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24 janeiro 2017

Donald Trump: discurso de posse na íntegra




Presidente da Suprema Corte, Juiz Roberts; Presidente Carter; Presidente Clinton; Presidente Bush; Presidente Obama; meus concidadãos dos Estados Unidos da América; e cidadãos de todo o mundo; muito obrigado.

Nós, o povo americano, estamos nos unindo hoje em um esforço para reconstruir o nosso país e restaurar a esperança para todos os americanos. Juntos, iremos determinar os rumos da América e influenciar a direção do mundo por muitos e muitos anos. Não tenham dúvidas de que teremos de enfrentar desafios e que momentos difíceis virão, mas nós faremos o que tem de ser feito e alcançaremos êxito e sucesso.

De quatro em quatro anos, nos reunimos nestas escadas para realizar uma transferência pacífica e ordeira do poder e, hoje, somos gratos ao Presidente Obama e à sua esposa, Michelle, pela ajuda que nos ofereceram durante a transição. Meus agradecimentos!

A cerimônia de hoje, entretanto, tem um significado muito especial, pois hoje não estamos assistindo apenas a transferência de poder de um presidente para outro; estamos assistindo a transferência de poder de Washington para vocês, o povo americano.

Por muito tempo, um pequeno grupo encastelado na capital do nosso país desfrutou das benesses do poder, colocando as despesas e os custos desses privilégios sobre as costas cansadas do povo americano.

Washington tem prosperado, mas o povo americano não desfruta dessa prosperidade. A classe política está cada vez mais rica, e o povo cada vez mais pobre. O aparato governamental aumenta e se agigante enquanto os empregos deixam nosso país e nossas indústrias enfrentam a falência ou são levadas para o exterior. O establishment faz de tudo para se proteger, mas não move um dedo para proteger o povo americano, deixando-o desprotegido e sem segurança. Isso mostra que as vitórias do establishment não são as nossas vitórias; que os triunfos do establishment não são os nossos triunfos. Durante anos, enquanto eles celebravam na capital do nosso belo país, no restante do nosso vasto território as famílias americanas sofriam e não não viam qualquer motivo para celebrar.

Isso tudo começa a mudar hoje. Isso tudo começa a mudar agora. Isso tudo começa a mudar aqui. Porque este não é o meu momento, este é o momento de vocês. Este momento pertence a todos vocês, quer vocês tenham votado em mim ou não. Este momento pertence a todos os que estão reunidos aqui hoje, a todos os que estão assistindo a cerimônia ao redor do nosso país e a todos os que não estão assistindo também. Este dia é de vocês. Esta celebração é de vocês. E, de hoje em diante, estes Estados Unidos da América pertencem a vocês — e não mais a uma pequena elite de burocratas.

O que realmente importa não é qual partido controla nosso governo, mas se o governo é controlado pelo povo. O dia 20 de janeiro de 2017 entrará para a história como o dia em que o povo retornou ao poder da nossa grande nação, como o dia em que o povo retomou o controle sobre o governo, que antes estendia os seus tentáculos para controlá-los.

Os homens e mulheres esquecidos do nosso país não mais serão esquecidos ou deixados de lado. Hoje, neste momento, a sua voz está sendo ouvido por todo o mundo.

Vocês se uniram a mim e juntos reunimos dezenas de milhões de pessoas para formar um movimento histórico e sem precedentes. No centro deste movimento está a convicção inegociável de que a existência de uma nação só é justificada na medida em que essa nação serve aos interesses de seus cidadãos.

Os americanos querem a liberdade para escolher as melhores escolas para os seus filhos; a garantia de que viverão em vizinhanças seguras para as suas famílias; e a oportunidade de conquistar grandes empregos para si próprios. Estas são demandas justas e razoáveis feitas por um povo justo e correto. Mas, para muitos americanos, essas demandas estão longe de serem atendidas.

Há incontáveis pais e mães de família sofrendo com a pobreza de seus filhos em nossas cidades; milhares de fábricas abandonadas e enferrujadas em todo o país, nos lembrando do triste estado da nossa economia; nosso sistema educacional, no qual despejamos bilhões de dólares, é incapaz de oferecer o conhecimento e a formação que nossos jovens buscam; e a criminalidade e o banditismo das gangues e do narcotráfico roubam de nós muitas vidas preciosas, deixando nosso país com uma quantidade imensurável de potencial desperdiçado e de sonhos perdidos.

A matança de americanos acaba hoje mesmo. Nós somos uma nação. Nós somos como um corpo indivisível. As dores de cada família que enfrenta a perda de um ente querido é também a nossa dor. As lágrimas de cada americano são também as nossas lágrimas. Os sonhos de cada americano são também os nossos sonhos. Do mesmo modo, o sucesso deles será o nosso sucesso. Nós todos partilhamos de um só coração, de um só lar e agora compartilharemos o mesmo futuro glorioso e próspero. O juramento que fiz hoje é um juramento de absoluta lealdade ao povo americano — a cada um de vocês.

Por muitas décadas, nós enriquecemos indústrias estrangeiras enquanto sacrificávamos indústrias americanas; subsidíamos as forças armadas de outros países enquanto assistíamos ao declínio da nossa potência militar; defendemos as fronteiras de outras nações com as nossas próprias vidas enquanto ignorávamos as nossas próprias fronteiras. Por muito tempo, gastamos trilhões e trilhões de dólares no exterior, investindo na reconstrução de incontáveis países, enquanto assistíamos à nossa infrastrutura se deteriorar e se tornar decadente. Por muito tempo, nos sacrificamos para tornar outros países ricos e prósperos, enquanto víamos a prosperidade, a força e a confiança do nosso país ser dissipada.

Uma a uma, milhares de fábricas foram fechadas e transferidas para países que não respeitam o nosso país, revelando um desdém sem igual pelos milhões e milhões de trabalhadores americanos deixados para trás. Até hoje, a riqueza de nossa classe média foi tirada por meio de impostos e depois distribuída ao redor do mundo, enquanto seus empregos eram roubados e seus valores eram vilipendiados. A partir de hoje, olharemos para o futuro com a certeza de que seremos tão grandes quanto já fomos em nossos melhores dias e que nossa classe média não será mais objeto de desdém ou escárnio.

Todos nós, reunidos aqui hoje, estamos anunciando um decreto que será ouvido em toda cidade e em todas as capitais ao redor do mundo; em todos os salões e em todos os corredores do poder. De hoje em diante, uma nova visão guiará as ações da nossa nação. De hoje em diante, nosso lema será "América Primeiro". Toda e qualquer decisão, toda e qualquer proposta, toda e qualquer política pública, seja no âmbito comercial, no âmbito tributário, no âmbito da política externa ou da imigração, tudo o que fizermos será feito com o trabalhador americano e suas família em nossas mentes; tudo o que fizermos será feito para beneficiá-los.

Nós protegeremos nossa nação e nossas fronteiras; nós protegeremos os nossos interesses de países que desrespeitam a nossa nação, que roubam a propriedade intelectual dos nossos produtos, e que se apoiam em todo tipo de trapaça para roubar nossas empresas e destruir nossos empregos. A proteção das nossas fronteiras e da nossa soberania nos colocará no caminho da prosperidade e fará da nossa nação uma nação forte e poderosa. Eu lutarei por isso e lutarei pelo interesse americano com toda a força, até o último fôlego do meu corpo e farei de tudo para nunca decepcioná-los.

A América voltará a vencer e nós venceremos como nunca antes em nossa história. Nós iremos restaurar nossas fronteiras. Nós iremos restaurar nossos empregos. Nós iremos restaurar nossa prosperidade. Nós restauraremos os nossos sonhos e as nossas esperanças. Nós teremos novas rodovias, novas ferrovias, novas pontes, novos túneis, novos aeroportos, novas estruturas portuárias e veremos nosso país se reerguer. O assistencialismo dos programas sociais darão lugar aos empregos e ao trabalho duro; e nosso país será reconstruído por mãos americanas e pelo suor americano. De hoje em diante, nós seguiremos duas regras simples: compraremos dos Estados Unidos da América e contrataremos americanos.

Evidentemente, buscaremos a amizade e as boas relações com as nações de todo o mundo, mas faremos isso com a consciência e a convicção de que toda nação tem o direito e o dever de colocar seus próprios interesses no topo de suas prioridades. Não desejamos impor nosso estilo de vida a ninguém, mas o exibiremos como um exemplo brilhante a ser seguido e imitado por todos os que buscam a prosperidade, a segurança, a estabilidade e a felicidade. Nós iremos na frente, abriremos o caminho com um brilho radiante que todos poderão ver e seguir. Nós reforçaremos nossas antigas alianças e buscaremos novos aliados, unindo o mundo civilizado para erradicar o terrorismo islâmico da face da Terra.

A pedra angular, o alicerce, das nossas políticas será o comprometimento patriótico com a nossa nação e, através da lealdade com o nosso país, redescobriremos a lealdade uns com os outros. Pois quando nossos corações se abrem ao patriotismo, não sobra espaço para os preconceitos e para as divisões, pois lembramos que, antes de mais nada, somos todos americanos.

A Bíblia nos revela o quão bom e agradável é que os filhos de Deus vivam em união. Portanto, devemos dizer o quer quisermos; expressar nossos pensamentos sem temor; debater nossas divergências de forma honesta; mas sempre buscar a solidariedade e a união. Quando a América está unida, a América é invencível.

Não há motivos para temor. Estamos protegidos e sempre estaremos protegidos. Seremos protegidos pelos heróis e heroínas das nossas Forças Armadas, pelos nossos policiais e por todos os agentes de segurança do nosso país; e, acima de tudo, seremos protegidos por Deus.

Por fim, quero lembrá-los que temos de voltar a pensar grande e a sonhar grande. Na América, nós sempre entendemos que uma nação só permanece viva enquanto ela batalha para ir mais longe, para realizar mais do que realizou no passado, para se tornar cada vez mais próspera, mais inteligente, mais forte...

Tenham certeza de uma coisa: nós não iremos falha; nosso país irá progredir e prosperar. Não mais aceitaremos políticos que só sabem falar e que jamais colocam a mão na massa. A era dos discursos vazios chegou ao fim. É chegada a era da ação! É chegada a era de quem se preocupa menos com discursos e mais com resultados!

Não deixem que ninguém os convença de que tudo isso é impossível. Não há desafio grande demais para a luta, para o coração e para o espírito do povo americano. Vocês serão os protagonistas dessa nova era e vocês não irão falhar. Nosso país irá progredir e prosperar novamente.

Este novo milênio está apenas começando, pronto para desvendar os mistérios do universo; para reduzir a miséria e o sofrimento causado por doenças; pronto para trazer à existência as invenções e as tecnologias do futuro. Há muito a se fazer e muito a se conquistar, e o espírito empreendedor americano mais uma vez se revelará superior a qualquer outro. Nós lideraremos na ciência, na tecnologia e na inovação.

Uma nova era de orgulho, que se inicia hoje, renovará os nossos ânimos, levantará nossas cabeças e acabará com as divisões internas que enfrentamos.

Este é o momento e a hora de lembrarmos uma lição que nossos soldados e policiais jamais esquecerão: quer sejamos negros, brancos ou mestiços, todos derramamos o mesmo sangue vermelho dos patriotas, todos gozamos das mesmas liberdades gloriosas que foram conquistadas com esse sangue, e todos honramos nossa grande bandeira.

Quer tenham nascido em meio à expansão urbana de Detroit ou nas planícies de Nebraska, nossas crianças olham para o mesmo céu, alimentam seus corações com os mesmos sonhos e receberam o fôlego da vida do mesmo Criador. Portanto, peço aos americanos de todas as cidades — próximas ou distantes, grandes ou pequenas, de fronteira a fronteira, de oceano a oceano — que ouçam essas palavras: vocês jamais serão ignorados novamente; sua voz, sua esperança e seus sonhos definirão o destino da América; e sua coragem e seu amor guiarão todos nós em nossos desafios e escolhas.

Juntos faremos com que a América seja forte de novo. Juntos faremos com que a América seja próspera de novo. Juntos faremos com que a América seja segura de novo. E, sim, juntos faremos com que a América seja grande de novo.

Muito obrigado a todos. Que Deus abençoe vocês. Que Deus abençoe a todos nós. E que Deus abençoe a América!


Comentário do tradutor, Filipe G. Martins:

MAKE LANGUAGE REAL AGAIN

Traduzi o discurso do Trump para possibilitar que tantas pessoas quanto possível julguem por si próprias as palavras do novo presidente americano. Sei que o texto é um pouco longo e que minha tradução precisa de revisão, mas o discurso foi tão claro e objetivo que alguns minutinhos de leitura bastarão para que você forme uma opinião mais substancial do que a adjetivação histérica oferecida pelo Caio Blinder, pelo Reinaldo Azevedo, pelo Arnaldo Jabor e similares.

Em um mundo acostumado com o achatamento da linguagem, próprio dos discursos construídos por marketeiros e ideólogos, Trump mostrou que é possível usar a linguagem como uma pessoa normal, suprimindo as fórmulas ideológicas para abrir espaço para a realidade, permitindo que esta se revele por conta própria, com uma eloquência que não pode ser ignorada e diante da qual a indiferença deixa de ser uma opção.

O discurso político convencional é feito de sinais de reconhecimento grupal, referências ideológicas, sinalização de virtudes e acenos para a cultura dominante (que é toda de esquerda). Nada disso aparece no discurso do Trump, que optou por preencher seu discurso com referências à experiência do americano médio e aos fatos e coisas da realidade concreta. É por isso que palavras que jamais apareceram em um discurso de posse se fizeram presentes no discurso dele. Uma conferida rápida nessas palavras — que chocam justamente porque dão uma noção clara dos problemas concretos que os EUA e o mundo enfrentam hoje — bastará para dar uma idéia da encrenca que o Trump herdou do Obama: "sangue"; "carnificina"; "empobrecimento"; "enferrujado"; "terrorismo islâmico"; "escarnecer"; dentre outras.

Donald Trump não aceita a camisa-de-força verbal da esquerda ou do establishment, não dá a mínima para o politicamente correto e também não está interessado em discursos anestesiantes. Quer você concorde com ele ou não, what you see is what you get. Ele não desperdiça palavras e não perde tempo com abstrações e, por isso mesmo, está injetando vida nova e uma dose (muito necessária) de realismo no discurso público. De algum modo, Trump está ajudando a devolver a "realidade" para o âmbito da linguagem humana. He is making language real again.



15 outubro 2016

A TRAGÉDIA AMERICANA



Inês Teotónio Pereira (15/10/2016)



As eleições americanas estão a destruir anos e anos de educação. Uma pessoa em casa tenta explicar aos miúdos[1] o que é ser conservador, quem foi Reagan, Thatcher, Sá Carneiro, vá. Mostramos filmes, recomendamos livros, contamos histórias. Percebemos o quanto eles são novos e nós velhos quando perguntam se a queda do Muro foi antes ou depois do 25 de Abril ou quem é Freitas do Amaral. Mas resistimos. E vamos a De Gaulle para chegar a Jean Monnet, a Kennedy para explicar a descolonização, ao Império Otomano, meu Deus, para contextualizar o caos do Médio Oriente. 


De caminho exaltamos os princípios do mundo livre do Ocidente, a génese das raízes judaico-cristãs e esforçamo-nos que nenhuma pergunta fique sem resposta para que a miudagem não se deixe enganar por populismos desonestos vindos da esquerda e da direita. 


E por fim, estoirados, contamos onde estávamos no dia em que o Muro caiu para emprestar a credibilidade que o "eu vi" dá a qualquer história. Mas bem que podemos falar que eles não percebem. É abstração a mais. Para os miúdos toda esta conversa vale zero. Para eles, líderes como aqueles que víamos na televisão, são pré-história ou, na melhor das hipóteses, são conversa de mãe saudosista – coitada. E porquê? Os nossos filhos têm Trump em vez de Reagan ou mesmo de Bush, têm Boris Johnson em vez de Thatcher, Le Pen em vez de Mitterrand e até o fato de treino de Hugo Chávez em vez da farda de Fidel Castro. Da esquerda à direita, os nossos filhos não têm referências, têm humor negro. Os políticos concorrem com a FOX Comedy e ganham. Ora, perante isto é quase impossível explicar o que é um conservador ou um democrata honesto quando aquilo que lhes aparece no YouTube são as enormidades[2] de Trump e as aldrabices[3] de Clinton. Em termos de referências políticas os meus filhos votam em Jimmy Fallon ou nos Simpson. Se Trump não trouxer mais nenhuma tragédia ao mundo pelo menos já deixou esta: ser conservador é hoje sinónimo de palhaço para as novas gerações.






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[1] Crianças pequenas, meninos, pirralhos, filhos.

[2] Disparates, ditos extravagantes. 

[3] Mentiras, patranhas, trapaças.

12 outubro 2016

“Brasileiros, me aguardem” (19/02/2014, Páginas Amarelas de VEJA)

 

Entrevista com Donald Trump, sob o título  “Brasileiros, me aguardem”, reportagem de Monica Weinberg, nas Páginas Amarelas, da Revista Veja, do dia 19 de fevereiro de 2014

O bilionário-celebridade solta a língua e fala sobre Barack Obama, economia, cabelo, poder de sedução (dele, claro) e de sua recente decisão de finalmente investir no Brasil
Por Monica Wainberg, de Nova York


No 26º andar do edifício tomado de espelhos, dourados e mármore cor-de-rosa que mandou erguer em Manhattan na década de 80, o bilionário americano Donald Trump, 67 anos, fez de sua sala uma espécie de museu em que ele, e só ele, é o tema. Centenas de capas de revista promovem um percurso por todas as fases de sua vida, desde quando começou a fazer fortuna com a construção de arranha-céus até os dias de celebridade à frente do show O Aprendiz – está em exposição, inclusive, a capa da Playboy em que ele posa com um vastíssimo topete que faz até onda, aos 43. Ícone do capitalismo nos anos 80, Trump quase quebrou nos 90, mas se reergueu: hoje empresta sua grife a hotéis, campos de golfe e até água mineral. Depois de muito alardear seu interesse pelo Brasil – chegou a anunciar participação em um megalômano resort que minguou por falta de licença ambiental – , agora ele decidiu ir adiante. Vai operar um hotel de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste carioca, com inauguração prevista até 2016. Casado com uma eslovena 24 anos mais nova e ainda topetudo, Trump, que vem ao Rio de Janeiro em março, foi logo avisando: “Tenho a melhor vista de Nova York”.

Há anos o senhor acenava com a possibilidade de fazer negócio no Brasil. Por que só agora decidiu ir em frente? Meus instintos dizem que é um bom momento, e dificilmente eles falham. Sei que o Brasil tem problemas. Para começar, é um país conhecido mundialmente pela alta carga de impostos, o que, vamos combinar, não é uma boa fama, certo? Também acompanhei os protestos na televisão e não posso dizer que achei uma maravilha. Maravilha foi ver o Papa no Rio. Os protestos, não. São sinônimo de incerteza. E incerteza é uma palavra maldita nos negócios. Agora, olho para a frente e vejo uma Copa, uma Olimpíada, uma economia que tem muito por onde crescer e um povo que está melhorando de vida, que quer gastar. Adoro os brasileiros – em especial as brasileiras, mulheres absolutamente incríveis. Acho que posso ensinar alguma coisa a essa gente. Aliás, adoro ensinar. Sou ótimo professor.

E o que teria a ensinar a brasileiros e brasileiras? Uma lição básica do bom empreendedorismo: se você trabalha duro e de forma inteligente, vai alcançar um alto padrão. O povo no Brasil é gentil, sorridente, trata as pessoas muitíssimo bem, mas os serviços oferecidos à população têm má reputação. É bom que os brasileiros vejam na prática como o nível pode se elevar. Tenha essa expertise.

Investidores estrangeiros estão tirando dinheiro do país. O senhor não teme uma bolha? Pode acontecer em qualquer lugar, inclusive no Brasil. E é claro que os riscos aumentam longe de seu próprio quintal. Mas olhe o que ocorre no meu quintal: as taxas de desemprego dispararam nos Estados Unidos. Esse é um tremendo risco. Só espero que os brasileiros não se encantem com um vizinho tipo a Venezuela. Mesmo com tanto petróleo, o Hugo Chávez conseguiu acabar com aquilo ali. É muito fácil para esse pessoal da extrema esquerda sair por aí dizendo: “Vamos deixar tudo para trás, vamos fazer a revolução”. Pode ser bonito de ouvir, mas não leva a lugar algum. Não acredito que o Brasil vá por esse lado do esquerdismo inconsequente. Acho que as bases do país são boas e o vento está a favor.

O senhor já esteve com Dilma Rousseff? Não. Quem é ele?

É a presidente da República. E de Lula, o senhor já ouviu falar? Também não.

Trata-se do ex-presidente, o mesmo sobre quem o presidente americano Barack Obama declarou: “Ele é o cara”. Obama diz isso para todo mundo. Legal ele pode até ser, mas infelizmente não está fazendo bem o seu trabalho na Casa Branca. Os Estados Unidos estão virando um Estado de bem-estar social e, pior, comendo poeira na corrida com outros países. Veja a pujança chinesa diante da americana. É inadmissível. Obama enfraqueceu a economia.

Muita gente disse que o senhor passou dos limites, e até resvalou para o ridículo, ao insistir na tese de que Obama não teria nascido nos Estados Unidos. Acha que se excedeu? Prestei um serviço à nação. Fiz o presidente vir a público mostrar a certidão de nascimento. Hillary Clinton não fez isso. John McCain não fez isso. Eu fiz. E muitos americanos aprovaram a minha iniciativa. Só espero que o documento seja mesmo verdadeiro. Obama, e ninguém mais, sabe dizer. Quanto aos que me ridicularizaram, certamente se trata de uma gente amarga ou malsucedida – provavelmente, os dois.

Sua escola de negócios, a Trump University, é alvo de um processo movido por estudantes que o acusam de propaganda enganosa. Eles têm razão? De jeito nenhum. Isso é tudo obra de um procurador de Nova York que está tentando me extorquir. São 40 milhões de dólares em jogo. Acho que o próprio Obama pode estar por trás disso. Os dois estiveram juntos um dia antes de essa história aparecer. Quanto ao pequeno grupo de alunos indignados, o que posso dizer? Eles viram a possibilidade de ganhar dinheiro e estão indo atrás. É humano. Mas são a minoria: uma pesquisa mostrou que 98% dos alunos aprovam minha escola.

Ora o senhor alimenta as especulações de que se candidatará ao governo de Nova York, ora à Presidência dos Estados Unidos. O que será, afinal? Estou preparado para o que for. Os republicanos me mostram pesquisas em que meu nome está lá na frente, e isso me anima, claro. Gosto de política. Mas ainda falta uma eternidade. No momento certo, vou decidir. Posso dizer desde já que tenho filhos capazes de ocupar bem a minha cadeira, por mérito. Não é como muitos empresários que conheço, gente de carreira brilhante no mundo dos negócios que passa o poder a herdeiros sem nenhum jeito para a coisa. Aí vem aquela catástrofe. Deve ser terrível você ver o próprio império desmoronando.

O senhor mesmo quase quebrou nos anos 90. Como foi estar no fundo do poço? Passei um período duríssimo. Fui testado no limite. E a gente só sabe que é resistente de verdade quando se vê sob pressão. O mercado estava ruim, e muita gente boa quebrou. Uns caras que pareciam durões não aguentaram o tranco e perderam o controle. Eu podia ter entrado em depressão. Estava por baixo, por baixo mesmo, mas segui em frente e me reinventei. Olhe quantas capas de revista falam do meu sucesso empresarial. Supero qualquer supermodel. As paredes da minha sala estão lotadas. Não é por acaso.

Quais são os prazeres da vida de celebridade? Gosto da sensação de descer do elevador do prédio onde trabalho, botar o pé na Quinta Avenida e sentir aquela energia da multidão enlouquecida, gritando: “Trump! Trump! Você está demitido!”. Esse é o bordão do meu programa, O Aprendiz. Poderia haver resposta melhor para quem achava que eu seria um fiasco no showbiz? Ninguém esperava que eu fosse estourar. As pessoas me diziam: “Esquece, você não tem jeito para a TV”. Aí fui para o topo da audiência e calei a boca de todo mundo. Ser celebridade é bom umas 70% das vezes: traz popularidade, dinheiro e poder. Mas também prezo a privacidade de vez em quando.

O poder atrai as mulheres? Todas as mulheres dão em cima de mim no show. Elas querem vencer o jogo.

Como dono do concurso Miss Universo, o senhor também provoca alvoroço entre as concorrentes? Conheço as misses e converso com elas. É parte do meu trabalho. Mas não sei dizer se flertam comigo. O que sei é que algumas dessas mulheres são de uma inteligência extraordinária. São médicas, advogadas. As brasileiras, em particular, chamam a atenção: elas são deslumbrantes, de uma natureza privilegiada. Mas, calma, não quero confusão para o meu lado.

Fora da TV, o senhor tem algum prazer em demitir seus funcionários? Em geral, não. São pessoas incompetentes, coitadas. Elas já nasceram assim. Não é caso para espezinhar. Só tenho prazer mesmo em demitir ladrões. Adoro. E olhe que já cruzei com verdadeiros profissionais na minha vida.

Com uma agenda tão atribulada sobra tempo para a leitura? Não muito.  Costumo ler contratos,  mas não na letra miúda. Isso quem faz são meus advogados. São muitas páginas. Sabe o que eu gosto mesmo de ler? The Art of the Deal (A Arte de Fazer Negócios), de Donald Trump.

Foi um bom aluno? Era um bom aluno em Warthon, sim, mas isso não explica tudo. Quase todos os caras nota 10 com quem estudei estão hoje em posições medíocres. Eram quadrados demais. Já os mais medianos, não. Embora não fossem brilhantes nem os melhores da turma, tinham uma qualidade essencial:  gostavam de correr riscos. E também tinham um ego considerável, característica fundamental para o sucesso. Hoje são CEOs de grandes corporações.

O senhor sempre diz que é vital para qualquer CEO selar um bom acordo pré-nupcial. Chegou a perder muito dinheiro em seus divórcios? Não. O que debitei de minha fortuna foi insignificante. Isso porque me preocupei em deixar tudo bem claro no papel antes de subir ao altar. E os acordos que fiz foram bastante razoáveis.

O que é em sua concepção um acordo pré-nupcial razoável? Não tem um valor predefinido. Ele deve variar segundo a participação da mulher na vida de seu marido. Algumas são mais colaborativas, outras produzem verdadeiras catástrofes nas finanças. Sei da história de muitos homens que não alcançaram o sucesso justamente por causa de suas mulheres. Na hora do divórcio, elas queriam sugar tudo deles. Quando soube do casamento de Mark Zuckerberg (CEO do Facebook), pensei: “Tomara que este tenha um bom acordo pré-nupcial”. Mas não liguei para ele, não. Achei que não precisava de um conselho tão básico.

Em seu histórico matrimonial, as mulheres são sempre bonitas e cada vez mais jovens. Não se sente como um senhor de 67 anos? De forma alguma. Estou no auge do meu vigor. Bem de corpo, de cabeça e de dinheiro.

Sua primeira esposa, Ivana Trump, é checa; a atual, Melania Knauss-Trump, eslovena. Isso o tornou um poliglota? Não falo nem uma palavra de checo nem de esloveno. Também não sei nada dessas culturas. Até gosto de visitar a Europa – a Alemanha, a Inglaterra, a Itália, é tudo muito lindo –, mas nada neste mundo me faria mudar dos Estados Unidos.

Posaria de novo para a capa da Playboy?  Tenho o maior orgulho dessa capa. Poderia até repetir, mas não estou mais nos meus 40, né? O engraçado é que, mesmo sendo um homem na capa, essa foi uma das edições que mais venderam em toda a história da revista. Um fenômeno. E olha que eu ainda não era tão famoso quanto agora. Em compensação, tinha mais cabelo.

A propósito do cabelo, seu penteado vem sendo, há décadas, alvo de críticas ferinas. Nunca pensou em mudar? Por nada neste mundo eu troco de penteado. Gosto dele. Parece que se acomodou bem à minha cabeça. Não dá problema e tem o seu estilo. Quanto ao pessoal que me critica, pode reparar: certamente, é uma gente perdedora e invejosa.

Afinal, é o não é peruca? Nada de peruca. Este cabelo é meu, original de fábrica. Basta olhar para minhas fotos de juventude para saber; é a mesma coisa, só um pouco mais ralo e mais esbranquiçado. Já ouvi de muita gente: “Você é ótimo nos negócios. Já essa sua peruca...”. Uma parte dessa turma provavelmente nem acha que é falso, mas fala mesmo assim, só para chatear. Um dia, fui ao programa da Barbara Walters e ela pediu para tocar no meu cabelo. Eu a deixei à vontade. Ela mexeu, mexeu e disse: “Então, é seu mesmo?”. É o que venho dizendo todos esses anos, em vão. Quer tocar?

29 julho 2016

História dos Estados Unidos – Leandro Karnal




Descrição do livro



Como pode os Estados Unidos provocarem tanto ódio, a ponto de muita gente no mundo ficar feliz com ataques suicidas de fanáticos obscurantistas contra eles? Como pode uma cultura influenciar tantas outras e ostentar, muitas vezes, um provincianismo digno de rincões escondidos no espaço e no tempo? Nação que absorveu mais imigrantes que nenhuma outra na história, que respeita as diferenças criando etiquetas para as minorias, que incorpora cientistas do mundo todo em suas melhores universidades, que espalhou para o mundo o cinema e o jazz, séries de tv e calças jeans, padrão de magreza anoréxica e de seios inflados; país que defendeu a democracia em ‘guerras justas’ e atentou contra ela em invasões injustificáveis.



É sobre esse fascinante país que trata este livro. Feita com olhar brasileiro, a obra foi escrita por quatro especialistas da área, passando longe da visão maniqueísta com que o tema comumente é tratado. Obra de referência, essencial para quem não é indiferente (gostando ou não) às influências que a terra do ‘Tio Sam’ exerce sobre nós.



FONTE: Lê Livros



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16 dezembro 2014

DISCURSO DO PRESIDENTE DA RÚSSIA, VLADIMIR PUTIN.




Discurso efetuado por ocasião da Reunião do Clube de Discussão Internacional Valdai, em 24 de outubro de 2014, em Sochi.

Colegas, senhoras e senhores, amigos, é um prazer recebê-los para a reunião XI do Clube de Discussão Internacional Valdai.
Foi mencionado que o clube tem novos co-organizadores este ano. Elas incluem as organizações não-governamentais russas, grupos de especialistas e as melhores universidades. Foi, também, levantada a ideia de ampliar as discussões para incluir não apenas as questões relacionadas com a própria Rússia, mas também a política mundial e a economia.
A organização e o conteúdo vão reforçar a influência do clube como um importante fórum de discussão e de especialistas. Ao mesmo tempo, espero que o ‘espírito de Valdai’ permaneça — essa atmosfera livre e aberta e com a chance de expressar todos os tipos de opiniões muito diferentes e francas.
Deixe-me dizer a este respeito que eu também não vou desapontar vocês e vou falar diretamente e com franqueza. Algumas das coisas que eu disser podem parecer um pouco duras demais, mas se nós não falarmos diretamente e honestamente sobre o que realmente pensamos, então não vale a pena nos reunirmos desta forma. Seria melhor, neste caso, apenas manter os encontros diplomáticos, onde ninguém diz nada de verdadeiro sentido e, recordando as palavras de um diplomata famoso, você percebe que os diplomatas têm línguas, mas não para falar a verdade. Ficamos juntos por outras razões. Nós nos reunimos assim para falarmos francamente um com o outro. Precisamos ser diretos e francos, hoje, não para trocarmos farpas, mas a fim de tentar chegar ao fundo do que está realmente acontecendo no mundo, tentar entender por que o mundo está se tornando menos seguro e mais imprevisível e por que os riscos estão aumentando em todos os lugares à nossa volta. A discussão de hoje tomou lugar sob o tema: Novas Regras ou um Jogo Sem Regras. Eu acho que essa fórmula descreve com precisão o ponto de virada histórico a que chegamos hoje e a escolha que todos nós enfrentamos. Naturalmente, não há nada de novo na idéia de que o mundo está mudando muito rápido. Eu sei que isso é algo que vocês têm comentado nas discussões de hoje. Certamente é difícil não notar as transformações dramáticas na política mundial e na economia, na vida pública e na indústria, nas tecnologias de informação e sociais.
Deixe-me perguntar-lhes agora e peço que me perdoem se eu acabar repetindo o que alguns dos participantes da discussão já disseram. É praticamente impossível evitar. Vocês já realizaram discussões detalhadas, mas vou definir o meu ponto de vista. Ele vai coincidir com a opinião dos outros participantes em alguns pontos e divergir em outros.
Ao analisar a situação de hoje, não esqueçamos as lições da história. Primeiramente, as mudanças na ordem mundial — e o que estamos vendo hoje são eventos nessa escala — têm geralmente sido acompanhadas, se não de uma guerra e conflitos mundiais, por uma cadeia de intensos conflitos em nível local. Em segundo lugar, a política global é, acima de tudo, sobre a liderança econômica, questões de guerra e paz e a dimensão humanitária, incluindo os direitos humanos.
O mundo está cheio de contradições hoje. Precisamos ser francos em perguntar uns aos outros se temos uma rede de segurança confiável funcionando direito. Infelizmente, não há nenhuma garantia e não há certeza de que o atual sistema de segurança global e regional é capaz de nos proteger de convulsões. Esse sistema tornou-se seriamente enfraquecido, fragmentado e deformado. As organizações de cooperação internacional e regional políticas, econômicas e culturais também estão passando por momentos difíceis.
Sim, muitos dos mecanismos que temos para garantir a ordem mundial foram criados muito tempo atrás, inclusive e, sobretudo, no período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. Deixe-me enfatizar que a solidez do sistema criado naquela época não repousou apenas no equilíbrio de poder e os direitos dos países vencedores, mas no fato de que "os pais fundadores" desse sistema tiveram respeito um pelo outro, não tentaram colocar pressão sobre os outros, mas procuraram chegar a acordos.
A principal coisa é que este sistema necessita se desenvolver, e apesar de suas várias deficiências, precisa pelo menos ser capaz de manter os problemas atuais do mundo dentro de certos limites e regular a intensidade da concorrência natural entre os países.
É minha convicção de que não poderíamos tomar este mecanismo de freios e contrapesos que construímos ao longo das últimas décadas, às vezes com tal esforço e dificuldade, e simplesmente acabar com eles sem construir qualquer coisa em seu lugar. Caso contrário, ficaríamos sem nenhum outro instrumento além da força bruta.
O que precisávamos fazer era realizar uma reconstrução racional e adaptá-la às novas realidades no sistema das relações internacionais.
Mas os Estados Unidos, tendo se declarado o vencedor da Guerra Fria, não vê necessidade para isso. Em vez de estabelecer um novo equilíbrio de poder, essencial para a manutenção da ordem e da estabilidade, eles tomaram medidas que jogaram o sistema em um desequilíbrio agudo e profundo.


Fonte: Julio Severo

Conflito na Síria











 









Veja texto: O tiro saiu pela culatra, do blog de Julio Severo

Blog do Fábio Ibrahim

Guerra Civil na Síria: Wikipedia

Análise do Conflito: ANAJURE

29 abril 2014

Como realmente funciona o sistema de saúde americano



Sempre que há um debate sobre sistemas de saúde e sobre como seria a medicina em um ambiente de genuíno livre mercado, rapidamente alguém menciona os EUA como sendo o exemplo mais óbvio deste arranjo.

O problema é que a comparação é obtusa. 

É verdade que os EUA não possuem um sistema público de saúde de estilo europeu (seja ele o modelo Beveridge da Inglaterra ou da Espanha, no qual o estado se encarrega de prover serviços de saúde em troca do pagamento de impostos, seja ele o modelo Bismarck da Alemanha e da Áustria, no qual o estado obriga os cidadãos a comprarem um seguro privado obrigatório e altamente regulado), mas isso não implica que o sistema americano esteja livre da atuação estatal.  Muito pelo contrário, como será visto.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que os resultados observados no sistema de saúde americano são um tanto deploráveis: o gasto total com a saúde nos EUA chega a 17% do PIB — quase o dobro do que gasta a maioria dos países europeus —, mas isso não fez com que seus resultados fossem espetacularmente superiores.  Sim, o sistema de saúde americano está na vanguarda da implantação de novas tecnologias, bem como no uso da medicina preventiva, mas esses elementos diferenciais não parecem justificar o gigantesco custo excessivo.  Por esse prisma, o debate sobre a superioridade da saúde pública europeia em relação à americana pareceria definitivamente encerrado: uma qualidade análoga pela metade do preço.

Porém, as coisas não são tão simples quanto os números sugerem.  O sistema de saúde americano — como explico em detalhes extensos em meu livro Una revolución liberal para España — está longe de ser o representante de um arranjo de livre concorrência.

Para começar, pelo lado da oferta, a concorrência entre médicos praticamente não existe.  O mercado de médicos é artificialmente cartelizado.  Para ser médico, você tem de ser aceito pelo conselho profissional da categoria, o qual tem interesse em manter baixo o número de médicos, pois isso eleva artificialmente seus salários.  Adicionalmente, um médico tem de adquirir diversos tipos de licenças, sem as quais ninguém pode exercer a medicina.  A criação de hospitais também sofre o mesmo tipo de regulamentação, o que dificulta o surgimento de hospitais baratos que poderiam concorrer com os já estabelecidos.  Já as seguradoras de saúde são, em sua grande maioria, proibidas pelo governo de concorrer entre si além das fronteiras estaduais.  Várias seguradoras não podem ofertar seus serviços em mais de um estado do país.

Mas a coisa piora.

Pelo lado da demanda, 90% dos gastos em saúde ocorrem por meio de canais que não são o paciente: mais especificamente, ocorrem pelas seguradoras e pelo estado.  Para se ter uma ideia desse despautério, na Espanha, o gasto público com saúde totaliza 6,9% do PIB.  Na União Europeia, 8,2%.  Nos EUA, como dito, o gasto total é 17%.  Dado que 90% desses 17% são gastos que não são desembolsados pelo paciente, temos que 15,3% dos gastos em saúde nos EUA são terceirizados.  Ou seja, nem mesmo a Espanha apresenta um grau tão elevado de socialização da demanda como os EUA.

Mais especificamente, de cada 100 dólares gastos na saúde americana, 45 dólares são desembolsados pelas seguradoras, outros 45 dólares pelos programas estatais Medicare (programa de responsabilidade da Previdência Social americana que reembolsa hospitais e médicos por tratamentos fornecidos a indivíduos acima de 65 anos de idade) e Medicaid (programa financiado conjuntamente por estados e pelo governo federal, que reembolsa hospitais e médicos que fornecem tratamento a pessoas que não podem financiar suas próprias despesas médicas), e apenas 10 dólares são desembolsados pelo próprio paciente.

Dito de outro modo, de cada 100 dólares gastos na saúde, o paciente — que é quem está realmente recebendo os serviços — arca com um custo de apenas 10 dólares.  Quem paga os 90 restantes?  O resto de seus compatriotas — seja por meio do Fisco, seja por meio de suas apólices de seguros, que compreensivelmente ficam a anualmente mais caras.

Nos EUA, portanto, não há uma correspondência entre custos e benefícios.  E dado que as seguradoras são obrigadas pelo governo a cobrir até mesmo consultas de rotina, os preços das apólices seguem em disparada.  Se você fizer algo tão simples e corriqueiro quanto um exame de sangue — que é coberto pelos planos de saúde e pelos programas Medicare e Medicaid —, é comum o hospital cobrar um preço astronômico do governo ou da seguradora, a qual, por causa disso, irá aumentar os preços das apólices.

Nesse arranjo, o incentivo para aumentar os gastos é o mesmo que ocorreria se milhões de pessoas fossem a um mesmo restaurante, pedissem individualmente os pratos que quisessem e, no final, dividissem igualmente entre todos a fatura total.

E, com efeito, o estudo mais completo já realizado até o presente momento sobre os custos excessivos da saúde americana não deixa espaço para dúvidas: a explosão dos custos se deve essencialmente a um crescimento descontrolado da demanda (direcionada sobretudo à medicina preventiva), a qual é capaz de suportar preços crescentes devido ao fato de que ninguém — governo, seguradoras e pacientes, como explicado acima — tem o incentivo de reduzir seus gastos.  Por mais que a oferta aumente, a demanda cresce a uma velocidade superior, o que multiplica os preços.

Vale ressaltar que, naquelas áreas do sistema de saúde americano em que não há esta socialização dos gastos — porque os programas estatais ou os seguros não cobrem —, não se observa nenhum crescimento anormal dos custos.  Este é o caso, por exemplo, dos serviços de odontologia ou das cirurgias oculares a laser, cujos custos caem ano após ano.

Na Europa, onde a saúde pública é "gratuita" para o usuário (embora seja cara para os pagadores de impostos), não ocorrem consequências similares a essas dos EUA simplesmente porque os políticos e burocratas que comandam o setor racionam os serviços que os cidadãos podem receber (os famosos cortes de gastos para a saúde, sobre os quais muito se fala atualmente, sempre foram uma prática estrutural do sistema; apenas se tornaram mais visíveis agora por causa da crise).  No Velho Continente, os donos da saúde dos cidadãos europeus não são eles próprios, mas sim os políticos e burocratas que organizam o sistema segundo seus gostos, necessidades e interesses.  Daí a frequente ocorrência de fenômenos como listas de espera, adoção tardia de novas tecnologias, tratamentos e medicamentos não cobertos, aglomeração de pacientes etc.

Dito de outra forma: os incentivos perversos para a demanda que levam a uma hipertrofia dos gastos em saúde nos EUA também existem na Europa, só que, na Europa, os políticos controlam severamente a oferta e impedem que os gastos disparem.  É como se, ao chegarmos a um restaurante, o dono do estabelecimento limitasse a quantidade e a qualidade daquilo que cada comensal pode pedir: por mais que pudéssemos e quiséssemos pedir mais e melhores pratos, não poderíamos.

Mas, afinal, que foi o motivo que levou a tamanha socialização da demanda por serviços de saúde nos EUA?  A criação dos programas estatais Medicare e Medicaid, em 1966, contribuíram substancialmente para as distorções.  Mas o principal incentivo foi criado em 1954: as empresas passaram a poder descontar no imposto de renda e na contribuição para a Previdência Social todos os gastos associados à aquisição de um plano de saúde para seus empregados.  Ou seja, caso as empresas pagassem planos de saúde para seus empregados, elas ganhariam descontos tanto no IRPJ quanto na contribuição para a Previdência Social.

Isso gerou uma consequência não-prevista.  Os incentivos para que todo o gasto em saúde fosse canalizado para os seguros adquiridos por empresas para seus empregados se tornaram enormes.  Isso, por conseguinte, elevou substancialmente a demanda por planos de saúde, os quais foram obrigados pelo governo a cobrir uma enorme variedade de serviços, inclusive aqueles associados à medicina preventiva.  Os custos das apólices obviamente dispararam. 

Apenas imagine quanto custaria o seguro do seu carro caso o governo obrigasse as seguradoras a cobrir serviços como troca de óleo e reabastecimento.  Nos EUA, é exatamente isso o que ocorre para os planos de saúde.  E tudo começou porque as empresas, muito corretamente, queriam reduzir seus gastos com tributos diretos, um confisco estatal que nem sequer deveria existir.  Um perfeito exemplo de como uma intervenção estatal (impostos sobre a renda) gerou uma grande distorção (redução dos lucros das empresas) que, por sua vez, levou à criação de uma medida aparentemente mitigadora (incentivos fiscais para planos de saúde).  No final, todo sistema de saúde ficou desarranjado.

Essa socialização de 90% dos gastos em saúde nos EUA — toda ela induzida pelo intervencionismo estatal — é a principal responsável pela hipertrofia dos preços.  Os EUA não são de maneira alguma um exemplo de livre mercado no sistema de saúde.  Em um arranjo de livre mercado e livre concorrência, os gastos para consultas de rotina são financiados pela própria poupança do paciente, e somente aqueles eventos de natureza extraordinária e catastrófica são cobertos por planos de saúde.

O que o sistema americano ilustra perfeitamente são os efeitos potencialmente devastadores do estatismo, inclusive quando em doses aparentemente inócuas.
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Leituras complementares:

Juan Ramón Rallo é diretor do Instituto Juan de Mariana e professor associado de economia aplicada na Universidad Rey Juan Carlos, em Madri.  É o autor do livro Los Errores de la Vieja Economía.


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