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15 novembro 2022

Lula e Stalin, os deuses que falharam




MIGUEL DE ALMEIDA

Em “O homem que amava os cachorros”, o escritor cubano Leonardo Padura reconstrói a atmosfera de perseguição montada por Stalin, nas décadas de 1930-50, a Trostski e seus outros inimigos. A perseguição se dava no nível físico (espiões, policiais, caça-recompensas) e no moral, por meio de mentiras, intrigas, aleivosias e canalhices diversas. Stalin fazia ainda uso de cães intelectuais — em geral gente em busca de glórias efêmeras, como um prêmio ou um elogio — na desconstrução de seus adversários. Não vem à toa a admiração de Hitler pelo regime soviético: o nazismo fará uso de seus vira-latas provocadores (exemplo: a turma que avançou sobre Janaina Paschoal) e Stalin forjará o oportuno Inimigos do Povo (exemplo: a campanha contra ex-petistas como Fernando Gabeira e Luiza Erundina). O nazismo muito deve ao stalinismo (exemplo: Marilena Chauí difundir que Sérgio Moro é filhote do FBI e os SS digitais repercutirem a difamação).

Padura fornece ao leitor um retrato do clima policialesco criado por Stalin. São creditados nas costas de Trotski, mesmo exilado e banido, o poder de uma hipotética conspiração, a autoria de documentos apócrifos... Tudo balela. Cena construída para distrair os militantes dos reais motivos do desastre econômico perpetrado por Stalin e sua megalomania estatista. Depois, Stalin jamais foi marxista e só foi de esquerda (oportunista) até chegar ao poder (exemplo: nunca antes neste país...). Lá, usurpou o sonho de vários gerações. Muitos deram suas vidas por acreditar estarem defendendo a revolução e ainda lutaram contra o que julgavam ser o jogo da direita (exemplo: fazer vaquinha para pagar a multa do companheiro José Dirceu e depois carregar seu cadáver político, de boca fechada).

Os paralelos com a história política brasileira atual são assustadores. Padura recriou o Brasil clivado por ideologias de apostilas ao contar a história de Trostski e seu algoz, Ramón Mercader: as falsas informações plantadas na imprensa mundial (os amigos dos cães), os supostos complôs (olha o pré-sal aí, gente), com o objetivo de atiçar na militância ralé (a turminha do Facebook) um ódio contra o ex-dirigente da Revolução Russa, que passa a apupar sua biografia sem entender nada do riscado (exemplo: Trotski caiu ao propor uma plataforma econômica em interação com as forças do mercado. Stalin o satanizou. No poder, depois de ver seu barco estatal afundar, Stalin praticou... a política defendida por Trotski, de braço dado com o capital internacional. Você pode pensar em Dilma/Joaquim Levy e Lula/Henrique Meirelles e não estará errado). Vale lembrar também que a visão econômica de Stalin era identificada como sendo nazinacionalista. Stalin era o sonho de Hitler.

As mentiras urdidas por Stalin repercutiam facilmente. Os intelectuais se calavam. E quando ousavam... Foi o caso de André Gide, escritor francês e militante de esquerda. Após visitar a convite a União Soviética em 1936, percebeu a arapuca e denunciou o engodo. Afinal, acreditava, era seu dever alertar as forças de esquerda que Stalin era tão-somente um ditador, e nada tinha de progressista (o Brasil não conhece o Brasil...).

Pobre Gide. Até então, seu homossexualismo não fora um estorvo nas fileiras da Causa. Segundo os stalinistas, como se poderia acreditar num escritor que tinha o hábito de gostar de homens? Era traidor... e gay. Trinta anos depois e milhões de mortes, Kruschev repetiria o mesmo diagnóstico de Gide. Sabe, o que aconteceu? A ficha só caiu em 1989, quase 40 anos depois e outras milhares de mortes.

Miguel De Almeida é escritor e editor


FONTE: Jornal “O Globo”, 12/07/2016, pág. 15





10 outubro 2021

Os motivos de Stalin para o pacto Ribbentrop-Molotov (28/10/2020)

 Por Fábio Blanco


O diplomata soviético Vyacheslav Molotov se encontra com Hitler. WIKIMEDIA COMMONS / QUAPAN

O diplomata soviético Vyacheslav Molotov se encontra com Hitler.

 WIKIMEDIA COMMONS / QUAPAN



O pacto Ribbentrop-Molotov deixou os comunistas perplexos. Após mais de uma década de luta anti-fascista, de repente, seu líder máximo, Stalin, firmara um acordo com Hitler, no sentido de ambos países absterem-se de atacarem-se mutuamente.

O acordo, chamado de não-agressão, na verdade, representava um acerto de agressão conjunta à Europa. Além de dividirem a Polônia (país que fica entre as duas potências) ao meio, a Alemanha ficava livre para atacar a parte ocidental e a Rússia os países da parte oriental. Significou, portanto, uma combinação entre duas ditaduras que, inclusive, passaram, a partir dali, a bajular-se mutuamente.

Diante da notícia do pacto, comunistas do mundo inteiro, em um primeiro momento, ficaram perdidos. Eles não sabiam como conciliar tudo aquilo que pregavam com essa nova demonstração de amizade entre dois ferrenhos inimigos. No entanto, logo as explicações começaram a surgir. Delas, nasceram algumas teorias que tentavam explicar quais foram os motivos para uma aliança tão inusitada.

A primeira delas é a mais romântica. Por ela, Stalin, refletindo os ideais comunistas, teria agido em favor da paz. Como os comunistas sempre tiveram um discurso contra as guerras, inclusive tendo abandonado a primeira Guerra Mundial, seu líder, ao firmar um pacto de não-agressão com a Alemanha, estaria apenas colocando em prática aquilo que sua ideologia pregava. No entanto, isso seria crível, não fosse o pacto secreto de divisão da Europa que fora feito junto ao acordo principal, além dos expurgos e toda a violência praticada por Stalin, inclusive contra os próprios membros de seu partido e de seu exército. Um homem com a índole de Stalin jamais trabalharia pela paz, a não ser que a paz lhe trouxesse algum benefício.

Uma segunda versão é mais realista. Por ela, o objetivo de Stalin era manter Hitler ocupado em uma guerra com as democracias ocidentais. Ele sabia que, ao invadir a Polônia, Inglaterra e França viriam em defesa do país do presidente Ignacy Mościcki e isso deflagraria uma guerra entre eles. No entanto, não é certo que Stálin tivesse tanta convicção disso, afinal, Inglaterra e França já haviam falhado na defesa da Áustria e da Espanha e, praticamente, entregaram a Tchecoslováquia para a Alemanha. O próprio Hitler estava convicto de que britânicos, conduzidos por Chamberlain, e franceses, liderados por Daladier – ambos que já haviam dado sinais claros de fraqueza – vacilariam mais uma vez. Stalin não poderia apostar tão alto em algo tão incerto.

De qualquer forma, se aceitarmos que Stalin queria colocar as potências ocidentais em conflito, devemos nos perguntar por qual motivo ele faria isso. Uns dizem que seria para atacá-las depois, outros falam que seu objetivo era esperar que a guerra criasse uma convulsão social nesses países, o que possibilitaria a promoção neles de processos revolucionários em favor do comunismo. Ambas possibilidades são aceitáveis, afinal, o primeiro caso cabia bem à personalidade de Stalin, o segundo aos objetivos declarados do movimento comunista.

Pode ser que a versão mais corrente, que é aquela que atribui o pacto ao gênio político de Stálin, afirmando que ele sabia que a URSS não estava pronta para uma guerra que era inevitável e, portanto, teria firmado o acordo, a fim de adiá-la por algum tempo tenha algum sentido. O único porém é que, quando da Operação Barbarossa, pela qual a Alemanha invadiu o território russo, tudo leva a crer que Stalin fora pego de surpresa. Portanto, as duas versões não se conciliam. Se ele fez o pacto para ganhar tempo, não poderia ser pego de surpresa. Se ele fora pego de surpresa, então o pacto representaria uma verdadeira confiança nas intenções de Hitler, o que denotaria uma grande inocência de sua parte, o que é, apesar de tudo, bastante difícil de acreditar.

Ainda assim, é possível especular sobre os motivos de Stalin não parecer preparado. A confiança na amizade de Hitler não faz sentido. O que pode ter, na verdade, acontecido, é que Stalin apenas tenha calculado mal o tempo. Historiadores afirmam que a URSS, na verdade, estava se preparando para empreender um ataque à Alemanha, porém, esperava fazer isso apenas em 1942. Stálin não acreditava, na verdade, que Hitler o atacaria antes de derrotar a Grã-Bretanha e, por isso, não teria se preparado corretamente para a invasão alemã ocorrida em 1941.

Isso leva-nos a uma outra versão, que aquela trazida por Suvorov, em seu livro, “O grande culpado”. Nela, o autor afirma que realmente Stalin fez o pacto para adiar o confronto com os nazistas, porém, seu intuito seria surpreender Hitler em um ataque à Alemanha em território polonês. Isso só não teria acontecido porque Hitler, informado por seu serviço secreto, fora mais rápido e acabara atacando primeiro. No entanto, segundo Suvorov, há fartos documentos que mostram que a URSS já estava pronta para o seu próprio ataque. Isso deixaria claro que o acordo entre as potências seria uma forma, na verdade, de Stalin enganar Hitler, o que faria dele o grande responsável pela Segunda Guerra Mundial, o que os comunistas e simpatizantes, os grandes divulgadores da história, jamais aceitariam.

O fato é que, com exceção da primeira, todas essas versões possuem algum sentido. Se perguntarem para mim, o que eu acho, diria que não acredito na inocência de Stalin. Acredito, sim, que ele queria colocar os países do Ocidente em guerra, seja para depois atacá-los quando já em frangalhos, seja para promover neles suas revoluções. Também não descarto a possibilidade de Stálin ter feito o acordo para surpreender todos com um ataque surpresa soviético. A única versão que descarto totalmente é a que diz que Stalin trabalhava pela paz. Isso já é demais!



Duas semanas depois que a Alemanha invadiu a Polônia em 1º de setembro de 1939, a União Soviética invadiu a Polônia pelo leste, com Adolf Hitler e o ditador soviético Josef Stalin dividindo a Polônia e os Estados Bálticos com base em um protocolo secreto no pacto Molotov-Ribbentrop assinado em 23 de agosto de 1939.



16 dezembro 2014

DISCURSO DO PRESIDENTE DA RÚSSIA, VLADIMIR PUTIN.




Discurso efetuado por ocasião da Reunião do Clube de Discussão Internacional Valdai, em 24 de outubro de 2014, em Sochi.

Colegas, senhoras e senhores, amigos, é um prazer recebê-los para a reunião XI do Clube de Discussão Internacional Valdai.
Foi mencionado que o clube tem novos co-organizadores este ano. Elas incluem as organizações não-governamentais russas, grupos de especialistas e as melhores universidades. Foi, também, levantada a ideia de ampliar as discussões para incluir não apenas as questões relacionadas com a própria Rússia, mas também a política mundial e a economia.
A organização e o conteúdo vão reforçar a influência do clube como um importante fórum de discussão e de especialistas. Ao mesmo tempo, espero que o ‘espírito de Valdai’ permaneça — essa atmosfera livre e aberta e com a chance de expressar todos os tipos de opiniões muito diferentes e francas.
Deixe-me dizer a este respeito que eu também não vou desapontar vocês e vou falar diretamente e com franqueza. Algumas das coisas que eu disser podem parecer um pouco duras demais, mas se nós não falarmos diretamente e honestamente sobre o que realmente pensamos, então não vale a pena nos reunirmos desta forma. Seria melhor, neste caso, apenas manter os encontros diplomáticos, onde ninguém diz nada de verdadeiro sentido e, recordando as palavras de um diplomata famoso, você percebe que os diplomatas têm línguas, mas não para falar a verdade. Ficamos juntos por outras razões. Nós nos reunimos assim para falarmos francamente um com o outro. Precisamos ser diretos e francos, hoje, não para trocarmos farpas, mas a fim de tentar chegar ao fundo do que está realmente acontecendo no mundo, tentar entender por que o mundo está se tornando menos seguro e mais imprevisível e por que os riscos estão aumentando em todos os lugares à nossa volta. A discussão de hoje tomou lugar sob o tema: Novas Regras ou um Jogo Sem Regras. Eu acho que essa fórmula descreve com precisão o ponto de virada histórico a que chegamos hoje e a escolha que todos nós enfrentamos. Naturalmente, não há nada de novo na idéia de que o mundo está mudando muito rápido. Eu sei que isso é algo que vocês têm comentado nas discussões de hoje. Certamente é difícil não notar as transformações dramáticas na política mundial e na economia, na vida pública e na indústria, nas tecnologias de informação e sociais.
Deixe-me perguntar-lhes agora e peço que me perdoem se eu acabar repetindo o que alguns dos participantes da discussão já disseram. É praticamente impossível evitar. Vocês já realizaram discussões detalhadas, mas vou definir o meu ponto de vista. Ele vai coincidir com a opinião dos outros participantes em alguns pontos e divergir em outros.
Ao analisar a situação de hoje, não esqueçamos as lições da história. Primeiramente, as mudanças na ordem mundial — e o que estamos vendo hoje são eventos nessa escala — têm geralmente sido acompanhadas, se não de uma guerra e conflitos mundiais, por uma cadeia de intensos conflitos em nível local. Em segundo lugar, a política global é, acima de tudo, sobre a liderança econômica, questões de guerra e paz e a dimensão humanitária, incluindo os direitos humanos.
O mundo está cheio de contradições hoje. Precisamos ser francos em perguntar uns aos outros se temos uma rede de segurança confiável funcionando direito. Infelizmente, não há nenhuma garantia e não há certeza de que o atual sistema de segurança global e regional é capaz de nos proteger de convulsões. Esse sistema tornou-se seriamente enfraquecido, fragmentado e deformado. As organizações de cooperação internacional e regional políticas, econômicas e culturais também estão passando por momentos difíceis.
Sim, muitos dos mecanismos que temos para garantir a ordem mundial foram criados muito tempo atrás, inclusive e, sobretudo, no período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. Deixe-me enfatizar que a solidez do sistema criado naquela época não repousou apenas no equilíbrio de poder e os direitos dos países vencedores, mas no fato de que "os pais fundadores" desse sistema tiveram respeito um pelo outro, não tentaram colocar pressão sobre os outros, mas procuraram chegar a acordos.
A principal coisa é que este sistema necessita se desenvolver, e apesar de suas várias deficiências, precisa pelo menos ser capaz de manter os problemas atuais do mundo dentro de certos limites e regular a intensidade da concorrência natural entre os países.
É minha convicção de que não poderíamos tomar este mecanismo de freios e contrapesos que construímos ao longo das últimas décadas, às vezes com tal esforço e dificuldade, e simplesmente acabar com eles sem construir qualquer coisa em seu lugar. Caso contrário, ficaríamos sem nenhum outro instrumento além da força bruta.
O que precisávamos fazer era realizar uma reconstrução racional e adaptá-la às novas realidades no sistema das relações internacionais.
Mas os Estados Unidos, tendo se declarado o vencedor da Guerra Fria, não vê necessidade para isso. Em vez de estabelecer um novo equilíbrio de poder, essencial para a manutenção da ordem e da estabilidade, eles tomaram medidas que jogaram o sistema em um desequilíbrio agudo e profundo.


Fonte: Julio Severo
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