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08 agosto 2019

Eugênio Gudin - 3/3/1972



A CHINA


Não resisto, neste ponto de partida, à tentação de repetir o episódio tão significante da visita do emissário de George III, da Inglaterra, ao Imperador Kien Hong e da resposta do Filho do Céu à proposta inglesa de estabelecer relações diplomáticas e comerciais entre a China e a Inglaterra. Assim respondeu o imperador:

“Quanto a vossa solicitação de mandar um de seus nacionais para ser acreditado junto a minha corte celeste e para controlar o comércio entre vosso país e a China, devo dizer-vos que tal solicitação é contrária a todos os hábitos da minha dinastia e não pode absolutamente ser acolhida...
Nossas cerimônias e nosso código de leis diferem tão completamente dos vossos que, quando mesmo o seu enviado pudesse adquirir os rudimentos de nossa civilização, vós não podereis transplantar nossas maneiras e nossos costumes ao vosso estrangeiro... Dominando o vasto mundo, eu só tenho um objetivo em vista: manter um governo perfeito e cumprir os deveres do Estado... Eu não atribuo qualquer valor aos objetos estranhos ou engenhosos e não tenho qualquer interesse pelas manufaturas de vosso país.”


Força é convir que se o imperador chinês falasse no século X, em vez do século XVIII, suas presunções seriam irretorquíveis, porque àquele tempo as civilizações orientais, tanto a chinesa, como a muçulmana e a hindu, eram francamente superiores à civilização do Ocidente. Ao fim do século XIII, Marco Pólo, que vivera na corte do grande Khan Koublai, maravilhava-se diante do esplendor das cidades e da utilização das vias navegáveis, o que lhe fazia dizer que circulavam o Iang-tsé Kiang mais navios e maiores riquezas do que em todos os grandes rios e mares da Cristandade.
Os chineses, escrevia Diderot já no século XVIII, são reconhecidamente superiores a todos os demais povos da Ásia, comparáveis mesmo a alguma das melhores regiões da Europa. E Voltaire observava que o Estado chinês subsistia com esplendor havia quatro mil anos.
Foi a partir do século XVII, quando a Renascença desabrochou na Europa, que a China, dominada por sua mentalidade tradicional incompatível com a ideia de progresso, foi-se deixando distanciar. Sua física sempre ficou arraigada à metafísica. Nunca ultrapassou o estágio pré-galileano da ciência. Em vez de se esforçar para dominar a natureza, ela procurava adaptar-se a ela. Os dois problemas essenciais para os pensadores chineses eram a procura por um bom Governo e a arte de contentar-se com sua sorte, no meio da pobreza e da adversidade. Suas religiões, confucionismo, o taoismo e o budismo, não têm uma confissão comum. São antes cultos dos antepassados, ou de deuses agrários locais para proteger as colheitas; o budismo cultua os mortos, a meditação e o êxtase.
Nada disso cria uma mentalidade voltada para o progresso.
Tampouco o é a língua chinesa. Dizem os linguistas que a língua chinesa, ideopictográfica, não se presta à abstração nem ao raciocínio dedutivo. H. G. Wells atribui o atraso da civilização às dificuldades da língua. A língua, diz Wells, é um instrumento de transmissão e recepção de conhecimentos e raciocínios. Se são precisos 40 anos, como no caso dos mandarins, para adquirir o pleno domínio da língua, que tempo fica para utilizá-la?
 A instituição do mandarinato recrutou assim os melhores espíritos durante 2 mil anos em benefício de uma administração cuja principal preocupação era manter a ordem social em consonância com a ordem econômica, isto é, o imobilismo.
Até o século XX a manutenção da unidade da China sempre constituiu um difícil problema. Sun Yat-sen, Chiang Kai-shek e Mao Tsé-tung são os três grandes nomes da história contemporânea da China. O primeiro derrubou a dinastia Mandchu e proclamou a República; o segundo, líder da China Nacionalista e progressista; o terceiro, Mao, líder comunista, que, depois de escorraçado por Chiang Kai-shek, quando realizou a Longa Retirada para as montanhas do Yenan, ressurgiu, depois da invasão japonesa durante a II Guerra Mundial, combatendo e destroçando em 1949 as forças de Chiang Kai-shek, que fugiram para a Ilha Formosa, entrando Mao em Pequim e dominando toda China continental.
Mao parece ter inspirado ao povo chinês entusiasmo e confiança. Se ele conseguir, como deseja, industrializar a China e elevar o padrão de vida de seus 700 milhões de habitantes, a História registrará nos fins deste século e nos princípios do século XXI a entrada de uma nova grande potência no concerto das nações.


 FONTE: O Pensamento de Eugênio Gudin, FGV, Rio de Janeiro: 1978. Págs. 143-144.



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