Depois do assassinato (1882), de John Collier (1850-1934), exposto na Guildhall Art Gallery de Londres.
O livro Agamênon, que faz parte da
Oréstia (três livros, a saber: Agamênon, Coéforas e Eumênides), do escritor
grego Ésquilo, foi escrito em 458 a.C., época em que Artaxerxes I da Pérsia, após receber
notícias da sua derrota para os atenienses no Egito, envia Megabasus (Megabizo) a
Esparta, com uma oferta em dinheiro para que eles ataquem Atenas. Os espartanos
recusam o suborno. Em Israel, foi o ano do retorno de Esdras (Ed 7.6,7).
No Agamênon, a história é a seguinte:
Agamênon, rei dos Atridas, retorna da Guerra de Troia. Ao voltar, traz consigo Cassandra, filha de Príamo, rei
de Troia, profetisa sem credibilidade.
Sua esposa, Clitemnestra, irmã de Helena
(a mesma a quem se atribui culpa pela Guerra de Troia), tem um caso com o primo
de Agamênon, Egisto (a quem Zeus trata como mau exemplo de piedade). Egisto colaborou
com a morte de Agamênon, pela mão da própria esposa Clitemnestra, mas o filho
do morto, Orestes, vinga-se matando o casal.
Bem, há muito o que se dizer desta obra,
podemos especular sobre justiça, traição, culpa, vingança, adultério... Por
ora, provavelmente por falta de capacidade minha de uma análise rica, quero
abrir os seus olhos sobre a figura da “mulher” nesta obra.
Vamos começar (a propósito, a obra é uma
peça de teatro, não um romance)[1]:
1.
Já no verso 11, temos a fala da
Sentinela (um soldado que do alto do palácio dos Atridas, por ordem de
Clitemnestra, espera o rei Agamênon), que ao referir-se a Clitemnestra, sua
rainha, diz que está ali por “ordens da mulher de ânimo viril”. Ânimo viril? Está
aí o primeiro ponto. Uma mulher que tem ânimo, vontade forte, tem decisão, tem
ânimo viril. Ora, viril é uma palavra originária do latim uir (vir), macho, homem. O soldado disse que ela possuía ânimo de
homem (em grego, ἀνδρόβουλος).
2.
Clitemnestra diz ao Corifeu (que
era o chefe do coro, idoso – v.
1619) que os gregos capturaram Troia (v.
269 - Τροίαν Ἀχαιῶν οὖσαν: ἦ τορῶς λέγω;). Ela já está
se irritando porque o Corifeu não lhe dá crédito, por ser ela mulher,
evidentemente. Por isso lhe diz: “Os gregos capturaram Troia! Ouviste agora?” O
Corifeu continua duvidando: Tens provas? Não terias sonhado? Ouviste algum
rumor? Clitemnestra, irritada, responde: “Igualas o meu pensamento ao das
crianças?” (v.
277 - παιδὸς νέας ὣς κάρτ᾽ ἐμωμήσω φρένας.)
A dúvida do
Corifeu se deve, não só por tratar-se de uma mulher, mas por ela ter uma notícia
tão importante, e de forma tão privilegiada. Clitemnestra diz que foi Hefesto,
o deus do fogo, pois com a inteligência de determinar que nos altos se
acendesse uma fogueira, desde o mar até onde eles estavam, assim que se avistasse
o navio do rei, as fogueiras informariam da sua chegada, estando a rainha
avisada antecipadamente.
A reclamação
de Clitemnestra permanece: afinal, a palavra de uma mulher vale tanto quanto de
uma criança pequena? (παιδὸς νέας)
3.
Ainda conversando com o Corifeu,
Clitemnestra, no v.
348, diz “Ouviste simples pensamentos de mulher” (τοιαῦτά τοι γυναικὸς ἐξ ἐμοῦ κλύεις:). Talvez ao
falar assim, Clitemnestra esteja falsamente se rebaixando, esteja usando de
ironia. O Corifeu desmerece sua palavra por ser mulher, e ainda se esquece de
que está falando com a Rainha, mas Egisto, lá na frente, não perdoará o
desrespeito (v.
4.
No v.
351, o Corifeu considera as palavras de Clitemnestra e julga que ela fala
corretamente, com sabedoria, por isso diz: “Mulher, falas tão sabiamente como
um homem prudente”. (γύναι, κατ᾽ ἄνδρα σώφρον᾽ εὐφρόνως λέγεις. )
5.
O Corifeu está discutindo com
Egisto. Este diz que ele não reconhece seu lugar inferior e fala com
desrespeito aos poderosos, e apesar de velho deveria aprender mais. O Corifeu,
irado, responde-lhe nestes termos (v. 1625, 1626): “Mulher! Tu és mulher, tu,
que permaneceste refestelado em casa, apenas esperando” (γύναι, σὺ τοὺς ἥκοντας ἐκ μάχης μένων /οἰκουρὸς εὐνὴν ἀνδρὸς αἰσχύνων ἅμα). Egisto
acha por bem se explicar que se escondeu por ser inimigo do Rei e isto
levantaria suspeitas sobre si. Evidentemente, não se explica só para responder
a contento, mas para tirar de si a pecha de ser tratado como uma mulherzinha
medrosa.
É assim que, sem apresentar juízo de
valor, considerando a época em que foi escrito, apresento a mulher em Ésquilo.
Ainda falaremos sobre isso.




