"Numa casinha branca, lá no sítio do
Pica-pau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se dona Benta.
Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e
óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:
— Que tristeza viver assim tão sozinha
neste deserto...
Mas engana-se."
Uma velhinha, de mais de 60 anos... O
livro fora escrito em 1931. A expectativa de vida do brasileiro passou a ser
analisada a partir de 1940, mas acredito que a qualidade era duvidosa. Em 1940,
a expectativa de vida da população era de 45,5 anos. Hoje em dia (2013), é de
73,4 anos, conforme figura abaixo (a partir de pesquisa da UFRGS):
Então, em 1931 (a levarmos em conta os
dados de 1940), Dona Benta seria uma macróbia, já que estava a mais de 15
do teto do esperado.
Nos dias atuais, a vida do idoso melhorou,
os brasileiros vivem mais, por razões diversas como melhoria na qualidade da
saúde pública (queda na morbidade, isto é, pessoas adoecem menos), etc. Bom,
melhor saber o que pensa Juarez Oliveira, do IBGE. (link no
nome da autoridade).
Mas será que vivendo mais a população está
mais feliz? Será que nossos velhos estão melhor? O Brasil é tão grande que cabe
a pergunta: De que área você está falando?
Deve-se, principalmente em grandes
centros, buscar evitar-se a violência contra os idosos.
Que vivamos mais, mas seria bom que fosse
melhor, cada vez melhor.
Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.
Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.
Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.
Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.
Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.
Cecília Meireles, in 'Poemas (1958)'
Lembra-te
do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e
cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento;
Antes
que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as
nuvens depois da chuva;
No
dia em que tremerem os guardas da casa, e se encurvarem os homens fortes, e
cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas
janelas;
E
as portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar
à voz das aves, e todas as filhas da música se abaterem.
Como
também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a
amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se
vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça;
Antes
que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o
cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço,
E
o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.