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21 abril 2023

Será crime um branco não ter amigos negros para mostrar? - JOÃO PEREIRA COUTINHO


FOLHA DE SP - 09/08

Ah, a experiência! Os colunistas são como certos cachorros de caça. A presa ainda não apareceu no horizonte. Mas os nossos caninos já estão espumando de excitação.

Exemplo: dias atrás, li uma excelente entrevista de Jonathan Franzen à "Slate". Gosto de Franzen. Conheci-o pela primeira vez em 2002, talvez 2003, em livro de ensaios que recomendo ("Como Ficar Sozinho", Companhia das Letras). Depois, provei os romances. Também recomendo, embora "As Correções" (Companhia das Letras) me pareça bem melhor que os seguintes.

Mas regresso à entrevista. E aos meus caninos. A certa altura, o entrevistador pergunta a Franzen se ele nunca pensou em escrever um romance sobre os conflitos raciais que correm pelos Estados Unidos. A pergunta é absurda: um escritor não tem que escrever sobre os temas que interessam ao entrevistador –e isso revela a decadência cultural do jornalismo contemporâneo.

Franzen escutou a pergunta, meditou e finalmente respondeu, embaraçado: "Não tenho muitos amigos negros", um eufemismo para dizer que não tem nenhum. E depois, com honestidade, concluiu: só devemos escrever sobre realidades que conhecemos bem.

Terminei essa parte da entrevista com duas perguntas a balançar no trapézio.

A primeira foi questionar se também eu tenho amigos negros. Não tenho. Existem conhecidos, colegas, amigos de amigos. Mas não tenho no portfólio um exemplar para mostrar. Razões?

Nenhuma em especial. Nunca aconteceu. O destino, nessas matérias, tem uma palavra importante. E, além disso, eu ainda respeito o significado profundo da palavra "amigo". São três ou quatro e ponto final. Por acaso, todos brancos.

Mas a segunda pergunta é mais relevante que a primeira e foi ela que despertou o meu faro: depois da confissão de Franzen, esperei pelas críticas das brigadas. Que logo surgiram, para confirmarem o meu instinto.

No inglês "The Guardian", a escritora Lindy West resumiu o estado da arte: Franzen faz parte da esmagadora maioria de americanos brancos (75%, segundo um estudo do Public Religion Research Institute) que não tem amigos de outras raças. Franzen seria, na linguagem erudita de West, um caso de "auto-segregação": um escritor que se esconde na sua bolha de privilégio e que nunca mostrou interesse em ter amigos negros.

Ponto prévio: se a cifra está correta (75% de brancos sem amigos de outras raças), é óbvio que existem dois planetas distintos nos Estados Unidos quando os negros representam 12% da população (estimativa conservadora).

A pobreza tem aqui a palavra central, admito: nas nossas vidas cotidianas, tendemos a cultivar "relações de classe". Se os brancos são mais afluentes que os negros, é normal que os brancos tenham amigos brancos.

Por outro lado, já não será tão normal viver em grandes cidades –como Nova York, Chicago ou Los Angeles– sem amigos negros que habitam a mesma classe média. Mas será que isso constitui um crime? Ou, pelo menos, uma falha de caráter?

A escritora acredita que sim. E, na sua cabeça pequena, não lhe ocorre a possibilidade singela de Franzen não ter amigos negros porque nunca os encontrou.

Para Lindy West, a raiz do desencontro está na pigmentação da pele; mas como excluir, com dogmatismo infantil, a importância das afinidades culturais, dos interesses comuns ou até dos acasos biográficos ou geográficos?

Finalmente, e em verdadeira paródia ao conceito de "amizade", Lindy West questiona por que motivo Franzen não faz um esforço para procurar amigos negros. "Amizade", para ela, é uma espécie de jardim zoológico privado onde temos o amigo negro na jaula 1; o asiático na jaula 2; o hispânico na jaula 3; o samoano na jaula 4; e, já agora, o índio na jaula 5. Parafraseando os existencialistas, a aparência precede a essência.

É um caminho. Claro que esse conceito de amizade também pode ser problemático: se a ONU tem 193 Estados membros, uma amizade verdadeiramente inclusiva deve transcender as fronteiras do país e abraçar o mundo inteiro. Ou somos cosmopolitas, ou não somos nada.

Prometo que vou fazer um esforço: amanhã começo na letra A – com um amigo afegão– e só descanso quando chegar ao Zimbábue.



02 agosto 2016

Espiritualista garantiu que serei presidente, afirma Maluf


FOLHA DE S. PAULO, Terça-feira, 1º de janeiro de 1985, pág. 5

O candidato indireto do PDS à Presidência da República, deputado Paulo Maluf, 53 anos, admitiu ontem, implicitamente, sua derrota no Colégio Eleitoral[1], ao revelar a consulta que fez ao médico espiritualista baiano Newton Pinto, há um ano, indicando, pela leitura do seu polegar direito, que “se não for presidente agora, será na próxima vez”. Maluf disse que o médico “encontrou no polegar de minha mão direita a cruz de São Sebastião, só encontrada em uma pessoa entre 100 milhões[2], e que é a cruz da Presidência”. 

Queixando-se das emissoras de televisão que teriam excluído das retrospectivas de 1984 prognósticos de ocultistas favoráveis à sua candidatura no Colégio, Maluf admitiu sua derrota em vários outros momentos de sua entrevista, concedida às 11 horas, no escritório da avenida Europa. Disse, por exemplo, que continuará dando 18 horas do seu tempo “à política” e que “qualquer que seja o cargo que venha a ocupar”, continuará “ensinando algo ao povo, sem querer ser messiânico”. 

Maluf disse também esperar, no Colégio, o voto de Nelson Marchezan[3] (“não acredito que ficará contra as bases partidárias”) e que, embora seu bloco possa ter candidato à presidência da Câmara, apóia a candidatura do deputado Alencar Furtado (PMDB-PR), “uma vez que a classe política tem uma dívida a ser resgatada com ele e o primeiro voto que deve receber deve ser o de Ulysses Guimarães, o que seria um mínimo gesto de solidariedade”. 

Outro tema do candidato do PDS foi o suposto desaparecimento da ficha médica de Tancredo Neves dos computadores do serviço de saúde do Congresso. Maluf afirmou que “tem todos os dados a respeito”, mas que “isto é algo que não lhe compete revelar”. Desejou “mais 30 anos de vida para Tancredo”, mas observou que sabe tudo “sobre o caso da ficha”. 



FONTE: Acervo Folha


NOTAS________________________________________________


[1] Em 15/01/1985, Tancredo Neves (PMDB) ganhou a eleição indireta para Presidente da República. Tancredo só conseguiu a maioria com o apoio da Frente Liberal (que viria a ser o PFL), dissidência do PDS de Paulo Maluf. Tancredo obteve 480 votos e Maluf, 180 votos.
[2] O Censo Demográfico de 1980 totalizou 119 002 706 habitantes. Informação apenas por curiosidade.

























FIM

26 outubro 2013

Pesquisa com animais - Folha de São Paulo


É certo usar animais em pesquisas científicas? Confira as opiniões do coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, José Medina Pestana, a favor, (http://folha.com/no1362308) e do rabino da Congregação Judaica do Brasil no Rio de Janeiro, Nilton Bonder, contra (http://folha.com/no1362320) a prática.


Fonte: Folha de São Paulo, via Facebook
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