Palavras em Sessão do Conselho
Universitário I (1975)
Palavras proferidas pelo Professor Afrânio
Coutinho em sessão do Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, a 12 de junho de 1975. Mais uma vez, neste discurso, podemos observar
a combatividade que o Professor Afrânio Coutinho sempre demonstrou,
característica marcante de sua personalidade, ao lutar para conseguir autonomia
e salários dignos para a classe dos professores universitários.
Magnífico reitor: [1]
Vou
reiterar agora palavras de alguns meses atrás neste egrégio conselho. Trata-se
do problema do salário do magistério, problema grave para a comunidade
universitária brasileira. Há pouco, soube que um professor português, desejoso
de expatriar-se em face da situação política de seu país[2],
conseguiu um contrato de 40 horas e dedicação exclusiva numa das universidades
que compõe a Universidade de São Paulo no interior do estado, com o salário
mensal de Cr$ 17.500,00[3].
Ele mesmo ficou espantado, pois nem o presidente da República de seu país
aufere tal ordenado.
Ora,
foi-nos acenado, quero dizer os professores que formam o corpo docente das
universidades federais, com uma promessa de reclassificação e reajuste salarial
à altura de nossas responsabilidades e deveres, e, em verdade, o que afinal
veio a concretizar-se foi um verdadeiro parto de montanha.[4] Há
dias, foi-me mostrado o contracheque de um dos nossos mais gloriosos
catedráticos aposentados: era de 4 mil cruzeiros[5] a
sua pensão. Pasme-se! Ridículo e humilhante que um homem leve a vida em
dedicação de uma instituição, dando-lhe o máximo de seus esforços e talentos, e
acabe com recompensa ridícula desta sorte!
Eu não quero absolutamente dizer que
discordo ou condeno o que faz São Paulo. Isto é que é o certo. Apenas está-se
criando no País um verdadeiro mandarinato universitário que causa um desalento
aos membros dos demais corpos docentes. Desalento e uma tendência a grande
número correr para lá em busca de uma vida financeira compensadora e
gratificante.
Na realidade, nós somos culpados por
essa situação de desprestígio das universidades brasileiras. Nosso professorado
não é dotado de autonomia mental. Em geral, foram aproveitados no momento da
federalização homens sem formação universitária, em grande parte humildes,
submissos, sem o devido espírito de reivindicação pacífica para falar aos
governos e defender as suas prerrogativas. Por isso, nossas universidades não
têm autonomia, senão no papel. Não temos uma política financeira própria, uma
política administrativa própria, uma política jurídica própria, uma política
pedagógica própria. Somos caudatários dos órgãos do Governo Federal, cujos
chefes nos dão o mesmo tratamento que aos funcionários burocráticos. Não
compreendem o nosso papel. Daí que não se cria um espírito profissional em
nossas universidades. Somos amadores, para os quais o cargo de magistério não
passa de um bico, permitindo que possamos ganhar o nosso adequado sustento em
outras atividades fora das universidades. Do contrário, não poderíamos viver,
pois o salário que recebemos é de fome.
Há tempos, neste conselho, o
Professor Moniz de Aragão[6]
sugeriu uma reunião especial do conselho de reitores[7]
para defender junto ao Governo a nossa posição no que concerne a salário.
O
fato é que somos realmente muito mal tratados. E o pior é que nós, os mais
velhos[8],
desta forma não temos autoridade junto aos mais moços para cobrar trabalho. É
geral a justificativa quando procura um diretor fazer cumprir as exigências de
carga horária da COPERTIDE[9].
Dizem então os que gostam de aparecer como bonzinhos: para que isso, o
professor é um pobre coitado que ganha tão pouco, para que afligi-lo com
exigências dessa natureza?
Nós estamos, magnífico reitor, neste
momento, segundo minhas antenas podem captar, atravessando um grande perigo.
Estamos vendo as hostes da subversão, incutidas por propaganda sutil, novamente
se aliciando. Cargos importantes foram ocupados. A palavra de ordem é o combate
ao que eles chamam de “cultura burguesa”, para eles uma cultura decadente, a dying culture para empregar a expressão
de um teórico marxista inglês.[10] Cultura
burguesa significa, para eles, a cultura que designam também como “cultura
acadêmica”, a cultura abstrata e a erudição, as artes e letras e a filosofia,
que constituem o patrimônio cultural do Ocidente desde a Grécia e os judeus.
Condenam essa cultura, que formou desde os antigos a essência da educação
liberal e da formação humana. O que lhes importa são as formas de cultura
popular e as expressões de comunidade.
Cito uma passagem de um artigo de
Joseph Lelyveld, publicado em O Estado de
S. Paulo, de 8 de junho de 1975:
Com o firme objetivo de afastar os “elementos
burgueses” das escolas e das profissões, a China está recompondo ativamente
suas instituições educativas de nível superior. Tudo o que possa indicar um
exercício intelectual abstrato ou uma erudição sem finalidade prática foi
rebaixado, a favor do aprendizado ideológico e da tecnologia prática com
imediata aplicação na vida agrícola e no trabalho intelectual.
Não
nego
que sejam importantes. Mas exaltá-las em detrimento da cultura intelectual
tradicional é um contrassenso. Não teremos desenvolvimento tecnológico, industrial
e agrícola, como eles pregam, sem a formação humana, feita à custa da cultura
humanística. O nosso objetivo, o objetivo da educação deve ser conciliar as
duas formas, aproveitando a contribuição popular e incorporando-a à cultura
geral. Foi isto que fizeram os grandes gênios da humanidade.
Outro aspecto dessa tática insidiosa
é o que eu chamo a “rebelião dos sargentos universitários”, isto é, a rebelião
dos professores dos escalões inferiores contra os da alta hierarquia,
especialmente os catedráticos e diretores. Foi um erro a lei retirar
prerrogativas de comando universitário dos escalões superiores e mesmo a
diminuição da própria situação de catedrático[11].
Ninguém chega a catedrático de graça, mas à custa de um conjunto de qualidades
que não se inventam, não se improvisam, nem se fazem da noite para o dia. Erro
igual seria a ruptura da hierarquia militar. No entanto, foi feita essa ruptura
na hierarquia universitária. E isso é além de incompreensível, de funestas
consequências. Não se deduza que sou contra os jovens professores. Eles
constituem legitimamente a base da vida universitária. E eu tenho dado o
exemplo desse apreço na Faculdade de Letras, onde reuni um grande número de
jovens professores. Mas eles necessitam da orientação superior.
Mas,
pergunto eu, como iremos combater essa infiltração sutil da propaganda
subversiva, se não temos autoridade, quando eles dizem que a civilização
burguesa trata mal os representantes da cultura, os professores e intelectuais
em geral?
Confesso,
magnífico reitor, minhas apreensões. Estou dentro de um foco importante que é
uma comunidade de professores e alunos de mais de 2.500 pessoas. E estou
apreensivo ante o que venho observando. Não sou infenso às reformas sociais.
Mas repudio os métodos violentos de alcançá-las, tal como é pregado pelos
extremismos.
FONTE: “Discursos de Afrânio
Coutinho”, Coleção Afrânio Coutinho, ABL, Rio de Janeiro: 2011, págs. 289 a
293.
[2] Período da Revolução dos Cravos, em Portugal.
Em 12/06/1975, data do discurso de Afrânio Coutinho, quem governava Portugal
era o general Costa Gomes. Como Costa Gomes era manso e conciliador e assumira
em 28/09/1974, provavelmente o professor português mencionado tenha vindo ao
Brasil no governo António de Spínola (de presidência curta) ou um pouco antes,
nos estertores da Revolução dos Cravos.
[3] O salário mínimo vigente
(desde 01/05/1975) era de Cr$ 532,80 (Decreto 75.679/75). O Brasil era
governado pelo general Ernesto Geisel (Leia a entrevista do
presidente Geisel a uma televisão francesa). Em valores de 09/07/2023, o salário atualizado é de R$ 1.320,00. O professor português estaria ganhando, na USP, hoje, o equivalente a R$ 62.933,06 (cálculos feitos pelo índice IGP-DI), ou 32 salários mínimos da época (em salário mínimo atual seriam aproximadamente R$ 42.000,00. Neste ponto, ele compara o altíssimo salário da USP comparado ao salário da UFRJ. Em 1975, um Opala custava 64 mil cruzeiros.
[4] Fábula de Esopo. Leia aqui:
http://metaforas.com.br/o-parto-da-montanha .
[5] O que, pelo cálculo esboçado na nota 3, equivaleria hoje a R$ 14.384,70. Ora, o professor ganhava, então, 7,5 salários mínimos. Nesta medida, para a realidade de 2023, o valor (presumidamente líquido) seria de R$ 9.900,00. Então, escolha: atualize pelo IGP-DI ou pelo valor do salário mínimo. Em todo o caso, pode parecer baixo para um docente de tal quilate, mas dá pra pagar as contas. O problema, hoje, são os altos salários do Ministério Público e do Judiciário, tanto na esfera federal, quanto na estadual.
[6] Moniz de Aragão: Biografia no sítio da
Academia Nacional de Medicina.
[7] CRUB – Conselho de Reitores
das Universidades Brasileiras, criado em 30 de abril de 1966.
[8] Na data do discurso,
Afrânio Coutinho tinha 64 anos de idade.
[9] COPERTIDE - Comissão Permanente do Regime de Dedicação
Exclusiva, a ser instituída em cada universidade, de acordo com o art. 19, caput, da
Lei 5.539, de 27/11/1968.
[10] Christopher Caudwell
(1907-1937), que escreveu “Studies in a Dying Culture”.
[11] Talvez uma referência ao Decreto-Lei 464, de
11.2.1969,
que emendou a Lei 5.540, de 28.11.1968.


