 |
| Caricatura por WILLIAM MARTINS RIBEIRO |
A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras
instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo
oficio. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a
máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos
escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para
respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber,
perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que
eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a
sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social
e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os
funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos
de máscaras.
O
ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa,
com a haste grossa também, à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e
fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal.
Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com
pouco era pegado. Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram
muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem
pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas
repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não
era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque
dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que
raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a
correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro,
apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcassem aluguel, e iam ganhá-lo
fora, quitandando.
Quem
perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha
anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o
defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de
gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha a promessa:
"gratificar-se-a generosamente", – ou
"receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima
ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e
na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o
acoutasse.
Ora,
pegar escravos fugidios era um oficio do tempo. Não seria nobre, mas por ser
instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra
nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal oficio por
desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para
outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por
outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem
à desordem.
Cândido
Neves, – em família, Candinho, – é a pessoa a quem se liga a história de uma
fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos.
Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de
estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender
tipografia, mas viu cedo que era preciso algum a tempo para compor bem, e ainda
assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O
comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de
caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos
feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua
por sua vontade, fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao
ministério do império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois
de obtidos.
Quando
veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas,
porque morava com um primo, entalhador de oficio. Depois de várias tentativas
para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara
algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa,
aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e
relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o
casamento não se demorou muito.
Contava
trinta anos, Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e
cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados
apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes,
olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a
costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe
acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar,
naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe
pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à
roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.
O
amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o
possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile;
tal foi - para lembrar o primeiro oficio do namorado, – tal
foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior
brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das
relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja,
tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o
amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia
a patuscadas.
–
Pois
ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.
–
Não,
defunto não; mas é que...
Não
diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se
foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só,
embora viesse agravar a necessidade.
–
Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
–
Nossa
Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a
advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela
era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.
A
alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes
eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam
que rir, e o riso digeria-se sem esforço.
Ela
cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha
emprego certo.
Nem
por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo
específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém, deu sinal de
si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a
suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos
seus sustos.
–
Deus
nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A
notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do
dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso,
uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o
enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe
fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia
Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
–
Vocês
verão a triste vida, suspirava ela.
– Mas as outras
crianças não nascem também? perguntou Clara.
– Nascem,
e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco...
– Certa como?
– Certa, um emprego, um
ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem
gasta o tempo?
Cândido
Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas
muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de
comer.
– A senhora ainda não jejuou senão pela semana
santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o
nosso bacalhau...
– Bem sei, mas somos três.
– Seremos quatro.
– Não é a mesma
cousa.
– Que quer então que eu faça, além do que faço?
– Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o
homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo...
Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é
vaga. Você passa semanas sem vintém.
– Sim, mas lá vem
uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido
sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha
glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e
fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no
batizado.
Cândido
Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos,
melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não
obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência,
coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os
no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os
costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo,
amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a
uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os
outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste
e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava
logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem
sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas
geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um
dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como
dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o
negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos
jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de
um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir,
sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida
fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava
pelos aluguéis.
Clara
não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade
de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele
chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía
outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se
de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a
cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em
desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do
homem.
–
É
o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir
narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra
vida, outro emprego.
Cândido
quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por
simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa.
O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A
natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de
nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o
nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos.
Não podiam ser mais amargos.
–
Não,
tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever,
quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi
na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de
levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver
palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para
beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê?
enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro
na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se
desfazer inteiramente. Clara interveio.
– Titia não
fala por mal, Candinho.
– Por mal? replicou tia Mônica.
Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer.
Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum
dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde,
quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos
com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar
nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém,
ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua.
Enfim...
Tia
Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na
alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia
com tal franqueza e calor, – crueldade, se preferes.
Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez
uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi
interrompida por alguém que batia à porta da rua.
–
Quem
é? perguntou o marido. – Sou eu.
Era
o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o
inquilino. Este quis que ele entrasse.
–
Não
é preciso... – Faça favor.
O
credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria
algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia
esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não
havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era
proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido
Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao
mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
–
Cinco
dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho
saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com
algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos
anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito.
Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias,
não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do
proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.
A
situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes
emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve
arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que
lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os
lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que
Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse
alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma.
Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia
em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do
obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim
sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois
nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica
insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso
comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que
esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os
pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como
chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela
reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior
parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém,
subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de
vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do
negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora,
porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a
fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e
Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o
anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter
vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os
sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu
cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação
incerta ou barata.
Voltou
para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma
a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai,
não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis
comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade.
Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o
próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada.
Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo
suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a
cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele
beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na
direção da Rua dos Barbonos.
Que
pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo
é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do
sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o
passo. --Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo
a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu
entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do
beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado
oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de
Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta;
digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a
farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o
farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria
buscá-la sem falta.
–
Mas...
Cândido
Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao
ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando
ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era
a mulata fujona. –Arminda! bradou, conforme a nomeava o
anúncio.
Arminda
voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda
da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir.
Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e
dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz
mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao
contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
–
Estou
grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por
amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que
quiser. Me solte, meu senhor moço!
– Siga! repetiu
Cândido Neves.
– Me solte!
– Não quero demoras; siga!
Houve
aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem
passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não
acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a
castigaria com açoutes,– cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de
sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.
–
Você
é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido
Neves.
Não
estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera
dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a
escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor.
Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com
grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima,
gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada,
desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em
casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
–
Aqui
está a fujona, disse Cândido Neves.
– É ela mesma.
– Meu senhor!
– Anda, entra...
Arminda
caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem
mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis,
enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,
levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O
fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os
gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia
que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que
ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.
Quando
lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo.
Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com
a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que
pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de
amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos
enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de
gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma
vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra
a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho,
entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
–
Nem
todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.