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04 setembro 2018

A Revolução Industrial, as mulheres e as minorias: como a ideologia suprimiu a realidade

Por causa da distorção dos fatos, a Revolução Industrial deveria processar a história por calúnia



Um mito altamente destrutivo passou a dominar o debate sobre o capitalismo: a falsa noção de que o livre mercado prejudica os "vulneráveis" dentro da sociedade. Mais especificamente, afirma-se que o capitalismo afeta mulheres e crianças ao cruelmente explorar sua mão-de-obra. Mas a verdade é exatamente oposta. 
O capitalismo oferece exatamente aquele elemento de que os vulneráveis mais necessitam para sobreviver e prosperar: a liberdade de escolha. A escolha mais libertadora que um indivíduo pode ter é a capacidade de se sustentar a si próprio, sem ter de depender de ninguém mais para que a comida chegue à sua boca.
Utilizando este mito como pressuposição inicial, os historiadores sempre se mostraram extremamente hostis ao analisarem um dos mais libertadores fenômenos da história ocidental: a Revolução Industrial. Do século XVIII ao século XIX, o mundo avançou acentuadamente em termos de tecnologia, indústria, transporte, comércio e inovações que mudaram o padrão de vida, como roupas de algodão feitas a baixo custo. Em um período de dois séculos, estima-se que a renda mundial per capita tenha aumentado dez vezes, e a população mundial, seis vezes. 
O economista prêmio Nobel Robert Lucas declarou que "Pela primeira vez na história, o padrão de vida das massas formadas por cidadãos comuns começou a apresentar um crescimento contínuo e constante. [...] Nada remotamente parecido com este fenômeno econômico havia acontecido até então." 
O acentuado avanço da prosperidade e do conhecimento havia sido alcançado sem nenhuma engenharia social e sem nenhum controle centralizado. Tudo foi possível em decorrência de se ter permitido que a criatividade humana e o interesse próprio se manifestassem livremente.
Certamente ocorreram abusos. Alguns podem ser imputados às tentativas governamentais de se aproveitar da energia e dos lucros daquele período. Outros abusos ocorreram simplesmente porque toda sociedade possui pessoas desumanas e amorais que agem de má fé, especialmente quando querem lucro fácil; isto, obviamente, não é uma crítica à Revolução Industrial, mas sim à natureza humana. 
Adicionalmente, os avanços econômicos foram amplamente maiores que as mudanças nas atitudes culturalmente vitorianas. No século XVIII, mulheres e crianças eram vistas como cidadãos de segunda classe e, algumas vezes, como bens e posses que podiam ser livremente trocados. A revolução econômica foi o motor que impeliu a cultura e as leis a sofrerem mudanças similarmente drásticas. Quando as mulheres deixaram os campos em busca de emprego e educação, elas se tornaram uma força social que não mais podia ser negada. Consequentemente, os direitos das mulheres avançaram extraordinariamente durante o final do século XIX, algo que não teria ocorrido não fosse a Revolução Industrial.
Até o século XVIII, não havia oportunidades para o trabalho feminino. Com as máquinas implantadas pela Revolução Industrial, as habilidades humanas mudaram de valor. O capital deixou o trabalho menos braçal e mais intelectual, permitindo que as mulheres compensassem com neurônios o que lhes faltava em musculatura. Por ser mais produtivo que o trabalho rural, a renda dos trabalhadores industriais superou a renda do campo. Foi a Revolução Industrial quem dinamizou o processo de emancipação econômica das mulheres.
Infelizmente, esta ligação salutar entre capitalismo e direitos das mulheres se perdeu ao longo do tempo. Durante a segunda metade do século XX, as feministas ortodoxas começaram uma cruzada para reverter esta força que havia contribuído tão acentuadamente para o progresso nos direitos das mulheres. Em vez de defenderem a liberdade de mercado, elas passaram a exigir, em nome da "igualdade", que vários privilégios para as mulheres se tornassem leis
O livre mercado passou a ser demonizado como uma ferramenta opressora que tinha de ser combatida por meio de ações afirmativas, leis contra assédio sexual, ações judiciais contra qualquer tipo de discriminação, sistemas de cotas e uma miríade de outras regulações sobre o mercado de trabalho.
Em meio a este processo, a Revolução Industrial passou a ser retratada como o Grande Satã que destruiu o bem-estar de mulheres e crianças. Esta descrição da Revolução Industrial, além de ser um simplório preconceito ideológico, se baseou fortemente na deturpação dos fatos.
Deturpando fatos sobre as crianças
Sempre que os termos "crianças" e "Revolução Industrial" são citados na mesma frase, imagens horrendas imediatamente vêm à mente: uma criança de cinco anos sendo baixada, por meio de uma corda, em uma mina de carvão; crianças esqueléticas trabalhando precariamente em fábricas têxteis; o Oliver Twist, de Charles Dickens, oferecendo uma jarra de madeira em troca de uma colher de mingau. 
Estas imagens são normalmente utilizadas para condenar o capitalismo e a Revolução Industrial. Em algumas ocasiões, elas são utilizadas para glorificar políticos "humanitários" que criam leis proibindo qualquer tipo de trabalho infantil. Elas são extremamente eficazes em incitar um compreensível horror naquelas pessoas decentes que condenam qualquer exploração de qualquer criança. O problema é que este procedimento sofre de graves distorções.
Uma das distorções é que tal procedimento ignora uma distinção essencial. No início do século XIX, a Grã-Bretanha apresentava duas formas de trabalho infantil: crianças livres e crianças "pobres" ou dos reformatórios, que eram entregues aos cuidados do governo. 
Os historiadores J.L. e Barbara Hammond, cuja obra sobre a Revolução Industrial Britânica e o trabalho infantil é considerada definitiva, reconheceram esta distinção. O economista Lawrence Reed, em seu ensaio "Child Labor and the British Industrial Revolution", foi ainda mais adiante e enfatizou a importância desta distinção. Escreveu ele:
Crianças livres moravam com seus pais ou guardiões e trabalhavam durante o dia em troca de salários acordados com seus adultos responsáveis. Mas os pais frequentemente se recusavam a enviar seus filhos para situações de trabalho excepcionalmente severas ou perigosas. [...] Os proprietários das fábricas não podiam subjugar violentamente essas crianças livres; eles não podiam obrigá-las a trabalhar em condições que seus pais julgassem inaceitáveis.
Em contraste, as crianças dos reformatórios estavam sob a autoridade direta de funcionários do governo. Reformatórios já existiam há séculos, mas a empatia pelos oprimidos já havia sido arrefecida pelo fato de que os impostos criados exclusivamente para aliviar a situação dos pobres já estavam, em 1832, cinco vezes mais altos do que em 1760, quando foram criados. (O livro de Gertrude Himmelfarb, The Idea of Poverty, faz uma narração cronológica desta mudança de atitude em relação aos pobres, da compaixão à condenação).
Em 1832, em parte a pedido de industriais ávidos por mão-de-obra, a Comissão Real Para a Lei dos Mais Pobres começou uma pesquisa sobre o "funcionamento prático das leis para o alívio da pobreza". Seu relatório dividiu os pobres em duas categorias básicas: pobres preguiçosos que recebiam ajuda do governo e pobres trabalhadores que se sustentavam a si próprios. O resultado foi a Lei dos Pobres de 1834, em nome da qual o estadista Benjamin Disraeli fez anúncios dizendo que "a pobreza é um crime".
A Lei dos Pobres substituiu a ajuda fornecida por terceiros (subsídios e esmolas) por "abrigos para pobres", nos quais as crianças pobres ficavam virtualmente aprisionadas. Lá, as condições eram propositalmente severas, exatamente para desincentivar as pessoas a mandarem seus filhos para lá (para funcionários públicos, mais trabalho é mais estorvo).
Praticamente todas as comunidades da Grã-Bretanha apresentavam um "grande estoque" de crianças abandonadas em reformatórios, as quais passaram a ser virtualmente compradas e vendidas para as fábricas; estas sim vivenciaram os maiores horrores do trabalho infantil.
Considere a desprezível função do "carniceiro" nas fábricas têxteis. Tipicamente, "carniceiros" eram crianças novas — de aproximadamente 6 anos de idade — que recuperavam, embaixo das máquinas, algodão que havia se desprendido durante os processos de produção. Como as máquinas estavam em funcionamento, este trabalho era extremamente perigoso e, como consequência, terríveis ferimentos eram totalmente comuns. "Felizmente" para aqueles donos de fábricas dispostos a usar o aparato do estado em benefício próprio, o governo não tinha problema algum em enviar as crianças dos reformatórios para trabalhar embaixo das máquinas em funcionamento. A maioria das crianças das comunidades tinha como alternativa a este trabalho morrer de fome ou viver na criminalidade.
Não é nenhuma coincidência que o primeiro romance sobre a Revolução Industrial publicado na Grã-Bretanha tenha sido Michael Armstrong: Factory Boy. Michael era um aprendiz de uma agência para crianças pobres que foi mandado para as fábricas. Também não é coincidência que Oliver Twist não era abusado por seus pais ou por agentes privados, mas sim por brutais funcionários públicos dos reformatórios, em comparação aos quais o antagonista Fagin era praticamente um humanitário. Vale lembrar que, aos 12 anos de idades, com sua família na prisão, Dickens havia sido ele próprio uma criança pobre que trabalhava em uma fábrica. O economista Lawrence Reed observa que "a primeira lei na Grã-Bretanha voltada para crianças de fábricas foi criada para proteger exatamente estas crianças de reformatórios, e não as crianças 'livres'". A lei mencionava isso de maneira explícita.
Logo, ao defender a regulamentação da mão-de-obra infantil, os reformistas sociais pediram ao governo para remediar abusos pelos quais o próprio governo era o responsável. Mais uma vez, o governo era a doença que se fingia de cura.
Ideologia equivocada em relação às mulheres
A distorcida apresentação dos fatos no que diz respeito ao trabalho infantil e à Revolução Industrial só encontra paralelos na distorcida ideologia pela qual se analisa o status da mulher. 
É perfeitamente possível argumentar que as mulheres foram as principais beneficiárias econômicas da Revolução Industrial.  sto se deveu majoritariamente à sua baixa condição econômica no período anterior à Revolução. Elas simplesmente tinham mais a ganhar do que os homens.
Quando as mulheres tiveram a oportunidade de abandonar a vida rural em busca dos salários das fábricas e de trabalho doméstico, elas invadiram as cidades em quantias sem precedentes. Para a nossa atual vida moderna, em que estamos já acostumados com todos os luxos criados pelo capitalismo, as condições de vida e de trabalho eram obviamente terríveis, com várias mulheres recorrendo à prostituição como ocupação secundária, tudo para manter um teto sob suas cabeças. No entanto, por mais terríveis que as condições possam ter sido, um fato fundamental não pode ser ignorado: as próprias mulheres acreditavam que ir para as cidades era algo vantajoso — caso contrário, elas jamais teriam feito a jornada ou simplesmente retornariam à vida rural desencantadas. 
Dizer que o trabalho industrial "prejudicou" as mulheres dos séculos XVIII e XIX é ignorar a preferência que elas próprias demonstraram e expressaram; é ignorar a voz de suas escolhas. Claramente, as mulheres da época acreditavam que tal situação era um aprimoramento de suas atuais condições.
Uma substantiva fatia do historicismo feminista nada mais é do que uma tentativa de ignorar as vozes de mulheres que de fato fizeram suas escolhas à época. Um método comum de se fazer isso é reinterpretar a realidade que cercava as escolhas e, então, impor esta reinterpretação de modo a fazer com que as "escolhas" não mais aparentem ter sido voluntárias, mas sim coagidas.
(É claro que as mulheres dos séculos XVIII e XIX tinham escolhas severamente limitadas e podiam apenas escolher a melhor opção entre várias ruins. No entanto, isso é muito diferente de dizer que o trabalho industrial representava um retrocesso, uma coerção pior do que a vida rural.)
Uma obra essencial para se compreender a análise histórica da Revolução Industrial feita à luz do feminismo é a imensamente influente The Origin of the Family, Private Property and the State, de Friedrich Engels, lançada em 1884. Engels argumenta que a opressão à mulher originou-se com o formato tradicional da família, mas ele próprio desdenha a noção de que a família por si só havia subordinado as mulheres ao longo da história. Em vez disso, ele firmemente coloca toda a culpa no capitalismo, o qual ele acreditava ter destruído o prestígio que as mulheres outrora usufruíam dentro da família.
Escreveu Engels,
Que a mulher era escrava do homem nos primórdios da sociedade é uma das idéias mais absurdas transmitidas pela filosofia do século XVIII. [...] As mulheres não apenas eram livres como também usufruíam uma posição altamente respeitada nos estágios iniciais da civilização, sendo o grande poder entre as tribos.
Portanto, as épocas anteriores à Revolução Industrial foram romantizadas como sendo um período em que as mulheres tinham grandes poderes. Engels alegava que a industrialização provocou uma separação entre o trabalho doméstico e o trabalho produtivo, separação esta que fez com que a injustiça que era o formato da família tradicional se ampliasse. Sendo assim, o trabalho feminino se tornou um importante, mas ainda assim secundário, aspecto da libertação da mão-de-obra humana rural para o alimento da máquina capitalista. Presumivelmente, os inegáveis avanços gerados pela Revolução Industrial para as mulheres — incluindo-se um aumento na expectativa de vida e vários direitos políticos — foram adquiridos a um custo extremamente elevado.
A análise de Engels, no entanto, apresentava um problema para as feministas. Ele pressupôs que os homens não tinham nada a ganhar ao exercer poder sobre as mulheres, pois Engels analisava os seres humanos em termos de suas afiliações de classes — isto é, sua relação com os meios de produção. Já as feministas queriam uma abordagem que incluísse tanto uma opressão de sexos quanto uma opressão de classes
Para explicar por que as mulheres (ao contrário dos homens) possuem interesses que estão em conflito com o capitalismo, as feministas tiveram de ir além de Engels em suas análises.  Elas desenvolveram uma 'teoria do patriarcado' — do capitalismo masculino —, segundo a qual as mulheres eram oprimidas pela cultura masculina por meio dos mecanismos criados pelo capitalismo. Tal teoria está em nítido contraste com as análises anteriores que diziam que as oportunidades geradas pelo livre mercado eram o remédio social para as mulheres culturalmente oprimidas pelo preconceito ou pelo privilégio masculino.
Em termos mais explícitos, como funciona este remédio? Um empregador quer maximizar seus lucros sobre cada $ gasto. Isto cria um forte incentivo para que ele leve em conta apenas o mérito de um empregado, desconsiderando por completo sua cor, etnia, religião ou sexo. Tudo o que importa é a produtividade do empregado. Uma mulher capacitada, que aceitar trabalhar por, digamos, um salário $100 menor que o de um homem similarmente capacitado, irá conseguir o emprego. Se ela não conseguir, então aquele concorrente isento de preconceitos, que possui um estabelecimento logo ali na esquina, irá contratá-la, e o empregador preconceituoso irá perder sua vantagem competitiva. 
Quando esta dinâmica ocorrer em escala maciça, as mulheres trabalhadoras serão crescentemente capazes de exigir salários continuamente maiores, reduzindo esta diferença de $100. Este fator "equalizador" não se manifesta de imediato, e não ocorre perfeitamente. Porém, com o tempo, movidos pelo interesse próprio, os empregadores tenderão a se tornar indiferentes a raça e gênero, pois é do interesse deles. Eles farão isso em busca do lucro, e todos se beneficiarão.
Feministas que se opõem a este processo de equalização não estão defendendo a igualdade por si só; elas estão defendendo uma igualdade que existe somente de acordo com os termos que elas consideram "justos" e "corretos". Suas objeções à Revolução Industrial não são empíricas, mas ideológicas. 
Assim como elas não gostam das vozes das mulheres dos séculos XVIII e XIX que correram para as fábricas, elas também rejeitam tudo que o livre mercado está dizendo sobre seu desejo de igualdade.
Conclusão
Não importa se a "difamação" se deve a uma distorção dos fatos ou à imposição de uma ideologia; o fato é que a Revolução Industrial deveria processar a história por calúnia. Ou, mais especificamente, deveria processar a maioria dos historiadores.
Jocosidades à parte, e sem desconsiderar as injustiças que inevitavelmente ocorrem durante qualquer período, a Revolução Industrial estabeleceu a liberdade com a qual as pessoas se tornaram tão acostumadas, que até passaram a tratar a liberdade com desrespeito. Talvez o redentor da reputação da Revolução Industrial venha a ser a inegável prosperidade que ela criou. 
Atualmente, a prosperidade parece ser algo mais respeitado do que a liberdade, muito embora ambas sejam inextricavelmente relacionadas.
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22 outubro 2017

O Islamismo se Levanta a Partir do Secularismo da Europa

Giulio Meotti
Em outubro de 2000, na ensolarada cidade francesa de Nice, a Convenção Europeia com 105 membros esboçou a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.


Elaborada pela comissão do ex-presidente francês Valéry Giscard d'Estaing, o documento se referia apenas ao "patrimônio cultural, religioso e humanista da Europa". O Parlamento Europeu rejeitou uma proposta de Membros Democratas Cristãos do Parlamento Europeu e do Papa João Paulo II de incluir no texto as "raízes judaico-cristãs" da Europa.
Na Carta de 75.000 palavras não há sequer uma menção ao cristianismo. Desde então, uma onda de secularismo agressivo tem permeado todas as políticas da UE. Por exemplo, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos pediu a retirada dos crucifixos das salas de aula: eles eram hipoteticamente uma ameaça à democracia.
A cidade de Nice — onde há exatamente 16 anos os governantes da Europa decidiram eliminar as raízes judaico-cristãs da Constituição da UE (nunca aprovada) — acabou de testemunhar a sangrenta manifestação de outra religião: o Islã radical. "A natureza abomina o vácuo": esta é a verdade que nossas elites não querem ouvir; o islamismo se levanta a partir do que William McGurn, autor de discursos de George W. Bush, chamava de "secularismo irresponsável da Europa".
Isto é possível ver não só nas igrejas da Europa, três quartos delas vazias, e no crescimento vertiginoso da conversão dos europeus ao Islã, mas também no que está acontecendo nas escolas da Europa. Essas tendências não dão suporte à visão de Viktor Orbán de uma Europa cristã.
Há alguns dias, a Bélgica que recentemente foi alvo de ataques terroristas, decidiu que as aulas de religião nas escolas de língua francesa de ensino fundamental e médio serão cortadas pela metade a partir de outubro de 2016 e substituídas por uma hora de "aulas de cidadania": lições de secularismo. Em Bruxelas, 50% das crianças em escolas públicas já optaram por frequentar aulas sobre o Islã.
Na França, o governo socialista impôs uma "carta de secularismo" em todas as escolas banindo o cristianismo do sistema educacional. A carta é o manifesto da "révolution douce" ("revolução adocicada"), melhor dizendo: secularismo extremo da França. É uma tentativa de eliminar qualquer asserção de identidade. A quipá judaica, a cruz cristã e o véu islâmico são tratados da mesma maneira. O secularismo é o que tem sido corretamente definido como "o ponto cego da esquerda em relação ao Islã".
Além de tudo é um secularismo que endoidou. A título de exemplo a escola de ensino fundamental Yves Codou, que fica no vilarejo de La Môle, comemorou o "Dia dos Cuidadores" em vez do Dia das Mães, a fim de não causar dissabores aos casais gays. Certos municípios já mudaram o formulário de inscrição para crianças em idade escolar, eliminando as palavras "pai" e "mãe", substituindo-as por "gestor legal 1" e "gestor legal 2". É a "Novilíngua" de George Orwell.
Após dois ataques terroristas de grandes proporções em 2015, a França, em vez de promover uma "jihad" cultural baseada em valores ocidentais, respondeu ao fundamentalismo islâmico com um ridículo "Dia do Secularismo" a ser comemorado todo dia 9 de dezembro.
Não é que o secularismo "exacerbou" essas tensões culturais como afirmam muitos liberais. É que este secularismo afastou a cultura francesa dos ideais que criaram o Ocidente. O afastamento fez com que esta cultura ficasse cega em relação à incompatibilidade do islamismo com os valores seculares. Após o massacre na redação da revista satírica Charlie Hebdo, a professora francesa Isabelle Rey ressaltou que
"muitos dos nossos estudantes não compartilham da nossa consternação em relação aos acontecimentos. Podemos fingir que há consenso, mas a realidade é que uma parcela significativa da população acredita que os jornalistas mereceram o fim que tiveram ou que os irmãos Kouachi (os assassinos) morreram como heróis".
Esse secularismo tacanho também impediu a França de apoiar abertamente os cristãos orientais oprimidos pelos islamistas. O conjunto musical "The Priests" planejava anunciar a próxima apresentação em Paris com uma faixa no poster dizendo que haverá arranjos em apoio à causa dos cristãos perseguidos no Iraque e na Síria — mas a empresa que opera o sistema metroviário em Parisinicialmente proibiu o anúncio, alegando que considerava a faixa uma violação ao secularismo.
Suécia, um dos países europeus onde há mais infiltração do islamismo radical, é considerada a nação "menos religiosa" do Ocidente. De acordo com a agência Statistics Sweden, apenas 5% dos suecos são religiosos praticantes e um em cada três casais se casam somente no civil. Como é que a Suécia chegou a esse ponto? Há muitos anos o governo sueco proibiu qualquer atividade religiosa nas escolas, exceto aquelas diretamente relacionadas às aulas de religião.
Como se isso não fosse o bastante, o secularismo também não tem respostas para a questão de como lidar com o terrorismo; além disso o secularismo deixa os europeus inseguros sobre o que vale a pena lutar, matar e morrer. Se você acredita, como os secularistas acreditam, que os nossos valores são meros acidentes da história e que o bem maior é o conforto, então você não irá dar a mínima pelo futuro da civilização.
O símbolo deste 'euro-secularismo' é a igreja Oude Kerk, uma das igrejas mais famosas de Amsterdã, datada do século XIII. A igreja, ora vazia, é usada para exposições e pode ser alugada para jantares de gala. Do outro lado da rua fica o "Sexyland", apresentando "shows de sexo ao vivo", uma "coffee shop" para venda de drogas e um supermercado "erótico" para a venda de vibradores. Por sete euros é também possível visitar a igreja.
Tradução: Joseph Skilnik Original em inglês: Islamism Rises from Europe's Secularism
Divulgação: www.juliosevero.com

15 outubro 2016

A TRAGÉDIA AMERICANA



Inês Teotónio Pereira (15/10/2016)



As eleições americanas estão a destruir anos e anos de educação. Uma pessoa em casa tenta explicar aos miúdos[1] o que é ser conservador, quem foi Reagan, Thatcher, Sá Carneiro, vá. Mostramos filmes, recomendamos livros, contamos histórias. Percebemos o quanto eles são novos e nós velhos quando perguntam se a queda do Muro foi antes ou depois do 25 de Abril ou quem é Freitas do Amaral. Mas resistimos. E vamos a De Gaulle para chegar a Jean Monnet, a Kennedy para explicar a descolonização, ao Império Otomano, meu Deus, para contextualizar o caos do Médio Oriente. 


De caminho exaltamos os princípios do mundo livre do Ocidente, a génese das raízes judaico-cristãs e esforçamo-nos que nenhuma pergunta fique sem resposta para que a miudagem não se deixe enganar por populismos desonestos vindos da esquerda e da direita. 


E por fim, estoirados, contamos onde estávamos no dia em que o Muro caiu para emprestar a credibilidade que o "eu vi" dá a qualquer história. Mas bem que podemos falar que eles não percebem. É abstração a mais. Para os miúdos toda esta conversa vale zero. Para eles, líderes como aqueles que víamos na televisão, são pré-história ou, na melhor das hipóteses, são conversa de mãe saudosista – coitada. E porquê? Os nossos filhos têm Trump em vez de Reagan ou mesmo de Bush, têm Boris Johnson em vez de Thatcher, Le Pen em vez de Mitterrand e até o fato de treino de Hugo Chávez em vez da farda de Fidel Castro. Da esquerda à direita, os nossos filhos não têm referências, têm humor negro. Os políticos concorrem com a FOX Comedy e ganham. Ora, perante isto é quase impossível explicar o que é um conservador ou um democrata honesto quando aquilo que lhes aparece no YouTube são as enormidades[2] de Trump e as aldrabices[3] de Clinton. Em termos de referências políticas os meus filhos votam em Jimmy Fallon ou nos Simpson. Se Trump não trouxer mais nenhuma tragédia ao mundo pelo menos já deixou esta: ser conservador é hoje sinónimo de palhaço para as novas gerações.






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[1] Crianças pequenas, meninos, pirralhos, filhos.

[2] Disparates, ditos extravagantes. 

[3] Mentiras, patranhas, trapaças.
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