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23 fevereiro 2023

A suposta prostituição de Dona Marcela


A primeira-dama Marcela Temer foi comparada a uma prostituta pela mídia. Uma mulher fiel e recatada hoje é "inferior" a uma prostituta.

Carlos Ramalhete



Até o momento em que escrevo – 25.X.2016 – o Brasil teve duas primeiras-damas belíssimas, Dona Maria Teresa Goulart e Dona Marcela Temer. Curiosamente, como o marido da primeira era de esquerda ela é ignorada ou elogiada pela imprensa de hoje, que tanto pende àquela direção que mais parece ter a perna esquerda muito mais curta que a direita. Mentira tem perna curta, mesmo, mas cria eu serem ambas no caso. Já Dona Marcela é chamada de tudo quanto é besteira, não só pela imprensa quanto pelas hordas de minions avermelhados que replicam farsescamente o bestialógico vomitado primeiramente pelas plumas de aluguel da grande imprensa.

Se a grande imprensa ridiculariza a primeira-dama, tratando-a ironicamente como “bela, recatada e do lar” por crer erroneamente na universalidade das conotações negativas que têm entre as esquerdas a beleza, o recato e – horresco referens! – o lar, os minions vermelhudinhos das redes sociais, diferenciados dos MAVs por cumprirem seu papel por pura estupidez servil, sem treinamento nem pagamento, vão bem mais longe.

Eu, pessoalmente, acho divertido, porque assim eles me dão ensejo a digressões completamente alheias ao cerne dos fatos políticos, como a que ora estalo os dedos para escrever, podendo ilustrá-la com belas fotos de Dona Marcela e ainda ridicularizar um pouco os tão merecedores minions escarlate (enquanto no início dos tempos atuais o Pimpinela Escarlate salvaria nobres dos selvagens fazendo-se de playboy, em seus estertores os minions escarlate gritam “mas é mesmo uma pywtta” a cada vez que têm o desprazer de ver uma mulher que jamais olharia para eles sem fazer uma deliciosa carinha de nojo, correndo em seguida à revista Playboy para celebrar mais uma tentativa inconclusa de reprodução).

Partamos, pois, alegremente, a explicar de onde vem que não só os “minions” vesmelhusquinhos, mas também suas consortes “mínimas”, de vasta cobertura tricóide subaxilar, consigam inventar isso de Dona Marcela ser prostituta. Dir-se-ia tratar-se de mera reclamação de preço – ela seria uma prostituta fora do alcance do proletariado concursado que ganha apenasmente seus vinte mil temers por mês para falar asneiras a público cativo nas arrã, “universidades (!)”, arrã-arrã, “públicas (?!)” arrã-arrã-arrã, “brasileiras (??!!). Mas não. Mais ainda quando, como já foi apontado magistralmente neste mesmo sítio internético, todos os minions esquerdunculóides têm o reflexo condicionado de dizer “prostitutas são pessoas maravilhosas e o melhor exemplo de vida” sempre que ouvem referências a elas, até mesmo tratando apenas de questões de filiação no contexto de brigas de trânsito. Não, não mesmo.

A resposta está alhures, sendo fartamente encontradiça nos rituais de reprodução de “minions” e “mínimas” enrubescentes.

Sabemos todos, ou ao menos sabemos todos os que temos algum sucesso que seja no trato com o sexo oposto, seja esta sapiência consciente ou não, que todas as mulheres procuram uma única coisa e todos os homens uma outra única coisa, em nada equivalente, e daí os mal-entendidos constantes entre ambas estas espécies. O problema é que aquilo que elas querem, na clássica questão freudiana ou na prática, pode ter milhões de formas díspares, enquanto o que os homens queremos é bem menos multiforme. Explico.

Quando Papai do Céu nos criou, cerca de 5777 anos atrás pela contagem dos judeus (que os cristãos não são bobos de se meter a contar muito a sério essas coisas, que só servem para atrair comentaristas que escrevem tudo em capislóque), Ele nos fez homem e mulher, mas, mais ainda, Ele nos fez membros de tribos de caçadores-coletores. Assim, o que interessa naturalmente ao homem, aquilo que está no hardware masculino, é a condição que garante que a moça desejada vá conseguir carregar seu filho até o fim da gravidez e sobreviver pra tomar conta dele até ele se virar por conta própria. Não se trata da capacidade de ser irritante ao reclamar da torneira pingando, nem de autossuficiência (numa tribo de caçadores-coletores sequer existe palavra para isso. Em português mesmo a ideia é tão recente que precisamos juntar duas palavras para enunciá-la). 

Trata-se, senhoras e senhores, por incrível que possa parecer, de saúde. Simples assim.

O homem vai procurar uma moça jovem, porque jovens são a priori mais saudáveis (cabelos amarelos indicam baixa idade em muitos grupamentos), vai querer que ela faça oingo-boingo nos lugares certos quando anda, que seja simétrica de rosto e de corpo, que cheire bem, que tenha bons quadris largos de parideira e fartas tetas de amamentadora, e por aí vai. Quem iria imaginar, hein?

É claro que pode haver, e há, farta interferência nesse processo vinda de outros níveis de funcionamento do homem: o social (que vai fazer com que haja quem ache legais essas sobrancelhas de palhacinho à la Marcos Feliciano com que algumas moças andam se enfeiando, por exemplo, ou que seja atraído por mocinhas esquálidas que mais lembram aspargos desidratados) e o sobrenatural (a graça divina de não se casar com aquelas moças que se tomarem banho quente viram canja) são os principais entre eles.

Já a mulher, ah, a mulher… Já dizia Tom Jobim, a “mulher é outro bicho”. Ela vai procurar o sujeito que garanta que o filho dela ainda tenha pai vivo quando nascer depois de longos nove meses, e que consiga manter inteiros ela e o moleque até que seja o moleque quem bate na porta e mata o desavisado, como numa propaganda de seriado. E o que é isso, num contexto de caçadores-coletores? É, amiguinhos e amiguinhas, uma cousa assaz simples: é o poder.

Toda mulher busca o poder. É por isso que ela tem essa capacidade espantosa de perceber assim que entra num recinto quem gosta de quem, quem tem inveja de quem, quem gostava de alguém e brigou etc. É por isso que elas ficam falando disso (sem jamais contar tudo, claro) por horas a fio, e é por isso que elas têm inimigas íntimas, não amigas de verdade (no sentido masculino do termo). Deus as criou especialmente antenadas na hierarquia social para que elas pudessem apostar no macho cuja liderança duraria mais, no cara que não estava às beiras de ser estraçalhado numa cerimônia que o Freud descreveu feito a cara peluda dele etc.

Mas o poder, dir-me-iam vossas augustas excelências, é algo iminentemente social. O poder ocorre, lembrar-me-iam os senhores, dentro de várias hierarquias sociais simultâneas, com o detentor de poder num dado nível numa dada hierarquia sendo ao mesmo tempo detentor de poder de outro nível noutra hierarquia. O cara que no clube de suíngue manda muito, por exemplo, na boca de fumo apanha na cara e ainda sai de lá com o apelido de Cornélio tatuado na testa. Responder-vos-ia eu que isso faz com que o componente social que se soma à base natural da busca de parceiro pela moça vá necessariamente ser muitíssimo mais forte que entre os homens. Toda mulher busca poder, mas…

O que é poder?

Para uma determinada moça é a força física: o corpo esculpido por horas de malhação e litros de esteróides até o pingulim do moço ficar microscópico e o bíceps dar três do cérebro.

Para outra moça, é a segurança de o cara ser o dono do mercadinho do bairro desde que ela nasceu e sempre votar no candidato que ganha.

Para ainda outra, é a fortaleza de alma do cara que manda todo mundo às favas e vai viver de vender pulseiras de miçanga, com o calcanhar todo rachado, dormindo no mesmo calçadão em que oferece sua “arte” (sim, senhores, hippies de praça têm uma vida amorosa bastante intensa).

Para ainda uma outra, poder é o dinheiro que ela nunca teve (e, por isso, escapa-lhe completamente que se Dona Marcela suspirar dizendo “o Havaí é lindo” aparecerão magicamente em seu belo colo passagens gratuitas de primeira classe com tudo incluído para o Havaí para a família toda, e ela terá o desprazer de ter que dizer “não quero”).

Para outra, ainda, poder é a aparência e a emoção, e um cara que cometa estelionatos em série para andar de Mercedes é o ideal.

Para outra, tadinha, o poder que conta é o do intelecto, e ela ficará embevecida ouvindo e lendo a produção de seu amado enquanto cozinha o fígado de galinha com arroz classe C que foi o que deu pra comprar este mês. Essa casa com professores e intelectuais, inclusive comunistas. Depende só de quem chegar primeiro.

E, finalmente, para outra o que conta é o poder em estado bruto: “Pois também eu sou um homem sujeito a outro, tendo soldados às minhas ordens, e digo a um: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isso, e ele o faz.” (Mt 8,8-9). Foi esta a sagaz escolha de Dona Marcela. Ao invés de buscar o poder em seus sucedâneos e sinais, ela o buscou – e encontrou – em estado bruto, e usou provavelmente também de maneira farta de seu próprio poder de mulher núbil e belíssima para conquistar o coraçãozinho seco do poderoso chefão que veio a tornar-se o Presidento.

Mas as mulheres não entendem os poderes que as demais reconhecem, e chamam de prostituta à que reconhece o poder do dinheiro, de louca ou porca a que se casa com o intelectual ou com o hippie da praça, de interesseira à mulher do estelionatário ou do dono do armazém, de imediatista e carnal à que se casa com aquele que se fez eunuco pelo reino de Schwarzenegger. A outra origem do triste epíteto de prostituta é a visão marxista, que deturpa a sociedade ao ponto de ver relações “de classe” – uma besteira artificial e irreal – como as únicas verdadeiras, fazendo com que qualquer tipo de fidelidade a alguém de classe “superior” seja percebida como “prostituição” por supostamente violar as lealdades de classe em favor de uma lealdade individualista que sabotaria a própria classe. Ou seja: para esses imbecis furunculosos, Dona Marcela seria prostituta na exata medida em que fosse fiel ao marido. Valha-me Deus!

A prostituta, no senso estrito do termo, de modo geral é a mulher que após ter sido abusada sexualmente na infância tornou-se incapaz de unir sexo e emoção (no contexto é a única resposta que pode evitar que enlouqueça) e, por aparentemente não ter as emoções afetadas pelo aluguel por hora do próprio corpo, considera que aquele é apenas um emprego que paga melhor que caixa de supermercado. Normalmente, na cabeça dela, inclusive, é um emprego “de esperar marido”, e o sonho dela é que venha um sujeito com o tipo de poder que ela reconhece e a leve para casa. Pobrezinha; cada dia que ela passa nessa linha de trabalho diminui tremendamente as chances de isso um dia ocorrer.

São as “vadias” e feministas, as “mínimas” rubrevascas, todavia, que mais incentivam a criação real de prostitutas de verdade, que elas mesmas no fundo sabem ser algo muito distinto da distinta Dona Marcela. Elas o fazem pela hipersexualização da criança, que aumenta tremendamente o risco dos abusos que estão na origem da maioria dos casos de prostituição. Elas o fazem por pregar como normal e mesmo desejável que haja uma muralha entre o sexo e a emoção, como as pobres prostitutas criaram por sobrevivência.

E, finalmente, elas o fazem por pregar que a mulher jamais deveria unir-se verdadeiramente em matrimônio, sim afogar seus sonhos naturais e viver, dia após dia, a tristeza e a solidão desesperada da prostituta. Que Deus tenha piedade delas.


25 maio 2016

A escravidão da mulher



Por Carlos Ramalhete

A maior vítima do mundo moderno – fruto das revoluções Industrial e Francesa – foi indubitavelmente a mulher. A nova sociedade burguesa, separando o local de trabalho do de moradia, não apenas forçou as mulheres a uma dupla jornada, como as tornou duplamente prisioneiras. A casa, não mais um local de produção como nas eras agrárias anteriores, tornou-se uma gaiola onde se condena as mulheres a passar a vida espanando, varrendo e cuidando de um espaço ínfimo e fechado. Ao mesmo tempo, as que foram forçadas ao trabalho externo – predominantemente nas classes baixas – passaram a ter de abandonar os filhos e o lar para ajudar o marido a levar pão para casa.

Esta situação insustentável durou da virada do século 19 a meados do século passado, gerando o feminismo, solução errada para um problema real. Mulheres de classe média, desinteressadas por homens ao ponto de adotar como lema “a mulher precisa de um homem tanto quanto um peixe de uma bicicleta”, as primeiras líderes feministas esforçaram-se não por reconstruir um espaço para o feminino no mundo, mas por masculinizar a mulher.

Sua tacanha visão burguesa, limitada ao exíguo lar de classe média, fê-las ver com inveja a dupla escravidão da mulher de classe baixa e instar suas seguidoras a lançar-se ao famigerado “mercado de trabalho”, adotando, elas também, a dupla jornada.

Conseguiram. Hoje não apenas se espera que a mulher pobre seja forçada a um emprego tão pouco recompensador quanto operar o caixa de um supermercado, como se faz o mesmo com a mulher de classe média. Desde cedo ela é incentivada a procurar uma profissão rentável, a tornar-se uma profissional independente.

Ora, é tão trágico que a mulher seja independente como que o homem o seja. Um depende do outro. A interdependência do matrimônio, já ferida pela sociedade burguesa ao arrancar o homem do lar para ir ganhar o seu pão longe dele, sofreu um golpe ainda mais feroz. E este golpe é ainda mais doloroso, por ir contra as lealdades naturais da mulher. Um homem suporta, a contragosto, separar-se da família por todo o dia. Para uma mulher, abandonar seus filhos é negar sua razão de ser.

Urge aproveitar as oportunidades geradas pela sociedade pós-industrial para recriar a forma natural de produção, em que cada lar é uma sociedade não apenas de vida, como de produção e comércio. Maridos e mulheres, trabalhando juntos e educando os filhos na sua profissão, formam uma microssociedade muito mais feliz e realmente independente que qualquer delírio feminista.




Publicado no jornal Gazeta do Povo.


Carlos Ramalhete é professor.



04 maio 2016

Crueldade prática

ESCRITO POR CARLOS RAMALHETE | 05 MAIO 2016 

Lucas Pereira, assassinado por pervertidos.


Como seria bom não ter razão!
Semana retrasada, descrevi na minha coluna semanal na Gazeta do Povo a crueldade criminosa das instituições internacionalistas de fartíssimos bolsos que ora combatem a família, que corretamente percebem como enorme obstáculo à dominação ditatorial de toda a sociedade de que ela é a base. Entre tantos outros grupos, vitimam as pobres pessoas que da noite para o dia se convencionou chamar “transexuais”, aproveitando-se de seus problemas de identidade e autoestima para convencê-los não apenas de que são o que não são, como que devem esperar que toda a sociedade partilhe de seus delírios e os trate como membros do sexo oposto.
É uma campanha extremamente bem financiada, que opera coordenadamente em nível mundial. Basta ver, por exemplo, como na imprensa tanto brasileira quanto estrangeira subitamente virou prática corrente referir-se a travestis no feminino, dizer que eles são “mulheres” e fingir espanto quando a eles não se estendem os privilégios sociais femininos. Algo que há pouquíssimo tempo atrás seria absurdo e impensável, ou mesmo ridículo — a “feminilidade” de travestis! — passou instantaneamente a fato da vida, lei da natureza, evidência evidente, obviedade ululante e saltitante, com 1m80, barba por fazer e maquiagem pesada. Travestis sempre foram o oposto diametral da mulher, por razões sem fim: a impossibilidade essencial (e estética!) de fazer de um homem uma mulher; a absurda substituição do natural acolhimento do sistema reprodutivo pela violação da extremidade final de um sistema excretor, literalmente trocando a vida pelas fezes e a sucessão das gerações pela descarga do vaso sanitário; a caricata releitura exagerada do feminino feita pelos travestis, em última instância de tal machismo e grosseria que fariam qualquer cavalheiro digno deste nome se revoltar… O absurdo da proposta é evidente. É dizer que o preto é branco, que o sol é escuro, que a água é seca, que o fogo é gelado. O feminino e masculino são componentes essenciais de toda a Criação, e é da união deles que persiste a vida.
Mas subitamente não se trata mais de meramente respeitar a dignidade humana dos travestis, de tratá-los como se tratam as demais pessoas com problemas de identidade. Não: agora é preciso acreditar que, sabe-se lá como, travestis passaram subitamente a ser mulheres! Mulheres de verdade, tão mulheres quanto qualquer mãe de família. Com isso, travestis ganharam até mesmo o “direito” de espancar mulheres em ringues de luta, como no caso de Boyd Burton, um pai de família, ex-marinheiro e ex-caminhoneiro que decidiu virar mulher e fez alterações cirúrgicas na Tailândia para parecer uma, trocou o nome para “Fallon Fox” e passou a competir com as mulheres, covardemente surrando-as em campeonatos de MMA.
O espaço em que as mulheres sempre puderam abaixar um pouco a guarda por ser lá proibida a presença masculina, os banheiros femininos, também já foi invadido por homens travestidos. A campanha foi tão violenta e súbita que nos EUA ela se transformou numa guerra jurídico-cultural, com leis proibindo e afirmando o uso de banheiros femininos por homens, estrelas do rock falando asneiras e boicotando lugares com leis “erradas”, e tudo o mais de que a mídia gosta.
As vítimas da campanha, evidentemente, são as de sempre: os mais fracos, no caso as mulheres e os doentes mentais. O caso destes, todavia, talvez seja ainda mais grave que o delas. Afinal, uma mulher normal tem meios próprios para desvencilhar-se da maior parte dos ataques e desrespeitos, muitas vezes virando-os em seu próprio favor. É inconveniente e desrespeitoso tirar delas seu santuário — para ir onde mais elas se levantariam em bando da mesa do bar? –, mas não é provável que nada muito ruim venha a acontecer. Um mal muito maior é causado pela proibição de instrumentos de autodefesa, como armas de fogo, muito mais necessários e úteis para mulheres que para homens, pela diferença de força física e de interesses de eventuais atacantes. Afinal, quem me atacar há de querer meu dinheiro, e provavelmente será mais ou menos tão forte quanto eu; quem ataca uma mulher pode querer muito mais que dinheiro, e normalmente será bem mais forte que ela. Ela precisa mais de uma arma que eu.
Problemas de identidade sexual são sempre um prato cheio para predadores sexuais de todos os matizes, contudo, e são raros os casos em que o incentivo ao travestismo e à autoilusão identitária não leva suas vítimas a situações de exploração e violência desordenada. Pessoas com problemas de identidade têm dificuldade em perceber não apenas quem elas mesmas são, mas também o que é o mundo em torno. Suas respostas são muitas vezes desproporcionais, e suas carências as tornam presas fáceis para aproveitadores de todos os tipos e matizes, do financeiro ao sexual, do proxeneta ao estelionatário, do tarado ao vendedor de carros usados ou falso-moedeiro.
Um caso exemplar no seu horror e crueldade foi o bárbaro assassinato no norte do Paraná de Lucas Pereira, um rapazinho de 14 anos de idade, por quatro de seus parceiros de orgia homossexual. Algumas notícias dizem que ele se prostituiria; outras, que a confusão teria começado por um dos outros rapazes ter tentado pagar o programa, ironicamente, com uma nota falsa. Todas, todavia, apressaram-se em apresentar o rapazinho assassinado como “a mulher transexual Luana Biersack”. Ora, isso é escarnecer duplamente de quem já foi tão vitimado!
Foi o delírio da mídia, repetindo como papagaios treinados as palavras de ordem que vêm do exterior, que usou esse menino como bucha de canhão, mastigou-o, cuspiu-o e esfregou o pé em cima. Numa cidadezinha de 3 mil habitantes, convencer um rapazinho dessa idade a exacerbar suas confusões identitárias ao ponto de declarar-se pertencente ao sexo oposto é fazer dele presa fácil e garantida para os piores predadores, para os maiores depravados da região. Os predadores mais perigosos não são, ao contrário do que gostaríamos de crer, pessoas cuja maldade está estampada no rosto. Não, muito pelo contrário; são muitas vezes pessoas que parecem ser cidadãos acima de qualquer suspeita, mas que ao saber que em tal cidadezinha a 50 km de distância há um rapazinho de 14 anos de idade que, na sua loucura, convenceu-se de ser uma mulher, ficam imediatamente animados e entram no carro em busca de uma oportunidade de aproveitar-se sexualmente dele.
Não se trata de “homofobia” nem de qualquer outra besteira do discurso da moda. Afinal, para que haja interesse sexual por um rapaz passivo, o participante ativo da relação deve, ele ainda mais que o passivo, excitar-se por pessoas do mesmo sexo, o que é a própria definição de “homossexual”! O passivo pode ser estuprado sem excitação ou prazer algum, mas o ativo precisa necessariamente ter interesse sexual para conseguir perpetrar a violação. Comprovando o que digo, aliás, li que o pobre rapaz de quem falo já havia sido, ainda segundo as notícias, vítima de abusos por parte de um conselheiro tutelar de outra cidade que não a sua, ora foragido. Provavelmente trata-se de um predador sexual que buscara ativamente a posição de conselheiro tutelar, como outros buscam as de professor ou médico, justamente para ter acesso a presas fáceis: rapazezinhos confusos e em dificuldades, que acabam caindo nas mãos de conselhos tutelares e demais organismos de ajuda. Todos os predadores da região certamente ouriçaram-se ao saber da existência e dos delírios do pobre Lucas, e não tardaram nada em procurá-lo. Não duvido nada que sua confusão mental fosse tamanha que percebesse os abusos repetidos como atos de amor e carinho, ou no máximo como forma de diversão ou de expressão de sua confusa individualidade, alternando a euforia com comportamentos abertamente autodestrutivos sem perceber que é tudo uma só coisa. É um quadro clássico, e quem quer que já tenha trabalhado na rua o conhece.
Numa megalópole como Rio de Janeiro e São Paulo, paradoxalmente, um rapaz como ele correria menos risco. Afinal, como já disse Carlos Drummond de Andrade, os habitantes das cidades grandes têm o privilégio do anonimato. Um rapaz confuso sexualmente ou uma mocinha anoréxica, um obeso mórbido ou uma exibicionista, conseguem viver na megalópole sem grandes riscos ao limitar a exposição de seus problemas a alguns ambientes. Já no interior, não há como evitar que o que se faz aqui seja sabido ali. Não há anonimato, não há intimidade como a que se pode ter na cidade grande. Um rapaz nas tristes circunstâncias do pobre Lucas, assim como uma mocinha exibicionista, tornam-se conhecidos não apenas na cidade, mas em toda a região, e atraem pervertidos e depravados que os colocam em risco imediato em todo lugar e a qualquer momento.
É isto que torna ainda mais grave a culpa dos responsáveis por campanhas como estas. Dizer a rapazes confusos e problemáticos que eles são moças, bem como dizer a moças confusas e problemáticas que elas devem andar pelas ruas com os peitos de fora e frases pintadas no corpo, são maneiras de usar como bucha de canhão pessoas com problemas mentais sérios, que merecem e precisam de auxílio e compaixão, não de incentivo à autodestruição.
Rapazezinhos de 14 anos são necessariamente seres confusos em muitos, quase todos, os planos. São pessoas que estão aprendendo na marra quem são e a que vieram. Usá-los como ferramenta descartável para enfraquecer a união familiar que defende a sociedade dos aspirantes a tirano não é apenas errado e subversivo: é cruel e assassino. Quem fingiu ajudar o Lucas o matou, e quem fingiu acolhê-lo o enlouqueceu.
Que Deus, que o ama de verdade, o acolha e tenha piedade de sua alma; a piedade que os ativistas não tiveram nem de sua alma nem de seu corpo, estuprando-os ambos, mastigando-os e cuspindo-os ambos como materiais descartáveis gastos na construção da estrada rumo a uma distopia impossível. Lembremo-nos deste rapaz em nossas orações.




Carlos Ramalhete é professor.




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