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24 setembro 2024

E se os Estados Unidos tivessem invadido a Venezuela?

 


Uma invasão dos Estados Unidos na Venezuela seria quase uma autorização para a China invadir Taiwan e para a Rússia seguir pegando para si o que bem entender em suas franjas. Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:


Essa é uma pergunta recorrente, cuja resposta é aparentemente fácil. Maduro teria caído, mas o regime não. As pessoas teimam em pensar que ditaduras são feitas por uma pessoa apenas. Trata-se de um engano que ainda persiste, inclusive entre os opositores venezuelanos que acham que basta se livrar de Maduro para a Venezuela retomar os caminhos da democracia.

Voltando à pergunta do título. E se os Estados Unidos tivessem invadido a Venezuela?

Em agosto de 2017, o então presidente Donald Trump disse publicamente que os Estados Unidos tinham “muitas opções para a Venezuela, incluindo uma possível opção militar se for necessário”. Muita gente levou a sério imaginando tropas americanas desembarcando pelo mar, vindo pelo céu e marchando por Caracas. Uma miragem retrô que animou os ânimos dos opositores e gerou calafrios em alguns chavistas.

No recém-lançado At War with Ourselves (Em guerra com nós mesmos), o general H. R. McMaster, que foi conselheiro de Segurança Nacional do ex-presidente Trump, conta o contexto em que a frase foi dita. O então presidente, que estava descansando em uma de suas propriedades na Flórida, falou com os jornalistas logo após uma reunião com o general McMaster, o então secretário de Estado dos Estados Unidos Rex Tillerson e a embaixadora na ONU, Nikki Haley. A frase, solta ao vento e que causou um rebuliço, foi nada mais nada menos que um efeito colateral da mente de Donald Trump.

McMaster, relembra em seu livro, que minutos antes de Trump falar da “opção militar”, o secretário Tillerson havia pedido para que o presidente justamente evitasse falar sobre qualquer “opção militar” sobre a Venezuela. E Trump, sendo Trump, fez exatamente o contrário e a primeira coisa que disse foi exatamente o contrário.

Fora o barulho e a fumaça, como bem sabemos, não deu em nada. O tema Venezuela desaparece do livro, mostrando como a administração Trump, embora tenha colocado o regime de Maduro no topo de suas prioridades para América Latina, não tinha muito a fazer.

Em janeiro de 2019, tudo parecia concorrer para a concretização da tal “opção militar”. Maduro havia sido considerado ilegítimo por todas as democracias do planeta. O deputado Juan Guaidó emergia como alternativa constitucional, sendo apontado como presidente encarregado diante de um presidente usurpador. Parecia tudo perfeito. Mas qual era a realidade?

A Venezuela se tornou um país sob dois presidentes e duas interpretações da Constituição. Maduro era o presidente de fato (com todas os poderes e prerrogativas internas), enquanto Guaidó era o presidente de direito (sem nada, além da legitimidade no exterior) ele acreditava que tinha um nível de apoio que ia além da simpatia e dos tapinhas nas costas que recebia de dezenas de presidentes.

Mesmo assim, parecia tudo pronto para a guerra. Os venezuelanos acreditavam que o recém-empossado Jair Bolsonaro se juntaria ao vizinho Iván Duque e com o suporte de Trump libertariam a Venezuela. Delegações de venezuelanos peregrinavam por Brasília, Bogotá e Washington, D. C. para empurrar o tema.

Naqueles mesmos primeiros meses de 2019, Trump voltou a falar novamente da opção militar. Todos voltaram a acreditar nisso.

Mas, o que teria acontecido se os Estados Unidos tivessem de fato invadido a Venezuela?

Como já disse no início da coluna, o regime não se resume a Maduro. A Venezuela se transformou em um Estado criminalizado controlado por máfias e apoiado por potências extrarregionais que manejam a tragédia venezuelana como instrumento de geração de instabilidade regional (imigração, tráfico, violência e miséria).

Uma invasão da Venezuela seria muito diferente do que o mundo assistiu no Panamá, em 1989. Além de uma inevitável reação violenta, que descambaria para um conflito que arruinaria ainda mais o país, havia o risco de contaminação regional, com o agravamento da crise migratória e a potencial entrada de atores como Rússia e Irã, criando uma versão latino-americana da Síria. Exagero?

O mundo mudou e não há “opções militares” fáceis, além, é claro, do discurso político.

Estamos em 2024 e, novamente, muita gente na Venezuela fala em invasão esquecendo-se da guerra. Não veem outra saída para recuperar o país que não por meio da força.

Alguns tentaram convencer os “militares” venezuelanos a se insurgir contra o regime, esquecendo-se de que os “militares” não são mais militares. Comandados como uma casta que se alimenta do tráfico de drogas, corrupção e dos privilégios próprios de quem faz parte da cúpula de um regime, eles não seguem valores ou Constituição alguma. São engrenagens que mantêm a ditadura em pleno funcionamento.

Diante da falha na conquista do apoio militar interno, os venezuelanos voltam a sonhar com tropas chegando do Norte. Para eles é duro – é perfeitamente compreensível – aceitar que Nicolás Maduro venceu. Não falo em vencer eleições ou qualquer outra coisa decente. Maduro venceu há tempos. E não há como entender isso sem perceber quando foi e por que Maduro venceu e a Venezuela perdeu.

Isso se deu com a tolerância à corrosão da democracia na Venezuela desde o primeiro mandato de Chávez, no longínquo 1999. Cada pequena ação, vista como isolada, era um passo a mais para o processo de transformação da Venezuela que hoje conhecemos.

Os diplomatas americanos, europeus e do Brasil que serviram na Venezuela nos primeiros anos do chavismo pintaram com cores de exotismo as ações paulatinas que levariam à implosão da democracia. Os telegramas que batiam em Washington que descreviam Chávez como um ser caricato e inofensivo impediram que as vacinas fossem aplicadas a tempo.

Assim como as ditaduras não são feitas por apenas uma pessoa, elas não surgem do nada. A venezuelana foi construída sob os olhos negligentes de muitos. Maduro – e tudo o que ele representa – foi forçando a porta aos poucos. E sua vitória foi construída sob a luz do sol. Agora não há guerra que conserte.

A Venezuela está perdida? Não há resposta fácil para isso. Mas não há saída simples e ela não se resume a Maduro. A Venezuela já está em guerra. Os impactos sobre sua economia, população, migração e números de violência são próprios de países em guerra. Uma outra guerra dentro da guerra, não parece um mau negócio para o regime. Talvez apenas arraste mais gente e países da região para o mesmo abismo.

23 janeiro 2023

Vem aí o perigoso Nicolás Maduro

 Maduro é procurado pelo Departamento de Justiça dos EUA, que oferece 15 milhões de dólares pela captura do ditador. Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:


O cartaz que ilustra essa coluna é real. O ditador Nicolás Maduro é procurado pela Justiça dos Estados Unidos desde o ano de 2020. As autoridades americanas oferecem 15 milhões de dólares por informação que leve à sua prisão. Tudo indica que Maduro estará em Buenos Aires para o encontro da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) – a versão bolivariana da Organização dos Estados Americanos, fundada em 2010 sob os auspícios de Hugo Chávez, Raúl Castro, Cristina Kirchner, Evo Morales e, claro, Luiz Inácio Lula da Silva.

As autoridades argentinas prepararam um esquema de segurança especial para Maduro, que tem hospedagem prevista no país até o dia 23 de janeiro. A líder opositora Patricia Bullrich entrou com um pedido na Justiça argentina para que Maduro seja preso ao pisar em Buenos Aires. Segundo ela, o ditador – independentemente da ordem de captura emitida pelos Estados Unidos por crime de tráfico de cocaína (sim, Maduro é acusado de tráfico de cocaína) – deveria ser preso e julgado pelos crimes contra a humanidade que ele e seu regime cometem. Um movimento jurídico baseado em argumentos que já foram aplicados contra outros ditadores como o chileno Alberto Pinochet, mas que no caso de Maduro deverá ficar restrito ao âmbito meramente político.

Maduro é esperado em Buenos Aires como uma das estrelas do evento. Seu desembarque na capital argentina terá o mesmo significado apoteótico que seu criador e mentor Hugo Chávez imprimia em suas várias demonstrações de não-subordinação a qualquer regra. No caso em questão, Maduro mostrará ao mundo que a recompensa de 15 milhões de dólares oferecida pelos Estados Unidos só serve para enfatizar que ele e seus amigos estão pouco se lixando para Justiça. Mais especificamente a Justiça dos Estados Unidos reconhecida por ter sido (aqui o tempo verbal é importante) implacável com traficantes latino-americanos que despejam toneladas de drogas no território americano.

O desprezo de Maduro para com o seu povo, a região, as leis e a Justiça pode ser explicado pelas suas vitórias ao longo de quase uma década à frente de um regime reconhecidamente brutal. Maduro trincou os dentes e encarou seus opositores dentro e fora da Venezuela. Ele prendeu, torturou, matou. E daí? Ele não foi o primeiro e nem o único a sobreviver no poder com esse currículo de brutalidades.

Focando apenas em exemplos latino-americanos, antes dele vieram Fidel Castro e seus gerontocratas que até hoje estão no poder. Evo Morales, perseguiu, prendeu, matou e atualmente está engajado na promoção de uma guerra com o objetivo de dividir e roubar um pedaço do Peru (e se der certo, um naco do Chile também).

Em outubro passado, Maduro conseguiu algo inédito. Conseguiu que os Estados Unidos libertassem seus sobrinhos presos em flagrante por tráfico de drogas, em uma operação da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos, em 2015. A operação foi tratada como “troca de prisioneiros”. A administração Biden celebrou que o regime chavista libertou sete cidadãos americanos que estavam presos na Venezuela. Mas não há como equiparar a situação de quem foi preso, julgado e condenado por um sistema judicial independente com quem foi praticamente sequestrado por uma ditadura, onde o Poder Judiciário funciona como linha auxiliar do regime.

O desembarque impune de Maduro na Celac vem acompanhado de outros dois movimentos relevantes. O primeiro é de escala regional. O presidente Lula, que é um dos pais da criatura, é outra estrela da edição atual da Celac. Sua participação marca o retorno do Brasil ao bloco. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro virou as costas para a iniciativa.

O segundo evento relevante tem escala global. A possível vinda do presidente chinês Xi Jinping. Os argentinos esperam o desembarque do chinês, que viria dar a sua benção para o renascimento do bloco com o retorno de seu membro mais musculoso, que é o Brasil.

A presença de Xi na Argentina pode ser lida como um salto da Celac – que surgiu como alternativa à Organização dos Estados Americanos, como dito no início da coluna, mas também como força antagônica aos Estados Unidos e Canadá, que “mandam demais” na OEA. Xi, que lidera um avanço sem precedentes da China sobre a região – sobretudo na Argentina – dará seu aval e suporte ao bloco.

Os bolivarianos estão de volta e vieram com tudo. Os sinais de que a China os alimentará eram evidentes, mas muitos fazem questão de não enxergar.

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