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27 julho 2023

Em matéria de misandria, política evangélica e feminista é a mesma coisa

  • 20/01/2023 16:26

 

Determined women struggle for equal rights on protest or demonstration. Female activists or leaders struggle for equality. Social justice warrior, girl power and feminism. Vector illustration.| Foto: Bigstock

FONTE


A bancada evangélica costuma ser saudada como conservadora graças à sua campanha contra o aborto e à ideologia de gênero. A campanha contra o aborto é real. A campanha contra a ideologia de gênero é parcial. Num aspecto muito importante, as líderes políticas evangélicas estão enfaticamente a favor da ideologia de gênero: as pautas misândricas e vitimistas. Ideologia de gênero designa muitas coisas, e os evangélicos mais proeminentes no debate público costumam ser contra as muitas coisas relativas à sopa de letras, desde o casamento gay até mudança de sexo em menores. No entanto, se deixarmos de lado a sopa de letras e focarmos nas mulheres, uma evangélica na política só se distingue de uma feminista por ser contra o aborto.

O governo Bolsonaro é um exemplo disso, já que aprovou a lei 14.164 que leva a “violência contra a mulher” à escola. (Noutros tempos, dir-se-ia “violência doméstica”.) Essa lei é assinada por Bolsonaro, Damares e Milton Ribeiro; quem se destacou no ativismo por ela, porém, foi Damares. Eis como Damares tratava o tema do enfrentamento à violência contra a mulher: “A violência contra a mulher, ela precisa ser encarada, mas nós só vamos trabalhar, nós só vamos ter resultados de fato, com relação à violência contra a mulher, começando lá na escola. Nós entendemos que tem que ir para a sala de aula, falar com o menino e com a menina a partir de quatro anos. O tema vai ter que ser matéria curricular. O tema vai ter que ser discutido todos os dias em sala de aula”. A declaração é anterior à aprovação da lei, que saiu muito menos radical; é apenas uma semana em março para tratar do assunto. Ao meu ver, o que Damares prega nessa declaração é abuso infantil. Por favor, imagine-se tendo que falar de “violência contra a mulher” com um garotinho feliz de quatro anos. Agora imagine-se falando “todo dia” sobre isso com um garotinho de quatro anos, depois continuar quando ele fizer cinco, e assim sucessivamente. Se não fizer isso, Damares não vai ter como trabalhar e as mulheres vão continuar apanhando!

Crianças de lares bons e ruins vão para a escola. Se um garotinho de quatro anos tem um pai que bate na mãe, ele, individualmente, deve receber atenção especializada. Na escola há crianças aflitas por todo tipo de crime; não parece razoável dar aulas “todo dia” sobre diversos tipos de crime. Isso seria abuso infantil. Não é doutrinando meninos de quatro anos que se coíbe a violência doméstica, é punindo os criminosos e incitando mais prudência nas mulheres.

Quando as feministas tratam do assunto, o discurso é o mesmo: a chave é a “educação”, isto é, doutrinação. E o fato de Damares propor uma barbaridade sem causar escândalo é perturbador.

“Gênero nas escolas”, o determinismo social feminista

A origem dessa lei é feminista radical. No começo da década de 2010, quando eu estava na faculdade, existia um slogan que era repetido pelas feministas: “gênero nas escolas”. Supostamente, os grandes vilões que combatiam as feministas eram os evangélicos. (Silas Malafaia era o arquétipo do vilão evangélico.) No início da década, ao menos no Brasil, o “gênero” era muito mais um assunto das feministas do que dos gays. A ideia é que homens e mulheres nascem iguais e a sociedade patriarcal os corrompe, impondo, por meio da educação, diferentes “papéis de gênero” aos seres humanos. O sexismo seria como o racismo: pega um acidente de nascimento e usa-o para criar distinções e hierarquias. No caso do racismo, o acidente de nascimento é a a cor; no sexismo, genitália. No entanto, há uma diferença fundamental entre homens e mulheres proporcionado por esse acidente: os homens são “estupradores potenciais”. Como impedir o estupro? Por meio da “educação”. Seria uma missão das escolas ensinar, desde a mais tenra idade, que homens e mulheres são iguais. Nesse esquema, não há a possibilidade de mudar de sexo em idade adulta: se você foi “socializado como homem”, então é irreversivelmente homem, logo, estuprador potencial.

É um amálgama de determinismo social e misandria. O homem se define por meio de sua educação, e seu diferencial em relação à mulher é a possibilidade de estuprar. As feministas costumam repetir que homens podem ser estuprados, mas só por outros homens.

No início da década de 10, “gênero” era mesmo coisa de feminista. Na UFBA, quem dava o recém-criado “bacharelado em gênero e diversidade” era o velho Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), que ficava no meu campus. Num ambiente muito mais tolerante do que hoje, o NEIM era só era referido em tom jocoso. Um professor gay foucaultiano aludia brincando às “mulheres do NEIM”. Um amigo petista se referia às tabacalibãs (tabaca é um regionalismo que designa vagina). Pois bem: as feministas lésbica-misândricas do NEIM queriam “gênero nas escolas”, pois do contrário os evangélicos imporiam papéis de gênero subalterno às meninas. Segundo a visão conspiratória dessas feministas, homens e mulheres só são diferentes por causa da educação. Todos os homens são “estupradores potenciais” porque “o patriarcado” os socializou assim. É preciso resolver o problema por meio da “educação”.

Feministas perderam para os gays

Tudo é muito confuso. À época, um amigo gay começou a me falar de Judith Butler, a filósofa oficial da ideologia de gênero. Ele gostava muito, os professores dele não conheciam e eu tampouco. Pelo que ele me explicava, eu achava estranha a ideia de alguém poder ser uma mulher em função do papel de gênero, porque o comportamento que ele usava como exemplo era muito estereotipado. Por essa régua, eu não sou mulher e Astolfo Pinto é, ao menos enquanto interpretava Rogéria. Daí ele dizia que o comportamento estereotipado de algumas mulheres trans se devia à necessidade delas de se autoafirmar. Mas o meu amigo se afligia à época porque as suas amigas lésbicas queriam convencê-lo de que ele era um potencial estuprador de mulheres porque é homem. Se tem pênis, foi socializado como homem; se foi socializado como homem, é homem; se é homem, pode estuprar mulheres. Daí ele respondia que não gosta de mulher e as amigas lésbicas diziam que não importa, pois “sexo é relação de poder”. Por aí vocês veem como é leve e aprazível a vida de militante. As lésbicas ficavam obcecadas por pênis e estupro, chamando gays e travestis de estupradores potenciais; os gays e travestis ficavam furiosos e inventaram um nome científico para xingar as mocreias: “transfóbicas”. E se eu já ficava incomodada com aquela descrição estereotipada do que é uma mulher, imaginem as lésbicas.

No frigir dos ovos, o que aconteceu foi que as organizações gays se transformaram em associações de sopa de letras e ganharam das feministas lésbicas essa briga. Com o casamento gay legalizado na maior parte do Ocidente, a nova frente tornou-se direitos trans. E aí, senhoras e senhores, é que houve o grande cisma no progressismo que baniu as tabacalibãs: a feminista acha que pessoas barbadas de vestido não devem frequentar espaços femininos passou a ser xingada como TERF, sigla de trans-exclusionary radical feminist, ou “feminista radical que exclui trans”. Como a celeuma foi muito mais forte em inglês, vem-me à mente o bordão “Trans women are women”, “Mulheres trans são mulheres”. E se você nega isso, você é conservador.

Moral da história: o feminismo radical virou conservadorismo, frente à ideologia da moda.

As evangélicas absorvem o discurso

Como pouca gente suporta a pecha de radical, a maioria das mulheres de esquerda aceitou que mulheres trans são mulheres. A postura, creio eu, também tem muito a ver com a orientação sexual. Se a esquerdista for heterossexual, seu feminismo consistirá em reclamar do namorado/ficante/ex/marido etc. “Os homens são todos iguais!”, diz a bisneta feminista da bisavó carola que dizia a mesma coisa. Mas se a esquerdista for lésbica e aceitar as teorias de Judith Butler, ela pode concluir que na verdade é um homem preso no corpo de uma mulher, fazer uma jornada de transição de gênero e, no final, fazer parte da nata das minorias oprimidas na prestigiosa condição de homem trans.

Se há um assunto capaz de unir mulheres frívolas, é falar mal de homem. Mulheres frívolas há em todos os credos e opiniões políticas, e a política com certeza obrigou feministas e evangélicas a conversarem. Um resultado é esse aí, o do “gênero nas escolas”. Como vimos, a educação é um substitutivo à punição.

Tal como as feministas, Damares também é contra o “punitivismo”. Em entrevista a esta Gazeta, ela alega que há tantos casos de agressão à mulher, que não haveria cadeia bastante para os agressores. Além disso, as mulheres tendem a voltar para eles. Assim, em vez de julgar a vítima e punir o agressor, cabe à turma do Direito punir com umas rodas de conversa aí, para o cara repensar a vida, porque no fim das contas ele estava reproduzindo a violência do lar no qual fora criado (ou socializado, diria a feminista). Em vez de prestar serviços à comunidade, o agressor poderia ter como pena um sermão desses. E nesse sentido aparece também a infame lei que criminaliza a suposta “violência psicológica” contra a mulher, sancionada por Bolsonaro. (Critiquei-a aqui.) A mulher, explica Damares, só aceitava aquela condição por ser uma vítima de violência. Aí precisa condenar o homem a ouvir blá-blá-blá após transformá-lo juridicamente num criminoso.

Problema comum entre evangélicas

Por que as evangélicas em específico? A especificidade é relativa tanto ao sexo quanto à religião. Comecemos com o sexo: segundo uma síntese muito sagaz de Jordan Peterson, as mulheres têm a sua jornada do herói ao domar a fera, como em A bela e a fera. Quanto mais medonha a fera, maior o desafio; quanto maior o desafio, maior a vitória. Logo, uma mulher vaidosa que queira se sentir poderosa vai pegar o homem mais complicado possível com o fito de transformá-lo num príncipe. Isso pode ter um lado bom, que é o fato de ela insistir em um homem em vez de tratá-lo como descartável. Mas pode também ser uma grande cilada para ela, caso não saiba medir as próprias forças e avaliar o perigo com o qual está lidando. (Já escrevi sobre as feministas que não sabem lidar com o perigo também, aqui.)

Quanto ao fato religioso, é comum entre evangélicos aumentar muito a própria desgraça na fase pré-conversão. Quanto mais criminoso e degradado, maior o milagre operado por Deus ao dar-lhe a graça. Vão dizer até que são ex-aidéticos. (Eu creio que haja influência barroca nisso, e já escrevi sobre. Todo evangélico ex-tudo seria um pouco como Gregório de Mattos.) Por tabela, quanto mais desgraçado o homem que a evangélica achar, mais divina será a sua conquista.

Juntando uma coisa e outra, isto é, a vaidade feminina à valorização da última das ovelhas, a evangélica tem um duplo incentivo para arranjar um homem horrível e sofrer na mão dele. E quando seus planos derem errado, ela vai querer a mão do Estado para botar o seu homem nos eixos.

Ao cabo, no que depender do pseudoconservadorismo das evangélicas, o Estado deve tomar conta dos maridos -- o que bem se parece com o que Foucault temia. O meu professor foucaultiano estava certo. "As mulheres do NEIM" são mesmo um caso sério.


27 janeiro 2023

O capitalismo de Estado da "pobreza menstrual"

 

A Bolsa Modess da Dona Tabata merece ser chamada de retrocesso. O Bolsa Família deu certo apostando na liberdade do pobre em escolher como gastar o próprio dinheiro, ao tempo que reduzia a burocracia. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo via OTambosi

  • 08/10/2021 12:03

Guardei o papelzinho do absorvente Always. Aquele papelzinho que puxamos para colar o absorvente na calcinha. Nele, para a minha surpresa, vinha um monte de florezinhas e escritos motivacionais: “Força”, “Meu jeito/ Nossa vitória”, “Seja o lado bom”, “#TamosJuntas”, “Não desista”, “Meninas Podem!”, “Acredite” e “Permita-se!”. Algum publicitário idiota acha perfeitamente normal e sadia a ideia de receber motivação impessoal e anônima de um absorvente. É mal generalizado; vemos um monte de frases piegas e anônimas espalhadas por placas. Eu não quero viver numa sociedade em que todos presumem que sou uma órfã que precisa de empatia, e muito menos numa sociedade em que a empatia venha de coisas inanimadas como um papelzinho de absorvente.

Mas ao ver a montanha de florezinhas me ocorreu também que o produto hoje é voltado para uma faixa etária baixa, para adolescentes em vez de mulheres feitas. Com a pílula, é provável que os absorventes descartáveis tenham visto sua receita despencar ao longo dos anos. Qual a solução? Lobby! Basta emplacar uma compra bem grandona com governos.

Triste história contada pela Always

Você na certa viu a tristíssima estatística de que um quarto das meninas faltam às aulas por não poderem comprar absorventes descartáveis. Essa estatística é repetida sem que se fale sempre na sua origem: um estudo da Always. Tem hora que o Brasil é pior que o mundo no que concerne ao tratamento dado a homossexuais, graças aos dados do GGB (Grupo Gay da Bahia). E tem hora que é pior que o mundo, graças aos dados da Always: “A ONU estima que 1 em cada 10 meninas falte a escola durante a menstruação, e no Brasil esse índice é ainda pior. Segundo a pesquisa, 1 em cada 4 mulheres já faltou a aula por não poder comprar absorventes. Quase metade destas (48%) tentaram esconder que o motivo foi a falta de absorventes e 45% acredita que não ir à aula por falta de absorventes impactou negativamente o seu rendimento escolar.

Empresas privadas se comportam como ongueiros – aliás, arranjam até uma ONG de fachada para mascarar o seu lobby. Como mostrou a cientista política Marize Schons em suas redes sociais, a P&G, dona da Always, é uma financiadora da ONG Girl Up. E essa ONG é a responsável por criar um projeto para usar o seu dinheirinho para “combater a pobreza menstrual” – termo que ninguém conhecia e que de repente parece um problema urgentíssimo.

A jornalista Paula Schmitt comparou a conduta dos lobistas à dos cracudos que pedem para pessoas decentes comprarem o leite das crianças. Ela tem razão; afinal, um jeito bem eficaz de tirar dinheiro dos outros é dizer que é para ajudar criancinha pobre. Depois o cracudo revende o leite e o lobista faz a festa com a licitação.

E os movimentos liberais, hein?

Nas redes sociais, políticos do Novo, do MBL e a conta oficial do Livres têm defendido que Bolsonaro é mau como um pica-pau por não ter apoiado a Bolsa Absorvente da Dona Tabata. A Bolsa Modess seria super compatível com o liberalismo porque absorvente não é privilégio. E comida? Comida é mais importante que absorvente. Será então que o governo deveria abrir licitação de feijão pra distribuir?

Isso lembra o debate do início dos anos 2000 em torno do Bolsa Família. Quando Lula assumiu, queria implementar o Fome Zero, que coletava alimentos e os distribuía aos necessitados. O projeto acabou abandonado. Com a introdução dos economistas liberais por Palocci, Lula largou os economistas da Unicamp e adotou figuras como Marcos Lisboa, que cito: “José Márcio Camargo e Francisco Ferreira fizeram então a proposta de unificar todos os programas de transferência de renda [do governo FHC, tais como Bolsa Escola e Vale Gás] e distribuir os recursos para as famílias mais pobres com filhos na escola. No lugar de variados programas que subsidiavam o consumo de bens específicos [tais como a novidade da vez, que é o absorvente descartável], seria preferível transferir renda, dinheiro, diretamente às famílias extremamente pobres. Caberia a elas, então, decidir como melhor utilizar esses recursos para atender às suas necessidades. Foi esse o caminho afinal tomado pelo governo – o da unificação e focalização dos programas de transferência de renda –, apesar da oposição feita por muitos economistas e intelectuais ligados ao PT. O mérito por essa guinada é do presidente Lula, com o apoio decisivo do ministro Antonio Palocci. Eles souberam reformular a política social – e abraçar a agenda liberal – quando ficou claro o fracasso das propostas originalmente defendidas pelo PT, como Fome Zero e Primeiro Emprego. Nascia assim o Bolsa Família.”

A Bolsa Modess da Dona Tabata merece ser chamada de retrocesso. O Bolsa Família deu certo apostando na liberdade do pobre em escolher como gastar o próprio dinheiro, ao tempo que reduzia a burocracia. Desde a época do PT, as meninas pobres têm o dinheiro do Bolsa Família para comprar absorventes. É claro que a mãe da menina vai saber melhor do que o Estado quantos pacotes a filha usa por mês e qual modelo é o seu preferido. (Com abas? Sem abas? Precisa de absorvente noturno ou o fluxo é pouco?) Agora, a menina pobre tem uma outra receita para comprar absorventes: o Auxílio Brasil, que Bolsonaro quer unificar com o Bolsa Família mantendo a filosofia liberal.

Em matéria de liberalismo, Tabata, o Novo, o MBL e o Livres estão mais perto de Maria da Conceição Tavares do que de Marcos Lisboa. Podem ir dar aula de economia na Unicamp e na UFRJ. Ou isso, ou sua atuação política é lobby disfarçado de preocupação com os brasileiros.



23 junho 2022

A glorificação do QI é uma nova forma de hierarquização da humanidade

 

Elon Musk parece achar que os genes fazem tudo sozinhos, e basta um gênio engravidar uma mulher que não seja burra para ter bons filhos. Mas ele está aí às voltas com uma filha fazendo barraco na imprensa. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povovia OTambosi


Em meados do século XX, a sociedade dos EUA foi conquistada pela propaganda da Planned Parenthood, segundo a qual as mulheres deveriam abandonar a maternidade como fonte de sentido para suas vidas e substituí-la pelo prazer sexual e pelo dinheiro. Os negros eram o alvo predileto dessa propaganda e, somando-se esta aos cheques para mães solteiras, uma decadência cultural tomou conta desse grupo populacional. A miséria à qual se deixaram reduzir foi interpretada como um resultado da escravidão, e mais políticas corruptoras foram apresentadas como remédio para a situação – não obstantes as contundentes refutações dos intelectuais negros Thomas Sowell e Walter Williams.

A propaganda não se deteve nos negros, nem nos EUA. O jornal The Washington Post trouxe esta manchete: “Esta adolescente texana queria fazer um aborto. Agora tem gêmeos”. A matéria mostra uma “vítima” da lei, uma moça branca de 18 anos branca, com seus dois bebês brancos. Quando a lei texana passou, ela teve de fazer um exame para ver se já havia batimento cardíaco. Como havia, ela manteve a gravidez e se casou com o namorado, pai das crianças. A julgar pela matéria, tudo está bem com a moça, mas ainda assim a jornalista (uma divulgadora da Planned Parenthood, segundo Matt Walsh) se empenha em extrair piedade dela: “Algumas vezes Brooke imaginou como seria a vida se ela não tivesse engravidado […]. Ela teria feito o ensino médio […]. Imaginou um apartamento em Austin e dinheiro suficiente para uma viagem ao Havaí, onde iria nadar com golfinhos numa água tão clara que daria para ver os dedos do pé”. Poucas pessoas do mundo vão a praias paradisíacas. Mas a propaganda é essa: se não tiverem filhos, as mulheres (e só as mulheres) ganharão rios de dinheiro. Às vezes, a propaganda antinatalista se faz de propaganda pró-educação – como se o mercado de trabalho já não estivesse saturado de diplomas, e um bacharelado bastasse para bancar férias no Havaí.

Elon Musk ataca o antinatalismo

Assim, dado o estado de coisas, é animador ver Elon Musk, uma figura de proa dos EUA, se posicionar em prol do natalismo. Essa é uma das questões que opõe Bill Gates a Elon Musk – e é natural que seja assim, já que o ESG, adotado pelo primeiro e atacado pelo segundo, é neomalthusiano e antinatalista. Enquanto dirigia seus tuítes contra Bill Gates e aos donos do Twitter, Elon Musk chegou a lamentar que não tenhamos ficado de luto pelos não-nascidos, já que a resposta à pandemia fez despencar a natalidade mundo afora. Mais recentemente, ele manifestou preocupação com a taxa de natalidade do seu país adotivo, que está abaixo da reposição, e afixou o tuíte em seu perfil.

Eu acharia tudo ótimo, não fosse a sua última defesa do natalismo um tanto suspeita. O leitor já ouviu falar do filme Idiocracy? Eu nunca vi, mas ouvi falar muito porque o povo que gosta ou gostava de Dawkins em geral gosta desse filme. E o fã de Dawkins, por definição, é um ateu que se sente mais inteligente do que o resto da humanidade pelo mero fato de ser ateu. Esse ateísmo é o fim do percurso do protestante que, depois de problematizar o São João com base na Bíblia, problematizou o Natal com base na Ciência. Daí opõe ciência a religião e fica em apuros para explicar a história da ciência entre os séculos XVI e XVII, quando praticamente todo cientista experimental que desafiou a Igreja era cristão e às vezes católico.

Pois bem. Em sua mais recente investida natalista, Elon Musk disse: “Assistam à abertura de Idiocracy. Quando eu pergunto aos meus amigos por que eles ainda não têm filhos (pouquíssimos têm), soa exatamente como no filme. Pode virar um documentário, já que está virando verdade”. No vídeo aparece o enredo de Idiocracy: a Ciência possibilitou que as pessoas com QI baixo vivessem muito e elas não pararam de se reproduzir. Ao mesmo tempo, as pessoas com QI alto não paravam de adiar o momento para ter filhos e não tinham nunca (o casal igual aos amigos de Elon Musk planeja, planeja, o homem morre infartado depois de se masturbar para coletar esperma e a viúva congela os óvulos esperando que um homem certo para ela apareça). O resultado é que os inteligentes entraram em extinção. Assim, um sujeito mediano, congelado dos dias atuais e descongelado 500 anos depois, é um gênio na nova sociedade de gente com QI ínfimo.

Et voilà a hierarquização da humanidade outra vez. Em vez de raças, pode entrar pelo QI, outra vez com as bênçãos da deusa Ciência e a complacência dos bem pensantes.

Glorificação do QI

Certamente Elon Musk tem um QI altíssimo. Quanto a Dawkins e ao ateísmo, numa googlada descobre-se que eles têm rusgas (cá com meus botões eu apostaria que Musk é um ex-fã), mas também se descobre que as diferenças são nominais, pois Musk se diz agnóstico em vez de ateu por achar que o agnosticismo, em vez do ateísmo, está em linha com a Ciência. Musk e Dawkins têm a mesma régua última (a Ciência), nenhum deles acredita em Deus e a discussão entre ambos é bizantina (caso o leitor queira saber por que sou ateia, é porque quando criança eu achava que os adultos sabiam de tudo. Quando cresci um pouquinho, descobri que em matéria de religião eles só repetiam as coisas que tinham ouvido. Aí não acreditei em mais nada, e toda vez que aparece alguém cheio de certezas, como Dawkins, eu antipatizo logo. Não acredito em Deus, nem vou acreditar na deusa Ciência, cujo fã clube é muito arrogante).

Assim, como bom fiel da Ciência, Elon Musk parece acreditar no poder mágico dos genes para fazer bons filhos. De fato, o consenso científico aponta para uma correlação entre genética e QI, além de reconhecer o QI como uma boa medição da inteligência. Como o legado medieval considera a racionalidade a diferença específica humana, os hierarquizadores protestantes da humanidade alegavam que algumas raças eram mais inteligentes do que outras, portanto superiores; e hoje os hierarquizadores ateus podem posar de antirracistas com consistência enquanto escolhem o QI.

O QI é mais ou menos como a altura: herdamos dos pais os genes que nos dão uma tendência, mas é possível termos um QI mais baixo, ou uma altura mais baixa, a depender do meio. Mesmo que seja bem alimentada, a população do sertão do Cariri vai ser baixinha, porque é o biotipo de lá mesmo. Um dinamarquês, porém, se bem alimentado, vai ser altão. Mas se você deixar o dinamarquês com fome na infância, seu crescimento será comprometido e ele não será altão. Além disso, o sertanejo que passou fome na infância será mais baixinho ainda. Ou seja, as pessoas têm diferenças inatas no QI, mas a infância é determinante para cada um atingir o melhor possível. E, diferentemente da altura, que se limita a questões físicas, o QI precisa de interação humana. Dá para pegar crianças com boa genética, alimentar bem, mas, se ela for largada na primeira infância, vai ter sérios problemas cognitivos. O melhor exemplo disso é a história das crianças romenas largadas em orfanato estatal. Ceaucescu queria aumentar a taxa de natalidade na marra, pegar os filhos das mulheres que não pudessem criá-los, e, em vez de encher a Romênia de trabalhadores, encheu-a de jovens inválidos.

Nos EUA, o debate acerca do QI sempre resvala para o livro The Bell Curve, que examina os dados de QI racialmente e coloca o grupo dos negros dos EUA abaixo do grupo dos brancos dos EUA, e este abaixo dos orientais nascidos nos EUA ou na Ásia. O livro foi criticado por Sowell, que desconfia da medição do QI dos negros em função de sua precária alfabetização (se o teste é escrito, a má alfabetização atrapalha o desempenho). Seja como for, a argumentação do livro é que um gráfico com a demografia do QI tem uma forma de sino: quanto mais burro e mais inteligente, mais raro. Quanto mais mediano o QI, mais frequente. Muitos são medianos, poucos são muito burros ou muito inteligentes. A novidade do livro é que o sucesso financeiro e profissional é condicionado pelo QI: não importa se a criança nasceu pobre ou rica, se negra ou branca; se ela tem um bom QI, ela terá sucesso; se tem um mau, será uma fracassada.

Mães e QI

Se eu fosse Sowell, olharia para as crianças da Romênia. Uma coisa é ser filho de uma solteira pobre; outra, ser filho de uma solteira drogada. Ou, simplesmente, ser o boneco que uma mulher usa para fotografar e postar no Instagram. Recentemente constatou-se mundo afora a primeira queda no QI global. Para o neurocientista Michel Desmurget, o corte geracional relevante é ter nascido com a grande presença da internet. Esta está associada à “diminuição da qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional; diminuição do tempo dedicado a outras atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura etc.); perturbação do sono, que é quantitativamente reduzido e qualitativamente degradado; superestimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade; subestimulação intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial; e o sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, influencia a maturação cerebral”. Ao fim e ao cabo, de nada adianta nascer com bons genes se não houver alguém que lhe dedique amor.

Elon Musk é um natalista que faz o que prega. Ele se casou e teve um filho por meios convencionais com a primeira esposa. O bebê teve morte súbita. Depois, teve apenas com fertilização in vitro. Foi uma gravidez de gêmeos e outra de trigêmeos. A mãe do seus outros filhos é uma cantora canadense. Ambos deram ocasião a manchetes: o primeiro, por ter um nome impronunciável; o segundo, por ter sido encomendado de uma mulher paga para engravidar. Quando o bebê chegou à mãe biológica, parece que eles já não estavam mais juntos. Uma filha adulta ganhou o noticiário por ser transgênero e querer tirar o sobrenome do pai.

Gravidez por substituição é algo muito novo e muito caro. Se eu fosse alguém muito preocupada com QI, faria o máximo para manter uma boa interação entre mãe e filho e estimular o desenvolvimento cerebral o mais cedo possível. Quereria uma mulher que desse de mamar (se ela não gestou, não vai produzir leite) e fugiria de uma mulher que não gostasse de carregar o próprio filho no ventre. Dada a conduta, Elon Musk parece achar que os genes fazem tudo sozinhos, e basta um gênio engravidar uma mulher que não seja burra para ter bons filhos. Mas ele está aí às voltas com uma filha fazendo barraco na imprensa.

Chomsky é tão sagaz assim?

Segundo os dados disponíveis, chineses e japoneses são mais inteligentes do que brancos (excetuados os judeus asquenazitas). No entanto, o mundo inteiro – chineses e japoneses inclusos –, ao menos até o século passado, votou com os pés nos países construídos pela cristandade. Com seu QI humilde, o Ocidente construiu uma civilização na qual os outros querem morar.

Se esse pessoal fã de QI fosse tão adepto da ciência quanto alega, a primeira coisa a ser feita na valoração do QI seria observar as biografias de pessoas de QI alto e as sociedades com uma demografia de QI alto. Ao meu ver, as personagens de QI alto mostradas na abertura de Idiocracy são idiotas. As opiniões políticas de Noam Chomsky, emitidas do alto de seu QI estratosférico, são idiotas. O Japão tem muita gente inteligente, mas marcha para uma população cada vez menor – e não por planejamento, mas por dificuldade nas relações humanas, cheio de adultos virgens.

Primeiro veio a moda da educação: todo pai tinha que fazer os filhos estudarem muito para ficar muito inteligentes e terem sucesso na vida. O resultado, descrito por Michael Sandel em A tirania do mérito, é um monte de niilista com doença mental. Vamos acompanhar Elon Musk para ver se ele não representa uma tendência à engenharia genética como jeito de ter filhos muito inteligentes.

Mas a raiz desse mal talvez seja a necessidade de hierarquizar e ser superior. Um homem mediano não pode ter uma vida plena de realizações e de sentido? Para que criar filho igual a potro de competição?




15 junho 2022

Atentados a tiro são efeito de disponibilidade de armas ou questões culturais?

Há um aumento generalizado de todo tipo de violência nos EUA, de modo que os ataques deveriam ser enxergados dentro desse quadro geral. Não foi a posse legal de armas que causou esse aumento, pois ela só faz diminuir nos EUA desde os anos 80. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo, via OTambosi:

15/06/2022

Toda vez que aparece um atirador maluco nos EUA, os progressistas falam em regular armas. A direita de lá tem sacado um relatório da RAND Corporation para mostrar que leis proibitivas não diminuem os atentados. Cá no hemisfério sul, o debate acerca da liberalização das armas costuma apontar a impotência das leis restritivas perante o comércio ilegal de armas – sendo este, de longe, o maior problema em relação a armas no Brasil.

Pois bem: descontadas as questões legais, ninguém há de negar que é fácil conseguir uma arma no Brasil. Se a sua intenção for disparar no máximo de crianças possível e se matar em seguida, como fazem os doidinhos dos EUA, não há por que se preocupar com legalidade. Como o comércio ilegal de fuzis no Rio de Janeiro deve superar em muito o comércio legal de fuzis em qualquer área residencial dos EUA, devemos supor que é mais fácil um doidinho arranjar um fuzil no Brasil do que nos EUA. Ainda assim, fato é que atentado de doidinho em escola não é um problema comum por aqui. As armas até entram nas nossas escolas – mas pela mão mercantilista do narcotráfico, interessada em faturar o máximo e não em atirar nos alunos a esmo.

Assim, só podemos concluir que o problema dos EUA precisa de uma explicação de ordem imaterial; de uma explicação que se valha da cultura, dos valores, dos costumes. Os progressistas que apontam para a disponibilidade de armas como a causa do problema têm a ilusão de que o mundo humano é explicado suficientemente pela matéria. São os mesmos que explicam a criminalidade violenta por carência material (pobreza) e se acham capazes de resolver os problemas do mundo distribuindo renda.

Uma explicação diante do nariz

Tucker Carlson abordou o problema em seu programa. Segundo os dados trazidos por ele, há um aumento generalizado de todo tipo de violência nos EUA, de modo que os ataques deveriam ser enxergados dentro desse quadro geral. Não foi a posse legal de armas que causou esse aumento, pois ela só faz diminuir nos EUA desde os anos 80. “O problema,” diz Tucker, é que “as pessoas mudaram; os homens jovens mudaram. Eles estão mais violentos. Por quê? Esta é a conversa bipartidária que precisamos ter agora”.

Com muita prudência, Carlson diz que deve haver múltiplas causas para isso. De todo modo, um objeto de correlação mais promissor do que a posse legal de armas (que diminuiu) é o uso de antidepressivos, que aumentou junto com a violência. Entre 1991 e 2018, segundo ele, o uso de antidepressivos aumentou mais do que 3.000% nos EUA. Claramente já havia algo de muito errado com a sanidade mental daquele país. E o problema ainda piorou muito com a política de confinamento. Segundo os dados trazidos por Carlson, depressão, ansiedade e suicídio explodiram entre os jovens, impactados pelas escolas fechadas. Seria de estranhar que um aumento geral de doenças mentais entre jovens não fosse acompanhado por um aumento de doidinhos praticando atentados em escolas.

Carlson acha ainda que a indústria farmacêutica merecia ser cobrada, já que essa montanha de antidepressivos não parece estar funcionando. Nisto ele tem razão. A este respeito, veja-se o artigo de Eli Vieira sobre a duvidosa eficácia dos antidepressivos, que não são desacompanhados de efeitos colaterais desastrosos à saúde mental dos jovens, tais como perda de libido (imagine uma adolescência sem libido. Não seria de estranhar que os jovens fossem confusos quanto à própria sexualidade se tornassem mais suscetíveis ao contágio social da ideologia de gênero).

No mais, Carlson aponta que o hábito de ficar trancafiado em casa mexendo na internet subiu bastante, e que um dos atiradores recentes certamente vivia assim. Registro isso apenas porque o atentado brasileiro mais conforme ao estilo dos EUA, o de Realengo, foi protagonizado por um sujeito com esse perfil. Rejeitado pelas meninas nos tempos de escola, ele passava o dia na internet curtindo um ódio generalizado às mulheres. A despeito de todas as restrições legais às armas, invadiu a antiga escola armado mirando nas meninas (este é um raro caso em que se morre, de fato, “por ser mulher”. E não os crimes passionais que as feministas chamam de "feminicídio").

E a Europa, como vai?

Não será nada ousado dizer que os EUA estão cada vez mais cheios de doidos violentos. Nem todo doido é violento, porém. Lendo uma notícia do Telegraph, é inevitável concluir que os britânicos estão fora da casinha. “Crianças tamagotchi que não existem podem resolver o problema populacional”, diz o jornal britânico, acrescentando que a “prole virtual poderia se tornar plenamente aceita na sociedade, seria barata de criar e nem teria que crescer”. Por que gente assim não arranja um cachorro ou um gato?! A ideia é de uma tal Catriona Campbell, autoridade em inteligência artificial na Grã-Bretanha. Numa pesquisada, descobre-se que é uma figurona da – pasme – psicologia, área que é um chamariz de doido.

Os bebês existirão no Metaverso e serão parecidos com os pais, insiste o jornal. Aprendemos ainda que criatura apareceu com essa ideia após uma pesquisa revelar que 10% dos casais sem filhos optam por não terem filhos por causa de preocupações com a superpopulação do mundo e com os custos de ter um filho. A Dona Catriona “argumenta que as preocupações com a superpopulação levarão as sociedades a abraçarem crianças digitais. É uma transformação demográfica que ela apelidou como ‘Tamagotchi generation’”. Se um casal decide não ter filhos por causa dos custos, o que fazer? Ofertar-lhe um tamagotchi. Parece o método Michael Jackson de tratar vitiligo. Por alguma razão, o pressuposto é que as pessoas que deixam de ter filhos por causa de custos devem ser ignoradas, ao passo que os doidinhos neomaltusianos devem ser atendidos, porque irão se multiplicar dentro da população já existente. Ah, é claro que um gênio desses estava em Davos no mês passado, palestrando no WEF de Klaus Schwab.

Continuemos com as opiniões dessa senhora: “Crianças virtuais podem parecer salto gigante agora, mas dentro de 50 anos elas terão avançado tanto que os bebês que existem no Metaverso serão indistintos dos do mundo real. À medida que o Metaverso evolua, posso ver crianças virtuais se tornando uma parte aceita e totalmente abraçada em muito do mundo desenvolvido”.

Como eu não sou formada em psicologia, eu sei que filho dá trabalho, e sei que as pessoas gostam de mascarar a preguiça com intenções nobres. Não sei quantos desses casais não são simplesmente gente que quer ficar sossegada, sem esquentar a cabeça com criança, mas acha mais bonito dizer que está fazendo um sacrifício em nome da pseudociência elitista da vez. De todo modo, como fanatismo de fato existe e alguns casais de fato devem temer o fim do mundo, eu me pergunto qual será a sanidade mental dessas pessoas planejadas pela cientista, que criam um boneco virtual para aplacar a frustração de não ter um filho. Tem como dar certo isso?

Na Itália, menos mal

O tópico do custo dos filhos, na Europa, também me chama a atenção. Onde há Estado de Bem Estar, os pais não têm por que gastar com escola nem plano de saúde. Os custos do filho seriam com comida, mas quem é pobre ganha auxílio estatal. Assim, ao menos antes da inflação de alimentos causada pela guerra na Ucrânia, só posso presumir que o problema dos europeus seja o alto padrão de consumo – e não deixo de pensar que partilhem da mentalidade do WEF, pois em vez de baixar o padrão, optam por não ter filhos. O WEF planeja um mundo cheio de quinquilharia tecnológica e com pouca gente, em tese por causa de ambientalismo. Não faria mais sentido cortar a quinquilharia tecnológica? Precisa dar iPhone pra criança, mesmo estando associado ao aumento de doenças mentais? E precisa lançar um iPhone todo ano? Nenhum desses tecnoiluminados do WEF trata obsolescência programada como um mal a ser combatido. Eu passei 8 anos com um computador por não usar a quinquilharia do herói globalista Bill Gates, que transforma rápido qualquer máquina em calhambeque.

Dado o quadro geral da Europa e a agenda que o WEF nos empurra, é alentadora a notícia de que a Itália resolveu fazer propaganda pró-natalidade, em aberta campanha contra o antinatalismo verde. No entanto, o expediente é um mau déjà vu: eles vão estimular a natalidade pagando. A matéria da Aceprensa que traduzi neste jornal dizia que os detalhes estavam por vir; pesquisando, encontrei a informação de que a pensão seria dada às mulheres. Será que pagar às mulheres para serem mães pode ser uma boa ideia? Creio que o caso do menino Rhuan deveria ser levado em conta em toda política que envolva estímulos puramente financeiros à maternidade; afinal, só esse tipo de estímulo poderia levar uma lésbica misândrica a engravidar. No caso, a mãe de Rhuan e a sua namorada, cada qual com um filho, somavam as pensões descontadas dos salários dos pais das crianças. Quando o pai de Rhuan conseguiu suspender a pensão porque ela tinha sumido com o menino, a psicopata viu na criança apenas uma boca extra, torturou-o e matou-o. A maioria das mães não é psicopata, mas a maioria das mulheres se torna mãe por razões alheias à economia, e às vezes contra a economia. Criando-se um pagamento, cria-se um estímulo para que psicopatas botem filhos no mundo. O perfil da mulher que se torna mãe muda, e isso não pode ser bom.

O artigo de Massimo Calvi citado pela Aceprensa expressa uma perspectiva assemelhada à minha e agrega informações. Também ele considera que não é a natalidade, mas sim o consumo ilimitado o que deveria pesar nas preocupações com o meio-ambiente. Mencionou também que um medo das mulheres é o de não poder dar o melhor para os filhos – coisa que responde às minhas dúvidas quanto à questão do padrão entre os europeus; de fato, eles preferem não ter os filhos a dar um padrão mais baixo (eu já acho que filhos sem iPhone valem mais a pena do que filhos com iPhone). Os motivos de temores das italianas citados por ele que me parecem razoáveis seriam a recolocação no mercado de trabalho e a escassez causada pela guerra. O primeiro destes problemas seria questão para legislação trabalhista, me parece. Mas injeção de dinheiro deve causar inflação de alimentos, que é ainda mais preocupante em época de guerra. E falta de comida seria, no fim das contas, o único motivo material absolutamente incontornável para europeus deixarem de ter filhos.

Os EUA acabaram com as comunidades negras dando dinheiro a mães solteiras: tornava-se financeiramente mais viável botar o marido para fora do que ter um lar estável. O resultado se vê até hoje, com a criminalidade nas alturas. Se a Itália vai fazer um programa para qualquer mulher que se torne mãe, é possível que caia em problema semelhante, já que pode ser rendoso botar uma criança no mundo sem a menor vontade de criá-la direito.

Massimo Calvi menciona os italianos consumistas que até puseram um filho no mundo, mas não são pais para esses filhos. Admira-me que ele apoie esse pagamento, já que dinheiro é tudo para consumidores e não transforma ninguém em pai ou mãe decentes.

12 maio 2022

O ativismo feminista se provou incapaz de propor qualquer ideal às mulheres comuns

 

A propaganda feminista esqueceu o trabalho como fonte de realização da mulher. Mas a campanha contra a maternidade como forma de realização pessoal continua. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo via OTambosi:


Está cada vez mais difícil fazer de conta que não vivemos num hospício a céu aberto. Eu graças a deus estou numa cidade interiorana, e os doidos que me aparecem são dos mais inofensivos. Apenas andam na calçada falando com pessoas inexistentes. Na verdade, hospício e céu aberto sejam duas coisas desejáveis em comparação ao atual estado de coisas, pois com um hospício se determina quem é doido e quem não é doido, e com céu aberto a gente fica menos suscetível a xeretar a internet e se sentir naquilo que não é um hospício a céu aberto, mas sim um local de terapia para pessoas neuroatípicas ou portadoras da condição tal. Porque agora não tem mais hospício nem doido: tem o espaço comum cheio de gente medicada. Não dá para simplesmente presumir que a pessoa diante de si seja senhora de sua própria razão; por conseguinte, não dá pra diferenciar doido de não-doido.

Vejam vocês a dama em São Paulo que resolveu imitar Frank James, o supremacista negro que saiu tiroteando no metrô de Nova Iorque. A James fêmea foi ao metrô paulistano para esfaquear homens, mirando na jugular. Como vimos, as ideias de Frank James são indistintas do jornalista médio (que é progressista). Quanto à nossa dama anônima, a polícia conta: “Quando a ouvimos, primeiro, ela negou que tinha cometido o crime. Depois, confessou informalmente que tinha cometido os dois crimes. […] Por fim, alegou que estava sendo assediada. Mas nós checamos os dois homens que ela feriu, são pessoas de bem, trabalhadoras e não possuem nenhuma conexão com ela”. Infelizmente o nome dessa senhora não veio a público. Se viesse, eu tenho certeza absoluta de que também apareceria uma intensa vida online dedicada ao ativismo feminista.

Não sabem o que querem

O fato é que o ativismo feminista se provou incapaz de propor qualquer ideal às mulheres comuns. No começo, vendia-se a ideia de que o lar era a prisão da mulher. Liberta da opressão patriarcal, a mulher poderia se realizar por meio do trabalho. Isso pode ser verdade para algumas mulheres, assim como é verdade somente para alguns homens que o trabalho é fonte de realização pessoal. Existem pintores e existem cortadores de cana. Pintura é um hobby para alguns homens. Pintar é uma profissão legal. Cortar cana não é um hobby para ninguém. Cortar cana não é uma profissão legal. Se alguém dissesse à totalidade ou à maioria dos homens que eles devem ir trabalhar para se realizarem com carreiras gloriosas, é claro que seria um mentiroso. Então por que as pessoas acharam bonito dizer isso às mulheres? Fato é que a possibilidade de se realizar como rainha do lar estava ao alcance de ricas e pobres; já o de se realizar como profissional está ao alcance de poucas. É verdade que lésbicas caminhoneiras teriam mais dificuldade em se realizar como rainhas do lar. Deixo ao critério do leitor qual é o contingente maior de mulheres no mundo: as lésbicas caminhoneiras ou as mulheres com profissões chatas e pouco remuneradas.

Ser “função cuidadora”?

A propaganda feminista esqueceu o trabalho como fonte de realização da mulher. Mas a campanha contra a maternidade como forma de realização pessoal continua. Neste dia das mães, a Folha de S. Paulo fez uma matéria intitulada “Mães solo pagam pelo próprio presente no Dia das Mães em escolas”. O termo “mãe solo”, por si só, já é de cair o queixo. Solista é o músico ou dançarino se apresenta sozinho num espetáculo. A mãe é solo porque não é duo, isto é, não faz um dueto com o pai. Consigo imaginar uma solista no palco erguendo um violino, mas não um bebê. Maternidade é algo feito para uma plateia, e não para o filho. Em resumo: ter filho serve pra se exibir em rede social.

A Folha ouve uma especialista: “Especializada na defesa dos direitos das mães, Ana Lucia Dias afirma que a ação das escolas é mais uma opressão. ‘Os presentes não costumam ser para a mulher, são sempre para a função cuidadora.’ Para ela, situações como essa mostram como a sociedade considera que, ao virar mãe, a pessoa deixa de existir como indivíduo. ‘É como se ser mãe fosse só o cuidado e não é. A gente vê nessa relação da maternidade o apagamento total da mulher’”. Daí se depreende que, caso a escola fizesse as crianças darem um vibrador no dia das mães, aí sim deixaria de ser opressão (bote no Google “vibrador empoderamento” e veja a profusão de resultados). Não sei que tipo de sociedade espera esse povo, na qual as crianças devem deixar de enxergar as mães na sua “função cuidadora” e passar a enxergá-las como mulheres, presumindo-se que as duas coisas tenham de existir separadamente. Tem que ser muito narcisista uma mãe que olhe para a criança e reclame por ser vista em sua função cuidadora. As “mães solo” ouvidas alegam que o presente foi escolhido pela escola sem nem atinar que não é um presente da escola para as mães, mas um presente que a escola ajuda as crianças a darem às mães. O dia das mães escolar é feito para a criança, não para a mãe. Na falta de um pai que ajude o filho a escolher um presente para dar para a mãe, a escola faz isso: ensina a criança a presentear a mãe. Essas narcisistas não conseguem enxergar que não estão sozinhas num palco na escola dos filhos.

Não obstante, na mesma matéria lemos que os pais “só pagam pensão”, portanto não pagam a tal taxa de dia das mães. A pensão via de regra é um terço do salário. Qualquer entendido em finanças acha má ideia gastar um terço do salário com aluguel, mas é normal punir os pais solteiros ou divorciados com a perda de um terço da renda e premiar mães solteiras ou divorciadas com um terço da renda do ex. Não bastasse isso, o pai teria que pagar o presente de dia das mães também. A Folha ouviu uma queixosa: “A advogada lembra que o pai do filho paga a pensão, e só. ‘Cuido, faço dever de casa, levo para o futebol, para os treinos, médico e escola’”. Eis que aparece a “função cuidadora” – a ser realizada pelo pai que não mora com a criança, sabe deus como.

É difícil entender o que esse povo tem em mente. É árduo trabalhar na rua e cuidar sozinha de uma criança. Se o pai pagasse a homenagem do dia das mães, ainda seria “só” dinheiro. Tudo se passa como se a maternidade consistisse em receber privilégios sociais, que vão desde poder posar de vítima (“Que horror! Recebi de meu filho de 5 anos um presente de função cuidadora!”) até abocanhar um terço da renda do ex. Ser mãe não tem nada a ver com altruísmo.

Mostrar o físico

As mulheres tradicionalmente gostavam de ser rainhas do lar; agora não pode mais. Tradicionalmente gostavam de ser bonitas. Isso pode. Mas tradicionalmente admitia-se que não é bonito sair por aí se mostrando, já que tanto a vulgaridade quanto a frivolidade não são recomendadas. Neste carnaval fora de época, pipocavam notícias como “Fulana exibe corpão assim-assado em tal lugar”. Só rosto da celebridade aparecia na imagem de divulgação. Quem estivesse interessado no assim-assado tinha que dar um clique. Clicando, tinha-se material para entretenimento adulto (masculino, frise-se) grátis.

Eu acho improvável que um ser humano consiga dar sentido à própria vida arreganhando a bunda para o público. Mesmo que consiga, poucas mulheres terão físico bom o suficiente para viver de arreganhar a bunda. Mesmo que todas as jovens estivessem bonitas – e não estão –, a exibição constante de belos peitos e bundas faria de cada jovem apenas mais uns belos peitos e bunda na vitrine virtual. Que tipo de relação profunda alguém que se enxerga como peitos e bunda pode ter? Até amizade fica difícil. Não há assunto para tratar com uma bunda ambulante.

E ainda tem o envelhecimento. É impossível ter belos peitos e bunda para ostentar à internet aos 70. Talvez seja o caso de fixar uma eutanásia pública, gratuita, de qualidade, para remediar a velhice.

Doida pra todo lado

Assim, não é de admirar que haja doida pra todo lado. Ao contrário de muitas das suas antepassadas, a mulher de hoje não deve esperar aceitação social sendo uma boa dona de casa que escolheu um bom marido e criou bons filhos. Deram-lhe a tarefa de ser uma profissional brilhante, apaixonada pela carreira – mas muitas não arranjam sequer trabalho, que dirá uma carreira apaixonante. Que sobrou? Arreganhar a bunda – mas nem todas têm uma bunda bonita para arreganhar. Aí a mulher endoida e vira militante progressista: começa a procurar sentido na vida repetindo o credo que a mídia e as agências de marketing empurram para ela.

E o pior é que o marketing é realmente invasivo. Nem quando a mulher está quieta trocando o seu modess, o marketing deixa em paz. Olhem só:


Antigamente era necessário algum grau de intimidade para soltar frases motivacionais para alguém. Hoje, é aceitável receber conselho de um objeto inanimado – logo o modess. Quem dá ouvidos a modess é mais doida que o doido que fala sozinho na calçada. A mulher então sai de casa e resolve comprar uma lata de leite condensado para fazer doce de leite na panela de pressão, já que os últimos doces de leite comprados prontos não estavam bons. Lê o rótulo porque não custa nada ver receita, e… Eis que o rótulo conta que “pudim também é terapia”. Agora é normal presumir que a mulher que faz questão de sobremesa precisa de terapia. Terapia à base de pudim, ainda por cima.

Mas é provável que as agências de marketing não estejam loucas, e loucas estejam mesmo as mulheres que acreditam nas agências de marketing e na mídia. Atenção, senhoras: se vocês fizerem muito uso de ideologias lícitas e oficialíssimas, é possível acabar igual àquela doida “de maiô branco, com uma barriga simulando uma gravidez e bonecas anexadas, representando os bebês que estava abortando [e] gritava […] ‘Ajude-me a abortar meus bebês’ […], dançando em volta da igreja”.



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