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12 março 2025

Nas diferenças entre 'Pretty Woman' e 'Anora' está a história do nosso tempo

 

As lágrimas de felicidade de Julia Roberts são hoje as lágrimas amargas de Anora. João Pereira Coutinho para a FSP:



O cinema é o melhor termômetro do nosso tempo. Em 1990, havia uma Julia Roberts nas ruas de Hollywood, captando a atenção de Richard Gere.

Roberts, no papel de prostituta, era contratada por Gere, no papel de milionário. Só para o acompanhar socialmente. O rapaz, coitado, não queria confusões sentimentais. Não preciso contar o resto, mas conto na mesma: em "Pretty Woman", ambos se apaixonavam mutuamente e, apesar das diferenças sociais, acabavam juntos. O ano de 1990 permitia esses finais felizes e os lábios de Julia Roberts eram uma promessa de eternidade.

Passaram-se 35 anos. Em "Anora", a garota de serviço também conhece um milionário. Mas as lágrimas de felicidade em "Pretty Woman" são agora lágrimas amargas e desamparadas em "Anora". Cinderela não terá direito ao seu príncipe.

Eis, no fundo, a diferença entre o mundo unipolar de ontem e o mundo multipolar de hoje. Os conceitos, em rigor, descrevem a distribuição de poder no sistema internacional. Mas descrevem mais: a diferença entre a previsibilidade e o caos.

Em 1990, o mundo parecia previsível: a Guerra Fria acabara e as democracias liberais cantavam vitória. Francis Fukuyama, com insensato otimismo, afirmava até que a história tinha chegado ao fim.

A proposta liberal, bem vistas as coisas, tinha derrotado os seus inimigos históricos: o absolutismo, primeiro, o fascismo, depois, e finalmente o comunismo, com a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética.

Sim, os fanatismos religiosos e algum nacionalismo ressentido continuariam a fazer cócegas, concedia Fukuyama. Mas o jihadismo islamita estava longe e não era exemplo para ninguém. Nem o jihadismo, nem o nacionalismo russo, que rapidamente se entregaria às virtudes do mercado livre (como a China, profetizava o nosso Francis).

Não aconteceu. O jihadismo, que se julgava longe, apareceu em Nova York numa manhã de setembro. O "fim da história" começou a rachar. A crise financeira de 2008, com epicentro na mesma cidade, deu outro golpe no otimismo liberal, ou talvez neoliberal.

Já sobre os russos, parece que o capitalismo não preencheu certas necessidades imperiais: a invasão da Crimeia, em 2014, e do leste da Ucrânia, em 2022, enterraram de vez o "fim da história".

Donald Trump é apenas o coveiro de um cadáver que fedia. O mundo multipolar, com várias potências em competição, é o sonho por que muitos esperavam. Aí está ele. Pena que esse sonho não seja original.

O mundo já foi multipolar há mais de cem anos. Na virada do século 19 para o 20, a Alemanha e a Inglaterra, a França e a Rússia, todas levavam a peito a lição bastarda do darwinismo bastardo: as nações são organismos vivos na luta pela sobrevivência.

E como manter esses organismos vivos?

Pela conquista territorial, claro, e pela supremacia militar. Essa história, se bem me lembro, também não teve um final feliz.

Será diferente agora, com os Estados Unidos, a China e a Rússia a reclamarem as suas "zonas de influência" nas Américas, no Pacífico e na Europa, respectivamente?

Aliás, para facilitar as coisas, retiremos a Rússia, uma potência de segunda categoria, do campeonato dos grandes. Até que ponto os Estados Unidos e a China estão condenados à "armadilha de Tucídides" de que falava o historiador Graham Allison?

Na Guerra do Peloponeso, Tucídides explicava o conflito entre Atenas e Esparta pelo fato de os espartanos terem sentido temor com a ascensão econômica, militar e política dos atenienses. A guerra foi inevitável.

Historicamente, argumentava Graham Allison, foi quase sempre assim quando uma potência dominante se sentiu ameaçada por uma potência emergente.

Na Guerra dos Cem Anos, a Inglaterra tentou destronar a França. Nas guerras napoleônicas, Bonaparte tentou destronar a Inglaterra. Na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha imperial tentou destronar a Inglaterra e a França. Na Segunda Guerra Mundial, novamente a Alemanha e novamente a Inglaterra e a França.

Haverá uma cláusula de exceção para os Estados Unidos e para a China? Ou a "armadilha de Tucídides" também aguarda por esses dois mamutes?

O século 21 será definido pela resposta a essa pergunta.

Eu, mais modestamente, sinto uma vontade nostálgica de ficar na última década do século 20, quando o mundo unipolar oferecia Julia Roberts às massas.

Aquele riso insolente. Aqueles cabelos longos, ruivos, revoltos. Aquela promessa kitsch, porém calorosa, de que tudo era possível, mesmo o impossível.

Parafraseando Proust, deixemos o realismo feio dos nossos dias para os homens sem imaginação.



07 janeiro 2024

Homens casam com mulheres-troféu, mas preferem as mães delas


 


Para Balzac, aos 40 ou 50 anos as mulheres estão no topo da existência. João Pereira Coutinho para a FSP:


O problema com o filme "Uma Ideia de Você", disse uma amiga beirando os 45 anos, é que Anne Hathaway não é exemplo para ninguém.

Linda de morrer em qualquer idade. Não são apenas os rapazes de 24 anos, como o galã do filme, que gostariam de conhecê-la biblicamente. São os de 24, 34, 44, 54, 64 etc. etc. Até chegarmos aos 104.

Na "vida real", para usar essa expressão cafona, o etarismo existe – e as mulheres, a partir de uma certa idade, tornam-se invisíveis para Cupido, concluiu ela.

Discordo vigorosamente, mas também não sou um bom exemplo. Você já assistiu ao filme "A Primeira Noite de um Homem" (1967), de Mike Nichols? Pois bem: o mundo se divide entre fãs da sra. Robinson e fãs da filha da sra. Robinson.

No filme, o personagem de Dustin Hoffman abandona a mãe para ficar com a filha. A mãe, no filme, era Anne Bancroft, próxima dos 40 anos. Preciso dizer mais?

Aliás, não é preciso ser tão erudito em matéria cinematográfica. Podemos descer às catacumbas do desejo: todos os anos, os sites para adultos divulgam os termos mais pesquisados nos motores de busca. "MILF", "cougar", "stepmom" ou "mature" estão no topo das preferências masculinas.

Você, leitor homem, não sabe o que significam esses termos? Sério? Eu também não — e meu nariz cresceu meio metro.

Eis minha teoria: todo mundo mente. Em público, os idiotas dos homens, sobretudo na meia-idade, podem babar com donzelas acabadas de sair da adolescência. Até casam com elas, para exibir como troféu.

Em privado, preferem as mães das mulheres-troféu.

Mas o que têm as mulheres mais velhas de especial?

Depende a quem você pergunta. Segundo o dr. Freud, os homens veem nelas uma mera substituição do amor primordial, incondicional e materno que tiveram na infância. Há uma pulsão incestuosa nesse fascínio.

Com todo respeito pelo velho Sigmund, prefiro Honoré de Balzac. Li "A Mulher de Trinta Anos" quando teria metade dessa idade e nunca mais deixei de pensar em Julie d'Aiglemont.

Na novela, Julie segue as ilusões da juventude e casa com um imbecil, contra os conselhos do pai. As ilusões passam depressa e Julie, mortificada pela vida que leva, se transforma na mulher de 30 anos do título: ainda bela, mas sobretudo desperta.

Explica Balzac: é aos 30 anos, que hoje equivalem aos 40 ou 50, que as mulheres estão no seu "cume poético". Que significa isso?

Significa que é aos 40 ou 50 que as mulheres estão no topo da existência, podendo contemplar todo o passado e todo o futuro com a segurança e a clareza que não tinham aos 20.

Moldadas pela vida e pela experiência, são dotadas de uma autonomia e de um mistério que é irresistível para qualquer mancebo que ainda está no princípio da subida.

Como escrevia Balzac sobre Julie, havia nela indecisões, temores, perturbações e tempestades que estão interditos a uma donzela.

A mulher de 40 ou 50 anos dispõe de uma tela mais ampla, de uma paleta mais colorida, sendo capaz de representar todos os papéis precisamente porque os conhece. A mulher de 40 ou 50 anos não é samba de uma nota só.

"A mulher experiente parece dar mais do que a si própria", escreveu Balzac. Frase fulminante de tão bela, que me ficou gravada na memória quando a li pela primeira vez. E que procurei, por todos os meios, confirmar mais tarde. Confirmei.

O filme "A Ideia de Você" não é Balzac. Aliás, o roteiro é bem pobre nos diálogos e só se salva pela presença de Anne Hathaway, uma perfeita balzaquiana que até tem nome francês (Solène). Fato: neste mundo, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Como a Julie de Balzac, Solène também teve suas ilusões e desgostos. Aprendeu com ambos: o à-vontade com que habita a própria pele é uma coisa maravilhosa de ver.

E aos 40 anos recebe um novo amor (ou será um amor novo?) com a sabedoria que só uma mulher madura pode ter, mesmo em suas fragilidades e sacrifícios. Como resistir a isso?

Não resistindo – e o rapaz, apesar de ser uma estrela pop e com legiões de fãs a seus pés, percebe de imediato que está na presença de uma mulher real.

Não conto o fim, claro, exceto para lembrar que mulheres reais são difíceis de encontrar. E, uma vez encontradas, difíceis de largar.

21 abril 2023

Será crime um branco não ter amigos negros para mostrar? - JOÃO PEREIRA COUTINHO


FOLHA DE SP - 09/08

Ah, a experiência! Os colunistas são como certos cachorros de caça. A presa ainda não apareceu no horizonte. Mas os nossos caninos já estão espumando de excitação.

Exemplo: dias atrás, li uma excelente entrevista de Jonathan Franzen à "Slate". Gosto de Franzen. Conheci-o pela primeira vez em 2002, talvez 2003, em livro de ensaios que recomendo ("Como Ficar Sozinho", Companhia das Letras). Depois, provei os romances. Também recomendo, embora "As Correções" (Companhia das Letras) me pareça bem melhor que os seguintes.

Mas regresso à entrevista. E aos meus caninos. A certa altura, o entrevistador pergunta a Franzen se ele nunca pensou em escrever um romance sobre os conflitos raciais que correm pelos Estados Unidos. A pergunta é absurda: um escritor não tem que escrever sobre os temas que interessam ao entrevistador –e isso revela a decadência cultural do jornalismo contemporâneo.

Franzen escutou a pergunta, meditou e finalmente respondeu, embaraçado: "Não tenho muitos amigos negros", um eufemismo para dizer que não tem nenhum. E depois, com honestidade, concluiu: só devemos escrever sobre realidades que conhecemos bem.

Terminei essa parte da entrevista com duas perguntas a balançar no trapézio.

A primeira foi questionar se também eu tenho amigos negros. Não tenho. Existem conhecidos, colegas, amigos de amigos. Mas não tenho no portfólio um exemplar para mostrar. Razões?

Nenhuma em especial. Nunca aconteceu. O destino, nessas matérias, tem uma palavra importante. E, além disso, eu ainda respeito o significado profundo da palavra "amigo". São três ou quatro e ponto final. Por acaso, todos brancos.

Mas a segunda pergunta é mais relevante que a primeira e foi ela que despertou o meu faro: depois da confissão de Franzen, esperei pelas críticas das brigadas. Que logo surgiram, para confirmarem o meu instinto.

No inglês "The Guardian", a escritora Lindy West resumiu o estado da arte: Franzen faz parte da esmagadora maioria de americanos brancos (75%, segundo um estudo do Public Religion Research Institute) que não tem amigos de outras raças. Franzen seria, na linguagem erudita de West, um caso de "auto-segregação": um escritor que se esconde na sua bolha de privilégio e que nunca mostrou interesse em ter amigos negros.

Ponto prévio: se a cifra está correta (75% de brancos sem amigos de outras raças), é óbvio que existem dois planetas distintos nos Estados Unidos quando os negros representam 12% da população (estimativa conservadora).

A pobreza tem aqui a palavra central, admito: nas nossas vidas cotidianas, tendemos a cultivar "relações de classe". Se os brancos são mais afluentes que os negros, é normal que os brancos tenham amigos brancos.

Por outro lado, já não será tão normal viver em grandes cidades –como Nova York, Chicago ou Los Angeles– sem amigos negros que habitam a mesma classe média. Mas será que isso constitui um crime? Ou, pelo menos, uma falha de caráter?

A escritora acredita que sim. E, na sua cabeça pequena, não lhe ocorre a possibilidade singela de Franzen não ter amigos negros porque nunca os encontrou.

Para Lindy West, a raiz do desencontro está na pigmentação da pele; mas como excluir, com dogmatismo infantil, a importância das afinidades culturais, dos interesses comuns ou até dos acasos biográficos ou geográficos?

Finalmente, e em verdadeira paródia ao conceito de "amizade", Lindy West questiona por que motivo Franzen não faz um esforço para procurar amigos negros. "Amizade", para ela, é uma espécie de jardim zoológico privado onde temos o amigo negro na jaula 1; o asiático na jaula 2; o hispânico na jaula 3; o samoano na jaula 4; e, já agora, o índio na jaula 5. Parafraseando os existencialistas, a aparência precede a essência.

É um caminho. Claro que esse conceito de amizade também pode ser problemático: se a ONU tem 193 Estados membros, uma amizade verdadeiramente inclusiva deve transcender as fronteiras do país e abraçar o mundo inteiro. Ou somos cosmopolitas, ou não somos nada.

Prometo que vou fazer um esforço: amanhã começo na letra A – com um amigo afegão– e só descanso quando chegar ao Zimbábue.



08 junho 2021

A intolerância perante a intolerância transformou nazistas em celebridades

 

Defender a liberdade de expressão é impedir que as melhores intenções abram a porta aos piores intencionados. João Pereira Coutinho via FSP por OTambosi



Nos debates sobre a liberdade de expressão, há sempre um sábio que cita a Alemanha nazista. Raciocínio do sábio: se a Alemanha tivesse leis que banissem discursos de ódio, jamais os nazistas teriam tido a chance para espalharem as suas mensagens sinistras. A conclusão do sábio é muito simples: os nazistas subiram ao poder porque a tolerância perante a intolerância cavou sua própria sepultura.

É um pensamento interessante, que só peca por ser historicamente errado. A República de Weimar proibia o “discurso de ódio”, para usar a expressão da moda. E vários nazistas famosos, como Joseph Goebbels, foram processados por proclamações antissemitas. Mais: quando olhamos para o jornal nazista Der Stürmer, ele foi repetidamente confiscado pelas autoridades. O seu editor, Julius Streicher, foi duas vezes preso. Resultado? O partido nazista, um grupelho desprezível em inícios da década de 1920, foi ficando cada vez mais célebre por causa desses processos. Quando a Grande Depressão chegou, Hitler e seu gangue estavam prontos para subir no palco. Se existe uma moral nessa história, não é que a tolerância perante a intolerância acabou com a democracia.

Paradoxalmente, a lição é outra: a intolerância perante a intolerância fez com que os nazistas se tornassem célebres – e, aos olhos de certos marginais como eles, vítimas da perseguição política. Eis uma das histórias que Andrew Doyle relembra no seu Free Speech and Why it Matters: o tempo censório em que vivemos acredita que, pela supressão de certas ideias (nas universidades, nos jornais, na internet etc.), os seus autores serão devolvidos ao esquecimento. Fatalmente, o que acontece é a consagração desses autores, que se transformam em vítimas – ou melhor, em mártires da liberdade de expressão.

Mas o ensaio de Doyle, um dos mais inteligentes que li sobre a matéria, oferece outras lições aos novos censores. Sobretudo aos que acreditam que pela punição do discurso livre será possível defender os direitos de certos grupos ou minorias. Perante essa fantasia, o autor formula a questão fatal: será que os direitos das minorias, hoje, são melhor defendidos em países que restringem a liberdade de expressão? Ou, pelo contrário, esses direitos são melhor preservados em regimes que levam a sério a liberdade de expressão?

Pessoalmente, tenho poucas dúvidas: ser transexual nos Estados Unidos, onde existe a Primeira Emenda, é mil vezes preferível a ser trans no Irã ou na Arábia Saudita. Mas o ponto não é só empírico, é também histórico: foi a liberdade de expressão que deu visibilidade e legitimidade à luta pelos direitos das minorias. Se essa liberdade não existisse, não haveria visibilidade, nem legitimidade, nem sequer direitos para ninguém.

É possível argumentar que certas formas de discurso podem ofender e até violentar sensibilidades diversas. Casos de difamação, calúnia ou incitamento à violência podem e devem ser sancionados pela lei. O que não é possível nem legítimo é atribuir ao Estado a capacidade de suprimir certas ideias ou opiniões simplesmente porque alguém, algures, as considera repugnantes e uma fonte de desconforto ou sofrimento.

Em primeiro lugar, pessoas diferentes tendem a sentir repugnância, e desconforto, e até sofrimento por coisas diferentes. Para usar o exemplo paródico de Andrew Doyle, eu todos os anos sinto repugnância, desconforto e até sofrimento na hora de pagar impostos (não é paródia, não, é verdade). Mas isso não me dá o direito de bombardear o Ministério da Economia ou de sequestrar o ministro. O mundo, na sua vasta imperfeição, não existe para me fazer as vontades.

Por outro lado, confiar a um governo uma espécie de política de gosto sobre o que pode ser dito ou escrito na arena pública parte sempre do pressuposto otimista de que as causas do momento, como a justiça social ou a política de identidade, serão eternas. Podem não ser. E, uma vez oferecida a chave da repressão legal, futuros governos podem encontrar novos e imprevistos alvos. Um exemplo, bem lembrado por Andrew Doyle: em 1936, o Partido Trabalhista britânico fez aprovar legislação para proibir as marchas fascistas de Oswald Mosley. Na década de 1980, Margaret Thatcher usou essa mesma legislação para prender os mineiros em greve. Moral da história? Defender a liberdade de expressão é, antes de tudo, impedir que as melhores intenções abram a porta aos piores intencionados.



08 agosto 2016

Jogos Olímpicos Gay? - JOÃO PEREIRA COUTINHO


Folha de São Paulo, 14/01/2013

Acontece com arrepiante regularidade: entro numa livraria da Europa, vou farejando os livros disponíveis e encontro uma estante com "Literatura Gay". Mas o que será "Literatura Gay"?

Os livros respondem: é Oscar Wilde, Virginia Woolf, Truman Capote e dezenas, ou centenas, de outros autores cujos hábitos privados eu desconhecia. Mas que, pelos vistos, definem a identidade de uma obra.

A situação mais absurda aconteceu há uns anos, em Paris, quando perguntei pelos diários de André Gide publicados pela 'Pléiade'. Na minha ingenuidade, eu tinha procurado Gide entre os autores franceses.

A moça da livraria riu da minha inocência e, com olhar de desdém, informou-me que Gide estava na secção da "Literatura Gay". Logo a seguir a "Genet, Jean" e antes de "Proust, Marcel".

Existem duas formas de lidar com o problema. A primeira, mais imediata, é dinamitar uma livraria que comete aberrações destas.

A segunda, mais ponderada, é esclarecer com infinita paciência que a literatura não tem orientação sexual. Nem raça, nem credo, nem sequer "ideologia".

Oscar Wilde não é um escritor gay. É um escritor. James Baldwin não é um escritor negro (e gay). É um escritor. Evelyn Waugh não é um escritor católico. É um escritor. Céline não é um escritor fascista. É um escritor.

Claro que, na obra de cada um deles, as crenças pessoais e as práticas privadas podem encontrar tratamento literário superior. Mas é como literatura que cada um deles deve ser julgado - e classificado.

É tão absurdo encerrar um escritor nas estantes da "Literatura Gay" como, sei lá, definir Toulouse-Lautrec como um dos principais artistas na História da Arte Anã. Ou Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho de Minas, como um importante escultor na História da Arte Deficiente.

Valorizar uma obra, qualquer que ela seja, com a causa politicamente correta do momento, não é apenas um sintoma de analfabetismo. É um ato de vandalismo cultural.

E se assim é com a literatura, assim será com o desporto. Leio no "The Sunday Times" que Amsterdã, Londres e o Rio de Janeiro disputam uma vaga para organizarem os Jogos Olímpicos Gay em 2018.

Londres leva claríssima vantagem porque o "mayor" Boris Johnson, que eu tinha em boa conta, promete ceder o estádio Olímpico da cidade e outros equipamentos desportivos para que os atletas gays possam disputar as suas medalhas gay nas modalidades gay que fazem parte dos jogos gay.

Com a provável exceção da marcha atlética, eu não conheço nenhuma modalidade visivelmente gay. Não sei o que é o futebol gay, o boxe gay, a natação gay, o xadrez gay ou, minha nossa, o rodeio gay (palavra de honra).

Aliás, por falar em rodeio gay: será que o touro e o "cowboy" devem partilhar ambos a mesma orientação sexual para estarem em sintonia com o espírito da competição? Mistério.
Mistério e, já agora, um delírio que seria intolerável se alguém propusesse Jogos Olímpicos Heterossexuais. Ou Jogos Olímpicos Brancos. Ou Jogos Olímpicos Católicos, ou Judeus, ou Muçulmanos.

O que não deixa de ser irônico: em nome da igualdade, as patrulhas do "Orgulho Gay" defendem uma clamorosa forma de desigualdade. Em teoria, cultivam uma retórica de integração - e até aceitam a participação de qualquer sujeito nos jogos, independentemente da sua orientação sexual. Na prática, promovem na titulatura um tratamento distintivo muito próximo da segregação.

Combater o "preconceito" não passa por erguer novas bandeiras de singularidade. Pelo contrário: passa por derrubar as que existem, eliminando o adjetivo que acompanha o substantivo (obrigado, Gore Vidal).

Não há escritores gay. Há escritores. Não há atletas gay. Há atletas. Se o sujeito não apresenta nenhuma deficiência física ou mental, só deveriam existir uns Jogos Olímpicos para ele.
Quais? Os Jogos Olímpicos de toda a gente.



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