Se pensássemos em termos de lógica humana, a
teóloga alemã Eta Linnemann (1926 – 2009) jamais se tornaria uma crente
autêntica, tampouco uma defensora da inerrância bíblica. Nascida e criada no
seio da Igreja Luterana da Alemanha, durante a infância frequentava uma pequena
comunidade, precariamente atendida por jovens pastores iniciantes, e na
adolescência teve aulas de confirmação com um ministro o qual, segundo a
própria Eta, “não era nascido de novo”. Ao final da Segunda Guerra Mundial,
profundamente insatisfeita com a frieza na igreja da qual era membro, a jovem
Eta Linnemann teve seu primeiro contato com um pastor verdadeiramente crente,
que lhe falou sobre conversão. Aquele ensino a despertou para o Evangelho,
levando-a a ler a Bíblia diariamente, e logo sentiu desejo de estudar Teologia.
Com isso, matriculou-se na Universidade de Marburg, onde vivenciou experiências
que afetariam radicalmente a sua vida.
Marburg significava Rudolf Bultmann”,
conforme ela mais tarde sintetizou. O pensamento de Bultmann, famoso teólogo da
neo-ortodoxia (na verdade, neoliberalismo) que rompera com Karl Barth, imperava
naquela Universidade, como em muitas na Alemanha. Ou, em outros termos, ali
reinava o método histórico-crítico de interpretação bíblica, e naquele ambiente
Eta Linnemann teve sua formação teológica, sendo aluna dos mais renomados
teólogos adeptos desta corrente interpretativa, notavelmente liberal. Um
momento marcante para a jovem aluna foi a aula em que o próprio Rudolf
Bultmann, comentando 1Coríntios 15:3-4 (“que Cristo morreu pelos nossos
pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro
dia, segundo as Escrituras”), afirmou: “aqui, Paulo não está no normal de sua
teologia, porque está falando da ressurreição de Jesus Cristo como se fosse um
fato histórico”. Com tais palavras, o mestre procurava retirar do coração de
Eta e demais alunos a crença na ressurreição do Senhor Jesus! Nos anos
seguintes, os teólogos de Marburg, incluindo Bultmann, desconstituíram o ensino
sobre vários outros pontos cruciais das Escrituras, afirmando claramente que
diversas passagens eram mitos, ou adições indevidas de homens motivados por
questões particulares de sua época e circunstância histórica. O lema era “ler a
Bíblia como se Deus não existisse”!
Eta Linnemann foi aluna brilhante,
concluindo seu doutorado sob a orientação de Rudolf Bultmann, tendo como tema
uma crítica no Evangelho de Marcos, e em seguida tornou-se professora de
Teologia, vindo a ser admitida na seleta Sociedade para Estudos do Novo
Testamento, organização composta por destacados teólogos de orientação liberal.
Porém, diante de um aparente sucesso, a teóloga Eta vivia em crescente frustração,
convencida de que todo o seu estudo não a conduzira ao Senhor, nem sequer tinha
utilidade na pregação do Evangelho. Então, ainda em Marburg, orientando alunos
nas dissertações de conclusão de curso, teve o coração novamente aquecido ao
ler a tese de um aluno que relatava milagres recentes acontecidos em igrejas na
África. Como foi estarrecedora aquela notícia, para uma mulher que já não
acreditava em milagres!
Alguns meses depois, ministrando em
uma turma na qual alguns realmente demonstravam evidências de conversão, a
professora Eta foi surpreendida com a notícia de que um pequeno grupo de alunos
começara a orar por ela. Pouco depois, diante de insistentes convites de alunos
para que participasse de reuniões de oração, Eta Linnemann compareceu a um
desses encontros, onde percebeu um claro mover de Deus, que ela reconheceu como
sendo a realidade da justificação pela fé em Cristo. Ela continuou frequentando
reuniões como aquela, cada vez mais tocada pela mensagem da graça de Deus, até
que, numa delas, diante do apelo feito pelo ministrante, para que, se alguém
desejasse entregar a vida a Jesus, erguesse a mão, Eta percebendo a voz do
Senhor, converteu-se ali mesmo. E, sinceramente arrependida de toda a sua
experiência como teóloga bultmanniana adepta do método histórico-crítico, uma
Eta Linnemann já convertida e totalmente transformada passou a frequentar a
Escola Bíblica Dominical de uma igreja cristã, como aluna, com outros crentes
de dezesseis a setenta anos de idade, disposta a aprender as verdades fundamentais
do Evangelho!
Eta Linnemann foi expulsa da
Sociedade para Estudos do Novo Testamento, o grupo de intelectuais de cunho
liberal da Alemanha. Mas não deixou de ser professora universitária de
Teologia. Desde sua conversão, a teóloga Eta, crente em Cristo Jesus, passou a
defender a veracidade, confiabilidade e inerrância das Escrituras, tendo como
um de seus alunos de doutorado o Rev. Augustus Nicodemus Lopes, pastor,
professor e teólogo brasileiro igualmente defensor da supremacia bíblica. Além
disso, Eta Linnemann escreveu livros nos quais reafirma a inerrância da Bíblia
e contesta o método histórico-crítico. Duas de suas obras foram lançadas em
português pela Editora Cultura Cristã: “A crítica bíblica em julgamento” e
“Crítica histórica da Bíblia”.
A história de Eta Linnemann é um
poderoso testemunho da graça de Deus e do poder do Evangelho para a salvação de
pecadores. Desde a infância, frequentando uma denominação fria, burocrática,
onde se vivia um cristianismo meramente formal, passando por uma escola de
Teologia que, sem exagero, poderia ser descrita como um cemitério da fé cristã,
esta mulher de Deus trilhou caminhos errantes, mesmo em um meio teoricamente
cristão. Foi tentada em seu ego, o que é uma das mais formas de tentação mais
perigosas e difíceis de se resistir. Tudo indicava que seria mais uma famosa e
arrogante teóloga liberal, cercada por admiradores, aplaudida entre os
intelectuais alemães e destinada à condenação eterna. Mas, pela sublime bondade
do Senhor, tornou-se crente e fervorosa defensora da Palavra de Deus. Glórias
sejam dadas ao Todo-Poderoso, que nos surpreende com Sua maravilhosa graça!
Fontes:
Conhecereis a Verdade - blog
Novo Manifesto Reformado - blog
Ministério Cristão Apologético - blog
