[programa ao vivo]
Matinas Suzuki: Boa
noite. Ele está transformando a cidade em um canteiro de obras que faz a ponte
como seu futuro político. No túnel do Roda Viva desta noite
está o prefeito de São Paulo, Paulo Salim Maluf.
[Comentarista]: Engenheiro civil pela USP, casado, quatro
filhos, Paulo Salim Maluf estreou na vida pública em 1967,
quando ganhou, do governo militar, a presidência da Caixa Econômica Federal, em
São Paulo. Em 1969, foi nomeado prefeito de São Paulo e deu
ênfase às obras viárias, como as marginais e a via elevada, conhecida como
Minhocão. De 1971 a 1975 ocupou a Secretaria Estadual dos Transportes, e, em
1978, derrotou Laudo Natel [governador de São Paulo em dois mandatos:
o primeiro entre 1966 e 1967 e o segundo, indiretamente, entre 1971 e 1975.
Também foi diretor e presidente do São Paulo Futebol Clube e ficou
conhecido por viabilizar a construção do estádio do Morumbi] na eleição
indireta para governador. Assumiu com uma proposta polêmica: mudar a capital
para o interior. Maluf queria também procurar petróleo em
São Paulo e criou a Paulipetro. Até ser extinta, a empresa consumiu
mais de trezentos milhões de dólares sem resultados. Em
1982, Maluf fez seu primeiro teste nas urnas e se elegeu deputado
federal pelo PDS [Partido Democrático Social] com a maior votação do país.
Tentou a presidência e perdeu para Tancredo Neves [(1910-1985), primeiro
presidente civil, depois de 20 anos de ditadura militar no Brasil] no Colégio
Eleitoral, em janeiro de 1985. Seguiram-se mais quatro derrotas, para
governador, prefeito, presidente e, novamente, para governador, mas ele se
recuperou, melhorou sua imagem e se elegeu prefeito de São Paulo em
1992. A administração de Paulo Maluf está sendo marcada por
medidas polêmicas, mas de apoio popular como a proibição de fumar em
restaurantes, o uso obrigatório do cinto de segurança e a prestação de um
serviço gratuito de esterilização, laqueadura e vasectomia na rede
municipal de saúde. Maluf quer implantar um novo plano de atendimento
à saúde, que prevê a administração dos hospitais por cooperativas de médicos; e
executa o projeto Cingapura[1], que prevê a construção de prédios em áreas ocupadas antes
por favelas. Em meio às polêmicas, ele também enfrenta acusações, uma delas é
que a prefeitura dobrou os gastos com publicidade e pagou um milhão e duzentos
mil reais para transmitir pela TV a maratona de São Paulo, e mostrar nove
de suas principais obras, incluindo o túnel sobre o Ibirapuera. O prefeito de
São Paulo tem uma ambição declarada: quer suceder Fernando Henrique
Cardoso na Presidência da República.
Matinas Suzuki: Para
entrevistar o prefeito Paulo Salim Maluf, nós convidamos os
jornalistas Marcelo Beraba, que é secretário de redação da Folha de
S.Paulo; Pedro Cafardo, editor chefe do jornal O Estado de
S. Paulo; Luciano Suassuna, chefe de redação da revista Isto É,
em Brasília; Josemar Gimenez, que é diretor de redação do Diário
Popular; Nirlando Beirão, editor sênior da revista Playboy; e
Marcelo Parada, diretor de jornalismo da rádio Eldorado AM. [...] Boa noite
prefeito Paulo Maluf.
Paulo Salim Maluf: Boa noite.
Matinas Suzuki: O
senhor parece muito bem disposto, estava brincando que se boa disposição
ganhasse as eleições, o senhor seria um sério candidato nas próximas eleições
presidenciais.
Paulo Salim Maluf: Obrigado.
Matinas Suzuki: Prefeito, embora nosso programa seja transmitido
nacionalmente, e eu acho que para o senhor é muito bom isso, em São Paulo,
um dos grandes assuntos que atravessam algumas semanas as conversas da cidade é
sobre o polêmico decreto sobre a proibição de se fumar nos restaurantes.
Prefeito, o senhor não acha que o senhor exagerou um pouco na dose, e que essa
proibição é radical demais?
Paulo Salim Maluf: Não. Não acho que exagerei. Em primeiro
lugar, porque, quando você vai numa igreja, você não fuma, quando você vai num
culto evangélico, você não fuma, quando você está no ônibus, você não fuma,
quando você vai para o cinema, você fica duas horas sem fumar. Então, eu não
estou proibindo ninguém de fumar, quem quiser fumar pode fumar na sua casa,
pode fumar na rua, quem quiser fumar no automóvel pode, pode fumar nas redações
dos jornais, pode fumar no seu escritório ou no seu trabalho. O que nós pedimos
é baseado em três leis existentes: de que nos restaurantes não se fume, ou
seja, você vai para um almoço de uma hora, uma hora e meia você não pode fumar.
E os restaurantes podem ter o fumódromo. Ou seja, se você desejar fumar, o
restaurante tem um lugar para fumar. Nos bares onde não se servem comidas, no
seu pequeno lanche, nas boates ao vivo é permitido fumar. Agora, o que se pede
é que nos ambientes fechados de restaurantes não se fume. Por quê? Porque está
absolutamente comprovado, inclusive na Inglaterra é motivo de reclamação
trabalhista; garçons que não fumam que trabalhavam nos pubs e que tiveram
câncer no pulmão, fizeram reclamação trabalhista contra seus próprios...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Mas isso poderia ser resolvido com os garçons tabagistas servindo consumidores
tabagistas, e garçons não tabagistas servindo os outros...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Eu posso lhe garantir que
todo indivíduo que fuma vai morrer de câncer no pulmão, a não ser que morra
antes de uma outra coisa.
Matinas Suzuki: Não
necessariamente, prefeito.
Paulo Salim Maluf: Vai morrer de câncer no pulmão. Todos os que
fumam vão morrer de câncer no pulmão, a não ser que morra antes de alguma
coisa. Então, está comprovado hoje cientificamente. Eu até te faço um apelo:
vamos à redação de Folha de S.Paulo, se vocês permitirem, eu quero
medir o índice de nicotina das pessoas que não fumam antes de entrar na
redação, e eu quero que me permitam medir o índice de nicotina depois de oito
horas, saindo da redação sem fumar. Você vai perceber que o fumante passivo,
aquele que é obrigado a fumar por tabela, ele vai ter as mesmas possibilidades
de adquirir doenças, porque está num ambiente fechado.
Matinas Suzuki: [Interrompendo] Mas prefeito, eu sou uma pessoa que
nunca fumei... Podemos fazer essa medição em vários lugares ...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Então, na Folha de S.Paulo.
Matinas Suzuki: Agora,
a questão é a seguinte: em primeiro lugar, gostaria de lembrar ao senhor que
eu, aqui, sou mediador do Roda Viva. E eu sou - o que me honra
muito - editor executivo da Folha de S.Paulo, mas estou
trabalhando aqui como mediador do Roda Viva. Portanto, gostaria de
responder, neste programa, somente aos assuntos pertinentes ao Roda
Viva. Agora, queria dizer ao senhor o seguinte: eu não sou fumante, já que
o senhor está usando o meu caso, nunca fumei, no entanto, eu acho que é
absolutamente um direito de outras pessoas... Eu prefiro, por exemplo, num vôo,
sentar ao lado de um fumante, que eu acho que são pessoas mais agradáveis e
menos tensas, a sentar ao lado de um não fumante. Isso é um direito meu.
Por que num restaurante eu não posso fazer a mesma coisa? Restaurante não é
culto religioso.
Paulo Salim Maluf: Você tem direito a fumar, não é proibido
fumar. O que nós estamos pedindo, é que não se fume nos restaurantes.
Matinas Suzuki: Mas
o senhor...
Paulo Salim Maluf: Sim, é um decreto proibindo e há uma alta
multa muito séria para quem fumar. Pois bem, nos Estados Unidos da América do
Norte, todos os vôos são não fumantes. Se você pegar um coast to coast,
por exemplo, Miami a Los Angeles, Nova Iorque a Los Angeles, Nova Iorque a São
Francisco, são cinco horas e pouco onde todos os vôos são não fumantes. Perdão,
e a partir de primeiro de janeiro de 1996, daqui dois meses e pouco, todos os
vôos que saírem...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
O Canadá, por exemplo, está revertendo todas as leis adotadas até agora contra
a proibição do fumo, pois foram consideradas anticonstitucionais, acabou de
sair. O Canadá, que é um exemplo de país que está preocupado com meio ambiente.
Paulo Salim Maluf: Então, eu vou lhe dar uma informação que é
muito importante que a população saiba, todos os vôos que saem dos Estados
Unidos também terão de ser para não fumantes, ou seja, se você pegar um avião a
partir de janeiro de 1996 da Air France, Nova Iorque a Paris, por exemplo,
serão todos vôos não fumante. Agora, o que se discute, e aqui no
Brasil também existe essa mania, de ser constitucional ou não. Então,
quando se discutiu o cinto de segurança, ninguém dizia que o cinto de segurança
não salvava, diziam: "não é constitucional". Quando se discutiu o
problema do passe ou plano de saúde idem. Todo mundo dizia: "não é
constitucional". Mas se salva vidas, existe na Constituição um preceito
que é uma cláusula pétrea, ou seja, existe a autonomia municipal. E sobre o
cigarro, não é problema do governo federal e nem do governo do estado, é um
problema das prefeituras fazerem suas próprias legislações. Então, nós
achamos que temos que defender primeiro o não fumante. Segundo pesquisa do seu
jornal, do Data Folha, indica que 75% da população não deseja que se
fume nos restaurantes, e 19% deseja. Isso quem diz é o seu jornal, o Data
Folha. E mais, o seu jornal diz o seguinte: 67% dos fumantes desejam que
não se fume nos restaurantes, então, não é contra fumante, é contra o fumo no
restaurante.
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Então, por que a controvérsia é tão grande? Não estamos dizendo que é contra o
fumante. Nós estamos falando exatamente sobre o caso dos restaurantes, eu fui
muito claro. Eu insisto, prefeito, para não criar um clima ruim entre o senhor
e eu, que eu sou o mediador do Roda Viva, teria a maior honra
de estar aqui defendendo a Folha de S.Paulo se eu estivesse
aqui, neste momento, cumprindo essas funções . Eu não estou aqui como diretor
executivo, então, toda a vez que eu for me referir a Folha...
Paulo Salim Maluf: [Falando ao mesmo tempo que Matinas Suzuki] Você já
leu a Folha?
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Eu gostaria que o senhor dissesse sobre a Folha, que é uma pesquisa
verdadeira. Agora, é uma pesquisa que mede a intenção e não mede concretamente
o que está acontecendo, como toda a pesquisa de opinião, porque senão, não
teria polêmica. O cinto de segurança, por exemplo, não teve nenhuma polêmica.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Teve sim, senhor.
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Desse grau, não.
Paulo Salim Maluf: O próprio diretor do Detran, Cyro Vidal disse
que era inconstitucional.
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Nesse grau, não. E nós temos, em São Paulo, restaurantes recorrendo contra
esse decreto. Nós temos uma movimentação.
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
E ganhando.
Matinas Suzuki: Uma
movimentação, e, além de tudo, ganhando.
Marcelo Beraba: Se
fosse uma coisa tão nítida, sob o ponto de vista constitucional, alguns
restaurantes não estariam em guerra.
Paulo Salim Maluf: Sim, alguns juízes de primeira
instância...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Mas é isso que...
Paulo Salim Maluf: Então, eu recomendo a você Marcelo...
Marcelo Beraba: [Falando
ao mesmo tempo que Paulo Maluf]
Paulo Salim Maluf: Espera! Você
vai me deixar falar. Eu recomendo a você que leia a decisão do presidente do
Tribunal de Justiça, do desembargador José Alberto Weiss de Andrade, que é a
maior autoridade de todo o estado de São Paulo, para dirimir dúvidas. Quando você vai à primeira
instância, um dá [um parecer] a favor, outra dá [um parecer] contra, um dá a
favor, outra dá contra e quem é que decide? É a instância superior.
Marcelo Beraba: Sim, só que ele não decidiu.
Paulo Salim Maluf: Ele decidiu sim.
Marcelo Beraba: Não.
Tanto que alguns restaurantes continuam...
Paulo Salim Maluf: Perdão, ele decidiu cancelando todas as
liminares dadas anteriormente. Posteriormente, foram dadas algumas outras
liminares.
Marcelo Beraba: Então?
Paulo Salim Maluf: De maneira que o procedimento processual é o
seguinte...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
O que demonstra prefeito...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] [Me] deixa explicar. Você não
deixa eu falar!
Marcelo Beraba: Mas
você também não deixa eu falar prefeito!
Paulo Salim Maluf: Mas espera. Você deixa eu [me] explicar. O
procedimento constitucional é o seguinte... Já que agora o tribunal pleno,
através de seus 25 desembargadores, decidam se a decisão do presidente é válida
ou não, mas até o momento, o que vale é a decisão do presidente do Tribunal da
Justiça de São Paulo.
Marcelo Beraba: Desculpe
prefeito, mas não é isso que está acontecendo.
Pedro Cafardo: Desculpe
prefeito, mas eu queria fazer uma pergunta.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Bom, eu quero responder a
todos. É só me darem tempo, com muito prazer.
Pedro Cafardo: É
continuando nesse assunto.
Paulo Salim Maluf: Eu respondo ao Marcelo ou a Pedro?
Matinas Suzuki: Então,
o assunto é o mesmo? O senhor, por favor, é mais ou menos sobre o assunto?
[Dirigindo-se a Pedro Cafardo]
Pedro Cafardo: É
sobre o assunto.
Matinas
Suzuki: Vamos ouvir o Pedro, [depois] o senhor responde aos
dois.
Pedro Cafardo: O
senhor justificou a questão, o fumo faz mal a saúde. É óbvio [que] ninguém vai
dizer que não faz mal a saúde. O que se discute é uma questão de bom senso.
Tudo bem, o fumo faz mal a saúde, mas tem pessoas que gostariam de fumar no
restaurante.
Paulo Salim Maluf: Pode fumar.
Pedro Cafardo: Sim.
Paulo Salim Maluf: No fumódromo.
Pedro Cafardo: Por
que não poder servir comida no fumódromo? Isso não se pode, então, em uma parte
com mesas onde as pessoas que querem fumar comem ali e fumam também.
Paulo Salim Maluf: Porque a liberdade daquele que defende fumar,
no meu entender, infringe a liberdade daquele que não deseja que fume ao seu
lado.
Pedro Cafardo: Mas
se está num lugar fechado e separado, qual é o problema? Todos os que estão ali
são fumantes.
Paulo Salim Maluf: Eu não entendi.
Pedro Cafardo: A
lei não permite que se tenha um fumódromo onde se sirva comida.
Marcelo Beraba: Como
antiga ala de fumantes.
Pedro Cafardo: Não
há uma ala de fumantes fechada onde há mesas.
Paulo Salim Maluf: Não. Existem hoje restaurantes...
Pedro Cafardo: [Interrompendo]
Mas não haveria nenhum problema, é só uma questão...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Eu não quero fazer aqui
nenhum comercial de nenhum restaurante, mas há inúmeros restaurantes que
fecharam o seu bar e no restaurante não se fuma, mas quem quiser fumar, está no
bar comendo e bebendo.
Pedro Cafardo: Mas
no bar, onde serve comida, é proibido fumar, mesmo que seja fechado com vidro.
Paulo Salim Maluf: Não. Se for um pequeno aperitivo pode.
Pedro Cafardo: Aperitivo,
mas não comida, é o que estou dizendo...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Aperitivo pode. Em boate
pode. Agora, o que se pede simplesmente é que não se fume no restaurante. Por
quê? O direito de você se suicidar não lhe dá o direito de você assassinar seu
vizinho.
Pedro Cafardo: E
por que não posso ter um restaurante exclusivo para fumantes? Por quê?
Paulo Salim Maluf: Porque a legislação não permite. Não tem
legislação...
Pedro Cafardo: [Interrompendo]
Mas é uma legislação arbitrária.
Paulo Salim Maluf: A legislação desde que ela é lei, não é
arbitrária.
Pedro Cafardo: Se
fosse assim, fosse chamar "para fumante".
Paulo Salim Maluf: Foi assim em cinquenta cidades da Califórnia,
é assim em mais de uma centena de cidades americanas, e daqui há dez ou vinte
anos, você vai ver que as pessoas vão rir daqueles que se suicidavam fumando,
porque o fumo faz mal. Então, ninguém é contra o fumante. Você pode
fumar. Você fuma no seu escritório, você fuma na sua casa, fuma no seu
automóvel, fuma na rua. O que se pede é o seguinte: não fume em um lugar onde
sirva comida ao lado de alguém que não quer ser importunado.
Marcelo Beraba: Prefeito,
por favor, o senhor estava colocando a questão como definitiva, do ponto de
vista jurídico, e não é verdade. Enquanto tiver liminar, essa questão do ponto
de vista jurídico não está dirimida. O senhor está insistindo que é...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Não, você disse que era
ilegal e eu disse que tem uma decisão....
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Eu não falei que era ilegal.
Paulo Salim Maluf: ...do presidente do Tribunal da
Justiça.
Marcelo Beraba: O
senhor me desculpe, mas eu não falei ilegal.
Paulo Salim Maluf: Quer dizer, e a decisão...
Marcelo Beraba:[Interrompendo]
Essa decisão não é clara, não é constitucional como o senhor está argumentando,
enquanto não for dirimido definitivamente na Justiça e restaurantes estiverem
ganhando liminares, esse assunto está em aberto.
Paulo Salim Maluf: Sim, mas, Marcelo, um minutinho. Existe uma
decisão que eu vou mandar amanhã para você por fax.
Marcelo Beraba: Qual
decisão? O senhor mesmo admitiu que tem liminares.
Paulo Salim Maluf: Espera, tem decisão do presidente do Tribunal
de Justiça.
Marcelo Beraba: Tem
restaurantes que aceitam ou não aceitam, tem ou não tem?
Paulo Salim Maluf: Dá licença. Tem restaurantes que,
posteriormente, conseguiram a liminar e será dirimida pelo Tribunal Pleno...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Sim, mas não foi dirimida.
Nirlando Beirão: O
senhor acha que essa questão não é relevante? Nós estamos vivendo numa cidade
com problemas terríveis, enormes, problemas de trânsito, problemas de saúde,
educação. O que é isso? Nós estamos discutindo isso por quê? Porque tem
que ser importante se a pessoa quer fumar ou não quer fumar, quer dizer eu acho
que a questão...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Eu estou discutindo isso
porque vocês estão perguntando. E eu não me nego a responder nenhuma pergunta
aqui.
Nirlando Beirão: Às
vezes, eu sinto que o senhor tem o prazer de proibir as coisas, sabia?
Paulo Salim Maluf: Por exemplo?
Nirlando Beirão: Proibir.
Ditar normas de comportamento pessoal. Deixa a pessoa fumar.
Paulo Salim Maluf: Por exemplo, além do negócio de fumar, o que
mais que foi proibido?
Nirlando Beirão: O
negócio do cinto de segurança. Eu tenho que andar com aquilo me amarrando?
Paulo Salim Maluf: Eu acho que salva a tua vida.
Nirlando Beirão: Prefeito,
mas eu posso decidir sobre isso? Não posso prefeito?
Paulo Salim Maluf: Não, eu acho que você não deve decidir sobre
isso. Vou dizer porque: porque se você quiser decidir sobre isso, você está
pregando, não o Estado de direito, mas o Estado de anarquia.
Existe uma estatística na cidade de SãoPaulo.
Matinas
Suzuki: [Interrompendo] Prefeito, o
álcool faz mal. O senhor vai proibir o álcool na cidade de São Paulo?
Paulo Salim Maluf: O álcool, nós não vamos proibir.
Matinas Suzuki: A
motocicleta é perigosa. Motocicleta não anda mais em São Paulo?
Paulo Salim Maluf: Já se proibiu o álcool. Já se proibiu o
álcool nas beiras das estradas.
Nirlando Beirão: Os
carros matam....
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Como já se proibiu o álcool, várias culturas já proibiram tabagismo, como café
já foi proibido, essas coisas vão e voltam, prefeito, culturalmente, vão e
voltam.
Paulo Salim Maluf: Matinas, eu estava em uma estrada na
França...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
O senhor faz um teste com um carro a trezentos quilômetros por hora, o senhor
vai proibir isso?
[sobreposição
de vozes]
Paulo Salim Maluf: Espera, então, espera um pouquinho aí. Eu
fiz... Dá licença.
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
o senhor pega o seu carro por prazer, que é a mesma relação que tem com o
cigarro, e a pessoa vai lá e pode fumar. Então, o senhor deveria proibir
também....
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Não, senhor, perdão, você
está tergiversando. Vamos falar, em primeiro lugar, sobre o álcool. O senhor me
deixa responder sobre o álcool ou não?
Matinas
Suzuki: Mas claro, pois não.
Paulo Salim Maluf: Muito bem, eu estava numa estrada na França à
noite, tinha um comando, o comando me parou e eu tirei os documentos e ele me
disse: "não", e me deu um bafômetro. Os documentos não interessavam a
ele, ele queria saber se eu tinha bebido e se estava guiando na estrada. De
maneira que eu acho, se as autoridades brasileiras fossem, quem sabe, um pouco
mais severas para fiscalizar os motoristas nas estradas para saber se bebem ou
não, provavelmente alguns acidentes não teriam acontecido. Ninguém sabe se esse
acidente de ontem no Rio de Janeiro que matou quinze pessoas, se o motorista
não tinha bebido antes. Inclusive, há um decreto aqui no estado de
São Paulo que proíbe os bares à beira de estradas de vender álcool, e
eu acho que está perfeito. Agora sobre [os] trezentos quilômetros por hora,
primeiro lugar, você precisa ler o seu jornal, a Folha de S.Paulo,
que não foi trezentos, foi 230.
Matinas Suzuki:
Bom, grande diferença.
[Risos]
Paulo Salim Maluf: E, em segundo lugar, é bom que se diga onde
foi. Foi em um lugar onde estava sendo feito um racha público pela
Federação Paulista de Automobilismo, onde era cada motorista isolado, onde? Na
pista do aeroporto de São José dos Campos que é de quatro quilômetros, então,
era motorista a motorista, cada vez, com célula fotoelétrica vendo a sua
velocidade. Então, não foi nada que atentasse em absoluto contra a segurança de
ninguém numa estrada ou numa cidade.
Luciano Suassuna: Só
um minutinho. Prefeito, o senhor não fica discutindo essa questão do cigarro,
na verdade, para fazer um pouco de fumaça sobre... para encobrir um pouco
outros assuntos que deviam estar mais à tona. E segundo, eu pergunto para o
senhor o seguinte...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Mas quem está discutindo o
problema do fumo? Não são só vocês? Eu não estou discutindo nada, vocês estão
perguntando e, neste programa, eu não me nego a responder nada.
Luciano Suassuna: O
senhor não toma essa atitude um pouco para criar essa polêmica que está
aparecendo em torno de uma questão que parece um pouco irrelevante. O senhor
não teme que depois de uma decisão final da Justiça, se for contra o seu
decreto, toda essa discussão aqui, quer dizer, acaba fazendo um pouco papel
de...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Não. Se a Justiça amanhã vem
achar que o meu decreto é ilegal, eu, de maneira muito democrática, apresento,
apesar de já existir, três leis anteriores na Câmara Municipal, eu
apresentarei democraticamente à Câmara Municipal uma nova lei. Como, aliás, fiz
no PAS [Plano de Atendimento à Saúde], a Justiça achou que era ilegal meu
decreto. Eu ganhei cinco mandatos de segurança e perdi um. Ora, você sabe o que é julgar um mérito de um
mandato de segurança, no Brasil, ia demorar cinco ou seis anos. Eu
me dei por satisfeito com a liminar, depois entrei com projeto de lei na
Câmara, aprovei o projeto de lei e o PAS vai ser uma realidade. Então, respondo
a sua pergunta: o nosso decreto é legal, tanto que o presidente do Tribunal de
Justiça, o desembargador Weiss de Andrade, achou que era legal. Amanhã, se o
Tribunal Pleno achar que o voto dele não foi um voto que os outros
desembargadores estejam de acordo, então, o meu decreto não é legal, mas não
quer dizer que eu não possa amanhã aprovar uma lei proibindo exatamente o fumo
nos restaurantes. E digo que o farei.
Josemar Gimenez: Prefeito,
com relação a essa medida do cigarro, sob a questão legal. Os restaurantes que
ganharam essa liminar em primeira instância estão acusando a prefeitura de
perseguição, ou seja, os fiscais, juntos aos núcleos da prefeitura como da
Semab [Secretaria Municipal de Abastecimento], vão lá e multam... Já teve
restaurante multado por panela amassada, e era restaurante que ganhou liminar.
O senhor tem conhecimento disso?
Paulo Salim Maluf: Eu almocei na Veja com todos
os seus redatores e convidei, mais uma vez, a Veja e convido
todos vocês. Hoje, São Paulo pode se orgulhar de ser a capital
gastronômica deste país, porque nós fazemos, através da Secretaria do
Abastecimento [e do] doutor Valdemar Costa Filho, cem fiscalizações por dia,
são duas mil fiscalizações por mês em bares, confeitarias, restaurantes,
lugares públicos de comida, clubes; cem por dia e dois mil por mês. Já fizemos
dezessete mil fiscalizações este ano. Ora, duas, por acaso tinham uma liminar,
que é até um grande amigo meu, que até se queixou disse: "olha! O doutor
Valdemar Costa Filho, ele tem a absoluta liberdade para ir em qualquer cozinha
liberar ou interditar". Agora uma coisa é certa, você acha, Josemar, que o
restaurante que teve uma liminar sobre a questão do fumo, pode eventualmente
ter uma comida estragada ou podre? Acho que não pode. Então, foi uma
coincidência, nós não perseguimos ninguém. Olha, tivemos paradas muito
difíceis, indigestas nesse negócio de fiscalização. Por exemplo, você
interditaria o estádio do São Paulo Futebol Clube? Nós tivemos
coragem, e eles estão lá refazendo o estádio porque eu não queria ter nas
minhas costas e na minha consciência, cair uma arquibancada e matar cinco mil
pessoas.
Josemar Gimenez: Agora,
essas medidas como, por exemplo, fechar o Morumbi, fechar o Ibirapuera não
fazem parte disso que o Nirlando e o Suassuna estavam dizendo, do senhor
conquistar um espaço na mídia?
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Não. Vocês colocam o
nome Paulo Maluf, mas é que nós temos um engenheiro na prefeitura que
eu gostaria até de ter mil, gostaria de ter cinqüenta, gostaria de ter vinte
iguais: é o doutor Venturelli, um homem que tem liberdade de entrar no gabinete
do prefeito, [ele] interditou o salão do gabinete do prefeito, porque tinha lá
um lustre cheio de cupim, ia cair o lustre de uma tonelada no salão azul e ia
matar dez ou vinte pessoas. Ele interditou o meu gabinete. Ele interditou o
Estádio Municipal do Pacaembu, porque ia cair aquele chamado tobogã e ia matar
duas, três, quatro, cinco mil pessoas. Então, quando ele interdita, ele é um
engenheiro, ele põe a sua assinatura que está interditado. Isso é uma coisa que
é bom que você saiba, não tem pressão política do prefeito contra ele não,
porque é ele que coloca a "espada na sua cabeça" assinando a
interdição, então ele é que fica responsável. De maneira que o doutor
Venturelli, vai [e] interdita um prédio, seja um prédio público ou prédio privado,
no início todo mundo briga, depois o pessoal aplaude. Exemplo: primeiro que ele
interditou, logo no início de sua administração, o [edifício] Baronesa de
Arary, três mil pessoas morando lá, aquilo iria pegar fogo uma noite, ia morrer
duas mil pessoas. Ele interditou e até a artista Elke Maravilha ficou contra e
tal. Pois bem, terminamos o prédio, entregamos o prédio com toda parte de
fiação nova, toda a parte elétrica nova, toda a parte que estava insegura ficou
segura, e eu estive lá e aquelas senhoras de mais idade me beijando, me
abraçando, dizendo o seguinte: "doutor Paulo, nós morávamos na
Avenida Paulista, numa favela de concreto armado. O nosso apartamento
ninguém pagava vinte mil reais, agora que ele está seguro, já rejeitamos cento
e cinqüenta mil." Então, esse problema de segurança nos restaurantes, nos
prédios públicos ou nos prédios privados é uma coisa que a prefeitura de
São Paulo vai continuar perseguindo. E, olha, graças a Deus nós temos
na Secretaria de Abastecimento, repito, um homem que foi três vezes prefeito de
Mogi das Cruzes, Valdemar Costa Filho e vai ser nomeado pela quarta vez
prefeito, porque é um homem de bem, honrado, decente, e é um lugar difícil ser
secretário do Abastecimento, porque lida com toda a compra da merenda escolar
do município, é um homem impecável. E temos, no setor de uso de solo, o doutor
Venturelli, que é outro homem absolutamente impecável nas suas ações.
Matinas Suzuki: Prefeito,
nós temos aqui muitas perguntas sobre esse assunto, e para encerrar esse bloco,
eu gostaria de dizer para o senhor que, em primeiro lugar, o Nelson Santana, de
Ribeirão Pires, quer parabenizá-lo pela medida tomada a respeito do fumo. E o
Renato Formigone, de Sumaré, aqui, de São Paulo dizendo: "eu sou
fumante e concordo em gênero, número e grau o decreto que proibe o fumo em
restaurantes". O Mário Cavalari, daqui de São Paulo, diz:
"prefeito, a sua energia na fiscalização dos restaurantes não condiz com
sua benevolência com a sujeira das barracas dos camelos". O senhor tem
alguma coisa a responder sobre isso?
Paulo Salim Maluf: Olha, se você me fizer à seguinte pergunta:
Você está satisfeito com a limpeza do centro da cidade? Eu vou lhe dizer que
não estou satisfeito. Então, quais são as medidas que eu estou tomando? Quais
são as medidas que eu vou tomar? Em primeiro lugar, para você exigir a limpeza,
você é obrigado a ter a lixeira ou a cesta de lixo. Pois bem, compramos,
mediante concorrência pública, dez mil lixeiras. É a maior compra feita na
história da cidade e vamos instalar as dez mil lixeiras na cidade de
São Paulo, nos pontos de mais movimento. Eu mesmo estive recentemente na
[rua] Barão de Itapetininga e fiquei um pouco triste, a rua estava suja, mas
tinha lixeira, e a cinqüenta centímetros da lixeira tinha papel jogado na rua.
Quer dizer, é que está havendo um problema cultural, nós temos que ensinar a
população...
Pedro Cafardo: Você
pensa em fazer um decreto, senhor prefeito, para multar as pessoas que jogam
lixo na rua?
Paulo Salim Maluf: Eu vou chegar lá. Em primeiro lugar, nós
temos que ter as lixeiras, em segundo lugar, nós temos que ter uma campanha
educativa. Até recentemente no programa do Jô Soares [ver entrevista com Jô
Soares no Roda Viva], ele me disse que até participaria de uma
maneira gratuita numa campanha educativa. E eu quero contar também com a
televisão Cultura, que participe gratuitamente de uma campanha educativa. Em
terceiro lugar, já existem leis muito severas de punição. Acontece que essas
leis nem sempre podem ser aplicadas porque o sujeito jogou um jornal na rua,
você chega lá para ele e diz o seguinte: "você deve estar multado em
tanto". Como é que você vai conseguir a identidade dele se ele não que se
identificar? Então, essas coisas, eu acredito, que depois de instalado essas
lixeiras, o segundo passo, o segundoround será uma campanha
educativa onde a pessoa se sinta envergonhada de jogar fora...
Marcelo Beraba: Quando
o senhor vai instalar essas lixeiras?
Paulo Salim Maluf: Elas já estão compradas há cerca de três
meses, já têm duas mil instaladas e [as] oito mil que sobram devem estar
instaladas até o final do ano.
Nirlando Beirão: Prefeito, no caso do cigarro não poderia ter feito
a mesma coisa? Uma campanha educativa antes, quer dizer, vamos fazer a
coisa gradativa, vamos ensinar as pessoas a não...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Prefeito, só para continuar o senhor poderia responder [é] que tem várias
perguntas sobre esse assunto e a gente encerra ele, tá? A dona Marisa Valentin,
de 58 anos...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Olha, eu não tenho prazo
aqui, tenho tempo a vontade.
Matinas Suzuki: É
que temos muitas outras coisas para perguntar para o senhor também. A Dona
Marisa Valentin, de 58 anos, moradora de Interlagos, diz o seguinte: "como
fumante, gostaria de dizer ao senhor prefeito, se a fumaça jogada por caminhões
e ônibus na cidade, que afeta fumantes e não fumantes, faz menos mal que a
fumaça de cigarro dos fumantes em restaurantes, local onde só vai quem
quer?"
Paulo Salim Maluf: Olha, nós temos esse dado medido
cientificamente por um laboratório inglês. A fumaça do cigarro faz quatro vezes
mais mal do que a fumaça dos caminhões.
Matinas Suzuki: Não,
mas isso é uma amostra um pouco viciada, porque os carros ingleses são melhor
controlados do que os carros brasileiros.
Paulo Salim Maluf: Não, eu estou falando sobre caminhões.
Matinas Suzuki: Carros
e caminhões brasileiros são muito menos controlados que os ingleses.
Paulo Salim Maluf: Tem um problema de controlar [carros e
caminhões] aqui também.
Matinas Suzuki: É,
exato.
Paulo Salim Maluf: Começar a controlar aqui também.
Matinas
Suzuki: O José Roberto Dias, de Santa Cecília,
pergunta se o senhor já tentou proibir a sua esposa, dona Sílvia, de
fumar?
[Risos]
Paulo Salim Maluf: Eu posso garantir para você que em
restaurante ela não fuma.
Matinas Suzuki: Certo.
E a Daniela Franco, do Morumbi, aqui de São Paulo, pergunta para o senhor
o seguinte: o que o senhor achou da declaração do secretário do senhor que diz
que toda mulher que fuma fica com bafo de tigre louco?
Paulo Salim Maluf: Olha, eu respeito o direito de fazer qualquer
declaração, mas é uma declaração que eu não faria, que não estou de
acordo.
Matinas Suzuki: Prefeito,
outra questão que tem sido muito discutida aqui, na cidade de São Paulo, é
a questão dos gastos que a prefeitura estaria fazendo. Comenta-se muito que - e
há números sobre isso, embora sejam controversos com os números apresentados
pela prefeitura - a prefeitura de São Paulo está crescendo muito o
endividamento. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Paulo Salim Maluf: Está aqui conosco, assistindo, o doutor Celso Pitta[2],
que tem sido o meu exemplar secretário de Finanças.
Eu quero dizer o seguinte para você: existem duas maneiras de você aumentar a
taxa de investimentos e criar empregos; a primeira é diminuindo despesas,
nós fizemos de maneira exemplar, fazendo a maior privatização do Brasil, que
foi a privatização da CMTC [Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos],
a Usiminas tinha quatorze mil funcionários, por exemplo, e a CMTC tinha vinte e
oito mil. Então, nós não estamos endividando não, nós estamos sim é diminuindo
as despesas. A segunda despesa que nós diminuímos foi a chamada
“municipalização” do transporte coletivo, onde não era nada municipalizado, era
uma mera subvenção do dinheiro da prefeitura por empresário privado. Eu, se
fosse empresário privado de ônibus, nunca votaria no Maluf, votaria no PT
que encheu eles de quinhentos milhões de dólares por ano de subvenção. Pois
bem, essas duas subvenções davam um bilhão de dólares por ano, o que é uma
brutalidade para uma prefeitura, é uma brutalidade para o estado, quanto mais
para uma prefeitura. [Em] segundo lugar, além de diminuir despesas, nós
aumentamos receitas sem aumentar imposto, impedindo a sonegação de IPTU [Imposto
Predial Territorial Urbano], fazendo com que as declarações de IPTU fossem
certas, que aquelas que fossem domiciliares não fossme comerciais e vice-versa,
aumentando o ISS [Imposto sobre Serviços] e aumentando brutalmente a
arrecadação do ICMS dentro da cidade de São Paulo. Então, sobre o
endividamento da prefeitura, hoje, o endividamento é exatamente igual ao número
que era quando herdamos da [última] prefeita...
Marcelo Beraba: Quanto
o senhor herdou? Qual era a dívida da prefeitura, quando a [prefeita Luiza]
Erundina [prefeita de São Paulo entre 1989 e 1993] acabou o governo
dela e o senhor assumiu, qual era a dívida?
Paulo Salim Maluf: [Era de] 1.3 bilhões de dólares e, hoje, você
pura e simplesmente colocando custo financeiro, é dois.
Marcelo Beraba: Quanto
é hoje?
Paulo Salim Maluf: É dois [bilhões]
Marcelo Beraba: Dois
[bilhões]?
Paulo Salim Maluf: É dois. Porque nós temos uma aprovação
oficial do Banco Central de quando o presidente do Banco Central, que era Pedro
Malan [economista e engenheiro, além de presidente do Banco Central
(1993-1994), foi ministro da Fazenda de janeiro de 1995 a dezembro de 1992], no
fim do governo Itamar [Franco] e que foi aprovado pelo Senado da República, da
emissão de mais ou menos seiscentos e poucos milhões de dólares ou de reais para pagar precatórios, e que nós não utilizamos. Isso,
você coloca a correção monetária como se não tivesse sido utilizada, hoje, deve
estar qualquer coisa em torno de um bilhão. Então, esses títulos estão
emitidos, mas estão em carteira e não estão com o tomador final, ou seja, nós
não emitimos para o tomador final nem um dólar, nem um real a mais do que
herdamos da administração passada, ou seja, a nossa dívida é igualzinha a que
era, mais o custo financeiro dela.
Marcelo Parada: Como
o seu sucessor vai encontrar, então, a prefeitura no futuro?
Paulo Salim Maluf: Vai entrar com um bilhão e seiscentos milhões
de dólares em caixa, que é o que nós temos hoje. Mas evidente que os títulos
que eu não for utilizar, eu não vou deixar ninguém se endividar de maneira
criminosa, quer dizer, como o Banco Central e o Senado nos deram um voto de
confiança, eu acho que a legislação vai me permitir, no fim da minha
administração, devolver esses títulos ao Banco Central porque não foram utilizados.
Luciano
Suassuna: Espera aí. O senhor vai deixar
esse um bilhão e seiscentos milhões para o sucessor do senhor?
Paulo Salim Maluf: Não. Eu vou... Uma parte disso, eu disse, são
os títulos que nós podemos hoje emitir, podemos jogar no mercado, é dinheiro
amanhã, porque os títulos da prefeitura são hoje os títulos mais cobiçados,
porque eu digo com a boca cheia, e disse na frente de ministros da República
outro dia, que o único grande poder da República, único, que paga suas contas
em dia é a prefeitura de São Paulo. As obras que nós estamos fazendo estão
sendo pagas, portanto, elas estão custando, por preço unitário, metade dos
preços das outras obras estaduais e federais. Então, esse dinheiro, não é
porque ele existe que nós vamos gastar, em absoluto. Nós estamos com programas
muitos sérios e até com alguma dificuldade que o governo federal não nos dá
ajuda no projeto Cingapura, estamos fazendo por
conta própria. O nosso PAS, Plano de Atendimento da Saúde que o ministro [Adib]
Jatene [foi secretário de Saúde do estado de São Paulo no
governo Maluf e duas vezes ministro da Saúde, no governo Collor, e no
governo Fernando Henrique, quando aprovou o imposto sobre a movimentação do
cheque, conhecido depois como CPMF. Ver entrevista com Jatene no Roda
Viva] quer um novo imposto, e nós estamos fazendo sem aumentar imposto
nenhum. Quer dizer, todos os nossos projetos sociais, por exemplo, o [programa]
Leve Leite para as crianças que, tendo boa freqüência na escola, vão poder
receber dois quilos de leite em pó, que são dezesseis litros por mês de leite.
Todos esses projetos são financiados pelo orçamento municipal. Então, eu não
pretendo aumentar impostos, mas esse dinheiro que sobrar, nós não pretendemos
emitir esses títulos, eu pretendo devolvê-los ao Banco Central no momento
certo.
Matinas
Suzuki: Agora, prefeito, as questões das
indenizações. Há muitas indenizações a serem pagas, essas estão computadas na
dívida da prefeitura ou não?
Paulo Salim Maluf: Estão.
Matinas Suzuki: E
o senhor as estima em quanto?
Paulo Salim Maluf: Deve ter, de indenizações, hoje, que estão em
processamento, entre pequenos, médios e grandes, deve ter qualquer coisa entre
duzentos, 220 milhões não pagos ainda.
Matinas Suzuki: Não
pagos. O senhor está colocando como valores...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Tem uma ordem cronológica,
quer dizer, se você, hoje... Se a prefeitura for condenada, por exemplo, a
pagar duzentos mil reais em uma casa, então, você vai por ordem
cronológica. Não posso pagar na frente dos outros. Então, tem uma ordem
cronológica de acordo com o orçamento que vai sendo pago, e tem uma coisa que é
muito importante, Matinas, esta administração não fez nenhum acordo para pagar
ninguém fora da ordem cronológica.
Pedro Cafardo: Senhor
prefeito, eu não quero ser dedo duro, mas o secretário [Celso] Pitta, que está
atrás das câmaras, quando fizeram essa pergunta ele fez assim com os dedos:
trezentos! O senhor falou em duzentos.
Paulo Salim Maluf: Trezentos? Pode ser duzentos, 250, pode ser que
cresceu para trezentos.
[sobreposição de vozes]
Paulo Salim Maluf: Pode ser que cresceu para trezentos.
Pedro Cafardo: [Interrompendo]
A questão das indenizações.
Paulo Salim Maluf: Sim. Mas quero dizer isto aqui que, em face à
saúde financeira da prefeitura, poder monetarizar amanhã um bilhão e seiscentos
milhões de dólares e pagando nossas contas todas em dia, se o meu número de
duzentos e vinte, que o Pitta que conhece mais do que eu diz que é trezentos,
isso não representa, graças a Deus, nenhum problema de liquidez para nós.
Pedro Cafardo: Prefeito,
há uma estimativa para o final de sua administração? Em quanto o senhor acha
que ficará a prefeitura? Quanto a prefeitura estará devendo no final do seu
mandato?
Paulo Salim Maluf: Nada mais do que está devendo hoje.
Pedro Cafardo: Um
bilhão e seiscentos milhões.
Paulo Salim Maluf: Não. Está devendo hoje cerca de dois e pouco
[bilhões], mas você sabe que todo mês tem...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Prefeito, a dívida não era de três, quatro bilhões?
Paulo Salim Maluf: Sim. Mas tem um bilhão e pouco de títulos que não
estão no tomador final. Não é dívida, é emissão de títulos, é bem diferente. É
emissão de títulos, estou lhe dizendo, não é dívida. Hoje e amanhã falo isso
com você, são títulos que estão em carteira e que não foram
monetarizados.
Marcelo Beraba: Prefeito,
o senhor demonstrou...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Mas por que o Tesouro contabiliza como uma dívida?
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Não. É tudo em carteira, como
se você fosse uma empresa. Empresa tem duplicatas em carteira, vocês têm um
haver que não está devendo nem um custo financeiro sobre isso. Quando ela
chegar no dia do vencimento, a pessoa vai pagar.
Nirlando Beirão: Eu
estou errado ou eu entendi que, de qualquer forma, o senhor vai deixar uma
situação pior do que encontrou?
Paulo Salim Maluf: Não. Igualzinha a que eu encontrei.
Aliás, devo deixar melhor, porque sabe que eu não vim aqui, que não é meu
feitio... você, Nirlando, já me conhece. Você já me viu alguma vez - eu que já
tive seis cargos públicos - atacar assim a administração anterior? Eu pego e
vou embora. Vou continuando a trabalhar, vou terminando as obras. Mas a
administração anterior disse que deixou tudo em ordem para pagar, pois bem, o
que eles fizeram? Todos os vencimentos de outubro, novembro, dezembro, eles
pagaram correção monetária e passaram para janeiro [risos]. Aí quando eu
assumi, tinha quatro meses para trás. Mas isso aqui não estou me queixando, eu
quero dizer o seguinte: eu vou deixar a prefeitura na melhor situação do que
qualquer poder público neste país...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Só um minuto. Falando para a câmara da verdade. O senhor não vai usar em nenhum
momento esses seiscentos milhões ou um milhão ou um bilhão de dólares de
títulos...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Estou autorizado a emitir e
não pretendo usar.
Matinas Suzuki: O
senhor disse que vai devolver.
Paulo Salim Maluf: Espera aí, mas espera um pouquinho, eu estou
autorizado a emitir e não pretendo usar. Agora admito o seguinte: que ninguém
pague ICMS amanhã, que haja uma inadimplência total de IPTU. Você, quando tem
crédito...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Que haja mais obras do que tem capacidade para pagar.
Paulo Salim Maluf: Não, isso não. As obras que estão sendo
contratadas são obras que estão dentro do orçamento, e elas só são contratadas
quando tem verba e dinheiro, senão, não são contratadas. Repito - sabe que em
Brasília tem muita gente me ouvindo e em outros estados também - único grande poder
da República que está contratando e pagando em dia é a prefeitura de
São Paulo. A nossa administração financeira é absolutamente
exemplar.
Luciano Suassuna: Prefeito,
se a administração do senhor está tão boa, por que o senhor não tem um
candidato favorito a sua sucessão?
Paulo Salim Maluf: Bom, em primeiro lugar...
Luciano Suassuna: [Interrompendo]
No partido do senhor. Todos são adversários do senhor?
Paulo Salim Maluf: Em primeiro lugar, Luciano, porque uma coisa
é certa, a eleição, o primeiro turno é três de outubro, segundo turno é quinze
de novembro do ano que vem. Eu acho que, no momento que eu lançar um candidato
hoje, a administração deixa de ser administrativa e começa a ser política. Eu
tenho nomes na cabeça, nomes do meu partido e outros nomes, tenho excelentes
nomes e São Paulo não vai se decepcionar com os nomes que eu vou
lançar. Mas eu acho que o momento certo é março.
Luciano Suassuna: Mas
os nomes que o senhor vai lançar, significa mais de um? O senhor vai apostar em
mais de um candidato?
Paulo Salim Maluf: Eu tenho quatro ou cinco. Quem vai determinar
sou eu, mas não é o meu sentido pessoal de ter o candidato. Eu acho que hoje
você tem que ter duas pesquisas, uma é pesquisa qualitativa que indica qual é o
perfil de candidato que eu vou votar...
Pedro Cafardo: [Interrompendo]
O Francisco Rossi [eleito duas vezes prefeito da cidade de Osasco (1973-1977 e
1989-1993), foi candidato derrotado três vezes em eleições para prefeito
de São Paulo] pode ser seu candidato?
Paulo Salim Maluf: Ele está no PDT. Quer dizer ele é candidato de
Brizola.
Pedro Cafardo: Mas
o senhor ainda conversa com ele...
Paulo Salim Maluf: Não, ele hoje apareceu no programa eleitoral
do Brizola.
Matinas Suzuki: Já
que o Luciano tocou nessa pergunta, o outro Luciano, que é colunista
do Jornal da Tarde, enviou um fax aqui dizendo o seguinte:
"o engenheiro Reinaldo de Barros reassumiu, na semana passada, a
Secretaria de Obras, depois de dez dias de férias em Miami, onde disse de boca
cheia a amigos que é candidato à prefeitura de São Paulo com seu
apoio". Isso quer dizer que o senhor já tem candidato à sucessão?
Paulo Salim Maluf: Veja, ele, depois do túnel Ayrton Senna... Eu
dei para ele, naquele sábado - porque nós tínhamos o feriado do meio da semana,
no dia 12, que era na quarta feira - para ele passar quatro dias fora, segunda,
terça, quinta e sexta. Bom, e quero dizer o seguinte para você e vou ser muito
claro: Reynaldo de Barros [secretário de Serviço e Obras e Vias Públicas da
gestão Paulo Maluf (1993-1996), foi acusado de corrupção pela
construção do Complexo Viário Ayrton Senna], que já foi prefeito [entre 1979 e
1982], um grande prefeito, que tem uma vida pública inatacável, um homem de
bem, honrado e pode ser que seja meu candidato. Mas hoje, eu acho que a minha
postura é de continuar trabalhando administrativamente. Ele pode ser meu
candidato, é um grande candidato, o Pitta pode ser meu candidato, tem outros
nomes que não estão no partido, mas estão sondando entrar no partido. Eu só
digo o seguinte: hoje é cedo para você batizar um candidato e começar a
campanha. Queremos continuar administrando esta cidade, porque eu fui eleito
por quatro anos e não por três.
Josemar Gimenez: Agora,
prefeito, além do doutor Pitta e do Reynaldo de Barros, o senhor disse quatro,
quais são os outros dois?
Paulo Salim Maluf: Bem, é porque um está aqui e outro ele
citou.
Josemar Gimenez: Tá,
o senhor falou que tem quatro. Quais são os outros dois?
Paulo Salim Maluf: São dois também de mais alta
respeitabilidade.
Josemar Gimenez: São
secretários também? Porque o que se comenta [por] aí é que os secretários do
senhor tem...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Não, não são
secretários.
Nirvano Beirão: Prefeito,
e o doutor Olavo Setúbal [(1923-2008) engenheiro, banqueiro, foi prefeito da
capital paulista, indicado pelo governador Paulo Egydio Martins de
1975 a 1979]? O senhor não esteve com ele? O senhor não propôs nada a ele? Quer
dizer, toda essa tranqüilidade que o senhor está demonstrando e tudo, nesse
caso, não pararia tudo e seria o doutor Olavo?
Paulo Salim Maluf: Doutor Olavo Setúbal foi um grande prefeito
desta cidade.
Nirlando Beirão: O
senhor o procurou?
Paulo Salim Maluf: Ele? Procurei, almocei com ele junto com o
doutor Roberto Paulo Richter e a razão do almoço com ele foi a
seguinte: existe uma polêmica muito grande sobre a reurbanização da Avenida
Paulista. E o Banco Itaú, do qual ele é presidente, fez uma campanha exatamente
escolhendo a Avenida Paulista como símbolo da cidade de São Paulo. Então,
disse o seguinte: "doutor Olavo, você foi um grande prefeito, um grande
homem público, eu acho que você poderia ser o presidente da Associação Avenida
Paulista Viva, e eu lhe dou todas as prerrogativas de ser o prefeito da Avenida
Paulista. Você reúne quem você quiser: arquitetos, engenheiros, empresários,
diga o projeto que você quer fazer e eu assino [embaixo]." Ele aceitou. E,
depois de amanhã, eu estou muito honrado, muito feliz que um homem do nome de
Olavo Egydio Setúbal vai tomar posse da presidência dessa comissão e prestar
mais esse serviço para São Paulo. Agora, se ele aceitar a ser candidato a
prefeito, quero dizer que ele é um forte candidato à vitória.
Josemar Gimenez: É
um dos quatro, prefeito?
Paulo Salim Maluf: Eu não conversei com ele, e vocês me deixariam
muito constrangido em fazer um convite para alguém pela televisão, isso, no
mínimo, seria uma deselegância total. Quero dizer o seguinte: ele já foi um
grande prefeito, ele seria grande em tudo neste país, grande ministro da
Fazenda, grande presidente da República, grande governador de São Paulo,
agora, é um problema pessoal dele saber se entra de novo na vida pública.
Matinas Suzuki: Agora
prefeito, o senhor tem fama...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Agora, se ele entrar na vida
pública, quero dizer muito claro: São Paulo se enriquece com
isso.
Matinas Suzuki: O senhor tem fama de não transferir voto, o senhor
acha que isso é um mito?
Paulo Salim Maluf: Olha,
Matinas, realmente, a transferência de votos não é uma coisa que a população
brasileira aceite muito. Veja, no auge da popularidade do Juscelino [Kubitschek][3],
tem uma derrota tão grande com o [Marechal]
Lott [Teixeira Lott][4]. Você vê, no caso das prefeituras de São Paulo, por
exemplo, nunca ninguém elegeu o seu sucessor, então, é uma coisa relativa. Eu
tenho uma pesquisa que pode ser válida que diz o contrário, que 25% da
população gostaria de votar num candidato apoiado por mim, porque o próprio
Data Folha, o último, indica o seguinte: 40% da população
acha Malufótimo e bom e 41% regulável, ou seja, tem 81% de aprovação
quando, Jânio Quadros[5] no
fim dos quatro anos teve 61%, e Luiza Erundina, no
fim dos quatro anos, teve 67%. Então, eu estou feliz que eu estou com 81% e não
completei ainda três anos, vou tentar conquistar até um pouquinho mais. Agora,
se isso a gente vai transferir ou não para o meu candidato, eu não sei, mas que
eu gostaria, Matinas, que o futuro prefeito de São Paulo continuasse
o Cingapura, o PAS, as laqueaduras e a vasectomia; que continuasse com o
projeto São Paulo Cidade Saudável, os projetos sociais e os projetos
urbanistícos. Eu gostaria que o meu sucessor fosse alguém que não jogasse tudo
na lata do lixo como fizeram e pararam as obras, e que continuasse essa obra
que está sendo feita. Eu gostaria que o meu sucessor continuasse a minha
obra.
Matinas Suzuki: Prefeito,
nós temos que fazer agora um breve intervalinho e voltaremos daqui a pouco com
o segundo tempo da entrevista com o prefeito Paulo Maluf, até
já.
[intervalo]
Matinas Suzuki: Bem,
nós voltamos com o Roda Viva, que está entrevistando esta noite o
prefeito Paulo Salim Maluf[...] Prefeito, o senhor também
organizou, ou melhor, a prefeitura organizou uma maratona recentemente e há uma
contestação, com relação a essa maratona, de que o senhor teria pago um milhão
e duzentos mil dólares à Rede Globo de Televisão pela realização dessa
maratona, quando em qualquer outro evento esportivo é a emissora que paga pela
transmissão e não o contrário. Como o senhor responde essa questão?
Paulo Salim Maluf: Bom, [em] primeiro lugar, eu não paguei. Quem pagou
foi a prefeitura, em segundo lugar, não foi pago pela transmissão, foi pago
conforme... inclusive, a Rede Globo...
Marcelo Beraba: Desculpe
prefeito.
Paulo Salim Maluf: Espera. Espera.
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Desculpe. O contrato não diz isso. O contrato diz [que pagou] pela transmissão.
O senhor... Estou lhe mostrando o contrato aqui [mostra o contrato]
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Espera um pouquinho. Se você
não me deixa terminar de falar...
Marcelo Beraba: Não.
Eu entendi que o senhor tinha sido claro.
Paulo Salim Maluf: Eu vou ser muito claro.
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Que o senhor não pagou pela transmissão.
Paulo Salim Maluf: Você acha que a Rede Globo... que
dez minutos, que custa um milhão e duzentos [dólares], que a Rede Globo vai
fazer três ou quatro horas de transmissão por um milhão e duzentos
[dólares]?
[Sobreposição de vozes]
Paulo Salim Maluf: Perdão, um milhão e duzentos foi pago pela
organização, e, evidentemente, como foi pago pela organização, eles tinham que
transmitir. Eles iriam pagar pela transmissão e não iriam transmitir? É lógico,
ora!
[Sobreposição de vozes]
Marcelo Beraba: Então,
por que colocar isso no contrato, prefeito?
Paulo Salim Maluf: Espera. Espera um pouquinho.
Marcelo Beraba: Se
é uma coisa tão óbvia, então por que colocar isso no...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Óbvia porque é o seguinte:
veio uma corredora russa, alguém pagou a passagem dela e ela não chegou no dia,
ela veio quinze dias antes, treinou, alguém pagou hotel e o restaurante. Vieram
corredores americanos, vieram corredores do Brasil inteiro, vieram corredores
da Ásia, ou seja, tinha mais de cinco mil corredores. Perdão,
[sobreposição de vozes] a pergunta foi feita por ele, eu estou aqui até às três
da manhã, me deixa responder ao Matinas, em seguida você pode interromper, está
bom?
Marcelo Beraba: Por
favor.
Paulo Salim Maluf: Eu nunca te interrompi. Então, foram pagos
para cinco mil corredores, alguns que vieram do outro lado do Brasil, e tivemos
que pagar, evidentemente, a estadia, outros vieram de outras partes do mundo,
tivemos que pagar a passagem e a estadia. O primeiro lugar brasileiro ganhou um
automóvel, a primeira colocada brasileira ganhou também um carro, então, a
organização, conforme matéria paga pela Globo, essa organização custou um
milhão e duzentos [dólares] e eles tinham a obrigação de transmitir. Agora,
veja o seguinte: as maratonas do mundo, a de Nova Iorque, a de Boston, as
maratonas européias... Esta maratona promoveu como jamais a cidade de
São Paulo foi promovida para o resto do Brasil, com toda a sua
beleza, com seus encantos.
Matinas Suzuki: É
muito questionável, não é prefeito?
Paulo Salim Maluf: São Paulo hoje, Matinas, você sabe
que vive...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Passou nas obras que o senhor inaugurou.
Paulo Salim Maluf: Ah sim. Eu já vou te falar, já chego lá
também. [São Paulo] vive de turismo. Turismo de quê? Turismo de negócios,
turismo de quem vem ver as feiras do Anhembi, turismo universitário, turismo de
compras. SãoPaulo não é mais o maior centro industrial da América Latina,
ele tem ainda uma indústria muito importante, as indústrias pequenas, as
indústrias, por exemplo, elétricas, eletrônicas, mecânicas, pequenos
artesanatos, pequenas indústrias têxteis, enfim, São Paulo vive
basicamente desse turismo, tanto é que você vê... Quantos novos hotéis estão
sendo construídos em São Paulo?
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Existe uma corrida tradicional, em São Paulo, que é a corrida de São
Silvestre. Esta sim é tradicional, promovida durante anos pela Gazeta
Esportiva. Por que a prefeitura não fez com a Gazeta a corrida de São
Silvestre? Não deu um milhão e duzentos mil dólares para a Gazeta?
Por que a Gazeta não vincula nacionalmente?
Paulo Salim Maluf: Bom, em primeiro lugar, é evidente que, para
a cidade de São Paulo, a mídia interessa.
Matinas Suzuki: Então,
o senhor está pagando vinculação de um milhão e duzentos.
Paulo Salim Maluf: Não senhor [sobreposição de vozes]. A Globo aceitou
fazer nacionalmente por quatro horas, e aquilo que foi pago foi ínfimo em
relação, inclusive, à corrida de Fórmula I, onde vocês nunca reclamaram.
Marcelo Beraba: O
SBT disse claramente que não cobraria.
Paulo Salim Maluf: O SBT não disse que não cobraria. Não disse.
Porque o doutor Roberto Paulo Richter ligou para o Guilherme Stoliar,
ele disse que aquela declaração ele nunca deu.
Marcelo Beraba: Imagina.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Dá licença. Então, você está
autorizado a falar com o SBT.
Marcelo Beraba: Não
tenho dúvida.
Paulo Salim Maluf: Espera um pouquinho. Para que ele transmita a
próxima e pague toda a organização gratuitamente. Está certo?
Marcelo Beraba: Não
tenho dúvida, agora, posso me colocar, prefeito, posso falar?
Paulo Salim Maluf: Perdão, eu ainda não respondi ao Matinas.
Você perguntou se passou sobre obras?
Matinas Suzuki: Não...
Porque no trajeto evidente que passou...
[sobreposição de vozes]
Paulo Salim Maluf: Eu quero dizer a você o seguinte: eu não fiz
o trajeto e, evidentemente, vocês hão de acreditar que não é função do
prefeito. Foi feito pela Globo com a Secretaria de Esportes, agora, eu não
fiquei triste [risos] eu fiquei muito alegre que passou no túnel Ayrton
Senna.
Matinas Suzuki: Coincidência,
não é prefeito?
[Risos]
Paulo Salim Maluf: Fiquei muito alegre, e ainda hoje como disse,
almoçando na [revista] Veja me fizeram a mesma pergunta, e eu
disse o seguinte: se passar aqui em frente à Veja, na [avenida]
Marginal iria ter que passar numa obra minha, porque essa obra fui eu que fiz
quando fui prefeito da outra vez. Então, se você andar quarenta quilômetros na
cidade de São Paulo, você vai passar em algumas dezenas ou centenas de
obras minhas. E eu me orgulho disso, que SãoPaulo tem obra para mostrar,
graças a Deus.
Marcelo Beraba: Desculpe
prefeito. O juiz Wilson Gomes de Melo, da quarta Vara da Fazenda Pública,
determinou que o senhor devolva aos cofres públicos todo esse dinheiro. O senhor
vai devolver? É uma liminar, é Justiça!
Paulo Salim Maluf: E eu vou te perguntar, você entende alguma coisa de
direito?
Marcelo Beraba: Alguma
coisa.
Paulo Salim Maluf: Eu quero dizer, então, claro para você, como
chama esse juiz?
Marcelo Beraba: Chama-se
Wilson Gomes de Melo, da quarta Vara.
Paulo Salim Maluf: Eu tenho todo o respeito pela Justiça. Já tive sete
desembargadores trabalhando comigo nos meus governos, mas se eu fosse um
examinador de uma banca para juiz, com essa tese, ele seria reprovado, porque
não tem liminar onde o indivíduo...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
A liminar só é boa quando favorece o senhor. A Justiça é boa quando ele
favorece...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Mas o que eu digo eu
mantenho. Não tem liminar que possa entrar no mérito e obrigar uma ação. Ele
poderia obrigar a devolver, no final da ação popular, depois de transitado e
julgado. Eu tinha direito a ir ao Superior Tribunal da Justiça e direito de ir
até o Supremo, como foi no caso dos automóveis, está certo? Então, quero dizer
o seguinte: essa sentença é absurda. É absurdo ele dizer o seguinte:
"pagou tem que devolver", antes de entrar no mérito de uma liminar.
Não tenho nem uma dúvida que esta liminar vai cair, porque ela é absolutamente
ilegal.
Marcelo Beraba: Sim,
mas não caiu. Da mesma maneira que não caiu o cigarro ainda, e o senhor insiste
em ser Justiça, acima da Justiça.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Essa liminar eu lhe digo que é
ilegal. Eu lhe digo o seguinte: é uma pena que você não concorde comigo, não
sei por quê. Numa liminar, o juiz não pode entrar no mérito e decidir, não
pode. Ele errou. O juiz errou e sabe que errou, e eu li na Folha de
S.Paulo que o jurista Ives Gandra da Silva Martins, que você deve ter
lido, disse também que o juiz errou, não disse?
Marcelo Beraba: O senhor vai devolver o dinheiro?
Paulo Salim Maluf: Você leu ou não leu?
Marcelo Beraba: Eu
li. O senhor vai devolver ou não? Bom, e outros dizem que não.
Paulo Salim Maluf: Essa decisão é absolutamente ilegal. Em primeiro
lugar, não foi eu que assinei o contrato, quem assinou o contrato foi o
secretário de Esportes, que assumiu toda a responsabilidade pelo contrato.
Segundo lugar, eu l i naFolha de S.Paulo, que você deve
ler...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Uma das opiniões.
Paulo Salim Maluf: Que o jurista Ives Gandra Martins disse que
essa decisão é ilegal.
Marcelo Beraba: [Ele]
Não é juiz, é um jurista. Ele não decide.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Mas se ele teve coragem de
dizer...
Marcelo Beraba: Assim
como se ouvem outros, prefeito, que dizem ao contrário. Esse é o papel da
imprensa.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Se ele teve coragem de dizer
que essa decisão era ilegal, não vale então...
Marcelo Beraba: Esse
é o papel da imprensa, é ouvir vários lados. Talvez seja difícil para o senhor
entender, mas esse é o papel.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Então me faça o favor, se
esse é o papel da imprensa me ouça amanhã outros dez juristas que me digam que,
se em uma liminar de mandato de segurança, ele pode entrar no mérito e mandar
devolver o dinheiro.
Marcelo Parada: Agora,
prefeito, os juristas também se posicionam contra isso que o Marcelo Beraba
está falando. Posicionam-se contra essa medida do cigarro e o senhor não
demonstra essa mesma veemência contra os juristas. Quer dizer, fica a sensação
de que a Justiça, quando vai a seu favor é...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Essa decisão é ilegal, e
quando existe uma decisão do presidente do Tribunal de Justiça que diz que é
legal, para mim, o que eu fico é com a decisão da Justiça.
Marcelo Parada: Prefeito,
agora, independente da discussão jurídica, para qualquer cidadão com o mínimo
de bom senso, ficou absolutamente evidente que a transmissão daquela maratona
tinha uma finalidade da propaganda da administração do senhor, mesmo
que diga o contrário. Mas o senhor pode fazer uma pesquisa aí, com
qualquer pessoa que assistiu a maratona, para ver se aquilo lá teve ou não a
finalidade de pura propaganda.
Marcelo Beraba: Tanto
que a comparação que o senhor faz é essa, o que ganhou com a transmissão da
[Rede] Globo, essa é a comparação que o senhor faz.
Paulo Salim Maluf: Eu me sinto muito honrado.
Marcelo Beraba: Não
duvido.
Paulo Salim Maluf: E me sentiria envergonhado se qualquer
maratona nesta cidade não tivesse uma obra minha. Se você andar nas marginais
Pinheiros e Tietê, são obras do Paulo Maluf. E o seu jornal disse há
vinte e cinco anos que eram obras faraônicas. Se você andar no Minhocão, que
foi tão criticado, é obra sim do Paulo Maluf. Se você entrar na
Estação Rodoviária do Tietê, que diziam que era faraônica, hoje ficou pequena.
Se você vier de avião pelo aeroporto de Cumbica, de Guarulhos, que todo mundo
dizia que era faraônica, também é obra do Paulo Maluf junto com
a aeronáutica. Se você andou no metrô...
Luciano Suassuna: [Interrompendo]
Se investigar a Paulipetro, não se descobriu uma gota de petróleo nesse
estado, não é prefeito? Pelo amor de Deus.
Paulo Salim Maluf: Perdão! Estamos falando por enquanto da
maratona, já respondo para você. Se você andar de metrô na cidade de
São Paulo; você lembra quando [José Vicente] Faria Lima e, em seguida, eu
começamos o metrô no Jabaquara e em Santana? Todo mundo criticava o metrô de
São Paulo, dizendo que não precisava do metrô. No entanto, estão aí
dizendo agora, por que não aumenta um pouco mais o metrô? Então, eu me orgulho
muito viu, Marcelo, mas muito, de tudo aquilo que fiz nesta cidade. Eu amo
São Paulo, eu adoro São Paulo. E se eu tenho um arrependimento é
pelas obras que eu ainda não fiz. Vou continuar trabalhando 16 horas por
dia para fazer mais túnel, viadutos, Cingapura, obras sociais, saúde pública,
educação. Amanhã estou no Jabaquara, inaugurando uma creche com mais [programa]
Leve Leite. Enfim, eu amo esta cidade e vou continuar trabalhando por ela.
Agora, se uma maratona mostrou essas obras é porque elas existem.
Pedro Cafardo: Senhor
prefeito, eu gostaria então de falar a respeito de uma obra. Me parece que a
maratona não passou no Minhocão, o senhor citou o Minhocão aqui, e para quem
não é de São Paulo, Minhocão é um elevado, o elevado Costa e Silva, que
atravessa o centro da cidade e tem uns três quilômetros mais ou menos, e que
deteriorou uma área central de São Paulo, construída pelo
senhor Paulo Maluf em 1970. O senhor se arrependeu de fazer o
Minhocão?
Paulo Salim Maluf: Não. Porque em primeiro lugar, a Avenida São
João, você sabe muito bem, já era uma área, há vinte e cinco anos, que não era
das melhores para você morar. Em segundo lugar, se você hoje chega a Londres, você
sai do aeroporto de Heathrow, e vai até o centro de Londres por um Minhocão que
passa ao lado de prédios. Se você chega a Buenos Aires, você sai do [aeroporto]
Ezeiza até o centro de Buenos Aires num Minhocão. Se você vai na Périphérique [Via perimetral] de Paris, que são as suas marginais, todas elas por
minhocões, e não são de quatro fachos de tráfico não....
Pedro Cafardo: [Interrompendo]
Mas nenhuma dessas obras, prefeito, fecham à noite.
Paulo Salim Maluf: Perdão. São de oito fachos de tráfego ao lado
de prédios e apartamentos. Se você vai a Nova Iorque, desde o tempo do
[aeroporto] La Guardia, antes da Segunda Grande Guerra, no Hudson River e
no East River, tem minhocões em volta da cidade ao lado de prédios de
apartamentos. Então, quero dizer para você que a solução adotada em
São Paulo não foi nada diferente da solução que foi adotada em outros
países. Mas, eu chego agora no Japão, em Tóquio onde exatamente é um lugar
muito espremido, porque o Japão tem 120 milhões de habitantes num território
menor do que o estado de Minas Gerais. Pois bem, nós temos em Tóquio lugares
onde tem sete andares de minhocões. Tem três abaixo, onde você tem dois metrôs
e um trem de subúrbio. Você tem um no térreo e tem mais três acima. Então,
Tóquio, porque é uma cidade exatamente onde não tem território, tem lugar que
tem sete minhocões. É uma solução que, eu quero dizer para vocês muito
claramente, tomei a melhor solução, e se vocês quiserem ver as conseqüências da
não existência do Minhocão, respondendo a você, eu peço a você que lute, no seu
jornal, para fechar o Minhocão por uma semana, aí você vai ver a utilidade que
ele tem.
Matinas Suzuki: Agora
prefeito, Minhocão, túnel, marginais são só obras para [meios de] transportes
individuais e para quem tem acesso ao carro.
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Não senhor, onde o transporte
individual vai mais rápido o transporte coletivo também vai mais rápido.
Matinas Suzuki: Há
um conceito, quase que um consenso hoje universal, que a política tem que ser
política de transportes coletivos, coisa que o senhor, aparentemente, investe
menos do que nas obras para carros particulares.
Paulo Salim Maluf: Não é verdade, Matinas. Quem instalou os
trens de subúrbio na cidade de São Paulo...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Mas o que está sendo feito agora quanto a isso para aumentar...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Perdão. Você tem que colocar
na minha vida pública, quem instalou os trens de subúrbio da Fepasa foi
o Paulo Maluf, que hoje transporta mais de um milhão de passageiros.
Contra tudo e contra todos, quando nós compramos os trens novos tivemos todo
tipo de oposição contra aquele projeto, porque nós mudamos a bitola da antiga
[empresa ferroviária] Sorocabana, de um metro para um 1,70m para poder dar
interpenetração na antiga Central do Brasil e na antiga Santos/Jundiaí. E se
hoje nós temos um transporte só, reunificado na bitola de 1,70m, foi
graças ao nosso projeto. Sobre o metrô: 50% do metrô de
São Paulo foram construídos quando Paulo Maluf foi
prefeito e Paulo Maluffoi governador, e se hoje....
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Prefeito. Com tanto dinheiro que o senhor tem, por que não faz um acordo com o
governo estadual para construir metrô em vez de..
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Então, vou fazer agora aqui
um compromisso público.
Matinas Suzuki: O
senhor poderia financiar o governo, se o seu espírito é tão público; o senhor
poderia financiar para o estado, podia estar...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Eu agradeço esse elogio,
porque a prefeitura de São Paulo, que tem um orçamento que é um quarto do
orçamento do governo do estado, financiar o governo, quer dizer:
é um banquinho pequenininho financiando o Banco do Brasil. Eu agradeço esse
elogio e faço aqui um compromisso público: se o governador Mario Covas[6] me procurar, de maneira séria, e quiser um programa em
conjunto para a cidade de São Paulo que tenha como escopo metrô mais
o grande anel. Se ele quiser fazer um acordo de conjunto, eu faço um convênio
com ele e pago [sobreposição de vozes].
Josemar Gimenez: O
governo do estado disse que já procurou o senhor, prefeito, está
esperando uma resposta, o governador Covas,
sobre o metrô agora...
Paulo Salim Maluf: Você publicou no seu jornal?
Josemar Gimenez: Não.
O governo do estado disse.
Paulo Salim Maluf: Se você não publicou no seu jornal não existiu
essa notícia.
[Risos]
Josemar Gimenez: Mas
o governo estadual disse que está esperando essa resposta do senhor, para ver
se dá para trabalhar em conjunto com relação a isso.
Paulo Salim Maluf: O meu telefone é 225-9077.
Pedro Cafardo: O
governador [Mario] Covas nunca conversou
com o senhor sobre isso?
Paulo Salim Maluf: De maneira absolutamente concreta não.
Pedro Cafardo: Ele
disse que já conversou.
Pedro Cafardo: Quais
são as condições que o senhor impôs?
Paulo Salim Maluf: Eu não impus condição nenhuma. Não conversamos que
condição se impõe?
Marcelo
Beraba: Não. O senhor falou que tiveram
uma conversa.
Paulo Salim Maluf: Não. [Em] Primeiro lugar é o seguinte, a
solução do problema das marginais de São Paulo não é, como muita
gente diz, construir viadutos por cima. Nada disso. Você veja o absurdo que
existe. No limite, vamos raciocinar: um caminhão, que venha de Belém do Pará, e
ele se destine a Porto Alegre, por que razão ele tem que passar dentro da
cidade de São Paulo? Essa é a pergunta que se faz: ele tem que passar
dentro da cidade de São Paulo? Um caminhão que vem de Belo Horizonte em
direção, por exemplo, a Curitiba, tem que passar dentro da cidade de
São Paulo. Então, a solução para o problema de poluição nas marginais e o
problema de trânsito de transporte coletivo é o "grande anel". É um
anel a trinta quilômetros de distância das atuais marginais que, por
exemplo: quem vem do Rio de Janeiro para Santos, quando chegar à altura de
Arujá, ele já pode entrar para cima da serra para chegar à serra onde estaria a
via Anchieta ou a rodovia dos Imigrantes. Unir a rodovia dos Imigrantes em
continuação até chegar à Raposo Tavares, à BR 116, à Castelo Branco, à
Anhanguera, à Bandeirantes, à Fernão Dias e até chegar, novamente, ao viaduto.
Então, se você tiver um grande anel por fora, esses caminhões seriam todos
desviados dentro do trânsito da cidade de São Paulo. Ou seja, essa é uma
obra para o governo do estado, porque a prefeitura de São Paulo não
pode realizar obras em outros municípios, eu só posso realizar dentro. Mas eu
estou disposto, até não sei se é deselegante eu fazer uma proposta ao governador
de maneira pública, mas eu quero dizer o seguinte: eu nasci para trabalhar,
governo não foi feito para reclamar, foi feito para resolver.
Nirlando Beirão: O
senhor está falando do governador Mario Covas?
Paulo Salim Maluf: Eu estou dizendo que governo não foi feito
para reclamar, foi feito para resolver, e é assim que eu estou aqui, neste
desafio, dizendo o seguinte: eu sento com o governador e faço um pacote para a
cidade de São Paulo, ele faz a parte dele e a parte dele dentro da cidade
de São Paulo, que ele não pode fazer, eu ajudo.
Marcelo Parada: Agora
prefeito, o senhor fala da cidade limpa, fala do transporte público...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Agora, alguém fez uma
pergunta aqui que eu não respondi. Perdão, eu quero responder a todos pela
ordem.
Luciano Suassuna: Sobre
a Paulipetro. Sobre a exploração de petróleo, Paulipetro.
Paulo Salim Maluf: Pois muito bem, eu estou hoje muito alegre e
muito feliz, mas numa alegria brutal...
Luciano Suassuna: [Interrompendo]
Quanto o senhor gastou na Paulipetro?
Paulo Salim Maluf: Perdão, eu quero dizer a você que eu estou
alegre e muito feliz, numa alegria brutal, porque há dezesseis anos eu tentei
flexibilizar o monopólio do petróleo, fui criticado por gregos e troianos, quem
mais me criticou foi o governador que me sucedeu, Franco Montoro [(1916-1999)
eleito governador do estado de São Paulo, em 1982, na primeira eleição
direta para o cargo desde 1965, com 5,5 milhões de votos. Ver entrevista com
Montoro no Roda Viva]. E eu vejo que, depois de dezesseis anos,
quem lutou pela flexibilização foi Fernando Henrique Cardoso, tucano,
companheiro de Franco Montoro, e ele montou agora a flexibilização. Então, eu
acho que, com dezesseis anos de diferença, eu estava certo.
Marcelo Beraba: Prefeito,
ninguém discutia flexibilização, discutia?
Paulo Salim Maluf: E o que era a Paulipetro, senão a
flexibilização?
Marcelo Beraba: Não
senhor. Era gastar dinheiro onde se sabia que não iria ter nada.
Paulo Salim Maluf: Não senhor, não senhor.
[Sobreposição
de vozes]
Paulo Salim Maluf: Não senhor. Não era essa discussão, não era
essa a discussão, tanto que na bacia do [rio] Paraná...
Marcelo Beraba: É
sim senhor. O senhor pode fazer, pode dar um "chantili" na história,
mas não era essa a questão que está em jogo.
[Sobreposição de vozes]
Paulo Salim Maluf: Eu estou disposto a responder a todos. Vamos
falar cada um no seu ponto.
Matinas Suzuki: Prefeito,
eu quero que o senhor responda mais uma também. O senhor fez grande declaração
de amor a São Paulo. Por que queria levar a capital, então, para o
interior? [risos] Foi...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Dá licença. Eu amo
São Paulo e adoro São Paulo, mas é evidente que você não pode
dizer que você gosta da poluição de São Paulo. Não pode dizer que você
gosta das favelas de São Paulo, e que tem problemas na cidade de
São Paulo, que tem hoje dez milhões de habitantes, há problemas na sua
região metropolitana de 17 milhões de habitantes, e problemas em Santo
André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Osasco e
Guarulhos, que não existiriam se a grande São Paulo em vez de 17
milhões tivesse 15, 14, e se tivesse outro pólo de desenvolvimento com dois
milhões de habitantes, quem sabe se teria evitado muita gente nessa periferia que
não encontra emprego. Agora, sobre a Paulipetro, sobre a exploração de
petróleo...
Luciano Suassuna: [Interrompendo]
Para começar. Quanto o senhor gastou?
Paulo Salim Maluf: Em termo de petróleo, ínfimo. Quando você
fala em trezentos milhões de dólares e você vê, por exemplo, que desde que foi
fundada....
Luciano Suassuna: [Interrompendo] Não. Nós estamos falando de
dinheiro público.
Paulo Salim Maluf: A Petrobras gastou vinte bilhões de dólares
em projetos que não deram petróleo. Eu pergunto o seguinte: eu tive dois anos
para pesquisar, a Petrobras foi fundada em 1954...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
O senhor torrou 15% em dois anos.
Paulo Salim Maluf: Como?
Marcelo Beraba: Torrou
15% do que a Petrobras levou anos para gastar, o senhor torrou em dois
anos.
Paulo Salim Maluf: 15% de quê?
Marcelo Beraba: Ué!
Do que a Petrobras gastou.
Paulo Salim Maluf: Quer dizer, um e meio.
Marcelo Beraba: Não.
Por que um e meio?
Paulo Salim Maluf: De vinte bilhões, trezentos é 1,5
bilhão.
Paulo Salim Maluf: Não. Quinze tira três bilhões de dólares.
Você errou na matemática me desculpe, é um e meio. Eu gastei um e meio, está
certo? E eles gastaram 98 bilhões, eles pesquisaram na Amazônia, não
encontraram, e em diversos lugares. Essa área da Bacia do Paraná, quem colocou
em concorrência pública não foi a Paulipetro mas a Petrobras. Nós entramos numa
concorrência pública com outras empresas. Agora, eu quero perguntar para vocês
o seguinte: do lado de lá do rio [Paraná], na Argentina, tem gás, por que no
lado de cá em Santa Catarina, Paraná e nós, São Paulo, não temos? Do lado
de lá, na Bolívia, tem gás, por que Mato Grosso não tem? Na Amazônia Peruana,
tiram cem mil barris dia, por que na Amazônia brasileira não tem? Então, será
possível que Deus fez a fronteira geográfica do Brasil com os países latinos
americanos, igualzinha a fronteira geológica? Ou seja, do lado de lá tem e do
outro não tem. Eu vou dizer por que o lado de cá não tem. Porque enquanto os
Estados Unidos perfuram sessenta mil poços por ano - os Estados Unidos é o
mesmo tempo maior produtor do mundo, o maior consumidor e o maior importador -
enquanto eles perfuram sessenta mil poços por ano, o Brasil até há pouco
perfurava trezentos poços por ano. Então, evidente que estatisticamente
eles encontram muito mais. Eu acho o seguinte: que a Petrobras pode continuar o
seu papel, pois é uma grande empresa. Agora, por que outras empresas nacionais
e estrangeiras não podem ajudar o Brasil a ser auto-suficiente? E é nisso onde
o presidente Fernando Henrique Cardoso merece todo nosso apoio e nosso aplauso,
porque ele mudou completamente a sua posição estatizante de anos atrás...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
Mas o senhor não está querendo dizer, com isso, que o presidente apoiaria a
criação da Paulipetro, que seria mais uma estatal nesse mundo de estatais, não
é prefeito?
Paulo Salim Maluf: Eu quero dizer para você o seguinte, sobre a
flexibilização: vão surgir inúmeras empresas estatais, paraestatais ou de
economia mista com participação estatal minoritária ou majoritária. Vão surgir,
se Deus quiser, porque é o seguinte: o problema de tornar o Brasil
auto-suficiente em petróleo, eu acho que é um problema estratégico que todos
nós temos que dar nossa contribuição. Não é monopólio da Petrobras...
Matinas Suzuki: [Interrompendo]
O senhor concorda com o PT nessa questão então? Porque petróleo é questão
estratégica.
Paulo Salim Maluf: Mas é lógico que é estratégica, mas ele só
será nosso se for encontrado aqui dentro, se ele não for encontrado aqui dentro
ele continuará sendo dos árabes e pago com dinheiro que nós não temos.
Matinas Suzuki: Prefeito,
o Marcelo Parada, que nós interrompemos, peço a delicadeza da gente
voltar.
Marcelo Parada: Prefeito.
O senhor estava falando da cidade limpa e do transporte coletivo. Agora, a sua
administração consagrou em São Paulo a proliferação indiscriminada do
ônibus clandestino que polui adoidado, que transporta passageiros sem a menor
segurança e, no entanto, há uma verdadeira complacência da sua administração na
fiscalização desses ônibus, que além de sujar o ar da cidade de São Paulo,
talvez de uma forma muito mais nociva que os cigarros nos restaurantes,
transportam contingentes de paulistanos numa situação de insegurança absoluta.
Paulo Salim Maluf: Bom, eu acho que você se enganou com a sua
palavra, não existe complacência.
Marcelo Parada: Como
não, prefeito?
Paulo Salim Maluf: Não. Ao contrário, é aprovação.
Marcelo Parada: Certo.
Paulo Salim Maluf: Não é complacência, é aprovação. Porque na gestão
passada eles eram perseguidos e todo o indivíduo que tem um emprego honesto,
que você tira o seu emprego dele, ele vai se tornar bandido, pode lhe assaltar
amanhã. Então, quando você tem um trabalhador que ganha sua vida honestamente,
você tem que verificar como pode compatibilizar o trabalho dele com a
legalidade. Então, o que é que nós fizemos? Eles eram clandestinos, hoje a
palavra clandestino não tem mais conosco, são ônibus alternativos. O que eles
fazem? [risos] Sim, esse é o nome. Basicamente o que eles fazem? Eles
fazem o transporte bairro a bairro que as linhas regulares não fazem. Por quê?
Marcelo Parada: Vá
até o corredor [da Avenida] Nove de Julho e vê se o senhor acha um?
Paulo Salim Maluf: De vez em quando eles aparecem lá sim.
[Risos]
Marcelo Parada: De
vez em quando não. Todos ao dias eles estão lá.
Paulo Salim Maluf: Sim, eles aparecem [por] lá. Mas o que
eu quero dizer para você é muito claro: onde eu vir um trabalhador, eu não vou,
em hipótese nenhuma perseguir um trabalhador. Eles foram regularizados, hoje nós
sabemos quem são os proprietários dos ônibus e os motoristas, eles tem um custo
muito mais barato do que das empresas e eles não tem cobrador. Eles fazem
na sua maioria o transporte de bairro a bairro que as empresas não querem
fazer, e eu acho que, ao contrário, não tem complacência não, tem
aprovação.
Marcelo Parada: O
senhor acha que...
Paulo Salim Maluf: Os ônibus alternativos estão sendo úteis à
população. E tem mais, vou lhe dar uma informação: eles que usavam ônibus
velhos, caindo os pedaços, eles estão ganhando dinheiro, cada um deles está se
tornando um pequeno empresário e o Morelli, que é o presidente do sindicato,
esteve comigo recentemente na prefeitura e me disse o seguinte, espero que ele
não esteja mentindo, que eles vão comprar mil ônibus novos, os alternativos.
Então, são empresários, que se formaram empresários a custa do seu próprio
trabalho...
Marcelo
Parada: Prefeito, eu, da minha parte, não
entro em um ônibus clandestino nem que me paguem, eu morreria de medo e tenho
pena do paulistano que tem que andar no transporte coletivo, acho que eles
circulam numa condição de insegurança e, para a coletividade, a poluição que
gera na cidade é uma coisa muito...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Eu te informo que não tem
insegurança, porque todos os ônibus alternativos que eram clandestinos antes, e
que hoje são alternativos, eles são fiscalizados regularmente nas oficinas da
prefeitura.
Nirlando Beirão: Eu
estou um pouco aflito aqui porque o tempo está passando e a gente...
Paulo Salim Maluf: Bem, eu não tenho problema de limite. Eu fico
aqui até as três da manhã.
Matinas Suzuki: Nós
temos.
Nirlando Beirão: O Matinas tem. Ele nos expulsa daqui. É nós não
estamos falando de política, eu acho que a gente pode estar aqui participando
de um, digamos, de um primeiro ato de uma campanha eleitoral. É
visível, é óbvio isso, e nós não temos falado nesse assunto. Eu li hoje a
manchete da Folha de S.Paulo, que o senador Antônio Carlos
Magalhães[7],
veio com uma idéia um pouco estranha e extravagante,
de que deve haver reeleição para o Fernando Henrique, mas que esta
questão só deve ser colocada depois que os atuais prefeitos tiverem deixado o
seu cargo. O que o senhor acha da idéia do seu amigo Antônio Carlos
Magalhães?
Paulo Salim Maluf: Bom, em primeiro lugar ele não diz que o presidente
Fernando Henrique deve ser reeleito. Ele diz que o presidente Fernando Henrique
deve ter o direito de se candidatar de novo. Se a população gostar dele, vai reelegê-lo,
senão gostar dele não vai reelegê-lo, ou seja...
Nirlando Beirão: [Interrompendo]
Quer dizer, o senhor poderia eventualmente ser um adversário do Fernando
Henrique numa campanha?
Paulo Salim Maluf: Bom, eu tenho mais de 18 anos de idade,
sou eleitor inscrito, sei ler e escrever, nada me impede. Agora eu acho que o
Fernando Henrique...
Marcelo Beraba:
[Com] a premissa dele, o senhor concorda?
Paulo Salim Maluf: Perdão, a premissa da reeleição, sim.
Marcelo Beraba: Para
o Fernando Henrique, na sequência?
Paulo Salim Maluf: [Sobre] a pergunta: a premissa da reeleição,
sim, pronto. Em primeiro lugar, eu explico: todos os países do Primeiro Mundo
tem, ou no sistema presidencialista ou no parlamentarista, eles tem o preceito
da reeleição. Por quê? É muito mais lógico, lícito, honesto e válido, você
julgar o executivo depois que ele cumpriu o seu mandato, do que antes, quando
ele era somente uma esperança. Então, eu posso lhe garantir o seguinte: muito
governante brasileiro, e tome isso muito a sério, se soubesse que poderia
passar pelo crivo de um segundo julgamento de uma eleição, ele seria mais
correto, honesto, austero e tomaria um pouco mais de cuidado. Então, o instituto da reeleição existe nos Estados Unidos que é um país
presidencialista, na França com sete anos, quer dizer, o François
Miterrand[8] teve 14, se não estivesse doente poderia ter 21, foi quase um
reinado. Mas quem decide se ele vai ser reeleito ou não é o povo. Por isso a
palavra reeleição está um pouco errada, deveria ser, sim, nova apresentação.
Então, eu defendo isso sim, mas não vou mexer uma palha para que esse instituto
me proteja eventualmente, não. Eu acho que deve ser aprovada a reeleição para
todos os cargos do executivo, e que eu não devo mexer uma palha para o meu
caso... [Em 1995, o então presidente Fernando Henrique Cardoso enviou ao
Congresso uma série de emendas constitucionais, entre as quais a proposta de
reeleição presidencial, aprovada no ano seguinte, em primeira votação]
Luciano Suassuna: Prefeito,
no artigo da [revista] Isto É, o governador de Mato Grosso, Dante
de Oliveira, defendeu a idéia da reeleição, mas disse que deve ser feito com
plebiscito.
Paulo Salim Maluf: Não, ele acha que...
Luciano Suassuna: [Interrompendo] Ele acha que um plebiscito deve
definir a reeleição.
Paulo Salim Maluf: Bom, plebiscito é uma das formas. Pode ser
por plebiscito ou pelo próprio Congresso. O Congresso foi eleito para votar sim
ou não, então, pode ser pelo Congresso. Pelo plebiscito é um pouco de zelo a
mais. Eu acho o seguinte: que o Brasil tem muito a ganhar se os homens públicos
do executivo souberem que vão ter que, no fim de seu mandato, prestar contas ao
povo. É o povo que vai reeleger ou vai mandar o camarada para a sua casa, numa
sanção social pior que a derrota.
Luciano Suassuna: Nessa
área política, prefeito, o senhor trocou, quer dizer, mudou recentemente a
sigla do seu partido de PPR para PPB com incorporação de alguns parlamentares
do PP, e o presidente do seu partido, o senador Esperidião Amin, disse que, na
verdade, foi trocado seis por meia dúzia, quer dizer só serviu para trocar
siglas. O senhor concorda com isso?
Paulo Salim Maluf: Não. Acontece o seguinte: que eu sou
contra... e vocês estão vendo eu não tenho nenhuma dificuldade em aprovar os
bons projetos na Câmara Municipal, nunca aliciei ninguém, ao contrário, até
perdi alguns vereadores. Então, nós também, no plano federal, fizemos a
primeira fusão com o PDC [Partido Democrata Cristão], fundando o PPR, e agora
fizeram uma fusão com o PP, porque é muito mais lícito, lógico e correto, você
diminuir o número de partidos. E, veja, de três partidos que tínhamos, hoje
somos um. No mínimo, a população ganha, pois a cada semestre dois [partidos]
enchem a paciência, que é aquela uma hora a que o partido tem direito de
horário gratuito. Eu acho que, no Brasil, cabem cinco partidos, o resto são
legendas de aluguel.
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
Qual é o leque?
Paulo Salim Maluf: Cinco é o seguinte: é o nosso PPB [Partido
Progressista Brasileiro] que tem 83 deputados, o PMDB que tem...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
O PPB está na ponta direita ali, ou não?
Paulo Salim Maluf: Não. Eu coloquei o meu primeiro, é
lógico, eu acho que o meu é melhor. Você acha que eu vou achar algum outro melhor?
O meu é o melhor mesmo, tem o Roberto Campos, Delfim Netto, Francisco
Dornelles, Esperidião Amin, Jarbas Passarinho; o nosso produto é bom pela
qualidade, inclusive, o nosso PPB; PMDB, que tem 101, 102 deputados; o PFL que
tem 89, noventa deputados; o PSDB que está também com oitenta e poucos
deputados e o PT ideológico. Acho que esses cinco partidos têm condições de
existir. Agora, partido que tem um deputado...
Marcelo Beraba: [Interrompendo]
E o PDT?
Paulo Salim Maluf: O PDT tem vinte e poucos, quer dizer, eu acho
que ou ele cresce, ou ele fica um partido carioca.
Josemar Gimenez: Agora,
prefeito, jogando a questão um pouco mais para frente. Uma vez o senhor disse
que...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Agora, espera um pouquinho.
Eu quero frisar isso aqui: são dezenove partidos que tem representação no
Congresso, alguns com um deputado. Quer dizer, o partido com um deputado tem o
direito de ter uma hora em cadeia nacional duas vezes por ano. Isso é um abuso
para o telespectador e é um abuso para todo o contribuinte, porque o dinheiro
dessa hora, você sabe, a empresa de televisão pode deduzir no imposto de renda.
Então, todos nós estamos pagando para aquele indivíduo que fez um partido com
um deputado e teve direito a duas horas em cadeia nacional. Isto é um abuso e
tem, no meu entender, que ser revogado.
Josemar Gimenez: Jogando
a questão um pouco mais para frente, uma vez, o senhor disse que...
Paulo Salim Maluf: [Interrompendo] Agora, a gente tem que ter
coragem, entendeu? Tem que ter coragem para dizer essas coisas, porque todo
mundo fica fazendo média com todo mundo. Partido de um deputado é legenda de
aluguel, uma legenda mercenária que não poderia nem deveria existir no Brasil,
como não existe em lugar nenhum no mundo. Veja, nos Estados Unidos é democrata
ou republicano. A Inglaterra é conservadora ou trabalhista. Na França é
gaulista ou socialista. A Alemanha é social democrata ou conservador. O Japão é
liberal democrata ou socialista. É só no Brasil que nós temos dezenove
partidos, que é essa salada russa.
Matinas Suzuki: Pensando
nessa...[falando ao mesmo tempo que Paulo Maluf]. É que ele me
concedeu a palavra democraticamente.
Paulo Salim Maluf: Pois não, desculpe.
Matinas Suzuki: ...pensando
nessa conjuntura nacional, é que o senhor tem aparecido muito na TV Manchete?
Paulo Salim Maluf: Eu apareço aqui, na televisão Cultura, tive
até a gratidão de vocês...
Matinas Suzuki: Quando
o senhor é notícia prefeito, aparece aqui.
Paulo Salim Maluf: Colocaram-me inaugurando a [Avenida] Faria
Lima. Eu tenho aparecido na Globo, na Manchete, no SBT, na Bandeirantes. Eu
apareço em todas as televisões, e, olha, quando vocês me puserem mais de uma
vez também, eu não faço questão de não aparecer.
Matinas Suzuki: Mas
o senhor na TV Manchete, tem aparecido um pouquinho mais. Por quê?
Paulo Salim Maluf: Não. Todo mundo reclama e eu sei do quê,
reclama do Jornal de Domingo. Até um dia, um juiz estava
conversando comigo: "puxa eles te elogiaram!" Eu perguntei:
"quer dizer então que a televisão só existe para 'meter o pau'? Quando a
televisão 'mete o pau' é uma televisão decente? Quando a televisão é imparcial
e mostra o fato..."
[Risos]
Josemar Gimenez: Voltando
um pouquinho sobre sucessão, o senhor, uma vez, me disse que - não sei se a
palavra certa seria um sonho - tinha um sonho, que era disputar uma eleição de
segundo turno para presidente com o Lula. O senhor ainda pensa isso? O senhor
ainda imagina travar uma disputa com o Lula num segundo turno?
Paulo Salim Maluf: Veja, eu sou candidato a ser um bom prefeito
de São Paulo. E acho que o Lula ele tem méritos, é uma pessoa simples que
veio lá do interior de Pernambuco para São Paulo, fundou o sindicato e
fundou um partido. Eu não estou de acordo com as idéias dele
e se o PT cometer um erro... uma parte do PT porque a outra parte do PT já
acordou. Mesmo Lula disse: "nas próximas eleições temos que fazer
coligação". Quer dizer, eles já acordaram que o Muro de Berlim[9] caiu
e que o comunismo da Rússia não é o melhor para o mundo, que a solução da
Tchetchênia, matando um terço dos seus habitantes,
não é uma solução democrática. Que aquilo que o comunismo deixou na Iugoslávia
não é o melhor que queremos para os nossos filhos. Então, também eles estão
enxergando que esquerda e direita... Na Europa, se você disser que você quer ir
para a esquerda ou para a direita você vai estar numa avenida, ouseja, esquerda
e direita é sinal de trânsito, você vai ao Champs Éllysées, você pode virar
para a esquerda, para Avenida Montaigne, pode virar para a direita.
Entendeu? Então, esquerda e direita é sinal de trânsito [risos] porque só na
vida lá, na Europa, a pessoa é bem sucedida se tiver eficácia, eficiência e
trabalhar muito.
Josemar Gimenez: Mas o senhor gostaria de disputar uma eleição com o
Lula?
Paulo Salim Maluf: Eu acho que se ele continuar com essas idéias
antiquadas e arcaicas, ele não é páreo para nenhum outro candidato contra ele.
Perderá sempre. O Lula só será válido para a vida pública brasileira, e para
ele, se ele se modernizar, tem que ir para a escola estudar.
Josemar Gimenez: Portanto,
ele é o adversário ideal, não é isso prefeito?
Paulo Salim Maluf: Para ele perder a eleição, sim.
Nirlando Beirão: Para
o senhor, por exemplo.
Paulo Salim Maluf: Não digo para mim. Eu não sou candidato ainda.
Ainda eu sou um candidato a ser um bom prefeito.
Marcelo Parada: Amanhã vai haver a votação na Comissão de Constituição
de Justiça. Qual foi a movimentação que o senhor fez, se é que fez alguma, em
torno dessa votação do parecer da reforma administrativa?
Marcelo Beraba: O senhor enquadrou o PPB ou não?
Paulo Salim Maluf: Eu não enquadro, não é do meu feitio. Cada
deputado em Brasília sabe que... Até eles obedecem muito minha liderança porque
eu nunca mandei eles votarem a favor nem contra. Cada deputado foi eleito e
sabe o que ele deseja, tanto, inclusive, que o parecer contra foi de um
deputado meu amigo, do meu partido, [José Humberto] Prisco Viana, que foi
ministro do [José] Sarney, foi voto meu no Colégio Eleitoral, mas ele tem toda
a liberdade de ter o seu ponto de vista num país onde, democraticamente, você
tem que respeitar. O que eu disse aos meus amigos e ao líder, Odelmo Leão, é
que tem duas fases do processo, e que me parece que até a própria imprensa não
comunicou bem a população quais são as duas fases. A primeira fase que se vota
amanhã é a admissibilidade ou não da emenda, isso quer dizer o seguinte: se a
emenda é constitucional ou não. No entanto, já estão entrando no mérito:
"não, devemos fazer o seguinte, só poder admitir depois de cinco
anos". Não é isso que vai se decidir amanhã, pois vai ser só decidido a
admissibilidade ou não, ou se pode demitir com dois anos, cinco anos ou com dez
na Comissão de Mérito, que é um outro problema completamente diferente. Então,
eu ainda hoje falei com o deputado Odelmo Leão e disse o seguinte: "eu não
quero influenciar ninguém, cada um vota como quiser, mas eu acho que vocês
estão invertendo a discussão". A discussão de mérito é daqui a uma semana,
duas ou três, na Comissão de Mérito. Amanhã o que se discute é admissibilidade
ou não da Constituição poder ser modificada, e eu acho que ninguém tem direito
adquirido com a modificação da Constituição. Tanto é que o Sarney teve seis
anos de mandato; ele foi eleito para seis anos e a Constituinte lhe deu cinco,
e a Constituinte deu cinco anos para o Collor, mas mudou para
quatro durante o Itamar Franco. Então, ninguém tem direito adquirido face
à Constituição. Fernando Henrique não vai poder dizer: "não, a
Constituição anterior era de cinco estão me devendo um". Se a Constituição
mudou, ninguém tem direito adquirido face à Constituição. É o meu ponto de
vista.
Matinas Suzuki: Prefeito,
eu vou pedir desculpas a nossa bancada de entrevistadores, eu deixei o debate
que estava muito bom, correr, mas eu tenho que fazer aqui algumas perguntas dos
nossos telespectadores, que foram muitas.
Paulo Salim Maluf: Mas olha, Matinas, se vocês puderem prorrogar
o prazo aqu,i eu estou às ordens.
Matinas Suzuki: Não.
Nós não podemos prorrogar, mas eu encaminharei todas as perguntas ao senhor e a
sua assessoria poderá responder diretamente a cada um dos nossos
telespectadores.
Paulo Salim Maluf: [É] que está sendo um debate muito
esclarecedor.
Matinas Suzuki: Agora, se o senhor puder responder, por favor,
rapidamente, para a gente poder ler mais de uma pergunta. Sobre educação, tem
várias perguntas: Maria Helena Peres, a Fátima Ribeiro, professora de educação
infantil sem identificação, o José Augusto, do Tucuruvi, pergunta para o
senhor: "e sobre o 113% de reajuste que o senhor iria dar a todos os
educadores, vai sair?"
Paulo Salim Maluf: Bom, em primeiro lugar nunca foi prometido
113%, segundo lugar, você sabe muito bem, se nós aumentássemos 113% de todo o
salário de todos os funcionários da prefeitura sem aumentar os impostos - e eu
não quero aumentar impostos - é evidente que nós levaríamos a situação
financeira da prefeitura àquela condição que, exatamente, o Marcelo e todos
vocês não desejam, eu não quero entregar a prefeitura inadimplente e nem
insolvente. Mas nasceu o 113% de um presidente do sindicato que ainda diz:
"não, tinha que dar 156% e fica devendo mais 43%". Olha, não é
verdade, nunca se prometeu nada, o que eu disse e vou fazer é o seguinte: nós
vamos fazer uma reestruturação para verificar ainda, apesar dos funcionários
públicos de São Paulo serem os mais bem pagos do Brasil e da cidade,
apesar das professoras da prefeitura ganharem muito mais da que as do estado,
assim mesmo nós vamos fazer uma reestruturação para corrigir ainda eventuais
injustiças. Mas não é o 113%.
Matinas
Suzuki: O escritor Marcelo Rubens Paiva
pergunta para o senhor: "quais as medidas a prefeitura tem adotado para
que os deficientes físicos possam ser reintegrados à sociedade e poder conviver
de uma maneira mais fácil com a cidade de São Paulo?"
Paulo Salim Maluf: Olha, todas as novas guias de sarjetas que estão
sendo feitas hoje são rebaixadas. Estamos em processo, nas empresas de ônibus,
para rebaixar diversos ônibus, onde eles possam entrar inclusive com as
cadeiras. Inclusive, em duas passarelas que nós estamos agora projetando,
estamos colocando escada rolante.
Matinas Suzuki: Bem,
o Roda Viva está acabando. Eu queria dizer aos senhores que eu
recebi aqui alguns faxes que questionaram as perguntas os entrevistadores.
O Paulo Santos, de Brasília, Distrito Federal, o Fabrício Junqueira,
de São José dos Campos, a Marília Martins, do Jardim Paulistano, todos eles
dizendo que a bancada dos entrevistadores exagerou na questão do fumo. E o José
Cláudio Bruno, de Brasília, disse que esses jornalistas que estão tentando
ridicularizar Maluf estão agindo como imbecis: "nunca vi tanta
estupidez ao mesmo tempo, vocês estão ridículos com essa apologia do cigarro,
essa técnica estúpida da polêmica, estou horrorizado com o programa que colocou
um bando de fumantes mal educados para discutir a proibição do cigarro em
restaurantes, é como amarrar cachorro com lingüiça. Nessa questão
o Maluf está certo". Eu só queria esclarecer ao José Cláudio
Bruno que eu posso ser imbecil, mas não sou fumante e defendo o direito total
de quem quiser fumar, inclusive, em restaurantes. E o Marcos, da
Aclimação, se o senhor pode responder rapidamente, ele acha que o senhor mudou
o visual, e que se isso é necessário para ser presidente do Brasil? O senhor
fez plástica, prefeito? Implantou cabelo?
Paulo Salim Maluf: Implantei. Já faz nove anos, em 1986,
implantei aqui alguns fios. O que eu fiz realmente, que todo mundo sabe, por
recomendação médica, eu troquei os óculos, e até recomendo a você, Matinas,
lentes de contato, e fui obrigado, que eu tinha aqui um papo, a fazer uma
pequena cirurgia. Mas minha mulher gostou.
Matinas Suzuki: Então
está bom [risos]. Prefeito, eu agradeço muito a presença do senhor, eu agradeço
aos nossos entrevistadores, agradeço a atenção e a participação dos
telespectadores e lembro que o Roda Viva volta na próxima
segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá. Uma boa noite para todos e uma
boa semana.
[1]
Projeto de
reurbanização que previa a construção de prédios de apartamentos populares para
famílias de baixa renda, em geral retiradas de favelas existentes nas regiões
centrais da cidade de São Paulo. As primeiras unidades surgiram na gestão de
Paulo Maluf, quando prefeito da cidade, entre 1993 a 1996. A publicidade desse
empreendimento contribuiu para a eleição de Celso Pitta em 1997 como sucessor -
e apoiado - por Maluf.
[2] Celso Pitta (1946-2009) foi o segundo prefeito negro da cidade de São
Paulo, entre 1997 e 2000, com mandato marcado por inúmeras denúncias de
corrupção. Pitta foi secretário de Finanças do prefeito Paulo Maluf e recebeu
seu total apoio para a candidatura, pelo PPB, marcado pela famosa frase: “Votem
no Pitta e, se ele não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim”, o que
ajudou o candidato a ser eleito pela grande maioria no 2º turno, derrotando
Luíza Erundina, do PT. A administração de Pitta foi marcada por acusações de
corrupção feitas, principalmente, por sua ex-mulher, Nicéa Pitta, envolvendo
vereadores e secretários, das quais a maior foi o chamado escândalo dos
precatórios, em que Pitta foi acusado de desviar verbas destinadas ao pagamento
de precatórios (dívidas de processos contra a Fazenda municipal). Pitta deixou
a prefeitura com volumosas dívidas e foi, em 2008, condenado a quatro anos de
prisão e a devolver recursos aos cofres públicos. Foi preso duas vezes, ficando
detido por pouco tempo. Candidato a deputado federal em 2002 e 2006, não foi
eleito. Morreu, aos 63 anos, em São Paulo, em decorrência de um câncer de
intestino.
[3]
Juscelino Kubitschek de Oliveira, conhecido como JK,
foi presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Com estilo de governo inovador na
política brasileira até então, Juscelino construiu em torno de si uma aura de
simpatia e confiança entre os brasileiros. Foi o responsável pela construção da
nova capital federal, Brasília, executando assim o antigo projeto da mudança da
capital (antes no Rio de Janeiro) para promover o desenvolvimento do interior e
a integração do país. Durante todo o seu governo, o Brasil viveu um período de
desenvolvimento econômico e estabilidade política. Juscelino foi o último
presidente da República a assumir o cargo no Palácio do Catete em 31 de janeiro
de 1956. Em seu mandato presidencial, Juscelino lançou o Plano Nacional de
Desenvolvimento, Plano de Metas, que tinha o lema “50 anos em cinco”. O plano
tinha 31 metas distribuídas em seis grandes grupos: energia, transportes,
alimentação, indústria de base, educação e a construção de Brasília. Visava
estimular a diversificação e o crescimento da economia baseado na expansão
industrial e na integração dos povos de todas as regiões com a capital no
centro do território brasileiro. Morreu em 22 de agosto de
1976.
[4]
Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott,
militar e político brasileiro, nascido em Minas Gerais, em 1894, foi ministro
da Guerra no governo Café Filho, após o suicídio de Getulio Vargas, sendo
mantido no cargo pelo novo presidente, Juscelino Kubitschek e seu vice, João
Goulart (Jango). Ganhou destaque no cenário nacional por suas convicções
democráticas e por sua atuação em defesa da ordem e da legalidade, enfrentando
em vários episódios, setores políticos e do exército, em particular quando,
após ter sido candidato derrotado por Jânio Quadros à Presidência da República,
e frente à renúncia deste, através de um manifesto, conclamou as forças
políticas e o povo a tomar posição em defesa da Constituição, ou seja, a
garantir a posse de Jango. Defendeu, entre outros, o projeto de voto para os
analfabetos, derrotado na Câmara em 1957. Em 1975, recebe uma condecoração da
Escola de Estado-Maior dos Estados Unidos, estando já há dez anos recolhido à
vida privada. Em 1979, defendeu publicamente a necessidade da anistia aos
perseguidos pela ditadura militar. Morreu no Rio de Janeiro, em 1984.
[5] Jânio da Silva Quadros
(1917-1992) nasceu no estado do Mato Grosso mas destacou-se como político em
São Paulo onde foi deputado, prefeito e governador. Foi presidente do Brasil de
janeiro a agosto de 1961, sendo eleito com 5,6 milhões de votos - a maior
votação até então jamais obtida no país. Renunciou alegando que “forças
ocultas” o obrigavam a isso. Acredita-se que essa renúncia era uma encenação
para que o Parlamento lhe concedesse liberdade governamental e para obter o
apoio do exército. Figura singular, falava um português peculiarmente castiço e
tomou medidas famosas, destinadas a criar uma imagem de inovação dos costumes e
saneamento moral, como a proibição de biquínis, do lança-perfume e das brigas
de galos. A criação de reservas indígenas, novas formas de relações
internacionais e a condecoração do guerrilheiro Che Guevara foram outras
de suas ações espetaculares. Utilizava uma vassoura como símbolo de campanha
sinalizando que varreria a corrupção do governo.
[6]
1930-2001) Iniciou a carreira política nos tempos de
faculdade, tendo sido vice-presidente da União Nacional dos Estudantes em 1955,
quando cursava engenharia na USP. Foi deputado federal no início dos anos 1960
pelo Partido Social Trabalhista (PST) e, em 1965, ajudou a fundar o Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição no regime militar. Com a
instauração do AI-5 na presidência de Costa e Silva, foi cassado e perdeu os
direitos políticos por dez anos. Nos anos 1980 foi um dos fundadores do Partido
do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), sucessor do MDB. Foi prefeito de
São Paulo e depois, no Senado, participou da elaboração da Constituição de
1988. Em 1994, foi eleito governador de São Paulo com o vice Geraldo Alckmin,
cargo que exerceu por dois mandatos consecutivos, até 2001, quando faleceu
vítima de câncer na bexiga. Seu governo foi marcado por um acentuado corte de
gastos para recuperar os cofres do estado, privatizações de empresas - como a
Eletropaulo, o Banespa e a Fepasa - e de importantes rodovias.
[7]
Antônio Carlos
Magalhães ou ACM (1927-2007), empresário e político com influência muito grande
na Bahia, e marcado pela pecha de usar métodos coronelistas na aquisição e
condução do poder. Eleito deputado estadual (1954), deputado federal (1958 e
1962), governador (1990) e senador (1994-2001), quando renuncia ao mandato em
virtude do um processo de quebra de decoro parlamentar. Volta ao senado em 2002.
Também foi prefeito nomeado de Salvador (1967-1970), e governador da Bahia
nomeado pelo regime militar (1970 e 1978). Figura de sustentação do regime
militar, após seu término continua no poder, em virtude de haver apoiado a
candidatura de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Ministro das Comunicações
no governo Sarney, aplica o regime de concessões de forma a beneficiar aliados
políticos e familiares.
[8]
François-Maurice-Marie
Mitterrand (1916-1996) foi o primeiro presidente socialista da França, que
governou por 14 anos, sendo uma das principais figuras da integração europeia.
Participou da Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial, onde
conheceu a ativista Danielle, que seria sua esposa por 44 anos. Iniciou na
política em 1946 e chegou à Presidência em 1981. Seu governo foi marcado por
medidas estatizantes, reformas sociais, combate à inflação e pela integração
com a Comunidade Econômica Europeia, embrião da União Europeia. Em 1986, os
socialistas perdem as eleições legislativas, e Mitterrand vê-se obrigado a
coabitar no governo com o gaullista Jacques Chirac, como primeiro-ministro. Em
1993, a esquerda perde novamente as eleições e, mais uma vez, o presidente
François Mitterand recusa-se a demitir-se, entrando em coabitação com
primeiros-ministros de direita, desta vez, Jacques Chirac e Edouard Balladur.
Faleceu aos 80 anos, vítima de câncer na próstata.
[9]
Desde que foi
construído, em 1961, até 1989, o Muro de Berlim, como ficou conhecido, foi o
símbolo da separação dos blocos capitalista e comunista e da Guerra Fria
(confronto político, ideológico e com um militaristarismo velado entre União
Soviética e Estados Unidos e seus aliados). A cidade de Berlim, com a derrota
dos alemães na Segunda Guerra Mundial, foi dividida entre os aliados, ficando
uma parte (a ocidental) para os americanos, britânicos e franceses, e a outra
para os soviéticos, que implantaram o sistema comunista. Até a construção do
Muro de Berlim era permitido aos moradores locais cruzar os setores, o que foi
proibido depois, sendo as tentativas severamente punidas com a morte. A queda
do Muro, em novembro de 1989, marcou o início do fim do regime comunista no
leste europeu e provocou uma crise generalizada nos partidos comunistas.
