Não
resisto, neste ponto de partida, à tentação de repetir o episódio tão
significante da visita do emissário de George III, da Inglaterra, ao Imperador Kien Hong e da resposta do Filho do Céu à proposta inglesa de estabelecer
relações diplomáticas e comerciais entre a China e a Inglaterra. Assim
respondeu o imperador:
“Quanto
a vossa solicitação de mandar um de seus nacionais para ser acreditado junto a
minha corte celeste e para controlar o comércio entre vosso país e a China, devo
dizer-vos que tal solicitação é contrária a todos os hábitos da minha dinastia
e não pode absolutamente ser acolhida...
Nossas
cerimônias e nosso código de leis diferem tão completamente dos vossos que,
quando mesmo o seu enviado pudesse adquirir os rudimentos de nossa civilização,
vós não podereis transplantar nossas
maneiras e nossos costumes ao vosso estrangeiro... Dominando o vasto mundo,
eu só tenho um objetivo em vista: manter um governo perfeito e cumprir os
deveres do Estado... Eu não atribuo
qualquer valor aos objetos estranhos ou engenhosos e não tenho qualquer
interesse pelas manufaturas de vosso país.”
Força
é convir que se o imperador chinês falasse no século X, em vez do século XVIII,
suas presunções seriam irretorquíveis, porque àquele tempo as civilizações
orientais, tanto a chinesa, como a muçulmana e a hindu, eram francamente
superiores à civilização do Ocidente. Ao fim do século XIII, Marco Pólo, que
vivera na corte do grande Khan Koublai, maravilhava-se diante do esplendor das cidades
e da utilização das vias navegáveis, o que lhe fazia dizer que circulavam o
Iang-tsé Kiang mais navios e maiores riquezas do que em todos os grandes rios e
mares da Cristandade.
Os
chineses, escrevia Diderot
já no século XVIII, são reconhecidamente superiores a todos os demais povos da
Ásia, comparáveis mesmo a alguma das melhores regiões da Europa. E Voltaire
observava que o Estado chinês subsistia com esplendor havia quatro mil anos.
Foi
a partir do século XVII, quando a Renascença desabrochou na Europa, que a
China, dominada por sua mentalidade tradicional incompatível com a ideia de
progresso, foi-se deixando distanciar. Sua física sempre ficou arraigada à
metafísica. Nunca ultrapassou o estágio pré-galileano da ciência.
Em vez de se esforçar para dominar a natureza, ela procurava adaptar-se a ela. Os
dois problemas essenciais para os pensadores chineses eram a procura por um bom
Governo e a arte de contentar-se com sua sorte, no meio da pobreza e da
adversidade. Suas religiões, confucionismo, o taoismo e o budismo, não têm uma
confissão comum. São antes cultos dos antepassados, ou de deuses agrários
locais para proteger as colheitas; o budismo cultua os mortos, a meditação e o
êxtase.
Nada
disso cria uma mentalidade voltada para o progresso.
Tampouco
o é a língua chinesa. Dizem os linguistas que a língua chinesa,
ideopictográfica, não se presta à abstração nem ao raciocínio dedutivo. H.
G. Wells atribui o atraso da civilização às dificuldades da língua. A
língua, diz Wells, é um instrumento
de transmissão e recepção de conhecimentos e raciocínios. Se são precisos 40
anos, como no caso dos mandarins,
para adquirir o pleno domínio da língua, que tempo fica para utilizá-la?
A instituição do mandarinato recrutou assim os
melhores espíritos durante 2 mil anos em benefício de uma administração cuja
principal preocupação era manter a ordem social em consonância com a ordem
econômica, isto é, o imobilismo.
Até
o século XX a manutenção da unidade da China sempre constituiu um difícil
problema. Sun Yat-sen, Chiang Kai-shek e Mao Tsé-tung são os
três grandes nomes da história contemporânea da China. O primeiro derrubou a
dinastia Mandchu e proclamou a República; o segundo, líder da China
Nacionalista e progressista; o terceiro, Mao, líder comunista, que, depois de
escorraçado por Chiang Kai-shek, quando realizou a Longa Retirada para as
montanhas do Yenan, ressurgiu, depois da invasão japonesa durante a II Guerra
Mundial, combatendo e destroçando em 1949 as forças de Chiang Kai-shek, que
fugiram para a Ilha
Formosa, entrando Mao em Pequim e dominando toda China continental.
Mao
parece ter inspirado ao povo chinês entusiasmo e confiança. Se ele conseguir,
como deseja, industrializar a China e elevar o padrão de vida de seus 700 milhões de
habitantes, a História registrará nos fins deste século e nos princípios do
século XXI a entrada de uma nova grande potência no concerto das nações.
