinqüenta, mil dólares... Ela custa.
Jorge
Escosteguy: O aluguel não, a construção. Quatrocentos e
cinqüenta mil?
Chico Anysio: 150 mil dólares.
Jorge
Escosteguy: Ah sim! Cada um dá 50 então?
Chico
Anysio: Sim.
Paulo
Caruso: A construção então, você falou o aluguel.
Chico
Anysio: A construção, a casa, fora o terreno. Muito
bem. A casa da praça Morungaba que a Zélia tinha
era uma casa de sala e dois quartos, nós mudamos de lá por isso, porque não
tinha lugar onde botar o meu ateliê, onde botar um escritório para nós, quando
o neném nasceu o outro quarto ficou do neném e não tinha lugar para os meus
filhos ficarem quando viessem do Rio para cá. É uma casa de sala e dois quartos
e garagem para dois carros sendo que os dois carros não podem ser maior do que
Verona, porque se forem dois Diplomatas não cabem, o portão não abre e não
fecha. Muito bem. Essa casa, eu construo essa casa, eu e meus dois sócios
construímos essa casa, como ela é, exatinho como ela é por 50 mil dólares,
porque ela é quatro vezes menor do que a casa que nós construímos no Rio com
150 mil dólares. E colocamos lá portas de ipê, as portas daqui, tal. E o
Camargo disse que pegou, na conta de quem foram achados os cheques fantasmas,
não foi na dela, foi na dele, que gastou 243 mil dólares na reforma da casa
dela. Então o Camargo conseguiu o milagre de reformar com 243 mil dólares uma casa
que se constrói nova por cinqüenta mil.
Alex Solnik: Mas deve ser o mesmo que construiu aquele jardim, não é?
Chico
Anysio: É possível que tenha sido feito, a casa da
Dinda seja obra dele também. O Camargo, na minha opinião, esse dinheiro que ele
recebeu foi ressarcimento do que ele gastou na campanha do Collor, porque o
Camargo tinha na Avenida Brasil, o maior comitê pró-Collor do país. Ele devia
ter dito a verdade, ter dito isso, não é? “Foi o dinheiro que eu recebi porque
eu gastei. Então me pagaram esse dinheiro”. Agora, de onde veio esse dinheiro
não me interessa desde que você me deu um cheque, ele tem fundo, virou
dinheiro, está bom. Ninguém pesquisa de onde veio aquele cheque, mas o Camargo
preferiu, estranhamente, acusar a Zélia de
tudo, nós éramos amigos, viajamos juntos para Miami, o pai do Camargo, a mãe do
Camargo, a mulher do Camargo, que é filha do ministro Funaro, o filho do
Camargo. De repente o Camargo ficou adversário dela. E como o Camargo não foi
indiciado, ele que tinha os cheques fantasmas no nome dele, isso me deixa uma
ponta de suspeita de que tenha havido, sei, lá, algum acerto aí, não é? Você
fala mal dela que eu não te indicio, sei lá, posso estar sendo até atrevido ao
admitir essa hipótese, mas a minha inteligência me proíbe uma outra.
Jorge
Escosteguy: Mas, e no geral, quer dizer, a sua opinião no
geral sobre o que aconteceu no governo Collor...
Chico
Anysio: Não tem nada contra ela, não é nada contra
ela.
Jorge
Escosteguy: Não, não, digo, em geral no governo Collor,
ou seja, apesar dessa inflação 3% tal, afinal a ex-ministra participou algum
tempo do governo, quer dizer, a sua opinião sobre o que houve, ou seja...
Chico
Anysio: Eu acho que o governo acabou quando ela saiu.
Eu acho que a saída dela acabou o governo. Há dois governos Collor, antes,
durante o tempo que ela estava e depois que ela saiu. Eu acho, isso é uma coisa
que qualquer um daqui, não estou nem dizendo que fosse melhor no tempo dela,
mas que foi diferente do dia que ela saiu para frente, foi. Por que se um
ministro da Fazenda é louvado por banqueiros e empreiteiros e empresários e
americanos, ele não está trabalhando certo para o país, isso é uma coisa
lógica, não precisa ser gênio para descobrir. Se qualquer ministro da Fazenda tiver
a louvação dos banqueiros e dos empresários, ele está errado. Para o país,
está, não é? Então, quando houve aquele almoço de mil pessoas aquele do
ministro Marcílio Marques Moreira, eu falei coitado de mim, porque eu sou
apenas um habitante do país, não está legal, não é? Eu quando levei a Zélia na Escolinha, eu levei
para me redimir de uma crítica que eu vinha fazendo sistematicamente a ela,
porque no dia em que ela saiu houve uma comemoração por parte dos americanos e
da elite brasileira, então digo que ela estava certa e eu malhando.
Jorge
Escosteguy: Que crítica você fazia a ela, quer dizer,
você...
Chico
Anysio: Não, era um personagem escrito pelo Nani, não
era nem escrito por mim, que dizia: “não, o povo é só um detalhe e tal”.
Regina
Echeverria: É, o que fazia...
Jorge
Escosteguy: Quer dizer, o personagem em si e não a
crítica específica? Era o personagem mesmo.
Chico
Anysio: Não, era o personagem, é.
Alex Solnik: Célia Caridosa de Melo?
Chico
Anysio: Célia Caridosa de Melo. É.
Jorge
Escosteguy: Célia Caridosa, exatamente. Detalhe.
Chico
Anysio: Então aí eu a levei lá para me reabilitar
disso, porque você não pode agradar ao Palmeiras com grande fidelidade ao
Corinthians. Não. Ou você é Palmeiras ou você é Corinthians, não é? Então
ministro da Fazenda que banqueiro elogiar está errado.
Jorge
Escosteguy: E foi ali que você passou a ser fiel a ela?
Chico
Anysio: Não, ali eu passei a ser decente com ela, eu
passei a ser fiel a ela no dia 13 de setembro, quando jantei com ela, no
[restaurante] Antiquários.
Regina
Echeverria: Chico, ela não está aqui, eu teria mil
dúvidas a respeito dela, acho que realmente não é o caso, mas eu te perguntaria
uma outra coisa. Depois que ela lançou aquele livro abrindo...
Chico Anysio: [interrompendo] O livro quem lançou não foi ela, foi Fernando
Sabino [ver entrevista com Fernando Sabino no Roda Viva]. Eu sempre
fui contra aquele livro. Aquele livro foi uma grande bobagem, eu vou dizer por
quê. Eu estava recém entrando na vida dela, eu não tinha direito de proibir o
livro, tá? Se aquele livro fosse quinze dias depois, eu o queimaria, ele não
sairia. Falei com ela várias vezes: “Zélia,
para que esse livro?” “Não, esse livro esclarece coisas” Mas ninguém está te
perguntando nada, ninguém está querendo saber de nada, para que isso? Eu não li
o livro.
Regina
Echeverria: Você não leu?
Chico
Anysio: Não, não li, nem lerei, quer dizer, eu falei:
“esse livro só é bom para o Fernando Sabino, ele vai ganhar um dinheirão com
esse livro, você não vai ganhar nada e esse livro vai ser um mal estar para
você, para com esse livro, tira esse livro”. O livro, o que foi possível, eu
tentei evitar que o livro saísse, está certo?
Jorge
Escosteguy: E depois ela se arrependeu ou não?
Chico
Anysio: Se arrependeu, claro que se arrependeu, é
lógico. Porque o livro não trouxe nenhum inimigo para ela, apenas revelou os
que eram.
Regina
Echeverria: Algumas decepções, não é? Talvez assim.
Chico
Anysio: Mas se... As decepções existem para comprovar
a regra, não é? Então, como se ela tivesse aberto a tampa da cacimba e todo
mundo pode meter uma caneca. Então, pessoas de menor gabarito, pessoas passaram
a fazer piada com ela, pessoas que não faziam, porque ela era muito respeitada,
e o livro tirou esse respeito que havia, não é? Esse livro poderia ter sido
para ela, uma coisa assim tipo o Simonal que ficou... [referência ao cantor
Wilson Simonal, acusado de ter coloborado com a polícia da ditadura militar num
espisódio nunca comprovado e que marcou o artista até o final da vida]
Regina
Echeverria: [interrompendo] Marcado.
Chico
Anysio: Marcado, destruído até, uma coisa absurda,
quando o Simonal nem tem culpa daquilo, mas isso é outro assunto.
Paulo
Caruso: Vou aproveitar essa deixa que você deu aí,
que você casou com a Zélia por causa do
texto do Nani. Como é que é a tua relação com os criadores do texto do
programa?
Chico
Anysio: Ah, a melhor possível, eles fazem o que eles
querem.
Paulo
Caruso: Você tem uma equipe enorme, mas você...
Chico
Anysio: São vinte e três, Paulo.
Paulo Caruso: Mas você dá uma peneirada, como é que é?
Chico
Anysio: Não, depois de tudo pronto aí eu vejo, mexo
aqui, muito pouquinho, muito pouquinho, porque eles são da maior competência,
porque é exaustivo, é desgastante, é uma coisa cruel.
Paulo
Caruso: Quem tem? O Luis Fernando [Veríssimo], o
Nani?
Chico
Anysio: É o seguinte: São...
Paulo
Caruso: O Haroldo Barbosa?
Chico
Anysio: Não, o Haroldo morreu. Tem, não sei de cor todo
mundo, tem o Roberto Silveira, tem Ghiaroni, Mário Tupinambá, tem Nani, Jésus
Rocha, Elisa Palatnik, José Sampaio, Arnaud Rodrigues [todos redatores de
esquetes daEscolinha do professor Raimundo] . São
23.
Jorge
Escosteguy: A criação dos novos personagens como é,
Chico? Alguém propõe, a direção, você imagina ou?
Chico
Anysio: Propõe, às vezes, o próprio ator propõe,
através de um teipe, de um..., eu estou levando, esta semana eu estou levando
para o Rio quatro fitas de comediantes, um de São José dos Campos, dois aqui de
São Paulo e um de...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Aparece muito candidato?
Chico
Anysio: Muito, muito, muito.
Jorge
Escosteguy: Personagens? Não é?
Chico
Anysio: Muito, e tem muitos lá na espera para entrar.
Muitos.
Alex Solnik: Agora Chico, você acha que tem alguma política das televisões de
cortar humorístico, eu ia perguntar outra hora, porque tem muito menos hoje do
que antigamente, não é? É alguma decisão?
Regina
Echeverria: Mas, o Brasil está muito engraçado? Está?
Muito fácil de a gente rir, está todo mundo querendo rir, no teatro todas as
peças de humor fazem sucesso, quer dizer humor está na moda, não é?
Chico
Anysio: Mas sempre esteve, não é? Sempre esteve. Rir,
ninguém reclama de rir.
Regina
Echeverria: Não.
Chico
Anysio: Agora, de repente isso passou a ser uma
decisão das televisões, eu não posso combater, decidiu está decidido. Eu sou o
empregado, não é? Eu faço o que me mandam. Eu até tenho, nunca ouvi um não na
Globo, sabe? Eu acho até que se eu chegasse para o Boni agora
e pedisse para voltar o meu outro programa no ano que vem ele concordaria,
tenho quase certeza disso. É que não passa mesmo pela minha cabeça voltar. Mas
essa decisão veio principalmente por parte da Globo, não é? Porque a Globo é a
madrinha, a Globo ela encaminha, ela comanda, aquela coisa. Então a Globo tem
hoje cinco novelas por dia, seis contando com a novela da Cultura que vai de
manhã, e eu acho isso demais, acho muito, muito... Claro que eu entendo que a
programação tem que ser horizontal, nós somos Terceiro Mundo, tudo bem. Mas as
novelas, elas de uma hora para outra passaram a contar principalmente com
atores desconhecidos. Um dia desses, eu estava com a Zélia vendo
a novela, eu não vejo novela muito. E vinte e três vezes eu disse não sei. Ela
perguntou: quem é esse? Falei: não sei. Quem é essa? Não sei, 23 vezes, aí
passei a contar, e eu não conhecia 23 atores que estavam no elenco da novela.
Eu sei que todo mundo tem que começar, porque eu já fui jovem, também tive que
começar. Mas quando eu comecei jovem, eu comecei no meio de Brandão Filho,
Walter D’Ávila, José Trindade [nome artístico de Milton da Silva Bittencourt
(1915-1990) ator cômico do cinema nacional], cobras criadas, eu era o único
jovem. E os jovens que deram certo nas novelas, foram jovens que apareceram em
novelas onde estavam Lima Duarte, Fernanda Monte Negro, Yoná Magalhães, Dina
Sfat, Paulo José ["monstros sagrados" da TV brasileira], porque ali é
que segura. Então, você vê um seriado como esse, por exemplo, “Contos de Verão”
onde só tinha a juventude, foi um desastre.
Alex Solnik: Agora o que acontece com os galãs da Globo? Existe alguma
diferenciação em relação aos galãs antigos? Quer dizer...
Chico
Anysio: Existe. Os galãs da Globo são a nova geração
de galãs, eu só acredito mesmo no[ator] Marcos Palmeira, não é por ser meu
sobrinho, mas eu só boto a mão no fogo pelo Marcos Palmeira. O resto tudo eu
não boto a minha mãozinha não.
Alex Solnik: Nem Antônio Fagundes?
Chico
Anysio: Não, isso não é nova geração. Antônio
Fagundes é um monstro! Vamos, um pouco de respeito. Antônio Fagundes, Tony
Ramos, isso aí é outra linha. Eu digo o pessoalzinho que está chegando aí, se
você não me der uma luvinha de amianto eu não boto a minha mão no fogo, mas nem
por um milhão de dólares.
Alex Solnik: Agora, você acha que isso interfere na história?
Chico
Anysio: Interfere em tudo, não é? Por que chega uma
hora que se um cara diz para alguém: eu te amo, ele só estará sendo sincero se
esse alguém for outro homem, não é? [risos] Isso dito para uma mulher fica
ridículo, não é? Fica absolutamente sem sentido, porque, sabe?, há uma chama
interior que tem, que funciona, sabe?, essa coisa que funciona, numa cena de
amor. Uma cena de amor tem que ser vivida por um homem e uma mulher, não é que
eu... Pode ser vivida por dois homens, se o filme tratar disso ou por duas
mulheres se esse for o tema da novela, mas não por um falso homem e, às vezes,
até por uma falsa mulher, fica esquisito demais não é?
Regina
Echeverria: Chico, você é uma pessoa séria? A gente
sempre imagina os humoristas dando risada, contando piada. Quando eu conheci o
Veríssimo ele disse: “eu sou a antítese do humorista, não sei contar piada”.
Chico
Anysio: Não sabe nem falar, o Veríssimo falar já é
muito.
Regina
Echeverria: E você como é que é? Na sua...
Chico
Anysio: Eu sou sério sim.
Regina
Echeverria: Você é sério, não é?
Chico
Anysio: Sou.
Ivan Ângelo: Mas tem sempre alguém que fala, quem foi que falou que você era
engraçado, quem falou que você era humorista, como é que foi?
Chico
Anysio: Não, não falaram que eu era engraçado, porque
eu, não, não. Foi engraçado. Foi o seguinte, quando eu fiz o teste na rádio
Guanabara, eu já tinha feito todos os programas de calouros do Rio e tinha
ganhado todos eles, e ganhei uns três aqui [em São Paulo], A hora do
pato, o Trabuco, e tal.
Ivan Ângelo: Como humorista?
Chico
Anysio: Como imitador.
Ivan Ângelo: Ah, como imitador.
Chico
Anysio: Eu fazia imitação dos locutores do cinema e
tal, Luiz Jatobá, Fernando...
Ivan Ângelo: Ramos Calhelha.
Chico
Anysio: Ramos Calhelha e tal. Luiz Lopez Correia e
tal. E fazia imitação dos atores da época e tal. Cantores também ,Luiz Gonzaga.
E, então, quando eu fiz o teste de radioator e fui aprovado na rádio Guanabara,
eu era galã de novela, eu era galã da Fernanda Montenegro, fizemos novelas
juntos e tal. Aí uma pessoa disse lá que eu sabia fazer vozes, porque me
reconheceu de um Papel carbono, do
Renato Murce. Aí me transferiram para a linha de shows. Então, eu fui fazer o
humor por ser engraçado, é por fazer vozes, sabe?
Regina
Echeverria: Por que no Ceará dá tanto humoristas hein?
Chico
Anysio: Ceará dá muito humorista. E tem mais para
vir.
Regina
Echeverria: Por quê? Tem um monte aí. Tom Cavalcante tem
em série lá, não é?
Chico
Anysio: Não, e tem mais para vir, tem mais. Tem uma
moça ótima que está para chegar aí. Espera um pouco.
Regina
Echeverria: Por quê?
Chico
Anysio: Por que... Sei lá, acho que o cearense é mais
inteligente, não é? [risos]
Jorge
Escosteguy: Você é uma pessoa bem humorada, quer dizer,
você não usa esse bom humor, essa graça na vida cotidiana? Ou seja, de repente
você não liga para a Zélia com a voz do
Justo Veríssimo ou uma coisa qualquer?
Chico
Anysio: Não, não, não.
Jorge
Escosteguy: É sempre: alô Zélia aqui
é o Chico Anysio?
Chico
Anysio: Não preciso nem dizer. Às vezes, eu telefono
daqui para Belém do Pará e digo assim, por exemplo: “O Paulo está?” “Chico
Anysio?” As pessoas dizem de lá. Passei dezesseis anos no Fantástico,
não é? Com a minha voz saindo, então, a coisa mais comum que existe é, eu não
posso passar trote para ninguém, entendeu?
Alex Solnik: Mas você não faz dezenas de vozes, você pode fazer alguma outra.
Chico
Anysio: É mais não me preocupo com isso, isso é
profissional, não é? Só para ganhar dinheiro.
Edelcio
Mostaço: Chico, em geral os atores, comediantes
possuem vidas pessoais angustiantes, problemáticas e vários deles com situações
conflituosas na sua vida íntima e pessoal. Como é que é a sua nesse sentido? E
qual é a relação que você vê nisso com o humor, ou seja, nessa faceta que o
público não conhece?
Chico
Anysio: Bom, nesse sentido eu sou inteiramente
dominado porque meu psiquiatra me dá ororix e frontal, então isso é uma coisa
que eu nem tenho. Número um e número dois: eu acho que qualquer pessoa que
pensa, não é?, uma pessoa que tenha filhos, como eu tenho, são seis, não é?,
uma pessoa que tenha dependentes, como eu tenho, porque os atores, de um modo
ou de outro são dependentes meus, eles confiam em mim, eles acreditam que eu
vou dar emprego para eles até o fim das suas vidas, isso é uma coisa que se não
angustiar...
Jorge
Escosteguy: O Walter D’Ávila, por exemplo, deu uma
entrevista um dia desses dizendo que...
Chico
Anysio: Como?
Jorge
Escosteguy: O Walter D’Ávila deu uma entrevista esses
dias dizendo que a grande satisfação da vida dele era trabalhar com você
na Escolinha, e que seria o papel último da vida dele.
Chico
Anysio: Com certeza será. Lógico! Isso acontecerá com
Brandão Filho, acontecerá com a Zezé Macedo [(1916-1999) atriz cômica do cinema
e da TV, usando as suas próprias palavras sempre fazendo "empregadinhas
e mulheres feias", na Escolinha seu personagem era a Dona
Bela] , acontecerá com um monte deles. Então, isso aí tudo tem que me
trazer uma angústia muito grande. Eu sou um angustiado, se eu não fosse eu
seria um louco, eu seria um irresponsável, porque eu não tenho a menor certeza
do que será o ano de 94, muito menos o de 95, ainda menos o de 96, eu não sei
para onde as coisas irão.
Edelcio
Mostaço: Eu entendo Chico, mas eu quero saber o
seguinte: qual é a relação que existe para o humorista entre essa sua angústia
pessoal, que em geral as vive no seu lado sério, e se o humorista costuma ver
nisso, quer dizer, vê-la como situações trágicas, às vezes, dolorosas, às
vezes, por um outro ponto de vista. Como é que se dá essa relação com você?
Chico
Anysio: Não, comigo, da minha própria angústia eu não
tiro partido, não é? Eu tiro partido da sua angústia, porque da minha, na minha
opinião, não existe, ela está domada, domesticada, está, já é uma coisa, faz
parte da minha vida. Então, as demais angústias, sim eu uso, porque uma das
armas do humor, das situações que segundo Bernard Shaw são
45, não há mais que 45 situações de humor. Uma delas é a tragédia de ontem. A
gente sempre conta rindo o tombo que levou ontem, não é? Mas ontem a gente não
riu, a gente ficou vexado e passou situação, ficou desesperado ali. Então, a
angústia, esse modo de viver que o humorista tem mais do que os outros, porque
o humorista é um observador maior do que os outros... Então, se nós estamos aqui,
digamos oito pessoas; se entrar aqui um cabeleireiro, a primeira coisa que ele
faz é olhar para o cabelo de cada um, e se entrar um alfaiate ele vai olhar
para a roupa de cada um, se entrar um dentista, para os dentes de cada um, mas
se entrar um humorista, ele vai olhar para o cabelo, para o terno, para os
dentes, para os óculos, para tudo de cada um. Porque o humorista é um
observador. Qualquer pessoa que viva de humor, ele tem que olhar tudo na vida,
e tudo na vida tem que dar motivo para..., ele procura sempre a graça da coisa.
Então mesmo num velório, eu vou a um velório, eu fico olhando o velório com um
olho diferente, a não ser que seja velório de parente, não é? Que a pessoa está
envolvida, mas um velório aonde você vai para se despedir de um amigo e tal,
você vai lá e tal e dá uma olhada, porque velório sempre tem alguma coisa
interessante para a gente usar. Quanto mais dramática a situação for, mais
engraçada ela ficará.
Jorge
Escosteguy: Você já utilizou alguma situação de velório
que você observou?
Chico
Anysio: Muitas vezes.
Jorge
Escosteguy: Uma, por exemplo, que observou e...
Chico
Anysio: Por exemplo, eu fui num velório aqui... Eu
trabalhava na TV Paulista, no canal 5, e o pai de um rapaz que trabalhava
conosco na carpintaria morreu. Então nós fomos para o velório, e o velório era
no bairro do Limão, na casa, o corpo velado na mesa e tal. Então saímos, Walter
D’Ávila, Castro Barbosa, o Lauro Borges e eu. E nós íamos ouvindo um jogo
Palmeiras e Santos.
Jorge
Escosteguy: Você torcendo para o Palmeiras?
Chico
Anysio: Eu torcendo para o Palmeiras e o Santos fez
um à zero. O Palmeiras fez um à zero. E quando fez um a zero o carro chegou. Aí
descemos do carro, entramos no velório e pessoas que a gente nem conhecia, nós
conhecíamos apenas o filho, e quando eu me preparei para dar uma saída, eu
estava sozinho com um senhor do lado, a viúva tinha levantado, a própria viúva.
Aí eu achei que eu deixar o senhor sozinho era maldade, eu fiquei ali dando uma
força a ele, parado aqui. Aí a viúva voltou e disse no ouvido dele: “Pagão
empatou e Chinesinho perdeu um pênalti”. [risos] A viúva dar uma saidinha para
ir ouvir o jogo é... Velório é uma loucura.
Jorge
Escosteguy: Chico, deixa eu falar, há pouco o Edelcio
perguntou sobre a questão de angústia e tal, você tinha falado um pouco antes
em ganhar dinheiro, e antes de começar o programa, entre as várias coisas que
você estava fazendo, você disse que tinha vendido quarenta ou quarenta e cinco
quadros.
Chico
Anysio: Aqui em São Paulo.
Jorge
Escosteguy: Como é a coisa do pintor, ou seja, você é
pintor, mas o público, quer dizer, você não é pintor de profissão?
[risos]
Paulo
Caruso: Como é a coisa do pintor?
Chico
Anysio: É uma brocha, não é? É o seguinte, eu vou
explicar.
Jorge
Escosteguy: Não, eu digo pelo seguinte: você quando o
cara compra o quadro do Chico Anysio, você não tem, por exemplo, a angústia de
que ele está comprando o quadro por que é o quadro ou por que tem a assinatura,
tem o nome do Chico Anysio?
Paulo
Caruso: E essa, os teus mestres na pintura, como é
que você foi para isso e quem foi que te influenciou?
Chico
Anysio: Bom, eu tive um professor porto alegrense,
que depois mudou para lá e aí eu tive que parar, há uns 16 anos atrás. Depois
eu, por intermédio do Pacote, eu conheci o Roberto de Souza, que é meu
professor atual; que é mais que professor é meu amigo, ficamos amigos. Então o
caso da pintura é o seguinte: eu sou um pintor, isso é uma coisa
inquestionável. Eu pinto 20 quadros por mês, eu pinto 240 quadros por ano. Eu,
modéstia à parte, eu estou entre, acho que não tem 10 que vendam tanto quanto
eu. Eu vendi em 91, 107 quadros, vendi 108 quadros em 92, esse ano eu já vendi
105. Estamos em junho, eu pretendo vender mais uns 50 daqui até o fim do ano.
Jorge
Escosteguy: Então, mas de repente, você acha que, por
exemplo, o cara compra, de repente, porque tem a assinatura Chico Anysio. Você
não tem esse tipo de preocupação ou de angústia? Como falou o Edelcio, quer
dizer, estão comprando porque eu sou um grande pintor?
Chico
Anysio: Eu não posso ter esse tipo de preocupação
porque não tem como eu botar outra assinatura lá que não seja Chico Anysio. Eu
sou o Chico Anysio, não tenho culpa disso, não é?
Jorge
Escosteguy: Mas isso não mexe com você, quer dizer,
dane-se se é a assinatura ou o quadro?
Chico
Anysio: Não, porque isso acontece com meu livro, isso
acontece com tudo, não é? O cara vai ver o show do teatro porque é o Chico
Anysio que está lá.
Jorge
Escosteguy: Bom, é que essas coisas, essas outras
atividades tem uma reação mais instantânea, mais imediata, ou seja, a música,
você ouve, você tem mais ligação.
Chico
Anysio: Não, eu já tive conversas com pessoas do
Centro de Artes, de Belas Artes e tal, eu estou incluído entre os 10 melhores
marinhistas atuais do Brasil e isso me deixa muito feliz. Eu tenho certeza,
pelo progresso que eu percebo em mim, eu próprio percebo, porque coisas que eu
fazia com muita dificuldade, eu faço com muita facilidade hoje. Eu acho que eu
vou continuar marinhista, porque o que eu gosto de fazer é marinha, então eu,
daqui a três anos, vou estar entre os cinco e daqui a dez...
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Você não tem medo que alguém
diga a você “Mas ele pinta sempre as mesmas coisas!”.
[risos]
[risos]
Chico
Anysio: Não, porque não é a mesma coisa, não é, sabe?
É como se você pegar um quadro do... as bandeirinhas, doVolpi,
não é? São maravilhosas...
Jorge
Escosteguy: São sempre as bandeirinhas.
Chico
Anysio: E são, aparentemente, as mesmas coisas, mas
são inteiramente diferentes.
Alex Solnik: E tem alguma razão para você ter escolhido as marinhas, uma razão
especial?
Chico Anysio: Porque são as duas coisas que eu mais tenho medo, não é? Que são o mar
e a solidão. Eu não ponho figura nos meus quadros, só tem o mar e ninguém.
Então, os quadros são muito gostados, sabe? Claro que o Brasil é um país muito
atrasado, porque, por exemplo, se eu sou impressionista, então eu vou fazer uma
exposição impressionista na França, por exemplo, essa exposição será criticada
pelo Le Figaro [importante e influente jornal francês, fundado
em 1826] por uma pessoa especializada em impressionismo, porque se for um cara
que goste de abstrato julgar os meus quadros, ele vai achar aquilo tudo um
lixo. Ao mesmo tempo, se houver uma exposição de modernistas aqui, e for um
acadêmico julgar, ele vai achar um lixo. Então, a coisa tem que ser julgada
pela pessoa que entende daquele assunto, eu não posso fazer um quadro
impressionista e agradar quem gosta de abstrato, não tem essa possibilidade,
não existe.
Jorge
Escosteguy: Você diria que com o passar dos anos, a
tendência é você ser mais pintor e cada vez menos comediante...
Chico
Anysio: Acho que com o passar dos anos, a minha
tendência é ser, eu acho que a pintura é o emprego da minha velhice. Eu acho, eu
sempre disse isso, eu estou arrumando aqui um emprego para a minha velhice. Eu
acho que eu vou pintar até os 80 anos.
Tato
Coutinho: Você fala dos que você vende..., um dos
pintores que vende mais quadros, usando isso, talvez até como índice da qualidade
do teu trabalho. É verdade que a Globo compra quadros para distribuir como
brindes?
Chico
Anysio: Compra, compra.
Tato
Coutinho: É? E é uma parcela grande do que você vende?
Chico
Anysio: É a terça parte do que eu vendo, eu vendo
para a Globo, todo ano, e ela dá, ela deu para os donos de afiliadas, ela deu
para os superintendentes das afiliadas, ela deu para donos de agências, ela deu
para diretores de agências, ela vai dar esse ano, acho que para diretores de
criação das agências.
Tato
Coutinho: Quantos quadros você vende para a Globo?
Chico
Anysio: Vendo 50, vendo 40, depende do número de
pessoas que vão ser presenteadas. Eu estou tentando agora ver se faço os
quadros de um hotel, sabe? Porque aí são 300 quadros, é uma jogada.
Trezentos quadros, porque há quartos que tem três, não é? Eu vou conversar com
o dono do hotel na semana que vem, e ver se eu consigo convencê-lo a botar, em
vez daquelas gravuras, botar quadro... Como tem o Juarez...
Regina
Echeverria: [interrompendo] E como é que você arruma
tempo para fazer todas as coisas que você faz? Como é que você arruma tempo
para fazer todas essas coisas?
Jorge
Escosteguy: Em quanto tempo você pinta um quadro?
Chico
Anysio: Eu acordo cedo, acordo cedo. Acordo seis
horas, eu pinto de manhã.
Jorge Escosteguy: Você acorda e vai dar suas pinceladas?
Chico
Anysio: Eu pinto. Eu tenho um ateliê aqui em São
Paulo, tenho em Petrópolis e tenho no Rio, não é? Tudo, tudo de que eu preciso,
eu tenho nos três lugares, quer dizer, eu só não pinto quando eu estou no
hotel. Então, eu pinto de manhã, no Rio não é? De tarde eu vou gravar; de
noite, eu dou uma pintadinha ainda, também. Na terça-feira eu pinto de manhã,
de tarde vou gravar, na quarta-feira eu gravo de manhã, e pego os 12 quadros ou
10 ou 14, o que eu tiver pintado durante as duas últimas semanas, aí eu vou ao
ateliê do Roberto, botamos lá um a um. E ele fala: “Esse aqui está legal, não
tem que mexer em nada, aqui, bota um pouco mais de onda nessa pedra aqui e tal,
sabe? Esse aqui o céu está bonito, mas esse céu aqui exige um pouco mais de luz
aqui nessa pedra” e tal, ele me dá as dicas. Então o meu progresso eu sinto
mais também por aí, porque antigamente eu ficava lá de três até cinco e meia.
Em duas horas e meia nós consertávamos quatro quadros. Hoje, a gente em duas
horas e meia conserta catorze. É sinal de um progresso, não é verdade, Paulo?
Você que desenha, que não pinta porque não quer.
Paulo
Caruso: Eu acho engraçado por que essa... Inclusive,
esse aprendizado, nessa linha, eu aprendi a desenhar, por exemplo, tinha um avô
que me iniciou e que pintava, era um pintor amador. E um dia, eu comecei a
pintar uma tela e era um oceano revolto com uma parede, ali para mim estava
tudo carregado de simbolismo.
Chico
Anysio: Certo.
Paulo
Caruso: E quando eu volto, saio, vou para escola,
quando eu volto, o oceano está tranqüilo, absolutamente perene. E meu avô diz
assim: “Então, mar é assim, não é daquele jeito que você estava pintando.” A
minha linha de desenho é absolutamente expressionista e carregada daquilo que
eu quero dizer.
Chico
Anysio: Claro!
Paulo
Caruso: Então, esse aprendizado, não sei, inclusive,
sair da coisa da linguagem da comunicação com o público direto maciço, agora
uma coisa que é muito mais introspectivo e solitário, é um salto.
Chico
Anysio: É, mas eu já tinha tentado...
Paulo
Caruso: Eu imagino que seja o descanso do guerreiro,
na verdade, é uma coisa que você faz para terapia.
Chico
Anysio: Mas, isso aí eu já tinha feito, através do
livro, porque meus livros não são engraçados, meus livros são sérios. Eu acho
que...
Jorge
Escosteguy: Jesuíno, o profeta trata do quê?
Chico
Anysio: O profeta é o seguinte: é um personagem que
tem 26 anos, não é? Até teve um jornal aí que disse que eu estou entrando na
seara do Paulo Coelho. Puxa! Há vinte e seis anos
que eu faço o profeta, essa seara não é do Paulo Coelho,
poderia ser até do Rabindranath Tagore podia
ser até do Khalil Gibran Khalil, não... Gibran Khalil
Gibran, não é?
Alex Solnik: Não, ali é mais sexo, não é?
Chico
Anysio: Não, é assim: o profeta dizia uma frase no
final do programa, uma frase que era uma frase de alento, não é? Uma frase de
otimismo, um toque para o povo, para o povo se aperceber que nem tudo está tão
ruim, que tudo podia ser pior, não é? Então você passou o dia procurando
emprego, mas você esqueceu que você passou o dia andando, vendo, olhando,
ouvindo e essas vantagens você esqueceu. E as pessoas que não andam, não ouvem,
não vêem, estão num hospital e tal, estão piores do que você.
Jorge
Escosteguy: Seria um doutor Pangloss ou
uma Pollyanna?
Chico
Anysio: Não sei, eu acho que não porque eu não tive
essa intenção.
Paulo
Caruso: O plano verdade.
Chico
Anysio: Não, eu não sou deslumbrado, não. Eu só
peguei a frase do profeta e fiz uma história para antes. Mas tudo ambientado no
agreste, na caatinga no sertão bravo, sabe? O profeta nunca..., essas histórias
nunca ele chegou a um lugar onde tivesse uma casa de dois andares, é só
palhoça, casebre; a entrada de cada cidade. Eu tenho prontos, pronto para
bater, escolhido já, no caso desse livro funcionar, de fazer um segundo livro
do profeta na vila, dentro das vilazinhas do interior, como eu tenho um
terceiro de histórias do profeta nas cidades grandes, em São Paulo, em Belo
Horizonte, no Rio, Porto Alegre, Curitiba.
Jorge
Escosteguy: Chico, para encerrar, você é uma pessoa que
deu certo, se deu bem, fez com competência muitas coisas: humorismo,
compositor, livros, etc, pintor. Quando é que uma coisa não dá certo? Ou seja,
eu me lembro, sei lá, quando você foi comentar futebol, por hipótese, não deu
muito certo, e quando não dá certo?
Chico
Anysio: Não, deu certo sim. [risos]
Jorge
Escosteguy: Você acha que deu certo, as pessoas acham que
não deu.
Chico
Anysio: Eu vou explicar por que deu. Deu certo, não
deu certo na Globo, porque na Globo é impossível comentar futebol, na Globo é
impossível.
Jorge
Escosteguy: Mas na Globo sempre tem um comentarista de
futebol.
Chico
Anysio: Mas não é um comentarista como..., o
comentarista de futebol não está ali para contar o que foi visto, está para
prever o que se pode acontecer. A minha opinião é esta, então eu sempre
comentei para frente, não para trás.
Tato
Coutinho: Onde é que dá certo? Você está falando que na
Globo...
Chico
Anysio: Na Globo tem um fone de ouvido, você começa
falar, o cara: “Está bom,, Chico, chega, Ok! Pode cortar, passa para o Galvão
[Bueno]". Então, não existe, não há comentarista que resista a isso. Ou
você é pusilânime o suficiente para suportar essa idiotice ou então você se
rebela contra e sai. Aí, eu fui para a rádio Tupi, e quando eu cheguei na rádio
Tupi, a rádio Tupi tinha 1.3 de índice, quando eu saí, ela estava com 4.7.
Então, deu certo. Não deu certo na Globo. O que não deu certo foi os Estados
Anysios de Chico City.
Jorge
Escosteguy: Para deixar a sua opção, quando não deu certo
se é que não deu?
Chico
Anysio: Não, várias vezes não deu certo, eu não me
incomodo...
Jorge
Escosteguy: Não, digo, mas como é? Por isso que eu digo:
você sempre dá certo, você tem sucesso nas coisas que você faz?
Chico
Anysio: Eu escrevi um livro, chamado Sou
Francisco, onde eu conto todo os meus fracassos, eu não tenho vergonha
de ter fracassado, porque cada fracasso que eu obtive, eu ganhei ali um
aprendizado. A vitória não ensina nada, você só aprende com a derrota. Mas o
meu fracasso mais incrível foi o programa Estados Anysios de Chico City,
porque eu incorri no erro que eu alertei na TV Pirata, sabe? Eu fiz
um programa elitizado. Aí eu fiz o primeiro programa que era a independência
de Chico City, Chico City ficava um país independente do
Brasil e o programa foi um sucesso enorme, todo mundo entendeu e deu 47 no
Ibope e tal. Eu fiz o segundo programa que era a escolha dos candidatos, e esse
programa não agradou tanto, deu 39. Aí eu fiz o terceiro programa que era a
eleição. E aí ele deu 34. Aí eu fiz o quarto programa que era a posse. E ele
deu 28.
Jorge
Escosteguy: [interrompendo] Ele tomou posse, fez um plano
econômico, deu zero.
Chico
Anysio: Aí eu fiz um quinto programa que é isso aí. O
quinto programa era a visita do FMI [Órgão das Nações Unidas, o Fundo Monetário
Internacional foi criado, em 1946, para promover a cooperação monetária, a
expansão comercial e a estabilidade cambial entre os países, oferecendo ajuda
financeira (empréstimos) aos países membros], o povo pensa que FMI é aquele
caminhão [refere-se ao FNM – caminhão brasileiro fabricado pela Fábrica
Nacional de Motores], rapaz! [risos] Então o povo não sabe o que é FMI, não
sabe nada. Aí o programa deu 19. Eu falei para o Boni:
“Eu vou fazer o seguinte, eu estou errado, eu vou voltar ao que era: quadrinho,
quadrinho, quadrinho e prometo a você acabar o ano com quarenta. Eu vou
recuperar o público todo, porque isso foi um erro, está errado”. Ele falou:
“Está legal, faz o que você quiser.” Aí eu voltei para o quadrinho, quadrinho,
quadrinho, o último programa do ano deu 43, entendeu? Quer dizer, esse foi um
fracasso, mas eu tive outros, vários. É que nós não temos tempo para isso,
poderíamos fazer oRoda Viva tudo fracasso. Breve nesse canal!
Jorge
Escosteguy: Não, não, digo que você fique mais experiente
em relação a isso.
Chico
Anysio: Não.
Jorge
Escosteguy: Nós agradecemos, então, a presença esta noite
aqui no Roda Viva, do Chico Anysio, agradecemos também aos
companheiros jornalistas e aos telespectadores, lembrando que o Roda
Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Muito
obrigado. Uma boa noite e uma boa semana a todos. Até lá.
FONTE: Memória Roda Viva
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